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sexta-feira, 11 de novembro de 2016
UM VOO ATRIBULADO DE SANTA EULÁLIA PARA LUANDA
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
RECORDANDO O CUITO
Estive no Cuito
Cuanavale em Maio, Junho e, Julho de 1973. Recordo, que foi a região do leste de Angola que mais me "tocou". Parecia-me, com o rio Cuito ao pé, que regressava à infância no Rio Ave, tal eu
via algumas coisas semelhantes.
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| Outro pescador, o Antonio Neves |
Recordo, neste período, que fui um dia pescar junto à curva do rio Cuito, aí a
uns 25 metros, havia uma praia natural repleta de habitantes locais. A cana de
pesca era emprestada pelos "Primos". A primeira vez que lancei a
linha ao rio senti um enorme puxão, que me levou quase tudo.
Recordo, pensar se não teria sido algum jacaré? É verdade!
Depois repeti e, pesquei alguns peixes com cerca de 2 Kg cada.
Entreguei alguns a quem estava por ali, mas 4 deles trouxe para o destacamento
onde os cortei às postinhas e, com sal fritei. Foi a delícia dos meus
companheiros habituados que estava-mos a carne de caça.
Recordo, que estava comigo o Tomás MMA, entre outros..
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| A caminho do rio - foto de Afonso Palma |
Recordo, também, que certo dia andava toda a gente à minha procura, estava
ausente há várias horas, tinha ido ao rádio farol fazer uma reparação e, levei
com uma descarga de 1920 volts! (recordo a voltagem por causa da aguardente
velha 1920), que me projectou contra à parede do rádio farol e, ali fiquei algumas
horas inconsciente, entrou-me pela mão esquerda e saiu pelo braço direito.De resto, foi
do Cuito do Cuanavale a região que mais gostei.Finalmente, foi nesta altura, Maio de 73, que por ali passou parte da CCAÇ.3441,
com quem antes estive em N’Riquinha, em
trânsito para os arredores de Luanda–Mabubas (sei hoje).
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
O ENJOO DO SEGURANÇA
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| Carlos Sequeira voando no leste de Angola |
Já depois do 25 de Abril, também tive a minha "viagem atribulada", onde me aconteceu o seguinte; estando eu a fazer um transporte de pessoal da UNITA, do Massive para o Luso, transportando o Jonas M. Savimbi e o N'zau Puna, seu comandante em chefe, acompanhado pelo Costa MMA, com o qual tenho algumas missões e peripécias que ele pode contar se assim o quiser.
Trazíamos também a guarda pessoal dos dignitários, estes vinham no banco de trás e um deles vinha mesmo agarrado à minha cadeira! A viagem era à volta de 50 minutos. Habitualmente já saíamos tarde do Massive porque eu, como "gringo" facilitava nos ATDs, eles pediam sempre para ficar mais um pouco, ou porque faltava fazer qualquer coisa, ou porque era preciso falar com alguém que ainda não tinha chegado, enfim, à boa maneira Africana, que eu até compreendia e não me fazia rogado.
Noite fechada, uma Lua cheia iluminava a chana como só em África. A descolagem às 19h30 foi feita na calmaria de uma noite tranquila e por nossa conta.
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| Jonas Savimbi |
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
VIAGEM ATRIBULADA
Acabada a recruta em Abril de 1970, o curso de Operador de Comunicações e depois de Cifra, a meu pedido fui colocado na BA3 no dia 26 de Março de 1971, quinze dias após o atentado ao hangar Norte, perpetrado por um comando da ARA, (Acção Revolucionária Armada) organização clandestina afecta ao PCP, executada por (Carlos Coutinho, jornalista, Ângelo de Sousa, bancário e António Eusébio, estucador) com a ajuda interna do Aluno Piloto Ângelo de Sousa.
O ambiente era de cortar à faca, e a pressão exercida pelas chefias, tornava cada jornada de trabalho num constante sobressalto.
O ambiente era de cortar à faca, e a pressão exercida pelas chefias, tornava cada jornada de trabalho num constante sobressalto.
Ainda soldado aluno, e pela mobilização do 2º. Sargento que era responsável pelo serviço, como era o único "credenciado" fazia o serviço da cifra e no final do dia sempre que podia pirava-me para casa. Como era o que morava mais perto, sempre que havia serviço muito urgente, o oficial de dia mandava-me buscar e assim o serviço estava sempre garantido. Era uma situação de excepção, incompreendida e pouco tolerada pelos oficiais de dia que achavam que eu como soldado aluno era um privilegiado, mas como "negociado" com o Comando da Base, eu garantia o serviço 365 dias por ano, mas tinha o direito de ir a casa como qualquer outro militar e a forma encontrada era essa, chegava a casa e se tinha que ir a algum lado, deixava o contacto e a viatura apanhava-me lá.
Outra das particularidades da BA3, era ter que cifrar/decifrar, o serviço do RCP, e por vezes quando este apertava tinha que me deslocar fora de horas ao Regimento para o entregar pessoalmente, normalmente ao oficial de dia. Se o serviço era entregue antes do jantar, o transporte que me levava, trazia os binómios cinotécnicos, (tradução) os Paras com os respectivos cães que faziam a segurança dos hangares desde o atentado.
Outra das particularidades da BA3, era ter que cifrar/decifrar, o serviço do RCP, e por vezes quando este apertava tinha que me deslocar fora de horas ao Regimento para o entregar pessoalmente, normalmente ao oficial de dia. Se o serviço era entregue antes do jantar, o transporte que me levava, trazia os binómios cinotécnicos, (tradução) os Paras com os respectivos cães que faziam a segurança dos hangares desde o atentado.
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| BA3 Tancos |
Após decifrar várias mensagens para o BCP desloquei-me ao Regimento e entreguei-as ao Oficial de Dia, quando me preparava para regressar à BA3, fui pressionado para transportar os Soldados e os cães, fiz ver ao Capitão que o jeep era demasiado pequeno para o transporte, e a resposta foi a de que: "se me sentia apertado que fosse a pé, não tinha nenhum transporte e aquele servia perfeitamente". Esperei pacientemente pelos Soldados e pelos cães e quando os vi, três bichos enormes, pensei para comigo, é desta, para quebrar o gelo ainda perguntei se os bichos já tinham jantado, e os soldados olharam uns para os outros, e um deles respondeu contrafeito, os cães só comem uma vez por dia, respondi-lhes: espero que lhes tenham dado o suficiente... Obriguei dois dos soldados a sentarem-se atrás de nós e a colocarem os cães depois, não me apetecia levar uma dentada de um bicho daqueles, arrancámos, saímos do Regimento passando pela Porta de Armas e virando à esquerda, depois no desvio para a Base á direita, fui travando o Cabo Condutor, vai devagar que se isto der merda quero saltar imediatamente daqui, a noite estava escura como breu e uma névoa vinda do rio dificultava ainda mais a visão, os faróis iluminavam praticamente dez metros do alcatrão à nossa frente, o caminho era curto e com poucas curvas, excepção feita a uma em gancho á direita no final da pista, depois do acesso aos paióis perdidos na floresta de pinheiros que circundavam as instalações militares. A meio da curva, surgiu um veículo agrícola sem luz e quase em contramão, o condutor guinou para a berma, entrou na valeta e andámos aos tombos até ele conseguir segurar o jeep, com os baldões os cães foram atirados uns contra os outros e começaram a lutar entre si, com os tratadores a tentarem separá-los, saltei do jeep antes dele se ter imobilizado, e desatei a correr estrada fora tentando abrir a maior distância possível entre mim e a bicharada enquanto ouvia os gritos dos tratadores e o latido dos cães, depois de tudo calmo, fui o único que não foi mordido, os Paras tinham rasgões nas mãos, braços e cara, sangrando abundantemente, o condutor tinha dentadas no couro cabeludo e mãos, e a cara toda ensanguentada, arrancámos e quando chegámos à Enfermaria deixei-os lá e fui directo ao gabinete do Oficial de Dia contar-lhe o que tinha sucedido, primeiro o discurso do Capitão quando lhe disse que o jeep era demasiado pequeno para o transporte, e depois o que se passara na viagem.
Quando cheguei à cifra fui direito ao telefone liguei para o Capitão e agradeci-lhe em nome dos três que tinham sido transportados para o hospital e informei-o que agora tinha de arranjar transporte para os que os viessem substituir e de que dera conhecimento do sucedido ao meu Oficial de Dia e que iria efectuar o respectivo registo no livro de ocorrências.
Uns tempos depois, apareceu o Oficial de dia com um oficial Paraquedista para recolher o meu depoimento e do condutor, esqueci o incidente e uns meses mais tarde, tomei conhecimento por um familiar Paraquedista, que o Capitão tinha sido condenado por negligência grosseira, e obrigado a pagar os tratamentos dos militares feridos. Como consequência desse incidente, o transporte dos binómios passou a ser efectuado em veículo restrito ao transporte de outros passageiros.
Uns tempos depois, apareceu o Oficial de dia com um oficial Paraquedista para recolher o meu depoimento e do condutor, esqueci o incidente e uns meses mais tarde, tomei conhecimento por um familiar Paraquedista, que o Capitão tinha sido condenado por negligência grosseira, e obrigado a pagar os tratamentos dos militares feridos. Como consequência desse incidente, o transporte dos binómios passou a ser efectuado em veículo restrito ao transporte de outros passageiros.
BA3 OPC ACO
1970/1975
domingo, 4 de setembro de 2016
JONAS SAVIMBI
ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992
Durante a campanha aérea da ONU para as Primeiras Eleições Livres em Angola (1992), os dias passaram num carrossel de aterragens e descolagens. A ONU geriu e levou a bom porto a maior operação aérea jamais organizada de suporte a atos eleitorais supervisionados por aquela organização. Algo que, na altura, parecia ser um passo maior que a perna, só foi possível devido ao empenho dos dez oficiais da Força Aérea Portuguesa, destacados para Angola para ajudarem na gestão daquela atividade aérea. Os elementos da FAP fizeram parte de uma grande equipa com 25.000 pessoas, angolanas e estrangeiras, que de alguma forma participaram para o sucesso daquele ato eleitoral, dos quais constavam cerca de 800 observadores internacionais.
Por razões de segurança, durante os dois
dias em que decorreram as eleições legislativas Angolanas, 29 e 30 de Setembro
de 1992, o Governo Angolano interditou o espaço aéreo a voos internacionais e
encerrou as fronteiras terrestres, marítimas e fluviais.
Os Angolanos votaram em massa,
ultrapassando as previsões mais otimistas, com 92% dos eleitores inscritos (4
milhões e 400 mil pessoas) a exercerem pela primeira vez o dever de voto. O
número surpreendeu, já que se admitia uma taxa de abstenção na casa dos 20% a
30%. Os angolanos escolhiam entre 19 partidos, quem os iria governar.
No dia 01 de Outubro, depois do ato
eleitoral, era a loucura total em Luena. Todas aquelas urnas de voto tinham de
ser rapidamente retiradas dos vários locais e trazidas para a capital do
Moxico, de onde seguiriam de imediato para Luanda em C-130. O que havia levado
semanas a montar, levava agora horas a desmontar.
Segundo os acordos de Bicesse, que
travaram o conflito entre a UNITA e o MPLA e abriram espaço ao ato eleitoral,
os resultados eleitorais só deveriam ser formalmente anunciados no dia 08 de
Outubro. Contudo, a comunicação social divulgou-os conforme se ia sabendo os
resultados parciais.
No dia 3 de Outubro, Jonas Savimbi (então líder da UNITA) dirigiu uma «Mensagem à Nação», na qual expressava que não aceitava os resultados das eleições, por ter havido fraude. A violência escalou consideravelmente e o PNUD de Luena decidiu ativar o plano de evacuação que tinha elaborado. Luanda parecia continuar no controlo das forças governamentais, sendo a melhor saída para uma evacuação internacional. Decidiu-se voar para Luanda no dia 05 de Outubro. Entretanto, na capital do País, a situação de segurança estava a degradar-se de dia para dia. Após tratar de toda a burocracia da ONU, os militares portugueses receberam instruções para sair imediatamente de Luanda e regressar a Portugal no dia 08 de Outubro. Partiríamos nessa mesma tarde, num voo comercial que estava, obviamente, lotado, ao ponto de não haver catering para todos os passageiros. Cerca de 20 minutos após a descolagem de Luanda, o comandante de bordo utilizou o sistema de som para fazer um pequeno anúncio:
No dia 3 de Outubro, Jonas Savimbi (então líder da UNITA) dirigiu uma «Mensagem à Nação», na qual expressava que não aceitava os resultados das eleições, por ter havido fraude. A violência escalou consideravelmente e o PNUD de Luena decidiu ativar o plano de evacuação que tinha elaborado. Luanda parecia continuar no controlo das forças governamentais, sendo a melhor saída para uma evacuação internacional. Decidiu-se voar para Luanda no dia 05 de Outubro. Entretanto, na capital do País, a situação de segurança estava a degradar-se de dia para dia. Após tratar de toda a burocracia da ONU, os militares portugueses receberam instruções para sair imediatamente de Luanda e regressar a Portugal no dia 08 de Outubro. Partiríamos nessa mesma tarde, num voo comercial que estava, obviamente, lotado, ao ponto de não haver catering para todos os passageiros. Cerca de 20 minutos após a descolagem de Luanda, o comandante de bordo utilizou o sistema de som para fazer um pequeno anúncio:
- “Senhoras e senhores passageiros,
informamos que, por motivos de segurança, o Aeroporto Internacional de Luanda
acabou de fechar a todo o tráfego aéreo, sem data anunciada para reabrir.”
Tínhamos conseguido sair de Luanda ”In
Extremis”!
Quando, na tarde do dia seguinte
desembarcámos em Lisboa, veio a notícia:
Os oficiais da UNITA abandonaram as
(unificadas) Forças Armadas Angolanas e regressavam às suas anteriores
posições. Tinha recomeçado a guerra civil Angolana. O governo português estava
agora preocupado com a segurança dos nossos cidadãos que residiam em Angola. A
Força Aérea preparou os seus (na altura) paraquedistas e os C-130, para
retirarem os portugueses que estivessem em Angola e quisessem sair.
No início do mês de novembro de 1992, as
Forças Armadas Portuguesas lançaram a “Operação Repatriamento”, com o objetivo
de retirar de Angola os cidadãos portugueses que ali não desejassem permanecer.
As Tropas Paraquedistas Portuguesas não tiveram de atuar, mas as aeronaves da
FAP evacuaram de Angola cerca de 2 500 portugueses. O conflito interno Angolano
assumia agora uma violência redobrada, inflamado por novas desconfianças e
ódios.
A Guerra Civil Angolana só viria a
finalizar com a morte em combate de Jonas Savimbi, num local muito próximo de
Luena, no ano de 2002. O povo Angolano sofreu um conflito fratricida, durante
27 anos, com uma ligeira interrupção de “paz podre” para se fazerem eleições em
1992.
A experiência angariada naquela missão das
Nações Unidas seria, décadas mais tarde, primordial na resolução de problemas
numas outras eleições, igualmente problemáticas. Mas isso será matéria para uma
outra “Estória de Missão ao serviço da ONU”.

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
CUMULONIMBUS AFRICANOS
ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992
Durante o mês de setembro de 1992 ocorreram
algumas tempestades tropicais, no centro de Angola, as quais eram bastante
perigosas para a aviação. Recordo estar na placa e ouvir no rádio a torre de
Luena informar que iria aterrar uma aeronave em emergência. Era um pequeno
avião de passageiros, com um motor em cada asa e a fuselagem ao centro. O
Beechcraft C-90 GT, conhecido no meio aeronáutico como o menor dos
turbo-hélices da família King Air, estava em sérias dificuldades para conseguir
chegar a Luena. Pouco tempo depois do reporte, o piloto conseguiu aterrar e
conduziu o King Air para a placa, tendo vindo estacionar na zona normalmente
utilizada pela ONU. Desloquei-me ao aparelho em questão para ver se podíamos
auxiliar em alguma coisa. Ao ver a aeronave assaltou-me a imagem que Beechcraft
tinha andado à bulha com um leão. Ou melhor, com um bando de leões, tal
era a quantidade de arranhões profundos e amolgadelas na chaparia; antenas
arrancadas à fuselagem; hélices ratadas; vidros rachados; lemes e ailerons
amachucados; luzes de navegação e faróis de aterragem partidos; e até a faixa
de borracha preta, que revestia o anticongelante no bordo de ataque das asas,
estava feita em tiras e pendia em franjas. Mas aquilo que mais impressionava
era o tremendo abalroamento no nariz pontiagudo da fuselagem. Dir-se-ia que
alguém tinha dado um valente murro no nariz do Beechcraft, transformando o que
era côncavo em convexo.
- “Já estava a ficar aflito” - disse o
piloto-comandante ao sair do avião – “ fiquei sem a antena de GPS, não sabia onde estava, e o nível de combustível nos depósitos estava a ficar francamente baixo. Segui um rio afluente do Zambeze voando para Noroeste na esperança que fosse o Luena. Correu bem, mas apanhei um susto. ”
O copiloto estava francamente enervado e
quase não falava. Quando saiu do avião meteu os calços nas rodas e foi fumar um
cigarro para longe.
- “Mas o que é que vos aconteceu para
ficarem com o avião neste estado? – Perguntei curioso enquanto examinava a
borracha protetora do sistema anticongelante feita em tiras.
- “A Sudeste daqui há uma parede de
Cúmulo-nimbos. São incrivelmente altos, mais de 45.000 pés, não tínhamos
capacidade de passar por cima. Tentámos atravessá-los na perpendicular mas,
pouco depois de entrarmos nas nuvens, parecia que tínhamos batido contra uma
parede de gelo. Não se via nada para fora; só relâmpagos e bolas de gelo a
baterem no avião com uma grande força. Perdemos potência; ficámos sem GPS; não
tínhamos informação de velocidade nem de altitude. Ainda bem que vínhamos
sozinhos porque se trouxesse passageiros teria sido o pânico abordo.”
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| Aeroporto de Luena |
Ofereci a nossa hospitalidade e os meios
de comunicação que tínhamos disponíveis para o piloto contactar a sua
organização. Abasteceu com o combustível do aeródromo e, antes do final do dia,
voltou a descolar rumo a Luanda. Ficou-nos a lição de que a mãe natureza
continua a reinar e em África, havia CumulonimbusAfricanus!

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.
sexta-feira, 22 de julho de 2016
EXCESSO DE CONFIANÇA
ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992![]() |
| Cartoon do autor |
A atividade da ONU na placa do aeródromo
de Luena tinha momentos de intenso movimento de pessoas e material. A nossa
presença era absolutamente estranha para os populares que deambulavam pelo
local, buscando apanhar um voo para Luanda. Muitos desses elementos eram
desmobilizados e alguns tinham armas em seu poder.
Certo dia Irritados e em desespero de causa, alguns desmobilizados começaram a manifestar-se violentamente por não conseguirem um voo para fora de Luena. Não tardou e ocorreram os primeiros disparos de armas automáticas.
Comigo na placa, estava um grupo de jornalistas holandeses, que tinham vindo a Luena em trabalho de reportagem sobre a região. Os jornalistas aguardavam por um C-130, ao serviço da ONU, para regressarem a Luanda. Ao ouvirem os tiros, os jornalistas holandeses entraram em pânico e atiraram-se ao chão para não serem alvejados. Havia gritos em Holandês (Flamengo), em Inglês e até estava alguém a chorar. Eu continuei a trabalhar, de um lado para o outro; organizando as bagagens de embarque; falando pela rádio com o pessoal da torre para saber a estima do nosso avião; procurando pelo nosso pessoal de apoio em terra para me ajudar nas tarefas; etc.
Os tiros eram coisa corriqueira por ali, e eu tinha muito assunto para resolver antes do C-130 chegar. Era como se os disparos fizessem parte do cenário de um filme onde, por acaso, eu também participava. Tudo aquilo eram cenários e figurantes do meu filme. Foi nessa altura que ouvi o som de algo a bater no chão ao pé de mim, com muita força. Só depois ouvi o som do disparo. Aquele tiro tinha sido dado na minha direção e, como a bala voava mais rápido que o som, só ouvi o disparo da arma depois do impacto a meus pés. Logo a seguir, ouvi um assobio do lado direito da cabeça e, de novo, o som do disparo veio a seguir. Alguém estava a disparar na minha direção, e não eram balas perdidas. Atirei-me ao chão procurando esconder-me por detrás de alguns volumes que ali estavam para embarcar. Os caixotes não iriam impedir as balas de me atingir mas, pelo menos, ocultavam a minha silhueta ao atirador. Segundos depois começou um arraial de tiros isolados, rajadas de armas automáticas e muita gritaria. Os Ninjas tinham regressado ao aeródromo. A diferença em relação à sua primeira intervenção era que, desta vez, não estavam a usar bastões de madeira mas sim kalashnikovs.
Quando tudo acabou, estavam várias pessoas estendidas no chão da placa, onde o avião da TAAG tinha estado estacionado. O pequeno grupo que foi buscar a antiaérea foi considerado instigador daquela ação, tendo sido algemados no local. Os presos e os feridos foram levados pela polícia antimotim e o ambiente acalmou de novo.
Certo dia Irritados e em desespero de causa, alguns desmobilizados começaram a manifestar-se violentamente por não conseguirem um voo para fora de Luena. Não tardou e ocorreram os primeiros disparos de armas automáticas.
Comigo na placa, estava um grupo de jornalistas holandeses, que tinham vindo a Luena em trabalho de reportagem sobre a região. Os jornalistas aguardavam por um C-130, ao serviço da ONU, para regressarem a Luanda. Ao ouvirem os tiros, os jornalistas holandeses entraram em pânico e atiraram-se ao chão para não serem alvejados. Havia gritos em Holandês (Flamengo), em Inglês e até estava alguém a chorar. Eu continuei a trabalhar, de um lado para o outro; organizando as bagagens de embarque; falando pela rádio com o pessoal da torre para saber a estima do nosso avião; procurando pelo nosso pessoal de apoio em terra para me ajudar nas tarefas; etc.
Os tiros eram coisa corriqueira por ali, e eu tinha muito assunto para resolver antes do C-130 chegar. Era como se os disparos fizessem parte do cenário de um filme onde, por acaso, eu também participava. Tudo aquilo eram cenários e figurantes do meu filme. Foi nessa altura que ouvi o som de algo a bater no chão ao pé de mim, com muita força. Só depois ouvi o som do disparo. Aquele tiro tinha sido dado na minha direção e, como a bala voava mais rápido que o som, só ouvi o disparo da arma depois do impacto a meus pés. Logo a seguir, ouvi um assobio do lado direito da cabeça e, de novo, o som do disparo veio a seguir. Alguém estava a disparar na minha direção, e não eram balas perdidas. Atirei-me ao chão procurando esconder-me por detrás de alguns volumes que ali estavam para embarcar. Os caixotes não iriam impedir as balas de me atingir mas, pelo menos, ocultavam a minha silhueta ao atirador. Segundos depois começou um arraial de tiros isolados, rajadas de armas automáticas e muita gritaria. Os Ninjas tinham regressado ao aeródromo. A diferença em relação à sua primeira intervenção era que, desta vez, não estavam a usar bastões de madeira mas sim kalashnikovs.
Quando tudo acabou, estavam várias pessoas estendidas no chão da placa, onde o avião da TAAG tinha estado estacionado. O pequeno grupo que foi buscar a antiaérea foi considerado instigador daquela ação, tendo sido algemados no local. Os presos e os feridos foram levados pela polícia antimotim e o ambiente acalmou de novo.
Ouviu-se o ronco surdo de um outro C-130 a
aterrar, seguido do som intenso do procedimento de travagem com os motores em
reverse. Era o nosso avião que chegava. Quando os holandeses subiram a bordo,
tinham os olhos vermelhos de terem estado a chorar. Eu tinha o semblante
aparvalhado de ter escapado, por muito pouco, a levar um tiro na cabeça. Tudo
por ter cometido um erro comum neste tipo de operações – baixar a guarda devido
à rotina.
Registei a minha lição número dois, em
ambiente de conflito: - “O Excesso de Confiança mata!”

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.
sexta-feira, 15 de julho de 2016
LUZES DE PISTA
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| Cartoon do autor |
Certo dia de operação na missão das Nações
Unidas em Luena, fui informado que o nosso reabastecedor de combustível para
aeronave passaria a voar à noite. Quando tentei coordenar o voo noturno com o
diretor do aeródromo de Luena, o homem abanou a cabeça, olhou-me nos olhos e
disse em voz baixa:
- “Comandante, não sei como lhe vou dizer
isto, …, mas..., …, roubaram-nos as luzes de pista a noite passada. Só deixaram
ficar 14 candeeiros, que estão em curto-circuito. Não podemos operar à noite!”
Era um dado novo, com impacto direto na
distribuição do material eleitoral. Tentou-se negociar a vinda no meio aéreo
durante as horas de luz sola. Contudo, o constrangimento do reabastecimento
noturno era inultrapassável. Luanda insistia que, a partir daquela data, só
iríamos receber combustível à noite, porque o aumento das necessidades de Jet
A-1 contrastava com a escassez de meios aéreos de distribuição.
Numa região onde a guerra tinha destruído
todas as ajudas rádio à navegação aérea e o sistema GPS estava a dar os
primeiros passos, os voos noturnos de reabastecimento de combustível eram uma
aventura, digna dos pioneiros da aviação. As tripulações dos C-130 da
TransAfrik que faziam esses voos eram constituídas por veteranos de outras
guerras, com uma grande variedade de países de origem. Todos eles eram
profundos conhecedores do território Angolano, porque voavam naquelas paragens
durante a guerra civil. Bombardeei o diretor do aeródromo – o senhor Pedro – com
uma série de perguntas, na busca de uma solução para aquela dificuldade.
– “Não podemos receber esta aeronave à
moda antiga? Fazendo fogueiras ao logo da pista?” -Perguntei.” – E combustível
alternativo? Haverá Jet A-1 no Aeródromo que nos possam ceder?” – Insisti.
- “Vou perguntar ao Governo de Luena o que
se pode fazer em relação a tudo isto.” - Disse o diretor do aeródromo.
O Governo de Luena entendeu não autorizar
“alternativas medievais” e o voo reabastecedor foi cancelado. Ficámos curtos de
combustível para todas as tarefas que estavam planeadas, e decidi diminuir os
voos eleitorais, para manter a credibilidade do Plano de Evacuação que tinha
elaborado. Com as restrições nos voos eleitorais, o Governo local acabou por
dar acesso, a título de empréstimo, ao combustível que a Força Aérea Angolana
tinha armazenado em Luena. Aquele Jet A1 estava guardado em bidões de 180
litros, colocando um novo desafio – a compatibilidade de sistemas. Após
inspecionarmos os contentores de combustível, verificou-se que a única bomba de
extração compatível com o bocal dos bidões era de um modelo ocidental, cuja
mangueira de abastecimento não era compatível com a entrada dos depósitos dos
MI-17 russos.A solução encontrada foi abastecer os helicópteros por gravidade.
Ou seja, para encher os depósitos externos de cada helicóptero, tínhamos de
verter 1 400 litros de combustível com o recurso a um funil. Como não
confiávamos na qualidade do combustível daqueles bidões, especialmente depois
da queda de dois MI-17 no Uíge, colocava-se um pano do funil para tentar
filtrar o Jet A-1, o que demorava ainda mais o processo. Os miúdos que andavam
na placa à cata de desperdiço de Jet A-1, estavam radiantes com o novo
procedimento. Quando retirávamos combustível dos bidões para o funil, e deste
para o helicóptero, entornava-se algum combustível. Nessa altura, lá estavam
eles com as latas debaixo das mangueiras a aparar todas as sobras. Por vezes
era irritante, mas nós tolerávamos as crianças porque era uma forma de os
ajudar, e eles retribuíam fazendo pequenos recados que nos davam muito jeito.
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| Pista de Luena |
Na tarde dia, seguinte o diretor do
aeródromo contactou-me, com o semblante muito comprometido.
- “Comandante, preciso da sua ajuda. O
governo vai receber uma aeronave VIP esta noite e vou ter de abrir a pista a
tráfego noturno. O Comandante tinha posto a possibilidade de se fazer umas
fogueiras e o Governo local instruiu-me para seguir o seu conselho. Nós temos
ali uma quantidade de invólucros de projéteis de artilharia de 122 mm. Podia-se
colocar um cartucho de 50 em 50 metros e meter combustível com uma torcida de
pano. Mas agora, nós não temos o combustível, porque lhes demos o Jet A-1
todo…, será que nos podia ajudar?”
Evitei rir-me na cara do homem, porque não
tinha culpa nenhuma no assunto.
-“Vamos a isso!” Retorqui sem
ressentimentos. – “Deixe-me só dar uma satisfação ao meu chefe”.
O Chefe do PNUD em Luena desatou a rir
quando lhe contei o ocorrido e respondeu-me:
- “Vamos reportar isso para Luanda. Provavelmente eles vão aproveitar para mandar o nosso combustível também.”
- “Vamos reportar isso para Luanda. Provavelmente eles vão aproveitar para mandar o nosso combustível também.”
Efetivamente, passado pouco tempo viria de
Luanda a confirmação que, se tivéssemos a pista iluminada nessa noite, deveria
chegar a Luena um C-130 com 40 000 litros de combustível Jet A-1. Pedi para
levarem os dois carros do PNUD para o aeródromo nessa noite; solicitei que me
dessem as latas de leite em pó vazias que estavam no armazém; coordenei com o
diretor do aeródromo a cedência de pessoal com enxadas; e fomos para as pistas
antes do final da tarde.
- “Meus senhores, o Jet A-1 não arde particularmente
bem se estiver concentrado em estado líquido. Mas se o utilizarmos como
combustível para uma mexa de pano ficamos com uma belíssima tocha.” – Disse eu.
–"O que iremos fazer será enterrar um cartucho de 122 mm em dada 50 passos
largos, em ambos os lados da pista. No fim da pista, vamos pôr os dois carros
do PNUD com os faróis e os quatro piscas ligados, voltados contra o sentido da
aterragem, para os pilotos se aperceberem do final da faixa. No início da
pista, vamos colocar as latas grandes de leite vazias, com um pedregulho lá
dentro para não voarem. Depois vamos com o atrelado de combustível da ONU meter
um bocado de Jet A-1 nas latas e nos cartuchos. A seguir vamos procurar pedaços
de fardas e roupas abandonadas, que estão espalhados por aí em quantidade e que
são bons para servirem de mexa. Colocamos um trapo dentro de cada recipiente e,
quando a torre nos disser que as aeronaves estão em aproximação, acende-se isto
tudo! Alguém tem dúvidas?” - Perguntei. – “Não há dúvidas? Vamos ao trabalho!”
O primeiro avião a aterrar foi o
governamental. Um Dakota modernizado, com motores turboprop.
Na placa, à espera dos passageiros, estava uma comitiva civil e militar de peso. Eu fui para a torre para me certificar que nos avisavam da chegada do nosso C-130. Não houve muita demora entre as duas aeronaves. O C-130 chamou a torre, em Inglês, pedindo orientações para a pista. O controlador, que já me conhecia, passou-me o microfone porque não dominava a língua nem sabia das instalações que tínhamos feito. Ajudei o piloto a referenciar a pista, dando-lhe rumos para o aeródromo, baseado nas luzes de navegação do avião que podia ver à distância através de um par de binóculos. A aeronave aterrou, descarregou o precioso líquido para dentro dos nossos depósitos (bladders) e foi embora. Admito não ter gostado de trabalhar à noite, numa placa sem iluminação, fazendo de sinaleiro a um C-130 carregado de combustível, que rolava demasiado próximo de hangares, tendas, depósitos de bombas, campos de minas, etc.
Na placa, à espera dos passageiros, estava uma comitiva civil e militar de peso. Eu fui para a torre para me certificar que nos avisavam da chegada do nosso C-130. Não houve muita demora entre as duas aeronaves. O C-130 chamou a torre, em Inglês, pedindo orientações para a pista. O controlador, que já me conhecia, passou-me o microfone porque não dominava a língua nem sabia das instalações que tínhamos feito. Ajudei o piloto a referenciar a pista, dando-lhe rumos para o aeródromo, baseado nas luzes de navegação do avião que podia ver à distância através de um par de binóculos. A aeronave aterrou, descarregou o precioso líquido para dentro dos nossos depósitos (bladders) e foi embora. Admito não ter gostado de trabalhar à noite, numa placa sem iluminação, fazendo de sinaleiro a um C-130 carregado de combustível, que rolava demasiado próximo de hangares, tendas, depósitos de bombas, campos de minas, etc.
Enfim, …, tudo aquilo que os manuais
dizem, que não se deve fazer.

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.
sexta-feira, 1 de julho de 2016
DESMOBILIZADOS
ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992![]() |
| Cartoon do autor |
Conforme o
estipulado nos Acordos de Bicesse, durante o processo eleitoral Angolano de 1992, as duas principais forças em
confronto militar (UNITA e MPLA), tiveram de reduzir os seus efetivos e
desmobilizar combatentes. Ambos os partidos desmobilizavam os seus combatentes
dando-lhes a opção de levarem consigo as armas ligeiras que lhes tinham sido
distribuídas. Toda a gente tinha uma AK-47 Kalashnikov e vários carregadores
cheios de balas.
A questão dos desmobilizados era, talvez,
o maior problema na situação de pós-conflito que Angola vivia. Procurei
informar-me sobre a forma como estava a decorrer o processo de desmobilização.
Segundo me contavam as fontes internacionais, havia uma notória diferença
comportamental entre os dois partidos em conflito.
- “Os desmobilizados da UNITA dão o nome
no centro de desmobilização, formavam a três e regressavam à Jamba. Os desmobilizados
das FAPLA (forças do Governo MPLA) tentavam vender as suas armas no mercado e
vão para o aeroporto à espera de transporte para Luanda.”
Uma pistola militar custava, no mercado
local, 8 000 Kwanzas e uma Kalashnikov 12 000 Kwanzas. Um modesto valor que, no
caso da AK-47, seria equivalente ao preço de um volume de tabaco com 20 maços
de cigarros portugueses. Se a coronha da arma tivesse um trabalho de gravação
esculpido, o preço seria um pouco mais caro.
Em Luena, a parte visível do problema dos
desmobilizados, estava no aeródromo. Chegaram a vaguear por ali quase 400
ex-militares das FAPLA, alguns acompanhados da respetiva família. Todos
aguardavam um avião que os levasse para Luanda. Por definição, em qualquer
conflito, as matérias relativas a desmobilizados são um assunto governamental.
As entidades internacionais podem ajudar, mas não devem substituir o governo
nacional nestas funções. Em resultado disso, as aeronaves ao serviço da ONU,
entre elas o avião C-130 Português que nos trouxe para Angola, não tinham
autorização para embarcar esta gente, a não ser que recebessem a tarefa
específica para o fazer. O que acontecia pontualmente, após um pedido expresso
do Governo Angolano à UNAVEM.
![]() |
| C;130 FAP . foto EMFA |
- “Provavelmente foi um birdstrik [colisão
com uma ave]” – disse o navegador espreitado pela janela – “quando são pequenos
não se conseguem ver bem!”
Depois de muita confusão no exterior da
aeronave, lá se conseguiu carregar os 90 passageiros.
Mais tarde soube que o impacto na asa
esquerda do Hércules, não tinha sido uma ave, mas sim duas balas de
kalashnikov.

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
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sexta-feira, 24 de junho de 2016
ARMAS NÃO !
ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992
![]() |
| Cartoon do autor |
Algo muito característico das missões ONU
para o apoio eleitoral, em regiões com situações de “pós-conflito”, é a
capacidade de negociação que o pessoal a ONU tem que ter com os VIPs locais.
Em 1992, na missão UNDP para as eleições
Angolanas, as “Pessoas Muito Importantes” – VIP – da Cidade de Luena tinham de
voar para os vários locais de voto, dando para o efeito no dia anterior essa
informação para se fazerem as listas de passageiros. Contudo, no dia do voo,
apresentavam-se com os seus guarda-costas, os quais não constavam na lista de
passageiros. Para agravar a situação, os elementos de segurança pessoal queriam
embarcar com armas ligeiras e granadas. Era necessária muita calma, paciência,
e energia extra, para convencer essas entidades que, para embarcar o
guarda-costas que não estava na lista, tinha de sair o funcionário eleitoral
que estava na lista. Por outro lado, mesmo que a decisão fosse embarcar o
guarda-costas, nós nunca iríamos permitir armas a bordo de uma aeronave ao
serviço da ONU.
Para nosso espanto, houve casos em que a decisão, à porta do helicóptero, foi de retirar funcionários do processo eleitoral para embarcarem os guarda-costas dos VIP; mas as armas ficaram em Luena.

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
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Para nosso espanto, houve casos em que a decisão, à porta do helicóptero, foi de retirar funcionários do processo eleitoral para embarcarem os guarda-costas dos VIP; mas as armas ficaram em Luena.

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
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sexta-feira, 10 de junho de 2016
A VACA NÃO VAI !
ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992
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| Cartoon do autor |
Todos os dias, com o aproximar do
pôr-do-sol acabava a atividade aérea e eu ia para as reuniões de coordenação,
com a Comissão Eleitoral de Luena. O objetivo daquelas reuniões tardias era de
reportar aquilo que se tinha feito no dia vigente, bem como de coordenar as
atividades dos vários sectores para o dia seguinte. No caso da campanha aérea,
discutia-se quem é que necessitava de voar e para onde eram os voos. Tentava-se
conciliar a escassez de recursos com a satisfação das várias entidades
políticas, muitas vezes com intenções antagónicas entre elas. Não era uma
tarefa fácil, porque continuava a haver escaramuças e confrontos armados entre
as fações na corrida eleitoral. Após chegar-se a acordo, faziam-se as listas
das necessidades de passageiros e carga para cada meio aéreo, com as respetivas
horas de embarque.
Começava então a parte mais delicada dessas
reuniões – o ajustamento das necessidades à capacidade dos meios aéreos. Para
cada distância a voar tinha de haver uma certa quantidade de combustível. O peso
desse combustível retirava pessoas e carga das aeronaves. Isto nem sempre era
entendido pelos participantes nessas reuniões, que acabavam por viciar a
informação na tentativa de atingir as suas intenções.
Por absoluto desconhecimento ou devido a intenções escusas, a qualidade de informação que nos era cedida era invariavelmente má. Quase nada do que nos era dito pelos vários representantes das entidades politico-eleitorais, batia certo com o que se verificava no dia dos voos. As identificações das listas de passageiros nunca estavam corretas, requerendo negociações de última hora à porta da aeronave. Outro tipo de situação, a roçar o hilariante, eram os valores que nos davam do peso estimado da carga. Eu fazia sempre questão de recordar a capacidade de um MI-17:
Por absoluto desconhecimento ou devido a intenções escusas, a qualidade de informação que nos era cedida era invariavelmente má. Quase nada do que nos era dito pelos vários representantes das entidades politico-eleitorais, batia certo com o que se verificava no dia dos voos. As identificações das listas de passageiros nunca estavam corretas, requerendo negociações de última hora à porta da aeronave. Outro tipo de situação, a roçar o hilariante, eram os valores que nos davam do peso estimado da carga. Eu fazia sempre questão de recordar a capacidade de um MI-17:
- “Meus senhores, nós não vamos retirar
combustível ao voo. Vocês podem carregar um total de 4500 Kg, ou 22 pessoas só
com bagagem de mão.”
Mas
os pesos que a Comissão Eleitoral nos cedia estavam invariavelmente errados e o
conceito de “bagagem de mão” era muito flexível naquelas paragens. A solução
era embarcar as pessoas e a carga prevista, tendo depois o piloto de fazer um
pequeno teste de descolagem vertical na placa. Se a capacidade de sustentação
do MI-17 não estivesse à altura das exigências, ia-se retirando carga até se
atingir o poder de sustentação desejado.
Hilariante contado agora, …, arrepiante vivido na altura!
Hilariante contado agora, …, arrepiante vivido na altura!
Por vezes tínhamos de fazer mais de um voo
para o mesmo destino, com consequências negativas na gestão do combustível
disponível.

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.

(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)
Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.
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