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sábado, 30 de julho de 2011

OS NOSSOS CONDECORADOS.



Da Revista Mais Alto SET/OUT 2005 cedida por Manuel Ribeiro da Silva.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

ROCHA MARQUES, RAZÕES PARA UMA EVOCAÇÃO

 Joao Manuel Rocha Marques - (P3_58) - PIL 67 69
Se voltarmos o olhar para o passado, tentando compreender o tempo que todos nós passámos a contas com a «guerra do ultramar», por mais que tentemos aparece sempre uma espécie de sombra a toldar as possíveis justificações. Afinal, o que é que fazíamos ali, e em nome de quê?
E, se as respostas aparecem através de todos os tipos de argumentos, porém, a questão continua a manter-se em aberto, porque essa sombra esquiva-se às lucubrações mais sofisticadas que a razão possa engendrar. Haverá sempre algo de ilógico, de fugidio, repregado nos âmbitos sombrios do sentido das palavras que possamos articular.
Apesar de tudo, podemos argumentar que fomos lá parar porque estávamos vinculados a um estado que, contra a conjuntura internacional, obrigava a sua juventude a fazer a guerra, «orgulhosamente sós». E porque não havia saída (nem todos podiam emigrar clandestinamente, ou podiam aguentar anos e anos «atrás das grades»), então, lá se ia para as «colónias» (transformadas à pressa em províncias) à sombra de um ramo militar que oferecia mais garantias de sobrevivência e qualidade de vida. Sem eufemismos: por isso fomos para a Força Aérea.
Esta seria a razão de fundo da maioria, pese ainda o fascínio que sentíamos pelos aviões, como é vulgar acontecer nos anos sonhadores de quase toda a juventude.
Que fique claro: não temos porque nos envergonhar. Vivemos, historicamente, a conjuntura desse tempo. Porque a máquina duma Pátria impõe-se, inexoravelmente, contra a vontade singular (do cidadão isolado) cilindrando, com os seus argumentos de conteúdo histórico e de interesse nacional, quaisquer justificações baseadas na consciencialização do problema. Coreia, Vietname e Iraque são exemplos notáveis de uma questão ainda maior: será que pode haver uma guerra justa, em absoluto?
Mas nós estivemos lá, e poucos o fizeram por gosto. Só que a esmagadora maioria foi para lá e tentou sobreviver, como é justo, sentindo-se impotente perante a força da máquina e do espírito do tempo. Todavia, essa experiência não foi inócua. De todo. Ao longo do tempo, desde o longínquo 61, uma espécie de «mal-estar» foi-se apoderando das consciências, a pouco e pouco, encontrando-se indícios disso nos pormenores mais banais, como o consumo desenfreado de álcool, sob o qual se escondia o medo de se estar demasiado consciente nas tarefas menos claras do dia-a-dia. Mesmo assim, as vivências foram tão ricas que é vulgar dizer-se ter sido esse tempo de guerra o melhor período, talvez, das nossas vidas: dado o carácter terminal das circunstâncias que marcaram as nossas vivências. Foram tempos verdadeiramente excepcionais, durante os quais as amizades mais sólidas foram forjadas à luz do ritualizado «pacto de sangue» imposto pelas leis da sobrevivência. Que nos exigiam vivermos no fio dos nossos limites, balanceando entre o fulgor estonteante da vida jovem e o pavor espectral de uma morte eminente.
Houve um companheiro nosso que deixou testemunho disso. Refiro-me ao piloto-aviador Rocha Marques e à sua «Balada a Henrique de Carvalho» ou «Balada do Desterro», autêntico canto de cisne que, em forma simbólica, descreve a nossa experiência de guerra vivida numa terra que soube conquistar-nos, tal é a nostalgia que sentimos quando recordamos os dias vividos nessas planuras do «fim do mundo» perdidas no mítico leste angolano.
Com ele, Rocha Marques, cantámos o significado oculto da nossa passagem por lá, resignados ao peso da sorte e minados pela saudade daqueles que amávamos à distância tão grande que nos separava e sufocava. Mas ele nunca chegou a saber das consequências que a sua Balada teve na vida de tantos que por lá passaram, a partir de 68 ou 69, datas possíveis da sua criação. Ele nunca soube que fizemos dela o nosso hino. Porque nos sentíamos retratados ali. Porque as suas palavras queriam dizer aquilo que, inconscientemente, nos ia na alma e no coração. Sem darmos por isso, aceitámo-la de tal forma que não podemos imaginar que não seja verdadeiramente nossa. Por isso, a Balada teve e tem o condão de nos unir. Não à volta dos valorosos feitos militares, manifestamente muitos, e que podiam ser celebrados também. Pois há tantas histórias de contornos inquestionavelmente épicos, centradas nas façanhas dos nossos magníficos pilotos e à espera de verem a luz do dia. Sobretudo aquelas que falam dos valores humanos, em entrega passional total e derradeira, evidenciando-se pelo contraste estabelecido com a violência dos cenários bélicos desumanos.
Aqui, a história é outra, apresenta-se carregada de espiritualidade. Trata-se de alguém que nos deixou em herança uma canção destinada a cauterizar as feridas abertas pela saudade e pelo desespero de «uma vida amargurada». Ou que nos legou uma música onde a alma colectiva soube ganhar forças para exorcizar os fantasmas que, indelevelmente, ensombravam as nossas consciências. Por ser um hino à paz e a expressão sincera daquilo que sentíamos em tempo de guerra. E até quando nos íamos convencendo de que a guerra era justificável, mesmo aí, a Balada trazia à superfície uma espécie de verdade oculta, profundamente disfarçada ou imersa nos subterrâneos da razão. Verdade que, embora jazendo em leitos subliminares, estava à espera de saltar cá para fora, testemunhando o direito indeclinável à paz e à vida. Ou não era isto que todos nós queríamos e continuamos a querer?
Foi este o grande mérito do piloto Rocha Marques. A sua Balada, desassossegando-nos sossegou as nossas consciências interrogantes. Ao testemunhar, da forma mais simples, que, embora estivéssemos lá, sentíamos que estávamos a incubar algo que, como vírus, haveria de transformar-se em pandemia libertadora. Que haveria de culminar num certo Abril.
É que, mesmo fazendo a guerra, pode-se estar contra ela. Assim está expresso na Balada. Nela sentimos que, em vez da abulia intelectual com que nos rotulam em termos de consciência política, afinal, mesmo na Força Aérea, a rapaziada, aparentemente despreocupada, estava bem atenta em relação a alguns outros valores que incomodavam o poder vigente. E era por isso que nos sentíamos impelidos a cantá-la. Às escondidas, no princípio, como acontecia, em Coimbra, com as baladas do Zeca ou do Adriano, durante a crise académica de 69, cujas vozes deram o impulso maior a uma juventude inquieta que se interrogava e exigia o direito à liberdade de expressão e de ser ouvida sobre as opções dos seus percursos académicos e existenciais.
 A Balada, ao ser composta nesta altura, é portadora de significados próprios não só da poesia coimbrã como pode integrar-se, na perfeição, no género musical da canção de intervenção que, nesses tempos se expandia como rastilho aceso contestando os poderes instituídos na velha Europa e nos Estados Unidos da América. A «Balada a Henrique de Carvalho» ou «Balada do Desterro» não pode ser isolada deste contexto de contestação social e ideológica que abalava os povos ocidentais. E foi a juventude que deu asas e poder ao movimento que tão profundamente alterou o pensamento e o agir da época.
Talvez isto baste para que a memória do seu autor possa e deva ser evocada. Porque foi um precursor do Portugal que agora somos. Em termos de vontade de liberdade e de amor à paz. E, nos momentos difíceis que infelizmente vivemos, as palavras do Rocha Marques parecem soar tão oportunas e sábias como dantes. Será que não continuamos a ser seus companheiros de viagem? Numa viagem onde o canto se ergue contra a violência e a injustiça entre os povos? Ou será que já não há «desterros» de espécie alguma?
Definitivamente, não. Agora, se a «mordaça» a nível da expressão não existe, ou é apenas menos visível, já o «garrote» económico faz da esmagadora maioria verdadeiros «desterrados» da vala comum, herdeiros de uma vida de sufoco e de infelicidade permanentes, enquanto uma reduzidíssima minoria continua a empanturrar-se cada vez mais de poder e de dinheiro. Sem haver quaisquer limites de pudor, quanto mais de ética ou de justiça social, em doses mínimas que fosse.
A nova realidade social aí está, globalizada, mostrando um modelo tão injusto quanto imoral, narcotizando a esmagadora maioria com miragens utópicas de «El Dorados» que se sabe já terem de antemão aquela meia dúzia de donos certos. Esta é a propalada nova realidade onde quase já não há dia. E «quando a noite veste de sombras o mundo», os espectros dos deserdados, como sombras de miséria sinistra, arrastam-se, peregrinando erraticamente por aí, à procura de uma nesga de felicidade a que têm direito, pomposamente negada à luz dos discursos de uma liberdade enganosa, falseada. E neste cenário também há espaço para as «asas infernais» dos demónios travestidos de anjos que, lá do alto das esferas do poder, vão controlando os destinos dos deserdados, «zelando» para que não haja qualquer tentativa de desvio no caminho superiormente traçado. Quem denuncia «o peso desta vida amargurada»? Quem é que se sente minado por este «desterro»? Ou será que já não vemos as metafóricas cidades-desterro, ou as outras cidades de Henrique de Carvalho do país ou do mundo? Será que já não vale a pena querer «ser da paz, eterno companheiro»?
Afinal, o que é que queria dizer o Rocha Marques nas palavras da sua Balada?
As interpretações podem ser aquelas que nós quisermos, mesmo as que não foram pensadas pelo autor. Como se sabe, a polissemia abre imensas portas e rumos de sentido. Pelo que o poeta utiliza as palavras em arremesso simbólico para zonas de transcendência onde não tem acesso a lógica racional.
Só haverá verdadeira paz onde houver liberdade, compaixão, conhecimento e justiça. Estas são as marcas de uma visão humanista da vida e da sociedade. Que nós, um dia, herdámos de um piloto visionário, demasiado avançado no tempo e no pensamento. Ao deixar-nos numa Balada as palavras certas, carregadas de significados simbólicos camuflados, através dos quais perscrutava os arcanos do sagrado na tentativa de introduzir, no meio frio e brutal da guerra, um breve instante que fosse para que cada um se interrogasse acerca dos destinos assumidos ou impostos e do significado da vida que levava. Mesmo que isso implicasse gritar a Deus na angústia de saber-se que «o silêncio não diz nada» como resposta.

Como veio, assim partiu: apressado nas asas do vento e de um velho T6, em voo misterioso. Deixando muitas saudades entre os seus, entre os amigos, e entre uns quantos companheiros de viagem de outrora, algures no leste de Angola, que sentem ser chegada a hora de recordar, de agradecer e de não deixar esquecer o testemunho herdado. Pela grandeza do homem, do companheiro, e do amigo.

Forjães, 8 de Junho de 2010



(PS. Estas poucas linhas têm o propósito de levar àqueles companheiros, que não conheceram nem o piloto nem a Balada, alguns argumentos que possam ajudar na compreensão das razões da homenagem que se pretende prestar ao saudoso Rocha Marques. As razões invocadas não são as únicas, obviamente. Apenas apresentam uma perspectiva, entre muitas e variadíssimas. E que nasceram de uma conversa havida, no encontro de Fátima, no sentido de ajudar a situar, nomeadamente, alguns companheiros mais antigos sobre as causas que estão na origem do processo.)  

terça-feira, 5 de outubro de 2010

RECORDANDO O COMPANHEIRO CARLOS FIALHO


Carlos Alberto Fialho – MMA (ABR 69 a OUT 69)

FAZ HOJE PRECISAMENTE 41 ANOS QUE SOBRE A PISCINA DE TEIXEIRA DE SOUSA OCORREU O ACIDENTE QUE LHE ROUBOU A VIDA

Sabemos do estado de desespero que se abateu em  tantos “Especialistas” que com ele privaram, naqueles curtos 6 meses que esteve em Angola.  
Companheiro solidário, não merecia este golpe de infortúnio, recordá-lo é um dever de honra de todos nós.  
Carlos Joaquim (QUIM) 

COMENTÁRIOS
ESTAVA EU COMO MECÂNICO DE DIA, QUANDO O SARGENTO DE DIA ME FOI AVISAR, PARA IR COM MAIS 2 COLEGAS NOSSOS NA MANHÃ DO DIA SEGUINTE A TEIXEIRA DE SOUSA À MISSA DE CORPO PRESENTE DO FIALHO.
FOMOS, E LÁ ESTIVEMOS OS TRÊS, EM NOME DE TODOS. 
DIGO-VOS QUE TODOS NÓS CHORÁMOS, E AINDA HOJE ME COMOVO QUANDO ME LEMBRO DESSA DESGRAÇA. PARECE QUE FOI ONTEM, NEM SABIA QUE FAZIA HOJE 41 ANOS, PAZ À SUA ALMA, QUE ERA UM BOM COLEGA E AMIGO. 
ANTES DELE IR PARA O CAZOMBO (FOI DE LÁ QUE ELE PARTIU PARA ESSA VIAGEM FATÍDICA), FIZ MUITAS PARCERIAS COM ELE EM MUITAS REVISÕES NOS HANGARES DE HENRIQUE CARVALHO, ÉRAMOS BASTANTE CHEGADOS NA NOSSA AMIZADE. FOI A COISA QUE MAIS ME CHOCOU EM TODA A MINHA ESTADIA EM HENRIQUE CARVALHO. 
OBRIGADO QUIM PELO TEU E-MAIL, E UM MUITO OBRIGADO POR TERES O CUIDADO DE NÃO DEIXARES CAIR NO ESQUECIMENTO OS NOSSOS CAMARADAS QUE JÁ NÃO ESTÃO ENTRE NÓS.
UM ABRAÇO, GUALTER.

Presto-lhe a minha homenagem. 
Obg, Quim, pela lembrança. Abraço
Obrigado Quim...

Lembro-me perfeitamente do FIALHO...
Que ele esteja em Paz e na Luz... é o que eu peço ao Senhor...
Também faz hoje 39 anos que fui atacado junto da ponte do Rio Chicapa... quando seguia sozinho na minha Honda 175cc, para a Praia Fluvial onde costumávamos ir, naquela onde o Agante ia morrendo, na estrada da Diamang que dá para as Minas do Catoka.
Após eu ter feito a curva e a contra curva, e já a descer para a ponte, vi dois angolanos parados na esquerda, e mesmo sendo visto por eles, apitei...
De nada valeu... um deles correu para a mota... enrolando-se comigo...
Valeu-me o capacete que levava amarrado... mas mesmo assim sofri um forte traumatismo craniano... que me obrigou a fazer duas operações à cabeça no HML.
Abraços e tudo em PAZ!
Jesus

Amigo e Companheiro Carlos,
Ontem falei do Fialho cá por casa, passados estes anos jamais me saiu da mente. Fui, como sabes, um dos angustiados com essa Morte inútil. No dia anterior, se a memória me não falha dia 4, no nosso Clube tinha estado ao lado dele, falamos e com as "nossas" brincadeiras, penso que ou eu ou ele atiramos cerveja um ao outro.....
Um abraço e um comovido obrigado pela tua lembrança para todos nós que ainda por Cá andamos............
João Parreira
O assunto do poema é a poesia

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O ESPECIALISTA "MAIS VELHINHO" - VERGÍLIO LEMOS

VERGÍLIO LEMOS NOMEADO SÓCIO HONORÁRIO DA AEFA


O nosso companheiro Vergílio Lemos, do Núcleo de Trás-os-Montes, foi nomeado Sócio Honorário da AEFA durante a Assembleia-geral que decorreu no passado dia 10 de Abri, por unanimidade e aclamação.

Vergílio Eurico Lopes Chaves de Lemos nasceu no dia 2 de Agosto de 1919 e foi incorporado, como voluntário, no dia 21 de Setembro de 1939 na Escola Prática de Aeronáutica, em Sintra.

Esta foi a forma encontrada, singela é certo, para distinguir um dos nossos maiores Especialistas um verdadeiro exemplo de juventude, paixão aeronáutica e dedicação à nossa Associação e com relevantes serviços prestados à causa.

No próximo Encontro Nacional a Comissão de Gestão terá a honra de validar esta nomeação.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

EX-PILOTOS DA TAP RECORDAM EMOÇÃO DE VIAJAR COM PAULO VI


Papa esteve apenas umas horas no santuário. Três anos depois, recebeu tripulação portuguesa
Já lá vão quase 43 anos, mas a emoção passada a bordo do avião da TAP Caravelle jamais será esquecida. Amado da Cunha e João Graça foram os escolhidos para chefiar a tripulação que trouxe a Portugal Paulo VI. O Papa só visitou Fátima e partiu de imediato.

"Continuo convencido de que só fui escolhido para pilotar o avião, naquele dia, porque era o chefe da divisão do Caravelle". Aos 88 anos e a poucos dias de completar 89, Francisco Amado da Cunha mantém gravados na memória todos os acontecimentos de Maio de 1967.
Salazar havia dito que, enquanto fosse vivo, o Papa não entraria em Portugal. Talvez por isso, o comandante da TAP recebeu com estranheza as ordens superiores. "O comandante Silva Soares veio ter comigo, em finais de Abril, e disse-me: 'é nas suas mãos preciosas que o Papa Paulo VI vem a Portugal'".
Amado da Cunha seria o piloto e João Graça o co-piloto do "Diu", um dos três Caravelle da companhia. A tripulação era ainda composta pelo chefe de cabina, Orloff Esteves, os comissários Manuel Barbeiro, Luiz Garin e José Rosa e as assistentes de bordo Maria do Socorro Piçarra e Maria do Rosário Vaz.
Apenas a 9 de Maio se soube do plano de voo e dos horários a cumprir. "Este foi um trabalho de equipa e não só dos pilotos. Estávamos todos entusiasmados para que tudo corresse bem", frisa João Graça, que em Setembro próximo completa 90 anos. A residir em Vilamoura, o antigo comandante diz que a viagem "foi encarada como um serviço normal". "Foi o que fizemos e saímo-nos bem", reforça.
Amado da Cunha, a residir em Lisboa, acredita que "foi Deus que permitiu que naquela ocasião fosse chefe de divisão" e assim ser escolhido para a viagem. Com o avião "revestido" com as cores do Vaticano e com três compartimentos separados - um dos quais apenas para o Papa se sentar - e um serviço de catering "chiquíssimo", a tripulação portuguesa dirigiu-se a Roma a 12 de Maio, para ir buscar Paulo VI. "As pessoas da Alitália [companhia aérea italiana] não nos trataram bem, porque eles é que queriam fazer a viagem com o Papa", conta João Graça, adiantando que a viagem foi entregue "por influência do cónego Galamba de Oliveira".
A comitiva desloca-se para Portugal a 13 de Maio e o avião aterra na base aérea de Monte Real. O Papa ruma ao santuário de Fátima num Mercedes descapotável, enquanto avião e tripulação seguem para o aeroporto de Lisboa. Ao final do dia, já em Monte Real "recolhem" Paulo VI e rumam novamente a Roma. "A viagem demorou 2.30 horas e o Papa veio ao cockpit e fez questão de cumprimentar a tripulação um por um", lembra Amado da Cunha.
Folheando o álbum de fotografias e recortes de jornais e a carta com a ementa servida ao Papa, o piloto recorda que três anos depois a tripulação foi recebida por Paulo VI, em Castelo Gandolfo. "Ele olhou para mim sorriu e disse: já não o via há três anos".

quinta-feira, 29 de abril de 2010

ROMAGEM À TERRA NATAL DO PILOTO ROCHA MARQUES

No dia 12 de Abril de 2010, fui de tarde com o Zé Maria, a Judite e a Mariana até à freguesia de Ribeira (Terras de Bouro) à procura da família do Rocha Marques (piloto). Não seria difícil percorrer cerca de 70 km. Difícil era saber o que dizer.


De facto, depressa chegamos lá. No café, junto à Igreja, deram-nos a indicação da casa de uma das irmãs – Fátima – que nos recebeu entre o desconfiado e a surpresa dos primeiros momentos. Perante a minha hesitação, o Zé Maria (experimentadíssimo advogado) argumentou: «Desculpe o incómodo, mas nós não vimos vender Bíblias nem pedir nada. Muito menos é um assalto. Estamos aqui por causa do seu irmão … que esteve na guerra em Angola». Apresentámo-nos.
Retomado o fôlego, e antes que a Fátima acabasse de nos dizer, embaraçada, que o seu irmão piloto tinha falecido, todos atalhámos: «Sim, nós sabemos!».
Depois, foi um relatar apressado do que sabíamos sobre o acidente. Eu tinha levado a fotografia e a notícia que o JN publicou no dia 3 de Março de 1971. Estendi-lhas. A comoção da Fátima foi muito grande ao tomar nas mãos aqueles dois pedaços de papel amarelecido pelo tempo. De seguida falámos da Balada e do significado que tinha para os companheiros que tinham passado por Henrique de Carvalho, em Angola. Como sei a letra do poema de cor, fui dizendo cada quadra, aguardando e interrompendo, em silêncio, perante as lágrimas da Fátima. Ela não conhecia a Balada e, quando chegaram os últimos versos, a emoção foi profunda e o momento muito difícil para todos nós. Caramba!
Eram 12 irmãos. Restam 7. Ali, na terra dos pais, apenas vive a Fátima. Contou-nos que o João (nome familiar) quase não vinha à terra, por força das andanças militares. Apenas o fazia de longe a longe. Mas, um dia lá apareceu de avião, tendo feito algumas acrobacias sobre a casa dos pais, deixando a Mãe de coração nas mãos, aflitíssima.
Logo a seguir recebem a notícia da sua morte em acidente. A Mãe ficou e viveu até ao fim dos seus dias com a ideia de que o filho piloto, naquele dia, tinha vindo despedir-se dela. Porque era muito raro fazer o que fez.
Disse ainda a Fátima que os irmãos eram todos dados à música. Também, pelos ditos no café, era uma família estimada, querida e de rara sensibilidade e talento. Por isso, os presentes mostraram-se muito sensibilizados e agradados com a ideia de uma possível homenagem ao Homem que tanto nos marcou em tempos de guerra, ao legar-nos um verdadeiro “hino”, rapidamente transformado na nossa bandeira. Que agora terá de ser entregue por nós à sua terra e aos seus.
Esta era a mensagem que levava em nome dos companheiros do AB4. Fiquei de transmitir à Fátima tudo aquilo que, porventura, viesse a ser feito nesse sentido.
Ribeira é uma terra humilde, próxima do Parque Peneda/Gerês, alcandorada numa encosta montanhosa e voltada para o poente. Ficámos impressionados com a simpatia que recebemos no café e, de um modo muito especial, com o acolhimento emocionante da Fátima.
Companheiros do AB4, todos teremos de passar por lá. Porque é lindo. E tem piada, porque muito próximo dali fica Fiscal, nem mais nem menos, a terra natal do extraordinário António Variações. Na vinda fomos visitar a sua sepultura no cemitério local. Como referiu oportunamente o Zé Maria, dois gigantes nasceram muito próximos, viveram intensamente, e apressaram-se a partir bem cedo, tendo a música por companhia.
Foi um dia em cheio, melhor, uma tarde carregada de emoções. Ficamos sentidos com as lágrimas da Fátima ao ouvir o poema e da sua ansiedade ao tomar conhecimento dos gestos de carinho por parte dos antigos companheiros, em relação ao irmão piloto, através do meu testemunho. Ao contrário do que eu pensava, o Rocha Marques está sepultado na Amadora, e a sua filha, Flora, matemática, reside actualmente em Aveiro. Os seus últimos momentos, no hospital, passou-os a perguntar insistentemente pelo estado do aluno piloto, Salgado, repetindo sempre que não se preocupassem com ele porque se sentia bem.
Magnífico testemunho da sua generosidade e grandeza.
Tenho que dizer que fiquei contente por cumprir uma missão há muito prometida, contando para isso com o desafio lançado às onze horas do mesmo dia, Domingo, pelo Zé Maria, (saímos às três da tarde), alterando-se assim a intenção de lá ir na companhia do Antonino Neves e do Álvaro Jesus, estando estes dispostos a fazê-lo, conforme combinado. A força do momento determinou que fosse assim. Porque este Zé Maria, para além de ser um notável advogado, é ainda um amigo muito maior que eu tenho desde sempre; e é grande privilégio poder acompanhá-lo, bem como à esposa Judite e aos filhos Pedro e Mariana. Os «meus» (Irene, e filhos Nuno e Vânia), por imperativos de doença não nos puderam acompanhar. Quanto ao Zé Maria (Coutinho de Almeida) tem uma capacidade rara para, intuitivamente, entrar dentro das situações mais complexas ou singulares, como foi esta. A sua ajuda foi preciosa e providencial, secundada pela Judite e pela Mariana. Eu estava nervoso, com quedas acentuadas nos “magnetos” da retórica. Além disso, a convivência com esta família é tal que o Zé Maria costuma dizer: «Eu quase conheço toda esta gente da guerra, pois há tanto tempo que ouço as tuas “histórias”, repetidamente contadas». Com isto quero dizer que, pese a amizade e admiração que tenho pelo grande Antonino Neves e pelo nosso primoroso cantor, Álvaro Jesus, por certo, companheiros ideais para esta romagem, atendendo às circunstâncias, nem por isso esta jornada teve menor brilho. O ideal seria irmos todos.
O tempo passou rápido. O sol da tarde iluminava de uma forma densa aquele vale, lá em baixo, enquanto descíamos a encosta. Ao lançar o último olhar para os lados de Terras de Bouro, pareceu-me ver a silhueta de um velho T6, voltejando no céu em acrobacias premonitórias, como em sinal de adeus a uma Mãe angustiada. Assim tinha acontecido há 39 anos. E a brisa parecia que trazia suavemente, lá do alto, os acordes distantes de uma guitarra e de uma voz que entoava os últimos versos da Balada do Desterro, ou Balada a Henrique de Carvalho: «Se eu morrer quero bem longe o meu enterro. Quero ser da paz, eterno companheiro».
Sempre que por ali passar, este cenário repetir-se-á.
Porque as memórias dos grandes momentos são eternas
.


ECOS DE UMA BALADA

A Balada do Desterro ou Balada a Henrique de Carvalho, que nunca se apagou da minha memória, passados tantos anos, fez-me sempre acreditar que estava sabiamente marcada, pese a simplicidade das palavras, por uma mensagem subliminar destinada a influenciar literalmente a geração daqueles que a ouviram, mesmo por uma só vez. Por isso, é que todos aqueles que rumaram ao AB4, a partir de 69, de uma forma ou de outra passaram a tê-la como referência espiritual, para não dizer ideológica, dadas as particulares circunstâncias temporais.
Essas palavras simples souberam despertar valores adormecidos nas nossas consciências, ainda demasiado inocentes para saberem compreender a verdadeira extensão da mensagem. Mas, mesmo inconscientemente, todos sabíamos que não podia ser cantada em público. Por isso, fazíamo-lo, altas horas da noite, fortalecidos pelas doses maciças de álcool, quando todos os medos e fantasmas, de tantos sonhos censurados e calados, eram por nós atrevida e avidamente exorcizados. Nesse momentos, nimbados por uma aura de mistério e de transcendência, à média luz, por vezes apenas de velas, entoávamos segredando verso a verso, palavra por palavra, uma Balada que sentíamos como carne nossa, tal era o fascínio dos recados que cada estrofe trazia: invadindo os nossos jovens corações de uma espécie de esperança renascida das cinzas, fruto de uma guerra tão injusta como injustificada.
Nesses momentos, a saudade vencia todas as distâncias e, de olhos fechados, revíamos os rostos amados dos nossos que ficaram na Metrópole, também eles marcados pela dor; mais sentíamos ainda que «o sofrer é profundo» quando era um de nós a deixar vago o lugar a nosso lado, pagando um preço de sangue, friamente exigido. Nesses momentos, quando a viola atacava a última estrofe, os olhos húmidos prendiam-se ao chão, porque a veemência expressa nessa derradeira invocação despertava em nós uma vontade indómita de continuarmos a sobreviver, acreditando sempre: «Oh! Henrique de Carvalho, meu desterro, / Que por dois anos me farás teu prisioneiro. / Se eu morrer quero bem longe o meu enterro. / Quero ser da paz, eterno companheiro».
E a Balada transformou-se no nosso “hino”, cantando a sobrevivência justa e a liberdade consciente. Saltou de boca em boca, sobrevivendo também ela até agora aos desmandos de um tempo censurado. Porque o Rocha Marques, piloto, criou-a talvez dentro de uma carlinga, voando alto. Apontando-a aos espaços infinitos, aonde chegam os sonhos de eternidade. Como eram os sonhos dos nossos 20 anos.
Nunca ouvi o Rocha Marques cantar a sua Balada. Conheci-o quando cheguei ao AB4, tendo voado duas ou três vezes com ele. Apenas. Mas, nesse tempo, já era célebre a sua caída sobre a pista como folha seca: o seu modo muito especial de aterrar com os DO. Também recordo o olhar distante, descendo as escadas da sala dos pilotos, sempre absorto, como se estivesse muito longe dali, dirigindo-se para destinos incertos. Depois perdi-lhe o rumo. Até que um dia, um colega cujo nome persistentemente me escapa falou-me da sua Balada e cantou-a acompanhando-se à viola. Logo nesses primeiros instantes lembro-me do impacto que os versos e a música me causaram. Nunca mais a esqueci. Havia nela algo de muito profundo que não se podia explicar por palavras e que, nos momentos de grande tensão emocional, fosse qual fosse o lugar ou o destacamento (Luso, Cazombo, Gago Coutinho ou Henrique de Carvalho), essa força inconsciente fazia com que a Balada saltasse cá para fora.
Em cenários muito diferentes foi cantada por muitos, tornando-se rapidamente no nosso hino. Que passou fronteiras, soando também em Mueda, Moçambique.
O Rocha Marques tinha-nos legado um sinal poderoso, testemunho de uma consciência iluminada, espantosamente avançada e incomum nesse tempo de guerra, de sofrimento e de «silêncio». Foi por ele criada em 1969 (diz-se). Até a data está marcada por uma coincidência pertinente: era o tempo da crise e levantamento estudantis de Coimbra, reflexo do Maio de 68 em França.
Como um sinal premonitório dos tempos futuros de mudança, desde 69 que a Balada do Desterro se vai cumprindo: ao ressurgir agora com o máximo fulgor, desafiando memórias e histórias de cada um de nós. Para que os significados das nossas verdes vidas, na complexidade de um tempo tão triste como heróico, através dela se cumpram.
Será forçoso dizer-se: a cidade de Henrique de Carvalho, depois da Balada do Rocha Marques, «tem mais encanto». Só que não há lugar para despedidas. Algures, nas dunas do Furadouro (Ovar), em 2 de Março de 1971, um grande piloto encontrou-se, abruptamente, com os desígnios da sua última vontade, traçada nos céus do leste angolano; deixando-nos, em surdina, sábios recados de paz e fraternidade. É tempo de os cantar. Como fazíamos, já lá vai tanto tempo. Pelo saudoso Rocha Marques. E também por nós.
Em Abril de 2010
Mendanha Arriscado


BALADA DO DESTERRO ou BALADA A HENRIQUE DE CARVALHO
(Letra e Música: João Manuel da Rocha Marques (piloto-aviador)

Quando a noite veste de sombras o mundo,
E o silêncio me desperta a solidão,
Verto lágrimas e o meu sofrer é profundo,
Põe-me louco de saudade o coração.


Quando os pássaros saudando a madrugada,
Me despertam para a guerra uma vez mais,
Sinto o peso desta vida amargurada,
Sinto ódio às minhas asas infernais.


Quando penso que, lá longe, ela me espera,
Ansiando pelo dia da chegada,
Grito a Deus que a minha alma desespera:
Grito a Deus, mas o silêncio não diz nada.


Oh! Henrique de Carvalho, meu desterro,
Que por dois anos me farás teu prisioneiro.
Se eu morrer quero bem longe o meu enterro.
Quero ser da paz, eterno companheiro.


quarta-feira, 10 de março de 2010

CORONEL COSTA MARTINS - HOMENAGEM


HOMENAGEM A UM COMPANHEIRO DA FORÇA AÉREA


Faleceu no pretérito sábado num acidente aéreo, quando a aeronave caiu próximo da localidade de Ciborro, no concelho de Montemor-o-Novo, o Coronel da Força Aérea José Inácio da Costa Martins.

Foi figura de destaque na Revolução de 25 de Abril de 1974. Estava responsável pela tomada de um dos pontos estratégicos, o aeroporto de Lisboa, onde chegou sozinho, mas anunciou que a zona estava cercada por forças militares utilizando um bluff para iludir os Oficiais de serviço, leais ao Governo. Afirmou-lhes estar a revolução em curso e que a Unidade estava cercada por militares... mesmo sabendo que, na verdade, ao contrário do que havia sido combinado, as forças terrestres, que viriam de Mafra, ainda não tinham chegado.