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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

UM VOO ATRIBULADO DE SANTA EULÁLIA PARA LUANDA

AR de Santa Eulália - Norte de Angola

Em finais de Março de 1970 terminei o destacamento de quase cinco meses em Santa Eulália.
Ansioso por regressar a Luanda para beber umas Cucas e dar uns mergulhos na praia da Barracuda, passava os dias atento a qualquer avião que aterrasse pronto para “cravar” uma boleia.
Depois de uma ou duas negas lá apareceu ao terceiro dia, por volta da hora do almoço, um Auster vulgo “Teco-Teco” e assim chamado por ser uma "avioneta" com aspecto muito frágil. Torci o nariz e resolvi não pedir a boleia. 
Chegada a hora do almoço fui-me aproximando da messe. O meu nariz não me enganava, nesse dia era frango de churrasco com piri-piri e batata frita. A meio do almoço, Já tinha marchado um naco de frango e estava a preparar-me para abocanhar outro quando reparei que o piloto do Teco também estava noutra mesa a almoçar e em amena cavaqueira com o tenente – de que não consigo recordar o nome - comandante do destacamento. Em dado momento os nossos olhares cruzaram-se e vejo-o com ar sorridente fazer com o polegar o sinal de ok! Correspondi estranhando a atitude, mas como o frango estava cinco estrelas, a coisa passou. Terminado o almoço fui para o bar beber o café e uma aguardente Mosca, muito em voga na altura.
Ainda não tinha acabado de “emborcar” a aguardente, quando se aproxima de mim o piloto com um ar todo prazenteiro e diz-me que o comandante o informara que eu precisava de boleia para Luanda.
Apanhado de surpresa, gaguejei mas lá disse que sim, tendo ele de imediato dito que iria para Luanda daí a pouco e que tinha boleia se quisesse, ressalvando que teríamos primeiro de sobrevoar uma zona junto dos Dembos. para distribuir propaganda da psico e depois teríamos de ir à Fazenda Maria Fernanda fazer a evacuação de um militar do exército que tinha dado um tiro no pé.
Sem querer dar parte de fraco, mas apreensivo - o ar dele não me inspirou confiança - aceitei a boleia e fui buscar o saco. Ia a caminho do posto de rádio – onde dormia e tinha a roupa - quando me segredaram que o piloto era um novato naquelas andanças e que tinha entrado há muito pouco tempo para a FAV (Força Aérea Voluntária) e ao que se sabia aquele era o segundo ou terceiro voo dele. Percebi a sacanagem e mais de pé atrás fiquei, mas especialista que se prezasse não podia ter medo de andar de avião, pensei eu. E lá fui placa fora até ao Teco que nunca me pareceu tão frágil como naquele momento. Ao sentar-me no avião fiquei todo enclinado para trás e só via o céu. Isto porque tinha de ter os pés sobre um monte de propaganda da dita acção psico-social que quase ficava com os joelhos na barriga. 
Começámos a rolar na pista para a descolagem e ao passarmos frente à torre de controle vejo a “maltinha” com grande ar de gozo, a acenar-me com lenços e a dizerem-me adeus. Ainda estava a olhar para aquele espectáculo quando o avião descreve abruptamente uma volta apertada à esquerda, a pouca altitude e por pouco não entrámos em perda.
Comecei a olhar desconfiado para o piloto que ia agarrado ao manche como um náufrago a uma bóia de salvação e optei por olhar para o lado e imaginar o que iria fazer quando chegasse a Luanda. Não tive tempo para imaginar o que quer que fosse... No horizonte desenhavam-se umas nuvens negras que pareciam formar um muro inultrapassável. Questionei o piloto se nos íamos meter naquele sarilho ou voltávamos para trás. Respondeu-me que não havia problema que aquilo não era nada!
Assim sendo lá fomos direitos ao “muro” e o que se passou foi indescritível. O avião começou aos solavancos e a andar de lado por força da turbulência e de repente ficou tudo escuro à nossa volta.A chuva tinha uma intensidade tal, que as portas de tela do avião estremeciam dando a impressão que queriam ir para outras paragens, e a água entrava sem pedir licença! A bússola girava estilo ventoinha e o altímetro subia e descia mais parecendo que andávamos na montanha russa...
Não sei quanto tempo demorou a atravessar a tempestade, mas para mim foi uma eternidade. Sei que quando saímos daquelas nuvens negras e começámos a voar por entre farrapos de nuvens, não estávamos muito longe do solo e o piloto estava branco como a cal! Respirei fundo e agradeci a todos os santinhos por ter escapado daquela embrulhada. Mais uns minutos de voo e decidiu-se que era por ali que largaríamos a propaganda.
Outra aventura! Ao largarmos a propaganda os panfletos começaram a bater na cauda e no leme de direcção porque não respeitámos a técnica de enrolá-los uns nos outros, atirando-os depois no sentido da roda, em vez de atirá-los à balda pela janela! Demos com a marosca a tempo e horas senão podíamos ter arranjado uma dor de cabeça... Mas lá nos safámos com mais calafrio menos calafrio e rumámos à fazenda Maria Fernanda onde íamos evacuar o tal soldado.
Na aproximação à pista tão depressa via o morro como via a pista, subíamos e descíamos como se estivéssemos no cimo de uma onda, a dúvida residia em saber se acertaríamos na pista ou no morro! Lá se acertou na pista e fomos aos saltos até o Teco parar. Saltei do Teco para fumar um cigarro e pensar na puta de viagem que me tinha saído na rifa! Ainda não tinha acabado de dar a última passa quando vejo sair dum jeep um soldado a coxear e com ar de quem seguramente não batia bem da bola. Ainda o estava a mirar quando vi tirar do mesmo jeep uma caixa com abacaxis – uns sete ou oito – e pedirem ao piloto se os podia levar pois estaria alguém na placa para os receber, até porque eram para um oficial da BA9. O piloto anuiu contrariado - já começava a ver o Teco muito pesado - e vai de carregar os abacaxis e embarcar o soldado.
Tomei o meu lugar e ao olhar para trás vejo o soldado de olhos esbugalhados, agarrado aos banco do piloto e a tagarelar qualquer coisa entre nós que eu não entendia. Pensei logo para com os meus botões que o tipo era meio doido e se já tinha dado um tiro num pé, também era menino para se agarrar ao pescoço do piloto e “espetar” com o Teco por ali abaixo. Durante a descolagem que nunca mais o era, a ideia não me saía da cabeça e quanto mais altitude o Teco ganhava mais eu me enervava... Às duas por três dei-lhe um berro e disse-lhe para soltar os bancos e encostar-se para trás.
A resposta foi um grunhido mas lá se encostou. O voo foi curto e quando vi o mar respirei fundo pois sabia que estava muito próximo da BA9. Aterrámos sem problemas de maior e o piloto dirigiu o Teco para a placa onde ficavam os DO’s, Auster etc., não muito longe da minha camarata. Não vimos ninguém à nossa espera para receber o soldado nem os abacaxis. O soldado perguntou-me onde era a porta de armas e a coxear seguiu caminho, ficando eu a fazer companhia ao piloto. Passado um bocado virou-se para mim e sugeriu que o melhor era deixar os abacaxis no Teco e ele avisaria o oficial de dia.
Chegado à camarata contei ao Valente (Fred), um OPC de 68 e meu grande amigo, a história dos abacaxis. Logo ali ele aventou a hipótese de lhes darmos a “palmada”.
Depois do jantar fizemos um RVIS – reporte visual – e constatámos que os abacaxis ainda lá estavam à nossa espera.
Fomos para a camarata fazer tempo e passado uma ou duas horas lá fizemos o “golpe de mão”. Carregámos os abacaxis para a sala de ensaio do grupo musical da base, onde o Fred e o Luís Canhão tocavam, e que por sinal se chamava “Os Tecos”. 
No dia seguinte comemos os abacaxis como quem come melão às fatias. Não foram precisas muitas horas para ficarmos todos com a boca inchada e bolhas nos lábios. Andei acagaçado durante uns dias porque se constou que um oficial andava a fazer perguntas no Bar de Especialistas, sobre uns abacaxis que tinham desaparecido de dentro de um Auster, mas felizmente ninguém fez muitas ondas e o assunto ficou por ali, encerrando-se deste modo a minha atribulada viagem.

Por:


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

RECORDANDO O CUITO

Lá ao fundo, o rio Cuito - foto de Gonçalo de Carvalho

Estive no Cuito Cuanavale em Maio, Junho e, Julho de 1973.  Recordo, que foi a região do leste de Angola que mais me "tocou". Parecia-me, com o rio Cuito ao pé, que regressava à infância no Rio Ave, tal eu via algumas coisas semelhantes. 
Outro pescador, o Antonio Neves
Recordo, neste período, que fui um dia pescar junto à curva do rio Cuito, aí a uns 25 metros, havia uma praia natural repleta de habitantes locais. A cana de pesca era emprestada pelos "Primos". A primeira vez que lancei a linha ao rio senti um enorme puxão, que me levou quase tudo. 
Recordo, pensar se não teria sido algum jacaré? É verdade!
Depois repeti e, pesquei alguns peixes com cerca de 2 Kg cada. 
Entreguei alguns a quem estava por ali, mas 4 deles trouxe para o destacamento onde os cortei às postinhas e, com sal fritei. Foi a delícia dos meus companheiros habituados que estava-mos a carne de caça. 
Recordo, que estava comigo o Tomás MMA, entre outros..
A caminho do rio - foto de Afonso Palma

Recordo, também, que certo dia andava toda a gente à minha procura, estava ausente há várias horas, tinha ido ao rádio farol fazer uma reparação e, levei com uma descarga de 1920 volts! (recordo a voltagem por causa da aguardente velha 1920), que me projectou contra à parede do rádio farol e, ali fiquei algumas horas inconsciente, entrou-me pela mão esquerda e saiu pelo braço direito.De resto, foi do Cuito do Cuanavale a região que mais gostei.Finalmente, foi nesta altura, Maio de 73, que por ali passou parte da CCAÇ.3441, com quem  antes estive em N’Riquinha, em trânsito para os arredores de Luanda–Mabubas (sei hoje).


Um abraço meus Amigos.





sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O ENJOO DO SEGURANÇA

Carlos Sequeira voando no leste de Angola
Já depois do 25 de Abril, também tive a minha "viagem atribulada", onde me aconteceu o seguinte; estando eu a fazer um transporte de pessoal da UNITA, do Massive  para o Luso, transportando o Jonas M. Savimbi e o N'zau Puna, seu comandante em chefe, acompanhado pelo Costa MMA, com o qual tenho algumas missões e peripécias que ele pode contar se assim o quiser. 
Trazíamos também a guarda pessoal dos dignitários, estes vinham no banco de trás e um deles vinha mesmo agarrado à minha cadeira! A viagem era à volta de 50 minutos. Habitualmente já saíamos tarde do Massive porque eu, como "gringo" facilitava nos ATDs, eles pediam sempre para ficar mais um pouco, ou porque faltava fazer qualquer coisa, ou porque era preciso falar com alguém que ainda não tinha chegado, enfim, à boa maneira Africana, que eu até compreendia e não me fazia rogado. 
Noite fechada, uma Lua cheia iluminava a chana como só em África. A descolagem às 19h30 foi feita na calmaria de uma noite tranquila e por nossa conta. 
Jonas Savimbi
O segurança que viajava atrás de mim ia agarrado à minha cadeira com as duas mãos, pensando eu que ele ia fascinado com as luzes avermelhadas da instrumentação do Alouette III, que diga-se de passagem, parecia a "boite" do Pica-Pau ou "Pica-Notas", como queiram. Mas, afinal ele vinha era com um cagaço daqueles, era a primeira vez que andava pendurado e ainda por cima de noite!!! Indisposto, sem alternativa manda a carga ao mar para a frente e quem lhe serviu de babete foi a gola do meu fato de voo, servindo as minhas costas de saco de enjoo. Começo por sentir um liquido quente e as bolas de "funji", que havia comido a descerem pelas costas e de seguida aquele cheiro a azedo perfumado. Lá tive que me aguentar até ao Luso, dizendo ao Costa pelo rádio, o que me estava a acontecer...ficando entre nós o sucedido, pois o coitado se fosse denunciado era capaz de pagar caro...para exemplo!


Grande abraço.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

VIAGEM ATRIBULADA

Acabada a recruta em Abril de 1970, o curso de Operador de Comunicações e depois de Cifra, a meu pedido fui colocado na BA3 no dia 26 de Março de 1971, quinze dias após o atentado ao hangar Norte, perpetrado por um comando da ARA, (Acção Revolucionária Armada) organização clandestina afecta ao PCP, executada por (Carlos Coutinho, jornalista, Ângelo de Sousa, bancário e António Eusébio, estucador) com a ajuda interna do Aluno Piloto Ângelo de Sousa.
O ambiente era de cortar à faca, e a pressão exercida pelas chefias, tornava cada jornada de trabalho num constante sobressalto.
Ainda soldado aluno, e pela mobilização do 2º. Sargento que era responsável pelo serviço, como era o único "credenciado" fazia o serviço da cifra e no final do dia sempre que podia pirava-me para casa. Como era o que morava mais perto, sempre que havia serviço muito urgente, o oficial de dia mandava-me buscar e assim o serviço estava sempre garantido. Era uma situação de excepção, incompreendida e pouco tolerada pelos oficiais de dia que achavam que eu como soldado aluno era um privilegiado, mas como "negociado" com o Comando da Base, eu garantia o serviço 365 dias por ano, mas tinha o direito de ir a casa como qualquer outro militar e a forma encontrada era essa, chegava a casa e se tinha que ir a algum lado, deixava o contacto e a viatura apanhava-me lá. 
Outra das particularidades da BA3, era ter que cifrar/decifrar, o serviço do RCP, e por vezes quando este apertava tinha que me deslocar fora de horas ao Regimento para o entregar pessoalmente, normalmente ao oficial de dia. Se o serviço era entregue antes do jantar, o transporte que me levava, trazia os binómios cinotécnicos, (tradução) os Paras com os respectivos cães que faziam a segurança dos hangares desde o atentado.
BA3 Tancos
Sempre manifestei oposição ao transporte misto de homens e cães em veículos que não estavam preparados, (geralmente jeeps Land Rover) para a coexistência pacífica entre humanos e cães treinados para os atacar, e as minhas reclamações nunca obtiveram acolhimento até à noite em que pelas piores razões elas me deram razão.
Após decifrar várias mensagens para o BCP desloquei-me ao Regimento e entreguei-as ao Oficial de Dia, quando me preparava para regressar à BA3, fui pressionado para transportar os Soldados e os cães, fiz ver ao Capitão que o jeep era demasiado pequeno para o transporte, e a resposta foi a de que: "se me sentia apertado que fosse a pé, não tinha nenhum transporte e aquele servia perfeitamente". Esperei pacientemente pelos Soldados e pelos cães e quando os vi, três bichos enormes, pensei para comigo, é desta, para quebrar o gelo ainda perguntei se os bichos já tinham jantado, e os soldados olharam uns para os outros, e um deles respondeu contrafeito, os cães só comem uma vez por dia, respondi-lhes: espero que lhes tenham dado o suficiente... Obriguei dois dos soldados a sentarem-se atrás de nós e a colocarem os cães depois, não me apetecia levar uma dentada de um bicho daqueles, arrancámos, saímos do Regimento passando pela Porta de Armas e virando à esquerda, depois no desvio para a Base á direita, fui travando o Cabo Condutor, vai devagar que se isto der merda quero saltar imediatamente daqui, a noite estava escura como breu e uma névoa vinda do rio dificultava ainda mais a visão, os faróis iluminavam praticamente dez metros do alcatrão à nossa frente, o caminho era curto e com poucas curvas, excepção feita a uma em gancho á direita no final da pista, depois do acesso aos paióis perdidos na floresta de pinheiros que circundavam as instalações militares. A meio da curva, surgiu um veículo agrícola sem luz e quase em contramão, o condutor guinou para a berma, entrou na valeta e andámos aos tombos até ele conseguir segurar o jeep, com os baldões os cães foram atirados uns contra os outros e começaram a lutar entre si, com os tratadores a tentarem separá-los, saltei do jeep antes dele se ter imobilizado, e desatei a correr estrada fora tentando abrir a maior distância possível entre mim e a bicharada enquanto ouvia os gritos dos tratadores e o latido dos cães, depois de tudo calmo, fui o único que não foi mordido, os Paras tinham rasgões nas mãos, braços e cara, sangrando abundantemente, o condutor tinha dentadas no couro cabeludo e mãos, e a cara toda ensanguentada, arrancámos e quando chegámos à Enfermaria deixei-os lá e fui directo ao gabinete do Oficial de Dia contar-lhe o que tinha sucedido, primeiro o discurso do Capitão quando lhe disse que o jeep era demasiado pequeno para o transporte, e depois o que se passara na viagem. 
Quando cheguei à cifra fui direito ao telefone liguei para o Capitão e agradeci-lhe em nome dos três que tinham sido transportados para o hospital e informei-o que agora tinha de arranjar transporte para os que os viessem substituir e de que dera conhecimento do sucedido ao meu Oficial de Dia e que iria efectuar o respectivo registo no livro de ocorrências.
Uns tempos depois, apareceu o Oficial de dia com um oficial Paraquedista para recolher o meu depoimento e do condutor, esqueci o incidente e uns meses mais tarde, tomei conhecimento por um familiar Paraquedista, que o Capitão tinha sido condenado por negligência grosseira, e obrigado a pagar os tratamentos dos militares feridos. Como consequência desse incidente, o transporte dos binómios passou a ser efectuado em veículo restrito ao transporte de outros passageiros.

BA3 OPC ACO
1970/1975

domingo, 4 de setembro de 2016

JONAS SAVIMBI



ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992

Durante a campanha aérea da ONU para as Primeiras Eleições Livres em Angola (1992), os dias passaram num carrossel de aterragens e descolagens. A ONU geriu e levou a bom porto a maior operação aérea jamais organizada de suporte a atos eleitorais supervisionados por aquela organização. Algo que, na altura, parecia ser um passo maior que a perna, só foi possível devido ao empenho dos dez oficiais da Força Aérea Portuguesa, destacados para Angola para ajudarem na gestão daquela atividade aérea. Os elementos da FAP fizeram parte de uma grande equipa com 25.000 pessoas, angolanas e estrangeiras, que de alguma forma participaram para o sucesso daquele ato eleitoral, dos quais constavam cerca de 800 observadores internacionais.
Por razões de segurança, durante os dois dias em que decorreram as eleições legislativas Angolanas, 29 e 30 de Setembro de 1992, o Governo Angolano interditou o espaço aéreo a voos internacionais e encerrou as fronteiras terrestres, marítimas e fluviais.
Os Angolanos votaram em massa, ultrapassando as previsões mais otimistas, com 92% dos eleitores inscritos (4 milhões e 400 mil pessoas) a exercerem pela primeira vez o dever de voto. O número surpreendeu, já que se admitia uma taxa de abstenção na casa dos 20% a 30%. Os angolanos escolhiam entre 19 partidos, quem os iria governar.
No dia 01 de Outubro, depois do ato eleitoral, era a loucura total em Luena. Todas aquelas urnas de voto tinham de ser rapidamente retiradas dos vários locais e trazidas para a capital do Moxico, de onde seguiriam de imediato para Luanda em C-130. O que havia levado semanas a montar, levava agora horas a desmontar.
Segundo os acordos de Bicesse, que travaram o conflito entre a UNITA e o MPLA e abriram espaço ao ato eleitoral, os resultados eleitorais só deveriam ser formalmente anunciados no dia 08 de Outubro. Contudo, a comunicação social divulgou-os conforme se ia sabendo os resultados parciais. 
No dia 3 de Outubro, Jonas Savimbi (então líder da UNITA) dirigiu uma «Mensagem à Nação», na qual expressava que não aceitava os resultados das eleições, por ter havido fraude. A violência escalou consideravelmente e o PNUD de Luena decidiu ativar o plano de evacuação que tinha elaborado. Luanda parecia continuar no controlo das forças governamentais, sendo a melhor saída para uma evacuação internacional. Decidiu-se voar para Luanda no dia 05 de Outubro. Entretanto, na capital do País, a situação de segurança estava a degradar-se de dia para dia. Após tratar de toda a burocracia da ONU, os militares portugueses receberam instruções para sair imediatamente de Luanda e regressar a Portugal no dia 08 de Outubro. Partiríamos nessa mesma tarde, num voo comercial que estava, obviamente, lotado, ao ponto de não haver catering para todos os passageiros. Cerca de 20 minutos após a descolagem de Luanda, o comandante de bordo utilizou o sistema de som para fazer um pequeno anúncio:
- “Senhoras e senhores passageiros, informamos que, por motivos de segurança, o Aeroporto Internacional de Luanda acabou de fechar a todo o tráfego aéreo, sem data anunciada para reabrir.”
Tínhamos conseguido sair de Luanda ”In Extremis”!
Quando, na tarde do dia seguinte desembarcámos em Lisboa, veio a notícia:
Os oficiais da UNITA abandonaram as (unificadas) Forças Armadas Angolanas e regressavam às suas anteriores posições. Tinha recomeçado a guerra civil Angolana. O governo português estava agora preocupado com a segurança dos nossos cidadãos que residiam em Angola. A Força Aérea preparou os seus (na altura) paraquedistas e os C-130, para retirarem os portugueses que estivessem em Angola e quisessem sair.
No início do mês de novembro de 1992, as Forças Armadas Portuguesas lançaram a “Operação Repatriamento”, com o objetivo de retirar de Angola os cidadãos portugueses que ali não desejassem permanecer. As Tropas Paraquedistas Portuguesas não tiveram de atuar, mas as aeronaves da FAP evacuaram de Angola cerca de 2 500 portugueses. O conflito interno Angolano assumia agora uma violência redobrada, inflamado por novas desconfianças e ódios.
A Guerra Civil Angolana só viria a finalizar com a morte em combate de Jonas Savimbi, num local muito próximo de Luena, no ano de 2002. O povo Angolano sofreu um conflito fratricida, durante 27 anos, com uma ligeira interrupção de “paz podre” para se fazerem eleições em 1992.

A experiência angariada naquela missão das Nações Unidas seria, décadas mais tarde, primordial na resolução de problemas numas outras eleições, igualmente problemáticas. Mas isso será matéria para uma outra “Estória de Missão ao serviço da ONU”.


(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)



Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

CUMULONIMBUS AFRICANOS



ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992

Durante o mês de setembro de 1992 ocorreram algumas tempestades tropicais, no centro de Angola, as quais eram bastante perigosas para a aviação. Recordo estar na placa e ouvir no rádio a torre de Luena informar que iria aterrar uma aeronave em emergência. Era um pequeno avião de passageiros, com um motor em cada asa e a fuselagem ao centro. O Beechcraft C-90 GT, conhecido no meio aeronáutico como o menor dos turbo-hélices da família King Air, estava em sérias dificuldades para conseguir chegar a Luena. Pouco tempo depois do reporte, o piloto conseguiu aterrar e conduziu o King Air para a placa, tendo vindo estacionar na zona normalmente utilizada pela ONU. Desloquei-me ao aparelho em questão para ver se podíamos auxiliar em alguma coisa. Ao ver a aeronave assaltou-me a imagem que Beechcraft tinha andado à bulha com um leão. Ou melhor, com um bando de leões, tal era a quantidade de arranhões profundos e amolgadelas na chaparia; antenas arrancadas à fuselagem; hélices ratadas; vidros rachados; lemes e ailerons amachucados; luzes de navegação e faróis de aterragem partidos; e até a faixa de borracha preta, que revestia o anticongelante no bordo de ataque das asas, estava feita em tiras e pendia em franjas. Mas aquilo que mais impressionava era o tremendo abalroamento no nariz pontiagudo da fuselagem. Dir-se-ia que alguém tinha dado um valente murro no nariz do Beechcraft, transformando o que era côncavo em convexo.
- “Já estava a ficar aflito” - disse o piloto-comandante ao sair do avião – “ fiquei sem a antena de GPS, não sabia onde estava, e o nível de combustível nos depósitos  estava a ficar francamente baixo. Segui um rio afluente do Zambeze voando para Noroeste na esperança que fosse o Luena. Correu bem, mas apanhei um susto. ”
O copiloto estava francamente enervado e quase não falava. Quando saiu do avião meteu os calços nas rodas e foi fumar um cigarro para longe.
- “Mas o que é que vos aconteceu para ficarem com o avião neste estado? – Perguntei curioso enquanto examinava a borracha protetora do sistema anticongelante feita em tiras.
- “A Sudeste daqui há uma parede de Cúmulo-nimbos. São incrivelmente altos, mais de 45.000 pés, não tínhamos capacidade de passar por cima. Tentámos atravessá-los na perpendicular mas, pouco depois de entrarmos nas nuvens, parecia que tínhamos batido contra uma parede de gelo. Não se via nada para fora; só relâmpagos e bolas de gelo a baterem no avião com uma grande força. Perdemos potência; ficámos sem GPS; não tínhamos informação de velocidade nem de altitude. Ainda bem que vínhamos sozinhos porque se trouxesse passageiros teria sido o pânico abordo.”
Aeroporto de Luena 
Ofereci a nossa hospitalidade e os meios de comunicação que tínhamos disponíveis para o piloto contactar a sua organização. Abasteceu com o combustível do aeródromo e, antes do final do dia, voltou a descolar rumo a Luanda. Ficou-nos a lição de que a mãe natureza continua a reinar e em África, havia CumulonimbusAfricanus!


(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)





Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

EXCESSO DE CONFIANÇA

ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992

Cartoon do autor
A atividade da ONU na placa do aeródromo de Luena tinha momentos de intenso movimento de pessoas e material. A nossa presença era absolutamente estranha para os populares que deambulavam pelo local, buscando apanhar um voo para Luanda. Muitos desses elementos eram desmobilizados e alguns tinham armas em seu poder. 
Certo dia Irritados e em desespero de causa, alguns desmobilizados começaram a manifestar-se violentamente por não conseguirem um voo para fora de Luena. Não tardou e ocorreram os primeiros disparos de armas automáticas. 
Comigo na placa, estava um grupo de jornalistas holandeses, que tinham vindo a Luena em trabalho de reportagem sobre a região. Os jornalistas aguardavam por um C-130, ao serviço da ONU, para regressarem a Luanda. Ao ouvirem os tiros, os jornalistas holandeses entraram em pânico e atiraram-se ao chão para não serem alvejados. Havia gritos em Holandês (Flamengo), em Inglês e até estava alguém a chorar. Eu continuei a trabalhar, de um lado para o outro; organizando as bagagens de embarque; falando pela rádio com o pessoal da torre para saber a estima do nosso avião; procurando pelo nosso pessoal de apoio em terra para me ajudar nas tarefas; etc. 
Os tiros eram coisa corriqueira por ali, e eu tinha muito assunto para resolver antes do C-130 chegar. Era como se os disparos fizessem parte do cenário de um filme onde, por acaso, eu também participava. Tudo aquilo eram cenários e figurantes do meu filme. Foi nessa altura que ouvi o som de algo a bater no chão ao pé de mim, com muita força. Só depois ouvi o som do disparo. Aquele tiro tinha sido dado na minha direção e, como a bala voava mais rápido que o som, só ouvi o disparo da arma depois do impacto a meus pés. Logo a seguir, ouvi um assobio do lado direito da cabeça e, de novo, o som do disparo veio a seguir. Alguém estava a disparar na minha direção, e não eram balas perdidas. Atirei-me ao chão procurando esconder-me por detrás de alguns volumes que ali estavam para embarcar. Os caixotes não iriam impedir as balas de me atingir mas, pelo menos, ocultavam a minha silhueta ao atirador. Segundos depois começou um arraial de tiros isolados, rajadas de armas automáticas e muita gritaria. Os Ninjas tinham regressado ao aeródromo. A diferença em relação à sua primeira intervenção era que, desta vez, não estavam a usar bastões de madeira mas sim kalashnikovs. 
Quando tudo acabou, estavam várias pessoas estendidas no chão da placa, onde o avião da TAAG tinha estado estacionado. O pequeno grupo que foi buscar a antiaérea foi considerado instigador daquela ação, tendo sido algemados no local. Os presos e os feridos foram levados pela polícia antimotim e o ambiente acalmou de novo.
Ouviu-se o ronco surdo de um outro C-130 a aterrar, seguido do som intenso do procedimento de travagem com os motores em reverse. Era o nosso avião que chegava. Quando os holandeses subiram a bordo, tinham os olhos vermelhos de terem estado a chorar. Eu tinha o semblante aparvalhado de ter escapado, por muito pouco, a levar um tiro na cabeça. Tudo por ter cometido um erro comum neste tipo de operações – baixar a guarda devido à rotina.
Registei a minha lição número dois, em ambiente de conflito: - “O Excesso de Confiança mata!”


(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)



Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

LUZES DE PISTA

Cartoon do autor
Certo dia de operação na missão das Nações Unidas em Luena, fui informado que o nosso reabastecedor de combustível para aeronave passaria a voar à noite. Quando tentei coordenar o voo noturno com o diretor do aeródromo de Luena, o homem abanou a cabeça, olhou-me nos olhos e disse em voz baixa:
- “Comandante, não sei como lhe vou dizer isto, …, mas..., …, roubaram-nos as luzes de pista a noite passada. Só deixaram ficar 14 candeeiros, que estão em curto-circuito. Não podemos operar à noite!”
Era um dado novo, com impacto direto na distribuição do material eleitoral. Tentou-se negociar a vinda no meio aéreo durante as horas de luz sola. Contudo, o constrangimento do reabastecimento noturno era inultrapassável. Luanda insistia que, a partir daquela data, só iríamos receber combustível à noite, porque o aumento das necessidades de Jet A-1 contrastava com a escassez de meios aéreos de distribuição.
Numa região onde a guerra tinha destruído todas as ajudas rádio à navegação aérea e o sistema GPS estava a dar os primeiros passos, os voos noturnos de reabastecimento de combustível eram uma aventura, digna dos pioneiros da aviação. As tripulações dos C-130 da TransAfrik que faziam esses voos eram constituídas por veteranos de outras guerras, com uma grande variedade de países de origem. Todos eles eram profundos conhecedores do território Angolano, porque voavam naquelas paragens durante a guerra civil. Bombardeei o diretor do aeródromo – o senhor Pedro – com uma série de perguntas, na busca de uma solução para aquela dificuldade.
– “Não podemos receber esta aeronave à moda antiga? Fazendo fogueiras ao logo da pista?” -Perguntei.” – E combustível alternativo? Haverá Jet A-1 no Aeródromo que nos possam ceder?” – Insisti.
- “Vou perguntar ao Governo de Luena o que se pode fazer em relação a tudo isto.” - Disse o diretor do aeródromo.
O Governo de Luena entendeu não autorizar “alternativas medievais” e o voo reabastecedor foi cancelado. Ficámos curtos de combustível para todas as tarefas que estavam planeadas, e decidi diminuir os voos eleitorais, para manter a credibilidade do Plano de Evacuação que tinha elaborado. Com as restrições nos voos eleitorais, o Governo local acabou por dar acesso, a título de empréstimo, ao combustível que a Força Aérea Angolana tinha armazenado em Luena. Aquele Jet A1 estava guardado em bidões de 180 litros, colocando um novo desafio – a compatibilidade de sistemas. Após inspecionarmos os contentores de combustível, verificou-se que a única bomba de extração compatível com o bocal dos bidões era de um modelo ocidental, cuja mangueira de abastecimento não era compatível com a entrada dos depósitos dos MI-17 russos.A solução encontrada foi abastecer os helicópteros por gravidade. Ou seja, para encher os depósitos externos de cada helicóptero, tínhamos de verter 1 400 litros de combustível com o recurso a um funil. Como não confiávamos na qualidade do combustível daqueles bidões, especialmente depois da queda de dois MI-17 no Uíge, colocava-se um pano do funil para tentar filtrar o Jet A-1, o que demorava ainda mais o processo. Os miúdos que andavam na placa à cata de desperdiço de Jet A-1, estavam radiantes com o novo procedimento. Quando retirávamos combustível dos bidões para o funil, e deste para o helicóptero, entornava-se algum combustível. Nessa altura, lá estavam eles com as latas debaixo das mangueiras a aparar todas as sobras. Por vezes era irritante, mas nós tolerávamos as crianças porque era uma forma de os ajudar, e eles retribuíam fazendo pequenos recados que nos davam muito jeito.
Pista de Luena

Na tarde dia, seguinte o diretor do aeródromo contactou-me, com o semblante muito comprometido.
- “Comandante, preciso da sua ajuda. O governo vai receber uma aeronave VIP esta noite e vou ter de abrir a pista a tráfego noturno. O Comandante tinha posto a possibilidade de se fazer umas fogueiras e o Governo local instruiu-me para seguir o seu conselho. Nós temos ali uma quantidade de invólucros de projéteis de artilharia de 122 mm. Podia-se colocar um cartucho de 50 em 50 metros e meter combustível com uma torcida de pano. Mas agora, nós não temos o combustível, porque lhes demos o Jet A-1 todo…, será que nos podia ajudar?”
Evitei rir-me na cara do homem, porque não tinha culpa nenhuma no assunto.
-“Vamos a isso!” Retorqui sem ressentimentos. – “Deixe-me só dar uma satisfação ao meu chefe”.
O Chefe do PNUD em Luena desatou a rir quando lhe contei o ocorrido e respondeu-me:
- “Vamos reportar isso para Luanda. Provavelmente eles vão aproveitar para mandar o nosso combustível também.”
Efetivamente, passado pouco tempo viria de Luanda a confirmação que, se tivéssemos a pista iluminada nessa noite, deveria chegar a Luena um C-130 com 40 000 litros de combustível Jet A-1. Pedi para levarem os dois carros do PNUD para o aeródromo nessa noite; solicitei que me dessem as latas de leite em pó vazias que estavam no armazém; coordenei com o diretor do aeródromo a cedência de pessoal com enxadas; e fomos para as pistas antes do final da tarde.
- “Meus senhores, o Jet A-1 não arde particularmente bem se estiver concentrado em estado líquido. Mas se o utilizarmos como combustível para uma mexa de pano ficamos com uma belíssima tocha.” – Disse eu. –"O que iremos fazer será enterrar um cartucho de 122 mm em dada 50 passos largos, em ambos os lados da pista. No fim da pista, vamos pôr os dois carros do PNUD com os faróis e os quatro piscas ligados, voltados contra o sentido da aterragem, para os pilotos se aperceberem do final da faixa. No início da pista, vamos colocar as latas grandes de leite vazias, com um pedregulho lá dentro para não voarem. Depois vamos com o atrelado de combustível da ONU meter um bocado de Jet A-1 nas latas e nos cartuchos. A seguir vamos procurar pedaços de fardas e roupas abandonadas, que estão espalhados por aí em quantidade e que são bons para servirem de mexa. Colocamos um trapo dentro de cada recipiente e, quando a torre nos disser que as aeronaves estão em aproximação, acende-se isto tudo! Alguém tem dúvidas?” - Perguntei. – “Não há dúvidas? Vamos ao trabalho!”
O primeiro avião a aterrar foi o governamental. Um Dakota modernizado, com motores turboprop.
Na placa, à espera dos passageiros, estava uma comitiva civil e militar de peso. Eu fui para a torre para me certificar que nos avisavam da chegada do nosso C-130. Não houve muita demora entre as duas aeronaves. O C-130 chamou a torre, em Inglês, pedindo orientações para a pista. O controlador, que já me conhecia, passou-me o microfone porque não dominava a língua nem sabia das instalações que tínhamos feito. Ajudei o piloto a referenciar a pista, dando-lhe rumos para o aeródromo, baseado nas luzes de navegação do avião que podia ver à distância através de um par de binóculos. A aeronave aterrou, descarregou o precioso líquido para dentro dos nossos depósitos (bladders) e foi embora. Admito não ter gostado de trabalhar à noite, numa placa sem iluminação, fazendo de sinaleiro a um C-130 carregado de combustível, que rolava demasiado próximo de hangares, tendas, depósitos de bombas, campos de minas, etc.
Enfim, …, tudo aquilo que os manuais dizem, que não se deve fazer.


(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)



Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

DESMOBILIZADOS

ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992

Cartoon do autor
Conforme o estipulado nos Acordos de Bicesse, durante o processo eleitoral Angolano de 1992, as duas principais forças em confronto militar (UNITA e MPLA), tiveram de reduzir os seus efetivos e desmobilizar combatentes. Ambos os partidos desmobilizavam os seus combatentes dando-lhes a opção de levarem consigo as armas ligeiras que lhes tinham sido distribuídas. Toda a gente tinha uma AK-47 Kalashnikov e vários carregadores cheios de balas.
A questão dos desmobilizados era, talvez, o maior problema na situação de pós-conflito que Angola vivia. Procurei informar-me sobre a forma como estava a decorrer o processo de desmobilização. Segundo me contavam as fontes internacionais, havia uma notória diferença comportamental entre os dois partidos em conflito.
- “Os desmobilizados da UNITA dão o nome no centro de desmobilização, formavam a três e regressavam à Jamba. Os desmobilizados das FAPLA (forças do Governo MPLA) tentavam vender as suas armas no mercado e vão para o aeroporto à espera de transporte para Luanda.”
Uma pistola militar custava, no mercado local, 8 000 Kwanzas e uma Kalashnikov 12 000 Kwanzas. Um modesto valor que, no caso da AK-47, seria equivalente ao preço de um volume de tabaco com 20 maços de cigarros portugueses. Se a coronha da arma tivesse um trabalho de gravação esculpido, o preço seria um pouco mais caro.
Em Luena, a parte visível do problema dos desmobilizados, estava no aeródromo. Chegaram a vaguear por ali quase 400 ex-militares das FAPLA, alguns acompanhados da respetiva família. Todos aguardavam um avião que os levasse para Luanda. Por definição, em qualquer conflito, as matérias relativas a desmobilizados são um assunto governamental. As entidades internacionais podem ajudar, mas não devem substituir o governo nacional nestas funções. Em resultado disso, as aeronaves ao serviço da ONU, entre elas o avião C-130 Português que nos trouxe para Angola, não tinham autorização para embarcar esta gente, a não ser que recebessem a tarefa específica para o fazer. O que acontecia pontualmente, após um pedido expresso do Governo Angolano à UNAVEM.
C;130 FAP . foto EMFA
Um certo dia o C-130 português apareceu em Luena com a missão de levar 90 desmobilizados para Luanda. Dirigi-me à aeronave, a fim de saudar os meus compatriotas, colocando-me à disposição para os ajudar no que fosse necessário. Quando entrei na cabine de pilotagem - cockpit - a tripulação comentava que algo teria batido na asa esquerda durante a aterragem, mas não se via nada significativo daquele ângulo.
- “Provavelmente foi um birdstrik [colisão com uma ave]” – disse o navegador espreitado pela janela – “quando são pequenos não se conseguem ver bem!”
Depois de muita confusão no exterior da aeronave, lá se conseguiu carregar os 90 passageiros.
Mais tarde soube que o impacto na asa esquerda do Hércules, não tinha sido uma ave, mas sim duas balas de kalashnikov.


(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)



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sexta-feira, 24 de junho de 2016

ARMAS NÃO !

ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992

Cartoon do autor
Algo muito característico das missões ONU para o apoio eleitoral, em regiões com situações de “pós-conflito”, é a capacidade de negociação que o pessoal a ONU tem que ter com os VIPs locais.
Em 1992, na missão UNDP para as eleições Angolanas, as “Pessoas Muito Importantes” – VIP – da Cidade de Luena tinham de voar para os vários locais de voto, dando para o efeito no dia anterior essa informação para se fazerem as listas de passageiros. Contudo, no dia do voo, apresentavam-se com os seus guarda-costas, os quais não constavam na lista de passageiros. Para agravar a situação, os elementos de segurança pessoal queriam embarcar com armas ligeiras e granadas. Era necessária muita calma, paciência, e energia extra, para convencer essas entidades que, para embarcar o guarda-costas que não estava na lista, tinha de sair o funcionário eleitoral que estava na lista. Por outro lado, mesmo que a decisão fosse embarcar o guarda-costas, nós nunca iríamos permitir armas a bordo de uma aeronave ao serviço da ONU.
Para nosso espanto, houve casos em que a decisão, à porta do helicóptero, foi de retirar funcionários do processo eleitoral para embarcarem os guarda-costas dos VIP; mas as armas ficaram em Luena.



(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)



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sexta-feira, 10 de junho de 2016

A VACA NÃO VAI !

ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992

Cartoon do autor
Todos os dias, com o aproximar do pôr-do-sol acabava a atividade aérea e eu ia para as reuniões de coordenação, com a Comissão Eleitoral de Luena. O objetivo daquelas reuniões tardias era de reportar aquilo que se tinha feito no dia vigente, bem como de coordenar as atividades dos vários sectores para o dia seguinte. No caso da campanha aérea, discutia-se quem é que necessitava de voar e para onde eram os voos. Tentava-se conciliar a escassez de recursos com a satisfação das várias entidades políticas, muitas vezes com intenções antagónicas entre elas. Não era uma tarefa fácil, porque continuava a haver escaramuças e confrontos armados entre as fações na corrida eleitoral. Após chegar-se a acordo, faziam-se as listas das necessidades de passageiros e carga para cada meio aéreo, com as respetivas horas de embarque.
Começava então a parte mais delicada dessas reuniões – o ajustamento das necessidades à capacidade dos meios aéreos. Para cada distância a voar tinha de haver uma certa quantidade de combustível. O peso desse combustível retirava pessoas e carga das aeronaves. Isto nem sempre era entendido pelos participantes nessas reuniões, que acabavam por viciar a informação na tentativa de atingir as suas intenções. 
Por absoluto desconhecimento ou devido a intenções escusas, a qualidade de informação que nos era cedida era invariavelmente má. Quase nada do que nos era dito pelos vários representantes das entidades politico-eleitorais, batia certo com o que se verificava no dia dos voos. As identificações das listas de passageiros nunca estavam corretas, requerendo negociações de última hora à porta da aeronave. Outro tipo de situação, a roçar o hilariante, eram os valores que nos davam do peso estimado da carga. Eu fazia sempre questão de recordar a capacidade de um MI-17:
- “Meus senhores, nós não vamos retirar combustível ao voo. Vocês podem carregar um total de 4500 Kg, ou 22 pessoas só com bagagem de mão.”
 Mas os pesos que a Comissão Eleitoral nos cedia estavam invariavelmente errados e o conceito de “bagagem de mão” era muito flexível naquelas paragens. A solução era embarcar as pessoas e a carga prevista, tendo depois o piloto de fazer um pequeno teste de descolagem vertical na placa. Se a capacidade de sustentação do MI-17 não estivesse à altura das exigências, ia-se retirando carga até se atingir o poder de sustentação desejado. 
Hilariante contado agora, …, arrepiante vivido na altura!
Por vezes tínhamos de fazer mais de um voo para o mesmo destino, com consequências negativas na gestão do combustível disponível.




(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)




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