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sexta-feira, 4 de abril de 2014

CHISSOIA



– «Quando a luz difusa que anuncia o amanhecer tropical começou a dar cor ao casario da cidade [de Luanda], havia já na marginal um movimento desusado. Ao fundo da avenida, frente ao porto, a praça fora engalanada com bandeiras e a tribuna erguida na véspera, recheada de cadeirões forrados a veludo vermelho, aguardava, imponente, a chegada das individualidades. Comemorava-se o Dez de Junho e Portugal, de Camões e da Raça, e os heróis iam ser solenemente exaltados.
Do alto do pedestal a estátua do navegador, erguida no centro do largo, olhava a baía a que os raios do sol nascente douravam já as águas tranquilas, como se aguardasse ainda a chegada das naus, deslizando suaves e silenciosas, como cisnes negros de asas brancas.
Nesse tempo, a população descia dos morros e barrocas sobranceiras à zona ribeirinha, esperando que os nautas varassem os botes na praia para o encontro dos mundos que "o mar já unia". Agora, a baía, que se recorta como um sensual dorso de mulher, foi pudicamente coberta com o manto verde das palmeiras da marginal, e na comunhão dos mundos só as naus estão ausentes. Portugal e o mar ali estavam, marcando presença perante uma população que, a pouco e pouco, tomou a côr da mestiçagem de sangue e vivência, deixando perplexo, quem se interrogasse, de que raça se iriam enaltecer as virtudes naquele dia!
A praça fora enchendo. As cadeiras da tribuna tinham sido ocupadas e um general, em voz monocórdica e enrouquecida, lia o discurso onde salientava que quinhentos anos de esforço, e querer, uniam o herói que, ali imortalizado em pedra, olhava absorto o oceano sem fim, aos heróis de hoje que, frente à tribuna, aguardavam o agradecimento da Pátria reconhecida.
Perfilado, com a dignidade de um bem-nascido, altivo no camuflado verde, o Chissoia aguardou o chamamento e a leitura do louvor em que era descrito o seu acto de bravura. Subiu os degraus da tribuna e, como se fosse talhado em ébano, sem mover um músculo, abriu o peito largo onde o general, quase em bicos dos pés, lhe colocou uma Cruz de Guerra, dizendo-lhe em voz baixa que Portugal sentia orgulho por ter filhos como ele. Regressou ao lugar na fila dos heróis e, erecto, assistiu ao desfile de estandartes dos batalhões espalhados pelos confins do território, à passagem do corpo de fuzileiros, do regimento [CI] de comandos, dos flechas e dos leões de Cabinda, que em marcha acelerada entoavam canções guerreiras. A cavalaria fechou o desfile a galope curto, com garbo e tradição.
Era impressionante a portugalidade que se respirava e as gentes, de todas as cores, que tinham emoldurado a praça, ao dispersar derramavam na cidade a confiança inabalável no Portugal granítico e multirracial que, naquela manhã, tinha estado presente naquele largo, frente ao porto.
Quando conheci o Chissoia era ele já um veterano de guerra, não que fosse velho, pelo contrário, apenas começara cedo e aprendera depressa. Parece que desde pequeno acompanhava o pai como pisteiro de elefantes. O Lucusse, onde nascera, era uma zona de passagem dos paquidermes que, nos seus itinerários até ao rio Lungué-Bungo, muitas vezes destruíam o trabalho de meses no arranjo das lavras. Entre os animais e os aldeões travava-se uma luta pela sobrevivência, em que nem sempre eram os humanos os vencedores. Era assim natural que os caçadores, convidados pelo governador do distrito [do Moxico] ou pelos homens importantes da província, fossem vistos com agrado pelas populações, pois além de abater alguns animais, afugentando por algum tempo as manadas, deixavam toneladas de carne que, mesmo dura e fibrosa, o soba e o velho Chissoia ficavam encarregados de distribuir. Aos brancos só os dentes interessavam, e o velho pisteiro aguardava que os crânios enterrados apodrecessem para lhes retirar as presas que, numa próxima visita, entregava já limpas de medula.
Foi nessa época que os Chissoias, pai e filho, se tornaram amigos de gente importante. O profundo conhecimento das matas e a perícia em seguir e interpretar trilhos como quem lê um livro, aliados à camaradagem que a aventura comum proporciona, permitiu-lhes sentar-se, conversar e comer lado a lado com os grandes da terra que, amiúde, os presenteavam como prova de reconhecimento. O prestígio do velho Chissoia era grande perante as populações, não só dos povoados próximos, como de toda a região.
Corriam tranquilos os primeiros anos da década de sessenta. A luta que se ateara no Norte do território não tinha chegado ainda às planícies sem fim do Leste. As matas eram seguras e, logo pela manhã, as mulheres seguiam em fila e sem receios, para as lavras onde recolhiam lenha e mandioca para o sustento da prole.
1971 - Com. Chissóia dos
Flechas
Uma madrugada apareceu no Lucusse um grupo de gente estranha à região. Vinha armada e queria falar com o soba. Depois de uma longa conversa, e perante a atitude de incompreensão e até de alguma hostilidade, o chefe do grupo resolveu utilizar um meio de persuasão mais eficaz e, perante a população aterrorizada, fuzilou o soba por ser um chefe corrupto e o velho Chissoia por ser lacaio dos colonialistas. O filho fugiu para a mata e, passados dias, chegou à capital do distrito, onde contou o sucedido. Acompanhou depois a força militar que foi enviada para a zona e seguiu, até ao fim, a pista de rastos humanos como o pai lhe ensinara a seguir a dos elefantes.
A partir dessa época ficou ligado ao destacamento militar que foi aquartelado na povoação. O seu conselho e actuação foram sendo cada vez mais imprescindíveis, acabando por ser integrado nas forças irregulares, chefiando um grupo de homens escolhidos por si e com relativa autonomia.
Quando a luta de defesa do território foi alargada ao Leste para suster a tentativa do inimigo de alcançar o planalto central por essa via, a táctica das nossas forças teve que se adaptar ao terreno plano e com grandes extensões pouco povoadas. A Força Aérea iniciou então uma colaboração íntima nas operações terrestres, proporcionando uma maior mobilidade através de helicópteros e aviões ligeiros. Foi nessa época que conheci o Chissoia, e muitas horas passadas em amena conversa, junto das fogueiras que aqueciam as noites frias das savanas de leste, caldearam a amizade e a admiração que desde então sentia por ele.
Uma tarde, quando o crepúsculo já anunciava a noite que cairia breve, perto do Lago Dilolo, quando o seu grupo dava protecção a um movimento das nossas tropas, houve uma emboscada e dois soldados feridos jaziam no chão dentro do campo de tiro do inimigo, que continuava a alvejá-los.
Passado o primeiro momento de surpresa, o Chissoia levantou-se e, a descoberto, com a arma ao quadril, fazendo fogo para se proteger, foi buscar um e, depois, o outro, arrastando-os para lugar mais seguro.
Foi por esse acto de bravura que o Chissoia esteve presente naquele Dez de Junho, em que o general se esticou para lhe pendurar a condecoração na farda honrada e que, passados tantos anos, algures num recanto de Portugal, dois homens de meia idade podem recordar, em reuniões de família, como uma vez, quando estavam no Ultramar, um preto lhes salvou a vida.
O ano de setenta e quatro decorreu convulso! A esperança inicial, transmitida pelos novos políticos no poder, em vez de tranquilizadora e bem colocada, parecendo ter a percepção da complexidade dos problemas a enfrentar, fora substituída por dúvidas cada vez mais angustiantes. As cidades tinham acolhido com palmas os guerrilheiros vindos das matas, aplaudindo-os como actores inesperados, num final de acto antecipado e improvisado, mas antes do fim do ano muitas das mais importantes povoações eram já palco de lutas entre os diversos movimentos, com recurso a armas pesadas, que destruíam tudo o que fora construído com sacrifício e amor.
As Forças Armadas portuguesas, desviadas dos seus objectivos e da sua missão, assistiam a tudo como espectadoras, ocupando, salvo raras excepções, um lugar pouco digno.
A partir do meio do ano setenta e quatro, começaram a chegar a Lisboa os soldados do fim da era imperial. Traziam estampada no rosto, na farda e na mente, a parte negativa da revolução.
A população civil começara há muito a sair face à insegurança em que se passou a viver, e muitos de nós, militares, habitávamos as casas vazias onde tínhamos vivido com as famílias, aguardando o fim da missão.
Uma noite ouvi um bater tímido de palmas no quintal da casa que ainda ocupava. Quando abri a porta, o Chissoia e a família estavam à minha frente.
"Preciso de ajuda!" atirou, quase envergonhado.
"Entrem e sentem-se por aí", disse, apontando os caixotes onde embalava o que queria levar de regresso a Lisboa. "Cadeiras já não há!", concluí.
 A mulher e os filhos acocoraram-se, silenciosos, junto à parede da sala. Eu e ele sentámo-nos frente a frente, como sempre tínhamos feito, cada um em seu caixote.
 "Estamos abandonados!", começou. "Três dos meus homens foram detidos por um dos
movimentos de libertação, e foram mortos...".
"Não pode ser", interrompi. "Vocês terão que ser protegidos nos acordos que se fizeram", afirmei, procurando eu próprio dar convicção ao que dizia.
 "As patrulhas deles procuram-nos sem que alguém nos dê protecção!...".
"Isso não faz sentido! A responsabilidade aqui ainda é nossa... o comandante do batalhão é a autoridade!", exclamei indignado.
 "Fui ao comando militar hoje à tarde. Um tenente de barbas, que parece ter chegado há pouco tempo, disse-me uma coisa que me deixou sem dúvidas...".
"O que foi?", perguntei.
"Quando soube o meu nome, perguntou o que é que eu esperava que acontecesse aos lacaios e traidores do povo...". As lágrimas dançavam-lhe nos olhos sem cair, como se a raiva e o orgulho as segurassem. "Isso foi o que disseram ao meu pai em Lucusse antes de o fuzilar...", e num desabafo murmurou: "Só que esses eram negros... um tenente branco não me pode dizer isso... porque aqui o traidor é ele... eu fui condecorado, o general disse-me que tinha orgulho de mim, de um português como eu... quando esse homem souber o que me disseram...".
Olhei-o cheio de amargura, sem ter a coragem de lhe dizer que esse general assumira agora outras funções e que ele, Chissoia, era uma ligeira sombra na sua memória, nas suas preocupações...talvez na sua consciência.
Desceu sobre nós um silêncio pesado e trágico. Olhávamo-nos mudos. Os caixotes em que nos sentávamos e a casa vazia que nos albergava, pareciam ser tudo o que restava do mundo em que até aí tínhamos vivido.
Subitamente, a filha mais nova, com os cinco anos a reluzir-lhe na face risonha, levantou-se e, sem quebrar o silêncio, foi apanhar do chão uma boneca de cabelos loiros que uma das minhas filhas tinha deixado para ser enviada nos caixotes. Voltou a acocorar-se junto à mãe com a boneca nos braços, cantando-lhe baixinho uma canção de embalar, que certamente aprendera com as mães negras do bairro onde vivia.
A pouco e pouco a força telúrica da melodia, quase murmurada, foi aquecendo o silêncio,enchendo-o da energia profunda da África eterna, renascida das cinzas, verdejante depois das queimadas. A alma foi-se-nos erguendo como se a canção fosse um hino que nos devolvia o ânimo e, em silêncio, ambos procurávamos já a solução que todos os problemas têm.
"Eu posso arranjar passagens para Luanda no avião de amanhã", alvitrei, buscando saída.
"Luanda não é o meu povo. Só lá fui uma vez...", referia-se à data da condecoração. "Lá ficamos ainda mais desprotegidos".
"Posso tentar que vão para Portugal, mas, pelo que sei, não vai ser fácil nem rápido", disse,recordando as notícias que nos chegavam pelas tripulações.
"O mais difícil é sair daqui com a família. Com eles não consigo passar sem ser visto".
"Mas sair para onde?", perguntei, sem vislumbrar a solução.
"Tenho gente na mata, que me mandou recado. Há movimentos que não se importam de nos aceitar.
Precisam de homens com experiência para as guerras que vão chegar."
"Que posso fazer?", interroguei com desalento, pensando no papel que teríamos ainda de representar na tragédia que se vislumbrava já no horizonte.
"Aquela pista que uma vez abrimos para utilizar só em operações especiais, continua boa e abandonada...", sugeriu a medo, consciente do que pedia. "Podemos ser postos lá?...".
Eu tinha presente a localização da pista. Fora aberta na orla de uma mata, longe de povoações,apenas para ser utilizada em operações que se desenrolassem perto da fronteira.
"Já mandei os meus homens sair da cidade, só ficaram duas mulheres, eu e a minha família; se nos puder ajudar...".
Sabia o risco que corria ao dizer-lhe que sim. A zona já fora evacuada pela nossa tropa e, ainda que isolada, poderia andar perto algum grupo que não hesitaria em abrir fogo se nos visse aterrar.
Pela minha memória passou aquela madrugada em que tinham chegado ao acampamento os dois soldados feridos, mas salvos pelo Chissoia.
O Portugal que eu era devia um sacrifício, um acto de gratidão, ao Portugal que ele, Chissoia,deixara já de ser.
Dormiram essa noite na minha casa depois de ter ido buscar, furtivamente, as duas mulheres e mais duas crianças, evitando as patrulhas que circulavam pelas ruas desertas da cidade. De manhã, muito cedo, meti-os no jipe que ainda me estava distribuído, e dirigi-me à base onde tinha o avião para regressar a Luanda logo que a minha missão ali estivesse cumprida.
Descolei e tomei o rumo da pista que nos aguardava na mata. Daí ao Lucusse seriam uns dias de caminho árduo, mas era preferível percorrê-lo a serem abatidos como traidores.
Lucusse (foto de Gonçalo Carvalho)
A faixa deserta estava mergulhada no silêncio hostil das coisas abandonadas. Tudo estava agora vazio, dominado pela mata que parecia querer recuperar para si a pista, como cicatrizando umaferida aberta. Aterrei e, para não parar o motor, mantinha-o a baixas rotações. O hélice provocava um som triste de chicotadas que, repercutindo-se de árvore em árvore, ia morrer nos confins da floresta.
O Chissoia ajudou a família a descer rapidamente do avião, conhecendo perfeitamente o perigo que todos corríamos se, por acaso, um grupo dos novos senhores da guerra nos surpreendesse. Ao sair colocou-me, num gesto mudo, a mão sobre o ombro, dizendo assim tudo o que nem eu nem ele tínhamos coragem para dizer. Depois, caminhou apressado à frente do seu pessoal em direcção à mata. As mulheres e os filhos seguiam-no em fila indiana. Não teve mais um olhar, mantinha o porte altivo e digno que sempre lhe conheci. Um a um, vi-os desaparecer entre as árvores, como se a floresta os engolisse. Só a mais pequena, a última da fila, se deteve um instante e, voltando-se, com a boneca de cabelos loiros na mão, fez-me adeus e sorriu, num gesto puro de quem não sabe que se despede para sempre.
Fiquei a olhar o sítio onde desapareceram, aguentando a solidão imensa que me gelava a alma.
Quantas traições, quantos abandonos e deslealdades serão necessários para erguer e desfazer um Império?
Em quantas praias desertas teremos deixado companheiros? Em quantas matas teremos abandonado gente que em nós confiou? Quantas vezes desertámos das responsabilidades que assumimos?
Quantas vezes traímos?
Descolei e, já no ar, dei por mim a pedir a Deus protecção para o camarada perdido.
No dia seguinte, o mecânico que passou inspecção ao avião, entregou-me uma medalha da Cruz de Guerra que encontrou caída no chão, junto ao banco em que o Chissoia se sentara.»

(Carlos Acabado, in “Kinda e outras histórias de uma guerra esquecida")

sábado, 17 de março de 2012

A AVÓ DO CABO DINIS - Parte III

Conclusão
Talvez tenha sido essa angústia fria e deprimente, provocada pela incerteza que se apodera de um piloto ao comando do seu avião nos momentos em que a decisão a tomar pode conduzir a uma situação irreversível, que nos levou a apontar o nariz do avião para o buraco que se nos afigurava como uma eventual passagem na muralha que a tempestade formara.
Voávamos agora em plena intempérie, numa turbulência que, apesar da experiência que ambos possuíamos, nos levava a admitir que o avião poderia não aguentar! A bússola oscilava com grandes amplitudes, atraída pelos "cúmulo-nimbos" que mais perto estivessem! Os comandos do avião, que ambos segurávamos, saltavam-nos das mãos, tal era a força dos golpes para baixo e para cima que nas asas os "ailerons" sofriam!
Dada a situação, decidimos, a partir da posição estimada em que calculávamos estar, traçar o rumo para Luanda e segui-lo sem alterações, fossem quais fossem os obstáculos que estivessem na nossa frente. E foi assim, após mais uns trinta minutos de voo tormentoso, que por baixo de nós avistámos de relance as luzes de uma povoação que, pela dispersão, só poderiam ser as da cidade de Malange ou de Salazar, a actual Dalatando.
Com a luz da lanterna de bolso que trazíamos sempre no fato de voo iluminámos a carta de navegação, medindo as distâncias de uma e outra povoação a Luanda. Concluímos que, caso estivéssemos a sobrevoar Malange, o combustível já não daria para chegar a Luanda; se as luzes fossem as de Salazar, havia a hipótese de aterrar, mas com a gasolina abaixo dos mínimos!
Continuámos o voo preparando-nos para o pior, mas mantendo a esperança de que as luzes avistadas fossem as da actual Dalatando.
Foi com uma crescente sensação de alívio que fomos verificando que o temporal tinha tendência para suavizar, à medida em que deixávamos de sobrevoar a zona montanhosa do planalto para entrar na longa faixa plana que leva ao litoral. Como os motores continuavam a trabalhar num "ronronar" sadio, esperávamos a qualquer momento vislumbrar, através da neblina que se formara junto ao solo, as luzes da cidade e com elas as da pista que sabíamos estar iluminada.
As ajudas rádio à navegação, que durante a travessia da tempestade de nada nos tinham servido, começaram subitamente a dar indicações e ouvíamos agora a torre de controlo de Luanda tentando entrar em contacto connosco, chamando-nos pela matrícula do avião!
O Martins Rodrigues, carinhosamente apelidado de "Martin" desde os tempos de cadete na Academia Militar, era o oficial de dia ao aeródromo.
Como o nosso tempo estimado de voo fora ultrapassado há muito, ele alertara a torre de controlo para a possibilidade de nos termos despenhado algures entre o Luso e Luanda, num percurso que tornaria uma busca muito difícil de efectuar por ter que ser feita ao longo de cerca de mil e quinhentos quilómetros!
A voz do controlador alegrou-se ao ouvir que respondíamos à sua chamada.
Quando nos perguntou o novo tempo estimado de aterragem, o Cóias calmamente informou-o de que seria dentro de quinze minutos!
Perante a minha perplexidade pela informação prestada, pois ainda não vislumbrávamos a pista, nem a rádio-bússola nos dava indicações precisas sobre a nossa posição, olhando para mim, atirou-me através do intercomunicador:
- Oh pá, quinze minutos é o tempo que temos para voar! Não há gasolina para mais e... ou aterramos lá ou somos forçados a aterrar de "papo" em qualquer outro lado! Dentro de quinze minutos estamos aterrados de certeza!
Pedimos prioridade na aterragem e autorização para uma aproximação directa à pista de serviço.   Reduzimos o regime dos motores iniciando uma descida em direcção à faixa que ainda não víamos, orientados apenas pelas indicações que a agulha da rádio bússola nos ia dando, mas foi com uma enorme sensação de alívio que vimos aparecer, como flores nascidas dentro de uma ligeira neblina que as ofuscava, as luzes alinhadas e acolhedoras da faixa onde finalmente poderíamos aterrar!
Calculámos a fase final do voo um pouco altos em relação ao início da pista, pois tínhamos receio de que, durante uma aproximação normal, se os motores parassem, não tivéssemos possibilidades de lhe alcançar a cabeceira!
Rolávamos em direcção ao estacionamento, depois de uma aterragem, apesar de tudo, boa, quando o motor direito parou! No depósito de combustível que o alimentava, o precioso líquido esgotara-se por completo! Quanto ao motor esquerdo, já com o avião tranquilamente estacionado na placa, para o desligar ainda foi preciso fazer o procedimento normal, puxando a "manete" da mistura atrás! Deixou de trabalhar suavemente, com aquele som tão característico do ressalto dos magnetos acompanhando as rotações do hélice, que ainda hoje,
quando de vez em quando os meus ouvidos o captam, me inunda a alma de uma ternura imensa, como se, vindas do passado, me chegassem brisas de uma juventude vivida intensamente ao ritmo dos motores daquelas maravilhosas máquinas!
O voo terminara! Os nossos dois camaradas, tão gravemente feridos, estavam agora entregues a mãos que os poderiam salvar!
Estávamos já instalados na viatura que o Martin disponibilizara para nos conduzir à messe, perguntando com amizade se precisávamos de mais alguma coisa, quando o Cóias se chegou para o meu lado do assento do carro e, inclinado para mim, em voz baixa talvez para o condutor não ouvir o desabafo, perguntou:
- Tu achas que manter aquele avião a voar para além de todos os limites para que foi concebido pode ter sido só obra nossa? - Olhei-o surpreendido!
- Deus esta noite viajou connosco! Nós não voámos sustentados apenas pelas asas do avião e pela tracção dos hélices! Fomos trazidos até aqui, cumprindo a nossa missão, pela mão infinita do Senhor que nos amparou! - Concluiu com emoção, descarregando a adrenalina acumulada durante mais de três horas muito difíceis de passar...
- Na verdade, isto foi um voo milagroso! - Concordei - Até hoje, nunca tinha voado com tão más condições! - Confessei, retribuindo a confidência àquele meu velho camarada e amigo, companheiro de tantas horas boas e más, que eu sabia ser pouco dado tanto a meditações metafísicas como a manifestações de fé!
A avó do cabo Diniz deve ter sido informada do ocorrido pelo serviço de relações públicas da Força Aérea e, como mulher corajosa que era, desembarcou no aeroporto de Luanda poucos dias depois, disposta a ajudar o neto na recuperação que, estava segura, seria inevitável!
BA9
Instalou-se numa pensão perto do hospital militar cujo director foi convencido a conceder-lhe prerrogativas que lhe davam o direito de permanecer junto do neto e do outro camarada ferido, no quarto da secção de queimados onde estavam instalados, praticamente as vinte e quatro horas do dia!
Ajudava com grande coragem as enfermeiras a mudar-lhes os pensos e a limpar as feridas que os enxertos de pele, quando rejeitados, deixavam em aberto. Acompanhava nas vigílias nocturnas as enfermeiras que viam já nela uma auxiliar preciosa. Apesar da idade que tinha, possuía uma energia inesgotável e uma esperança sem limite na recuperação do seu ente querido!
Apesar de tanta esperança e de tudo ter sido tentado, o cabo Diniz, uma madrugada, um mês depois de ter chegado ao hospital em sofrimento, morreu!
Numa posterior deslocação a Luanda, fui ao hospital militar visitar o outro ferido que, apesar de muito deformado pelos enxertos de pele e pelas cicatrizes, ia recuperando e aguardava já a evacuação para a metrópole. Tentei saber, junto de uma das enfermeiras que tinham assistido o cabo Diniz, como reagira aquela avó a tamanha dor.
- Foi impressionante a dignidade com que dominou a angústia e o sofrimento que certamente a inundou! - Respondeu-me. - Nós, para quem a morte é uma presença constante e o sofrimento dos outros é parte do nosso dia a dia, ficámos sensibilizadas com a serenidade profunda com que aquela mulher acompanhou a agonia e o fim da vida do seu neto!
Foi ela quem se apercebeu de que ele, naquela noite, entrou no estado moribundo que antecede a morte!    Foi ela que o amparou, erguendo um pouco a cabeça do seu menino, sabendo que nada mais havia a fazer.    No meio de tão grande aflição e dor, como na cama ao lado o outro ferido em delírio chamasse pela mãe, aquela avó, depondo de novo a cabeça já sem vida do neto na almofada, arranjou forças para estender a mão e, procurando na penumbra do quarto a mão do companheiro de infortúnio do seu menino, sussurrou-lhe, sustendo as lágrimas, reprimindo a dor e o desgosto, com a doçura de que só uma mãe ou uma avó são capazes:
- Estou aqui, meu filho! Descansa, vê se dormes enquanto eu velo por ti!
No outro dia, de regresso à nossa Base, enquanto o avião sulcava tranquilamente um caminho limpo de nuvens, com o horizonte visível até ao infinito e o Sol arrancando alegres reflexos de luz à água dos rios que corriam lá em baixo dando cor à paisagem maravilhosa daquele rincão de África, dei por mim a meditar sobre aquela velha senhora que tomara lugar no nosso
subconsciente através da carta que escrevera ao comandante e da vida breve que o seu neto desfrutara na nossa companhia!
Nenhum de nós, os que mais directamente tinham acompanhado aquele drama, tivera a oportunidade de a conhecer!
Talvez por isso ela pairava, etérea, no nosso imaginário! Todos lhe desenhávamos um retrato psicológico, traçando-lhe um perfil, tanto austero pela sua determinação, como meigo pela sua resignação perante tamanha dor, adivinhando-lhe a personalidade forte que lhe sustentava a luta frente aos reveses da vida, imaginando-a cada um à sua maneira, talvez decalcando nela
o retrato da sua própria mãe!
Aquela avó que tão tragicamente nos surgira vinda de um pacífico recanto de Portugal como a vila de Cucujães, transfigurara-se subitamente num ente que encarnava muito mais do que uma avó de um certo cabo Diniz!
Ela instalara-se nas nossas consciências e nas nossas memórias de soldados curtidos no sacrifício do dia-a-dia de uma guerra, muito simplesmente porque trazia em si, como uma cruz carregada ao longo de um calvário imenso, o sofrimento de todas as mulheres deste Portugal que, há séculos, num ritual trágico, são despertadas uma madrugada com a notícia de que os seus homens, maridos, filhos e netos morreram lá longe, muito longe, na defesa de uma daquelas fronteiras com que Portugal se estendeu pelo mundo!

sexta-feira, 9 de março de 2012

A AVÓ DO CABO DINIS - Parte II

Continuação da Parte I

Foi aí, perante a perspectiva de tudo voltar ao princípio, tendo que começar de novo a equacionar o planeamento de mais um voo em condições de segurança muito reduzidas, que me veio à memória a carta que a avó do cabo Diniz escrevera ao comandante!
Nós faríamos sempre uma evacuação, um esforço e mesmo um sacrifício por qualquer camarada ferido!   Tínhamos por lema não deixar ninguém para trás, mas, muito para além disso, a carta daquela avó tocara-nos a todos os que a tínhamos ouvido ler ao comandante. Talvez por isso, veio-me o pensamento de que, possivelmente àquela mesma hora, depois da ceia comungada em família na sua casa da vila de Cucujães, a velha senhora, cumprindo uma tradição antiga, ajoelhava-se ante o oratório existente em todas as casas do nosso Portugal, sobre a cómoda do quarto mais amplo da habitação. Rezando o terço, pedia a Deus protecção para o neto, rogando-lhe que lhe o devolvesse em bem!
Parecia que esse mesmo Deus estava a delegar em nós uma parte muito importante dessa missão! A outra parte deixava-a nas mãos dos médicos que os iriam tratar e todos nós em conjunto, vivendo aquela tragédia, sentíamos que, se não estivéssemos na Sua mão infinitamente grande, jamais levaríamos a bom termo o salvamento daqueles dois jovens que, pouco mais que adolescentes, tinham confiado as suas vidas e os seus sonhos à Força Aérea que os acolhera.
Foi o Cóias que, no seu espírito voluntarioso, alvitrou que, não havendo outra solução, a partir dali, utilizando o avião " Beachcraft", um bimotor existente no aeródromo equipado com um mínimo de instrumentos permitindo o voo nocturno, poderíamos continuar a nossa missão até Luanda, onde existiam todas as condições para se aterrar de noite e em segurança!
Joaquim Cóias e Carlos Acabado
Seriam, normalmente, cerca de duas horas e meia de voo. O principal problema residia na necessidade de se alcançar mesmo a pista de Luanda, pois durante a noite não existiam aeródromos alternantes: ultrapassado um certo tempo, não se podia voltar para trás, de regresso ao Luso, por a falta de combustível não o permitir! Seria um voo sem alternativas para além do nosso destino final! Teríamos que tornar a voar através de tempestades e trovoadas que, por se formarem ao longo de uma rota passando sobre regiões de relevo acentuado, faziam com que as nuvens atingissem grandes altitudes e constituíssem como que um muro que sabíamos não poder enfrentar, mas, para chegarmos a bom termo, teria que ser contornado.
Descolámos da pista do Luso apreensivos mas confiantes! O avião que agora pilotávamos, mesmo não sendo um modelo de aeronave recente, inspirava-nos, apesar de tudo, um sentimento de segurança muito maior do que aquela que o nosso velhinho "Dornier", que nos tinha trazido a voar até ali, nos transmitia.
Introduzimos o rumo que deveríamos seguir e, depois de o altímetro indicar o nível de voo pretendido, acertámos o regime dos motores, de maneira a que, sem reduzir muito a velocidade, os mantivéssemos, como medida de precaução, no mais baixo consumo possível.
Ao longe, num horizonte que não víamos, relâmpagos projectavam-se no espaço, iluminando a noite, tornando visíveis as enormes massas escuras das nuvens que os originavam, dando-nos uma ideia da tremenda e ameaçadora energia nelas acumulada. Seria um espectáculo de uma estranha beleza e fascínio, do qual éramos observadores privilegiados se não fosse a preocupação constante de, sem nos afastarmos muito da rota, desviarmo-nos o mais possível daquelas muralhas que pareciam querer cortar-nos o caminho.
Tivemos o primeiro aviso do que nos esperava, precisamente quando o Cóias, infringindo benevolamente uma regra de segurança, acendia um cigarro e, no gesto típico de todos os fumadores, demorou por uns instantes o olhar na chama do isqueiro. O avião, sem que nos tivéssemos apercebido, devido à escuridão, entrou numa chuvada de granizo que, batendo nas superfícies metálicas da estrutura e nos vidros da cabine de pilotagem, provocava um ruído que nos dava a sensação de uma iminente desintegração da aeronave.
- Eh pá, o que é isto? - Interrogou-me, surpreendido, no tom de voz que lhe era peculiar; mas de imediato, identificando a causa do barulho, justificou-se:
- Esta merda apanhou-me de surpresa e quase que me assustou! Já um gajo não se pode distrair um segundo a matar o vício!
O médico que se tinha oferecido para acompanhar os feridos e o enfermeiro que lhes ministrava o soro, certamente julgando que o fim chegara, perguntavam em uníssono e com os rostos lívidos se o avião ia cair.    Felizmente, devemos ter apanhado apenas uma ponta do aguaceiro e o ruído assustador terminou tão rapidamente como havia começado. Só mais tarde verificamos que algumas das mossas feitas na fuselagem e no bordo de ataque das asas e hélices tinham sido provocadas por pedaços de gelo de um tamanho razoável e, pelos estragos causados, nos davam a noção do perigo por que havíamos passado.
Beechcraft
O avião, no entanto, continuava a voar rumo ao nosso objectivo, enquanto o tempo ia passando mais lentamente do que desejaríamos!
Os feridos pareciam estáveis, mantidos a soro e com as dores mitigadas devido à aplicação de morfina.
Deveríamos estar a sobrevoar a zona Sul da baixa do Cassange, quando um curto circuito, talvez provocado pela humidade introduzida nas cablagens eléctricas pelas fortes chuvadas que atravessávamos, deixou o avião totalmente às escuras, sem luzes interiores e exteriores, restando-nos milagrosamente as luzes do painel de instrumentos, a que baixámos a intensidade, reajustando os reóstatos para um tom mais suave e azulado, de maneira a que não nos cansasse tanto o olhar atento que neles mantínhamos.
O avião voava com um trabalhar redondo e sadio dos motores, sem oscilações nos instrumentos, dando-nos quase a certeza de que, pela sua parte, levaríamos em bem e até ao fim a missão que havíamos empreendido.
No horizonte escuro que tínhamos pela frente, desenhavam-se agora, ao longe, trovoadas que pareciam ter terminado já a fase de aproximação entre nuvens por cujos intervalos até aí tínhamos ido passando, para se apresentarem unidas numa frente, cuja profundidade não podíamos avaliar, sabendo apenas que, caso entrássemos dentro dela, o nosso avião não tinha possibilidade de resistir por muito tempo.
Resolvemos tentar contornar a barreira que se nos opunha, voltando quase noventa graus o rumo para Sul, por sabermos ir sobrevoar uma zona menos montanhosa e, por isso, progenitora de nuvens de menor desenvolvimento que talvez nos permitissem a passagem.
Voámos mais de trinta minutos mantendo a frente de trovoadas longe da asa direita do avião, sem que vislumbrássemos a mais ténue abertura na escuridão.
Pelo contrário, parecia adensar-se à medida que voávamos nessa direcção!
Começámos a fazer contas ao combustível de que ainda dispúnhamos, pois tornava-se evidente que havia que inverter o rumo para Norte e voar outro tanto, ou mais tempo, no caminho inverso, em que não progrediríamos em direcção ao nosso objectivo se não descobríssemos uma passagem na barreira que nos fechava o acesso a Luanda.
Foi nessa fase do voo, mantendo agora as trovoadas na ponta da asa esquerda por voarmos em direcção ao Norte, que a ambos pareceu ver uma zona menos escura que talvez nos permitisse atravessar incólumes a frente do temporal.
Ainda que nada disséssemos um ao outro e muito menos deixássemos transparecer para o médico ou para o enfermeiro que nos acompanhavam, ambos estávamos preocupados com o nível de combustível, baixando nos depósitos à medida que o tempo passava.
Continua

sábado, 3 de março de 2012

A AVÓ DO CABO DINIZ - Parte I

Com a especial deferência do sr. Major Carlos Acabado, transcrevemos este capítulo do seu livro.
Trata-se de uma edição da Liga dos Combatentes a quem foram cedidos os direitos de autor, que promove a colecção Fim do Império, onde o livro está integrado.

A avó do cabo Diniz, uma senhora natural da vila de Cucujães, escreveu ao comandante da Base, quando o neto ali foi colocado, uma carta em que pedia, com a humildade com que só uma avó sabe pedir, protecção para o rapaz que aos dezasseis anos resolvera oferecer-se para servir na Força Aérea!
O comandante que, por ser de Aveiro, conhecia não só a região como o cariz das suas gentes, e como também ele, no seu tempo, se tinha apresentado com apenas quinze anos, foi sensível ao teor da missiva onde a senhora explicava que, tendo sido ela a verdadeira mãe do rapaz, por a filha ter falecido quando ele nasceu, via com as redobradas preocupações de avó e mãe a ida do neto para o Ultramar.Criara-o, afirmava, nos princípios de honradez e firmeza de carácter, na esperança de que viesse a ser um homem de bem. Tinha pensado que, a seu tempo, ele tiraria um curso em Coimbra, mas dificuldades financeiras que a família atravessava tinham levado a que o neto, perante a impossibilidade de contar com o apoio familiar e também impelido pelo desejo de não se tornar pesado a ninguém, tentasse iniciar a vida nas Forças Armadas, servindo-as num ramo que o seduzira desde o dia em que, ainda menino, integrado na sua classe da escola de instrução primária, visitara a Base de S. Jacinto.A carta daquela avó foi lida aos comandantes de esquadra, na reunião que semanalmente se realizava, com o comentário de que aos dezasseis anos qualquer rapaz entra numa instituição como a Força Aérea, na esperança de encontrar uma família que prolongue aquela que acaba de deixar... uma camaradagem que iguale a dos bancos da escola onde ainda deveria andar e era precisamente isso que ele, comandante, esperava que o cabo Diniz, ali na nossa Base, viesse encontrar!Como o curso que frequentara fora o de mecânico de material aéreo, foi na linha da frente da esquadra operacional que ele acabou por ser integrado.
Linha da frente
- Não lhe dê uma protecção demasiado evidente, para não o inferiorizar perante os outros, mas não esqueça que aos dezassete anos todos nós éramos ainda adolescentes cheios de saudades de uma mãe que este, infelizmente, parece ter perdido à nascença!... 
- Recomendou-me o comandante, no tom fraternal que sempre imprimia às directivas que nos dava. - Eu tenho ainda presente como são longas, mal dormidas e cheias de saudades de casa, as noites passadas numa camarata quando se tem tão pouca idade!... - Concluiu.
O cabo Diniz teve uma adaptação rápida e fácil à vida na Base e ao trabalho no hangar onde eram efectuadas as reparações de que os aviões quase sempre necessitavam, referenciadas pelos pilotos no fim de cada voo.
Foi-se afirmando ao longo do tempo como um elemento muito válido, merecendo a confiança que lhe foi sendo dada pelos seus superiores mais directos. Era um estudioso da parte teórica da sua especialidade, procurando, ao mesmo tempo, desvendar na prática todos os pequenos segredos e truques que a experiência ajuda a revelar e os mais velhos por vezes não se importam de explicar aos que, com interesse, os procuram conhecer.
A partir de uma certa altura, começou a integrar as tripulações destacadas para os aeródromos de manobra, unidades satélites da base principal onde permanecia em regime de rotatividade cerca de um mês, com a responsabilidade da manutenção de primeiro escalão, mais ligeira, das aeronaves lá colocadas.
Todos os relatórios mensalmente chegados à Esquadra, elaborados pelos pilotos comandantes dos destacamentos, mencionavam o trabalho desenvolvido pelo cabo Diniz, elogiando-o não só pela competência quase inesperada dada a sua pouca idade e experiência, como pela atitude sempre voluntariosa e colaborante com que se dedicava a trabalhos até mesmo fora da sua área de atribuição.
Eu próprio, durante uma missão em que me acompanhou como mecânico, fui surpreendido pela eficácia com que detectou e reparou uma avaria na bomba de combustível do avião em que voávamos, retirando-a, desmontando-a e esticando a membrana que, por qualquer motivo, tinha dilatado e por isso não fazia a vibração cuja amplitude e frequência possibilitava a sucção da gasolina para o carburador. Apercebi-me de que ele conhecia perfeitamente o funcionamento do motor e sabia como repará-lo, mesmo dispondo de meios tão limitados como era o caso. Sabia que tal eficiência só se alcançava com muito estudo e dedicação à profissão. Os conhecimentos do cabo Diniz tinham possibilitado que descolássemos de uma pista onde teríamos que ficar, pelo  menos um dia, a aguardar a chegada de um outro avião que trouxesse uma nova bomba de admissão de combustível!
Havia unanimidade na boa opinião que todos nós tínhamos sobre o comportamento profissional e pessoal do cabo Diniz.
Destacamento de Gago Coutinho

No decorrer de uma operação que se desenrolou no Sul da província do Moxico, durante a qual a Força Aérea garantiu, a partir do Aeródromo de Manobra de Gago Coutinho, o apoio necessário às companhias do Exército empenhadas na missão, o cabo Diniz e um outro camarada a quem ele dava uma ajuda na reparação de um gerador que se tinha avariado, do qual necessitávamos para manter acesas as luzes exteriores do aquartelamento, sofreram um acidente que, dada a gravidade de que se revestiu, acabou por nos envolver, ao Cóias e a mim, numa das missões mais angustiantes que levámos a cabo, ao longo da nossa estadia no Ultramar.
Entardecia e já o crepúsculo breve que anuncia a chegada da noite espalhava pelo horizonte os tons cinzentos com que oculta o vermelho vivo do pôr do Sol, quando se ouviu por todo o aquartelamento uma explosão que, a princípio, embora não fosse normal, atribuímos ao rebentamento de uma bomba.
Lembro-me que, na altura, me encontrava na placa de estacionamento, a aguardar que os pilotos regressados do último voo desse dia abandonassem os aviões para, através deles, tomar um conhecimento mais preciso sobre o que se passava no terreno e, com base nessas informações, planearmos os voos para o dia seguinte.
O ruído da explosão levou a que todos nós corrêssemos para o interior do quartel, no intuito de saber o que se passara. Foi aí que vi, junto do edifício onde estavam instalados os geradores "Dorman" que garantiam a energia necessária tanto ao nosso destacamento como ao aquartelamento do Exército, um vulto cambaleante, em estado de choque, com a camisa e as calças da farda desfeitas em tiras de pano chamuscado trazendo agarrados o que depois me apercebi serem pedaços da pele de todo o corpo que, caídos, deixavam em carne viva o tronco, os braços e a cara daquele nosso camarada. Um outro vulto jazia no chão, sem dar acordo de si, mas igualmente tão queimado que num primeiro relance parecia estar morto.
Foi ao olhar os sinistrados, já deitados lado a lado nas macas onde se sujeitavam aos primeiros socorros, que com dificuldade reconheci o cabo Diniz.
Tão queimada tinha a face que, no tom vermelho da carne ferida, inchava a cada segundo que passava.
O médico da companhia do Exército, que pressurosamente tentava aliviar as dores sentidas pelos feridos, declarou que era necessária uma evacuação urgente, pois o estado dos dois camaradas atingidos pela explosão, dada a extensão das queimaduras, era muito grave e corriam perigo de vida se não fossem rapidamente socorridos numa unidade em que o tratamento de queimados fosse mais eficaz, como era o caso do hospital do Luso.
Tudo acontecera na hora mais crítica do dia para se efectuar uma evacuação!
Muito em breve anoiteceria e os aviões de que dispúnhamos não estavam equipados com os instrumentos necessários para voo nocturno. Para além de que, na estação das chuvas em que nos encontrávamos, era vulgar formarem-se nuvens que, carregadas de electricidade, davam origem a trovoadas e tempestades fatais para os nossos frágeis aviões, se inadvertidamente, por voarmos sem visibilidade, entrássemos dentro de alguma delas.
No entanto, perante a situação não havia muitas opções a tomar. Ou fazíamos o voo, de cerca de hora e meia, em direcção ao Luso num avião que tinha poucas condições para o efectuar, ou os nossos dois feridos morreriam durante a noite, muito antes que o Sol voltasse a despontar no horizonte!
O Cóias e eu próprio éramos, na altura, os pilotos mais experientes dos que ali se encontravam e ambos sentimos o dever de tentar tudo para salvar os dois camaradas cujas vidas pareciam ter passado a depender de nós!
Rapidamente, para aproveitar o resto de luz que o fim do dia ainda proporcionava, mandámos abastecer um "Dornier", que era um monomotor com capacidade para levar duas macas e um enfermeiro, e gizámos o nosso plano para levar a bom termo o voo que iríamos efectuar até ao Luso.
DO27 em Gago Coutinho
O Cóias pilotava e eu, que conhecia bem a rota que deveríamos seguir, teria de anotar os desvios do rumo necessários para evitar as trovoadas, à noite muito visíveis, tentando depois corrigi-los na escuridão, de maneira a que, dentro do possível, nos mantivéssemos, em relação ao terreno que não víamos, próximos do caminho a seguir.
Passámos entre nuvens que, apesar de distantes, se aproximavam umas das outras, como que atraídas entre si, mas que ainda deixavam, por contraste com as massas negras e volumosas de onde saíam relâmpagos impressionantes, um espaço com uma claridade mais suave, menos escura, para onde apontávamos o avião, esgueirando-nos por aí, procurando sempre fazer os menores desvios ao rumo que levávamos, calculando a nossa posição estimada em relação ao terreno, pelo tempo que já tínhamos de voo e pela velocidade do avião. Foi assim que, ao fim de quase duas horas, milagrosamente vislumbrámos, um pouco à nossa esquerda, tremulando no horizonte, umas luzes que só poderiam ser da cidade do Luso!
Apoderou-se de nós uma certa euforia, pois dali para a frente já tudo nos parecia fácil! Conhecíamos muito bem a pista e a sua localização, a Norte da cidade, e o avião que pilotávamos, em contraste com a debilidade que tinha para voo nocturno, podia oferecer-nos urna aterragem segura, mesmo às apalpadelas no escuro, tão pouca era a velocidade de que necessitava para se aproximar da faixa de alcatrão em segurança!
Aterrámos e rolámos para o estacionamento, onde víamos a luz rotativa de uma ambulância que aguardava para transportar os feridos ao hospital, com a sensação gratificante de ter levado a bom termo a missão que nos propuséramos!
Os dois médicos que nos esperavam no aeroporto, para receber e medicar os sinistrados, debruçaram-se sobre os feridos ainda dentro do "Dornier", para uma primeira análise do estado em que estes se encontravam. Logo que se aperceberam da extensão e profundidade das queimaduras. Olhando-nos, exprimiram a opinião de que, dada a gravidade em que se encontravam, apenas no hospital de Luanda se poderia ministrar-lhes o tratamento adequado para tentar salvá-los e, mesmo assim, só se lá chegassem o mais rapidamente possível, o que apenas se conseguia se fossem evacuados de imediato!
Continua