quinta-feira, 30 de novembro de 2017

EVACUAÇÃO NO CHILOMBO

Chilombo - 1970 - Rui Jofre na evacuação do fuzo Valdemar, ferido por rebentamento de mina - foto de João Leitão Rodrigues


Tomamos a liberdade de transcrever excertos de uma "conversa" no FB, entre dois Enfermeiros Fusos, que fizeram comissão no Chilombo, José Luis Silva e João Leitão Rodrigues.

Decorria o ano de 1971, quando numa patrulha em botes navegando no Zambeze, a caminho da Lumbala, são violentamente atacados pelo IN. 
João Leitão Rodrigues e Rui Jofre,
 no Chilombo
Sózinho e sem qualquer outro apoio nos primeiros socorros, José Luís Silva consegue salvar de morte certa dois camaradas do seu pelotão, gravemente feridos.
Diz João Luís Silva:
Todos imaginam o quanto doloroso é escrever, ou falar, destas tristes recordações.
Num país que esqueceu os seus melhores filhos, nunca será demais recordar e homenagear os nosso Bravos e os nossos Heróis.
Camarada João Leitão, é com duas lágrimas rebeldes a rolarem pela minha face, que te envio o meu abraço fraterno e a minha homenagem, por saber que ambos partilhamos esse sentimento indescritível do dever cumprido ao salvar vidas de camaradas nossos.
Não posso terminar este pequeno apontamento de guerra, sem prestar homenagem a mais um herói desconhecido que me ajudou a salvar esses dois camaradas.
Foi ele um 1º. Sarg. piloto dos hélis (já completamente apanhado pelo síndroma da guerra), que ao cair da noite e ainda no ar, captou o SOS do nosso telegrafista e foi dos céus do Cazombo até à Lumbala Nova, já noite fechada e com a pista iluminada por tochas, fazer a evacuação dos nossos camaradas.
E, jamais esquecerei as palavras simples desse camarada piloto e herói desconhecido: "prefiro morrer por vocês do que deixá-los morrer aqui"!
Gostava, antes de morrer, ainda poder encontrar este Homem.

Pois bem, viemos a apurar entretanto, em conversa com João Leitão Rodrigues, que o piloto referenciado neste relato, era o nosso saudoso Rui Jofre.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

HELICANHÃO DE ALTO RISCO, NO ALTO CUITO

Heli canhão dos "primos" SAAF

Penso que agora, tantos anos passados, não haverá problema algum em contar esta história real, que se passou comigo.
Terá sido na vasta operação Zumbo 3H (
https://www.youtube.com/watch?v=0fWrFCdXmwI&t=156s), que se desenvolveu em toda a área do Batalhão e neste caso de certeza numa operação efectuada a partir do Alto do Cuito, na qual as nossas tropas foram helitransportadas para perto da zona de intervenção.
O meu pelotão não participou nessa operação onde foram utilizados como meio de transporte para os lançamento das nossa tropas, helicópteros dos "Primos", designação dada aos nossos amigos sul - africanos (SAAF), que montaram base por uns dias no Alto do Cuíto.
Em conversa com o Comandante do agrupamento , salvo erro um Tenente, que em simultâneo era o piloto do helicanhão, recebi o amável convite para ir com ele no lançamento das nossas tropas, a bordo do canhão que ia fazer a protecção aos outros helis com os grupos de combate.
Aceitei a proposta  e aí vou eu participar voluntariamente nesta experiência "única" como se veio a verificar de alto risco desnecessário. 
Só depois compreendi, que o objectivo do convite seria fazer-me enjoar, este facto segundo a praxe, teria como contrapartida o pagamento de uma grade de cervejas.
Efectuado o lançamento, segue-se o regresso dos helis ao quartel de Alto do Cuito tendo nós  no helicanhão ficado a sobrevoar a chana, e a admirar as cabras de mato que fugiam assustadas.
No helicanhão seguia o tenente, com o respectivo cinto de segurança, um sargento apontador do canhão, devidamente sentado com cinto de segurança colocado. e... pasme-se!!!!,
Por insensatez minha e logicamente também do tenente, eu ia sentado nas calmas, em equilíbrio instável simplesmente, em cima do caixote de munições do canhão, sem cinto nem qualquer tipo de segurança.
Naturalmente que o Tenente não devia ter deixado que aquela situação acontecesse tanto mais que naturalmente a porta do heli, estava aberta para o canhão operar.
Mas ... o pior viria a seguir.!!!
Dá-se então a maluca odisseia para me fazer enjoar. Seguindo o curso de um pequeno rio, afluente do rio Tempué, com o seu leito a serpentear por entre árvores nas margens, o heli começa a seguir o trajecto do rio, com voltas e meias voltas e eu a ver quando embatíamos numa árvore e ali ficávamos. Pura loucura.!!!
Como não resultou, pois eu não enjoei, voltou á chana seguindo quase rente ao solo. Surge entretanto uma cabra de mato que assustada e a mudar frequentemente de direcção, passou a ser acompanhada pelo heli nesse seu aflito  e brusco serpentear.
Nem assim eu enjoei.!!!! Perante esta resistência, o piloto muda de estratégia, e em plena  chana sobe o heli na vertical, com o motor na máxima potência  até uma altura elevada para, uma vez lá no cimo, "tirar motor" do heli, entrando logo de seguida em queda livre no vazio.
Tive a sensação que as minhas entranhas me bateram na garganta, mas refeito do susto e não dando parte de fraco disse-lhe: "Se não enjoei desta nunca mais enjoo".
Alto Cuito - foto de Gonçalo de Carvalho

Então o nosso “primo” dirigiu-se finalmente para a pista do quartel e eu ofereci-lhe, seguramente após as 5 horas da tarde, hora sagrada para o pessoal da Força Aérea Sul-africana, não uma cerveja mas um bom wisky velho, sem ter assim de cumprir a praxe da grade de cervejas.
Moral da história: Nós e Eles ,com os nossos vinte e poucos anos, chegávamos a correr riscos desnecessários, só porque a nossa jovem adrenalina assim o sugeria ou permitia.
Depois, os acidentes aconteciam e éramos eventualmente mais umas vítimas da GUERRA .!!!!

Por:


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

UMA MEMÓRIA DE 50 ANOS



Cumpriram-se em, 28 de Setembro, 50 anos da minha chegada à Guiné no HC-54 Skymaster 7504.
Guardei para sempre a recordação da abertura da porta de cabine dos passageiros e da baforada de ar quente rançoso e húmido, proveniente de águas paradas e dos muitos rios lodosos existentes no território.
Esta foi a antevisão desagradável do que nos esperava: um clima doentio e que marcaria indelevelmente para sempre as nossas vidas.
Para além de muitos outros de quem não guardo memória, chegaram no mesmo voo os Tenentes José Nico e Rui Balacó.
Com eles convivi na Esquadra de Fiat's até ao fim da comissão. Foram cerca de 22 meses em que interagimos diariamente na Esquadra de Tigres, eu como Mecânico na Linha da frente e eles Pil. Aviadores.


Pragmáticamente todos aceitamos o drama de guerra, irregular, assimétrica e mortífera que enfrentaríamos no futuro imediato, lutando para tentar preservar um legado deixado pelos nossos antepassados.
A guerra na Guiné teve características muito diferentes da que se travava em Angola e Moçambique. A elevada organização da guerrilha e a forma como a sua luta se iniciou, através de acções de combate e não com massacres como em Angola, eram reveladores das dificuldades que as FA iriam ter neste território. O movimento de guerrilheiros contra o qual iríamos lutar, era o Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde (PAIGC).
Na Guiné, não só os factores históricos e a hostilidade da geografia e do clima tornaram difícil a actuação das FA, como também as independências da Guiné-Conakry (1958) e do Senegal (1960) tiveram um importante papel na condução da guerra. Estes dois países foram uma importante fonte de apoio aos guerrilheiros do PAIGC, proporcionando-lhe refúgio a Norte, Leste e Sul, onde puderam estabelecer as suas bases e desencadear acções militares . O nível de organização do movimento e o armamento moderno de que dispunha (armas automáticas, morteiros, RPG’s, metralhadoras anti-aéreas) possibilitou aos guerrilheiros evoluírem de tal forma rápida que, em 1965, já tinham estendido a sua actuação a todo o território.
Para piorar a situação militar portuguesa, em termos de apoio aéreo, fundamental para a nossa defesa, devido a pressões exercidas pelos EUA, a FAP foi obrigada a retirar da Guiné os oito F-86F, a principal arma de ataque aéreo de que dispunha. 
Os primeiros Fiat G-91 na BA 12 - foto de Mário Santos

Desde a retirada destes, em finais de Outubro de 1964, e a chegada dos seus substitutos, os novos caças FIAT G-91 R4 adquiridos à Alemanha Ocidental. 
As missões de apoio aéreo próximo às forças no terreno foram entretanto garantidas pelas aeronaves T-6G. Este era um avião que estava longe de possuir o mesmo poder de fogo do anterior F-86F ou do posterior FIAT G-91 R4, o que terá contribuído para que no período de dezoito meses entre a saída de uns e a entrada ao serviço de outros, a guerrilha tenha reforçado a sua presença no terreno, especialmente na região a Sul. A inferioridade dos guerrilheiros na guerra aérea levou a que desde cedo procurassem anular esta vantagem da FAP, recorrendo para tal ao uso de artilharia anti-aérea e mais tarde ao míssil russo Strella AS-7.
No entanto, em minha opinião, terá sido precisamente o cansaço dos militares face a uma guerra sem solução política previsível e o ataque aos seus interesses corporativos de classe, os principais factores que levaram as FA a voltar a conspirar contra o regime, acabando por o derrubar em 1974.
Aqui deixo o meu abraço de grande estima ao General J.Nico e ao Coronel R.Balacó(que felizmente ainda se encontram entre nós) assim como a todos os companheiros de todas as Esquadras e que contribuíram com o seu esforço e as suas vidas para Portugal poder ter orgulho nos seus filhos que lutaram com honra e dignidade para preservar o que nos tinha sido legado!
As fotos não têm grande qualidade, devido às arcaicas câmaras fotográficas, mas são todas genuínas. A foto do Skymaster foi tirada pouco antes do seu abate e posterior desmantelamento, sendo portanto a mais recente e com melhor qualidade.

Por Mário Santos


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O MACACO "GALILEU" DO AM 95-CABINDA.

O Esgaio MRAD, com o amigo macaco do AM 95-Cabinda, em 1969


Certo dia, um da malta resolveu, com mais camaradas, levar o macaco para um "determinado bar", num musseque, nos arredores de Cabinda.
Pois foi o caos. A meio da noite, o "galileu" resolveu começar aos gritos, a correr pelas camas todas, onde estávamos com as nossas "companheiras", a puxar todas as roupas. Depois, sempre aos gritos, colocou nos seus pequenos ombros todas as roupas da malta que podia, e fugiu para a porta, sempre aos guinchos e gritos, como que a chamar por nós, os seus amigos do AM. 
Entretanto, o musseque acordou com toda aquela gritaria, saíram das cubatas todos os negros e negras, tudo assustado. Mais gritos e correrias mas agora por parte dos habitantes que viviam no musseque. Os gritos do "galileu" continuavam. Cada vez mais reboliço e confusão. Nós, à porta da tal casa, em pêlo, pois o macaco tinha-nos roubado as roupas . As "companheiras", também à porta, assustadas e tapando as suas naturezas pois a populaça tinha-se toda aglomerado ali.
Não sabemos como, apareceram 4 elementos da PM, a correrem para nós, pensando que estávamos a ser atacados (como mais tarde nos disseram). Nós, os do AM, quando vimos a PM a correr para nós, ficámos cheios de medo deles, e só tivemos esta opção quando alguém gritou: " Fujam, malta!! Senão vamos todos presos!!"
Palavras santas. Num abrir e fechar de olhos, pegámos o "galileu" nos braços, e nus, toca a correr pelo musseque, depois pelo alto capim até ao AM, onde chegámos estafados e com os bofes à boca.
Chegados ao arame farpado da rede do AM, pedimos a um dos PA que passasse palavra para nos abrirem o portão. Era madrugada e o dia já começava a romper. Naquele lusco fusco, corremos cada qual para a sua " camarata", mas às 8 horas já estávamos no  hastear da bandeira.

Foi um episódio que ficou para a historia dos que passaram pelo AM.
Só de salientar, que quando nós fugíamos, para o nosso "galileu" foi uma festa, pois , posso garantir, que os sons que ele emitia mais pareciam gargalhadas.
E com os dentes todos à mostra, como se ainda estivesse a gozar connosco.
Por Esgaio (Nazaré Maria).

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

CAGAÇO NO CAMAXILO

Camaxilo em 1964 - foto de Manuel Flórido Bem-Haja

Parece incrível mas nunca fui ao Cazombo! 
Fui ao Camaxilo uma única vez, para reparar o rádio farol pois uma daquelas habituais trovoadas queimou um dos circuitos.
Durante uma semana deu para um jogo de futebol contra o exército, que nos fornecia o pão e água. No final foi uma jantarada, no quartel do exército, cujo menu foi uma bacalhausada no forno. Um manjar dos deuses, para quem tinha passado dias a comer arroz com chouriço e chouriço com arroz, por causa de uma chuvada que nos estragou alguns víveres.
Por azar, nessa semana, o PV2 não nos levou abastecimento por motivos de uma missão.

Foi a semana mais acidentada que tive em Angola.
Durante essa estadia, numa das noites, a sentinela viu um vulto e disparou a FBP. Dado o
alarme, despertei do burro onde dormia e passei o resto da madrugada a carregar os carregadores da metralha. O sargento-ajudante de abastecimento, que lá tinha ido fazer o inventário, foi colocar-se junto aos bidons de combustível aguardando pelos acontecimentos, quando de repente um dos bidons deu um estrondo de contracção.
O homem deu um salto 
de susto e disse:- foda-se, as ajudas de custo não pagam o cagaço...e tudo terminou em bem, falso alarme.

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