quinta-feira, 22 de outubro de 2026

QUANDO UM MILITAR MORRIA NO ULTRAMAR, O QUE ACONTECIA AO SEU CORPO?

Cerimónia no cemitério de Mocímboa da Praia - Moçambique

À medida que vamos investigando a história dos militares mortos na Guerra do Ultramar e analisando os comentários e perguntas que surgem na sequência dos artigos publicados, aparecem novas questões que, à primeira vista, parecem simples, mas cuja resposta exige consultar a documentação da época. Uma delas é particularmente importante: quando um militar português morria numa das antigas províncias ultramarinas — em combate, num acidente ou por doença — o que acontecia ao seu corpo? Era automaticamente enviado para a Metrópole? Era sepultado no local onde tinha morrido? Quem tratava do corpo, quem comunicava a morte à família e quem decidia sobre a eventual transladação?
A investigação que temos vindo a realizar mostra que não existia uma resposta única para todo o período da Guerra Colonial. Os procedimentos foram sendo regulamentados e alterados ao longo dos anos e dependiam também das circunstâncias concretas da morte, do local onde esta ocorria e das condições existentes para a recuperação e transporte do corpo. A morte de um militar dava origem a um conjunto de procedimentos militares, administrativos, médicos e funerários. O Arquivo Histórico Militar conserva, para o efeito, uma série documental intitulada “Funerais e Sepulturas”, abrangendo o período de 1960 a 1971, onde encontramos referências ao saneamento do campo de batalha, serviço de funerais, registo de sepulturas, transladação e remoção de restos mortais e transladação de ossadas de militares falecidos e sepultados no Ultramar.
A MORTE E OS PRIMEIROS PROCEDIMENTOS
Um militar podia morrer em combate, na sequência de ferimentos recebidos em operações, num acidente ou por doença. Não devemos, por isso, partir do princípio de que todos os casos seguiam exatamente o mesmo percurso. Um militar que morresse numa zona operacional encontrava-se numa situação diferente daquele que falecesse num hospital militar. A documentação relativa a mortos, feridos e desaparecidos mostra que as baixas eram objeto de comunicação e registo dentro da estrutura militar, existindo relações, mapas e mensagens referentes aos militares falecidos nas províncias ultramarinas.
Depois da morte começava, portanto, um processo que envolvia a identificação do militar, o registo da ocorrência, a preparação e realização do funeral, o registo da sepultura e a comunicação à família. Só depois devemos considerar a questão da eventual transladação para Portugal. A própria existência de documentação específica sobre funerais, sepulturas e transladações demonstra que estas eram fases distintas de um processo mais amplo.
O CORPO NÃO ERA AUTOMATICAMENTE ENVIADO PARA PORTUGAL
É precisamente aqui que encontramos uma das ideias mais comuns que a documentação nos obriga a corrigir. Nos primeiros anos da Guerra Colonial, um militar morto no Ultramar não era automaticamente trasladado para a Metrópole. A família podia solicitar o regresso do corpo, mas existiam encargos associados à operação. A documentação que temos vindo a analisar mostra que, em 1967, as famílias podiam ser confrontadas com a necessidade de depositar rapidamente uma quantia para que a transladação fosse realizada. Os valores indicados eram aproximadamente 7.500$00 para a Guiné, 10.000$00 para Angola e 12.000$00 para Moçambique, podendo ser concedido à família um prazo de apenas 24 horas para proceder ao depósito.
Telegrama informando a família das condições da trasladação

É difícil imaginar hoje o que isto significava. Uma família acabava de receber a notícia da morte de um filho, marido ou pai e podia ter de decidir, praticamente de imediato, se conseguia reunir uma quantia considerável para trazer o corpo para Portugal. Para muitas famílias, a questão da transladação não era, portanto, apenas uma decisão de natureza sentimental: podia ser também uma questão económica.
O CASO DO SOLDADO FRANCISCO DA LUZ CARLOTO
Um dos episódios que melhor ilustra esta realidade ocorreu precisamente no início de 1967. O soldado Francisco da Luz Carloto, natural de Nisa, morreu em Moçambique em 19 de janeiro de 1967. A sua mãe, Maria Florinda da Luz, dirigiu-se às autoridades pedindo que o corpo do filho fosse trasladado para Portugal, mas a família não tinha condições económicas para suportar os encargos da operação.
O caso chegou às autoridades superiores num momento particularmente significativo, porque o próprio Exército já vinha estudando uma alteração do regime de transladações. Não devemos afirmar que o caso de Francisco da Luz Carloto tenha, por si só, provocado a mudança, mas ele constitui um exemplo particularmente expressivo do problema que estava a ser discutido naquele momento. Por detrás de uma norma administrativa estava uma realidade humana muito concreta: uma mãe queria ter o filho morto de volta a casa, mas a família não tinha meios para pagar a transladação.
A MUDANÇA DE 1967
A situação vinha sendo discutida havia vários anos. O Arquivo Histórico Militar conserva documentação sobre funerais e sepulturas, transladação de corpos e ossadas e sucessivas normas relativas a esta matéria. O processo PT/AHM/DIV/1/39/1/32, com 25 folhas dactilografadas, contém a circular da 1.ª Repartição do Estado-Maior do Exército sobre a transladação para a Metrópole dos corpos dos militares falecidos no Ultramar e inclui o Regulamento de Transladações aprovado pelo Ministro do Exército por despacho de 2 de março de 1967.
Esta data constitui o principal ponto de viragem. A partir de 2 de março de 1967, o Estado passou a assegurar, através do sistema de transportes militares, o encargo da transladação dos corpos dos militares falecidos em África, sem que esse transporte constituísse uma despesa para as famílias. Esta alteração não significava, contudo, que todos os militares mortos a partir dessa data passassem automaticamente a ser trasladados para Portugal. A documentação posterior demonstra que continuaram a existir militares falecidos e sepultados no Ultramar e processos relativos à posterior transladação das suas ossadas.
A TAP E O TRANSPORTE DOS RESTOS MORTAIS PARA A METRÓPOLE
A TAP também teve um papel neste processo, mas é importante distinguir as diferentes situações. A companhia aérea podia ser utilizada para o transporte dos restos mortais através das suas carreiras regulares, existindo valores específicos consoante a origem. A TAP constituía assim uma alternativa de transporte aéreo, particularmente relevante quando se pretendia um transporte mais rápido do que aquele que poderia ser assegurado pelo sistema militar.
Contudo, a TAP não foi responsável pela mudança de política ocorrida em 1967. Essa mudança resultou do Regulamento de Transladações aprovado pelo Ministro do Exército. A partir daí, o Estado passou a assegurar o transporte através do sistema militar, embora a utilização das carreiras regulares da TAP continuasse a ser possível em determinadas circunstâncias.
A colaboração da TAP com a questão dos mortos da Guerra Colonial prolongou-se muito para além desse período. Décadas mais tarde, a companhia aérea voltou a colaborar com a Liga dos Combatentes em operações de transladação de restos mortais. Em 2018 foi celebrado um protocolo que previa o transporte gratuito de restos mortais de Combatentes portugueses provenientes de Angola e Moçambique.
CORPOS E OSSADAS
Outra distinção fundamental é entre transladação do corpo e transladação das ossadas. Um militar podia ser sepultado no Ultramar e, posteriormente, os seus restos mortais serem exumados e trasladados para Portugal. São, portanto, processos diferentes: numa situação, trata-se do transporte do corpo pouco tempo depois da morte; noutra, da exumação de alguém que permaneceu sepultado no Ultramar e da posterior transladação das suas ossadas.
O Arquivo Histórico Militar conserva documentação específica sobre a transladação de ossadas de militares falecidos e sepultados no Ultramar, incluindo processos posteriores à aprovação do regulamento de 1967. Esta documentação é particularmente importante porque demonstra que a questão dos mortos sepultados nos antigos territórios ultramarinos não ficou resolvida com a mudança regulamentar de 1967.
Cerimónia no cemitério de Bissau


As condições da guerra também podiam dificultar o transporte imediato de um corpo. As distâncias, a localização das unidades, as condições em que o corpo era recuperado, a disponibilidade de meios adequados (urnas) e a necessidade de proceder ao enterramento num prazo curto podiam determinar que o militar fosse inicialmente sepultado no território onde tinha falecido. Mais tarde, quando as condições o permitissem, podia ocorrer a exumação e a transladação das ossadas.
O QUE MUDOU, AFINAL, EM 1967?
A resposta deve, por isso, ser cuidadosamente formulada.
Não podemos dizer que, a partir de 1967, todos os corpos dos militares mortos no Ultramar passaram a ser automaticamente trasladados para Portugal.
Podemos afirmar, com base na documentação consultada, que 2 de março de 1967 marcou uma mudança fundamental no regime: a transladação dos corpos passou a ser assegurada pelo Estado através do sistema de transportes militares, deixando de depender, como anteriormente, da capacidade económica das famílias.
Esta distinção é importante porque explica uma realidade que, à primeira vista, poderia parecer contraditória: o Estado podia assegurar a transladação dos corpos e, simultaneamente, continuarem a existir militares sepultados no Ultramar. Uma coisa diz respeito à responsabilidade pelo transporte; outra, às condições concretas em que esse transporte podia efetivamente realizar-se.
UMA HISTÓRIA QUE NÃO TERMINOU COM A MORTE
A investigação que estamos agora a desenvolver permite-nos olhar para os militares mortos no Ultramar de uma forma diferente. A morte em combate, por acidente ou por doença não constituía o fim de um processo administrativo. A partir desse momento iniciavam-se procedimentos relacionados com a identificação, comunicação da morte, funeral, sepultura, eventual transladação do corpo e, em determinados casos, posterior exumação e transladação das ossadas.
É também por isso que ainda hoje encontramos documentação sobre militares que permaneceram sepultados nos antigos territórios ultramarinos. Ao longo das décadas foram realizadas operações de localização, exumação, identificação e transladação, envolvendo diferentes entidades e, posteriormente, a Liga dos Combatentes.
UMA PERGUNTA QUE NOS LEVA A OUTRAS
Quando começámos esta investigação, a pergunta parecia simples: “Quando um militar português morria no Ultramar, vinha o corpo para a metrópole ?”
Hoje sabemos que a resposta exige conhecer o período, as circunstâncias da morte, as condições existentes no local e o regime de transladações em vigor.
Chegada de corpos de militares ao Hospital Militar de Bissau

Sabemos também que 1967 foi um momento decisivo, mas não significou o regresso automático de todos os mortos à Metrópole. Antes dessa data, as famílias podiam ter de suportar elevados encargos para conseguir trazer os seus mortos; depois dela, o Estado assumiu essa responsabilidade, embora continuassem a existir situações em que o militar era sepultado no Ultramar e só posteriormente os seus restos mortais poderiam ser trasladados.
E talvez seja esta a conclusão mais importante desta investigação: por detrás de cada nome inscrito numa relação de mortos existia um homem, uma família e um conjunto de procedimentos que determinava onde aquele homem seria sepultado e, eventualmente, se um dia regressaria a Portugal.
Conhecer esses procedimentos é também conhecer uma parte da história da Guerra Colonial que raramente é explicada: o que acontecia aos homens depois de morrerem.
Publicado por: Núcleo de Peniche da Liga dos Combatentes (FB)

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

QUANDO A GUERRA TAMBÉM TINHA UM ROSTO HUMANO.


Há fotografias que resistem ao tempo porque conseguem dizer, num único instante, aquilo que muitas páginas de História não conseguem explicar.
Esta é uma delas.
Angola, 1971. Uma jovem militar portuguesa surge diante de duas crianças angolanas, num momento de proximidade e aparente tranquilidade. Na sua mão, uma peça de fruta. À sua frente, dois rostos infantis. Entre eles, não há armas nem discursos: há apenas um gesto simples de partilha.
A imagem, divulgada com a identificação de uma militar chamada Rosa, apresenta uma realidade que também fez parte do quotidiano da Guerra Colonial: para além das operações militares, existiam contactos diários entre militares e populações, assistência, encontros e momentos de solidariedade.
É importante, contudo, olhar para esta fotografia sem apagar o contexto em que foi registada. Angola vivia então uma guerra que provocava violência, deslocações, sofrimento e perdas entre diferentes sectores da população. Uma imagem de proximidade não elimina essa realidade, mas recorda-nos que a História não é feita apenas de batalhas e confrontos.
É feita também de pessoas.
A jovem que aparece na fotografia era, segundo a identificação que acompanha a imagem, enfermeira e militar paraquedista. A sua presença junto das crianças traduz, naquele instante, uma dimensão humana que frequentemente desaparece quando a História é contada apenas através de datas, operações militares e decisões políticas.
Para muitos dos jovens portugueses enviados para África, o serviço militar significou deixar para trás famílias, amigos, amores e projectos pessoais. Muitos tinham apenas 18, 19 ou pouco mais de 20 anos quando partiram.
Do lado angolano, milhões de pessoas viveram igualmente os efeitos de um período marcado pela guerra e pela transformação profunda da sociedade.
Por isso, esta fotografia merece ser observada com atenção.
Não como uma tentativa de resumir a Guerra Colonial a um gesto de bondade, nem para apagar as suas contradições e sofrimentos, mas para lembrar que, mesmo em tempos de conflito, continuavam a existir relações humanas.
Uma mão que oferece uma fruta.
Uma criança que a recebe.
Um olhar.
Um instante de proximidade entre pessoas de mundos diferentes, registado num território atravessado pela guerra.
“A guerra também tinha este rosto.”
Talvez seja precisamente essa a força desta fotografia: lembrar que, por detrás das fardas, das fronteiras, das decisões políticas e dos acontecimentos militares, existiam seres humanos.
E são também esses pequenos gestos, tantas vezes esquecidos, que ajudam a compreender a complexidade da memória de Angola.
REAT — Rádio Estudantil Angolana de Transmissões/Homenagem aos Militares Portugueses

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

PARAQUEDISTAS/PUMA - O BINÓMIO LETAL DO FINAL DA GUERRA EM ANGOLA.


Face à guerra no Leste de Angola, constata-se que o Alouette  III não atingia o objectivo proposto em termos de autonomia para cobrir as vastíssimas áreas daquela zona.
Assim, Portugal inicia o processo de aquisição de novos helicópteros, os SA 330 Pumas.
No final dos anos 60, inicio de 1970, as forças do MPLA a partir de bases da Zâmbia, pretendiam dominar todo o Leste, e através de dois eixos principais de infiltração e penetração, atingir o norte da província.
É nesta vasta região com mais de 700 mil quilómetros quadrados, onde havia apenas 4 Batalhões do Exército, dava a razão de 1 soldado por cada 100km2, que era imperioso o uso de um meio aéreo com maior capacidade.
*"Nós compramos os helicópteros mas sem saber como é que o helicóptero se iria comportar, os helicópteros são entregues em Angola e quando chegam lá têm montes de problemas. A fábrica dos helicópteros montou lá uma equipa de observação em permanência com um engenheiro em que estavam constantemente a observar o comportamento do helicóptero e andaram nestas experiências mais de um ano, porque as temperaturas, as poeiras, as humidades afectavam o rendimento. O helicóptero teve de ser muito modificado e melhorado e praticamente podemos dizer que nós pagamos todas as melhorias que foram introduzidas no helicóptero. "
É com o Puma a fazer as heli-colocações e com o apoio do heli-canhão que os Paraquedistas, alternando com Fuzileiros e Comandos, eram empregues em reforço, era dado ao comando do BCP21 a zona para durante um mês fazer uma série de operações.


As zonas dos Paraquedistas foram duas, uma no Leste de Angola em Léua quase na zona de infiltração. Havia uma Companhia em permanência e rodavam de três em três meses com o BCP em Luanda. Mais tarde esta zona deixou de ter grande actividade pois era uma zona de passagem onde era muito difícil dar luta aos grupos que passavam.
O MPLA procurou instalar-se na zona de Luena, o antigo Luso, e passar ai o rio Cassai.
Desenvolveu-se uma sintonia perfeita entre os pilotos de helicóptero e os Páras, e a articulação entre o serviço de informações e essa equipa de «força aérea-força terrestre» permitiu uma perseguição muito eficaz e a destruição das colunas inimigas.
O conceito verdadeiro de operação aeroterrestre teve plena expressão dentro da Força Aérea, com o binómio Aeronave-Paraquedistas, permitindo flexibilidade e rapidez. A prática assídua deste conceito, através de uma série de campanhas sazonais, produziu equipas táticas com capacidades devastadoras num ambiente físico difícil, destruindo a capacidade do inimigo no Leste.

Com a criação da Unidade Táctica de Contra Infiltração – UTCI no Toto a partir de 1971, o meio de actuação numa operação englobava geralmente 3 AL III, 2 PUMA, 1 DO-27, equipa de pistagem, mais 30 páras, ficando em reserva 1 companhia de Paraquedistas e 1 avião Noratlas.
Numa 1ª. fase o conceito da operação passava por através do helicóptero (AL III) largar um grupo de pisteiros num local onde se tinha encontrado uma pista e realizar uma primeira avaliação de há quanto tempo tinha o inimigo passado ali, qual o seu efectivo, a sua direção, carga transportada, etc. Através destas sucessivas avaliações era depois colocado no terreno via Puma, um grupo para interceptar o inimigo, montando (por exemplo) uma emboscada ou um cerco descontínuo, entretanto outro grupo de combate era colocado na perseguição do grupo a pé na retaguarda deste para manter a pressão e cortar os itinerários de retirada.
Com o grupo de pisteiros geralmente seguia um heli-canhão para proteção e mais dois Alouette III. Por vezes eram colocados mais à frente quando as informações permitiam, se por ventura os grupo de guerrilheiros já tivessem passado nesse ponto, voltavam atrás para buscar os grupos que estavam em perseguição e eram colocados mais à frente usando os helicópteros, este processo era chamado “saltos de rã” por irem de salto em salto com a finalidade de encurtar a distância entre perseguidores e perseguidos.
O emprego do Puma que tinha uma autonomia de quase 600km (em comparação com os cerca 400 do Alouette) permitia-lhe colocar tropas frescas perto do local de acção, qualquer que fosse o grau de acessibilidade terrestre a esse local, fez alterar a forma de fazer a guerra, e constituiu certamente um factor de desequilíbrio a desfavor da guerrilha.
O Comando da Zona Militar Leste (o único Comando dos 3 teatros de operações a ser louvado) foi um sinónimo de que quando o interesse operacional se sobrepunha às burocracias e inoperância, os resultados apareciam; isto apenas dois anos depois de se terem revisto a estratégia da guerra e os processos operacionais.
Ao seu dispor o Comandante da ZML (Zona Militar Leste) exercia o comando operacional sobre os Sectores e as Forças do Exército em reserva da ZML; os meios operacionais do Comando Naval de Angola e da 2ª. Região Aérea estacionados na ZML; as Unidades de Reserva do CCFAA dos três Ramos estacionadas na ZML ou que lhe fossem atribuídas com carácter temporário e ainda sobre as Forças Auxiliares estacionadas na ZML. E exercia ainda o controlo operacional sobre os Flechas da Direcção Geral de Segurança (DGS) e outras forças militarizadas ou paramilitares. A isto a hipótese de ser reforçada era ainda uma realidade totalizando: 12.200 homens do Exército, 841 da Força Aérea, 234 da Marinha, 1.807 dos Grupos Especiais (GE), 2.431 Fiéis, 991 Flechas (DGS) e 88 da ZNA, num total de 18.592, conjunto de efectivos, que parece numeroso mas que se traduzia numa média de 32 militares, por cada um dos 666.521Km2 da Zona.


Para mais, no final de 1970 funcionava ainda em Cuito Cuanavale, o "Centro Conjunto de Apoio Aéreo" que coordenava a utilização de meios aéreos portugueses e da SAAF (República da Africa do Sul), estes em completo apoio às nossas forças.
Em oposição, o MPLA era o IN mais poderoso e usufruía do total apoio da Zâmbia. Dispunha de um efectivo de cerca de 4.000 homens.
As longas distâncias e a pobreza das comunicações terrestres dificultava imenso as ligações terrestres, portanto, os reabastecimentos. Para se ir de Cangumbe a Cangamba, demorava-se um dia, do Cangumbe ao Luso, dois dias, tal como do Luso a Luanda.
A transitabilidade das nossas forças era muito afectada, quer pela natureza do terreno, quer pelo alagamento (na época das chuvas) das zonas baixas que tornava intransitáveis grande parte das estradas e picadas, na generalidade de terra batida.
Quando o Puma e os Páras começam a ser usadas neste teatro, os guerrilheiros sentiam agora que não tinham como inimigo, tropas rotinadas como eram em geral as de quadrícula, mas sim tropas que actuavam como eles e que dispunham de meios mais sofisticados.
O planeamento destas acções requeria cuidados especiais para se obter alguma surpresa, sendo igualmente necessário o correspondente apoio de fogo para minimizar as vulnerabilidades, em especial no momento da recolha/largada dos Páras no terreno.
As operações mais delicadas, nas áreas eleitas como prioritárias, foram, em geral, executadas pelas forças de intervenção (Paraquedistas, Fuzileiros e Comandos) e, nalguns casos, por Forças Auxiliares (TE, OE e sobretudo Flechas), obrigando a guerrilha que não se sentia segura e começava a ceder, a ter que abandonar quase por completo as suas áreas de ocupação tradicionais, sendo obrigado a refugiar-se noutras de mais difícil acesso.
Ficando ainda com graves dificuldades de comando e alimentação o que a levou a provocar dissidências entre os chefes guerrilheiros e atritos com as populações.

Aos poucos os guerrilheiros começaram a furtar-se ao contacto com os Paraquedistas, e quando o faziam muitas vezes deixavam armamento e equipamento na fuga, notando-se a pouca preparação dos seus elementos presumindo-se que se tratavam de combatentes novos e pouco experientes, ou já muito desmotivados. É de crer que para evitar uma destruição total, que se afigurava previsível a curto prazo, que poderia pôr em risco os propósitos de uma luta prolongada, o MPLA iniciou uma retirada para a Zâmbia de importantes efectivos combatentes e de populações sob o seu controlo. A esta retirada estratégica correspondeu uma sensível redução, ou mesmo abandono, das áreas de fixação e acentuada quebra do potencial e de eficiência para o combate.
E assim chegados a Fevereiro de 1974, em toda a Frente Leste apenas houve 12 acções dos guerrilheiros com significado militar, quase todas na fronteira, das quais seis foram engenhos explosivos, duas emboscadas inexpressivas às NT, duas emboscada a uma viatura militar e outra civil, um ataque a uma povoação e uma tentativa de flagelação a Mussuma.
Sobre o Puma, era então possível atingir os objetivos com uma rapidez até aí nunca utilizada e sem fugas de informação.
A mobilidade e o efeito surpresa conjugados vieram dar uma vantagem decisiva às nossas forças combatentes na luta contra a guerrilha. O transporte das forças militares, nomeadamente forças especiais (Paraquedistas,  Fuzileiros e Comandos), através da terceira dimensão veio desorganizar a estrutura de defesa das bases inimigas, e interferir na intersecção de colunas de guerrilheiros vindos das fronteiras do Congo e da Zâmbia, servindo também na evacuação sanitária e apoio logístico. 
Numas Forças Armadas com a nossa dimensão, as que existiam no tempo das Províncias Ultramarinas e as do presente, onde impera os escassos recursos de meios aéreos, o conceito verdadeiro de operação aeroterrestre só teve e terá plena expressão dentro da Força Aérea, com o binómio Aeronave-Paraquedistas.

Em: Paraquedistas não são arremachos, Grupo do FB

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

CONTOS PROIBIDOS...




Muito cedo na minha carreira cheguei à conclusão que, na FAP, somente os pilotos de T-37, T-33 e F-86 nos jactos e de P2V-5 nos pesados, recebiam um treino adequado tanto de voo como de disciplina aeronáutica e isto por terem os programas escritos e supervisionados pelas SOPs (Standard Operating Procedures) NATO. Tudo o resto era na base de “seleção natural”. E havia de tudo! Do melhor ao pior, todos trabalhavam juntos “pro que desse e viesse”. Era a receita ideal para o desastre! E assim foi!

Como escrevi anteriormente, ao ler os relatórios de acidentes do Negage 1961/1969 fiquei estarrecido e, do “baixo” do meu posto e idade, resolvi tornar-me em “Soprador de Apito” (Whistleblower) ou, usando um termo mais feio, “Delator”, o qual, por definição, é uma pessoa que denuncia actividades ilegais ou impróprias às autoridades constituídas. Por vezes, essa pessoa pertence ao próprio grupo que exerce a actividade ilícita ou imprópria, como era o caso. 
Nunca na minha vida irei publicar este relatório por nele estarem mencionados nomes, muitos deles de meus sinceros Amigos e outros por já cá não estarem para se defender. No entanto, em linhas gerais, aqui vão os pontos mais significativos para os quais eu chamava a atenção. 
- Da Formação dos Pilotos Milicianos: Ao contrário de qualquer outra especialidade de qualquer ramo das Forças Armadas, não havia qualquer diferença no curriculum do curso de Oficiais e Sargentos do Quadro Complemento, sendo frequentemente dado em simultâneo, com os Cadetes e Alunos dormindo e comendo nos mesmos lugares, sendo a única diferença ter mais ou menos cadeiras do 3º Ciclo dos Liceus. Isto fazia com que, chegados ao Ultramar, os Alferes com menos de 300 horas de voo e sem qualquer treino específico de comando, passassem a ter mais privilégios e salário do que um Sargento Ajudante com duas comissões e milhares de horas de voo, os quais, pelo menos teoricamente, ficariam debaixo do seu comando. 
- Dos Instrutores de Voo: Ao terminar o curso, normalmente os Aspirantes melhor classificados eram nomeados Instrutores (com as mesmas 300 horas de voo) e recebiam a Gratificação de Instrução de 500$00/Mês (um “dinheirão”, na altura). Já os Sargentos só podiam dar instrução depois de, pelo menos, uma Comissão de Serviço mas eram nomeados “Monitores” (Instrutores eram só os Oficiais) e não recebiam nenhuma gratificação, apesar de darem exactamente o mesmo treino.

Sugestão: Que se acabasse com os Sargentos Pilotos. Uma vez que era óbvio ser o 2º Ciclo dos Liceus suficiente para completar o Curriculum de Piloto Miliciano, que, quem não tivesse completado o 3º Ciclo, seguisse um curso de básico de Oficial Miliciano (equivalente ao COM do Exército em Mafra) antes do início do Curso de Pilotagem.
- Da Indisciplina de Voo: Estando mais que provado que a vastíssima maioria dos acidentes era causada por 
pura indisciplina de voo, causando inúmera perda de vidas humanas e materiais, que todas as bases tivessem um departamento a sério de “Segurança de Voo” (não somente teórico) com poderes não só de doutrinação como de punição. 
- Da Incompetência: Que todos os Oficiais do Quadro Permanente colocados em Esquadras Operacionais fossem obrigados a seguir cursos completos das aeronaves que iam voar e deixassem de ter automaticamente as qualificações tendo somente como base o posto hierárquico. 
- Do Treino Frequente: Que todos os pilotos fossem verificados regularmente na proficiência e conhecimentos das aeronaves para as quais estavam qualificados assim como o estabelecimento de programas de treino frequente de Voo Sem Visibilidade (IFR). 
Havia ainda mais uns pontos e, para todos os casos acima, dava exemplos de aeronaves destruídas e vidas perdidas sem necessidade alguma. 

Apresentei este relatório ao meu Comandante de Esquadra em Setembro de 1969, somente três meses depois de iniciar a minha Comissão. Apesar de ele me ter dito que tinha rasgado este meu relatório, facto é que isto foi espalhado pela 2ª Região Aérea. No início de Outubro desloquei-me a Luanda e quando estava na BA.9 um capitão “mauzão” que conhecia desde miúdo e que, até à altura, tratava por “tu”, tratou-me por “nosso” e mandou-me arregaçar as pernas das calças para ver se eu estava com meias da ordem (???!!!). 
No dia seguinte (06OUT69) estava eu à espera de embarcar no Noratlas para o Negage quando, ao ser dada a ordem de embarque, um Major mandou-me ir cortar o cabelo por estar muito longo (o que era falso). Perguntei-lhe por que razão ele não tinha dado essa ordem antes, visto estarmos ali havia mais de uma hora, ao que ele me ameaçou com voz de prisão. Ainda pedi para cortar logo chegasse ao Negage mas ele sabia bem que se eu mostrasse ao meu Comandante de Esquadra, este iria logo verificar que era falsa a acusação. Obviamente perdi o avião e à tarde o Beech do Negage veio me buscar a Luanda (barato?!) 
Poucos dias depois (12OUT69) tive um acidente de mota no Negage e não tinha carta de condução. Como não implicou terceiros, o Comandante mandou arquivar o processo. 
Em Novembro, como disse anteriormente, o relatório foi entregue pelo meu Pai ao General Polleri.

Resultado: A 15DEZ69 (mais de 2 meses depois!!!???) levei uma “Repreensão Agravada” por ter o cabelo comprido. 
Em Abril de 70 pedi para gozar o meu mês de férias de 15 de Junho a 15 de Julho, quando tinha planeada a minha ida a Portugal e o bilhete de avião oferecido pelo meu Pai já confirmado. 
No dia 30 de Abril de 1970 o Comandante retirou o perdão e fui punido com 3 dias de detenção por ter guiado a mota sem carta, mais de 6 meses antes! Com isto perdi o direito às férias de 1970. 
Nestas alturas do campeonato eu estava tão desesperado que entrei pelo gabinete do Comandante de Esquadra e disse-lhe que nem que desertasse eu iria passar as minhas férias em Cascais ao que ele respondeu “A ver vamos!!!” 
Contactei o meu Pai que foi falar com o Polleri. A resposta dele (certamente sabendo da m__da que tinha feito): “Vou tirar de lá o miúdo antes que esses gajos acabem com ele”. 
E assim, em Agosto de 1970, a minha Comissão foi dada por terminada ao fim de pouco mais de 14 meses.

Para provar que não tinha fugido com medo, em 1972 fui voluntário para o GPZ em Tete, onde voei dois anos, e vi muito mais guerra do que tinha visto no Negage.»

FIM DE CITAÇÃO.


Por: João M. Vidal, IN «contos do ultramar» FACEBOOK

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

MUKANDA: O RITUAL DE CIRCUNCISÃO DOS POVOS LUVALE


A comunidade Luvale é uma das mais representativas da região Leste de Angola e destaca-se pela preservação dos seus valores culturais. Entre as suas tradições mais importantes encontra-se o Mukanda, ritual de circuncisão masculina que representa uma verdadeira escola de formação moral, social e cultural.
O Mukanda simboliza a passagem da adolescência para a idade adulta. Durante este processo, o adolescente, denominado Candandji, permanece num espaço reservado, afastado do convívio familiar, onde recebe ensinamentos sobre respeito pelo próximo, disciplina, responsabilidade, vida conjugal, valorização da família e preservação das tradições. O período de iniciação pode durar entre dois meses e um ano, conforme os ensinamentos a transmitir.
Kulomba: o banho do renascimento
Uma das etapas mais marcantes é o Kulomba, o ritual do banho. Pela primeira vez, o Candandji é conduzido a um rio ao som de cânticos tradicionais, onde mergulha num acto que simboliza a purificação, o renascimento e o despertar para a vida adulta. Para os Luvale, este momento é frequentemente comparado ao baptismo.
A disciplina e o juramento
Durante o Mukanda, o Candandji cumpre regras rigorosas, como evitar o contacto com mulheres, incluindo a própria mãe, e com pessoas não circuncidadas. Antes de cada refeição, os iniciados entoam o Kulieye, um cântico que fortalece a disciplina e o espírito de união.
Antes da saída, os iniciados — Candandji (singular) e Thundandji (plural) — prestam o juramento denominado Txijila, comprometendo-se a guardar sigilo sobre os ensinamentos e vivências do Mukanda, conforme determina a tradição Luvale.
Ao amanhecer e ao entardecer, participam ainda em cânticos que expressam saudades das famílias, incentivam os jovens ainda não circuncidados e transmitem ensinamentos sobre o respeito pelos mais velhos e pela comunidade.
Kulohoka: a cerimónia da saída
O Kulohoka, que significa “saída”, marca o encerramento do Mukanda. É uma grande celebração comunitária em que familiares e amigos recebem os novos iniciados, num ambiente de festa e valorização da cultura.
Quando participam jovens de famílias diferentes, estes tornam-se irmãos para toda a vida e adoptam alcunhas escolhidas por si. O primeiro iniciado é denominado Kambungo e o último Hapwa Songo. Durante todo o processo são acompanhados pelos Tchilombola, seus guardiões e orientadores, sob a liderança do Tchijika Mukanda, a autoridade máxima responsável por dirigir o ritual e assegurar o cumprimento das normas e tradições.
Na cerimónia de saída, os Candandji vestem roupas novas, caminham com os rostos voltados para baixo e são acompanhados pela comunidade, simbolizando o nascimento de um novo homem, preparado para assumir responsabilidades familiares, sociais e conjugais.
O Mukanda permanece como um dos maiores patrimónios culturais dos povos Luvale e de outras comunidades da região Leste de Angola. A sua importância é igualmente celebrada durante o Mize, cerimónia tradicional realizada anualmente na vila de Cazombo, onde se reafirmam a identidade, a história e os valores ancestrais.
Mukanda: tradição, identidade e sabedoria. Um legado que honra o passado, educa o presente e prepara o futuro.



GABINETE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DO GOVERNO DO MOXICO LESTE

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

MEMÓRIAS QUE A ESPUMA DOS TEMPOS NÃO APAGA


Aeródromo Base nº. 5 - ESQª. INDIOS - AM 51 - MUEDA 1971/73

Memórias que a espuma dos tempos não apaga.
Faz hoje 54 anos que numa operação de assalto à base Nampula da FRELIMO, com a companhia de paraquedistas do BCP 32 do meu amigo Barroca Monteiro. A base dos guerrilheiros, estava localizada, não muito distante do rio Litinguinhas, no Planalto dos Macondes.
Éramos 5 helicópteros e um heli canhão, eu voava a número três da formação dos Índios, na última leva, em direção da base dos guerrilheiros, o meu helicóptero o 9362, foi atingido no radiador de óleo da BTP (caixa de transmissão principal), deixando atrás de si uma rasto de fumo branco. Em gíria aeronáutica militar quer dizer “fui abatido”. O Iko que voava imediatamente atras de mim, disse-me com uma voz grave e ansiosa “estás a arder”. De imediato a luz vermelha da BTP acendeu-se no painel, só me restou aterrar de emergência numa “langua”. Por minha sorte e felicidade, era larga a permitiu a aterragem, dos outros 4 helicópteros.
Largámos os paraquedistas, que ficaram a guardar o helicóptero, fui recuperado e todos regressámos a Mueda.
As duas horas seguintes foram de um caos absoluto, era imperativo recuperar o helicóptero abatido. Uma equipa da manutenção liderada pelo meu grande amigo, o cabo mecânico Cláudio Costa, foram colocados no local e mudaram o radiador de óleo em pouco mais de 20 minutos, sempre com música ambiente, isto é, sob um ataque de morteiradas. No fim tudo correu bem passado um pouco mais de 2 horas, recuperei o helicóptero e estava de volta a Mueda “são e salvo”.
Uma data que jamais esquecerei.

Por: Gen. Alfredo Cruz

quinta-feira, 30 de julho de 2026

QUEM FOI MUTU-YA-KEVELA ?


Mutu-ya-Kevela foi um dos mais importantes líderes da resistência angolana contra a ocupação colonial portuguesa no início do século XX. Soberano do Reino do Bailundo, no Planalto Central.
Destacou-se pela sua capacidade de liderança militar e política numa época em que as potências europeias avançavam sobre os territórios africanos para consolidar o seu domínio.
Ao contrário do que muitos imaginam, Angola não era um território politicamente vazio antes da ocupação colonial. Esse é um facto, meus caros! Existiam reinos organizados, estruturas administrativas próprias, sistemas de justiça e redes comerciais que funcionavam muito antes da chegada dos colonizadores. O Reino do Bailundo era uma dessas realidades. Tratava-se de uma das mais influentes entidades políticas do interior angolano, exercendo autoridade sobre vastas áreas e mantendo relações com outros povos da região.
Reconhecido pela sua inteligência estratégica e pela influência que exercia entre os seus homens, Mutu-ya-Kevela assumiu a liderança numa fase particularmente delicada da história do reino. A presença portuguesa tornava-se cada vez mais agressiva, procurando transformar territórios autónomos em espaços submetidos à administração colonial.
Para as autoridades portuguesas, controlar o Bailundo significava dominar uma importante zona comercial, garantir influência política sobre o Planalto Central e afirmar a autoridade colonial numa área onde a resistência africana continuava forte.
Mutu-ya-Kevela compreendeu rapidamente as consequências desse avanço. A ocupação colonial não representava a perda da autonomia política, a imposição de novas regras, a cobrança de impostos e a redução do poder das autoridades tradicionais.
Em 1902, o Reino do Bailundo tornou-se palco de uma das maiores revoltas anticoloniais da história de Angola. Sob a liderança de Mutu-ya-Kevela, milhares de combatentes levantaram-se contra as forças portuguesas. A insurreição rapidamente ultrapassou as fronteiras do reino e mobilizou diferentes grupos da região, transformando-se num dos maiores desafios enfrentados pela administração colonial naquela época.
Longe da imagem simplista de um chefe tribal impulsivo, Mutu-ya-Kevela demonstrou habilidade para formar alianças, mobilizar populações e coordenar operações militares em larga escala. Durante vários meses, as forças coloniais enfrentaram sérias dificuldades para controlar a situação.
No entanto, a superioridade militar portuguesa acabou por fazer a diferença. As tropas coloniais possuíam armamento mais moderno, melhores linhas de abastecimento e maior capacidade logística. Além disso, as divisões internas entre algumas lideranças africanas enfraqueceram o movimento de resistência.
A derrota militar não significou, porém, a rendição imediata. Mutu-ya-Kevela continuou a deslocar-se por diferentes regiões, procurando reorganizar a resistência e manter viva a luta contra a ocupação. A sua persistência tornou-o um símbolo de coragem para muitos dos seus contemporâneos.
A sua morte, ocorrida em 1903, marcou o declínio definitivo da resistência organizada do Bailundo. Com ela, encerrava-se também um dos capítulos mais significativos da luta dos povos do Planalto Central pela preservação da sua autonomia política.
A sua figura é frequentemente lembrada de forma superficial, quando, na verdade, representa um período fundamental da resistência africana ao colonialismo. Com ele compreendemos que a Iuta pela autodeterminação em Angola não começou apenas com os movimentos nacionalistas do século XX. Décadas antes da independência, já existiam líderes que enfrentavam o domínio estrangeiro e procuravam defender o direito dos seus povos de governarem os próprios destinos.

Ana Paula Benigno Leitao em ANGOLA - Memórias Fotográficas.