quinta-feira, 31 de agosto de 2017

UMA EXTRAORDINÁRIA COINCIDÊNCIA

"Aviador" junto do 1789 - foto do próprio


Em 1969 encontrava-me no Luso, Leste de Angola, a prestar serviço militar como Alferes de Infantaria com a especialidade de operações cripto (CHERET). Chefiava um posto de escuta situado nas imediações da cidade mas sempre que podia ia até ao aeroporto "ver quem chegava". 
O acidente de19 Julho de 1969
Numa dessas ocasiões fiz-me fotografar junto de um North American T6 da Força Aérea Portuguesa, tendo em fundo um Nord Atlas também da FAP. Até então nunca me tinha passado pela cabeça que um dia viria a tornar-me piloto de aviões; a pose era só mesmo para a fotografia.
O curioso é que dias depois desta imagem ter sido registada este mesmo T6 (1789) sofreu uma avaria e aterrou de emergência algures no meio do mato. O piloto e o mecânico sofreram apenas ferimentos ligeiros mas era urgente resgatá-los por se encontrarem em zona de guerra. Ambos viriam a ser recuperados por uma força de paraquedistas no dia seguinte.
Para acompanhar a situação foi montado um gabinete de crise no Quartel General da Zona Militar Leste que eu viria a integrar na condição de responsável local da CHERET. Foi aí que fiquei a saber que o piloto do T6 se chamava Emanuel Lorena.
Emanuel Lorena (ao centro) no Luso em Agosto de 1969 - foto de Gonçalo de Carvalho
Anos mais tarde, no início da minha carreira como piloto da TAP, fui escalado para fazer um voo qualquer em Boeing 727. E quem era o comandante desse serviço? Esse mesmo, o Emanuel Lorena.
A vida dá cada volta...

NOTA - Podem ler o relato desta operação no interessantíssimo blogue do Clube de Especialistas do AB4, aos quais desde já agradeço a colaboração.
https://ab4especialistas.blogspot.pt/2015/04/acidente-do-t6-1789-ii.html

O Aviador

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

MUITO PERTO DA MORTE


Acabados de chegar à Vila de Gago Coutinho, hoje Lumbala N’Guimbo, uma das primeiras operações do pelotão a que eu pertencia, foi a de ir efectuar protecção à JAEA (Junta Autónoma de Estradas de Angola) cuja equipa era chefiada, naquela zona, pelo célebre “Samuapa” encarregado de equipa da JAEA, pessoa altamente disciplinadora e muito temida por quem com ele trabalhava.
A equipa do “Samuapa” estava a reparar uma ponte de madeira que tinha sido parcialmente queimada pelo inimigo (MPLA).
Para os militares, o serviço de protecção aos trabalhos da JAEA era considerado como “um certo repouso”, pois limitava-se a que, durante as horas de trabalho, estivessem nas orlas da mata a fazer a respectiva segurança. 
O problema principal era o do alojamento que, na maioria das vezes, era bastante precário, pois, ou era em casas abandonadas e em ruínas, ou em tendas, como foi neste caso.
Juntamente com o pelotão estava, como reforço, um grupo de uma dúzia de “Flechas” (como era designada a tropa africana recuperada ao IN) que se encontrava igualmente sediada em Gago Coutinho e cuja actividade era coordenada pela Pide.
As obras de restauração da ponte decorriam com alguma normalidade.
Os estragos eram razoáveis e quando queimaram a ponte, os “tipos” deixaram lá uma mensagem escrita em papel, a qual dizia mais ou menos isto: “estas pontes de madeira já não se usam, substituam-na por uma de betão” (além de “chatos” os “tipos” eram exigentes!).
Estava tudo a andar nos conformes até que num belo dia, ao anoitecer e quando o pessoal já se estava a preparar para a segurança dessa noite com o gerador da JAEA ligado para iluminar o acampamento, começamos a ouvir um barulho de um helicóptero no ar.
Desligou-se o gerador, ficou tudo às escuras e o héli começou a andar ali às voltas no ar com todo o pessoal de G3 apontada ao héli, até que se ligou novamente o gerador e o alferes ordenou aos condutores para ligarem os faróis dos Unimog’s e apontarem as luzes para a picada, onde o héli acabou por aterrar.
Nós sabíamos que os helicópteros estavam proibidos de levantarem voo a partir das cinco horas da tarde, já que não possuíam instrumentos de navegação nocturna, nem as pistas existentes no mato tinham iluminação.
Aconteceu que o alferes-piloto levantou voo, para proceder à evacuação de dois soldados dos comandos, já depois da hora permitida.
Anoiteceu, perdeu-se, já estava quase sem combustível e foi um milagre ter encontrado ali o nosso acampamento, pois, caso contrário, teria que aterrar no mato e lá passar a noite.
Esta situação causou-nos alguma perplexidade, à mistura com um grande susto, já que era completamente inesperado ver um “bicho” daqueles voar à noite e, por momentos, chegamos a pensar que íamos ser atacados pelo helicóptero.
Para o piloto, cabo especialista e para os dois feridos que, por sinal, até nem tinham nada de grave, foi uma sorte dos diabos, pois a rota para Gago Coutinho nada tinha a ver com o local onde nos encontraram.
O enfermeiro lá deu uma ajuda aos feridos e o alferes-piloto mais o cabo especialista apanharam uma grande “moca” pois, segundo eles, não se podiam ir deitar sem comemorarem a nossa inesperada recepção.
O radiotelegrafista mandou uma mensagem informando que o héli estava estacionado no nosso acampamento, o qual ficava a cerca de 70 km de Gago Coutinho, local onde se encontrava o destacamento da FAP e o comando militar, tendo igualmente solicitado o envio urgente de gasolina para o helicóptero.
No dia seguinte, após ter chegado a coluna com o combustível, o héli lá regressou a Gago Coutinho, sem que antes o piloto se viesse despedir muito efusivamente de todos nós.
As obras de recuperação da ponte continuavam em bom ritmo, até que a chuva apareceu, os trabalhos foram interrompidos e parte do pessoal recolheu às tendas.
Eu também fui para a minha tenda e deitei-me para ler uma revista das selecções Reader’s Digest bastante antiga que alguém me tinha feito chegar às mãos.
Estava eu deitado com as cartucheiras a fazerem de almofada e, só por um mero acaso, não estava com a cabeça encostada ao pano da tenda porque este estava molhado, quando, volvidos alguns minutos, ouço um tiro, mas não liguei grande importância já que era muito frequente haver um ou outro disparo de arma, por descuido de algum militar. No entanto, começo a ouvir vozes que dizem haver um ferido e, logo de seguida, aparece-me o Furriel Frota à entrada da minha tenda e pergunta:
- “Ó Magro, estás vivo?!”
Eu, que entretanto já me tinha sentado, pergunto sobressaltado:
- “Ó pá, o que foi?! O que é que se passa?!”
Responde-me o Frota:
- “Olha para trás, para o pano da tenda!”
Olhei e vi que a tenda estava furada pelo projéctil do tiro que se tinha ouvido no acampamento, havia alguns segundos atrás. 
Continuou o Frota:
- “Um ‘Flecha’, na tenda ao lado da nossa, estava sentado com a FBP (1) em cima dos
joelhos e, talvez por descuido, a arma disparou e a bala atravessou a nossa tenda e foi atingir um outro tipo dos ‘Flechas’ que se encontrava na tenda a seguir e que dormia ao contrário, isto é: com a cabeça para o lado dos pés. Por isso também teve sorte, levou um tiro num pé.”
Eu voltei-me novamente para trás a observar o furo na tenda provocado pelo projéctil, o qual estava a centímetros das cartucheiras que me serviram de almofada e onde eu tinha a cabeça.
Fiquei ali uns minutos a reflectir e a falar com os meus botões:
- “Ias ‘lerpando’ (2) deitado, com um tiro na ‘moleirinha’ e a ler umas selecções muito antigas do Reader’s Digest!”
Entretanto, lá chegou o helicóptero que evacuou o ‘Flecha’ ferido com o tiro no pé.
A ponte, passados mais uns dias, ficou reparada, mas creio que mais tarde voltou a ser queimada, mas já não me calhou a mim ter de ir para lá novamente.
A cada passo, nos encontros de almoços anuais da tropa, lá me vêm alguns soldados recordar, uns da emboscada, outro do susto do helicóptero e outros a lembrarem-se e a dizer-me:
- “Eh pá, e quando você ia ‘lerpando’ deitado a ler?!”

(1) – A Pistola-metralhadora FBP foi projectada no final da década de 1940 por Gonçalves Cardoso, Major de Artilharia do Exército Português e foi produzida pela Fábrica de Braço de Prata (FBP) em Lisboa, com cuja sigla foi baptizada. Foi muito utilizada em África, no início das guerras coloniais, mas, por ser uma arma pouco confiável (em caso de queda, podia dar-se um disparo), deixou de ser usada em termos operacionais. (2) - “Lerpar”, termo usado no jogo da Lerpa, muito praticado pelos militares, jogo a dinheiro, muito simples no qual era tirada uma carta que era o trunfo, cada jogador tinha três cartas e quem fosse a jogo e não fizesse nenhuma vaza, “lerpava” e colocava na mesa o valor correspondente ao dinheiro em jogo que se encontrava na mesa.


Por: Rogério Alberto Valente Magro

ex-Fur. Milº Atirador de Infantaria CCAÇ 1719
Angola - 1967/1969 


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

BA2 OTA - JURAMENTO DE BANDEIRA DA ER 2ª./71 E BA3 - TANCOS ENTREGA DE BREVETS PH

















JURAMENTO DE BANDEIRA E ENTREGA DE DIPLOMAS
B.A. Nº. 2 – OTA – 27/AGOSTO/1971

Juramento de Bandeira da Escola de Recrutas 2/71

As Forças em parada em continência à Bandeira






Em 27 de Agosto de 1971 realizou-se na Base Aérea nº. 2 a cerimónia do Juramento de Bandeira dos soldados cadetes do curso de oficiais milicianos pilotos aviadores 1/71, de soldados alunos do curso de sargentos milicianos pilotos 1/71 e de soldados alunos recrutas especialistas 2/71, efectuando-se também a entrega de diplomas aos  soldados cadetes alunos que terminaram os cursos de formação.
Presidiu às cerimónias o
subchefe do Estado-Maior da Força Aérea, brigadeiro Braz de Oliveira, que estava acompanhado pelo brigadeiro José André da Silva, director do serviço de Intendência e Contabilidade, pelo coronel para-quedista Alcino Ribeiro, da Direcção do Serviço de Instrução, pelo coronel médico Fernandes Tender, da Direcção do Serviço de Saúde e outros oficiais. Depois de passar revista à guarda de honra, comandada pelo capitão Sengo, o brigadeiro Braz de Oliveira e os restantes oficiais dirigiram-se para a tribuna de honra.
A iniciar as cerimónias, usou da palavra o comandante da Base Aérea nº. 2,
coronel Brochado de Miranda, que pronunciou o discurso que mais abaixo publicamos. A preceder o acto do juramento de bandeira, o alferes Salvador proferiu uma alocução alusiva ao acto. A fórmula do juramento foi lida pelo tenente-coronel Raul Tomás, que comandava a formatura em parada, sendo comandante do Grupo de Instrução o major Noronha. Seguiu-se a entrega de diplomas e prémios, finda a qual as forças em parada desfilaram em continência perante a tribuna de honra. A encerrar houve demonstrações de manejo de arma a pé firme em marcha e de luta individual.
Cor. Brochado de Miranda
A abrir a cerimónia, o comandante da Unidade, coronel Brochado de Miranda, leu o seguinte discurso:
“Vestiu-se de galas a Base Aérea nº. 2 para realizar condignamente mais uma cerimónia de Juramento de Bandeira. Vestiu-se de galas para honrar altas entidades oficiais e para acolher convidados e visitantes. Uma vez mais tenho eu o privilégio de saudar Vª. Exªs. e de lhes apresentar cumprimentos de boas vindas.
O estandarte da Unidade sai hoje do recolhimento em que normalmente repousa, em lugar de distinção, para, às mãos de quem este ano foi distinguido com a honrosa missão de Porta-Bandeira, se postar em frente da formatura geral da B.A.2 e, como símbolo e imagem da Pátria, receber um compromisso de honra de várias centenas de jovens militares da Força Aérea.
Foi ainda há poucas semanas que estes rapazes se apresentaram. A instrução que até agora lhes foi ministrada teve por finalidade essencial enquadrá-los num conjunto onde se procurou desenvolver a capacidade individual de resistência ao esforço físico, estimular a vontade para vencer dificuldades e interesses pessoais e, paralelamente, excitar o espírito de solidariedade. 
O que atraiu ou porque vieram servir na Força Aérea?
Pelo interesse na carreira militar?
Pela possibilidade de associar, à obrigatoriedade de prestação de serviço militar, a aquisição de conhecimentos úteis à sua formação ou valorização profissional?
Ou simplesmente para, frustrados os intentos de prosseguir na sequência normal de estudos, cumprir o serviço militar em circunstâncias que julgam menos rudes ou mais isentas de perigo?
Ou ainda em busca de correcção para desvios por caminhos errados ou para carência de autoridade familiar?
Distribuição de prémios aos soldados alunos que se distinguiram

Não é oportuno neste momento dar resposta às interrogações. O certo é que, seja qual for o motivo, todos eles são elementos da Força Aérea que interessa bem treinados. A sua instrução merecerá pois os mais diligentes cuidados, dedicando-se a partir de agora maior atenção ao indivíduo do que ao grupo. Porque a nossa missão não é só a de ensinar a combater adversários, mas também a de ajudar cada um a descobrir-se a si próprio, a saber suportar responsabilidades, a respeitar a autoridade, a desenvolver e armazenar energias morais.
Nas formalidades que se vão suceder não encontraremos somente o acto do Juramento, que dá o nome à cerimónia. Para que tudo não decorra com demasiada rapidez e com o propósito de que a lembrança do momento se não esvaia facilmente da memória de cada um, entendemos cercá-lo de ornamentos e colorido que, guardando-se todavia o ambiente de solene seriedade, lhe não tirem a importância mas lhe realcem o significado. É o que iremos encontrar no aprumo e altivez das tropas em parada; na sua atitude firme e perfilada; no atavio; nas evoluções coordenadas em exercícios sincronizados; no som galvanizante da marcha cadenciada; na distribuição de diplomas, prémios e felicitações…
Ajuda-nos o dia, o ambiente e o local.
Faço votos para que guardem bem presente uma recordação viva desta ocasião e desejo a todos as maiores felicidades.” 

NUMEROSO CURSO DE PILOTOS DE HELICÓPTEROS RECEBEU “BREVETS”

BASE AÉREA Nº. 3 – TANCOS – 14/OUTUBRO/1971
Tradicional foto de fim de curso

Na Base Aérea nº. 3 (Tancos) realizou-se no dia 14 de Outubro de 1971 a cerimónia do brevetamento de 32 pilotos de helicópteros, que constitui um dos mais numerosos cursos dos últimos tempos. 
Cor. Ferreira Valente
Presidiu o Secretário de Estado da Aeronáutica, brigadeiro Pereira do  Nascimento, que estava acompanhado pelo Director do Serviço de Comunicações e Tráfego Aéreo, brigadeiro Jorge Noronha, e pelo Director do Serviço de Instrução, brigadeiro Diogo Neto.
Ao chegar à Base Aérea nº. 3, o Secretário de Estado da Aeronáutica recebeu os cumprimentos do comandante da Unidade, coronel Ferreira Valente, dirigindo-se depois para a tribuna de honra, junto da qual o aguardavam os oficiais que prestam serviço na BA3.
A iniciar as cerimónias, o coronel Ferreira Valente pronunciou algumas palavras.
Em seguida, os instrutores colocaram no peito dos seus instruendos as “asas” de pilotos de helicópteros, após o que o Secretário de Estado da Aeronáutica e os oficiais generais presentes entregaram os diplomas aos novos pilotos. Finda a entrega dos diplomas, os 32 novos pilotos desfilaram em continência perante a tribuna de honra, seguindo-se o desfile das forças em parada, comandadas pelo 2.º comandante da Unidade, tenente-coronel Orlando Amaral.

Ao terminar a cerimónia seis helicópteros efectuaram alguns voos de formação, enquanto um se exibia em várias figuras demonstrativas das possibilidades de manobra daquelas aeronaves.
Brig. Pereira Nascimento na entrega de diplomas

No discurso que pronunciou, o comandante da BA 3 teve a ocasião de tecer algumas considerações sobre os cursos de pilotos de helicópteros. Dirigindo-se aos pais dos alunos, transmitiu-lhes felicitações pela vitória alcançada. “Vitória que, quero saibais não ter sido fácil e de que foram eles os principais obreiros, posto que tenha sido prazer e obrigação de funções o amparo que os seus superiores lhes proporcionaram para poderem chegar a este dia, deixando pelo caminho tantos que os não puderam acompanhar na dura escalada que tiveram de vencer”. No final do seu discurso felicitou os alunos do curso a brevetar, tendo palavras de muito apreço pelo trabalho realizado, considerando-os “Um escol que, para mais, teve a viril decisão de escolher cumprir o seu tempo de serviço militar num ramo e especialidades das forças armadas onde relativamente bem poucos têm viabilidade de vencer”. 

 “Capacidade individual de resistência ao esforço físico, estimular a vontade para vencer dificuldades e interesses pessoais e, paralelamente, excitar o espírito de solidariedade.”
Tribuna de honra com o SEA
Notas: Recolha de informação nas Revistas “Mais Alto” nº. 148 – AGOSTO e nº. 149/150 de SETEMBRO/OUTUBRO DE 1971
           

Até breve                                                                                   
O amigo 


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A RENOVAÇÃO DA AVIAÇÃO DE COMBATE PORTUGUESA

Depois da Guerra do Ultramar (1974-1984) - Os planos da Força Aérea.
Os primeiros contactos a este nível são realizados logo em Junho de 1974, entre o então Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, general Diogo Neto e o coronel Wilkerson, chefe da secção do Military Assistance Advisory Group (MAAG) sedeado na embaixada americana, em Lisboa.
Na manhã do dia 5 de Junho, Diogo Neto recebe no seu gabinete Wilkerson e dá-lhe conta dos planos que tinha para a FAP. A nível da aviação de combate, o objectivo da Força Aérea era ter duas esquadras, uma equipada com o F-5E Tiger II e outra com o F-4E Phantom. Além disso, desejava também o Northrop T-38A Talon para substituir o T-33 na função de treinamento e o T-41 Mescalero para substituir o velho Chipmunk.
Surpreendido com a magnitude do pedido, Wilkerson promete fazer chegar os planos portugueses à Administração americana, lembrando, no entanto, que o embargo de armas continuava nessa altura em vigor contra Portugal e que seria muito difícil tais intenções de reequipamento serem satisfeitas pelos americanos.
Na resposta, Diogo Neto salienta que os aviões a adquirir são apenas para uso no continente europeu e que a Força Aérea pretende retirar do Ultramar de forma faseada.
É também abordada a questão de como iria Portugal pagar tais aviões, um problema que na visão do general Diogo Neto devia ser resolvido no âmbito das negociações do acordo da base das Lajes, algo que ultrapassava obviamente o âmbito do MAAG, o que é dito claramente pelo coronel Wilkerson.
No comentário que faz depois ao Departamento de Estado acerca desta reunião, a embaixada americana em Lisboa considera genuínas as preocupações portuguesas em modernizar a Força Aérea, estranha, no entanto, a ausência de referência a aviões de luta anti-submarina como o P-3 Orion, que já tinham sido pedidos pelas autoridades portuguesas a Washington, ainda antes do 25 de Abril.
Apesar do comentário de Wilkerson, a verdade é que o P-3 também fazia parte dos planos de modernização da FAP, pois o próprio Diogo Neto o tinha incluído numa lista de material a incluir num futuro acordo de assistência com os EUA.
O documento datado de 3 de Junho previa a aquisição durante um período de 4 anos de 165 aeronaves para a Força Aérea dos mais variados tipos, como se pode ver pelo quadro, que consta do referido memorando. 
Pouco tempo depois, a 30 de Julho, decorre uma reunião no Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre as necessidades militares a incluir num acordo sobre a base dos Açores, e, no dia seguinte, o brigadeiro João Pinheiro, adjunto do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), faz chegar a este ministério uma lista do material a pedir no âmbito de um futuro acordo.
No caso da Força Aérea são pedidos: 16 F-5E, com sobressalentes e material de apoio, além de 16 aviões T-38A, 20 T-41A e 12 helicópteros de combate AH-1Q, igualmente com sobressalentes e material de apoio. Tudo isto por um valor estimado de 4,3 milhões de contos (165 milhões de dólares). 
Diogo Neto apresentava assim um plano mais realista para a modernização da Força Aérea, pois era óbvio que o número de aviões previsto no documento de Junho excedia claramente qualquer apoio que os EUA estivessem dispostos a prestar a Portugal.




















Por:
Joaquim Ferreira

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O HELI DOS "PRIMOS" E A HISTÓRIA DA MALA


No meio da grande azáfama inerente a uma grande operação a nível de Batalhão, apoiada por Helicópteros, surge a notícia veiculada por um dos pilotos “primos” que teria sido avistada uma mala no cimo de uma árvore no meio da mata..
Perante este relato, as mais diversas conjunturas se fizeram, nomeadamente já se vislumbrava uma mala cheia de armas.
Constituiu-se uma equipa de “voluntários” e lá fomos de helicóptero à procura da mala e, a cerca de 10 minutos de voo, lá estava ela com todo o seu mistério. A equipa de 4 elementos saltou do heli numa “anhara”(*) próxima, mas, por razões de segurança, o heli zarpou de novo para os ares, e quando pensávamos que ficaria por ali a pairar, foi-se afastando até deixar de se ouvir…????.... !!!!!
Na mata ficaram 4 “gatos pingados” armados de G3 e granadas que foram à procura da famosa árvore da mala.
A expectativa era grande e o silêncio, após a partida do heli, tornava o ambiente pesado, afinal estavam ali apenas 4 militares entregues a si mesmos.
Seria no entanto, pensávamos nós, o chamado risco controlado dado ter-se tratado de uma “operação” decidida em surpresa e seria um grande azar estarmos “na boca do lobo”.
Como quem lá esteve sabe, pouco tempo depois, o risco estava esquecido e fomos caminhando na mata até à famosa árvore com a mala no topo, decididos a averiguar o seu conteúdo.
Ali chegados, alguém trepou e,….espantosamente, a mala estava vazia!!!!
Em silêncio voltámos para junto da “anhara” (*) esperançados em que não se tivessem esquecido de nós. Foi uma espera tensa de mais de 45 minutos até que ao longe se voltou a ouvir o silvo tradicional do Alouette. 


Soubemos depois, que foi ao quartel do Muié abastecer de combustível que já escasseava. Na mata apenas tínhamos o rádio “banana” com a frequência da Força Aérea, mas cujo alcance reduzido, (era um terra/ar), fez com que estivéssemos numa espera tensa sem sabermos quando terminaria, por falta de notícias.  
Regressámos sem mala, mas com a missão cumprida !!!!...........
(*) anhara – área (maior ou menor) da mata, sem vegetação nem água, chana.

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