quinta-feira, 6 de outubro de 2022

REVEILLON 73/74 E O PESSOAL DO AR DE GAGO COUTINHO.


O final de ano de 73 aconteceu a um Domingo segundo o bate estradas (aerograma) que tenho aqui á mão para consulta...!!
Reza a história, que o MVL nessa semana que transportava alimentos frescos e hortaliças para a passagem de ano ficou retido no Luvuéi de Quarta para Quinta-feira, por causa da ponte do Rio Luio, que tinha sido sabotada segundo boatos de alguns, ou que tinha algumas travessas do tabuleiro rodoviário em mau estado segundo relato de outros, provocou a degradação de alguns produtos face às temperaturas elevadas da época, e levando á ruptura do stock alimentar das unidades estacionadas neste subsector e na qual se incluía a C.Art.3514, não fosse a grande amizade e empatia que reinava na altura com a rapaziada da FAP estacionada no AR em Gago Coutinho, o final desse ano teria sido passado a trincar umas caixas de ração de combate, não eram más em tempo de crise, costumavam até servir como moeda de troca, nos negócios de ocasião com a população, “o chamado pagamento em géneros”.
Logo que o alarme soou a rapaziada tomou as devidas precauções enviando um convite com "o relatório de operações" aos camaradas do "bivaque" para uma visita ao Nengo.
Na manhã de sábado, bem cedo aterrava um helicóptero no pelado do destacamento, um briefing no local para acertar agulhas, embarcar os homens do gatilho e levantar, logo na primeira saída, numa rasante á chana do rio, o Medeiros e o Parreira descobriram e abateram duas peças de caça, um Nunce e um Sengo pastavam camufladas no meio do caniço e do capim, fácil demais, devido á pouca mobilidade dos animais dentro deste ambiente aquático, com metro e tal de água.


No regresso sobrevoando a mata em direcção a "charlie" detectaram uma manada de Gungas na orla duma clareira. Foi chegar largar a carga e abalar, ao chegarem ao local só conseguiram localizar dois animais e abater uma fêmea com quase meia tonelada, demasiada carga para o guincho do zingarelho pensaram eles.
Tiveram de regressar ao destacamento e mobilizar uma berliett para ir ao local buscar o animal, missão não conseguida por causa de uma linha de água, que não conseguiram transpor devido a atascanços sucessivos. Só havia uma possibilidade, lançar o cabo do hélio em volta do pescoço e tentar elevar o animal do solo. Nunca acreditaram ser possível tal transporte, com a máquina nos limites da potência e a perícia do Piloto, sem margem para erros na execução de manobras, conseguiram subir e voar até ao destacamento chegando todos a bom porto, (a bom prato).

Tipica ração de combate utilizada na guerra colonial por todos os combatentes em todo o tipo de operações, patrulhas, colunas, missões varias e em trânsito inter-unidades.
Incluía:
1 lata de carne
1 lata de peixe
1 lata de salsichas
1 lata de fruta
1 lata de leite
1 embalagem de pão, queijo, manteiga, compota e presunto.
Nunca percebi o porquê da falta de talheres descartáveis na caixa, (alguém andava na candonga) ...!! A faca de mato era a ferramenta multifunções, manicura a pés e mãos, abre latas, garfo, faca, colher, uma espécie de seis em um tipo canivete suíço.
Adeus até ao meu regresso

Publicada por Cart3514 "Panteras Negras"

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

A MINHA OPÇÃO POR ANGOLA


Memórias de um passado saudoso

Situamos esta recordação no ano de 1972 na cidade de H. de Carvalho, actual Saurimo.
Na minha estadia nos Açores, 1970/1971 e, ao abrigo duma lei decretada nessa altura, resolvi oferecer-me de voluntário para Angola, tendo por regalia a escolha da Província Ultramarina.
Longe, por longe e, ganhando mais, desejei ir para Angola e, conhecer África…
Sempre tinha ambicionado conhecer África!...
Quando parti, planeei ocupar o tempo da melhor forma e, tinha como objectivos completar o antigo 7º. Ano, tirar o passaporte (difícil para a época), o brevet, a carta de condução de automóvel e mota, conhecer Angola, Moçambique (e, se possível, S. Tomé e Príncipe) e, participar noutros eventos ocasionais, tais como; conhecer o povo Quioco e a sua língua, participar num teatro, no conjunto musical da Base, rádio, fazer uns voos com pilotos conhecidos através das savanas Lundanenses, namoriscar, coleccionar borboletas e ágatas desta região, etc.
Consegui realizar alguns pequenos sonhos e, dentro de determinadas peripécias, vou descrever uma das minhas ocupações nesse “Leste” longínquo pois, sempre acabarei por abordar um ou, outro assunto, ou recordar colegas distantes – acalentando memórias…
Armando Vaz, o Capelão da nossa Unidade (AB4) era um autodidacta em muitas áreas. Dedicou-se a construir uma barragem que se situava na parte traseira da piscina, a Norte da cidade. Aproveitou um pequeno curso de água, estancou-o e, com engenho e arte, montou a aparelhagem própria para produzir energia. Consegui-o, e colocou um carrossel e, outras diversões movidas a energia eléctrica. Era o passatempo para os jovens indígenas locais e, para alguma da nossa tropa…
Recordo ter visitado essas paragens e, junto a esse “parque de diversão” haviam montes com cerca de dois metros de altura, edificados pelas “formigas de asa”.
Também realizou Teatro.
Cederam-lhe o salão recreativo da cidade, situado numa avenida perpendicular á Capela. Era na mesma avenida onde moravam os sogros do 1º. Sargento Carvalho, o qual foi assassinado por meliantes negros - tendo como causa, o negócio de diamantes.
Velei o seu corpo na Capela – ex-libris da cidade.
Participei numa das muitas peças que o Capelão encenou e, fazia de “ponto”. Numa dessa peças, participaram outros companheiros,  assim como civis.
Há algum tempo atrás, deparei-me com uma Senhora que realiza confraternizações anuais da população civil de Saurimo e, por coincidência, também ela participou numa dessas peças teatrais. Contou ela, que namoriscou um “especialista” porém, perdeu-lhe o rasto por todas estas décadas já passadas…
Para vossas lembranças junto, remeto-lhes algumas fotos com anotações.




Até breve.
Vitor Oliveira


quinta-feira, 8 de setembro de 2022

DA RAÍNHA GINGA...AO PRESIDENTE CRAVEIRO


Angola, 1954.
O Presidente Craveiro Lopes está de visita a Angola.
Foram trinta e seis dias muito cansativos , que nos levaram aos sítios mais afastados e recônditos daquele imenso território. Houve vários mas breves encontros com populações nativas cada uma com seus costumes e língua próprios. O entendimento só era possível através de intérpretes das mais variadas origens : funcionários administrativos, comerciantes da zona, um ou outro oriundo do mesmo povo ou missionários com longa permanência na Região.
O caso a que me reporto, aconteceu no Leste, na Província do Moxico, cuja capital é Luso. Terras de Ganguelas e Luxases. Não sei exactamente em que local terá sido montado um grande palanque onde foram recebidos a Raínha N’hacatole, dos Luxases descendente da Raínha Ginga luzindo os seus trajes tradicionais, e o Rei dos Ganguelas, um homem alto e forte, mas sem nada que o inculcasse como Rei, trajava camisa e calça de caqui, tipo militar. Mas naquele palanque não havia nada onde fosse possível sentar.
Raínha N'ginga
Presidente e comitiva, todos estavam de pé. Mas esta pobreza de meios, parecia radicar em algo passado muitos anos antes. Recuemos pois, trezentos anos. Estamos em meados do Século XVl l.
O Governador João Correia de Souza recebeu no Palácio, em solene audiência, a Raínha N’ginga N’bandi (Ginga) e a sua comitiva constituída pelas mais importantes mulheres do seu reino. Num grande Salão do Palácio, rodeado de toda a sua Corte, Sua Excelência ocupava um opulento cadeirão senhorial em atitude Majestática que manteve à entrada de N'ginga N'bandi. Olhando em volta, a Raínha, não vendo sombra de cadeira, escabelo ou coxim em que pudesse sentar-se, mandou que uma das suas súbditas se pusesse "de gatas" e sentou-se sobre as suas costas
.
Em 1621, o exército da Raínha veio a derrotar o do Governador. Em 1681 morre a Raínha Ginga, católica, batipzada com o nome de Ana de Souza.
Raínha N’hacatole
Saltemos de novo trezentos anos, mas agora em sentido inverso.
Estamos de novo com o Presidente Craveiro Lopes, a Raínha KangaN’hetol e o Rei dos Ganguelas. O primeiro discurso coube ao Governador do Moxico, Dr Ramos de Sousa, angolano de origem cabo verdiana, usando de um tom de voz forte mas empostado como o dos actores de outros tempos.
A Raínha insistiu com o Rei dos Ganguelas para que falasse em primeiro lugar.
Logo se verá porquê.
O discurso foi tão longo quanto o protocolo e o intérprete o permitiram, rematando com a oferta de um boi ao Presidente Craveiro Lopes. O Chefe de Estado agradeceu a oferta, mas na impossibilidade de a transportar no avião, deixava o boi para que pudesse ser consumido numa grande festa do Povo Ganguela. Nos mesmos moldes falou a N’hacatole, mas terminando com um sorriso "malandro" e com dois dedos em riste, ofereceu dois bois. A gargalhada foi geral...ou quase. Não se riu o Rei dos Ganguelas que se terá sentido diminuído, e o Presidente
.

Aliás nunca o vi rir em toda a viajem . Mas bem faria em soltar umas boas gargalhadas de vez em quando.
É que fazem tão Bem à Alma !. . .
Não desejaria acabar esta história num tom pessimista, mas...não teria Presidente boas razões para não rir ?. . . .


Por: João Silva Blog Roxa Xenaider

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

CHEGADA A ALCANTARILHA PARA O PRIMEIRO CURSO DE TROPAS-PARAQUEDISTAS



Embarcados na Base Aérea de Sintra, em Abril de 1955, chegam a Alcantarilla (Múrcia) onde iniciam o curso num ambiente de sã camaradagem e de muito boas relações com os espanhóis, adaptando-se rapidamente ao ritmo da instrução, (pouco exigente quer física quer técnica) e à vida social da região.
E tanto assim foi que alguns militares portugueses acabaram por contrair matrimónio com jovens espanholas.


A 27 de Maio de 1955, pelas 11:00h, efectua-se o primeiro lançamento na presença de altas individualidades militares espanholas e também do Adido Militar junto da Embaixada de Portugal em Madrid, assim como de uma delegação de oficiais do Ministério da Defesa vinda expressamente de Portugal para esse fim.
Tendo saltado em primeiro lugar os já pára-quedistas, Capitão Armindo Videira e Monteiro Robalo, seguiram-se os alunos, sem qualquer tipo de problemas e com o maior desembaraço. Como demonstração de elevada estima e consideração pelo contingente nacional, saltaram na mesma ocasião o Director da Escuela, Comandante Sarrazabal e os instrutores, Tenentes Piñon, Rituesto e Garcia. A terminar esta jornada saltaram também pára-quedistas espanhóis do Exército e da Força Aérea, vindos propositadamente das suas unidades para participar neste acontecimento.
No dia 9 de Julho efectua-se o último salto do curso, o 22º. ministrado na Escuela “Mendez Parada”, sendo “brevetados” 188 militares portugueses. Para assistir a este salto e participar na cerimonio de entrega dos distintivos de pára-quedista, estiveram presentes as mais altas individualidades militares portuguesas, simbolizando bem a atenção e importância que na época teve o facto de Portugal passar a dispor de um corpo militar com características especiais.
Só assim se justifica a presença em Espanha, do Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, General Botelho Moniz, do Chefe do Estado Maior do Exército, General Barros Rodrigues e do Chefe do Estado Maior da Força Aérea interino, Brigadeiro Frederico Costa.

Nesse mesmo dia, os recém “brevetados”, bem como os anteriormente formados em França e Espanha, receberam aquele que viria a ser o símbolo mais querido de todos os pára-quedistas portugueses, a Boina Verde.
Pela primeira vez na história das Forças Armadas Portuguesas, uma boina era atribuída como artigo de fardamento, não como mais uma peça, mas sim como elemento identificador de algo que, como escreveria mais tarde o Tenente pára-quedista Fausto Marques, "…nem todos podem alcançar (a invejada Boina Verde) por isso os que a conseguem terão que defender o seu prestígio e honrá-la, sempre e em toda a
parte.”

Por: Joaquim Correia, em HUFAP (Facebook)

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

QUANDO MANCEBO NA OTA


Memórias de um passado saudoso

Recuamos a Maio de 1969, naquela época em que éramos mancebos, “teen age”, idade irreverente, Beatles, Rock, movimentação estudantil, guerras coloniais...
Alistado em 12 de Maio e incorporado em 21 do mesmo mês com o número de ordem 683 assim, percorro o caminho da Ota até 1 de Maio de 1970, para prosseguir a minha luta por mais cinco anos por terras Açorianas e Angolanas, separado dos meus 23 colegas de curso, por longos e imensos anos...
Nesta minha primeira parte de narração descreverei as vivências longínquas de 1969 depois, na segunda a publicar posteriormente, contarei as emoções dum reencontro que teve evidência em 23 de Maio de 2009 - precisamente na BA 2 - com quatro décadas de separação e, com muito esforço por encontrar o paradeiro de cada um, num percurso de pesquisa que demorou dois anos e em busca por todo o Mundo.
Parto de casa na madrugada de 21 de Maio de 1969, de comboio, com destino a Lisboa e para me apresentar nas delegações da FAP, após ter sido chumbado em finais de 1968, nos testes para a pilotagem.
De imediato, sigo de autocarro para a Ota, juntamente com outros companheiros e, no mesmo banco, deparo-me com um companheiro com o qual travo conversa.
Rosis, qual o curso que desejas tirar? Circulação Aérea... Também eu, já que chumbei nos testes para pilotagem. Certezas?!... Não havia nenhumas...
Recruta severa com instrutores como o Ten. Dias e Alf. José Cid. Passagens por canais de esgoto no fundo das pistas, caminhadas por terras inóspitas no longo verão desse ano, percursos pelo rio da Ota, noitadas de marcha – um horror de tropelias, atitude firmada pela tropa para nos tornarem adultos...


Tivemos uma das piores recrutas pois, estavam a preparar um longo documentário nesta fase, para apresentarem como acto de bravura, nos ecrãs do cinema.
Quem não roubou uns cachos de uvas pelas quintas vizinhas?
Para nos livrarem do corte de fins de semana, valeu-nos o tio (Brigadeiro) do Charolês. Sempre haviam cunhas!...
Os reforços surgiam em número para nos descontrolarem o sono. Faziam-se junto ás instalações dos Sargentos, paióis, pistas, junto à Torre de Controlo, padaria, etc, etc...
Na padaria, montei uma artimanha para o meu substituto Foncheca. Maliciosamente, coloquei a tampa da arca de forma que quando se sentasse, caísse no fundo. Não caiu logo. Deixou-me seguir a rota da camarata para iniciar o meu sono quando, ao longe, ouvi um enorme estrondo. Caiu fundo e, por todos estes anos, mantenho um sorriso de franca malvadez...
Vamos para a parada, travamos o combate de boxe e, a mim, calha-me o Vinhas, o doido varrido.


Os meses passam sem que ande de avião - sim, estou na Força Aérea e, com tantos aviões... Interrogo um outro colega, Bada-Bada, e, ele promete fazer-me voar. Sócio dum aeroclube nas Beiras, mete influências a um comandante da TAP e, num fim de semana parto para o aeródromo de Viseu para fazer o meu baptismo de voo numa Auster. Sensacional a aventura! Tinha o meu primeiro voo no papo.
O Hércules dormia com a arma por debaixo da cabeceira, prelúdio duma doença que se estava a avizinhar. Percursor duma rádio pirata, mais parecia o engenhocas “pardal”.
O Papa-léguas propôs-se casar, ainda na Ota. Altura em que eu começava a namorar... Marchava com passada longa daí, o Papa-léguas.
O Pinóquio, rapaz pacato, oriundo de Pinhel, fazia parelha com um colega da Guarda. Dois irmãos não se dariam tão bem ao longo da vida...
O Lapaduços, companheiro de camarata, raramente se deitava sóbrio. Com quinta em Alenquer, matava a sede a toda a Secção, nas adegas do avô. Endiabrado, aluno que não se via a estudar, noctívago. Passou à tangente, na última posição.
Outros, perfazendo os 23, tais como o Delta, Gordo, Clávulas, Bispo, Pipas, Mike, Mil, Patrik, Romeu e Selva ... faziam por cumprir o seu caminho nestes meses iniciais da Ota.
Lembro-me de cada um, tanto na imagem, na voz como, nas acções tidas na altura e, se hoje ainda mantenho o bigode, foi para imitar o Bigodes que já o usava em conformidade com o do Dr. Jivago.
Para o Tex, vem a recordação de lhe ter partido uma bilha cheia de água, que ele segurava pela asa e, que nos atormentava em molhar na caserna.
O Raf, rapaz calado, estudioso e, por fim, o Salteador, o único eliminado da conjura, por namoriscar maliciosamente a secretária do Gen. SP!..
Todos fizemos parte do célebre campo de concentração, malhados na eira de cimento, a comer a sopa feita no caldeirão do lixo e, os pães rijos de vários dias.
E o cinema, sala tão grande e que eu já tinha esquecido!... Parada, igreja, paióis, turbinas que era o terror dos reforços à noite...
E as deslocações para a Ota após os curtos fins de semana?!
Para quem vinha do Norte, tínhamos a “Ponderosa”, Bombas das Marés, o monte “Chapéu de Coco”, as meninas da Espinheira e, o velho café da aldeia da Ota.
Cortávamos para a recta final que nos dirigia para a Porta de Armas e, logo no início, localizava-se outra Bomba de gasolina.
Recta infinda que nos conduzia ao martírio de mais uma, várias semanas de loucura.
Chega o primeiro de Maio de 1970, terminámos os cursos e, nesta altura, seguimos outros rumos - rumos de separação quase eterna – não fosse eu, com outro companheiro, procurarmos a pista de cada um.
Nesta descrição, que muito se alongou, vamos deixar os companheiros do meu curso a hibernar nas várias Unidades, espalhadas pelo Continente e Açores. À posteriori, em Angola (6); Moçambique (14); Guiné (1); Continente (2) e, (1) eliminado no curso.
A seguir, noutra maré, retratarei o reencontro dos “Asas”, em 23 de Maio do ano em curso, na Ota, nos fugidos quarenta anos.
Lágrimas de saudades!... agruras para alguns familiares já enlutados!...

Por: Vitor Oliveira


quinta-feira, 28 de julho de 2022

A SÉ CATEDRAL DE NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO - SÉ CATEDRAL DE HENRIQUE DE CARVALHO/SAURIMO



A Catedral de Nossa Senhora da Assunção (Sé Catedral de Nossa Senhora da Assunção também chamada Catedral de Saurimo), é o nome dado a um edifício religioso afiliado à Igreja Católica que está localizado na cidade de Saurimo na província da Lunda Sul no nordeste do país africano de Angola.
A estrutura atual foi construída entre 1958 e 1959 e recebeu a benção oficial apenas em 1961 quando Angola ainda era uma província ultramarina de Portugal.


A catedral segue o rito romano ou latino e é a igreja principal ou matriz da Arquidiocese Metropolitana de Saurimo (Archidioecesis Saurimoënsis), que foi criada como diocese pelo Papa Paulo VI em 1975 e foi elevada ao seu status atual em 2011 através da bula "Quandoquidem accepimus" do Papa Bento XVI.

Enquadramento Histórico e Urbanismo

Saurimo era, na última fase colonial, a capital do distrito da Lundatendo sido elevada à categoria de cidade no fim dos anos 50 do século XX. 
Em 1923, o governador‐geral Norton de Matos alterou o nome da cidade para Henrique de Carvalho, em homenagem ao militar que, no final do século XIX, foi encarregado de uma missão junto do imperador da Lunda, para obter conhecimento das populações do interior e das condições físicas do sítio. 
Concluído o seu trabalho, Henrique de Carvalho propôs a criação do distrito da Lunda, tendo ocupado o lugar de primeiro governador do jovem distrito em 1895.
A cidade beneficiou da localização geográfica, ligada à estrutura viária inter‐regional, com uma posição geoestratégica dentro do distrito da Lunda. Assim desempenhou o seu papel de centro de comércio, quer pelo facto de estar na rota de Luanda, Malange, Portugália e Dundo (sede da Diamang), quer por se localizar junto à ligação ao Luso. 
Com uma ocupação recente, já no século XX, a cidade surgiu num planalto, estruturada em quadrícula, com os edifícios oficiais e públicos sempre isolados, ganhando destaque, quer na sua relação com a morfologia do espaço público, quer pelo carácter do seu desenho.



Em agosto de 1973, foi apresentado um Plano de Zonas de Ocupação Imediata, do arquiteto Adérito de Barros, que veio enfatizar os princípios urbanos já absorvidos anteriormente, trazendo no entanto algumas novidades, como o estabelecimento de zonas de expansão e as suas vocações, a criação de novas zonas residenciais para populações economicamente menos estabilizadas, a reorganização da estrutura viária e a criação de novos acessos, especialmente com a consolidação de grandes rotundas (pre‐existentes) que, de forma monumental, conferiam uma nova escala à cidade.


Monumentos e Estatuária Frente ao Palácio do Governo, foi implantada, antes de 1963, a estátua a Henrique Dias de Carvalho, que no final do século XIX explorou a região e foi o primeiro governador da província da Lunda, a nova criação administrativa por ele proposta.


Texto By hpip.org 
José Manuel Fernandes 
Maria Manuela Fonte

quinta-feira, 14 de julho de 2022

E DEPOIS...CUNENE !



Percorri centenas de quilómetros numa carrinha, sobre estradas escaldantes que se estiram através de florestas inóspitas ou de planuras selváticas, cobertas de capim, para chegar ao Forte-Roçadas.
Este povoado encontra-se a sul da província de Huila, uma das cinco em que se divide a vasta Angola.
Banhado pela margem esquerda do rio Cunene, o seu nome fala-nos do excelente militar Alves Roçadas que em 1907, tendo o comando de dois mil homens, derrotou os povos guerreiros de Além-Cunene…
É um povoado distante, erguido no cimo de um outeiro…

Calquei pela primeira vez o seu solo ardente, numa noite fantástica de escuridão, em que o brilho das estrelas tinha reflexos angustiosos. Levava o coração oprimido por certo temor, pois de alguns citadinos pessimistas, eu tinha ouvido as piores informações a respeito do Forte-Roçadas, tanto pelo seu clima insalubre como pela imensa variedade de animais selvagens que circundavam a sua vizinhança. Talvez por isso, apoderou-se de mim uma intensa emoção naquela hora.
Após ter atravessado o rio Cunene, numa jangada que pretos vigorosos conduziam, subi a uma pequena encosta.
E sob o negrume da noite eu apenas distinguia o lugar onde pisava. O mais, eram sombras e mistério…
De longe chegavam até mim gritos estranhos acompanhados de um tan-tan dolente - Era a sinfonia do batuque! Já tinha ouvido tais sons em outras latitudes, mas aqui, ao ouvi-lo, surgiu na minha mente uma visão trágica desta África misteriosa que eu tanto gostava e que que me pareceu quase desconhecida, apesar de tantos anos por lá vividos, tanto em Moçambique (aqui menino e moço) como em Angola, já como militar.
E tive algum receio.
Já lá vão alguns anos após aquela noite, e hoje passado tanto tempo, reconheço como eram exagerados os meus medos que se fundamentavam em perigos duvidosos e fantasiados. Na verdade, nós muitas vezes fazemos uma má impressão desses povoados longe do bulício das cidades, perdidos no isolamento da selva do Continente Negro.
E, contudo, lá vive-se bem. Tudo é tão simples, tudo é tão natural. Existem, é certo, as doenças tropicais, mas a assistência médica até não era má e com bastantes elementos preventivos para as combater. E se pensarmos um pouco, concordamos que não é só nos lugares mais recônditos de África que há doenças malignas. Elas existem em todo o mundo.
Quanto aos animais ferozes, não vi neles grande perigo a que muita gente se referia. As feras só quando estão feridas ou, em casos muito excepcionais quando têm fome, pois de contrário fogem do homem, como algumas vezes tive a ocasião de verificar. Se assim não fosse o que seria desses negros que ainda hoje caminham quase meio despidos, durante quilómetros e quilómetros por caminhos sinuosos através da selva.
Forte Roçadas
A principio experimentei uma profunda saudade do meu Portugal distante, mas também conhecia a Lunda, no Leste de Angola,onde cumpria o serviço militar como Especialista da FAP e acabei de sentir-me feliz naquela terra ardente!
Naquela solidão imensa interrompida só pelo vento da floresta e o ribombar dos trovões e o som inexplicável dos silêncios da noite, havia uma magia que nos prende e nos obriga a gostar desta misteriosa África.
Os dias ali iam decorriam calmos, (poucos) pondo em êxtase contemplativo os temperamentos românticos e sonhadores dos nossos poucos ainda anos.
Realmente o Forte Roçadas oferecia-nos panoramas lindíssimos. Muitas vezes ao pôr do Sol eu fui colocar-me num dos pontos mais elevados, experimentando a grandiosidade da paisagem. Lá para baixo para as bandas do poente, longos espaços cobertos de capim, substituídos em alguns pontos por bosques limitado. Onde predominava o embondeiro, essa árvore gigantesca que é como que a sentinela do sul.
E as horas decorriam serenamente…
O Sol, qual enorme globo de fogo movia-se com grande velocidade e à medida que se aproximava da linha do horizonte aumentava de diâmetro, espalhando colorações que iam do vermelho e amarelo ao roxo esbatido.


Que quadro maravilhoso…

Por: Aníbal Oliveira



quinta-feira, 30 de junho de 2022

HÁ 99 ANOS ERA REALIZADO O PRIMEIRO REABASTECIMENTO EM VOO.

Os tenentes Virgil Hine, Frank Seifert, Lowell Smith e John Richter, do Serviço Aéreo do Exército dos EUA, fizeram o primeiro reabastecimento em voo em 27/06/1923 com dois biplanos Airco DH.4B. Foto: USAF.


Há quase 100 anos, quatro aviadores norte-americanos entraram para a história da aviação ao realizarem o primeiro reabastecimento em voo. O que começou como uma experiência se tornou uma capacidade muito importante para diversas forças aéreas no mundo todo.
O acontecimento ocorreu em 27 de junho de 1923 em San Diego, Califórnia, e envolveu dois biplanos Airco DH.4B do Serviço Aéreo do Exército dos EUA — que mais tarde se tornou Corpo Aéreo, depois Força Aérea do Exército e finalmente, em 1947, a Força Aérea dos EUA (USAF) como uma instituição independente — tripulados pelos tenentes Virgil Hine, Frank Seifert, Lowell Smith e John Richter.
As duas aeronaves foram modificadas com base em estudos do engenheiro e aviador russo-estadodoniense Alexander de Seversky. De maneira simplificada, o DH.4B de Hine e Seifert seria o avião-tanque, estendendo uma mangueira de 15,24 metros até o DH.4B de Smith e Richter, que voava logo abaixo.


Enquanto Hine e Smith pilotavam suas aeronaves, Seifert e Richter ficaram responsáveis pela transferência de combustível entre os aviões. Com as aeronaves conectadas, os pioneiros foram capazes de transferir 284 litros de gasolina de um avião para a outro, marcando o primeiro reabastecimento em voo na história.
O voo todo teve uma duração de 6 horas e 38 minutos, só não indo além por conta de um problema no motor do DH.4 de Smith e Richter.
Dois meses depois, os mesmos aviadores voaram por 37 horas e quinze minutos em mais uma demonstração onde foram realizadas 16 transferências de combustível. Na ocasião, dois DH.4B serviram como aviões-tanque para outro biplano do mesmo modelo.


Por

Gabriel Centeno, em Aeroflap

quinta-feira, 16 de junho de 2022

O PASSADO QUE NOS MAGOA


Ainda hoje carrego na alma a tristeza das feridas dos meus amigos!
Anos de juventude, em brincadeira, trabalho duro, com frieza, tempos idos de amores perdidos que nem sempre terminaram da melhor maneira!
Amizades cimentadas pela refrega, calor imenso que encharcava, importante era “sacar” os feridos, camaradagem que tudo entrega, nem saudade, nem lembrança, disfarçado tremer quando no copo pega!
Os Mig’s pegaram comigo por acaso, três ou quatro minutos de diversão, bailados de diferentes velocidades, bruma espessa de areia fina feita, que me pareceram Fiat’s nas suas habilidades! Nas matas de Gandembel e Cantanhês o meu encontro do primeiro grau!
Porque não escrevi? A memória fui aliviando, por desgosto e desilusão, o peso descarregando para não contar muito do que vi! Alguns, idos, merecem-me compaixão, outros, vaidosos que nem pavão, fazem-me sorrir, por respeito á sua idade deixo-os acabar absolutamente convencidos que a todos conseguiram enganar!
Vi antiaéreas a vomitar, suores frios no abrasador cokpit, subida rápida a 2.500 terminar, sol de costas para apontador encandear, picada louca para a 2.000 as bombas largar, saída á esquerda para rapar, uff, não foi desta e, com fé, assim me hei-de safar!
Bombas e foguetes, não, não é, da minha terra o Carnaval, á entrada ouço nos auscultadores do capacete a voz preocupada do Tubarão, Tigre abatido nas antiaéreas de Gandembel, velocidade aproveitada e ainda vi o paraquedas a entrar pelo matagal; Melro dois, não faz fogo, siga-me; O paraquedas era do, na altura, Ten. Cor. Costa Gomes, comandante do grupo operacional, o seu asa era o, também na altura, Capitão Vasquez, hoje, os dois, Generais.
Vislumbrei-o no meio do arvoredo e, para o galvanizar, pus, á sua frente, as minhas metralhadoras a vomitar! O seu asa, com quem, ainda ontem, estive a falar, em mínimos de combustível regressou a Bissalanca, dizendo-se confortado por eu ali estar! O Gomes da Silva chegou de Dornier, pois andava na missão de distribuir o correio, ficou, aos círculos, em cima do “quartel”, enquanto eu, em passagens baixas, indicava a direcção do aquartelamento, fazendo, de seguida, mais umas rajadinhas, boa maneira de festejar o momento!
O nosso comandante de grupo entrou, triunfalmente, pela “porta de armas” da força no terreno, com o espanto do plantão de serviço!
História séria contada a sorrir, sem qualquer glória, há outras versões, poetas da minha terra, que bom ficar na memória quando se passou o tempo a dormir!
O helicóptero transportou o comandante, á tardinha sou chamado ao seu gabinete e, com dois copos na mão, ele quis oferecer-me um beberete!
- Diga-me cá uma coisa, para onde foi quando me deixou?
- Bom, fui largar os bombons que o senhor não largou.

Por: Jaime Marinho de Moura - Piloto


quinta-feira, 9 de junho de 2022

TER OU NÃO TER CARA DE PILOTO



Estava nesse tempo – já lá vão cinquenta e dois anos! – a fazer o curso operacional de F-84 na Base da Ota e só ia a casa dos meus pais muito raramente. A viagem era longa e bastante cara para as minhas possibilidades nessa época.
O que vou contar aconteceu numa dessas viagens.
Quando o comboio chegou, entrei e procurei um lugar para me instalar... Olhei os diversos compartimentos da carruagem, procurando escolher os companheiros da longa viagem até ao Porto. Num dos compartimentos vi um individuo da FAP e, pela insígnia que usava, compreendi que era rádio-telegrafista (op. de comunicações). Sentadas do lado oposto, estavam duas jovens e uma senhora de idade avançada. Decidi instalar-me ali e entrei. Arrumei o meu saco de viagem, sentei-me e acendi um cigarro, disposto a esperar uma oportunidade para entrar na conversa. Entretanto, fui ouvindo.
À medida que o jovem aluno R/T ia desenvolvendo o seu tema, o meu espanto ia subindo gradualmente e tive mesmo que fazer um certo esforço para não me rir à gargalhada!
Perante o olhar de admiração, e algumas vezes de terror, das suas ouvintes, o nosso amigo aviador fazia passagens baixas na sua terra, entrando em volta entre as torres da igreja, - explicou que o avião não cabia direito - e passando em “looping” por baixo da ponte! As palavras eram acompanhadas por gestos elucidativos, que melhor expressavam a dificuldade da ação. Depois subia na vertical, para logo descer em “parafuso”, saindo em vôo invertido sobre o largo da aldeia! Quando se cansou de “esmagar” toda a acrobacia deixando a velha senhora à beira de um colapso cardíaco, resolvi intervir, não da maneira que gostava, mas apenas para “entrar” e ver no que aquilo dava.
- Desculpe interromper, mas depois do que acabei de ouvir, o desejo que já existia em mim de ser piloto, intensificou-se.
Olhou para mim franzindo as sobrancelhas e eu continuei:
- Como é que eu poderei ir para piloto?
O olhar de superioridade com que me contemplou, deixou-me petrificado! Mais do que as próprias palavras, ofendeu-me o ar de desdém com que as pronunciou:
- Sabe, - disse esticando o pescoço esguio – isto de ser piloto não é para toda a gente. Primeiro, é preciso ter habilitações para isso, depois...
Interrompi-o, dizendo-lhe as minhas habilitações literárias, mas ele não me ouviu e continuou:
- Depois são as inspeções, rigorosíssimas, passam dois ou três por cento.
Não me dei por vencido e retorqui:
- Bem, eu posso ficar nos dois ou três por cento!
- Nem pense nisso! - e perante a minha estupefação, concluiu: - A mim basta-me olhar para um tipo para saber se dá ou não para piloto. E você não tem cara disso!
Fiquei completamente esmagado! A minha vontade era desmascará-lo, ali imediatamente, mas consegui controlar-me.
Durante longos minutos permanecemos silenciosos. O mal estar era visível e ele próprio deve ter compreendido que se excedeu. Levantou-se e saiu para o corredor. Levantei-me também e segui-lhe os passos. Encontrei-o junto ao wc, aguardando que este ficasse livre. Era a oportunidade desejada. Toquei-lhe no ombro para que me olhasse.
- Com que então eu não tenho cara de piloto, hem? E você, seu pilantra, tem a lata, o descaramento de se fazer passar por piloto! Lá que você enfiasse as “galgas” que quisesse às meninas, ainda vai que não vai, mas dizer-me a mim, que até sou piloto, que não tenho cara de piloto, é demais!
O rapaz ficou completamente enfiado. Torcia e retorcia o bivaque nas mãos, murmurando desculpas ininteligíveis.
A casa de banho ficou livre e ele fez-me sinal para entrar, o que fiz. Quando saí já não o vi. Tão pouco estava no compartimento. As moças comentavam entre si a saída rápida e inesperada do aviador.
- Mas ele disse que ia para o Porto e, além disso, o comboio não parou em nenhuma estação!
Uma delas dirigiu-se a mim:
- O senhor sabe o que se passou com aquele aviador que ia connosco?
- Não! - respondi - Eu apenas lhe disse que era da polícia aérea e, com tantas infrações, nem o ordenado de um ano lhe chegava para pagar as multas!


Por: Abílio Alves Ferreira