quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

ZÉ MARIA, O 47 (Um ex-combatente)


Caminha, triste, pelas ruas da cidade grande, solitário, sem rumo.
Olhos postos no chão, como se tivesse medo de encontrar - (quem sabe ?) - algum antigo camarada de armas.Segue, lentamente, embrulhado naquele sobretudo que já fora de cor cinzenta, oferecido naquele Abrigo, onde todas as noites lhe dão uma sopa quente, um pão e fruta. Onde ele come na tal mesa do canto, sempre sozinho, sem falar com ninguém. Onde não ouve ninguém a não ser os seus pensamentos.
Caminha. Sapatos arrastando pelo chão, castigados pelo peso da tristeza e da desilusão. Vai, "enfiado" numas calças demasiado largas para o seu corpo, já franzino. A barba, grande, grisalha, protege-o das noites frias e compridas, tão compridas...
É o ZÉ MARIA. Era o 47 na tropa.
Continua a andar.
E de tudo se lembra:
A sua terrinha, tão longe, onde nasceu, onde foi feliz, e para onde tem vergonha de regressar. Com medo que dele "façam pouco", com medo que o recusem, como aliás, lhe fazem nesta cidade grande, tão grande, onde ninguém conhece ninguém.
Lembra-se da mata, lá em África, dessa mata que ficava tão longe de tudo.
Dos tiros, dos ataques dos "Turras", do medo, da fome e da sede, das febres...
Lembra-se agora daquela negra do Kimbo, a Maria Kivunda, que o fazia feliz, e de tudo o fazia esquecer nas noites em que a chuva batia forte sobre a palhota...
Continua a pensar e a caminhar pelas ruas da cidade grande, dessa cidade que não lhe dá valor nem aos seus antigos camaradas de armas. Estão todos esquecidos.
Essa cidade que rapidamente tudo esqueceu. Agora tudo é tão diferente, todas as pessoas são agora tão diferentes...
Lembra-se do " SANTARÉM", do ANDRADE, do "PILHAS", do "MATOSINHOS", do 550, que regressaram de lá, das matas, enfiados em sacos pretos e com um simples pedaço de cartão amarelado no dedo grande de um dos pés. Com um número, o número de cada um deles.
Um número. Foi o que eles passaram a ser.
Um simples número.
Recorda também o piloto Martins e todos os camaradas que caíram, juntamente com o Héli em que voavam, abatidos na zona dos Dembos.

Caminha. Pensa, pensa, pensa. Sofre.
Como tantos, tantos como ele, é um ignorado por esta Nação que os enviava para lá, e que lhes dizia:
"PARA ANGOLA E EM FORÇA !!! "
Em força!, (pensa)
Que força?
A força de ter deixado seus pais, sozinhos, amanhando a terra dura, sol após sol ?!
A força de ter deixado a sua irmã, grávida do caixeiro viajante que por lá passava de vez em quando, tendo-lhe "enchido " a barriga para depois desaparecer e nunca mais voltar ?!
A força que tantos camaradas tiveram que ter para deixar filhos pequeninos, ou mães viúvas ?!
A força de terem que deixar filhos por criar?!
"Força"! - Diziam "eles", os tais que cá ficavam, sentados em gabinetes cheios de alcatifas mais confortáveis e macias do que o sobretudo que o tapa agora.
Nisto:...
Espera!!!
Que foi isto?!
Alguém passou por ele deixando no ar um perfume bem seu conhecido de outrora...
Sim...O perfume do After Shave que o tal 1º. Sargento lá usava todos os dias!
ZE MARIA vira-se para trás.
Reconhece-o!
É ele! - O 1º. Sargento Serra !!!!
Esse mesmo, que, a ele e aos seus camaradas tornou a vida num inferno, lá em ÁFRICA !!
Aquele vaidoso que até lhes retirava as cartas que vinham no SPM !!
Aquele mesmo a quem o ZE MARIA e os seus camaradas juraram matar um dia.
Lá ia ele, bem vestido, perfumado, bem acompanhado.
ZE MARIA fez ainda um gesto de voltar para trás, para lhe dizer que era o 47, para ajustar contas antigas.Deu ainda três passos, mas... parou.
BÁ !! - Mas, vinganças? Agora? Não !!
ZE MARIA tinha feito as pazes com o passado, consigo mesmo, embora as mágoas nunca o deixem.
Tenta até fazer as pazes com o mundo que o rodeia

Continua a caminhar.
Segue agora por uma rua comprida, larga, cheia de montras já iluminadas com luzes de Natal.
"Está perto este Natal," pensa, melancólico.
"Faltam só algumas semanas "...
Natal, de quando lhe darão, no tal ABRIGO, comida reforçada, onde haverá mais sorrisos a enganar as lágrimas, mais gargalhadas a enganar os choros, mais fingida felicidade a enganar o grito prestes a saltar da boca, da alma, de bem de dentro de cada um dos seus companheiros "SEM ABRIGO".
Ao ZÉ MARIA, o 47, vale-lhe, de vez em quando aquela rameira velha, naquele sótão também velho, onde ele, depois de subir as escadas também de madeira velha e "rabugenta", ali encontra um pouco de carinho, um pouco de aconchego.
Sem pagar.
Sem ter que pagar.

Continua a caminhar.
A tropa, sempre a tropa, os camaradas mortos em combate, sempre a povoarem-lhe a cabeça!!!
As recordações daquela guerra que deu em nada, a não ser o envelhecimento precoce de cada um deles, vidas alteradas, e mortes, tantas mortes.
"Para quê ?!"
"Para quê ?! "
"Porquê ?!"
Tapa-se agora melhor no velho sobretudo.
O ABRIGO está já ali à sua frente.
Entra, e como sempre dirige-se à tal mesa, a do canto.
Já o espera um prato de sopa quente, um pão, uma maçã, e a solidão.
Senta-se.
Olhos na comida, pensamentos longe: 
Na sua aldeia.
E em ÁFRICA.
Nessa ÁFRICA que lhe roubou a juventude.
E, nesta Nação que se esqueceu dele.
Dele de tantos, tantos, tantos...

Sai do ABRIGO.
Já é noite "fechada".
Está frio. Aconchega-se ainda mais no sobretudo que já fora de cor cinzenta.
Vai agora com passo apressado, pois não vê chegada a hora de retornar ao "seu recanto", naquele vão de escadas e onde o espera o seu melhor amigo, o "PIROLITO", desejando do dono uma simples festa no pelo, ou um mimo, guardado como sempre no bolso fundo daquele sobretudo pesado, e outrora, cinzento.
O tal mimo que o 47 guarda para o "PIROLITO", o seu único amigo.
Como sempre.

Conto de minha autoria(de ficção ?), dedicado a todos os Ex.Combatentes da Guerra do Ultramar.
O ZÉ MARIA, 0 Nº 47, podia ser qualquer um de nós.
E, na verdade, quantos ZÉs MARIAs, quantos 47s, anónimos, não andarão por aí? Esquecidos ?

Conto inédito, a editar em livro um dia.
Autor: AHV ESGAIO - FAP - 551/67
Comissão em ANGOLA  69-71.




sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

CADA ESPECIALIDADE, CADA TAREFA…

Em dia de serviço no AB4 - foto de Fernando Bastos


A minha, lembrar-se-ão os especialistas de meteorologia, era recolher dados no abrigo
foto de Afonso Palma
“dos 
termómetros”, fazer e transmitir observações do tempo, e passar as sinopses para os mapas, para depois se definirem as isóbaras.
De 3 em 3 horas, lá íamos nós, de dia ou de noite, (com bom tempo ou borrasca de gritar), anotar diligentemente os vários termómetroshigrómetro, pluviómetro, e mais não sei quantos “ómetros”.
Não sei como é que não adoeci, a ir de bicicleta até ao abrigo meteorológico lá longe junto à pista, em pleno inverno, 2 ou 3 graus às vezes, e debaixo de cargas de água. 
Depois de voltar de Angola colocaram-me primeiro nas Lajes e por fim, de volta à BA6-Montijo (já lá tinha estado em 69 e 70).
Das Lajes, BA4, retenho várias memórias.
- O trabalho na secção de meteorologia, lado a lado com um meteorologista civil e outro americano. Os companheiros "borda d'agua" americanos tinham muitas vezes os pé colocados na mesa do estirador, e uma caneca de café, uma verdadeira "água de lavar loiça", ou uma coca-cola (que ainda não havia em Portugal...o Toino de Santa Comba, não deixava!)
- O meu olhar embasbacado, na primeira vez que lá vi aterrar um gigante C5 Galaxy, é verdadeiramente monstruoso, custa a acreditar que aquilo voe.
BA4 Lajes - foto Ufo

- Aquando da crise de 73, e da ponte aérea americana para o médio Oriente, (Guerra do Yom Kippur) a placa da BA4, nas Lages, habitualmente uma enorme e pacata superfície com meia dúzia de aviões, encheu-se de aviões de combate F-16 e de grandes jactos de abastecimento de combustível em vôo C-135, basicamente um Boeing 707 adaptado (como eram abastecedoras dos F-16, nós chamávamos-lhes as "vacas leiteiras"), o movimento de aterragem e descolagem era muito intenso, e viveu-se ali um ambiente tenso e nervoso de pré-guerra. .

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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

EVACUAÇÃO NO CHILOMBO

Chilombo - 1970 - Rui Jofre na evacuação do fuzo Valdemar, ferido por rebentamento de mina - foto de João Leitão Rodrigues


Tomamos a liberdade de transcrever excertos de uma "conversa" no FB, entre dois Enfermeiros Fusos, que fizeram comissão no Chilombo, José Luis Silva e João Leitão Rodrigues.

Decorria o ano de 1971, quando numa patrulha em botes navegando no Zambeze, a caminho da Lumbala, são violentamente atacados pelo IN. 
João Leitão Rodrigues e Rui Jofre,
 no Chilombo
Sózinho e sem qualquer outro apoio nos primeiros socorros, José Luís Silva consegue salvar de morte certa dois camaradas do seu pelotão, gravemente feridos.
Diz João Luís Silva:
Todos imaginam o quanto doloroso é escrever, ou falar, destas tristes recordações.
Num país que esqueceu os seus melhores filhos, nunca será demais recordar e homenagear os nosso Bravos e os nossos Heróis.
Camarada João Leitão, é com duas lágrimas rebeldes a rolarem pela minha face, que te envio o meu abraço fraterno e a minha homenagem, por saber que ambos partilhamos esse sentimento indescritível do dever cumprido ao salvar vidas de camaradas nossos.
Não posso terminar este pequeno apontamento de guerra, sem prestar homenagem a mais um herói desconhecido que me ajudou a salvar esses dois camaradas.
Foi ele um 1º. Sarg. piloto dos hélis (já completamente apanhado pelo síndroma da guerra), que ao cair da noite e ainda no ar, captou o SOS do nosso telegrafista e foi dos céus do Cazombo até à Lumbala Nova, já noite fechada e com a pista iluminada por tochas, fazer a evacuação dos nossos camaradas.
E, jamais esquecerei as palavras simples desse camarada piloto e herói desconhecido: "prefiro morrer por vocês do que deixá-los morrer aqui"!
Gostava, antes de morrer, ainda poder encontrar este Homem.

Pois bem, viemos a apurar entretanto, em conversa com João Leitão Rodrigues, que o piloto referenciado neste relato, era o nosso saudoso Rui Jofre.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

HELICANHÃO DE ALTO RISCO, NO ALTO CUITO

Heli canhão dos "primos" SAAF

Penso que agora, tantos anos passados, não haverá problema algum em contar esta história real, que se passou comigo.
Terá sido na vasta operação Zumbo 3H (
https://www.youtube.com/watch?v=0fWrFCdXmwI&t=156s), que se desenvolveu em toda a área do Batalhão e neste caso de certeza numa operação efectuada a partir do Alto do Cuito, na qual as nossas tropas foram helitransportadas para perto da zona de intervenção.
O meu pelotão não participou nessa operação onde foram utilizados como meio de transporte para os lançamento das nossa tropas, helicópteros dos "Primos", designação dada aos nossos amigos sul - africanos (SAAF), que montaram base por uns dias no Alto do Cuíto.
Em conversa com o Comandante do agrupamento , salvo erro um Tenente, que em simultâneo era o piloto do helicanhão, recebi o amável convite para ir com ele no lançamento das nossas tropas, a bordo do canhão que ia fazer a protecção aos outros helis com os grupos de combate.
Aceitei a proposta  e aí vou eu participar voluntariamente nesta experiência "única" como se veio a verificar de alto risco desnecessário. 
Só depois compreendi, que o objectivo do convite seria fazer-me enjoar, este facto segundo a praxe, teria como contrapartida o pagamento de uma grade de cervejas.
Efectuado o lançamento, segue-se o regresso dos helis ao quartel de Alto do Cuito tendo nós  no helicanhão ficado a sobrevoar a chana, e a admirar as cabras de mato que fugiam assustadas.
No helicanhão seguia o tenente, com o respectivo cinto de segurança, um sargento apontador do canhão, devidamente sentado com cinto de segurança colocado. e... pasme-se!!!!,
Por insensatez minha e logicamente também do tenente, eu ia sentado nas calmas, em equilíbrio instável simplesmente, em cima do caixote de munições do canhão, sem cinto nem qualquer tipo de segurança.
Naturalmente que o Tenente não devia ter deixado que aquela situação acontecesse tanto mais que naturalmente a porta do heli, estava aberta para o canhão operar.
Mas ... o pior viria a seguir.!!!
Dá-se então a maluca odisseia para me fazer enjoar. Seguindo o curso de um pequeno rio, afluente do rio Tempué, com o seu leito a serpentear por entre árvores nas margens, o heli começa a seguir o trajecto do rio, com voltas e meias voltas e eu a ver quando embatíamos numa árvore e ali ficávamos. Pura loucura.!!!
Como não resultou, pois eu não enjoei, voltou á chana seguindo quase rente ao solo. Surge entretanto uma cabra de mato que assustada e a mudar frequentemente de direcção, passou a ser acompanhada pelo heli nesse seu aflito  e brusco serpentear.
Nem assim eu enjoei.!!!! Perante esta resistência, o piloto muda de estratégia, e em plena  chana sobe o heli na vertical, com o motor na máxima potência  até uma altura elevada para, uma vez lá no cimo, "tirar motor" do heli, entrando logo de seguida em queda livre no vazio.
Tive a sensação que as minhas entranhas me bateram na garganta, mas refeito do susto e não dando parte de fraco disse-lhe: "Se não enjoei desta nunca mais enjoo".
Alto Cuito - foto de Gonçalo de Carvalho

Então o nosso “primo” dirigiu-se finalmente para a pista do quartel e eu ofereci-lhe, seguramente após as 5 horas da tarde, hora sagrada para o pessoal da Força Aérea Sul-africana, não uma cerveja mas um bom wisky velho, sem ter assim de cumprir a praxe da grade de cervejas.
Moral da história: Nós e Eles ,com os nossos vinte e poucos anos, chegávamos a correr riscos desnecessários, só porque a nossa jovem adrenalina assim o sugeria ou permitia.
Depois, os acidentes aconteciam e éramos eventualmente mais umas vítimas da GUERRA .!!!!

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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

UMA MEMÓRIA DE 50 ANOS



Cumpriram-se em, 28 de Setembro, 50 anos da minha chegada à Guiné no HC-54 Skymaster 7504.
Guardei para sempre a recordação da abertura da porta de cabine dos passageiros e da baforada de ar quente rançoso e húmido, proveniente de águas paradas e dos muitos rios lodosos existentes no território.
Esta foi a antevisão desagradável do que nos esperava: um clima doentio e que marcaria indelevelmente para sempre as nossas vidas.
Para além de muitos outros de quem não guardo memória, chegaram no mesmo voo os Tenentes José Nico e Rui Balacó.
Com eles convivi na Esquadra de Fiat's até ao fim da comissão. Foram cerca de 22 meses em que interagimos diariamente na Esquadra de Tigres, eu como Mecânico na Linha da frente e eles Pil. Aviadores.


Pragmáticamente todos aceitamos o drama de guerra, irregular, assimétrica e mortífera que enfrentaríamos no futuro imediato, lutando para tentar preservar um legado deixado pelos nossos antepassados.
A guerra na Guiné teve características muito diferentes da que se travava em Angola e Moçambique. A elevada organização da guerrilha e a forma como a sua luta se iniciou, através de acções de combate e não com massacres como em Angola, eram reveladores das dificuldades que as FA iriam ter neste território. O movimento de guerrilheiros contra o qual iríamos lutar, era o Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde (PAIGC).
Na Guiné, não só os factores históricos e a hostilidade da geografia e do clima tornaram difícil a actuação das FA, como também as independências da Guiné-Conakry (1958) e do Senegal (1960) tiveram um importante papel na condução da guerra. Estes dois países foram uma importante fonte de apoio aos guerrilheiros do PAIGC, proporcionando-lhe refúgio a Norte, Leste e Sul, onde puderam estabelecer as suas bases e desencadear acções militares . O nível de organização do movimento e o armamento moderno de que dispunha (armas automáticas, morteiros, RPG’s, metralhadoras anti-aéreas) possibilitou aos guerrilheiros evoluírem de tal forma rápida que, em 1965, já tinham estendido a sua actuação a todo o território.
Para piorar a situação militar portuguesa, em termos de apoio aéreo, fundamental para a nossa defesa, devido a pressões exercidas pelos EUA, a FAP foi obrigada a retirar da Guiné os oito F-86F, a principal arma de ataque aéreo de que dispunha. 
Os primeiros Fiat G-91 na BA 12 - foto de Mário Santos

Desde a retirada destes, em finais de Outubro de 1964, e a chegada dos seus substitutos, os novos caças FIAT G-91 R4 adquiridos à Alemanha Ocidental. 
As missões de apoio aéreo próximo às forças no terreno foram entretanto garantidas pelas aeronaves T-6G. Este era um avião que estava longe de possuir o mesmo poder de fogo do anterior F-86F ou do posterior FIAT G-91 R4, o que terá contribuído para que no período de dezoito meses entre a saída de uns e a entrada ao serviço de outros, a guerrilha tenha reforçado a sua presença no terreno, especialmente na região a Sul. A inferioridade dos guerrilheiros na guerra aérea levou a que desde cedo procurassem anular esta vantagem da FAP, recorrendo para tal ao uso de artilharia anti-aérea e mais tarde ao míssil russo Strella AS-7.
No entanto, em minha opinião, terá sido precisamente o cansaço dos militares face a uma guerra sem solução política previsível e o ataque aos seus interesses corporativos de classe, os principais factores que levaram as FA a voltar a conspirar contra o regime, acabando por o derrubar em 1974.
Aqui deixo o meu abraço de grande estima ao General J.Nico e ao Coronel R.Balacó(que felizmente ainda se encontram entre nós) assim como a todos os companheiros de todas as Esquadras e que contribuíram com o seu esforço e as suas vidas para Portugal poder ter orgulho nos seus filhos que lutaram com honra e dignidade para preservar o que nos tinha sido legado!
As fotos não têm grande qualidade, devido às arcaicas câmaras fotográficas, mas são todas genuínas. A foto do Skymaster foi tirada pouco antes do seu abate e posterior desmantelamento, sendo portanto a mais recente e com melhor qualidade.

Por Mário Santos


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O MACACO "GALILEU" DO AM 95-CABINDA.

O Esgaio MRAD, com o amigo macaco do AM 95-Cabinda, em 1969


Certo dia, um da malta resolveu, com mais camaradas, levar o macaco para um "determinado bar", num musseque, nos arredores de Cabinda.
Pois foi o caos. A meio da noite, o "galileu" resolveu começar aos gritos, a correr pelas camas todas, onde estávamos com as nossas "companheiras", a puxar todas as roupas. Depois, sempre aos gritos, colocou nos seus pequenos ombros todas as roupas da malta que podia, e fugiu para a porta, sempre aos guinchos e gritos, como que a chamar por nós, os seus amigos do AM. 
Entretanto, o musseque acordou com toda aquela gritaria, saíram das cubatas todos os negros e negras, tudo assustado. Mais gritos e correrias mas agora por parte dos habitantes que viviam no musseque. Os gritos do "galileu" continuavam. Cada vez mais reboliço e confusão. Nós, à porta da tal casa, em pêlo, pois o macaco tinha-nos roubado as roupas . As "companheiras", também à porta, assustadas e tapando as suas naturezas pois a populaça tinha-se toda aglomerado ali.
Não sabemos como, apareceram 4 elementos da PM, a correrem para nós, pensando que estávamos a ser atacados (como mais tarde nos disseram). Nós, os do AM, quando vimos a PM a correr para nós, ficámos cheios de medo deles, e só tivemos esta opção quando alguém gritou: " Fujam, malta!! Senão vamos todos presos!!"
Palavras santas. Num abrir e fechar de olhos, pegámos o "galileu" nos braços, e nus, toca a correr pelo musseque, depois pelo alto capim até ao AM, onde chegámos estafados e com os bofes à boca.
Chegados ao arame farpado da rede do AM, pedimos a um dos PA que passasse palavra para nos abrirem o portão. Era madrugada e o dia já começava a romper. Naquele lusco fusco, corremos cada qual para a sua " camarata", mas às 8 horas já estávamos no  hastear da bandeira.

Foi um episódio que ficou para a historia dos que passaram pelo AM.
Só de salientar, que quando nós fugíamos, para o nosso "galileu" foi uma festa, pois , posso garantir, que os sons que ele emitia mais pareciam gargalhadas.
E com os dentes todos à mostra, como se ainda estivesse a gozar connosco.
Por Esgaio (Nazaré Maria).

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

CAGAÇO NO CAMAXILO

Camaxilo em 1964 - foto de Manuel Flórido Bem-Haja

Parece incrível mas nunca fui ao Cazombo! 
Fui ao Camaxilo uma única vez, para reparar o rádio farol pois uma daquelas habituais trovoadas queimou um dos circuitos.
Durante uma semana deu para um jogo de futebol contra o exército, que nos fornecia o pão e água. No final foi uma jantarada, no quartel do exército, cujo menu foi uma bacalhausada no forno. Um manjar dos deuses, para quem tinha passado dias a comer arroz com chouriço e chouriço com arroz, por causa de uma chuvada que nos estragou alguns víveres.
Por azar, nessa semana, o PV2 não nos levou abastecimento por motivos de uma missão.

Foi a semana mais acidentada que tive em Angola.
Durante essa estadia, numa das noites, a sentinela viu um vulto e disparou a FBP. Dado o
alarme, despertei do burro onde dormia e passei o resto da madrugada a carregar os carregadores da metralha. O sargento-ajudante de abastecimento, que lá tinha ido fazer o inventário, foi colocar-se junto aos bidons de combustível aguardando pelos acontecimentos, quando de repente um dos bidons deu um estrondo de contracção.
O homem deu um salto 
de susto e disse:- foda-se, as ajudas de custo não pagam o cagaço...e tudo terminou em bem, falso alarme.

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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

TUDO, MENOS O CORREIO!

 
Cazombo - foto de Gonçalo de Carvalho

Também tenho uma história passada no Cazombo, com a aterragem de um PV2 pilotado pelo Capitão Carvalho.
O avião vinha do Luso para o Cazombo a transportar mantimentos, que já se tinham acabado. Trazia caixas com frangos e outros mantimentos. O 2º. Sarg. Pinto que era o radio-telegrafista de bordo informou-nos que um dos motores estava com falhas, o outro estava em bandeira e pedia autorização para deitar a carga fora para aliviar o peso do avião.
Contactei o AB4 - Henrique de Carvalho, a pedir autorização que foi consentido.
Depois pedimos ao sargento Pinto para passar a informação ao piloto, mas por tudo, que não deitasse o correio fora pois era a única coisa que podíamos ter.
Passado pouco tempo lá apareceu o PV2 pilotado por um extraordinário piloto, que conforme bateu com as rodas no chão no princípio da pista ali ficou. O avião veio rebocado à mão por todo o pessoal do AM43 e claro que houve festa.
Voltámos a comer peixe frito com arroz ao jantar e arroz com peixe frito ao almoço, que já tinha sido descongelado várias vezes...mas o correio salvou-se !


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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

PROCURA-SE UM AVIADOR

Algures no leste de Angola 1971 - foto de Ribeiro da Silva

Procura-se um Aviador, nem jovem nem velho, apenas antigo. Que tenha sensibilidade para lidar comigo e compreenda minhas manias, pois já estive à beira do desaparecimento e fui ressuscitado – ou restaurado – como dizem por aí… Cada novo pedaço de tela, cada nervura, representa cicatrizes dos lanhos de uma vida de voos e pousos, mais rangidos, estalidos e tendências deste meu corpo – ou fuselagem…
Meu piloto poderá falar quando quiser, mas, sobretudo, terá que saber escutar, ouvir e entender os sons que sou capaz de emitir: como o assobio do vento relativo nos meus contornos; o ronco do meu fiel motor que, às vezes, espouca e tosse, com um bafo de fumaça azulada.

Procura-se um humano que compreenda meus códigos, que talvez sejam mensagens diluídas pelo tempo e remanescentes de aviadores antigos que me conduziram, ou a outros iguais a mim.

Procura-se um aviador que não se importe com meu cheiro de dope, graxa e gasolina, também não se melindre quando eu o respingar de óleo. Deverá ainda saber usar a bússola e ler uma carta seccional, reconhecendo referências no terreno, compensando o vento e mantendo a rota, sem precisar de mostradores elétricos. Este piloto decerto apreciará as pistas de grama e cascalho.

O aviador que procuro deverá saber extasiar-se com minhas antiquadas chandelles, tonneaux e loopings, apenas alegres e espontâneos bailados, sem pretensão a aplausos ou troféus.

Procura-se um aviador que tenha prazer de voar a qualquer hora, mas preferindo decolar ao nascer do sol, ou conduzir-me nas luzes mágicas do sol poente. Meu piloto será um saudosista por certo, sobrevivente do tempo em que um avião era um avião, e não um foguete com asas, recheado de automatismos.

Este piloto será tido como esquisito, pois será reservado e escondido, numa surrada jaqueta manchada de óleo. Será encontrado, junto com poucos iguais a ele, numa boa conversa de hangar.

O aviador que vier por este anúncio será aquele que procure poesia na aviação, que tenha amor pela máquina.

Gago Coutinho 1969 - foto de Eduardo Cruz

Procura-se este aviador raro que tenha carinho por mim, a despeito de minha idade, e que, principalmente, não permita que lhe arranquem o romantismo.

Interessados dirigirem-se ao Hangar da Saudade, no Campo dos Sonhos, procurar pelo velho, porém majestoso, North American Texan T-6, mais conhecido por “Têmeia”.
(Autor desconhecido – Encontrado no salão de estar do ACSP), via Franco Ferreira, tenente-coronel da reserva da FAB

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

S.A.R. O SENHOR D.DUARTE PIO DE BRAGANÇA, PRÍNCIPE DA BEIRA E A FAP.

D. Duarte no AB3 Negage


Como monárquico, tenho o maior respeito pelo actual Duque de Bragança assim como uma enorme admiração pelo patriotismo, cultura e comportamento civil do Senhor Dom Duarte. São já tantas as suas obras e tal tem sido a sua enorme contribuição para a grandeza de Portugal que tentar fazer dele o que nunca foi só mancha a “folha limpa” do Senhor Dom Duarte.Falei longamente sobre o assunto com o historiador Prof. Mendo de Castro Henriques, que é o biógrafo da Casa de Bragança (e, coincidentemente, meu patrono na Sociedade de Geografia de Lisboa) corrigindo-o para o errado grande destaque à acção de D. Duarte na FAP dado no seu livro “Dom Duarte e a Democracia”. Tudo falso! Lembrei-o que, quando a verdade acabar por ser exposta (mais cedo ou mais tarde sempre é), os leitores serão tentados a pensar que outros feitos mencionados de grande destaque também o poderão ser. O que mais me admirou, e devo dizer que me decepcionou, foi que Dom Duarte, que leu o manuscrito antes da publicação, não tenha mandado eliminar o que se refere à sua passagem pela FAP.

Nas férias de verão de 1967 um importador Português de helicópteros oferece ao Dom Duarte a frequência de um curso de PPH (Piloto Privado de Helicópteros) em França. Lá voou em Hughes 300 e obteve a respectiva licença Francesa que foi reconhecida pelo DGAC. Totalizou cerca de 20:00 de voo.
Apesar de não ter concluído o curso complementar dos liceus no Colégio Militar, como seria necessário, foi, mesmo assim, dispensado da recruta. Mesmo com forte deficiência de visão, foi dado apto para pilotagem pelos serviços médicos da FAP e apresentou-se em Tancos como Soldado Cadete para frequentar o Curso Complementar de Pilotagem de Helicópteros. Vale lembrar que nestas alturas o CCPH só era dado a pilotos já brevetados em T-6 ou T-37.
PH1/67, D. Duarte é o 4º. da direita.
Dom Duarte, como Cadete, foi incluído no curso de helicópteros frequentado pelos Aspirantes do curso P1/67, que já tinham sido brevetados em Aveiro (Chipmunk e T-6).
Recebeu a instrução de helicóptero normal com o pequeno detalhe: nunca voo solo (largado). Um dia foi chamado ao gabinete do Comandante da base que lhe colocou as asas no peito e o promoveu a Aspirante.
Depois da conclusão do curso, um camarada de curso foi um bom amigo e, arriscando a sua própria carreira, num voo de navegação, após uma aterragem, autorizou o Dom Duarte a experimentar um breve voo solo. Este voo “secreto” foi a única vez que Dom Duarte voou solo numa aeronave da FAP.
Ao ser mobilizado para o Ultramar Dom Duarte foi colocado no AB3 Negage onde não só não existiam helicópteros como era até raro lá passarem! Apesar de manifestamente Dom Duarte muito desejar voar como os outros pilotos, “to add insult to injury” estava expressamente proibido (sabe-se lá por quem) de voar em monomotores, donde só lhe restava voar como co-piloto no Beech D.18S da base, o que acontecia raríssimas vezes pois todos os outros pilotos também queriam ter essa oportunidade e o avião não voava mais do que uma vez por semana.
Quando eu cheguei ao Negage ele já lá estava havia uns meses. Era uma pessoa normal, como nós todos e fizemos uma boa amizade. Nos meus passeios de mota à volta do Negage levei comigo várias vezes o então Príncipe da Beira (na altura tratávamo-lo por “tu” pois era, para nós, simplesmente o Duarte, nosso camarada piloto) e foi para mim um fantástico cicerone ao me mostrar os melhores pontos para assistir ao magnífico por do sol Africano.
Duarte piloto
Também fomos várias vezes no seu VW 1500 visitar fantásticas e belíssimas fazendas de café da região do Uíge. Era um bom Amigo!
O que era engraçado é que, se nós, de Furriel a Tenente o tratávamos por “tu”, de Capitão para cima tratavam-no por “Senhor Dom Duarte” (?!) Como para o Capitão França (Cte da EO) e para o TCoronel Belo (Cte da Base) a presença do Duarte e a situação que ele vivia de “piloto-nãopiloto” só criava embaraços, deixavam-no “desenfiar-se” à vontade (até gostavam!) e assim o Duarte apanhava “boleia” no Noratlas (Guia de Marcha para quê?) e ia para Luanda, e daí para onde quisesse, semanas a fio sem ninguém saber onde parava.  O “diabo teceu-as” quando o Tcor. Belo foi substituído pelo Tcor. Cruz Novo. No dia seguinte de lá ter chegado, entra de manhã na sala de “briefing” com uma prancheta na mão onde tinha a lista dos pilotos. Começou a chamar um a um para se apresentarem. Quando diz “Bragança!” o Cap. Franca disse: “Ah! Esse é o Príncipe, não está cá”. Quando o Comandante perguntou onde é que ele estava e o Cap. França respondeu “não faço ideia!”! Então o Comandante perguntou pela “Guia de Marcha” e quando o Cap. França respondeu só com um sorriso o bom do Tcor Cruz Novo, que até era republicano ferrenho (como ele próprio o disse) teve um ataque de fúria e gritou: ”Ou amanhã de manhã ele se apresenta no meu gabinete ou eu levanto-lhe um processo por deserção!” E não estava a brincar! Como o Cap. França sabia que o Zé Inácio algures e pedimos para alguém o avisar urgentemente da “pega” em que ele estava metido.
Negage 1969, Jorge Carvalheira
 e Duarte de Bragança
Vasconcelos e eu éramos amigos dele, pediu-nos para tentar achá-lo e deixou-nos usar o telefone do gabinete dele. Depois de vários telefonemas para amigos comuns em Luanda lá ficámos a saber que ele estava numa fazenda. 
Cinco dias mais tarde lá apareceu o Duarte no Negage, mas o Comandante já tinha mandado abrir o processo. No dia seguinte foi para Luanda, o Comandante da 2ª.RA deu-lhe por encerrada a comissão e ele foi recambiado para a Metrópole.
Por mais respeito que eu tenha pela pessoa do Duque de Bragança, e tenho muito, acho um absurdo tentar enaltecê-lo deturpando a verdade, não só contando as suas “façanhas” como piloto, como também afirmando que ele tenha sido corrido de Angola por motivos políticos.
Esta é a VERDADE dos factos!

Por:
João M. Vidal