sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

MEMÓRIAS DO INICIO DO AB4

Algumas recordações "trocadas" no Facebook, entre alguns dos pioneiros do AB4.

Manuel Flórido Bem-Haja: Lembro-me bem da primeira intervenção do PV2, assim como do pessoal que fazia parte do destacamento, segue foto.
Manuel Flórido Bem-Haja: Na foto sou o que está desfardado. A mesma foi tirada junto do edifício que a FAP tinha à entrada da cidade de Henrique de Carvalho. Belos tempos!!!


Bernardes Neves: Tens ideia da data do primeiro destacamento ?
Manuel Flórido Bem-Haja: Neste momento não o poderei dizer, pois não tenho junto de mim o álbum com as fotos e elas têm a data em que foram tiradas, quando verificar enviarei. Mas é muito antes da data em que essa foto do PV2 foi tirada, pois nessa data ainda não estavam instaladas as barracas e a torre que se veem na foto. O estacionamento do PV2 era na pista antiga, mais conhecida como pista da DTA. A primeira torre era móvel, mais conhecida por GUIDA (não sei donde veio o nome). Para quem não a conheceu envio foto.
Manuel Flórido Bem-Haja: Depois de consultar alguns elementos o puxar um pouco pela memória direi que o primeiro destacamento do PV 2 foi em Dezembro de 1962.
Samuel Girão: É possível que tenha sido em Dezembro de 62, pois eu fiz em Março de 63 um destacamento.
Joaquim Araújo Gomes: Passei por HC em 63 e 64 como Furriel 2º. piloto do PV2. Dormia-se em tendas o que não era mau !
Mário Arteiro: Uma pequena achega. Tanto quanto o Alemão permite recordo que havia quando cheguei, uma pista de laterite (DTA) com estacionamento para viaturas junto da aerogare de alvenaria com uma parede de tijolo e cobertura inclinada, e uma pista já aberta e em processo de asfaltagem que seria a pista do AB4. Quando "desaguamos" por volta do dia 25/26 de Dezembro de 1962 não havia ninguém no AB4. Só Havia pessoal das infraestruturas sob o comando do Capitão Horta, que tinha uma bela horta! O DO27 em Agosto de 1963 transportou minha filha do Dundo para HC talvez no dia 20! O PV2 e os T6 estavam lá ao tempo dos fogos reais em 1963, já com o Comando Agrupamento 11 pois tirei fotos durante os treinos das guarnições voando como pendura nos-T-6, que também ajudaram a definir rotas de aproximação a evitar. As fotos das posições tiradas do ar foram todas tiradas de bordo de T-6. Na altura dos fogos reais já havia a Torre no AB4 e estavam dois T-6 e um PV2 que participaram numa das sessões de fogos de Artilharia Antiaérea.
Manuel Flórido Bem-Haja: Amigo Arteiro em Dezembro 62, na verdade não havia ninguém no AB4. Eu cheguei a Henrique de Carvalho em Novembro 62 e apresentei-me ao Capitão Horta, instalei a Torre Movél e logo em seguida em Dezembro o primeiro PV2, muito antes do DO27 esses sim só começaram em 63 e também em destacamento. O pessoal ficava alojado no edificio das Infras e tomava as refeições numa casa particular do Sr. Vitor de Sá. Os primeiros voos ainda foram feitos na pista da DTA. Os primeiros T6 e DO 27 pertencentes ao AB4 só começaram a chegar em Abril/Maio, se a memória não me falha, nessa altura já estavam instaladas as barracas e as tendas, a Torre também já existia mas ainda não funcionava, o controlo era feito na Torre Móvel (GUIDA).
Mário Arteiro: Os nossos aviões apareceram depois dos aviões do Katanga, que aterraram no princípio do ano. recordo que falei para o Chefe do EM Major António Hermínio Monteny quando apanhamos as primeiras aeronaves no radar, ele não sabia de nada e juntou-se de imediato vindo em Jeep. As guarnições estavam prevenidas e aguardavam instruções e logo que o primeiro T6 da FAKA apareceu a abanar as asas, resolvemos deixá-lo aterrar por ser esse um sinal que considerávamos de "amigo".
Para além destes episódios recordo vagamente, que um dia apareceu no AB4 um Oficial Superior da FAP com um Auster e fui com ele dar uma volta para fazermos um reconhecimento numa zona onde havia caça... Não me recordo do nome. Fixei o episódio!
Manuel Flórido Bem-Haja: Recordo perfeitamente o episódio dos aviões do Katanga que lá aterraram, nessa altura não conseguimos entrar em contacto com eles (o que de principio nos assustou um pouco). Eram três T6 totalmente camuflados, uma Auster e um de passageiros mas que não sei o modelo, todos eles pilotados por mercenários. Quando os nossos pilotos foram buscar os ditos aviões o da Auster despenhou-se, mesmo ao cimo da pista da DTA tendo falecido.
Em relação ao Capitão Horta e pouco tempo depois Major, não posso deixar passar sem dizer que era uma excelente pessoa.
Joaquim Araújo Gomes: Os T6s vindos do Katanga teriam sido cedidos, ou vendidos, pelo governo Português, foi o que nessa altura entendi. Não me recordo da Auster acidentada. Nós recusamos servir de alvo com uma manga num PV2 para a artilharia treinar... No entanto, os pilotos mercenários, voluntariaram-se para com os T6s fazerem a «brincadeira». O Comando recusou.
Mário Arteiro: Mais uns "toques" do meu lado. Relativamente ao Manuel Flórido Bem-Haja os aviões que aterraram para além dos
T-6 "camuflados" ou mal pintados foram o Moineau Flyer DC-3 do Lider Katanguês pilotado pelo Jimmy Hedges, e um " primo" dos PV2 (PV1-Loadstar), um Dove e um Cessna. O DC3 depois de "conversa" ao ouvido levantou par ir buscar armamento e munições que tinham sido deixados do outro lado e podiam vir a ser usados contra nós. Entre outras armas havia mausers egícias, lança rockets italianos, pistolas- metralhadoras Berettas, Franhchi Brescia e britânicas Sterling de carregador lateral.
Manuel Flórido Bem-Haja: Boa memória Mário Arteiro, eram esses mesmo.
Mário Arteiro: Relativamente às afirmações de Joaquim Araújo Gomes, sobre os T6 abstenho-me de comentar quem os terá cedido aos Katangueses. Apenas sei, que aterraram e depois de ter aparecido um equipe da FAP, vinda de Luanda foram transferidos para a BA9. Os pilotos eram europeus, sendo um deles polaco. A Auster acidentada foi fotografada por mim e eu vi a sua queda, pois vinha a descer no sentido Norte Sul, ao longo da pista de laterite quando o acidente se deu. O piloto levantou voo e tentou flectir para a esquerda mas a aeronave entrou em perda e afocinhou. Não houve incêndio sequer mas quando chegamos perto já o piloto estava morto. Quanto aos exercícios de fogos reais por nós efectiados não houve mangas. Houve erros introduzidos nas alças das peças e os disparos foram feitos para os T6 da FAP. Eu ia bordo de um dos T6. Também houve um PV2 que participou mas não tenho ideia de ter sido considerado como "alvo". tenho apenas uma foto de passagem a baixa altura penso que para largar uns mimos perto da posição. Não recordo se o fez ou se apenas simolou.
Existe um livro escrito por um oficial de carreira sobre Salazar e Tschombé com informaçãos sobre as aeronaves que estiveram no AB4 (início) mas nem sequer se refere à sua passagem por lá.

Mário Arteiro: O 1º. Cabo César Portugal Alves da Cruz tinha brevet Civil há pouco tempo. O Capitão da FAP, que comandava o destacamento para transferir as aeronaves para Luanda, não se encontrava junto ao local do acidente no momento em que ocorreu. Ou estava no edifício das infraestruturas ou na Povoação talvez no Comando da ZIL. Apareceu pouco tempo depois.

Nota: As fotos, cedidas ao Blog pelo Mário Arteiro, referentes a alguns factos relatados podem ser vistas no álbum :
https://photos.google.com/share/AF1QipOcfJkwaNOXFwjVAfQ7jmxeqJ8Cu5ulLxWLM0Zkb-D0CGmgXBNPghudYVtVYlouSQ?key=WjdERFpkanVFOFlESzV0ZmNXRXlnSHRWVXppZTdn

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

MEMÓRIAS DA FAP

EPISÓDIOS DO DIA A DIA
OTA - RECRUTA
O comandante era um major, que tinha a mania das marchas de 40 km (lembranças da 1ª. Grande Guerra?).
Não sei qual era a dele(s), mas o meu pelotão ficava sempre no fim da coluna sofrendo os efeitos iô-iô, que quebravam o ritmo da marcha e estouravam qualquer um. Além disso ainda tínhamos que carregar as armas dos que iam caindo pelo caminho, e amparar muitos deles pelo resto do caminho.
Uma vez ele resolveu fazer uma marcha noturna. Dessa eu gostei. Tínhamos caminhado
apenas alguns kms quando um trator carregado com feno apareceu no fim da coluna. Subimos no reboque e fomos curtindo o passeio. O tratorista tinha um irmão em Angola e resolveu levar-nos até à aldeia dele onde havia uma festa com água-pé à vontade e onde as cachopas nos trouxeram broas de milho, presunto, salpicão, alheiras etc. Lembro-me de termos mostrado o nosso receio de perdermos a coluna. 
Essa eu resolvo, disse ele. Na volta deles eu ponho-os lá. E assim foi.
OTA - INSTRUÇÃO
Algumas vezes na semana tínhamos educação física. Em 100% das vezes acordavam-nos de madrugada para fazer um cross pelos pinheirais.
Logo da 1ª. vez, meio sonolentos passamos pela padaria da base. Um madeirense nos interpelou: não querem um pão quentinho? Mas que gostoso! Pão saindo do forno com manteiga. De lá, saímos para o chuveiro e coisa rara, com água quente.
Depois, cama outra vez. Daí em diante... venha o cross que eu gosto.
.....*.....
Durante a instrução todos os dias antes de seguirmos para as aulas, as turmas formavam na parada em duas ou três filas para uma revista. 
Cabelo, barba, fardamento, botas, etc.
Como naquela época éramos muitos, um oficial começava a revista pela 1ª. turma da direita e outro pela turma da esquerda. A minha turma ficava mais ou menos no centro. O nosso comandante de turma, um "cabeludo" cara de pau, sempre que um dos oficiais, chegava perto, mandava unir fileiras, e lá íamos nós (sem revista).
Acho que sempre pensaram que alguém já tinha passado a revista.
Aí comecei a aprender...!
.....*.....
De serviço num fim de semana e de namorada nova, eu tinha que ir para Lisboa.
Escalado para mecânico do dia (setor de transportes) fui à parada. No final dirigi-me ao oficial de dia e expus o meu problema (da namorada) e de que o pessoal (madeirenses e açorianos) resolveriam qualquer problema. Eu ia-me ausentar para Lisboa e só queria que ele não aparecesse por lá.
Se ocorresse algo de grave, eu nunca tinha tido aquela conversa com ele e estava ciente que cadeia era uma das opções. 
Ele concordou... e correu tudo bem.
OTA - ASSISTÊNCIA MÉDICA
Um dia de muito frio, ao sair da cama, fui de cara no chão. Minhas pernas estavam cheias de calombos que mais pareciam bolas de ténis.
Levaram-me  para a enfermaria. O médico ficou muito impressionado com o meu ataque de reumatismo(?) e receitou-me algo à base de penicilina, acho eu.
Quando fui á enfermaria para apanhar a injeção, o sargento ajudante olhou para a receita, olhou, e disse-me: vamos lá falar com o médico. 
Dr. disse ele, eu não posso aplicar a injeção. "Isso é muito caro para um soldado!" 
O médico argumentou que eu precisava, mas não adiantou. 
Deram-me outra coisa. Só resolvi o problema em Lisboa onde um tio que era médico me aplicou a tal injeção.
Isso me lembrou uma estória que meu pai me contava, e que se passou no quartel onde servia. Um cabo levou a esposa à enfermaria. 
O que ela tem perguntou o sargento? 
É essa ferida nos lábios dela que não sara. 
O sargento foi logo corrigindo-o "lábios não". Lábios só quem tem são as esposas dos oficiais. "As esposas de soldados e cabos têm beiços."
CONTROLADORES DE VOO (1963/1966)
Numa aula, se não estou em erro numa cabine de radar que ficava nas pistas da OTA, foi
recebido um pedido de ajuda (orientação de uma aeronave) que pretendia chegar não sei aonde. O comandante, um capitão (chico), resolveu mostrar como se fazia.
Deixem comigo! Pegou no manual de instrução e ... "começou a ler o manual". 
Terminou quando disse: Você está chegando à cabeceira da pista. Pode aterrar. 
Segundos depois o piloto diz: quem é o FDP que está aí? Estou aterrando na portagem da autoestrada de Lisboa...
.....*.....
Mais uma. Um dos controladores tinha um automóvel igual ao do comandante da OTA (um Vauxall preto). Na volta de Alenquer, todo o mundo já pra lá de Bagdá, ao chegarem ao portão da base, foram surpreendidos pela guarda apresentando armas.
Gostaram tanto que resolveram fazer uma ronda pela base, “quépi” sobre os olhos, passaram por vários postos, onde na maior cara de pau, chegavam a parar para perguntar se estava tudo bem. Até que... um dos sentinelas,  que costumava lavar o carro do comandante reparou na placa. Prego no fundo. O soldado atirou neles ou pró ar, e eles saíram pelas pistas e enfiaram-se por um pinheiral adentro onde abandonaram o carro. 
Eles pegaram o carro depois, mas no dia seguinte se falava de terroristas...
.....*.....
O meu irmão que era controlador de voo trabalhava em escala. Entrava de serviço de 15 em 15 dias. Isso não o liberava da obrigação de permanecer na base.
Ora pois! Saía de serviço e mandava-se para Lisboa. Quando o Capitão perguntava por ele: ainda há pouco o vi... diziam! Um telefonema e ele pegava um taxi. Pouco depois estava na base. 
Capitão o Sr. estava à minha procura? E lá estava ele de volta no mesmo taxi que o tinha trazido.
EM ANGOLA:
Contava-se a história de um controlador que detectou no radar um avião sobrevoando o nosso espaço aéreo e que recusava a identificar-se.
Nosso amigo começou a simular o lançamento de uma esquadrilha de F-84 instruindo-os para abater o avião não identificado. Bem o avião, pelo sim pelo não, resolveu descer...
Na pista tinha 3 PA de FBP na mão esperando por eles. Aviões não havia nenhum. Era só uma pista de apoio. Não sei como terminou.

"Esta história do controlador em Angola que obrigou um avião Belga a aterrar em Cabinda é verdadeira.
O controlador, que era 2º.sargento, quiz que o avião fizesse uma passagem baixa sobre o AM 95 - Cabinda para ser identificado. Como não o fez o controlador simulou contactos com os nosso aviões F84, dando "instruções ao piloto para interceptar o avião Belga, que era um avião de passageiros e de o conduzir e fazer aterrar em Cabinda. Simulou um diálogo com o suposto F84, fazendo aos microfones um ruido parecido dos jactos e assim houve uma aterragem forçada em Cabinda. Isto, creio que foi em 1963 e tenho pena de não me lembrar do sargento que protagonizou este acontecimento. Foi uma bronca das grandes como se deve calcular. O avião belga que foi forçado a aterrar, não tinha capacidade de descolar com os passageiros que levava a bordo. Assim ,estes, foram transportados pelos nossos Nord Atlas para Luanda e ali esperaram pelo avião forçado a aterrar em Cabinda. Isto foi alvo um processo disciplinar ao sargento controlador e quando se temia que fosse punido, acabou por ser louvado. Convivi de perto com este companheiro e, para alem de ser um óptimo camarada, era um espécie de dono do bar do aeroporto de Cabinda, onde corriam cervejolas a rodos. São histórias verdadeiras, que remetem para outras que a breve trecho anunciarei..
Adelino Assunção Santos"

Textos de:
Manuel Nhungue In Esp. FA do FB

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

VIVI DUAS VEZES

Extraordinário como por vezes, algumas palavras nos ficam na memória, como gravadas 
de forma a nunca mais saírem.
No longínquo ano de 1970, no Leste de Angola, mais de quarenta anos passados, atrevo-me a relembrar de forma escrita o que sempre, mas sempre, tenho presente nos meus sonhos, e até mesmo quando estou acordado.
Sim, também quando estou acordado vivo esses momentos com grande intensidade, tal como os meus amigos e ex-companheiros, por este mundo que nos vai atraiçoando dia a dia, esquecendo tudo o que fizemos por este País, que tudo faz para nos esquecer. Bem,mas como este não é o teor destas lembranças, chega de drama, porque não é por aí, que nos vão lembrar. Somos cada um de nós que deve manter viva, através de todo e qualquer meio, a esperança de vermos os nossos filhos e netos, um dia saberem e orgulharem-se de quem fomos e nos tornamos.
Fomos heróis, fomos sobreviventes, fomos paz e fomos guerra, fomos miúdos tornados homens muito cedo. 
Fomos miúdos homens que hoje não nos honram, porque nunca o foram os que no Poder, políticos, civis e militares, generais e ministros e presidentes da República.Zeca Afonso dizia “ eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”, e desde à quarenta anos aos dias de hoje, estes políticos, militares e outros “dizem muito mais mas não fazem nada”. Não sendo o que estava na minha mente, quando comecei este “desapontamento”, volto ao que me levou lembrar coisas boas que nos aconteceram, enquanto estávamos na flor da juventude, e os nossos ideais era vivermos o melhor possível naquela terra distante.Certo dia, não me recordo a data, partiu do Cazombo, em missão de “solidariedade”, uma formação composta pelos mais “altos dignitários” daquele A.M. para um ponto da Z.M.L., Lóvua, assim se chamava o local onde se haveria de dar um dos factos mais interessantes que vivi.

Ao aproximar-mo-nos deste Posto, o espanto marcou-me o rosto, com as imagens que me seguiam através da janela do helicóptero. Olhava para baixo pela janela do lado esquerdo e depois pelo lado direito e o meu espanto aumentava. De todas as direcções apareciam nativos, de cores coloridas vestidos, correndo para o ponto onde iríamos aterrar. Eram mil…não…dois mil e quinhentos…não, talvez fossem até cerca de cinco mil, tal era a multidão, espantoso! Cerca de cinco mil nativos (se calhar estou a exagerar) que se deslocaram de terras longínquas para apenas poderem ver os “Altos Dignatários” que se dignaram visitar aquelas terras do “fim do mundo”.
A história foi preparada pelo chefe de posto, um homem afável e simpático, de que me recordo apenas do seu apelido, Sousa, em homenagem aos sobreviventes de um acidente de avião na zona da sua jurisdição, (isso é outra estória) e, que muito o alegrou. Por isso convidou uma comitiva da F.A. para abençoar com uma bela “almoçarada”, o que (eu) apenas conhecia como um simples almoço.
O heli, pilotado pelo “enorme” Alf.Serra, trazia o também Alf. A.T. eu, e mais três camaradas, que não me recordo de seus nomes, mas éramos seis, os que viajámos no heli. Apenas o Serra ia fardado, todos os outros trajavam á civil e bem vestidos para a ocasião. Quando aterrámos, fomos recebidos apoteóticamente por toda aquela gente que se manifestava como só eles o sabem fazer, dançando, cantando e manifestando uma sensação contagiante de alegria.
Fomos recebidos com pompa e circunstância pelo administrador do posto, professor da escola, e chefes tribais. Após as primeiras apresentações (desde Governador Geral até Príncipes daqui e de acolá”, logo á saída do heli, esperava-nos uma revista às milícias em parada, com o Alf. A.T. (“Governador Geral”) , a passar revista ás tropas em parada.
A boa vontade e querer daquelas pessoas era absolutamente extraordinária, pois nessa revista, havia quem estivesse descalço, enquanto outros de botas ou alpercatas, se perfilavam de forma garbosa e altiva, independentemente do aspecto esfarrapado das suas vestes, pois cada um vestia aquilo que tinha de melhor para a ocasião.
Após estas manifestações solenes, onde até foi cantado o hino nacional, pelo meninos da escola local, (estranhamente comovente), esperava-nos um “beberete”.
Antes do almoço, enquanto bebericávamos e conversávamos, os chefes tribais (sobas) tentavam perceber como funcionava o héli, com perguntas e mais perguntas. A uma altura o A.T. fez uma proposta irrecusável aos “sobas”, ir dar uma “volta” de helicóptero. 
Assim foi.

O Alf.Serra foi o cicerone de serviço levando, penso que, dois dos “sobas” a dar uma volta. Todas as peripécias que possamos imaginar foram praticadas neste voo de baptismo. Os “sobas”, eram homens bem entrados na idade, pois seriam pessoas que teriam pelo menos 80 anos (dizia-se que um homem negro, quando pinta... três trinta, o que quer dizer que um homem com o cabelo todo branco teria pelo menos três vezes trinta anos) e estes teriam.Depois da “voltinha”, quando aterraram, vinham calmos e serenos, contra todas as nossas expectativas e mais espantados ficamos quando um deles, dirigindo-se ao “Gov.Geral”, lhe agradeceu a oportunidade e disse em dialecto local, que, depois de traduzido era o seguinte «Vivi duas vezes. Antes de andar de “zingarelho”e depois de andar de zingarelho». 
Foi uma fantástica lição de alegria e harmonia transmitida por aqueles anciãos, mostrando-nos como é feita a vida, na sua complexa simplicidade. Depois destas manifestações, de boa política, esperava-nos a mais espectacular recepção de boas vindas, num, que seria um fabuloso almoço oferecido pelo Chefe de Posto.
A sala, bem decorada e sóbria dava para um alpendre bastante largo, de vistas amplas como era normal nestas casas de Posto. Havia uma enorme mesa colocada em T com toalha imaculadamente branca, onde sobressaia o serviço dos pratos e copos de qualidade muito boa.
Quando nos sentámos naquela mesa, senti aquela sensação de que é bom viver, ter todo aquele “luxo”, naquele “fim de mundo”, fazendo-nos sentir, se bem por breve tempo, que estávamos em casa.
A refeição, composta por entradas variadas e com uma ementa de carne e peixe de que não me recordo concretamente mas composta por vários “pratos” era excelente. Servido por criados de mesa, negros, vestidos a rigor nos seus trajos brancos, dando aquela visão, como que saído de um filme dos tempos coloniais ingleses. Tudo a rigor.
Pelas 14 horas, deu-se início a este repasto que se prolongou até já ser noite.
Durante o almoço, sempre acompanhados de perto pela população indígena que se amontoava no alpendre (mais as crianças) festejava-se com cânticos e danças no exterior, abrilhantando ainda mais este evento que, viria a ser ainda mais espectacular, quando o A.T. tira da “cartola” o momento mágico da tarde, ao colocar no meio dos miúdos que nos “espiavam” no alpendre, o seu gravador de som, fazendo com que o espanto se espelhasse nas faces, ao ouvirem reproduzidas as suas vozes como que por magia. Foram tantas e repetidas as vezes que se gravaram as suas vozes e de cada vez que o fazia os seus espantos eram sempre ainda maiores. Foram momentos lindos e absolutamente inesquecíveis.


O dia foi-se cumprindo e com isso a noite foi chegando. Aquele povo não arredou pé até às tantas da noite, sempre dançando e cantando com alma de quem vive feliz, em paz consigo mesmo.
No dia seguinte aos primeiros raios de sol, regressámos à base, levando imagens que jamais serão apagadas.

Nota:
O Alf. A.T escusou-se a que o seu nome fosse mencionado.Com grande pena da minha pena, porque ele fez parte da história, e com relutância e apenas pelo respeito à sua vontade, o seu desejo é satisfeito.
Talvez um dia, quem sabe....queira dizer quem é.

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS

Vi-o descer pelo carreiro da restolha do Calaia. Cana de pesca na mão direita, cacifo sobre o ombro, andar compassado ao ritmo das irregularidades do caminho. A pesca era destino. 
Para as poldras de Baçal ou talvez a represa da Camila. O Sabor corria-lhe no sangue. Nunca estava mais que uma semana sem visitar o rio.
-- Não te despedes do rapaz?
-- Já há muito que me ando a despedir dele, ouvi em voz morta de angústia.
--Nem parece teu..
-- Oh mulher, isto é uma vida danada. O outro já na Guiné, agora este para Angola!
-- Foi assim que quiseste! Os da D. Ofélia também são gémeos e foi um de cada vez.
--Sim, sim, mas prefiro passar dois anos em sofrimento do que quatro em permanente agonia. Não ia aguentar tanto tempo, na incerteza de dias sem Sol na alma, nem ter notícias amiúde.
-- Nossa senhora dos Montes Ermos há-de protegê-los, estou cheia de fé.
-- Pois, pois, Nossa Senhora…
Ouvi a porta bater, o som lento das botas a descer as escadas, o ranger do portão que dava para a rua.
-- António Júlio, anda comer! As sopas já estão no sítio.
Entrei na cozinha, a malga fumegante com sopas de café com leite eram fiéis ao local. No parapeito da janela da cozinha que davam para a restolha. Desde os tempos do liceu que era assim. Dali via os lameiros onde depois das aulas jogávamos à bola.
Em cima do aparador, o velho rádio dava som a “aprés toi”na voz de Vicky Leandros, ainda fresca pela vitória alcançada no festival da eurovisão desse ano.
Continuei a vê-lo, baixou ao lameiro do Lima e parou. Voltou o rosto e olhou para a janela durante alguns minutos. Sabia bem que eu estava lá. Não fez qualquer sinal, parou a olhar!
Eu sei pai, que não gostavas que te víssemos chorar. Só uma vez o fizeste diante de nós. Lembro-me do comício ,que a oposição ao regime fez em clandestinidade na serração do Martins Novo. Eu estudante , tu um pai cheio de ideais, cantámos o hino nacional e saíram-te umas lágrimas de liberdade.
Sei porque saíste sem despedida, sei que não ias à pesca, sei, que quando o combóio saísse de Bragança, já estarias em casa.

Continuou a afastar-se, agora em passo mais apressado, atravessou o lameiro da Joana Dias e perdeu-se na lomba da estrada junto à quinta de Ricafé.
Era tempo de ir para a estação. A mãe acompanhou-me até ao portão banhada em lágrimas. O correio, na pessoa do velho Conhés tirava da sacola um aerograma.
--Cá está mais um , vem da Guiné!
A ansiedade apoderou-se de ambos . Abri e comecei a ler.
…O Júlio já foi para Angola?
…Os da aviação têm uma vida melhor que nós, tudo há-de correr bem com ele!
Irmão porque não retardaste um pouco mais as tuas notícias? A emoção quase me fazia perder o combóio.

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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O AB4 E O 1º. DESTACAMENTO NO CAZOMBO

Vista aérea do AB4 e de Henrique de Carvalho
Quando cheguei a H.C. em Março 1970, fiquei imediatamente impressionado com o ambiente.Quando o “barriga de ginguba” aterrou apeteceu-me quase de imediato pirar-me dali. Agora que já lá estava, as coisas pareciam-me bem piores do que me foi dito, quando dos meus dias em Luanda. Havia uma turba de indivíduos que gritavam e gesticulavam perguntando pelos seus “mikes” (substitutos). Havia quem se passeasse com um carrinho de arames e até quem tinha a mala pronta para o embarque ainda que soubesse que ainda não era o seu dia. Pensei cá para os meus botões, - cheguei ao fim do mundo - e daqui só sairei com pelo menos, mais de dois anos de comissão, o que era normal com a “lerpa”, pois havia quem já estivesse a “lerpar à mais de quatro meses, dependendo da especialidade, visto fazermos rendições individuais.Não tive problemas em me integrar no grupo pois por acaso, vim a saber também lá estava um amigo, de à muitos anos, quase infância, o meu amigo Rui Pires OPC, e que já não era nenhum maçarico, o que até permitiu que não fosse “praxado“ nesse mesmo dia, aliás, não cheguei a ser praxado, portanto a “coisa” até não corria mal.Colocado que fui no Hangar de Manutenção, para aprendizagem agora já a sério, a vida foi
Á espera do autocarro para a cidade
decorrendo, fui tomando os conhecimentos necessários, até ter ido para a “linha da frente para arranjar tarimba".
Naturalmente, como todos, as saídas para a cidade era o ponto alto do dia, onde fazíamos tudo para conhecermos as tascas, tasquinhas, ir ao cinema e ver os jogos de futebol de cinco, e, especialmente conhecermos miúdas. (Enfim, depois logo se via.)
CAZOMBO o meu 1º destacamento.Depois de 3 meses de tirocínio na manutenção e na linha da frente, no dia 22 de Julho recebo ordem de marcha para o meu 1º destacamento. Quando esse dia chega acho que é o mesmo que um piloto sente, quando pela 1º vez toma os comandos de um avião e levanta voo sozinho. É um misto de alegria e responsabilidade. Não temos ninguém connosco. Estamos sozinhos, e assim foi. Claro que estava atemorizado, era a minha primeira comissão em destacamento, isto apesar de sempre ter sido apoiado pelos meus colegas que me diziam que para o sítio para onde ia, não era mau de todo e lá vou eu. Cazombo AM43.Quando cheguei fui bem recebido por todos os camaradas e rapidamente me entrosei no grupo e no ambiente do AM.
Durante os primeiros dias de adaptação pouco conheci do Cazombo a não ser praticamente o AM e pouco mais.Certo dia, convidado por um VCC, de seu nome Sousa MMT,  de alcunha“CHILENGALENGA” (entre os nativos), para visitar uma das sanzalas, preparei-me para a primeira incursão aos Kimbos.
Claro que, como bom militar que se preze para “entrar nas linhas do inimigo”, aperaltei-me da melhor forma: camuflado, cinturão, faca de mato, (todos tínhamos uma) e ia continuar a abastecer-me quando o Sousa apareceu, olhou para mim, riu-se e com ar de reprovação disse-me que não íamos para nenhuma guerra, íamos apenas á sanzala.Ora bem, perante o ar divertido do Sousa, lá me dispus a desfazer-me dos meus argumentos bélicos e acompanhá-lo, tal como ele iria…sem nada. Assim foi. Para quem conhece África, sabe que a noite é mesmo noite, e só os mais afoitos se atreviam a entrar por aquele mato e caminhos, sem qualquer visibilidade, conduzidos apenas pelos seus sentidos de orientação, e pelos sons

O Cazombo tinha em seu redor 6 ou 7 sanzalas. Havia quem dissesse que uma delas era de “turras”, pois, de dia apenas se viam mulheres, crianças e velhos, mas que pela noite, não eram apenas estes que lá estavam. Havia já rapazes e homens feitos que apareciam.Nunca liguei, pois não me parecia possível, que com tanta vigilância, alguém se atrevesse a ir a essa sanzala. Na verdade a vigilância era nula, pelo menos da parte militar, pois não sei como era com a DGS, infiltrada que estava em todo o lado, no entanto, todos os dias as cenas eram as mesmas. À noite havia outro tipo de habitante, os chamados “turras”.Ora bem, então o “Chilengalenga” e eu, lá nos embrenhamos por aquela escuridão, (autêntica aventura). Eu é que me aventurei pois para o Sousa aquelas incursões, era o pão nosso de cada dia.Avançando pelo negro da noite, apenas com as estrelas a servirem de candeeiros, lá fomos avançando pelo trilho já muito batido.O Sousa ia falando comigo, sobre tudo e mais alguma coisa e eu nem aí estava… o meu
pensamento era apenas…. Onde estou metido! Porque me meti nisto? Estava tão bem! E assim nos fomos aproximando da sanzala dos “turras”. Quando já se viam a luz das fogueiras, comecei a ficar mais perto do Sousa, que ia desbravando o caminho, (também nunca estive longe dele), quando de repente, assim do nada, ouço uma voz, voz ao meu ouvido, voz grave e profunda que disse: Euá chindere,…moyo.Nesse momento mijei-me todo, (não na verdadeira acepção da palavra) e sem quase reação nenhuma respondi, Moyo ué.O Sousa deu um riso (qual hiena) de gozo, pois a ele não lhe disseram nada, deixando-o passar e esperando apenas por mim, naquilo que eu considerei ser o meu baptismo de visitante autorizado, àquela aldeia, abençoado pelo Chilengalenga.Fui recebido como convidado e como tal, ainda me sentei à fogueira, falei com os “caxanacaxa”, (os mais velhos) e bebi algo parecido com caxipembe, ou marufo, e fui mais “alegre “para o AM.

Nota:CHILENGALENGA, queria dizer no dialecto Quioco - o que vai e o que volta -

Eu voltava sempre
Moyo

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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

ESQUADRA 94 - BA9

Os helicópteros iam para o Negage, no planalto do Uíge, o centro do terrorismo, onde, de facto, de acordo com os acontecimentos, pareciam ser mais necessários. Pelo menos era do que eu pensava saber quando embarquei para o Ultramar... E a razão porque eu estava agora no Aeródromo Base 3. 
Mas não foram.
AB3 Negage
O tenente Rego de Sousa era da "velha Guarda", vinha de cabo piloto, do tempo logo a seguir aos finais da Segunda Guerra; conhecia - e se calhar tratava por tu - uma boa parte dos oficiais superiores que na altura comandavam a Segunda Região Aérea.      Cá para mim - com a importância do peso da veterania - os seus argumentos devem ter sido retumbantes: Os helicópteros ficaram para sempre na Base Aérea 9.
Uma longa Noite
Para dar assistência ao Alouette II que se encontrava destacado em Cabinda, era a mim que calhava passar uma temporada no território. O piloto era o Assunção, um velho conhecido do tempo dos Helldivers, no Montijo. (Pelos anos 55 ou 56, uma das suas "diversões", era mergulhar o bombardeiro pela Serra da Arrábida abaixo para sair a rapar a praia; a outra, era visitar a namorada ao Algarve, às vezes, acompanhar a volta a Portugal em bicicleta. Por umas duas vezes, porque o motor tinha resolvido asnear, pouco faltou para ficarmos pelo caminho).
Logo a seguir ao Rego de Sousa, dos sargentos, o Assunção tinha sido dos primeiros pilotos a voar de Alouette II na Base Aérea 6. Durante três anos tínhamos andado por todo o lado... até aos melões, nas terras das redondezas, durante a manhã, que íamos depois comer, na parte da tarde, refastelados nas margens da Lagoa de Albufeira.
E lá íamos nós por cima do Maiombe, a transportar três engenheiros, creio que para
Buco-Zau ou Miconge, bastante perto da fronteira Norte do território do enclave de Cabinda. Assunção ligou-me através da interfonia.- Não estás a ouvir uma chiadeira na embraiagem?... - perguntou ele.
Eu ia distraído, a ver a paisagem, se calhar a conjecturar onde é que ele ia "pôr o estojo" se o "fogareiro" lá atrás lhe desse para fazer das suas. Adiantei qualquer coisa sem nenhuma convicção. Logo a seguir aterrámos no destacamento militar de Belize. Passei uma inspecção minuciosa ao helicóptero, como ver através do tambor para o interior da embraiagem me ultrapassava, concluí que me parecia tudo normal. O Zé concordou...
- Mas a chiadeira vem dali. - Apontou o acessório rotativo, entre o motor e a roda livre.
Que o piloto não ia sair dali com o aparelho a voar naquele dia já eu calculava, mas que estivesse a engendrar a luminosa ideia de atravessar o Maiombe por estrada, só duma cabeça prodigiosa.
- Mas para quê?... Se vamos chegar a Cabinda altas horas da madrugada?
- Vou arranjar um transporte - resolveu ele a auscultar o entardecer. Atirou um "volto já", regressou passados uns minutos com um jipe. Além do condutor, trazia com ele um soldado de escolta armado de G-3.
Os nossos passageiros não tinham perdido tempo: Tinham desaparecido noutro jipe pelo Maiombe dentro. Protegi o helicóptero com o que tinha à mão, um quarto de hora mais tarde seguíamos na peugada dos três técnicos.
A tarde tinha caído. Se ainda não era noite fechada, não demorou muito a acender as luzes do jipe depois de entrar na floresta. Tudo bem, não era nada do outro mundo... Devíamos chegar a Cabinda por volta da meia noite. Cerca duma hora depois, de repente, sem enxergar um palmo em redor, ficámos paralisados, a tentar ver a cara uns dos outros: Tínhamos ficado sem luzes, reduzidos à chama do isqueiro do Zé em pleno coração do Maiombe.
- Não fumem... não façam nenhum barulho - recomendou o sargento-ajudante.
Com excepção duns recontros próximo da fronteira já há uns tempos, ao que constava, não havia terrorismo no enclave. Pois sim. Mas isso era o que se dizia. Para quatro gatos pingados dentro dum jipe na total escuridão e no meio do desconhecido, a conversa era diferente.
- Não passámos à pouco por uma tabuleta, num cruzamento? - perguntou o piloto.
- Passámos sim, meu ajudante - respondeu o condutor. - Era a estrada para a Chiaca.
O soldado explicou que havia lá um quartel, adiantou qual era a unidade lá estacionada.
- Veja lá se os farolins de trás funcionam... Óptimo... funcionam. Você é capaz de levar o jipe de marcha atrás até lá? - E acrescentou: - Quando estiver cansado, diga-me... eu guio, se for preciso.
Pelos vistos, devia ser comum na unidade os carros entrarem na porta de armas de marcha atrás às tantas da noite. Ninguém ligou nenhuma. Se eu não soubesse já do que os militares são capazes mesmo em campanha se o comando abranda, era capaz de pensar que a Chiaca era um campo de férias. Mas não era. Embora com a guerrilha mais controlada que no Norte de Angola, não eram despropositadas algumas precauções. Eu alimentava uma esperança: Não me parecia que um sargento largasse um serão tranquilo para reparar uma avaria àquela hora da noite. Enganei-me. "Era o mínimo que ele podia fazer pelos amigos da Força Aérea". Ia explodindo quando vi o sorja ligar as luzes, anunciar com um largo sorriso que podíamos seguir viagem. Rosnei um dos mais violentos impropérios do meu vocabulário, com um furioso pontapé na carroçaria entrei no jipe. Arrancámos. O primeiro-sargento correu atrás de nós. Entregou ao piloto um bocado de cabo eléctrico desfiado.- É melhor levar isto... - recomendou. Apontou a lanterna à caixa dos fusíveis, retirou um deles e explicou: - O fusível é este. Se voltar a fundir, basta colocar de novo mais três destes fios. Não ponha mais de três... Isso pode "rebentar" de vez com as lâmpadas dos faróis... Se puser menos, o mais certo é não aguentarem mais de dois minutos.
Parecia não ser preciso. Fartámo-nos de galgar quilómetros sem recorrer aos ensinamentos do sargento. Foi esse o problema: É que agora, se sabíamos estar a dezenas de quilómetros de qualquer lado, não fazíamos a menor ideia de onde nos encontrávamos. Tínhamos a mezinha, todavia: O Assunção tirou o isqueiro. Estendeu-o ao condutor, disse-lhe para o acender escondido por baixo do volante, em segundos reparou o fusível. Se aguentasse tanto como o anterior... Não durou nem dez minutos; os seguintes nem isso. Os filamentos que restavam começaram a fundir a cada volta das rodas. Esgotados os últimos recursos, acabámos parados na escuridão. Com o pressentimento de que ao passar por uma aldeia indígena, num cruzamento antes, tínhamos entrado na estrada errada, um dos soldados teve a luminosa ideia de alvitrar que estávamos a dois passos da fronteira do Congo.
Andámos um bocado em marcha atrás, parámos à entrada da aldeia.
- Vocês já ouviram falar de problemas por aqui? - perguntou o piloto.
Os dois soldados disseram que não. Não tinham tido nenhum problema no território... pelo menos não sabiam de nada por ali... Só há uns tempos, na fronteira Norte.
- Vamos lá perguntar então onde estamos - resolveu o Assunção.
Tirou a Walter do coldre, os dois soldados seguiram-no de arma aperrada. Sem saber o que faria com aquilo, preparei a FBP. Batemos à porta duma palhota, um dos soldados chamou o morador por um genérico da língua nativa.
Fiquei abismado. O ancião de cabelos brancos que abriu a porta era um europeu sem tirar nem pôr. Exceptuando a cor da pele, nada nele parecia ter a ver com as feições da generalidade dos autóctones africanos. Segurava um lampião como o que eu vira centenas de vezes na mão do meu avô; talvez sugestionado por isso, a última coisa que me ocorreria encontrar em África era alguém com tantas parecenças com o homem que me tinha criado. Compreendia e falava um pouco de português, o bastante para nos entendermos.
Sim, estávamos muito perto da fronteira, compreendemos. Entre mais umas palavras soltas, percebemos também que não estávamos em perigo... Podíamos enfim respirar fundo, talvez descansar um pouco até ao amanhecer. Quando lhe sugerimos que se fosse deitar, recusou, deu a entender que ficaria ali a alumiar-nos o resto da noite. E ficou. Ao que parecia, estava a apreciar a nossa presença. Uma boa hora mais tarde indicou uma direcção, pronunciou umas palavras. Um dos soldados arranhava o dialecto do território:- Está a dizer que vêm aí carros - traduziu ele.
Nós não ouvíamos nada. Por mais que apurássemos os sentidos, tudo quanto detectávamos era o restolhar nocturno da floresta. Quisemos saber se ele era capaz de nos adiantar mais alguma coisa. Calámo-nos todos, ninguém bulia uma palha; deixámos ao ancião a tarefa de auscultar a noite. Eram muitos carros, traduziu o soldado, de novo.
- Sim... Diz que vão passar por aqui - adiantou, depois da explicação do autóctone.
Era uma coluna militar, concluímos com grande satisfação. Agora era apenas uma questão de esperar um pouco mais. Era a minha primeira experiência com os efeitos da poluição sonora: O que nós só ouvimos quase uma hora depois, conseguia aquele homem escutar, até com pormenores, a dezenas de quilómetros de distância.
Vislumbrei na penumbra dos faróis uma série de soldados a saltarem da viatura, um outro saía da cabina na nossa direcção. Era o comandante da coluna. Perguntou o que estávamos ali fazer, dirigiu-se para mim e para o piloto:
- Mas vocês são positivamente doidos!... Sabem onde estão?... - perguntou o alferes.
Esqueceu os dois soldados. Eles não tinham nada a ver com aquilo, tinham-se limitado a cumprir ordens. Se havia responsáveis naquilo, só podiam ser o sargento-ajudante e o sargento magrinho da FBP. Era verdade: Eu acompanhara o piloto porque queria, ninguém me tinha obrigado... Se calhar, era também o que ele faria.
O alferes voltou à carga. Centrou a atenção no mais graduado:
- Meu caro amigo, você esteve a milímetros de meter este pessoal numa alhada levada dos diabos... Embora não se conheçam acções da guerrilha por aqui, o gajo que vos autorizou a fazer esta viagem deve estar doido varrido. - Pôs a mão no ombro do Assunção. - Foi uma sorte do caraças você não poder continuar o caminho... mais uma meia dúzia de quilómetros por aquela estrada, vocês entravam direitinhos pelo Congo dentro.
Regressámos na coluna à Chiaca. O resto da noite passámo-la a procurar dormir em "cadeirões" de aduelas de barril. Talvez o conseguíssemos... Não fosse a "serenata" que um bode nos dedicou toda a madrugada.      Depois do suplício, os primeiros raios do dia foram uma benção. Contudo, com 27 anos na altura, minutos depois estava pronto para outra. Aquela longa noite, no entanto, ficou para sempre. É que os "apertos" de momento passam com o tempo, mas horas a fio com o credo na boca, são outra coisa... Às vezes demoram a esquecer.
AM 95 Cabinda

Texto publicado por especial deferência de Aniceto Carvalho
e transcrito do seu site "Aviação Portuguesa" http://aerodino.no.sapo.pt/index.html


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

OS FOGUETES DE CARIPANDE

Era uma missão de rotina, não um passeio, mas uma “visita”à zona do saliente do Cazombo no extremo sul, onde Caripande era farol de vigia entre Angola e a Zambia.

O capitão Carlos Acabado, fizera um pequeno briefing na véspera e combinámos que, sem um plano de voo muito rígido, seguiríamos o Zambeze até ao ponto onde o rio se escapa das chanas luenas e corre para o mar por terras que outrora foi tratado por Mapa Cor de Rosa.
Cinco e meia da madrugada , o “velho” Tomás, preparava os aviões com o amor que o especialista dedica aos seus meninos. O MMA instalou o ninho das metralhadoras . Ficavam elegantes e agressivos os T-6 “vestidos” a rigor!
Saímos da sala de operações, os aviões como destino. O Sol passeava-se fresco nas montanhas do Macondo, ansioso por dar um beijo matinal à enfeitiçada Calunda.
Em África gostava de voar bem cedo. Sentia-me no conforto de uma alvorada cheia de força , que roubava ao sol menino a pujança  do seu nascimento.
Apertei o paraquedas
Subi para o T6, sobre asa apertei o pára quedas e ajustei o capacete. No avião do lado o capitão Acabado fez em código manual o gesto de que tudo estava bem.  Entrámos na carlinga, os procedimentos habituais; motores em marcha, o silêncio feliz por despertar com o ronco do motor daquele avião, “menino” mágico de uma geração que nele bebeu a feliz experiência de voar.
Alinhados na pista em formação cerrada, tinha sido o combinado, motor em “boost” máximo, descolagem na direcção do Oeste. O Zambeze fica para trás ainda na linha de subida. Estabilizámos no nível 02, sinal para passar a formação aberta.
O Cavungo surge cinco milhas mais á frente, o pequeno quartel das forças terrestres, sobressai da sanzala.
Enquanto me afastava do avião do comandante, o pensamento escapou para a presença daquele homem. Era diferente o capitão com o equipamento de voo vestido. Não lhe deixava sobressair a cor branca de neve do seu cabelo de sempre, ao meu conhecimento.
Cavungo - foto de José Carlos Macedo
Quando o vi pela primeira vez, adoptei-o como o meu preferido. Voar com ele era sonho e desejo de todos os mais novos. O seu carácter, a sua amizade a confiança que transmitia! Naquele dia segui-o com orgulho, estava com o meu protector
.
Sempre senti um respirar de magia, quando sobrevoava o Cavungo. Ali, no seu trono de bambu, Nhakatolo rainha do povo Luena, matriarca única em todo o território angolano, fora senhora recebida em Belém por presidente português com honras de majestade. Ali nos confins do mundo, uma rainha! Um povo em veneração, uma lenda noutros povos.
--Baixar para o nível 01, transmitiu o chefe.
Descida suave para as margens do rio. Havia indícios, por informações da DGS que, trilhos de guerrilheiros africanos, poderiam estar a evoluir para o Chilombo, aquartelamento dos fuzileiros, na outra margem.
Chilombo
Como estava lindo o Zambeze naquele dia! A mata de matizes verdes múltiplos, parecia querer sufocá-lo com a candura de mãe protectora. Deslizava imponente mas sereno, tranquilo na longa caminhada até ao Índico. Olhei as águas verdes das sombras da mata, vi crocodilos sonolentos, destronados no seu poder, deslizar assustados para o fundo do rio, desconfortáveis com o ruido dos motores.
Na passagem pelo Chilombo os “fuzos”, vieram ao terreiro do quartel, abanando os braços em gestos de convite para almoçar. Mesmo sabendo da impossibilidade técnica, de se fazer uma aterragem, mostravam a sua principal característica no teatro de guerra, eram uns bons compinchas os rapazes do Chilombo!
Continuámos a acompanhar a marcha do rio, passar na Lumbala era destino obrigatório. Um abanar de asas para cumprimentar os amigos do exército, duas voltas apertadas sobre os tectos de zinco que cobriam as instalações, voltámos em direcção ao destino. Gostava da Lumbala o Cap. Acabado! Ali viveu algumas das histórias com que decorou o seu livro Kinda e outras histórias de uma guerra esquecida, obra de grau elevado na narração de humanismo, lealdade e carácter,que uma guerra também pode mostrar. 
Já li e reli, não me canso!
Chegámos ao canto Sul do saliente do Cazombo, a fronteira com a Zâmbia, aparecia qual estrada em linha recta ao longo de dezenas de quilómetros. Voávamos a cerca de mil pés acima do solo, francamente dentro do espaço aéreo angolano. Parecia  que o céu tinha aberto as portas à nossa missão. Nem um ai de turbulência, tranquilidade total. Observava o solo procurando qualquer carreiro por onde o inimigo fizesse travessia. De vez em quando via rádio, trocava palavras de circunstância com o chefe da parelha.
O canto sul - foto de Eduardo Cruz
Olhei para a carlinga do T6 do comandante. Sorridente, assinalou com o polegar que tudo estava OK. Retribuí o sinal. Quando voltei à posição normal, o meu espanto!.. Novelos de fumo por cima da minha asa esquerda davam ar de arraial em festa de aldeia.
--Numero um veja nas suas nove horas!
Acompanhei-lhe o olhar, os novelos eram cada vez em maior número…
--Paquito, siga-me… ouvi nos auscultadores!
Com um meio “tonneaux”e nariz em baixo, entrámos numa descida louca. Ouvia a voz do chefe.
--Não se afaste de mim, lá para baixo o mais rápido possível! Aquilo são granadas de anti aérea.
Estabilizámos a cerca de cem pés da copa das árvores, ali estávamos mais em segurança, fechava-se o ângulo de lançamento das anti aéreas. Seguia o chefe com toda a confiança que aquele homem me inspirava. Como já o reconheci publicamente, no lançamento do seu livro, no instituto cultural Verney em Oeiras, sentia-me a voar nas asas de um anjo.
--Paquito passe para a frente!
O Acabado começa numa dança frenética por cima do meu avião, numa tentativa de detectar possíveis estragos na fuselagem e asas. Na carlinga já lhe tinha comunicado que estava tudo bem.
-- Não noto nada de anormal, parece tudo OK, rumo para o Cazombo, continue à frente!
Mais tranquilo, olho para as asas procurando algum sinal de estilhaço. Na  esquerda , ainda que muito indefinidos, pareceu-me ver uns pequenos furos. Alertei o chefe, começa nova dança à minha volta, procurava vestígios de fuga de gasolina. Confirmei que pela indicação dos instrumentos estava tudo normal.
A pista do Cazombo, aparecia a cerca de dez milhas. Entrada directa na final e rodas no chão. O pessoal do AM, entretanto alertado por nós via rádio, esperava-nos com ansiedade.
Estacionámos os aviões, saí da carlinga banhado em suor. A adrenalina e o sistema nervoso, fizeram estragos. Estragos também sofreu a asa esquerda. Alguns furos de formas irregulares testemunhavam o embate dos estilhaços, sem contudo terem atingido qualquer ponto nevrálgico do avião. Um grito de alívio, a alegria vivida com abraços dos companheiros, foram bálsamo para tranquilizar. O Capitão Acabado aproximou-se, selámos abraço.
--Desta já estamos “safos”, passámos ao lado dela!
Cruzámos o olhar, sabia bem estar longe do céu!

 Foi no Alto Zambeze em Novembro de 1972.
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