domingo, 4 de setembro de 2016

JONAS SAVIMBI

ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992

Durante a campanha aérea da ONU para as Primeiras Eleições Livres em Angola (1992), os dias passaram num carrossel de aterragens e descolagens. A ONU geriu e levou a bom porto a maior operação aérea jamais organizada de suporte a atos eleitorais supervisionados por aquela organização. Algo que, na altura, parecia ser um passo maior que a perna, só foi possível devido ao empenho dos dez oficiais da Força Aérea Portuguesa, destacados para Angola para ajudarem na gestão daquela atividade aérea. Os elementos da FAP fizeram parte de uma grande equipa com 25.000 pessoas, angolanas e estrangeiras, que de alguma forma participaram para o sucesso daquele ato eleitoral, dos quais constavam cerca de 800 observadores internacionais.
Por razões de segurança, durante os dois dias em que decorreram as eleições legislativas Angolanas, 29 e 30 de Setembro de 1992, o Governo Angolano interditou o espaço aéreo a voos internacionais e encerrou as fronteiras terrestres, marítimas e fluviais.
Os Angolanos votaram em massa, ultrapassando as previsões mais otimistas, com 92% dos eleitores inscritos (4 milhões e 400 mil pessoas) a exercerem pela primeira vez o dever de voto. O número surpreendeu, já que se admitia uma taxa de abstenção na casa dos 20% a 30%. Os angolanos escolhiam entre 19 partidos, quem os iria governar.
No dia 01 de Outubro, depois do ato eleitoral, era a loucura total em Luena. Todas aquelas urnas de voto tinham de ser rapidamente retiradas dos vários locais e trazidas para a capital do Moxico, de onde seguiriam de imediato para Luanda em C-130. O que havia levado semanas a montar, levava agora horas a desmontar.
Segundo os acordos de Bicesse, que travaram o conflito entre a UNITA e o MPLA e abriram espaço ao ato eleitoral, os resultados eleitorais só deveriam ser formalmente anunciados no dia 08 de Outubro. Contudo, a comunicação social divulgou-os conforme se ia sabendo os resultados parciais. 
No dia 3 de Outubro, Jonas Savimbi (então líder da UNITA) dirigiu uma «Mensagem à Nação», na qual expressava que não aceitava os resultados das eleições, por ter havido fraude. A violência escalou consideravelmente e o PNUD de Luena decidiu ativar o plano de evacuação que tinha elaborado. Luanda parecia continuar no controlo das forças governamentais, sendo a melhor saída para uma evacuação internacional. Decidiu-se voar para Luanda no dia 05 de Outubro. Entretanto, na capital do País, a situação de segurança estava a degradar-se de dia para dia. Após tratar de toda a burocracia da ONU, os militares portugueses receberam instruções para sair imediatamente de Luanda e regressar a Portugal no dia 08 de Outubro. Partiríamos nessa mesma tarde, num voo comercial que estava, obviamente, lotado, ao ponto de não haver catering para todos os passageiros. Cerca de 20 minutos após a descolagem de Luanda, o comandante de bordo utilizou o sistema de som para fazer um pequeno anúncio:
- “Senhoras e senhores passageiros, informamos que, por motivos de segurança, o Aeroporto Internacional de Luanda acabou de fechar a todo o tráfego aéreo, sem data anunciada para reabrir.”
Tínhamos conseguido sair de Luanda ”In Extremis”!
Quando, na tarde do dia seguinte desembarcámos em Lisboa, veio a notícia:
Os oficiais da UNITA abandonaram as (unificadas) Forças Armadas Angolanas e regressavam às suas anteriores posições. Tinha recomeçado a guerra civil Angolana. O governo português estava agora preocupado com a segurança dos nossos cidadãos que residiam em Angola. A Força Aérea preparou os seus (na altura) paraquedistas e os C-130, para retirarem os portugueses que estivessem em Angola e quisessem sair.
No início do mês de novembro de 1992, as Forças Armadas Portuguesas lançaram a “Operação Repatriamento”, com o objetivo de retirar de Angola os cidadãos portugueses que ali não desejassem permanecer. As Tropas Paraquedistas Portuguesas não tiveram de atuar, mas as aeronaves da FAP evacuaram de Angola cerca de 2 500 portugueses. O conflito interno Angolano assumia agora uma violência redobrada, inflamado por novas desconfianças e ódios.
A Guerra Civil Angolana só viria a finalizar com a morte em combate de Jonas Savimbi, num local muito próximo de Luena, no ano de 2002. O povo Angolano sofreu um conflito fratricida, durante 27 anos, com uma ligeira interrupção de “paz podre” para se fazerem eleições em 1992.

A experiência angariada naquela missão das Nações Unidas seria, décadas mais tarde, primordial na resolução de problemas numas outras eleições, igualmente problemáticas. Mas isso será matéria para uma outra “Estória de Missão ao serviço da ONU”.


(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)



Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.

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