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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

CHEGADA A HENRIQUE DE CARVALHO

Chegada do Nord- foto de Anselmo Cardão
Cheguei ao AB4, a 20 de Setembro de 1971, uma Segunda-Feira que nunca irei esquecer, era o fim de uma longa manhã de calor, muito barulho e vários sustos, passada entre os TAM da BA9 e o Nordatlas que me transportara por entre caixas de fruta, peixe dito fresco, sacos de frangos e outras coisas que nem consegui identificar.
O meu ar apreensivo arrancou sorrisos ao meu companheiro de viagem já com mais de meia comissão cumprida, enquanto íamos sustendo a carga a cada movimento mais brusco do avião, quando aterrámos ele ainda me disse: Prepara-te para a recepção pouco amistosa, isto depois de eu ter dito que vinha aumentar o efectivo, e não, render alguém com a a comissão já terminada.
À chegada tínhamos uma turba de especialistas, que passavam revista às guias de marcha, para verificarem qual a nossa situação; se vínhamos render alguém, preencher vagas no quadro, ou aumentar o efectivo, assim que me viram a guia de marcha, passaram a outros e deixaram-me em paz que era o que eu mais desejava.
Comando Operacional - foto de Rui Neves
Peguei nas mochilas e zarpei para o posto de rádio que presumi fosse no edifício com as antenas, tinha de entregar rapidamente a alguém responsável pela cifra, o material classificado de um curso de cifra que frequentara e que transportara desde Lisboa, que me obrigara a ir à "António Maria Cardoso", (para os mais distraídos, a sede da PIDE) onde passei horas fechado numa sala à espera que me dessem um questionário e um documento para assinar, onde por entre outros impropérios “jurava por minha honra defender com a própria vida, não divulgar, ou de qualquer outro modo dar a conhecer o conteúdo do curso que iria fazer ou do material que me fosse entregue para utilizar ou transportar” assim como não me separar do mesmo até o entregar pessoalmente aos responsáveis pelas cifras do Comando da 2ª.Região Aérea e AB4. Era o que transportava numa das mochilas e que me obrigara a andar sob escolta e a ir dormir no BCP21, na semana que levei a instruir o pessoal de Luanda, e que tinha sido motivo de desconfiança de toda a gente por me verem sempre acompanhado de dois PA'S que só me largaram quando entrei no avião.
Percorri o corredor do edifício seguindo o som de transmissões em código Morse, e ao espreitar pelo postigo da porta azul blindada, deparei com um sargento com quem tinha trabalhado no Continente, avancei de peito aberto porta dentro com as “imbambas” às costas e estendi a mão atirando com um ar satisfeito por ver finalmente uma cara conhecida,"então como vão essas arbitragens e essa "Bíblia" (tradução) o jornal desportivo "A Bola"?
O sargento, levantou a cabeça do jornal, olhou pelo canto do olho a cara pouco mais que em pânico dos presentes, e disparou: o nosso cabo vai pegar nas "imbambas" dar meia volta, sair e fechar a porta pedir licença para entrar e apresentar-se como manda o RDM, ou então embrulho-o numa folha azul de 25 linhas e dou-lhe o máximo da minha competência!", levantando o jornal, não sem antes voltar a olhar pelo canto do olho, para confirmar, que toda a gente ouvira o que ele dissera.
O autor á porta do Clube
Imediatamente percebi que dera com os burrinhos na água, o único culpado da situação era eu, nunca deveria ter baixado a guarda e o impacto que sofri foi demolidor, peguei nas imbambas, dei meia volta e saí, fechei a porta, abri o postigo e pedi licença para entrar, pousei tudo no chão e fiz a apresentação regulamentar aguardando em posição de sentido. O sargento olhou os presentes com ar dominador, levantou-se e estendeu-me a mão atirando magnânimo:"Então como está o "Puto"? (tradução) pelo seu tamanho minúsculo, o Continente era assim chamado em Angola, mantive a posição de sentido, e deixei arrefecer-lhe o entusiasmo, passados segundos respondi: Cumpri a obrigatoriedade da apresentação como manda o RDM, os apertos de mão guardo-os para os amigos, e afinal enganei-me, pois não vejo aqui ninguém digno desse nome, se não deseja mais nada gostaria de ser dispensado para efectuar a entrega do material de cifra que transporto e da guia de marcha na secretaria do pessoal. O sargento baixou a mão com uma cara de poucos amigos, mas não havia volta a dar, eu tinha feito o que regulamentarmente me era exigido, mas com este gesto irrefletido, acabara de me incompatibilizar definitiva e irremediavelmente com as chefias, o que me conduziria a uma luta solitária incerta, que só acabaria no dia em que saí de Carvalho para Luanda vinte e oito meses e meio depois.

Henrique de Carvalho 20/09/1971
OPC ACO

quinta-feira, 24 de março de 2016

VIAGEM À MACARONÉSIA*

(ficção sobre factos reais)
AB4 Esquadra operacional
Henrique de Carvalho, manhã de Sexta-Feira, Dezembro de 1971, andava no ar um cheiro a Natal, levantara-me cedo, entrava de serviço na cifra às 08H00 Zulo, num turno de 8 horas que acabaria pelas 16H00, imbuído do espírito mercantil da coisa, assobiava uma canção de época quando entrei na sala de despacho e cumprimentei os presentes a caminho do "cofre", nome porque era conhecido o espaço onde se processava todo o trabalho e arquivo de mensagens originadas e recebidas nos vários sistemas de cifra operados pela FAP. 
O operador que ia sair de turno passou-me o serviço e comecei imediatamente a trabalhar. Pelas 10H00 da manhã, veio uma mensagem do CEMGFA, (traduzindo) "Chefe do Estado Maior General da Força Aérea" com prioridade "Zulo", como estava sozinho deixei o que estava a fazer e imediatamente comecei a decifrá-la; à medida que ia introduzindo os grupos de cinco letras aleatórias, a máquina ia processando a descodificação e imprimindo numa fita de papel a respectiva classificação, "Muito Secreto" e o texto, como era regra ia deitando um olho à fita para verificar se saía tudo limpo de erros e compreensível, quando surgiu o meu nome, parei para ler tudo que tinha saído até ao momento e fiquei de olhos colados no texto, lendo e voltando a ler "ordeno a apresentação imediata do 1º CB OPC 507/EP, no Comando da 2ª Região Aér..." introduzi o resto dos grupos da mensagem e não fiquei esclarecido, só me ordenavam a apresentação, não diziam (para, nem porquê?) grande caldinho me tinham arranjado, era com certeza o efeito dos registos que efectuara no "LRO" (traduzindo) Livro de Registo de Ocorrências, que como o próprio nome indicava servia para registar tudo o que de anormal se passasse durante os turnos, quer do posto de rádio, quer da sala de despacho, quer da cifra. 
E que sempre que era utilizado para registar outra coisa que não fosse o protocolar "nada a declarar" tinha que ir ao Comandante da Base, para ele tomar conhecimento. Agora era tarde para medos e lamurias, escrevera vários registos, tinha de assumir por inteiro a responsabilidade sobre os mesmos. 
Como o sargento não estava presente, telefonei para o Gabinete do Comandante, avisando que tinha serviço "Muito Urgente" para entregar, como o mesmo não estava, pedi ao Oficial de Dia que o localizasse e me avisasse para assim que ele estivesse presente, lhe fosse levar o serviço... 
Quando entrei no Gabinete, e lhe entreguei a mensagem aguardando que a lesse para saber se haveria resposta, fui vendo a sua reacção, até que ele me disse: tem consciência do que se passou para o mandarem apresentar-se imediatamente? 
Respondi convicto: não Meu Comandante. 
Ele adiantou: tenho assuntos a resolver em Luanda, eu mesmo o levo, esteja na placa às 14H00, está dispensado do serviço. 
Rumei à camarata, meti várias mudas de roupa, umas latas de atum, um rolo de papel higiénico, o estojo da barba, o "aftershave" e o desodorizante, todo o dinheiro que tinha e a máquina fotográfica na mochila, e zarpei para o bar para almoçar e aguardar o transporte.
Beechcraft 2521 - foto de Alfredo Anacleto Santos
Às 13H50, já estava junto ao 2521, para espanto do MMA, que preparava o avião, ainda antes da hora, comecei a ver três oficiais a vir na nossa direcção, um deles era o Adjunto do Comando e nosso Capitão, estava mesmo feito num oito. No bar todos os meus companheiros me perguntaram porque é que eu tinha ido entregar serviço e não voltara, o Capitão anunciara em alto e bom som, que desta vez eu não escapava ao máximo da sua competência, mas como eu não dei qualquer explicação, todos foram unânimes em dizer-me: tu é que sabes, vais ver na volta o que te espera... aguardei sereno com o coração apertado.
Cumprimentei-os fazendo a continência, o Comandante, mandou-me pôr à vontade e que entrasse depois deles, aguardei que o Capitão também entrasse e ele desabridamente, mandou-me entrar, e voltou costas ao avião, peguei na mochila perante o espanto do cabo MMA e acomodei-me no interior do avião... Acomodei-me num dos acentos e adormeci ao som do ronronar dos motores, dormir era a melhor forma de deixar correr o tempo, acordei por diversas vezes e a última com o baixar do trem de aterragem, à vista a cidade de Luanda banhada por um Sol tropical saudava-nos. 
P2V5 na BA9 - foto de Amável Silva
Quando a porta se abriu, saí para a placa, e aguardei na expectativa de ver se alguém me dizia o que fazer... o Comandante saiu e ordenou-me que me dirigisse ao P2-V5 que estava estacionado na placa em frente do Hangar, peguei na mochila fiz a continência e lá segui pouco convencido se aquilo seria boa ou má ideia. Quando me aproximava do avião, um 1º. Sargento gritou-me de longe, ó nosso cabo, mexa-me essas pernas que já estamos atrasados... 
Entrei no avião e perguntei para onde é que íamos? E ele de passagem atirou-me: para casa, arranje lá atrás um sítio onde se aboletar e não mexa em nada. Olhei em volta, do escuro da cauda alguém me fez sinal que avançasse, quando cheguei mais perto reconheci um dos OPC'S que fizera o curso de cifra comigo, depois dos cumprimentos, disse-me que vinha da Beira, mas desconhecia o porquê da viagem, já éramos dois... 
Com a mochila como travesseiro, e o sol e mergulhar no mar à nossa esquerda, estávamos a voar para Norte, portanto o que o Sargento dissera fazia sentido. Dormi intermitentemente durante horas e voltei a acordar com o trem de aterragem a descer e pela clarabóia confirmei que lá fora era tudo escuro como breu. 
BA12 - Bissalanca  - foto de Antonio Correia 
Aterrámos, reconheci a silhueta do aeroporto mesmo às escuras, estávamos na Guiné, só deu para esticar as pernas e voltámos a descolar rumo ao desconhecido, com mais um OPC do curso de cifra, o motivo e destino da nossa viagem continuavam a ser desconhecidos mas tinham com certeza a ver com a nossa credenciação, único elo que nos ligava. 
O rumo continuava a ser Norte/Noroeste como indicava a pequena bússola que sempre me acompanhava mas o destino era tão negro como a noite, acordei várias vezes e só os companheiros de dormida é que se iam alternando, o dia já clareava quando aterrámos novamente. Ao abrir da porta um cheiro a brisa do mar, chegou-me às narinas, meti a cabeça de fora e não sabia onde estava até olhar para o lado oposto da placa e ver a silhueta de vários aviões militares americanos, estávamos nas Lajes nos Açores. 
BA4 Lajes - foto de Afonso Palma
Uma viatura aproximou-se e dela saiu um alferes PA, que nos perguntou os nomes, e nos mandou segui-lo, fomos directamente levados ao Oficial de Dia, que nos arranjou de comer e nos mandou regressar ali novamente, estávamos proibidos de falar com outros militares e de dizer-mos onde estávamos colocados. Voltámos mais reconfortados e finalmente tudo se esclareceu, presentes estavam o militar Israelita que nos dera o curso de cifra, e o oficial e o sargento que também tinham participado no mesmo, no Domingo 12 Dezembro, realizar-se-ia uma cimeira entre o presidente Americano, Richard Nixon e o homólogo Francês George Pompidou, para discutirem o sistema monetário internacional, sob o beneplácito de Marcelo Caetano na qualidade de anfitrião. 
A chegada de Richard Nixon, ao fundo o Concorde de Pompidou - foto DN
A França na altura a "locomotiva" Europeia, não deixou de o vincar, levando o seu presidente até aos Açores no moderno Concorde (ainda em voos experimentais), obrigando o presidente Americano a retardar a sua chegada para efectuar a aterragem já de noite, evitando que os jornalistas presentes filmassem e fizessem comparações entre os dois meios de transporte. 
E porque é que nos trouxeram de tão longe? Os três países eram membros fundadores da NATO, existiam sistemas de comunicações comuns para além dos criados especificamente para serem usados entre os exércitos da também designada Aliança Atlântica, de que nós éramos os únicos credenciados presencialmente na Força Aérea, e a situação particular da Base das Lajes a meio caminho dos dois Continentes, permitiam o isolamento e criação de condições de segurança para a realização do encontro. 
Passámos três dias fechados na Base, em alerta máximo, não vi nenhum dos Presidentes, nem efectuei nenhum serviço, e no Domingo, voltei a fazer o percurso inverso, Lajes, Guiné, Luanda. Na ida tive transporte VIP, na vinda cheguei aos TAM da BA9 e foram peremptórios comigo, sem guia de marcha ninguém embarcava.
Acabei por ter de ir ao posto de rádio pedir para falar com o operador de serviço em Carvalho, para que me autorizassem o regresso, e só uma semana depois e mais por já não me poderem ouvir, é que me deixaram embarcar no Nordatlas semanal. 
Quando finalmente me apresentei no posto de rádio, tive honras de entrevista cerrada dentro da cifra pelo Capitão e Sargentos, a todas as perguntas respondi da mesma maneira, não me era permitido partilhar nada do que presenciara durante os dias que estivera ausente, a única coisa que lhes podia dizer, é que estivera em Luanda, na Guiné e nos Açores. Acabando todos os presentes por me dizerem que tudo o que eu dizia não passava de mais uma das minhas embrulhadas, talvez mais por essa que outra razão qualquer, na escala dos destacamentos, que indicava a sequência das partidas de Henrique de Carvalho, o meu nome surgiu sem qualquer justificação na substituição do operador de Neriquinha. 
Neriquinha - 1972 - foto de C.Caç. 3441
Nunca ninguém tinha sido mandado para um primeiro destacamento para um local onde só havia um OPC e um MELEC, e nos "mentideros" do bar de especialistas, já toda a gente sabia que o MELEC que iria para Neriquinha, era um que viera comigo no mesmo avião, e que também não era muito estimado pelas chefias... 
E numa segunda-feira de uma vez, lá partiram os dois problemas que infernizavam as chefias das duas Esquadras, e que podiam com o seu comportamento, dar aos recém chegados e aos que lhes se seguiriam, argumentos para sobressaírem da massa "uniforme" dos que como nós compunham a guarnição da unidade...


*Macaronésia, nome porque são conhecidas as ilhas Atlânticas do Noroeste e da Costa Africana: Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde.

Henrique de Carvalho
OPC (ACO) 1971

segunda-feira, 27 de julho de 2015

PORRA...TENHO SAUDADES DE LUANDA!

Luanda anos 70, foto de Raul S. Machado
É tão bom recordar! Faz doer, mas sabe bem! Ai, que saudades do nosso tempo! 
Que saudades da nossa cidade! Que saudades do nosso "Cine-Colonial" e do filme "Aventureiros na Lua"! Que saudades do "Sansão e Dalila"! Que saudades da "Auto-Reparadora", da Igreja de São Paulo e da "Minerva"! Que saudades do Sr. Brito, da Farmácia S. Paulo, que tratava os eczemas, conhecidas por "flor do Congo"! Que saudades das sandes de peixe frito do velho "Campino" e daquele seu "boteco" defronte da Farmácia São Paulo! Ai, que saudades dos doces de ginguba da velha Donana!
Que saudades do Sr. Torrão, que vendia, no seu carrinho de gelados, os "pirolitos" e a "paracuca", do Seixas! Do "Carinhas"! Do palhaço "Pipofe" e do Carlos, da "Casa Lina"! Ai, que saudades do "Bar Mariazinha” e do Sr. Azevedo... Ai, que saudades de todas estas saudades! Saudades de ti, saudades de mim, do tempo e das palavras inocentes que utilizávamos nos nossos diálogos. Há palavras do tempo que faz e há palavras do tempo que é... As palavras do tempo que é escondem-se por dentro do tempo que faz e certas palavras do tempo que faz matam a palavra do tempo que é!
Lembras-te do Baleizão e das sandes de presunto e daqueles "finos" de cerveja CUCA, tirados à maneira, pelo Tarique? E dos restaurantes da conduta com o seu inigualável bacalhau assado na brasa com as travessas cheias de azeite e do frango de churrasco e de cabidela com arroz malandro, também eles confeccionados nos restaurantes da conduta? Lembras-te do Bairro Zangado e do Muceque Mota? Rangel, Maianga, Vila Alice, Vila Clotilde, Samba, Praia do Bispo, Cassequele, Ingombotas, Marçal, Farra do Braguez, Bairro da Lixeira, Sambizanga, Caop... 
LEMBRAS-TE? 
Cinema Miramar
E dos cinemas: "Tropical", "Nacional", "Império", "Miramar", "Restauração", "Cine-Colonial", "Kilumba"... E do "BÊ-Ó"? Com aquelas suas "baronas" (Bailundas, Madeirenses, Indianas, Cabo-verdianas, "Tugas" de Viseu, da Lourinhã e de outras localidades daqui do "Puto"!). E da "Cagalhoça"? E da "Maria das Pressas"? E das "Aleijadinhas" (Irmãs gémeas)? Grandes "trumunos"
Cacuaco, Caxito, Mabubas, Quifangondo, "Marabunta", inicialmente no Kaiser vermelho e mais tarde no seu "Chevrolet” descapotável, também ele vermelho"...
Aiué, "Santo-Rosa"! Aiué, Loja dos "Cambutas"! Aiué, "Casa Branca"! Aiué, "Catonho-Tonho"! Aiué, "Casa Carmona"! Aiué, "Gajajeira"! Aiué, "Casa Sabú"! "Casa Queimada"! "Karibala"! Desportivo de São Paulo! Aiué, "Copacabana"! Aiué, o "REX"! Aiué, "Liceu Salvador Correia"! Rádio Clube de Angola, com a voz inconfundível do Santos e Sousa: "Uma voz portuguesa em África"! Aiué, "Lusolanda", "Robert-Hudson", "Casa Americana", "Bicker", "Quintas & Irmão", "Armazéns do Minho", Aiué, "Poço da Morte" com Fernando Silva, "jovem audaz artista português, que sobe as paredes lisas, sem feitiço, do Poço da Morte"! Subam, meninas, subam! Irão assistir a um espectáculo nunca dantes visto, onde há a perícia, o arrojo, a audácia, o sangue-frio e o desprezo pela vida”!
Depois do espectáculo, a entrevista ao "Bumbo":
-Então, amigo? O Senhor gostou do espectáculo?
Resposta do patrício:
-Quer dizer...gostar, gostar, propriamente não lhê gostei. Maje...não deram o Arrojo, qui diziam qui davam!
Trav. da Sé
São essas recordações, que nos fazem chorar de saudades! A fragrância da "Katinga", do "Mufete", "Caranguejo de Moçâmedes", garoupa, peixe galo, peixe pungo, corvina, peixe prata, o popular "Cacusso assado”, com feijão de óleo de palma, do "pirão" (caldo com farinha e peixe), indicado para se tomar após uma "ressaca"! "Kimbombo", "Marufo"...?!
E a nossa Ilha! Ilha distante... tépido Sol... amena frescura das tuas ondas tropicais, outras vezes perigosas conhecidas por calema; acalmia, sossego e paz no encanto da embriaguez de um e do outro. A voz do tempo! A voz daqueles que já partiram! A sua voz, suavemente, relança o tempo que é numa estranha melodia que se entranha no íntimo até ao limiar do desejo. AIUÉ, MINGUITO, com a sua concertina!! Aiué, Velha Guinhas (cega), mas que via mais do que todos nós!
Ilha, foto de Raul S. Machado
TUDO PASSOU... TUDO PASSA... Um oculto fogo nos ateia a alma. O tempo parece-nos infinito nessa paragem de mágico sabor... e a ilha do Mussulo, para onde íamos transportados pelo “Kapossoka” e pelo “Kitoco”.

PORRA... ‘TOU CHEIO DE SAUDADES DE TI, LUANDA!

Retirado da internet, desconhecemos o autor.
Mas, porque se trata de um escrito, que para quem como nós, conheceu razoávelmente Luanda, é forçoso relembrar.

sexta-feira, 27 de março de 2015

BA2 OTA - JURAMENTO DE BANDEIRA ER 3ª./69

Juramento 

B.A. Nº. 2 – OTA – 19/DEZEMBRO/1969
Juramento de Bandeira da Escola de Recrutas 3/69

Em 19 de Dezembro de 1969 realizou-se na Base Aérea nº. 2 (Ota) o juramento de bandeira da Escola de Recrutas do C.O.M. Pil. Av. 3/69, da Escola de Recrutas do C.O.M.1/69, da Escola de Recrutas do C.S.M. Pil. 3/69 e da Escola de Recrutas Especialistas 3/69.
Entrega de diplomas e prémios
Presidiu à cerimónia o Vice- Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, general Machado de Barros, com a presença do Sub-chefe do Estado-Maior da Força Aérea, general Dias Costa; do Comandante da 1ª. Região Aérea, brigadeiro Dores Delgado; do Director do Serviço de Instrução, brigadeiro Krus Abecassis; do Director do serviço de Saúde, brigadeiro Lemos de Meneses; do Director do serviço de Pessoal, brigadeiro Brás de Oliveira; do Director das Oficinas Gerais de Material Aeronáutico, brigadeiro Alberto Fernandes; do Presidente da Câmara Municipal de Lagos, brigadeiro Costa Franco, e de outros oficiais.
Depois de ter passado revista à guarda de honra, comandada pelo capitão Sengo, o general Machado de Barros, acompanhado pelas individualidades presentes, dirigiu-se para a tribuna de honra.
A iniciar as cerimónias, usou da palavra o comandante da Unidade, coronel Brochado de Miranda, de cujo discurso seguirão algumas passagens. Em seguida, o alferes miliciano Ferreira da Silva dirigiu uma exortação aos soldados alunos recrutas.
Procedeu-se, depois, ao acto solene do juramento perante a bandeira. A fórmula do juramento foi lida pelo 2º. Comandante, tenente-coronel Amaral que também comandava as forças em parada. 
Seguiu-se a demonstração, pelos aspirantes, de manejo de arma a pé firme e em marcha, sob as ordens do capitão Magalhães; logo após fizeram a mesma demonstração os soldados alunos recrutas, sob a orientação do major Cunha Lopes.
Findas estas demonstrações, o comandante do Grupo de Instrução, tenente-coronel Raul Tomás, procedeu à chamada dos elementos a quem o Vice-Chefe e o Sub-chefe do Estado-Maior e o Director do Serviço de Instrução entregaram diplomas e prémios.
O brigadeiro Costa Franco foi expressamente convidado para entregar o prémio conquistado por seu filho que frequentou o curso de oficiais milicianos pilotos.
Finda a distribuição, as forças em parada, num total de 1591 homens, desfilaram perante a tribuna de honra.
A terminar as cerimónias, os soldados alunos recrutas fizeram a apresentação de um circuito de treino e demonstração de luta individual de aplicação militar. 

Demonstração de luta corpo-a-corpo
Da alocução proferida pelo comandante da Base Aérea nº.2, coronel Brochado de Miranda, ditaremos as seguintes passagens:  

Terminada a instrução da recruta, o soldado ratifica hoje, em acto público e solene, o Juramento prestado no momento da incorporação. É um Juramento de subordinação, em que se obriga a guardar fidelidade e obediência aos interesses da Pátria e a cumprir os deveres que constam do regulamento de Disciplina Militar, que aqui lhe foram lidos.
É a partir deste momento que o soldado pode verdadeiramente ser considerado como elemento consciente e responsável da Força Aérea.
Afirmou em data recente o Dr. Marcello Caetano que “as Forças Armadas representam em todos os países escolas onde se aprende a servir a colectividade, onde se cultiva o espírito de disciplina e onde se exalta a dádiva generosa da vontade, a renúncia consciente a comodidades e o sacrifício da própria vida ao serviço da Pátria”. E ainda: “No mundo de hoje, mais do que nunca, importa preservar esta reserva de energias morais. Quando, por todo o lado, vemos ruir disciplinas e instaurar-se a confusão de valores no meio da cobardia das atitudes, importa que as virtudes militares fiquem incólumes”.
Nos mancebos que entram na Força Aérea pela porta sempre aberta desta Unidade, que são de formação, educação e temperamentos diferentes, de início tímidos, receosos, isolados, egoístas, cedo despertam sentimentos latentes de solidariedade humana. Logo começam a compreender e apreciar o valor sadio das virtudes militares. É esse, aliás, um dos objectivos a atingir na instrução que recebem desde os primeiros momentos da sua chegada, em que se estimulam qualidades adormecidas, instrução que hoje culmina no acto expressivo desta cerimónia
Dentro de momentos estará perante nós a Bandeira Nacional, “emblema sagrado, expressão impressiva, eloquente, sumária e viva do povo que representa, que contém no significado das cores e símbolos que ostenta, a alma, o ideal, o carácter, a tradição e a história do nosso povo”. É a imagem de uma Pátria cujos filhos, embora poucos, têm sabido ser fortes e intransigentes na firme vontade de defender valores que consideram autênticos, apesar das muitas vozes que gritam, ameaças em altos brados, talvez na vã esperança de os intimidar, talvez para encobrir a falta de argumentos válidos.
Acreditamos que jamais poderá ser quebrado um Juramento feito em tal ambiente e perante tais testemunhas.
São 683 soldados recrutas, 46 dos quais se destinam a pilotos, 79 ao serviço geral e os restantes a mecânicos e operadores de várias especialidades.
Aproveita-se a solenidade do dia para se proceder à entrega de diplomas a 5 oficiais milicianos pilotos aviadores que terminaram o Curso de Instrução Complementar de Pilotagem de Aviões de Caça e a 412 soldados alunos que completaram cursos de formação de operadores ou de mecânicos de várias especialidades.
Não podem estes descansar sobre os conhecimentos adquiridos que pouco mais são do que noções gerais e básicas para posterior aperfeiçoamento. Devo recordar-lhes que é na sua competência técnica e no seu aprumo militar que se apoia o sucesso das missões que lhes forem confiadas, embora possam ser difíceis as condições em que cada um for solicitado a cumprir uma tarefa específica.
Temos tentado por todas as formas melhorar o nível da instrução de forma a lançar nas fileiras homens mais capazes e melhor preparados. Mas são sempre limitados os meios de que se dispõe para acudir às enormes responsabilidades que nos são impostas. Posso todavia afirmar o interesse e esforço desenvolvido pelas Sub-unidades directamente responsáveis pela instrução, de cuja obra esta cerimónia é um reflexo, que se tem aplicado com total dedicação e até sacrifício a tirar o melhor rendimento dos meios humanos e materiais postos à sua disposição para cumprir programas superiormente determinados.     
     
Assistência – familiares de recrutas que juraram bandeira

Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 129 – Janeiro 1970

Até breve                                                                                    
O amigo 






     

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

VIVI DUAS VEZES

Extraordinário como por vezes, algumas palavras nos ficam na memória, como gravadas 
de forma a nunca mais saírem.
No longínquo ano de 1970, no Leste de Angola, mais de quarenta anos passados, atrevo-me a relembrar de forma escrita o que sempre, mas sempre, tenho presente nos meus sonhos, e até mesmo quando estou acordado.
Sim, também quando estou acordado vivo esses momentos com grande intensidade, tal como os meus amigos e ex-companheiros, por este mundo que nos vai atraiçoando dia a dia, esquecendo tudo o que fizemos por este País, que tudo faz para nos esquecer. Bem,mas como este não é o teor destas lembranças, chega de drama, porque não é por aí, que nos vão lembrar. Somos cada um de nós que deve manter viva, através de todo e qualquer meio, a esperança de vermos os nossos filhos e netos, um dia saberem e orgulharem-se de quem fomos e nos tornamos.
Fomos heróis, fomos sobreviventes, fomos paz e fomos guerra, fomos miúdos tornados homens muito cedo. 
Fomos miúdos homens que hoje não nos honram, porque nunca o foram os que no Poder, políticos, civis e militares, generais e ministros e presidentes da República.Zeca Afonso dizia “ eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”, e desde à quarenta anos aos dias de hoje, estes políticos, militares e outros “dizem muito mais mas não fazem nada”. Não sendo o que estava na minha mente, quando comecei este “desapontamento”, volto ao que me levou lembrar coisas boas que nos aconteceram, enquanto estávamos na flor da juventude, e os nossos ideais era vivermos o melhor possível naquela terra distante.Certo dia, não me recordo a data, partiu do Cazombo, em missão de “solidariedade”, uma formação composta pelos mais “altos dignitários” daquele A.M. para um ponto da Z.M.L., Lóvua, assim se chamava o local onde se haveria de dar um dos factos mais interessantes que vivi.

Ao aproximar-mo-nos deste Posto, o espanto marcou-me o rosto, com as imagens que me seguiam através da janela do helicóptero. Olhava para baixo pela janela do lado esquerdo e depois pelo lado direito e o meu espanto aumentava. De todas as direcções apareciam nativos, de cores coloridas vestidos, correndo para o ponto onde iríamos aterrar. Eram mil…não…dois mil e quinhentos…não, talvez fossem até cerca de cinco mil, tal era a multidão, espantoso! Cerca de cinco mil nativos (se calhar estou a exagerar) que se deslocaram de terras longínquas para apenas poderem ver os “Altos Dignatários” que se dignaram visitar aquelas terras do “fim do mundo”.
A história foi preparada pelo chefe de posto, um homem afável e simpático, de que me recordo apenas do seu apelido, Sousa, em homenagem aos sobreviventes de um acidente de avião na zona da sua jurisdição, (isso é outra estória) e, que muito o alegrou. Por isso convidou uma comitiva da F.A. para abençoar com uma bela “almoçarada”, o que (eu) apenas conhecia como um simples almoço.
O heli, pilotado pelo “enorme” Alf.Serra, trazia o também Alf. A.T. eu, e mais três camaradas, que não me recordo de seus nomes, mas éramos seis, os que viajámos no heli. Apenas o Serra ia fardado, todos os outros trajavam á civil e bem vestidos para a ocasião. Quando aterrámos, fomos recebidos apoteóticamente por toda aquela gente que se manifestava como só eles o sabem fazer, dançando, cantando e manifestando uma sensação contagiante de alegria.
Fomos recebidos com pompa e circunstância pelo administrador do posto, professor da escola, e chefes tribais. Após as primeiras apresentações (desde Governador Geral até Príncipes daqui e de acolá”, logo á saída do heli, esperava-nos uma revista às milícias em parada, com o Alf. A.T. (“Governador Geral”) , a passar revista ás tropas em parada.
A boa vontade e querer daquelas pessoas era absolutamente extraordinária, pois nessa revista, havia quem estivesse descalço, enquanto outros de botas ou alpercatas, se perfilavam de forma garbosa e altiva, independentemente do aspecto esfarrapado das suas vestes, pois cada um vestia aquilo que tinha de melhor para a ocasião.
Após estas manifestações solenes, onde até foi cantado o hino nacional, pelo meninos da escola local, (estranhamente comovente), esperava-nos um “beberete”.
Antes do almoço, enquanto bebericávamos e conversávamos, os chefes tribais (sobas) tentavam perceber como funcionava o héli, com perguntas e mais perguntas. A uma altura o A.T. fez uma proposta irrecusável aos “sobas”, ir dar uma “volta” de helicóptero. 
Assim foi.

O Alf.Serra foi o cicerone de serviço levando, penso que, dois dos “sobas” a dar uma volta. Todas as peripécias que possamos imaginar foram praticadas neste voo de baptismo. Os “sobas”, eram homens bem entrados na idade, pois seriam pessoas que teriam pelo menos 80 anos (dizia-se que um homem negro, quando pinta... três trinta, o que quer dizer que um homem com o cabelo todo branco teria pelo menos três vezes trinta anos) e estes teriam.Depois da “voltinha”, quando aterraram, vinham calmos e serenos, contra todas as nossas expectativas e mais espantados ficamos quando um deles, dirigindo-se ao “Gov.Geral”, lhe agradeceu a oportunidade e disse em dialecto local, que, depois de traduzido era o seguinte «Vivi duas vezes. Antes de andar de “zingarelho”e depois de andar de zingarelho». 
Foi uma fantástica lição de alegria e harmonia transmitida por aqueles anciãos, mostrando-nos como é feita a vida, na sua complexa simplicidade. Depois destas manifestações, de boa política, esperava-nos a mais espectacular recepção de boas vindas, num, que seria um fabuloso almoço oferecido pelo Chefe de Posto.
A sala, bem decorada e sóbria dava para um alpendre bastante largo, de vistas amplas como era normal nestas casas de Posto. Havia uma enorme mesa colocada em T com toalha imaculadamente branca, onde sobressaia o serviço dos pratos e copos de qualidade muito boa.
Quando nos sentámos naquela mesa, senti aquela sensação de que é bom viver, ter todo aquele “luxo”, naquele “fim de mundo”, fazendo-nos sentir, se bem por breve tempo, que estávamos em casa.
A refeição, composta por entradas variadas e com uma ementa de carne e peixe de que não me recordo concretamente mas composta por vários “pratos” era excelente. Servido por criados de mesa, negros, vestidos a rigor nos seus trajos brancos, dando aquela visão, como que saído de um filme dos tempos coloniais ingleses. Tudo a rigor.
Pelas 14 horas, deu-se início a este repasto que se prolongou até já ser noite.
Durante o almoço, sempre acompanhados de perto pela população indígena que se amontoava no alpendre (mais as crianças) festejava-se com cânticos e danças no exterior, abrilhantando ainda mais este evento que, viria a ser ainda mais espectacular, quando o A.T. tira da “cartola” o momento mágico da tarde, ao colocar no meio dos miúdos que nos “espiavam” no alpendre, o seu gravador de som, fazendo com que o espanto se espelhasse nas faces, ao ouvirem reproduzidas as suas vozes como que por magia. Foram tantas e repetidas as vezes que se gravaram as suas vozes e de cada vez que o fazia os seus espantos eram sempre ainda maiores. Foram momentos lindos e absolutamente inesquecíveis.


O dia foi-se cumprindo e com isso a noite foi chegando. Aquele povo não arredou pé até às tantas da noite, sempre dançando e cantando com alma de quem vive feliz, em paz consigo mesmo.
No dia seguinte aos primeiros raios de sol, regressámos à base, levando imagens que jamais serão apagadas.

Nota:
O Alf. A.T escusou-se a que o seu nome fosse mencionado.Com grande pena da minha pena, porque ele fez parte da história, e com relutância e apenas pelo respeito à sua vontade, o seu desejo é satisfeito.
Talvez um dia, quem sabe....queira dizer quem é.

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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

REPÓRTER FOTOGRÁFICO

E mais uma vez na procura de temas relacionados com a FAP por este pequeno Portugal.
As fotos são o nosso cartão de visita para quem vê um Blog de recordações e, veio ter ás nossas mãos mais uma foto muito interessante que, para alguns, será uma recordação e para outros o orgulho de terem pertencido a um grupo tão grande, a FAP.
GDACI Esquadra 13 - Seia Edifício do Comando
Enviado por João Saraiva

Assim espero que os nossos companheiros continuem à procura de monumentos, placas, azulejos, e outros relacionados com a FAP.
Desejamos que tenham um bom fim-de-semana na companhia do vossos familiares.
Recebam um especial abraço dos editores e especialistas do AB4.
P´los Editores
Rui Neves

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A “ESCOLA DE CONDUÇÃO” DO CAZOMBO


Cazombo em 1972 - foto de Manuel Ribeiro da Silva




No meu primeiro destacamento no Cazombo, fui com o Mangas, um Angolano que era completamente louco, substituir julgo que o Sousa de Fafe, e o Albuquerque, operadores que já estavam à bastante tempo de seca.
Rua principal
Logo na minha primeira saída “turística” pela “cidade” deparei-me com uma pick-up Chevrolet, modelo dos anos sessenta, de um azul desbotado pelo tempo e abandono, em muito mau estado de conservação, sem vidros e sem rodas, implantada em cima de uma série de troncos, mas o que me despertou ainda mais a atenção, é que tinha o motor a trabalhar ruidosamente, com dois homens dentro um civil e um militar do Exército, que estavam aparentemente a efectuar manobras como se a viatura estivesse em movimento, especialmente o militar que estava sentado no lugar do condutor, virava o volante a um lado e ao outro, metia mudanças e fazia sinais indicadores de mudança de direcção com os braços. Perguntei ao Mangas, se sabia o que faziam aqueles dois “abelharucos” sentados dentro de uma relíquia daquelas todos contentes como se aquilo fosse normal...
O Mangas na sua sabedoria de mais velho e Angolano, sentenciou: o militar está a receber uma aula de condução. Olhei para ele espantado, mal o conhecia, era o meu primeiro destacamento, e aquilo, parecia-me no mínimo uma grande “tanga”, retorqui... espera lá, queres-me convencer, que aquilo é um veículo de instrução onde se aprende a conduzir e se tira a carta, em cima de troncos... é pois, inscreves-te, pagas, dás umas aulas, depois vem o examinador do Luso, antes que ele chegue dão-te as perguntas, decoras tudo, arranjas um envelope com o “abono” para lhe entregares durante o almoço, e depois é só aguardar pela carta.
Depois daquela explicação, passei a andar com mais atenção sempre que saía da cerca do Aeródromo, não fosse ter algum mau encontro com os “encartados” com um método de instrução tão científico... também para um sítio que nem tinha estradas, para que era preciso ter carta?
1971 - foto de Fernando Dias do BCaç.4212



P.S. Uns anos depois do 25 de Abril, a Direcção Geral de Viação, mandou recolher todas as cartas tiradas nas Ex-Províncias Ultramarinas, para efectuar a uniformatização de todas as Licenças de condução, nas do Moxico, veio-se a constatar que na sua maior parte eram simplesmente falsas, pois os “examinadores” limitavam-se a enviar licenças de condução que não tinham qualquer registo legal, não tendo elas qualquer validade.

Por:
OPC ACO