sábado, 3 de março de 2012

A AVÓ DO CABO DINIZ - Parte I

Com a especial deferência do sr. Major Carlos Acabado, transcrevemos este capítulo do seu livro.
Trata-se de uma edição da Liga dos Combatentes a quem foram cedidos os direitos de autor, que promove a colecção Fim do Império, onde o livro está integrado.

   A avó do cabo Diniz, uma senhora natural da vila de Cucujães, escreveu ao comandante da Base, quando o neto ali foi colocado, uma carta em que pedia, com a humildade com que só uma avó sabe pedir, protecção para o rapaz que aos dezasseis anos resolvera oferecer-se para servir na Força Aérea!
   O comandante que, por ser de Aveiro, conhecia não só a região como o cariz das suas gentes, e como também ele, no seu tempo, se tinha apresentado com apenas quinze anos, foi sensível ao teor da missiva onde a senhora explicava que, tendo sido ela a verdadeira mãe do rapaz, por a filha ter falecido quando ele nasceu, via com as redobradas preocupações de avó e mãe a ida do neto para o Ultramar.
   Criara-o, afirmava, nos princípios de honradez e firmeza de carácter, na esperança de que viesse a ser um homem de bem. Tinha pensado que, a seu tempo, ele tiraria um curso em Coimbra, mas dificuldades
financeiras que a família atravessava tinham levado a que o neto, perante a impossibilidade de contar com o apoio familiar e também impelido pelo desejo de não se tornar pesado a ninguém, tentasse iniciar a vida nas Forças Armadas, servindo-as num ramo que o seduzira desde o dia em que, ainda menino, integrado na sua classe da escola de instrução primária, visitara a Base de S. Jacinto.
   A carta daquela avó foi lida aos comandantes de esquadra, na reunião que semanalmente se realizava, com o comentário de que aos dezasseis anos qualquer rapaz entra numa instituição como a Força Aérea, na esperança de encontrar uma família que prolongue aquela que acaba de deixar... uma camaradagem que iguale a dos bancos da escola onde ainda deveria andar e era precisamente isso que ele, comandante, esperava que o cabo Diniz, ali na nossa Base, viesse encontrar!
   Como o curso que frequentara fora o de mecânico de material aéreo, foi na linha da frente da esquadra operacional que ele acabou por ser integrado.
Linha da frente
   - Não lhe dê uma protecção demasiado evidente, para não o inferiorizar perante os outros, mas não esqueça que aos dezassete anos todos nós éramos ainda adolescentes cheios de saudades de uma mãe que este, infelizmente, parece ter perdido à nascença!... - Recomendou-me o comandante, no tom fraternal que sempre imprimia às directivas que nos dava. - Eu tenho ainda presente como são longas, mal dormidas e cheias de saudades de casa, as noites passadas numa camarata quando se tem tão pouca idade!... - Concluiu.
   O cabo Diniz teve uma adaptação rápida e fácil à vida na Base e ao trabalho no hangar onde eram efectuadas as reparações de que os aviões quase sempre necessitavam, referenciadas pelos pilotos no fim de cada voo.
   Foi-se afirmando ao longo do tempo como um elemento muito válido, merecendo a confiança que lhe foi sendo dada pelos seus superiores mais directos. Era um estudioso da parte teórica da sua especialidade, procurando, ao mesmo tempo, desvendar na prática todos os pequenos segredos e truques que a experiência ajuda a revelar e os mais velhos por vezes não se importam de explicar aos que, com interesse, os procuram conhecer.
   A partir de uma certa altura, começou a integrar as tripulações destacadas para os aeródromos de manobra, unidades satélites da base principal onde permanecia em regime de rotatividade cerca de um mês, com a responsabilidade da manutenção de primeiro escalão, mais ligeira, das aeronaves lá colocadas.
   Todos os relatórios mensalmente chegados à Esquadra, elaborados pelos pilotos comandantes dos destacamentos, mencionavam o trabalho desenvolvido pelo cabo Diniz, elogiando-o não só pela competência quase inesperada dada a sua pouca idade e experiência, como pela atitude sempre voluntariosa e colaborante com que se dedicava a trabalhos até mesmo fora da sua área de atribuição.
   Eu próprio, durante uma missão em que me acompanhou como mecânico, fui surpreendido pela eficácia com que detectou e reparou uma avaria na bomba de combustível do avião em que voávamos, retirando-a, desmontando-a e esticando a membrana que, por qualquer motivo, tinha dilatado e por isso não fazia a vibração cuja amplitude e frequência possibilitava a sucção da gasolina para o carburador. Apercebi-me de que ele conhecia perfeitamente o funcionamento do motor e sabia como repará-lo, mesmo dispondo de meios tão limitados como era o caso. Sabia que tal eficiência só se alcançava com muito estudo e dedicação à profissão. Os conhecimentos do cabo Diniz tinham possibilitado que descolássemos de uma pista onde teríamos que ficar, pelo  menos um dia, a aguardar a chegada de um outro avião que trouxesse uma nova bomba de admissão de combustível!
   Havia unanimidade na boa opinião que todos nós tínhamos sobre o comportamento profissional e pessoal do cabo Diniz.
Destacamento de Gago Coutinho

   No decorrer de uma operação que se desenrolou no Sul da província do Moxico, durante a qual a Força Aérea garantiu, a partir do Aeródromo de Manobra de Gago Coutinho, o apoio necessário às companhias do Exército empenhadas na missão, o cabo Diniz e um outro camarada a quem ele dava uma ajuda na reparação de um gerador que se tinha avariado, do qual necessitávamos para manter acesas as luzes exteriores do aquartelamento, sofreram um acidente que, dada a gravidade de que se revestiu, acabou por nos envolver, ao Cóias e a mim, numa das missões mais angustiantes que levámos a cabo, ao longo da nossa estadia no Ultramar.
   Entardecia e já o crepúsculo breve que anuncia a chegada da noite espalhava pelo horizonte os tons cinzentos com que oculta o vermelho vivo do pôr do Sol, quando se ouviu por todo o aquartelamento uma explosão que, a princípio, embora não fosse normal, atribuímos ao rebentamento de uma bomba.
  Lembro-me que, na altura, me encontrava na placa de estacionamento, a aguardar que os pilotos regressados do último voo desse dia abandonassem os aviões para, através deles, tomar um conhecimento mais preciso sobre o que se passava no terreno e, com base nessas informações, planearmos os voos para o dia seguinte.
   O ruído da explosão levou a que todos nós corrêssemos para o interior do quartel, no intuito de saber o que se passara. Foi aí que vi, junto do edifício onde estavam instalados os geradores "Dorman" que garantiam a energia necessária tanto ao nosso destacamento como ao aquartelamento do Exército, um vulto cambaleante, em estado de choque, com a camisa e as calças da farda desfeitas em tiras de pano chamuscado trazendo agarrados o que depois me apercebi serem pedaços da pele de todo o corpo que, caídos, deixavam em carne viva o tronco, os braços e a cara daquele nosso camarada. Um outro vulto jazia no chão, sem dar acordo de si, mas igualmente tão queimado que num primeiro relance parecia estar morto.
  Foi ao olhar os sinistrados, já deitados lado a lado nas macas onde se sujeitavam aos primeiros socorros, que com dificuldade reconheci o cabo Diniz.
   Tão queimada tinha a face que, no tom vermelho da carne ferida, inchava a cada segundo que passava.
   O médico da companhia do Exército, que pressurosamente tentava aliviar as dores sentidas pelos feridos, declarou que era necessária uma evacuação urgente, pois o estado dos dois camaradas atingidos pela explosão, dada a extensão das queimaduras, era muito grave e corriam perigo de vida se não fossem rapidamente socorridos numa unidade em que o tratamento de queimados fosse mais eficaz, como era o caso do hospital do Luso.
   Tudo acontecera na hora mais crítica do dia para se efectuar uma evacuação!
   Muito em breve anoiteceria e os aviões de que dispúnhamos não estavam equipados com os instrumentos necessários para voo nocturno. Para além de que, na estação das chuvas em que nos encontrávamos, era vulgar formarem-se nuvens que, carregadas de electricidade, davam origem a trovoadas e tempestades fatais para os nossos frágeis aviões, se inadvertidamente, por voarmos sem visibilidade, entrássemos dentro de alguma delas.
   No entanto, perante a situação não havia muitas opções a tomar. Ou fazíamos o voo, de cerca de hora e meia, em direcção ao Luso num avião que tinha poucas condições para o efectuar, ou os nossos dois feridos morreriam durante a noite, muito antes que o Sol voltasse a despontar no horizonte!
   O Cóias e eu próprio éramos, na altura, os pilotos mais experientes dos que ali se encontravam e ambos sentimos o dever de tentar tudo para salvar os dois camaradas cujas vidas pareciam ter passado a depender de nós!
   Rapidamente, para aproveitar o resto de luz que o fim do dia ainda proporcionava, mandámos abastecer um "Dornier", que era um monomotor com capacidade para levar duas macas e um enfermeiro, e gizámos o nosso plano para levar a bom termo o voo que iríamos efectuar até ao Luso.
DO27 em Gago Coutinho
   O Cóias pilotava e eu, que conhecia bem a rota que deveríamos seguir, teria de anotar os desvios do rumo necessários para evitar as trovoadas, à noite muito visíveis, tentando depois corrigi-los na escuridão, de maneira a que, dentro do possível, nos mantivéssemos, em relação ao terreno que não víamos, próximos do caminho a seguir.
   Passámos entre nuvens que, apesar de distantes, se aproximavam umas das outras, como que atraídas entre si, mas que ainda deixavam, por contraste com as massas negras e volumosas de onde saíam relâmpagos impressionantes, um espaço com uma claridade mais suave, menos escura, para onde apontávamos o avião, esgueirando-nos por aí, procurando sempre fazer os menores desvios ao rumo que levávamos, calculando a nossa posição estimada em relação ao terreno, pelo tempo que já tínhamos de voo e pela velocidade do avião. Foi assim que, ao fim de quase duas horas, milagrosamente vislumbrámos, um pouco à nossa esquerda, tremulando no horizonte, umas luzes que só poderiam ser da cidade do Luso!
   Apoderou-se de nós uma certa euforia, pois dali para a frente já tudo nos parecia fácil! Conhecíamos muito bem a pista e a sua localização, a Norte da cidade, e o avião que pilotávamos, em contraste com a debilidade que tinha para voo nocturno, podia oferecer-nos urna aterragem segura, mesmo às apalpadelas no escuro, tão pouca era a velocidade de que necessitava para se aproximar da faixa de alcatrão em segurança!
   Aterrámos e rolámos para o estacionamento, onde víamos a luz rotativa de uma ambulância que aguardava para transportar os feridos ao hospital, com a sensação gratificante de ter levado a bom termo a missão que nos propuséramos!
   Os dois médicos que nos esperavam no aeroporto, para receber e medicar os sinistrados, debruçaram-se sobre os feridos ainda dentro do "Dornier", para uma primeira análise do estado em que estes se encontravam. Logo que se aperceberam da extensão e profundidade das queimaduras. Olhando-nos, exprimiram a opinião de que, dada a gravidade em que se encontravam, apenas no hospital de Luanda se poderia ministrar-lhes o tratamento adequado para tentar salvá-los e, mesmo assim, só se lá chegassem o mais rapidamente possível, o que apenas se conseguia se fossem evacuados de imediato!
Continua

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