quinta-feira, 16 de maio de 2019

QUANDO O CORREIO FALHAVA

Ninda, operação em curso - foto de Alberto Machado

Ia ter lugar, a partir de Ninda, a sul de Gago Coutinho, mais uma operação, que até ia ser acompanhada pelo jornalista Alfredo Farinha, de helicóptero, para fazer reportagem.
Naquele dia, o transporte do correio entre a sede do Batalhão, em Gago Coutinho, e Ninda, onde estavam os destinatários, foi feito por uma coluna que se deparou com o anoitecer e optou por permanecer a meio caminho, num acampamento da JAEA, Junta Autónoma das Estradas de Angola (mais conhecida como JAPA - Junta Autónoma das Picadas de Angola) que andava por ali a arranjar os pavimentos das "estradas".
O correio só chegaria, portanto, na manhã seguinte, para grande frustração dos soldados da companhia de Ninda, que sabiam que as notícias de casa estavam ali a uns meros vinte quilómetros de distância. Em véspera de saírem para o mato, gerou-se um grande burburinho com muitas reclamações e até alguma histeria. 
Estava na messe de oficiais de Ninda quando me apercebi do sururu. 
Construção da estrada Gago Coutinho/Ninda - foto de Pelotão Morteiros 3058

Por regra não se voava de noite por ser bastante arriscado, mas tinha a meu cargo um Alouette III e vi os homens numa tal angústia que pedi autorização para ir, com o mecânico, que não me recordo quem era naquela operação, buscar o correio para aquela gente.
De entre as várias missões que efectuei enquanto piloto, transporte de tropas, evacuação de feridos, foi a melhor missão entre todas as que desempenhei, e só quem lá esteve para ver a alegria e gratidão daqueles homens é que sabe avaliar o valor daquele voo nocturno, e a comoção que ainda perdura ao recordar aqueles momentos.
Convém salientar, que a correspondência constituía o principal pilar na vida dos militares, toda a hierarquia reconhecia essa importância.
Hoje em dia, felizmente a tecnologia evoluiu e a internet permite o contacto ao momento, naquela época o meio de comunicação possível era o "bate estradas".


Por:





quinta-feira, 9 de maio de 2019

QUEM É ESTE BIGODES ?! CONTINUAÇÃO DA SAGA !

Muié, lançamento da Operação Zumbo 3H

Conforme artigo anterior e após a entrada em cena do Carlos Vidal, eis o seu relato.
Alô José Reis.
Muito obrigado pelo envio deste email. Gostei!
Tirando a guerra, que é um flagelo, passei momentos muito bons da minha vida.
Tive a oportunidade de: 
Conhecer homens de excepção com um carácter e humanidade invulgar.
Conhecer pessoas fabulosas, quer nas cidades, quer no mato cujas populações genuínas com uma grande Alma. Destas, inclusive do IN, que lutavam contra nós ...
Conhecer locais lindos, cuja Flora e Fauna são Ímpares.
Não vou enumerar todos aqueles Homens excepcionais  com quem me cruzei ...
Tropa Normal - Comandos - Paraquedistas - Flechas - PIDE - Comerciantes, População em geral.
Quatro "Saltimbancos" fundadores: Afonso Costa, Carlos Antolin, Zé Lopes e Félix Rafael

O grupo dos SALTIMBANCOS, de que sou fundador lembro o Grande Chefe  Rafael em nome de todos.
Comandos - Santos e Castro, um senhor.
Paraquedistas - Durão e Loureiro e Costa.
Flechas - Tó Zé Avelar. O Homem com quem fiz muitas operações e mantive sempre contacto. Também um grande amigo.
"Ás de Espadas" - Ten. Coronel  Lage. Um Homem humano, inteligente, alegre e operacional.
Cangamba - Maj. Marquilhas, Ten.Cor. Lage  e  Abecassis

Fiz muitas operações e evacuações em Cangamba, Cangumbe, Muié.  
Um dia, cedo, muito cedo, ainda noite, saí de Gago Coutinho com o Vieira, fomos ao mato buscar o "14", que ao entardecer numa perseguição levou um tiro no sobrolho.
Fez questão de vir por seu pé para o Heli, contou a história, e à chegada a Camgamba o mesmo. Voltou a contar a história ao Ten. Coronel Lage, subiu para o PV2, que o levou para o Luso. Mais tarde foi para Luanda e, cego de um olho voltou para o combate pois queria estar com os seus Homens !!!  Histórias sem comentários.
Uma operação que lembro, foi com os "Primos", saída de Cangamba, aterragem em Cangumbe onde entraram os jovens que faziam a protecção à JAE.
Era o último dia de 7, de uma operação cujos objectivos estavam bem para sul!!! E nada de especial tinha acontecido ...
"Litle Monster"
Quando descolámos de Cangumbe, atravessámos o rio e demos com o acampamento IN, cheio de trincheiras..., cheio de armamento... correu tudo bem.
Eu, ia no Heli Canhão com o atirador e o Chefe dos "Primos", "Litle Monster" ...
Este, escreveu um livro com várias referências. " SHOPPER  PILOT ".
...
Estou neste momento a abrandar ...
Dia 18 de Maio, almoço na Ota, dos Saltimbancos, convido-te a ires comigo.

Grande abraço, Carlos

quinta-feira, 2 de maio de 2019

QUEM É ESTE BIGODES ?!

Do nosso amigo do Batalhão de Cavalaria 2899 "Ás de Espadas", José Reis, recebemos o seguinte repto.
Quem é este bigodes ?!

Diz-nos o José Reis:
"Já há tempos que tinha aqui fixado esta imagem de um dos filmes do nosso canal, foi um print screen instintivo. Ora na Operação Zumbo 3H, realizada na zona do Muié, em 1970 e retratada em
https://www.youtube.com/watch?v=9aOfE5YjFgE&t 
Ao minuto 3:20, aparece alguém que penso ser o mesmo “bigodes”, que está junto ao T6.
Gago Coutinho, Julho de 1970, Gonçalo de Carvalho e Carlos Vidal o possível "bigodes".

A ideia com que fiquei era que ele estava lá no Muié como apontador de helicanhão.
Foi apanhado no filme, eu depois segui no héli e nunca mais o vi. É uma figura que não esquece.!!!
Reconhece? Tem algum contacto?"

Óculos Ray Band, as parecenças tantas, que só me podia oferecer esta resposta: 
"Ora bem José Reis, na foto do T6 sentado no pneu está o Gonçalo de Carvalho, que era piloto de DO 27 e T6, na caixa está o Carlos Melo Vidal que foi piloto dos helis. Essa foto é de Julho de 1970. O Carlos Vidal esteve no leste até 1971, portanto, para mim, é ele o "bigodes" que consta do vídeo.
Se era o operador do canhão? Por vezes aconteceu ser um piloto a fazê-lo.
Tenho o contacto dele, é enviar-lhe um mail com toda a certeza que responderá."

O contacto é feito e a respectiva apresentação:
"Bom dia meu caro Vidal
Fui alferes Miliciano do "Ás de Espadas", na Companhia do Muié (Leste de Angola).
Sempre tive o gosto pela recolha de imagens, e naquela época, coisa difícil, consegui levar a minha máquina e sempre que tinha filmes (1.300$00 por 3/5 (?) minutos), e as condições permitiam ia apanhando umas imagens.
...
Carlos Antolin e Carlos Serra

Do pessoal da Força Aérea com quem “trabalhámos”!, ficou-me o nome do Antolim (que fez a evacuação naquele dia da morte do capitão José Manuel Costa Martins, do Muié), e depois o Serra com o seu bonezinho alaranjado. Mais tarde sem nunca ter conhecido pessoalmente tenho contactado com o Gonçalo Carvalho, sempre muito cordial e que me tem dado até alguns ficheiros com mapas da região.
Eu assumo a carolice da organização dos Encontros anuais (vamos para o 36º.) e com a ajuda do meu filho criámos um site próprio www.batalhaoasdeespadas.com .
Há vários filmes que me orgulho de serem bem apreciados por quem os acede.
Um deles é precisamente referente à Operação Zumbo 3H, o primeiro que foi para o youtube através do Canal AB4HC https://www.youtube.com/user/AB4HC/videos e que já conta com +/- 3.800 visualizações. 
Nesse filme, aparece de rompante, “alguém” que pelo seu bigode bem trabalhado, me despertou a atenção, sempre me disseram que seria apontador do helicanhão !
Ora venho agora a saber, que afinal é o amigo Vidal conforme indicação dada pelo Neves.
Há dois anos tivemos o privilégio de ter connosco em Campo Maior no Encontro anual, precisamente o Antolin e a esposa que acedeu ao meu convite para estar connosco. Na altura, ele referiu-me que ia ver se o Vidal também estaria disponível, (não estava), sem eu saber que afinal era o homem do bigode.
...
Já um dia mandei este filme ao Serra que aparece em voo a pilotar o heli em que fui lançado, mas não sei se recebeu. Não deu feedback.
Grande abraço. José Reis "

Entretanto, quando tudo parecia estar a conjugar-se, eis que o Carlos Vidal responde: 
"Alô José Reis
Uma correção.
O Jovem de boné, óculos Rayban e bigode afiado, NÃO SOU EU !!! EU, estou com o Chorão de Carvalho, além que era mais bonito !!!!!
Grande abraço,  Carlos."

Bom, agora, olhando melhor, o incógnito "bigodes" não tem covinha no queixo...e o Carlos Vidal, continua a ter !!!
Resumindo e concluindo, ficamos na mesma como no início, não sabemos quem é o "bigodes", portanto, quem poder ajudar a deslindar o caso, agradecemos.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

SOU PIONEIRO DO AB4







Pertenci à primeira incorporação FAP, que após recruta na Carregueira jurou bandeira, em 25 de Abril de 1959, comemoramos hoje 60 anos.
Também sou pioneiro do AB4.
Estive ainda 6 meses a dormir em tendas de campanha. 
Na altura Furriel de Abastecimento 22 anos, o Fur. MMA Arzileiro, o Fur. Carita, o Sarg. Pereira enfermeiro, o Fur. Gandum também enfermeiro, o Sarg. MMA Godinho, são alguns dos sargentos que recordo. 
Como Comandantes apanhei o Ten.Cor. Andrade Fernandes vindo do DGMFA. O Major Carita, 2º. Comandante e depois o Coronel Luís Gonçalves do Amaral.
Eu fui na altura substituir o 2º. Sarg. Morgado.
Quando fomos inaugurar os quartos tive como parceiro o amigo Baguecha que jogava a doer, eu dormia enquanto eles jogavam. Por vezes quando acordava lá tinha que apanhar as notas espalhadas no chão, ralhava com ele, e lá o levava ao Banco do Saurimo depositar o dinheiro ganho. Ele ganhava sempre, julgo que King. Grande companheiro.
Bem-Haja
Quanto ao Bem-Haja, já lá estava ao serviço das Infras.
Para a Historia, em determinada noite houve um temporal que levantou a cobertura de chapa dos Armazéns da Esquadrilha de Abastecimento e de um Hangar e colocou-as a metros de distancia. Como era eu, Furriel, que conduzia o novo auto empilhador, ao sábado e domingo lá ajudava com o empilhador nas obras a cargo das Infras. No final, o Major Eng. Horta e o Sarg. Ajudante Pimentel quiseram agradecer-me com dinheiro. Como estava interessado em continuar os estudos, porque sabia que tinha as portas de acesso abertas na carreira, pedi ao Engenheiro Horta, que queria era ir para Luanda e não dinheiro. Como tinha havido um problema com o 1º. Sargento Madeira que estava nas Infras foi meio caminho para a transferência. Escusado será dizer que o Sarg Aj. Pimentel encarregado de obras foi um grande amigo, prometeu-me e cumpriu.
Pessoal da Esquadrilha de Abastecimento

Rescaldo: do Ten.Cor. Andrade dois louvores directos dele, um do DGMFA, e outro do AB4.
Em 1965 fui transferido a meu pedido para Luanda - DDSI2 - tendo sido substituído pelo Valério Tereso.
Vamos com isto recordando o grande AB4, QUE NUNCA ESQUECEREI, e onde fui promovido a 2º. Sargento.
Quando saí de lá era o Tenente Celestino Maia o Comandante da Esquadrilha de Abastecimento, substituíra o Tenente Monteiro que foi punido pelo Cmdte Ten.Cor. Andrade Fernandes, por não ter a carga das Messes em dia.

Saudações do

quinta-feira, 18 de abril de 2019

PSICO


A Acção Psicológica destina-se a influenciar as atitudes e o comportamento dos indivíduos. Na guerra subversiva é utilizada para obter o apoio da população, desmoralizar e captar o inimigo e fortalecer o moral das próprias forças, assumindo três aspectos diferentes, embora intimamente relacionados: 

- acção psicológica 
- acção social psicossocial 
- acção de presença. 

Quer as forças portuguesas, quer os movimentos de libertação usaram intensamente a acção psicológica como arma, integrando-a na panóplia de meios disponíveis para a conquista dos seus objectivos, dentro da ideia que as «palavras são os canhões do século XX» e que, como se ensinava aos futuros chefes da guerrilha na escola de estado-maior da China, na guerra revolucionária «deve atacar-se com 70 por cento de propaganda e 30 por cento de esforço militar». 
A acção psicológica exercida sobre a população, o inimigo e as próprias forças foi conduzida através da propaganda, da contrapropaganda e da informação, de acordo com as finalidades de cada uma destas áreas: a primeira, pretendendo impor à opinião pública certas ideias e doutrinas; a segunda, tendo como finalidade neutralizar a propaganda adversa; por último, a informação, fornecendo bases para alicerçar opiniões. Mas, para serem eficazes, os meios de condicionamento psicológico necessitam de encontrar ambiente favorável. 
Quanto às populações, procurou-se criar esse ambiente propício com a acção social, que visava a elevação do seu nível de vida, para as cativar, «conquistando-lhes os corações» e originando condições mais receptivas à acção psicológica. Esta acção foi desenvolvida sob a forma de assistência sanitária, religiosa, educativa e económica. 
Da conjunção da acção psicológica com a acção social surgiu a acção psicosocial, que foi designada por Apsic ou simplesmente por Psico. 
Relativamente ao adversário, a acção psicológica das forças portuguesas procurou isolar os guerrilheiros das populações, desmoralizá-los e conduzi-los ao descrédito quer na sua acção, quer na dos seus chefes. Para o efeito utilizaram-se panfletos e cartazes lançados de aviões ou colocados nos trilhos de acesso e nas povoações, emissões de rádio, propaganda sonora directamente a partir de meios aéreos, apelando à sua rendição e entrega às forças militares ou administrativas, garantindo-lhes bom tratamento e explicando-lhes que a participação na guerrilha constituía um logro. 
Como toda a acção tem o seu reverso, os movimentos de libertação apelavam aos ideais de paz e de justiça, dirigindo a sua acção a grupos-alvo seleccionados: trabalhadores, intelectuais, estudantes, militares e mulheres, apresentando como ideias-chave a guerra injusta, o direito à independência e autodeterminação, o atraso económico provocado pelas despesas da guerra e os sacrifícios exigidos à juventude e suas famílias. 
De forma geral, a oposição política ao regime completou a actividade dos movimentos de libertação através de acções de mentalização e propaganda, algumas espectaculares, como as que foram dirigidas contra instalações militares pela Acção Revolucionária Armada e as Brigadas Revolucionárias. 
Para responder a esta actividade adversária, que pretendia «minar o aparelho militar por dentro e retirar-lhe a, vontade de combater», as Forças Armadas exerceram também esforço de acção psicológica sobre os seus elementos, cuja finalidade era manter e fortalecer o moral dos combatentes, procuravam conseguir esse fortalecimento transmitindo a crença na justiça da causa que se defendia e a fé na vitória. As acções destinadas a conseguir esses objectivos revestiam-se quase sempre, de carácter de exaltação patriótica, com o recurso a exemplos de heróis militares.


quinta-feira, 11 de abril de 2019

FAV - FORMAÇÕES AÉREAS VOLUNTÁRIAS

Auster - Foto de Fermelindo Rosado

As Formações Aéreas Voluntárias (FAV) - ocasionalmente referidas como "Forças Aéreas Voluntárias" - constituíram uma organização de milícia aérea criada em 1962 como corpo auxiliar da Força Aérea Portuguesa na Guerra do Ultramar.
As FAV eram constituídas por civis (pilotos e pessoal de terra), normalmente pertencentes a aeroclubes, que operavam aeronaves ligeiras pertencentes aos próprios clubes ou à Força Aérea, sob o comando de um oficial militar. Cada FAV estava adida a uma unidade da Força Aérea, na dependência operacional do comando de região aérea. 
FAV funcionaram em Angola e Moçambique.
Auster e Dornier 27 eram as aeronaves mais utilizadas pelas FAV. 
A primeira FAV a ser criada foi a Formação Aérea Voluntária n.º 201 (FAV 201) em Luanda, organizada pelo Aeroclube de Angola e adida à Base Aérea n.º 9. A FAV 201 foi formada a partir da Esquadrilha de Voluntários do Ar (EVA), que tinha sido constituída por pilotos civis voluntários que auxiliaram as Forças Armadas Portuguesas nas operações anti-guerrilha no Norte de Angola em 1961, entre os quais os conhecidos Comandante Aires e o director de a “Provincia de Angola” Rui Correia de Freitas.
No norte de Angola
As FAV executavam sobretudo missões de apoio logístico às Forças Armadas e população civil, com o fim de libertarem os pilotos militares da Força Aérea para missões de combate.
Essencialmente as missões eram as seguintes:
Observação, Vigilância Aérea e Reconhecimento Visual (RVIS); Escuta Rádio; Reconhecimento Fotográfico (RFOT); Busca e Salvamento; Lançamento de Reabastecimentos e Munições por Para-quedas; Lançamentos Livres; Evacuação Sanitária (TEVS); Transporte de Mensagens e Ligação Logística (DLIG).
De notar que, em alguns casos raros, sobretudo nas primeiras operações no norte de Angola, as FAV chegaram a realizar operações de combate, nomeadamente de reconhecimento armado (ATIR) e ataque em apoio das forças de superfície (ATAP).
Auster 3537, em manutenção no Luso, em 1973 - Foto de Afonso Palma 


quinta-feira, 4 de abril de 2019

QUANDO NUMA MISSÃO AÉREA AS COMUNICAÇÕES NÃO FUNCIONAVAM


As comunicações eram importantíssimas e quando não funcionavam motivavam as mais complexas situações. 
O José Pedro Borges, piloto de helicópteros no leste de Angola, viveu momentos atribulados durante uma missão de recolha de um grupo de GEs (grupos especiais, forças paramilitares) na zona de Gago Coutinho. 
Tinham ido para a mata pelo próprio pé e a dada altura foi preciso ir buscar um elemento que estava ferido. O José Pedro Borges lá foi, mas estava com dificuldade em perceber as vagas indicações que lhe eram dadas via rádio para o ponto de encontro. 
No local em que diziam estar, não via ninguém! As coordenadas não podiam estar corretas. 
Com o calor e o mato seco, lembrou-se de sugerir ao seu interlocutor que fizesse um pouco de fumo para que o conseguisse localizar mais facilmente lá de cima. 
O outro assim fez e continuava a insistir que estava no local onde dizia estar, mas o piloto continuava a não ver nada no horizonte.
Já impaciente com a imprecisão das indicações, gritou ao outro que por aquele andar só o conseguiria ver se pegasse fogo à mata! E o outro assim fez.... José Pedro Borges não queria acreditar que os GEs haviam mesmo deflagrado um incêndio em pleno mato angolano, e precisavam que os fossem não apenas recolher, mas salvar! Foi um ver se te avias para os encontrar e em vez de recolher apenas o militar que estava ferido, foi preciso tirá-los de lá a todos em tempo recorde, senão morriam queimados ou, no mínimo, intoxicados!



Também o José Feijó igualmente piloto dos hélis, enfrentou um problema de comunicação com um elemento dos GEs durante uma missão de resgate. 
O grupo estava no terreno, tinha completado uma missão e lá foi uma formação de helicópteros buscá-los. 
A comunicação entre a mosca (helicóptero) e a cobra (grupo de GEs) era feita por rádio, e estes tinham de dar ao chefe de formação dos helicópteros indicações sobre o ponto exacto onde se encontravam para que pudessem ser recolhidos. Ora o comandante dos GEs que estava no chão também dava indicações tão imprecisas (seria o mesmo?) que o piloto Feijó não se orientava. E naquela troca de palavras que não levava a nada, entre o estamos aqui, e...o aqui onde?! O Feijó perdeu a paciência e, num desabafo, deixou escapar um: «mas aqui onde, porra?!». 
Fez-se um silêncio momentâneo no rádio, até que o GE lhe respondeu, ofendido, no seu sotaque africano, que se o outro voltasse a dizer «porra», não lhe dizia onde estava!

"O outro lado da Guerra Colonial"

quinta-feira, 28 de março de 2019

O AVIÃO - BAR DE ALTERNE

Foto de Propfreak Photo

Março de 1980. 
Proveniente de Sarjah, nos Emiratos Árabes Unidos, aterrava no aeroporto da Portela um avião Convair 880 com matrícula americana N8860E. A bordo vinham apenas os três tripulantes indispensáveis: comandante, copiloto e mecânico de voo. De resto, tudo vazio.
Este tipo de avião era uma verdadeira raridade e logo despertou a atenção de todos os frequentadores do aeroporto, este vosso amigo incluído. 
De facto, entre 1959 e 1962 foram construídos apenas 65 exemplares do Convair 880, um deles para Elvis Presley. O projecto terá falhado devido à concorrência do Boeing 707 e Douglas DC8, bem mais económicos e fiáveis.
Mas voltemos ao nosso Convair, que a partir daquele dia de Março passou a ficar estacionando em permanência no parque Foxtrot da Portela. Como na época era director adjunto da revista Sirius armei-me em jornalista e fui investigar. Não imaginava eu a história "picante" que iria encontrar.
Como já foi dito, o avião chegou dos EAU, estacionou no parque F e nunca mais houve notícias do comandante Gatrell e respectivos colegas. Soube-se que pertencia à Onyx Aviation, uma companhia de "leasing" americana, mas operava sob licença da Santo Domingo de Aviation, S.A., da República Dominicana. Hummm... A empresa fretadora era a Natariega Inversionista S.A., com sede no Panamá, que pretendia carregar em Lisboa "equipamentos não especificado" com destino a uma organização que dava pelo curioso nome de Commandant Embarkation baseada em Karachi, Paquistão. O destinatário final não era mencionado mas sabia-se que estava no ... Afeganistão! Nem um filme do James Bond teria protagonistas tão interessantes.
Fui então tentar saber o que seriam os tais "equipamentos não especificados" de que falava a documentação entregue em Lisboa. Puxa daqui, puxa de acolá, como nesta terra ninguém sabe guardar segredos ao fim de alguns dias lá descobri, sem surpresa, que os tais "equipamentos" não eram mais que umas inocentes 19 toneladas de armas e munições que o Estado Maior das Forças Armadas, através da Divisão de Logística, se preparava para exportar. Era um bom negócio para os militares, porque assim se viam livres de excedentes da guerra do Ultramar e ainda recebiam algum dinheiro em troca. Estava tudo tratado e assinado, só faltava a luz verde do Governo. Grande azar. O Primeiro Ministro era Sá Carneiro e o seu Ministro dos Transportes era o engenheiro Viana Baptista, que fizera carreira na TAP no Departamento de Manutenção e Engenharia que chegou a chefiar. Ora Viana Baptista conhecia bem o negócio da aviação e veio lembrar que Portugal era signatário da Convenção de Chicago de 1944 que , entre muitas outras coisas, proibia o transporte de material militar em aviões civis. Grande decepção. O negócio estava estragado e os militares ficaram furiosos mas Sá Carneiro não brincava em serviço e tudo voltou à estaca zero.
E o avião? Depois de semanas à espera, sem dinheiro nos bolsos, o comandante Gatrell e "sus muchachos" decidiram que era de mais. Resolveram então pegar no Convair e tentar chegar aos Estados Unidos. Conseguiram - ninguém sabe como - que os autorizassem a partir sem terem pago o combustível, o "handling" e o estacionamento do avião e no dia 4 de Maio descolaram da Portela com destino a Nova Iorque. Só que...
Só que já sobre o Atlântico o comandante Gatrell foi informado que todas as empresas envolvidas no negócio tinham, como que por "milagre", deixado de existir e o avião não poderia aterrar nos Estados Unidos. A partir daquele momento o Convair transformou-se num avião "fantasma" que ninguém queria nem dado.
Decidiram então regressar a Lisboa, terra de gente santa que a todos recebe bem, e o velho avião lá voltou ao parque Foxtrot que tão bem conhecia. Há quem diga que os tripulantes "sacaram" de bordo tudo o que havia para sacar, nomeadamente os rádios e outros equipamentos do cockpit que se presume tenham acabado na Feira da Ladra.
O Convair ficou anos estacionado no mesmo local sem que ninguém o reclamasse. As taxas de estacionamento chegaram aos muitos milhares de contos e a partir de certa altura tornou-se óbvio que aquele avião nunca mais voltaria a voar, tal o estado de degradação que atingira.
A administração do aeroporto, sem esperanças de receber um tostão por aquele pedaço de sucata, decidiu fazer um leilão. Foi então que apareceu um empresário da noite e arrematou o Convair por tuta e meia para o transformar em Bar de alterne. Conseguiu a respectiva autorização da Câmara Municipal de Lisboa, sabe-se lá como, e rebocou o avião para um terreno adjacente à Segunda Circular que lhe pertencia ou arrendava. 
Assim nascia O Avião - Bar de Alterne e por ali ficou durante anos e anos para grande vergonha de todos nós.
Nota - Esta história foi contada pelo mesmo autor, ainda que por outras palavras, no nº 2 da revista Sirius de Abril de 1983 sob o título "O Tollan da Portela"

Por: Comandante 
José Correia Guedes

quinta-feira, 21 de março de 2019

O TRANSPORTE AÉREO PARA O BIAFRA

Foi oficialmente chamado de Auxílio da Igreja Conjunta (JCA), iniciado por Tony Byrne, mas os seus destemidos pilotos chamaram-no de "Jesus Christ Airlines" ou "Jesus Cristo Airways ", com orgulho e uma pitada de temor. 
Por quase dois anos incríveis (1967-1970), JCA manteve um pequeno e separatista estado da África ocidental vivo, recusando-se a permitir que a fome fosse usada como uma arma de guerra. Voou 5.314 missões extremamente perigosas, transportando 60.000 toneladas de ajuda humanitária e salvou milhões de vidas. O ponto de partida para os seus voos foi a antiga colónia portuguesa de São Tomé, a menos de uma hora do destino.
Os velhos e temperamentais DC-6 e Super Constelattion voavam à noite da ilha de São Tomé, ao largo da Costa da África ocidental, uma pequena pista esculpida do arvoredo denso.
Os voos eram realizados sob a cobertura da escuridão e sem luzes para evitar os ataques dos aviões nigerianos, que mantinham a superioridade aérea durante o dia, apoiados pelos arrastões de pesca soviéticos offshore, que acompanhavam os voos. 
Cada aeronave chegou a fazer quatro viagens de ida e volta todas as noites a Uli.
Os aviões - quase todos civis e operados por pilotos civis - foram baseados, abastecidos, reparados, e mantidos no fim do transporte aéreo, fora do Biafra.
Três foram destruídos no solo em Uli por aviões nigerianos. Ataques aéreos eram frequentes nas proximidades tentando capturar os airlifters enquanto aterravam, ou no chão, forçando os pilotos a pairar na escuridão até que as luzes de pista pudessem ser activadas, por pouco tempo, o suficiente para permitir uma aterragem rápida. A separação entre aeronaves no ar era mantida pela comunicação rádio entre pilotos, pois não havia radar. Aviões hostis foram enviados pilotados por mercenários, que provocavam os pilotos de transporte aéreo através da rádio e usaram sinais de chamada como "genocídio". As aproximações eram feitas baixas sobre as copas das árvores e a aterragem era feita, algumas vezes, sem luzes de pista. A breve iluminação da pista podia fornecer condições suficientes para a aeronave ser atacada. Frequentes vezes as tripulações e o pessoal de terra, tiveram que evacuar a aeronave depois de pousar e abrigarem-se nas trincheiras, ao lado da pista, dos ataques dos aviões nigerianos. As transmissões de rádio de Uli usavam normalmente códigos, como "sem luzes de pouso" para "Air Raid".
No pico da sua actividade, o Uli " Airport " - era realmente apenas uma estrada alargada - foi o mais movimentado em toda a África, a operar até 50 voos por noite, e cada voo quebrou alguma lei internacional.
Cada um dos antigos aviões tinha seu próprio logótipo JCA - dois peixes, um dos primeiros símbolos do cristianismo.
A JCA perdeu 25 pilotos e tripulação para as armas e bombas das forças nigerianas, na intenção de aplicar o bloqueio ao Biafra.
O Governo militar nigeriano recusou-se firmemente a permitir voos de socorro ou qualquer outra forma de ajuda humanitária em Biafra. Treze dos pilotos amadores - alguns deles sacerdotes - perderam suas vidas durante uma missão oficialmente ilegal, mas tiveram as bênçãos do papa.

Apesar dos melhores esforços da JCA, estima-se que mais de um milhão de biafrenses morreram à fome.
Após a guerra, foi decidido que, devido à sensibilidade política, os membros de JCA iriam esperar 25-30 anos antes de contarem a sua história única.
O Padre Byrne escreveu um livro em 1997 registando este incrível projecto humanitário intitulado "Transporte aéreo para Biafra".
Vale a pena ler !

Chineke Ga - anonyere anyi
Publicado por Artur Alves Pereira no FB

quinta-feira, 14 de março de 2019

GUERRA DO ULTRAMAR: UM ATAQUE COM “OLHOS AZUIS”


O Tenente-General José Nico, piloto aviador na situação de reforma, recorda factos, mas também a sua opinião, sobre um daqueles “inconvenientes” episódios da guerra que nem todos desejam tenha lugar nas páginas da História Militar de Portugal. Envolveu Força Aérea, Exército, DGS, o inimigo de então, e ainda supostos amigos europeus de Portugal e dos portugueses. Foi na Guiné em 1969, o relato dos acontecimentos no teatro de operações, baseado em depoimentos de vários intervenientes que combateram no ar e em terra, é simplesmente emocionante.
Cumpri muitas missões durante a minha carreira na Força Aérea Portuguesa. A comissão na Guiné, porém, sobrepôs-se a todas as outras e marcou-me indelevelmente para o resto da vida. A mim e certamente a todos os que, de algum modo, partilharam a mesma experiência. É dela ou de acontecimentos com ela relacionados, que vos irei dando conta…
Um ataque com “olhos azuis”
ZPU-4. Desenho de Paulo Alegria
Embora não tenha tomado parte directa na acção nunca esqueci o dia 6 de Janeiro de 1969. Há uma razão para isso: conservo ainda uma munição da metralhadora AA quádrupla ZPU-4 que nesse dia abriu fogo contra os G-91, a partir de Sangonhá, no Sul da Guiné, local que tinha sido até poucos meses antes uma posição do Exército Português. Sempre que olho para aquele pedaço de metal inerte imagino a chuva de projécteis iguais que em diversas situações saíram dos tubos dos famosos “quatro bocas”(1) e nos passaram ao lado sem nunca nos conseguirem derrubar(2). Como é que essa memorabile de uma arma AA que efectivamente disparou contra os nossos aviões veio parar às minhas mãos é a história que me proponho contar.
O ideal missionário do povo sueco
Não é possível descrever este acontecimento sem primeiro tentar traçar as linhas mestras do apoio sueco aos movimentos de libertação, durante a guerra que nos foi imposta em África, pois está directamente implicado no que vos quero relatar. Além disso, estou convencido que poucos terão consciência da dimensão e importância das acções que os suecos moveram contra Portugal nesse desastroso período da nossa história em que abdicámos totalmente do projecto da nação pluricontinental e multirracial, independentemente da situação objectiva em cada território, e embarcámos revolucionariamente na infame descolonização. Em última análise, os suecos contribuíram também para os mortos, estropiados e feridos que sofremos durante a guerra. Esta é, por isso, também uma oportunidade para lançar alguma luz sobre a dimensão e natureza do sistema adversário que enfrentámos e a que conseguimos resistir durante treze anos, apesar do diminuto peso estratégico do país.
Trata-se de uma questão que merece naturalmente uma análise muito mais abrangente do que o espaço para o presente artigo permite. Irei, por isso, tentar sintetizar o essencial do que achei até agora sobre a “amizade e solidariedade” sueca em relação aos movimentos de libertação e, consequentemente, o seu papel de inimigo como parte do sistema adversário que nos moveu a guerra.
Comecemos então pelo conceito de sistema adversário, por contraposição com a ideia corrente de que os nossos inimigos foram apenas os movimentos de libertação. Na realidade, estes beneficiaram de promotores e de apoios externos que foram engrossando com o passar do tempo até atingirem uma escala quase global. Estes apoios e os próprios movimentos de libertação estavam interligados e actuavam de forma coordenada para alcançar o mesmo objectivo estratégico e por isso devem ser considerados como um sistema. Assim, todos os que contribuíram objectivamente, por qualquer forma, para desapossar Portugal dos seus territórios ultramarinos, promovendo a liberdade de acção e a capacidade dos movimentos de libertação, foram elementos desse sistema adversário e, portanto, foram também nossos inimigos na guerra(3). 
Numa listagem por defeito aponto os que me parecem os mais óbvios mas, muitos outros, incluindo a gama dos países amigos com comportamentos ambivalentes, ficam por mencionar: as oposições políticas internas, diversas individualidades espalhadas um pouco por todo o Mundo, a URSS, a China, a Coreia do Norte, Cuba, os países do Norte da Europa, Argélia, Tunísia, Egipto, Senegal, Guiné-Conacri, República do Congo, República Democrática do Congo, Zâmbia, Tanzânia, o Movimento dos Não-Alinhados, a Organização da Unidade Africana e a Organização das Nações Unidas.
No grupo dos países do Norte da Europa notabilizou-se sempre a Suécia que, após uma fase de apoio informal mas efectivo, acabou por dinamizar os restantes países nórdicos(4) para actuarem também abertamente contra Portugal, a partir de 1969.
De forma algo diferente dos que agiram apenas por razões políticas de natureza institucional, na Suécia verificou-se sempre uma simbiose entre a sociedade civil e o Estado. Ambos foram actores proactivos e actuaram combinados. Em última análise, o comportamento de um grupo significativo de suecos e de algumas das suas instituições foi claramente um acto de guerra contra os portugueses, muito semelhante ao dos cubanos que enviaram militares e armamento em apoio directo das acções de guerrilha sem que Portugal alguma vez os tivesse atacado ou declarado a guerra. As razões que sustentam esta atitude são naturalmente diversas mas podem ser explicadas e decorrem do sucesso do estado social sueco e de outros factores que justificam os excelentes indicadores de qualidade de vida que entronizaram o país como uma referência de desenvolvimento a partir de finais dos anos vinte do século passado.
Anteriormente, a Suécia fora um país rural, economicamente relativamente débil, que só começou a industrializar-se em meados do século XIX, na cauda dos países europeus economicamente desenvolvidos. Todavia, já nesse período, os fundamentos do estado social que iria ser, no futuro, um pilar fundamental do sucesso do país há muito que estavam enraizados na cultura sueca(5). Conseguiu então, a partir daí, começar a tirar dividendos da Revolução Industrial e a partir do final do século XIX e princípios do século XX a economia acelerou definitivamente dinamizada por numerosos inventores e empresários(6). No entanto, o ambiente social era ainda tão frágil que, desde meados do século XIX até aos anos 30 do século XX, muitos suecos se viram forçados a engrossar o fluxo da emigração europeia para os Estados Unidos.
Com o desenvolvimento económico e a resultante segurança material, cresceu o bem-estar social que por sua vez influenciou a melhoria da estabilidade interna e externa do país e o incremento das liberdades civis. Foram estas conquistas, reconhecidas e elogiadas internacionalmente, que acabaram por incutir nos suecos a presunção de que tinham adquirido não só o direito mas também a obrigação moral de exportar o seu modelo civilizacional para os países menos desenvolvidos e áreas problemáticas. Foi uma atitude que derivou dos princípios luteranos inculcados há muito na sociedade e no Estado(7), os quais exigem que seja feito sempre o melhor (a ética dos virtuosos)(8) e nestes termos os suecos nunca admitem fazer menos que o melhor, em quaisquer circunstâncias. É por isso que mesmo perante um insucesso um sueco dificilmente reconhece que errou. Este singular comportamento pode ser retratado da seguinte maneira: basicamente “os suecos não têm perguntas sobre os problemas do Mundo mas apenas respostas, que julgam serem as melhores e universais, configurando-se como modelo. Presumidamente, esse modelo poderá conduzir o resto do mundo ao estádio a que eles chegaram, no pressuposto de que isso seria possível e bom para todos”(9).
Dag Hammarskjöl. Secretário-geral
das Nações Unidas
Por estas razões instalou-se um pendor missionário na cultura sueca que foi reforçado por altura da nomeação, em 1953, de Dag Hammarskjöl para secretário-geral das Nações Unidas. O povo sueco passou então a sentir a orientação política e os programas civis e militares da ONU como uma responsabilidade também sua, como foi o caso do programa de descolonização. Psicologicamente, terá sido um lema do tipo “a ONU(10) somos nós” um dos factores que mais influenciaram, nessa altura, a motivação internacionalista da comunicação social, juventudes universitárias, sindicatos e partidos políticos suecos. A acção de Dag Hammarskjöld à frente das Nações Unidas foi avidamente assumida como uma extensão da política externa da Suécia a qual se considerava moralmente responsável por resolver os problemas do mundo, tal como a ONU. Foi tão intensa essa motivação que a longínqua e pouco africana Suécia resolveu participar, logo em Dezembro de 1958, na I Conferência de Povos Africanos em Acra, no Gana, claramente em busca de oportunidades de realização. Foi nessa conferência que o Partido Social Democrata sueco, então no governo, estabeleceu os primeiros contactos com os movimentos de libertação africanos os quais constituíram os alicerces do subsequente apoio sob a eufemística capa de “ajuda humanitária”.
É claro que esse ideal de “olhos azuis”, como os suecos gostam de classificar as suas “boas intenções”, a “inocência” e aparente “ingenuidade” das suas iniciativas extra-muros, nunca deu ao Mundo novas Suécias pela simples razão de que o que sustenta o estado social e as liberdades suecas é o potencial económico. São tudo coisas muito caras que não são obtidas por ideologias, nem por pretensas boas intenções mas sim com recursos e esses só podem ser gerados por um estado eficaz, investimento, educação e trabalho. Nada disso alguma vez acabou por acontecer nos países seleccionados pela ajuda humanitária sueca e em particular na Guiné-Bissau(11).
Outro aspecto marcante, já referido atrás, foi a clara cumplicidade entre o Estado e a sociedade civil. A explicação para isso parece decorrer do conceito de “solidariedade” que, em sueco, não só se refere à coesão social mas também ao empenhamento e responsabilidade (tanto na Suécia como externamente) quanto a questões humanitárias(12) e desenvolvimentos de natureza política. Essa atitude contribuiu para reforçar a auto-identificação dos suecos como um povo tradicionalmente avançado moral e tecnologicamente e começou a ganhar visibilidade por altura da Segunda Guerra Mundial, período que colocou em risco os valores civilizados, cabendo à Suécia, acreditam eles, o papel de sua guardiã(13).
É tudo isto que justifica a paranóia missionária do povo sueco e o fervor no apoio, logo a partir de 1961, através dos Órgãos de Comunicação Social, organizações estudantis e partidos políticos, numa altura em que o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo-Verde) ainda não tinha sequer iniciado as hostilidades (excepto a casca de banana no cais do Pindjiguiti em 3 de Agosto de 1959)(14)e a política oficial do Estado ainda estava longe de acometer Portugal.
A escapatória ética da ajuda humanitária sueca
Os suecos podem querer convencer o Mundo de que, eticamente, são “de olhos azuis” mas todos sabemos que o estado de desenvolvimento e bem estar que conseguiram (15) são indicadores que não permitem outra interpretação das suas atitudes que não seja a da intencionalidade fundamentada e objectiva. Tinham certamente consciência de que todas as formas de apoio aos movimentos de libertação e em particular ao PAIGC que, dentre eles foi o mais beneficiado, eram letais e redundavam em mortos, feridos e destruição quer entre as forças portuguesas, incluindo as de recrutamento local e ainda as populações civis. De facto, não interessava que a ajuda sueca apenas fosse direccionada para a propaganda, para melhorar e manter as bases no Senegal e na Guiné-Conacri, para fornecer meios de transporte, para o tratamento de doentes e feridos, para financiar deslocações dos dirigentes, etc.. Toda a ajuda contribuía para a capacitação do movimento cujo objectivo último era fazer a guerra e acabar com a presença portuguesa pela força. Não pode ter sido, nem foi outra, a motivação dos suecos.
Ciosos do seu estatuto como país de referência viram-se, por isso, obrigados a arranjar uma forma subtil de conferir uma aura de bondade às suas acções de modo a conservar as consciências impolutas e, em particular, não pôr em causa os preceitos que exigiam não patrocinar ou promover nada que implicasse perda de vidas ou mais sofrimento. Apresentando-se como “um país muito escrupuloso quanto aos princípios”, a ajuda aos movimentos de libertação e em particular ao PAIGC teve que ser justificada de modo a encobrir a sua finalidade última e as respectivas consequências.
Atentemos por isso no termo escolhido para designar esse apoio, precisamente o de “ajuda humanitária”. Efectivamente, esta designação não só dava a ideia de inocuidade como soava bem (para os pouco avisados que eram a generalidade dentro e fora de portas) e transpirava bondade. Outro factor muito utilizado foi a classificação do regime português como sendo uma ditadura fascista e portanto tudo o que dele emanasse estava automaticamente condenado. Por politicamente correcta validava todo o tipo de iniciativas contra Portugal, promovia a unidade de esforço com as oposições ao regime português e com a comunidade internacional democrática e, também com a não democrática, desde que não fosse ocidental ou, por exemplo, pertencesse ao bloco soviético. O problema é que o que estava em jogo era o projecto e futuro de uma sociedade pluricontinental e multirracial e não a sobrevivência do regime que transitoriamente a governava. A Suécia justificava assim a “ajuda humanitária” aos movimentos de libertação fazendo de conta que estava a combater um regime político quando, na realidade, estava a influenciar decisivamente o futuro de uma comunidade que em termos humanos se projectava muito mais avançada que as que hoje temos. As pessoas não contavam, o que importava eram os “amanhãs que cantam” das ideologias em voga (16) com consequências terríveis como a conflitualidade, a ingovernabilidade ou as actuais avalanches emigratórias. Também eles, suecos, sopraram os ventos da história contra Portugal e condicionaram a seu belo prazer o futuro dos povos que habitavam os territórios então portugueses. É por isso que entre as características já inventariadas na mentalidade sueca não tenho dúvidas em acrescentar mais uma e esta bem negativa: a hipocrisia, nua e crua.
Mas não eram apenas estes os argumentos falaciosos que os suecos coligiram para justificar a sua “ajuda humanitária”. Outros que pareceriam “não ter pernas para andar” mas foram prontamente validados pelo imaculado povo “dos olhos azuis” foram a invocação do atraso português em termos económicos e o facto da colonização estar a ser feita com pessoas de baixa ou média condição social. Tanto o primeiro como o segundo argumento queriam apenas dizer que os povos africanos de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau mereciam colonos mais ricos, mais educados e de mais elevada condição social. Presumivelmente, se esses colonos fossem suecos então estaria tudo bem e esses territórios já seriam uma espécie de Suécias dos Trópicos. No entanto, enquanto nós sentíamos que as características da população portuguesa presente em África nos aproximavam mais das populações autóctones e por isso conferiam melhores condições de entrosamento, convivência e uma evolução comum mais equilibrada e eficaz, para os nossos detractores era tudo negativo e justificava a guerra que promoviam.
Para além destas considerações é no relato escrito por Tör Sellström, em 2008(17), que se pode perceber melhor grande parte do racional sueco para justificar o apoio aos movimentos de libertação anti-Portugal:
«Declarava-se que essa ajuda não poderia entrar em conflito com o primado do direito internacional, no âmbito do qual se define que nenhum estado tem o direito de interferir nos assuntos internos de outro. Contudo, relativamente aos movimentos de libertação em África, a ajuda humanitária e o apoio à formação académica não devem ser interpretados como estando em conflito com as referidas normas internacionais nos casos em que as Nações Unidas tenham tomado uma posição inequívoca contra a opressão dos povos que lutam pela liberdade nacional. Considera-se que a África Austral ocidental, a Rodésia e os territórios africanos sob suserania portuguesa estão abarcados por essa definição.
Passaremos a seguir a explicar o processo que levou a esta decisão. Entretanto, é de notar que poucos países ocidentais eram tão diferentes entre si como Portugal e a Suécia no período pós-guerra e que as ligações económicas eram inicialmente fracas.
Apesar de ambos os países terem passado à margem da segunda guerra mundial, o fosso, que separava a ditadura fascista do Portugal católico da social democracia da Suécia protestante, era abissal. Na arena internacional, Portugal via-se como um importante portador do estandarte do destino imperial e tinha aderido à OTAN, enquanto a Suécia fazia gala do seu passado não-colonial. Em termos nacionais, o regime de Lisboa seguia uma via ultra-proteccionista, que administrava uma economia retrógrada e estagnada, baseada no sector primário, enquanto que o governo social democrata da Suécia registava um crescimento económico acelerado e era um país cada vez mais exportador, em resultado directo duma política de transformação industrial assente na qualificação. No prisma social, as políticas elitistas praticadas em Portugal criaram taxas de analfabetismo e má saúde pública que colocavam o país mais no terceiro mundo, enquanto as práticas igualitárias do “modelo sueco” colocavam este país na vanguarda da educação e da saúde.
As relações comerciais entre Suécia e Portugal eram bastante marginais até meados dos anos 60. Em 1950, o valor das exportações suecas para Portugal chegava a 28,3 milhões de coroas suecas, ou seja 0,5 por cento do total de exportações. Os números correspondentes para as importações suecas feitas por Portugal representavam nesse mesmo ano 25,1 milhões de coroas suecas, ou seja 0,4 por cento. Dez anos mais tarde o valor das exportações suecas tinha aumentado para 60,9 milhões de coroas suecas, mas a parte de Portugal no total de exportações ficou estável, enquanto a proporção relativa das importações de Portugal diminuiu para 0,3 por cento.12 Era fácil de ver que o comércio externo que a Suécia tinha com Portugal era muito menos relevante do que o que tinha com a antiga colónia portuguesa, o Brasil. Os investimentos directos em Portugal foram, durante muito tempo, apenas de relevância marginal. Apenas algumas empresas suecas, como a SKF e a Electrolux tinham estabelecido sucursais em Portugal nos anos 20, ao passo que algumas empresas têxteis viriam, mais tarde, a fazer investimentos directos. Por junto, havia apenas cerca de cinco empresas suecas em Portugal em 1960 e os seus produtos combinados eram bastante reduzidos».
Esta é uma pequena amostra do convencimento e arrogância sueca em relação a Portugal. A construção ética apenas visou dar cobertura ao que desejavam fazer a todo o custo e que tinha começado a ganhar momento ao tempo de Dag Hammarskjöl nas Nações Unidas. Sentiram-se, assim, com base em análises claramente preconceituosas, auto-mandatados a dar-nos uma lição. Todavia, tudo o que acima se transcreveu pode agora, que a guerra acabou há muito, ser contra-argumentado. Para não me alongar demasiado limitar-me-ei a comentar a invocação da virgindade sueca em relação ao colonialismo e ao facto do Estado-Novo “criar taxas de analfabetismo e má saúde pública que colocavam o país mais no terceiro mundo”. Em relação ao primeiro ponto é preciso frisar que, no passado, os interesses da Suécia assentaram no comércio marítimo e na indústria do ferro. Por essa razão nunca estiveram muito interessados em ocupar território mas sim em garantir o acesso dos seus navios a pontos de carga e descarga em África e em vender ferro trabalhado. Para além disso, estabeleceram, embora por um curto período, diversos entrepostos na costa do Ghana destinados à aquisição e trânsito de escravos com destino às Américas. Em paralelo com esse comércio avultava o fornecimento das barras de ferro para lastro dos navios negreiros e as argolas e grilhetas com que os escravos eram sujeitos a bordo e nos pontos de embarque e desembarque. Também mantiveram uma colónia de escravos em Saint-Berthélemy desde 1787 até Outubro de 1847(18) . Por último, em finais do século XIX a Suécia participou na Conferência de Berlim com o mesmo estatuto e as mesmas intenções das restantes potências europeias. Não parece por tudo isto que a Suécia se possa distanciar agora, em termos morais, nem dos portugueses nem dos outros países que colonizaram África.
Sobre “as políticas elitistas praticadas em Portugal que criaram taxas de analfabetismo e má saúde pública” este argumento difundido na opinião pública sueca era claramente mal intencionado. Dava a impressão que o regime era tão mau que estava a fazer o país “andar para trás”. A verdade é que o regime português, apesar de tudo, fazia o que podia depois do descalabro da 1ª República e havia evolução. Não tão rápida como seria desejável, ou não tão rápida como a da Suécia, mas isso decorria do que se pudesse considerar como a situação de referência para efeitos de comparação, por exemplo, à data da instauração do Estado Novo. Também resulta claro, bastando para isso olhar para as fotografias da época, que o país de 1926 era completamente diferente do país de 1960. Este alegado retrocesso invocado pelos suecos parece ser resultado da propaganda dos opositores ao regime e dos líderes dos movimentos de libertação, em particular de Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane e Holden Roberto, que foi de quem os suecos se aproximaram mais. Outra coisa não seria de esperar.
Um ataque atípico no dia 6 de Janeiro de 1969
Naquela segunda-feira, a notícia de um ataque com canhões, ao início da manhã, a Gadamael Porto, sede da Companhia de Artilharia 2410 do Exército Português deu logo a ideia de que qualquer coisa estranha estava a acontecer. Não era nada normal o PAIGC desencadear flagelações aquela hora. O que era normal era atravessarem a fronteira durante o dia, estabelecer bases de fogos e depois esperar pelo fim do dia para desencadear os ataques. Podiam depois retirar a coberto da noite, em segurança, com a certeza que, nem o Exército tinha condições para os perseguir, nem a Força Aérea para os detectar e atacar.

Na Base Aérea n.º 12 o dia de trabalho estava a começar e o pedido de apoio aéreo que chegou através do comando-chefe fez os dois pilotos da parelha de alerta largar o pequeno-almoço, apanhar rapidamente o equipamento e meterem-se no jeep de apoio em direcção à linha da frente. Lembro-me de ter ouvido o que se estava a passar mas tinha outras missões para esse dia e não cheguei a envolver-me no que aconteceu depois. No entanto, num cantinho da memória persiste uma sensação de choque associada à notícia porque fiquei com a perturbante impressão de que tínhamos entrado numa nova fase da guerra.
Dos Fiat G-91 prontos na linha da frente, os dois de alerta, como era normal naquela altura, estavam configurados com tanques de combustível externo, 8 foguetes 2,75” e as 4 metralhadoras 12,7mm(19). Não havendo outras informações para ajuizar a situação no terreno o que a experiência ensinara era que a presença dos aviões faria o PAIGC “encolher as unhas” e terminar o ataque. Os dois pilotos procuraram, por isso, descolar e chegar o mais rapidamente possível a Gadamael Porto.
Apesar de andar empenhado na recuperação deste episódio há muito tempo, porque penso que deve ficar registado na nossa memória colectiva, não consegui identificar até agora um dos dois pilotos envolvidos. Por exclusão de partes e porque éramos muito poucos, penso que foi o capitão Amílcar Barbosa(20) o chefe da parelha de alerta, mas não tenho a certeza absoluta. O outro piloto está bem identificado e foi o então tenente Balacó Moreira de quem obtive muita da informação sobre o que se passou.
Dos registos sobreviventes sabe-se que os aviões descolaram às 09H00, que a flagelação teria começado cerca de uma hora antes e visava objectivamente Ganturé, a curta distância de Gadamael Porto onde, para além de um pequeno núcleo populacional, estava destacado o 4º grupo de combate da CArt 2410. Numa primeira fase os rebentamentos foram espaçados e compridos dando a impressão que o inimigo estava a regular o tiro(21). De Ganturé a resposta estava a ser dada com o morteiro 81mm operado pelo furriel miliciano Luís Guerreiro. Com o correr do tempo o PAIGC foi aumentando a frequência dos disparos até que a artilharia portuguesa de Gadamael Porto também entrou em acção na tentativa de suster a flagelação mas sem resultado. O PAIGC disparava cada vez com mais intensidade mas, felizmente, as granadas passavam silvando sobre Ganturé e iam danificar o arvoredo que se estendia para lá da posição.
Furriel miliciano Luís Guerreiro
operando o morteiro 81mm
de Ganturé.
Em rota, a parelha de alerta conseguiu entrar em contacto rádio com Gadamael Porto que forneceu uma série de indicações sobre a direcção e distância a que entendiam estar a ser feito o ataque e até dispararam algumas granadas de fumo com o morteiro 81mm para tentar sinalizar esse local. Na carta 1:50.000 essas indicações apontavam para a antiga tabanca de Bricama a cerca de dois Km a SW de Gadamael Porto. No entanto, quando os aviões chegaram à zona, ao passarem junto a Sangonhá, onde estivera instalada uma unidade do Exército até 29 de Julho de 1968(22), os pilotos foram surpreendidos com o que viram: o perímetro do antigo aquartelamento estava pejado de gente. Perceberam imediatamente que só podiam ser os guerrilheiros responsáveis pela flagelação a Ganturé. Mas o mais espantoso é que estavam ali, num espaço completamente aberto e sem qualquer espécie de camuflagem. Quase à vertical alguns detalhes tornaram-se então claramente perceptíveis como a presença de três armas com rodado. Uma delas, entre o perímetro do aquartelamento e a antiga pista, era uma anti-aérea ZPU-4 que abriu imediatamente fogo contra os aviões obrigando os pilotos a entrarem num circulo alargado para manter uma distância de segurança. Dentro do perímetro do aquartelamento, no meio dos destroços dos edifícios(23), estavam duas peças de artilharia com um cano relativamente comprido e, na picada que saindo de Sangonhá se dirigia à Guiné-Conacri, viam-se algumas viaturas incluindo uma ambulância. Deviam ter vindo de Sansalé que era uma pequena aldeia da Guiné-Conacri muito utilizada pelo PAIGC nas suas movimentações junto à fronteira.
O que é que teria passado pela cabeça daquela gente para se expor daquela maneira? O PAIGC e os seus mentores cubanos vinham seguindo à risca a cartilha da guerra de guerrilha mantendo-se sempre encobertos e só atacando quando estavam em vantagem. Quando se sentiam em desvantagem furtavam-se ao contacto. No entanto, desta vez, estavam a fazer tudo ao contrário, de tal maneira que os dois pilotos dos G-91 tiveram dificuldade em assimilar a imagem que a vista lhes oferecia com toda a nitidez. Seria mesmo real o que estavam a ver? O ex-tenente Balacó Moreira confessa que da sua experiência em operações quase diárias no teatro de operações da Guiné nunca tinha dado de caras com o inimigo numa situação tão vulnerável.
No entanto, os aviões da parelha de alerta não estavam equipados para intervir naquele cenário. Quer os foguetes, quer as metralhadoras, para serem eficazes só podiam ser disparados a uma distância relativamente curta do alvo, bem dentro da densa e eficaz nuvem de projécteis cuspidos pelos canos da ZPU-4 à razão de 2.400 tiros por minuto. Pela sua extensão e natureza aquele alvo exigia mais aviões e também munições mais capazes.
O comandante da parelha decidiu por isso abandonar a área e regressar imediatamente à BA12 para que a situação fosse ponderada e tomada uma decisão adequada às circunstâncias. Em qualquer caso, a partir desse momento era tudo urgente porque a guerrilha, tendo sido detectada, devia começar a desmobilizar e desapareceria rapidamente nas matas que rodeavam Sangonhá. Cada minuto de atraso na resposta aumentava exponencialmente as probabilidades de insucesso.
Depois de informar Gadamael que iam regressar a Bissau o comandante da parelha entrou em contacto com o Centro Conjunto de Operações aéreas (CCOA).
-Marte, Tigres chamam!
-Marte à escuta, transmita!
-Informe o Pirata(24) que estamos a regressar a Bissau. A situação em Gadamael é a seguinte: flagelação a Ganturé continua a partir da pista de Sangonhá. Em Sangonhá vê-se muita gente no chão, uma quádrupla que abriu fogo quando os aviões se aproximaram, dois canhões com rodado, diversas viaturas e uma ambulância. Sugiro preparação de mais aviões com bombas. Diga se copiou.
– Afirmativo Tigres, tudo copiado vou já passar ao Pirata – respondeu o oficial de serviço.
Tinham passado trinta minutos depois da descolagem quando os dois aviões tocaram na pista de Bissalanca (BA 12) e iniciaram uma rolagem rápida para o estacionamento.
A decisão
Assim que foi informado do que se passava o tenente-coronel Costa Gomes pôs o comandante da Zona Aérea, coronel PilAv Diogo Neto, ao corrente da situação. Minutos depois este entrava no gabinete do comandante do Grupo já com a caldeira a toda a pressão o que nele se percebia facilmente pela veia que no pescoço inchava notoriamente quando a tensão arterial subia. A primeira ideia que lhes ocorreu foi lançar uma operação helitransportada mas rapidamente perceberam que não só era demasiado arriscado como ia demorar muito tempo. De facto, com o número de helicópteros prontos não seria possível transportar mais que trinta pára-quedistas o que era muito pouco. Não haveria surpresa e, além disso, não havia uma zona de aterragem reconhecida nem havia ideia do perímetro defensivo do PAIGC à volta de Sangonhá. A aterragem dos helicópteros teria de ser feita numa clareira ad hoc e relativamente longe do alvo não só porque não se sabia por onde andavam os guerrilheiros mas também por causa da ZPU-4. Acresce que se esta não fosse eliminada pelos G-91, o que não podia ser garantido, o apoio de fogo aos pára-quedistas não seria exequível. Era também preciso reunir e preparar os homens o que iria demorar pelo menos uns 45 minutos. Finalmente, a velocidade do AL III também não ajudava. Tudo somado, mas em especial o risco de lançar trinta homens num local pejado de guerrilheiros, sem informações adequadas, fê-los desistir imediatamente da ideia.

As hipóteses de acção ficaram assim reduzidas aos G-91 e a quatro pilotos. Os dois da parelha de alerta que estava a aterrar, o comandante da Zona Aérea e o comandante do Grupo Operacional. Os restantes pilotos de G-91 estavam empenhados noutras missões e não estavam disponíveis. Também não havia tempo para montar a carga máxima nos aviões porque era preciso retirar os tanques de combustível e as calhas dos foguetes dos aviões que tinham ido a Gadamael e montar os suportes que permitiam levar duas bombas de 50 kgs em cada asa, em quatro aviões. Tudo no mínimo tempo possível. Assim, em vez de um total de 8 bombas de 200 kgs mais 16 bombas de 50 kgs foi dada ordem ao pessoal de armamento para montar apenas 8 bombas de 200 kgs mais 8 bombas de 50 kgs.
Entretanto, o comandante-chefe já tinha sido informado do que se estava a passar e quis falar com o coronel Diogo Neto. Este meteu-se na viatura e lá foi ao Forte da Amura explicar o que lhe parecia mais razoável e eficaz. Como era de esperar a preferência do brigadeiro Spínola ia para o emprego dos pára-quedistas mas depois de ouvir as explicações do coronel concordou e deu o seu aval ao “plano de acção”.
Canhão Zis-2 AC 57 mm pronto para ser atrelado a uma viatura de reboque.

Na BA12 os mecânicos e o pessoal de armamento, cientes da urgência da missão, esforçavam-se para aprontar os aviões o mais rapidamente possível. Não conseguiram porém evitar que o coronel e os outros três pilotos que entretanto tinham chegado à linha da frente, completassem as inspecções e ficassem à espera, já sentados no cockpit, que o processo de configurar os aviões com as bombas de “fins gerais” terminasse. Mal as pontas dos arames de armar as espoletas foram cortadas e o sinal de tudo pronto foi passado aos pilotos, começaram a ouvir-se, numa sequência um pouco desencontrada, os silvos dos cartuchos de arranque à medida que iam sendo disparados seguidos do ronco surdo das turbinas em aceleração.
Situação geral no terreno na manhã de 6 de Janeiro de 1969

Era impossível falhar um alvo daquele tamanho
Os quatro aviões conseguiram descolar por volta das 11H00, três horas depois do início do ataque a Ganturé e hora e meia depois do regresso da parelha de alerta. A esperança de encontrar a guerrilha ainda em Sangonhá era já muito ténue e todos tinham consciência disso. À frente, no G-91 5408, o coronel Diogo Neto subiu logo para os 8.000´ que era a altitude standard para iniciar o bombardeamento a picar (BOP) e acelerou para 400 KIAS apontado a Cacine. Os outros três seguiam-no numa formação de marcha bastante aberta. A rota iria permitir que os aviões passassem Cacine já escalonados para o ataque e com Sangonhá a ficar na raiz da asa esquerda de modo a garantir uma picada com o sol mais ou menos “nas costas”. Sempre que tínhamos de enfrentar fogo anti-aéreo utilizávamos este procedimento para dificultar a pontaria aos apontadores e, neste caso, também a direcção do ataque ficava próxima do eixo maior do alvo.
Como seria de esperar os quatro pilotos estavam apreensivos e como acontecia sempre em acções mais complicadas o silêncio rádio foi completo. A única comunicação que o ex-tenente Balacó Moreira, que voava a número dois no G-91 5412, se recorda foi a ordem para armar as bombas e passar a escalão pela direita quando passaram sobre o rio junto à povoação de Cacine. Logo a seguir cada um começou a tentar vislumbrar o alvo mas só no momento em que manobravam o respectivo avião para conseguir um “poleiro” que desse um bom ângulo de picada é que foi possível perceber alguma coisa do que se passava “lá em baixo”.
Balacó Moreira recorda-se que a quantidade de pessoas que avistou na zona do antigo aquartelamento era muito menor do que da primeira vez e que havia viaturas em movimento.
– Estão a retirar – pensou para consigo próprio.
A seguir viu o número um “pranchar” e voltar apertado pela esquerda subindo inicialmente acima da altitude inicial e depois, continuando a aumentar o pranchamento, mergulhar desaparecendo do seu lado esquerdo. Baixou a asa desse lado para tentar seguir a trajectória mas rapidamente o avião começou a ficar cada vez mais pequenino à medida que acelerava e se afastava em direcção ao solo. Naqueles escassos segundos não viu chamas à boca dos canos da ZPU-4. Quando o coronel Diogo Neto avisou pelo rádio que tinha acabado de largar as bombas e estava em afastamento procurou efectuar uma última correcção à posição do seu avião. Naquele momento se a ZPU-4 disparava ou não já não lhe interessava para nada. A interpretação dos instrumentos de voo e o controlo da trajectória para posicionar o avião num ”poleiro” favorável não deixavam margem para se preocupar com o inimigo. Entrou então numa picada que lhe pareceu boa e depois foi corrigindo os desvios de modo a fazer o rectículo do visor caminhar progressivamente para um ponto atrás do rebentamento das bombas do avião da frente. O carrocel de ataque estava em marcha e com reacção ou sem reacção anti-aérea tinha era que acertar com as bombas no alvo, o maior de todos os alvos que atacou durante toda a comissão. Não falhou como não falharam os outros e ninguém foi atingido.

No final, os quatro aviões reencontraram-se à vertical do objectivo, circulando pela esquerda à altitude de ataque. Lá em baixo, Sangonhá ficara obscurecida pelo fumo e pelos detritos projectados pelas explosões dando a impressão que tudo tinha sido arrasado. Imagem bem enganadora que conheciam muito bem dos ataques aos “clusters” de armas AA que o PAIGC durante o ano de 1968 tinha tentado instalar em diversos pontos do Quitafine. Desfeita a poeirada constatava-se muitas vezes que as armas AA continuavam a disparar embora relativamente perto se avistassem as enormes crateras abertas pelas bombas. O que acontecia era que a combinação bomba/espoleta que utilizávamos penetrava demasiado no solo arenoso provocando crateras enormes que deflectiam os estilhaços para o ar sem causar danos significativos no plano horizontal.
Desta vez, o solo era certamente mais consistente porque as crateras pareciam pouco profundas, com uma assinalável concentração na zona onde estava o armamento pesado. Os quatro aviões ficaram ainda alguns minutos a circular observando a metralhadora AA que era a grande preocupação mas que parecia inactiva desde o início. Lá do alto constataram que nada parecia mexer. Nenhum dos aviões tinha sobrepôsto o tiro ao dos outros e as dezasseis bombas tinham produzido uma cobertura relativamente densa. Só não era possível era determinar se o ataque tinha sido eficaz em termos de baixas no inimigo.
Depois, sem armamento, nada mais havia a fazer e o comandante da formação deu ordem para abandonar a área e regressar à BA12.
O reconhecimento a Sangonhá
Três dias depois, a 9 de Janeiro de 1969, a CArt 2410 executou um reconhecimento a Sangonhá com cerca de 100 homens – militares, milícias e caçadores nativos ( Gadamael e Ganturé ficaram reduzidos ao mínimo de pessoal para a sua defesa)(25). A força foi comandada pelo alferes miliciano Albino Rodrigues, que era o comandante do 1.º Grupo de Combate, ficando o Comandante da Companhia em Gadamael. Saíram de Gadamael por volta das 6 horas da manhã, sem qualquer apoio de viaturas, normais ou blindadas. Às 08:30 descolou de Bissalanca o DO-27 3347, pilotado pelo tenente Balacó Moreira, com a missão de apoiar a progressão no terreno e em particular coordenar o apoio de fogo se fosse necessário. Em todo o percurso até Sangonhá não foram detectados trilhos novos, nem foram encontrados os habituais invólucros de granadas de morteiro ou de canhão S/R que os guerrilheiros normalmente deixavam espalhados no terreno após as flagelações(26).
Após a passagem a vau do rio QUERUANE/AXE, e uns 200 ou 300 metros à frente, numa pequena elevação do terreno, foram encontrados os restos de uma fogueira (a noite de 5 para 6 tinha sido fria) junto a uma árvore alta com vestígios de ter sido utilizada como posto de observação, quer pelo aspecto do tronco, quer por alguns ramos partidos. Logo 3 ou 4 metros depois encontraram fio telefónico que foi seguido até ao respectivo carretel vazio. Concluíram por isso que naquela árvore teria estado um observador avançado munido de linha telefónica para orientar o tiro dos canhões A/C estacionados em Sangonhá. Desde este local e numa extensão de cerca de 3 Kms, havia abrigos individuais de um lado e outro da estrada, e também resíduos de fogueiras. Logicamente, a defesa avançada do dispositivo instalado em Sangonhá estendera-se ao longo da estrada para Gadamael Porto.

Com a força já a meio caminho descolaram então de Bissalanca 2 T-6G armados com foguetes SNEB de 37 mm e metralhadoras 7,7 mm(27). A missão era permanecer em espera um pouco a Norte de Sangonhá e actuar à ordem do PCV (DO-27) caso fosse necessário dar apoio de fogo. Depois, às 11:30, quando a força estava próximo de Sangonhá descolaram de Bissalanca dois G-91 armados com foguetes de 2,75” e quatro metralhadoras 12,7 mm. Os dois T-6 foram nessa altura reabastecer tendo voltado a descolar novamente para acompanhar o resto da operação.
A primeira indicação de que estavam próximos do objectivo foi dada pela grande quantidade de abutres (os feiosos jagudis) pousados nas árvores ou voando em círculos. Ao mesmo tempo, o pessoal começou a sentir o cheiro nauseabundo de corpos em decomposição. A força distribui-se então de modo a formar uma longa linha perpendicular à estrada e foi nessa formação que avançaram cautelosamente. O que descobriram a seguir ultrapassou todas as marcas e foi tão chocante que o pessoal descurou momentaneamente as regras de segurança que vinha a manter.
O ex-alferes miliciano José Barros Rocha, comandante do 2º. grupo de combate, recorda desta maneira o que viu e sentiu: “…na antiga pista [ de Sangonhá], armas destruídas e pedaços de corpos de negros e brancos e 13 sepulturas. Uns dias depois tivemos a informação de 36 mortos confirmados e muitos feridos… …O aspecto do local era medonho! A terra, cuja cor natural é avermelhada, tinha a cor cinza! O intenso cheiro a putrefacção! Os abutres (jagudis) às dezenas! As árvores queimadas! Enfim…
…recolhemos 3 carretéis carregados de fio telefónico e um vazio, uma mina A/P, uma ferramenta para aperto de rodas, invólucros de granada do canhão A/C 57mm, meia pistola, munições intactas da A/A de calibre 14,5 mm, bonés, chapéus tipo colonial, uma bandeira, uma caixa de ferramenta, e mais algumas bugigangas…
A força permaneceu em Sangonhá cerca de duas horas tendo regressado a Gadamael entre as duas e as três da tarde. Quando já estavam perto do quartel o tenente Balacó Moreira aterrou o DO-27 em Gadamael e ficou a aguardar a chegada da força. Foi ele que levou para a BA12, em primeira mão, os resultados provisórios do bombardeamento no qual tinha participado. Levou também a óptica do aparelho de pontaria da ZPU-4 que lhe foi oferecida pelo comandante do 2º. grupo de combate e que ele entregou depois ao tenente coronel Costa Gomes.
A razão para o suicídio do PAIGC em Sangonhá
Depois do reconhecimento a Sangonhá ficou por decifrar o que teria levado o PAIGC a efectuar aquela acção suicida. A prática normal da guerrilha não se ajustava, de modo nenhum, ao que acontecera no dia 6 de Janeiro de 1969. Não tinha sido apenas a hora a que foi desencadeada a flagelação, de manhã em plena luz do dia, mas também o facto do armamento e o pessoal estarem em campo aberto e serem facilmente detectáveis pelos aviões. Era ainda o recurso às peças anti-carro na flagelação como se fossem obuses ou morteiros(28).
Havia certamente uma justificação para este comportamento anómalo mas nenhum de nós imaginava qual poderia ser.

No dia 19 de Janeiro de 1969 coube-me efectuar no DO-27 3341 ”o sector de Buba” o que me deu a oportunidade de falar com os oficiais da CArt 2410. Foi nessa ocasião, pelo testemunho dos que tinham, de facto, posto os pés no que fora o “nosso alvo”, que me apercebi pela primeira vez da dimensão do desastre que o PAIGC tinha sofrido. Foi também nessa ocasião que o alferes Barros Rocha teve a gentileza de me oferecer quatro munições da ZPU-4 que estivera instalada em Sangonhá e que tinha feito fogo contra os dois primeiros (pelo menos) G-91 que descolaram para tentar suster a flagelação a Ganturé. Destas quatro munições, como referi no início, ainda guardo uma comigo e, por arrastamento, a memória deste episódio.
Por acaso tudo se aclarou alguns dias mais tarde ao ler um relatório da Direcção Geral de Segurança (DGS) que chegou ao gabinete do comandante do Grupo Operacional 1201. Para mim foi uma espécie de relâmpago que tudo iluminou e desvendou, num instante, a lógica daquele comportamento estranho do PAIGC. Não consegui agora encontrar nenhum registo desse documento mas o facto é que me marcou tanto que nunca mais esqueci o essencial do que li. Resumidamente, a DGS dava conta de que o ataque se tinha enquadrado numa acção de propaganda promovida pela Suécia. Na minha opinião, muito provavelmente a pedido do próprio Amílcar Cabral, resolveram aproveitar o abandono de Sangonhá para simular a tomada do aquartelamento pela guerrilha. O cenário não podia ser mais perfeito. Antes de abandonar a posição, as instalações do aquartelamento tinham sido destruídas pelo Exército e essa imagem podia ser facilmente mostrada em fotografia e filme como sendo consequência dos ataques do PAIGC. Depois, a posição “acabada de conquistar” podia ser utilizada para mostrar o poder de fogo do PAIGC contra as posições que se preparavam para conquistar a seguir: Ganturé e Gadamael. Uma equipa de repórteres, incluindo fotógrafos e cineastas deslocou-se para esse efeito à Guiné-Conacri onde se juntou aos guerrilheiros. Um total de 400 pessoas terão estado envolvidas em toda a operação segundo as informações do régulo Abibo de Ganturé.
Ficou assim explicado porque razão o PAIGC se tinha exposto em pleno dia a levar com as bombas da aviação. É que não era possível fotografar nem filmar sem luz. Também não fazia sentido estarem escondidos quando tinham acabado de derrotar e afugentar o inimigo. Tinham, é claro, a noção de que iam correr um grande risco e por isso o terem levado a ZPU-4 para se defenderem. Mas cometeram um segundo erro, este gravíssimo. Foram detectados e em vez de embalarem a trouxa e rumarem novamente à Guiné-Conacri deixaram-se ficar. Pessoalmente penso que, como os dois primeiros aviões não abriram fogo, assumiram que, ou os tinham atingido, ou os tinham dissuadido e resolveram continuar a fazer a “fita”.
Faltava explicar a utilização das peças anti-carro porque, como já foi dito, não eram, nem armas de guerrilha, nem adequadas às flagelações aos aquartelamentos. Não há mesmo conhecimento de terem sido utilizadas em qualquer outra ocasião. Uma explicação muito credível ocorreu-me quando descobri algumas fotos dessas armas no arquivo Amílcar Cabral da Fundação Mário Soares. Fiquei até convencido que respeitam à acção do dia 6 de Janeiro de 1969. Passo a explicar.
O objectivo da operação era produzir propaganda, como referiu a DGS no seu relatório. Havia, por isso, necessidade de mostrar grande capacidade militar e poder de fogo, factores esses que estariam a determinar avanços do PAIGC no terreno nomeadamente a conquista de posições ocupadas pelos portugueses. Acontecia que aquelas peças anti-carro tinham um reparo longo, tinham rodas e um cano comprido. As eventuais audiências alvo da propaganda ficariam certamente muito mais impressionadas se o ataque fosse feito com estas peças de artilharia em vez dos tradicionais morteiros ou dos canhões sem recuo que eram armas relativamente pequenas. Só uma razão desta natureza os poderá ter levado a não utilizar o armamento tradicional nesta flagelação a Ganturé: nenhuma granada rebentou no perímetro do destacamento.
Bilhete enviado por Pansau na Isna
a Aristides Pereira enquanto decorria
o ataque a Ganturé.
A título de curiosidade não devo terminar sem mencionar o único documento conhecido do PAIGC referente a este ataque. Trata-se de um bilhete enviado em 6 de Janeiro de 1969 por um dos mais celebrados comandantes do PAIGC, Pansau na Isna(29) , e dirigido a Aristides Pereira que estava na base mais próxima, Boké, na Guiné-Conacri. Na missiva para além de empolar a prestação da guerrilha, aparentemente para agradar ao chefe, solicita o envio de mais trezentas granadas para os canhões A/C e mais gasolina para continuar a atacar Ganturé “no duro”, o que não chegou a acontecer. Alguma coisa lhe terá quebrado o ânimo…
Concluindo, ironicamente pelo menos desta vez, a bondosa ajuda humanitária sueca cujo objectivo foi soprar “os ventos da história” contribuindo para a derrota militar dos portugueses não conseguiu infligir baixas às nossas forças. Ao invés, provocou um número substancial de mortos, feridos e incapacitados entre os guerrilheiros e, muito provavelmente, também entre os apoiantes cubanos, repórteres, fotógrafos e cineastas suecos. Que foram encontrados diversos despojos de pele branca é um facto mas nunca se conseguiu saber a quem teriam pertencido. O PAIGC e o governo sueco, em escrupulosa obediência às regras da propaganda nunca revelaram, nem durante a guerra, nem depois, este desastroso embate…

(1) “Quatro bocas” designação que os cubanos davam às metralhadoras AA ZPU-4. Embora, por razões de “auto-estima” os guineenses nunca tenham admitido, existem grandes probabilidades dos dispositivos anti-aéreos do PAIGC e, em particular as ZPU e os canhões AA 37mm, terem sido operadas por cubanos. Os quatro canos da ZPU-4 debitavam 2.400 tiros por minuto e as munições chegavam aos 15.000´ de altura embora o alcance eficaz fosse de 4.600´ . Em qualquer caso o perigo maior para um alvo rápido como era o G-91 era a densidade de projécteis na trajectória do avião e menos a destreza do apontador.
(2) Houve aviões abatidos por outros tipos de armas AA e também pelos misseis Strella mas nunca tivemos uma perda provocada, nem pelas ZPU-1-2 ou 4, nem pelos canhões de 37 mm.
(3) Tor Sellström, Sweden and National Liberation in Southern Africa, p 64: “…Cabral himself who was the chief architect behind the commodity programme. Supplied with arms from the Soviet Union and its allies, he had from the outset ruled out the idea of military support from Sweden, designing instead a programme of civilian cooperation that at the close of the 1960s was met by no other country”…“Sweden and the Soviet Union were the largest donors to PAIGC. While the former was predominant on the civilian side, the latter was the leading supplier to the military struggle.
(4) Noruega, Finlândia, Dinamarca, Holanda e Islândia
(5) Tudo terá começado com a Igreja Luterana que, em 1734, lançou as primeiras pedras na construção do Estado Social sueco ao instituir a obrigação de cada paróquia ter um asilo para os mais desfavorecidos e economicamente carenciados – O mito do “socialismo sueco”, João José Horta Nobre, Mestre em História Contemporânea, 07 maio 2014
(6) Mises Daily, Stefan Karlsson, August 7, 2006.
(7) In the Swedish religious and political tradition, the connection between Lutheranism and Swedish national identity stayed relevant long after the disappearance of religion as an all-encompassing norm in daily life. Catholicism and the Idea of Public Legitimacy in Sweden, ACADEMIC JOURNAL ARTICLE By Harvard, Jonas, European Studies , No. 31 , January 1, 2013
(8) Até ao ano 2000, a religião Luterana foi a religião oficial do Estado sueco. O luteranismo atribui significado religioso ao trabalho mundano do dia-a-dia, por meio do qual se pode expressar o amor ao próximo e, consequentemente, agradar a Deus.
(9) Why Swedes would talk about themselves?, Astréia Soares, Doutora em Sociologia pelo IFCS/UFRJ, professora da Universidade Fumec/MG
(10) Gustafsson, 1964, p. 115
(11) Returning to Guinea-Bissau twenty years after his visit to PAIGC’s liberated areas, in 1993 Anders Ehnmark reflected upon liberation and liberty, independence and development, dreams and realities, in his essay ‘The Trip to Kilimanjaro’, concluding that “something which was not predicted has taken place” (Ehnmark (1993) op. cit., p. 113).
(12) Brian Palmer (1996)
(13) Why Swedes would talk about themselves?, Astréia Soares, Doutora em Sociologia pelo IFCS/UFRJ, professora da Universidade Fumec/MG
(14) O “massacre do Pindjiguiti” foi intencionalmente provocado especialmente pelo PAI (depois PAIGC) que se tinha organizado três anos antes sob a direcção de Amílcar Cabral. A título de exemplo, para mostrar a mistura explosiva então instalada em Bissau, alguns dos membros do PAI eram membros do PCP na clandestinidade (Elysée Turpin, Carlos Correia, Abílio Duarte e Rafael Barbosa), outros eram empregados da Casa Gouveia (Elysée Turpin e Carlos Correia estes com duplo chapéu e Luís Cabral). Existiam ainda outros grupos, alguns também dinamizados por Amílcar Cabral e Rafael Barbosa. Toda esta gente conspirava e andava em bicos dos pés para provocar os “colonialistas” e foram eles que manipularam os marinheiros manjacos até à confrontação com a polícia. Basicamente tratou-se de uma greve por razões salariais, que já tinha sido ensaiada antes, e que se foi exacerbando até que em 3 Agosto 1959 deu-se uma inevitável confrontação com a polícia. Nessa altura, os grevistas picados pelos agitadores quiseram assaltar a Casa Gouveia tendo atacado os policias (papeis) com arpões, paus, barras de ferro e remos na tentativa de os desarmar. Obviamente isto resultou em mortes. A partir desse lamentável desfecho, o desejado “massacre” passou a ser, imediata e incessantemente, utilizado no estrangeiro e em particular na Suécia como bandeira para a luta de libertação. Os mortos do Pindjiguiti ficaram para a história da libertação como um crime dos colonialistas e aos companheiros de Amílcar Cabral nunca nada lhes pesou na consciência. Tudo se justificava na lógica marxista que os iluminava. Ver também “Sweden and National Liberation in Southern Africa: Solidarity and assistance”, Tor Sellström, pag 45.
(15) A admissão de que a ingenuidade seja um traço da cultura sueca contrasta com a imagem da Suécia moderna, secular e tecnologicamente avançada e com um alto índice de informação sobre questões internacionais ( Why Swedes would talk about themselves?, Astréia Soares, Doutora em Sociologia pelo IFCS/UFRJ, professora da Universidade Fumec/MG)
(16) Nada mais elucidativo do que comparar as projecções de liberdade e desenvolvimento de Amílcar Cabral para a Guiné-Bissau e a situação real do país após quarenta anos de independência.
(17) A Suécia e as lutas de libertação nacional em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, Tor Sellström, Nordiska Afrikainstitutet, Uppsala 2008
(18) Up until the 9th of October 1847 Sweden had a colony in the West Indies called Saint-Berthélemy where there were thousands of slaves. When Gustav III was asked to end slavery in the beginning of the 19th century by Great Britain where the abolitionist movement had grown strong the Swedish king firmly neglected that Sweden had had any participation in having slaves. This denial has lived to our days in Sweden as well on the former Swedish colony Saint-Berthélemy, Pan African Visions » Afro-Swedish Perspectives, Blogs » Living in Denial: Sweden and the slave trade, October 16th, 2012
(19) Esta configuração “standard” permitia alcançar qualquer ponto do território, garantia algum tempo de permanência sobre o alvo mesmo no extremo Leste e dava alguma capacidade de intervenção se não existisse reacção AA.
(20) Cap PilAv Amilcar Barbosa, nascido em Cabo-Verde e originário da Esq 51 de Monte Real que morreu no ano seguinte, no campo de tiro de Alcochete, ao lançar uma bomba equipada com uma espoleta experimental que funcionou mal.
(21) Não foi certeiro na fase de regulação, nem foi certeiro depois por razões que se explicam no texto.
(22) Na reestruturação do dispositivo ordenada pelo Brigadeiro António de Spínola depois de tomar posse como Governador e Comandante Chefe, as posições de Sangonhá e Cacoca que ficavam entre Gadamael Porto e Cacine foram abandonadas.
(23) Os edifícios foram destruídos pelo Exército quando a posição foi abandonada em 29 de Julho de 1968.
(24) Indicativo pessoal do comandante do Grupo Operacional 1201 que na altura era o Tcor PilAV Francisco Dias da Costa Gomes
(25) Testemunho do ex Alferes Miliciano José Barros Rocha da Cart 2410.
(26) Indicação muito forte de que a flagelação do dia 6 teria sido efectuada apenas com os canhões AC estacionados em Sangonhá.
(27) Esta configuração era muito eficaz para o apoio de fogo à forças terrestres. Cada avião estava municiado com 72 foguetes SNEB de 37 mm e podia também utilizar as quatro metralhadoras 7,7 mm.
(28) As peças anti-carro Zis-2, de 57mm, tinham sido projectadas para destruir os blindados alemães durante a II GGG em tiro directo e mostraram-se tão desadequadas neste caso que nenhuma das dezenas de granadas disparadas caiu dentro do perímetro de Ganturé.
(29) Pansau na Isna não morreu em Sangonhá mas acabou por ser morto, no final do ano seguinte, pelos fuzileiros, a Norte de Bissau.

José Francisco Fernandes Nico, nasceu em 1942, foi piloto de aviões de caça, e entre 1967 e 1970 cumpriu uma comissão de serviço na Guiné. Desempenhou posteriormente funções na Força Aérea Portuguesa como piloto instrutor, Comandante de Esquadra, Comandante de Grupo, e 2.º Comandante de Base Aérea. No posto de Coronel desempenhou diversas funções relacionadas com a segurança das Bases Aéreas, foi Director das Operações Aéreas no Comando Operacional da Força Aérea e finalmente Comandante da Base Aérea n.º 6, no Montijo. Como Major General foi Director da Instrução no Comando do Pessoal da Força Aérea e, posteriormente, Chefe da Divisão de Planeamento Estratégico Militar do Estado-Maior General das Forças Armadas. Em 1998 foi promovido a Tenente-General e nomeado Director do Instituto de Altos Estudos da Força Aérea. Entre Dezembro de 1999 e Fevereiro de 2003 desempenhou o cargo de Comandante Operacional da Força Aérea, em acumulação com funções NATO, designadamente SOUTHLANTAIR e Comandante do CAOC 10. Exerceu depois o cargo de Vice-CEMFA, tendo passado à situação de reserva em Dezembro de 2003. Na reserva e reforma foi durante seis anos NATO Senior Mentor do NATO Command Transformation aconselhando os comandantes e staffs das NATO Response Forces no planeamento e execução de operações aéreas de âmbito conjunto.


Artigo publicado 
Por especial deferência do Sr. Ten.General José Nico.