sexta-feira, 23 de junho de 2017

AMÁLIA EM HENRIQUE DE CARVALHO

Noticiava o Jornal da Lunda, em Maio de 1972.
OS SOLDADOS DA BASE AÉREA
Amália veio a Angola cantar para as Forças Armadas.
O programa fora elaborado em Lisboa.
Henrique de Carvalho não constava no roteiro de Amália. Disso nenhuma culpa cabia à "Rainha do Fado".
Uma empresa particular contratou Amália para actuar em Henrique de Carvalho e a Amália esteve no Chicapa-Cine.
Se toda a cidade se alvoraçou, os militares não fugiram á regra. 
Por insistência dos soldados, foram feitas todas as tentativas para que Amália desse esse espectáculo na Base Aérea. Porém todos os esforços foram baldados.
Cantando no Chicapa na noite de 8 de Maio, no dia imediato, ainda de manhã, Amália tinha de partir para Gago Coutinho. Era humanamente impossível ceder aos rogos dos soldados da Base Aérea de Henrique de Carvalho.
Para os soldados houve, no entanto, um desconto de 50% nos bilhetes. Na segunda parte do espectáculo, o desconto foi de...100% pois, para soldados, Amália ordenou entrada gratuita.
Apesar disso, involuntáriamente, já se vê, Amália entristeceu os militares.




sexta-feira, 16 de junho de 2017

ATERRAGEM COMPLICADA EM S. TOMÉ

DC em trânsito em S. Tomé


Um episódio passado há muitos anos e que penso que pode ser interessante para os meus amigos do FAP. Por isso aqui vai.Decorria o ano de 1973, quando, em São Tomé ocorreu um acontecimento que me ficou na memória para o resto da vida e que tenho todo o prazer em recordar.Um Nordatlas da esquadra dos elefantes, com base em Luanda, fazia a sua missão mensal de transporte de pessoal e abastecimento ao Aeródromo de Trânsito nº 2 (AT2) e também para o exército baseados na ilha. Estes aparelhos chegavam carregados de carne e outros víveres, que eram raros por ali. O pessoal tinha uma máxima para a Esquadra que operava estes aparelhos. “Se mais houvera, mais transportara”. O aparelho na gíria menos técnica era o “barriga de ginguba”.


Quando o avião se aproximava, desabou uma chuvada tropical muito intensa, de tal ordem que as referências visuais foram perdidas e a única orientação em relação à ilha era o rádio-farol. Lembremo-nos que naquele tempo não existiam os actuais meios de navegação nem algo de parecido.
A alternativa era o aeródromo na ilha do Príncipe e foi para lá que a tripulação levou o aparelho. Na ilha do Príncipe, a situação era igual e voltaram para trás na esperança que o tempo melhorasse.
Ouvia-se em terra o ruido dos 2 potentes Bristol Hercules com cerca de 2000 cavalos de potência, enquanto o Nord fazia círculos esperando que a chuva parasse.
Não parou.
Na altura estava a ser reparado o sistema GCA (Ground-controlled approach) que tínhamos no aeródromo. Um sargento especialista do qual não me lembro o nome e que tinha sido destacado para lá precisamente para reparar o equipamento, foi abordado pelo Capitão Silveira.
“Chefe, preciso do GCA agora. Tenho que por em terra um aparelho e uma tripulação!”
“Sr. Comandante, mas só aterrámos dois aviões civis e com boa visibilidade!”
“Temos alternativa?”
O equipamento foi ligado e, frente ao tubo de raios catódicos (agora seria um qualquer monitor de computador) tomou assento o Sargento Lemos, Controlador de Tráfego Aéreo no aeródromo. Por trás dele o Capitão Silveira ansioso como todo o grupo que estava na Sala de Transmissões, observavam o que acontecia.
A imagem apresentada no visor ao controlador, era dividida em duas partes, superior e inferior.
Uma linha horizontal luminosa representava a direcção ideal que o aparelho deveria seguir para alinhar com a pista. Um ponto luminoso, a posição relativa do avião detectado.
Uma linha inclinada luminosa representava a trajectória ideal de descida que o aparelho deveria seguir para tocar com as rodas no início da pista. Outro ponto luminoso a posição relativa a essa trajectória do avião.
Depois de serem informados que o equipamento ia ser usado embora estivesse em fase experimental, a tripulação começou a receber informações sobre a trajectória a seguir.
O sargento Lemos, com a voz muito calma, mesmo numa situação aflitiva como aquela, ia transmitindo ao piloto as atitudes que este deveria tomar:
“Força aérea 64?? corrija a sua direcção para 291 graus”
“Força aérea 64?? Mantenha uma taxa de descida de X pés por minuto”
“Força aérea 64?? Corrija a sua direcção para 290 graus”
Depois de uma aflição e um nervosismo enorme causado pelo movimento daqueles pontos afastando-se e aproximando-se das linhas referenciais, o chefe Lemos declara:
“Força aérea 64?? Dentro de três segundos verá a pista 29. Bem vindo a São Tomé”
Quatro a cinco segundos passaram e há resposta do avião:
“Aerofap S.Tomé 64?? ;qualquer coisa que não me recordo; tal era o ruido de palmas e ruídos emitidos pela tripulação.
Da mesma forma nos manifestámos com cumprimentos e abraços fazendo lembrar cenas de filmes americanos onde o herói cumpre a missão.
O Capitão Silveira vira-se para mim e diz:
“Gato, vá busca-lo!”
Claro, eu estava de serviço nesse dia. Coloquei sobre mim uma capa de oleado, camuflada, daquelas que o pessoal que andava no mato usava e que também serviam para fazer uma mini tenda, e avancei para as pistas.
Continuava a chover torrencialmente e coloquei-me sobre a linha do taxiway mesmo na entrada do estacionamento. Ouvia o ruido dos potentes motores a aproximarem-se cada vez mais mas sem qualquer referência visual. Depois de alguns momentos que me pareceram uma eternidade, aparece-me a cerca de 15 metros mais ou menos um monstro enorme. Estava de braços abertos e lembro-me de os ter abanado para cima e para baixo para que os pilotos me vissem. Assim aconteceu, vi um sorriso na cara do piloto tal era a proximidade e também porque o Nordatlas tinha uma boa visibilidade frontal. Comprimentámo-nos com uma palada e lá encaminhei o aparelho para o seu lugar no estacionamento mesmo debaixo daquela chuva intensa.
A tripulação fez os seus procedimentos e entregaram-me o avião para descarregar.
O 6402 estacionado no AT2 - foto de Carlos Firmino

A chuva parou nesse instante, e digo instante porque em S.Tomé era mesmo assim. Passado pouco tempo não havia água na placa e o céu apresentava um azul lindo.
A tripulação assim que abandonou o aparelho dirigiu-se para o bar onde comemoraram com o pessoal de terra a vitória de terem conseguido aterrar naquelas condições.
Como esta, existirão com certeza muitas aventuras passadas pelo nosso pessoal durante o serviço que prestaram na sua vida militar.
Nunca esquecerei esta estória, que conto aos meus amigos muitas vezes, salientando a coragem da nossa gente e o profissionalismo dos elementos que formaram e formam a nossa Força Aérea.


Especial contributo 









de Carlos Gato MMA


sexta-feira, 9 de junho de 2017

UM MAGRO NA PRISÃO DE GAGO COUTINHO


Numa terça-feira (dia de São NordAtlas), dia em que a maior parte dos militares aquartelados em Gago Coutinho ia à pista de aviação ver quem chegava e aguardar pela entrega do correio, o nosso Furriel Magro estava de Sargento de Piquete. Este serviço em Gago Coutinho era desgastante, já que o Comandante do Batalhão ordenava que o piquete, durante toda a noite, fizesse constante patrulhamento fora do quartel, ou seja, concretamente, patrulhar a vila.
O nosso Furriel Magro, após o render da parada, dirigiu-se ao alferes responsável pela oficina auto, alferes de origem indiana e do qual não se lembra o nome e ao qual requisitou dois Unimogs para o serviço do piquete (15 homens, incluindo furriel e condutores).
O alferes disse-me de, imediato, não ter viaturas operacionais, apenas um jeep disponível. Fiz-lhe ver que tinha de ir fazer segurança à pista de aviação, para o NordAtlas aterrar em segurança e tinha de, á noite, fazer o patrulhamento à Vila.
"Ó pá já lhe disse que não tenho viaturas operacionais, algumas já saíram em serviço e estes aqui estão para ser reparados, leve o jeep se quiser".
Perante esta situação eu disse para comigo: "Ai é assim, então esperem para ver no que isto vai dar!"
E não é que deu mesmo para o torto, pois até meteu prisão e tudo!
A hora da chegada do Nord, avião de carga (o barriga de ginguba , como lhe chamavam) era pelo meio da manhã. Avisei o pessoal de serviço de que não havia viaturas e ordenei ao cabo condutor que fosse buscar o jeep (um Willys) e que estivesse atento à chegada do avião.
Por volta das 10,30 horas o NordAtlas apareceu no ar e eu ordenei ao condutor do jeep que com 4 militares seguisse para a pista que eu seguiria a pé com os restantes elementos que estavam de piquete.
O avião sobrevoou a pista duas vezes e não aterrava.
Eu, entretanto, em passo de corrida com os restantes elementos do piquete, fui para a pista e dirigi-me ao alferes que estava de oficial de dia e informei-o que não havia viaturas operacionais e portanto a segurança à pista era efectuada por 4 militares que se deslocavam no jeep e eu seguiria a pé com os outros militares para completar a segurança.
Entretanto, o piloto deu indicação via rádio que não aterrava devido à falta de segurança em volta da pista.
Eu já seguia a pé com os homens, cinco de cada lado, na mata existente na orla da pista.
O avião deu mais uma volta e lá acabou por aterrar. Descarregou o que tinha a descarregar, embarcou quem tinha que embarcar e passados 30 a 40 minutos voltou a levantar voo. 
O piquete regressou nas calmas ao ponto de partida e quando lá cheguei estavam o Comandante do Batalhão e o Alferes Oficial de Dia à minha espera. Bati a respectiva pala e de imediato o Comandante ordenou ao oficial de dia que metesse todo o piquete na prisão, por 3 dias.
Lá fui eu e os restantes militares atrás do oficial de dia, o qual não sabia onde era a prisão, nem sequer se a mesma existia. Ao fim de algum tempo lá “encatrafiou” os 14 militares numa arrecadação e a mim disse-me que não tinha local para me prender. Eu ainda lhe disse que não me importava de ficar preso junto do pessoal que eu comandava, mas entretanto lembrei-me que na tropa existiam prisões separadas para praças, sargentos e oficiais.
Face a esta situação, disse-me para eu ficar preso na caserna dos sargentos. Eu lá fui para a minha cama e comecei a berrar que estava preso, que não me incomodassem e que exigia que me trouxessem o "tacho" à cama, o que assim veio a acontecer. O alarido por mim feito começou a surtir efeito e toda a gente queria saber o que tinha acontecido e, sempre que alguém se aproximava de mim para indagar o que tinha acontecido, eu, aos berros, corria com o pessoal dizendo que estava preso e não tinha direito a visitas e que fossem pedir autorização ao oficial de dia para me poderem visitar.
Esta situação era caricata já que a caserna era grande e dormiam lá vários militares que tinham forçosamente que comigo conviver, mas eu fazia questão de cumprir o meu papel de preso, ponto final!
No segundo dia, pela manhã, o 1º. Sargento Humberto (um militar culto e de bom nível) veio
junto de mim, perguntou-me se podia falar comigo e disse-me: "Olhe lá ó Magro, você está a levar isto numa de desportiva, mas olhe que as férias vão-lhe para o caraças e esta coisa, a andar prá frente, pode vir a dar-lhe cabo da vida. Trate mas é de arranjar uma folha de papel de 25 linhas e faça já uma exposição-reclamação dirigida ao Comandante, contestando a prisão, pois pelo que eu já soube, você não tem culpa absolutamente nenhuma do sucedido."
Eu segui os conselhos do 1º. Humberto e lá redigi a reclamação. O alferes responsável pela oficina auto foi testemunha e confirmou a inexistência de viaturas operacionais, o alferes oficial de dia confirmou que eu me apresentei junto dele na pista, informando-o que não tinha viaturas e que a segurança da pista, ainda que deficiente por falta de viaturas, foi efectuada a pé. O 1º. Sargento Humberto, introduziu-lhe alguns termos e preceitos militares e lá mandei entregar a exposição ao Comandante.
Na tarde do 2º. dia de prisão o Comandante mandou chamar-me ao seu gabinete, através do oficial de dia. Dirigi-me para o Gabinete do Comandante, mas antes passei pelo local onde estavam presos os soldados e encontrei a arrecadação aberta e sem ninguém.
Lá segui para o gabinete, entrei bati a pala e fiquei em sentido aí a uns 2 metros da sua secretária. O Comandante era um homem baixote e de bigodinho e óculos grandes. Tinha sido anteriormente, segundo diziam, Comandante da polícia, creio que em Lisboa e, portanto, estava habituado a resolver tudo através da prisão, penso eu.
Depois de olhar para mim e para a folha de 25 linhas, levantou novamente o olhar para mim e disse-me: "olhe isto que está aqui escrito não vale nada". Eu reagi afirmando: "Meu Comandante o que aí está escrito é a pura realidade do que se passou a não ser que o meu Comandante pretendesse que eu com um jeep de 4 lugares tivesse lá colocado 15 militares e isso eu não fiz nem nunca farei".
O Comandante respondeu-me: "Pode-se retirar, o seu capitão está ausente, eu irei falar com ele logo que ele chegue, a fim de me informar acerca da sua valia militar".
Retirei-me e, mal tinha saído do gabinete, dei com a presença de alguns soldados que tinham estado presos, cá fora á minha espera (souberam da minha ida ao gabinete do Comandante) e de imediato me interrogaram: "O que é que o 'Zé da Fisga' (alcunha do Comandante que os soldados criaram) lhe quer? A nós já nos libertaram porque amanhã vamos participar numa operação de 3 dias e precisavam de nós". "Ai é?!" - disse eu - "Se calhar a mim vai-me suceder o mesmo".
Foi verdade e eu também alinhei nessa operação de 3 dias. O episódio da prisão de todo o piquete acabou no segundo dia devido á necessidade dos 15 militares para uma operação. O capitão nunca me tocou neste assunto, o que me leva a crer que o Comandante nunca lhe falou sobre o episódio do piquete que foi todo engavetado por não ter viaturas operacionais para efectuar o serviço de segurança á pista de aviação.

Conclusão:
- 15 militares foram presos por não existirem meios que possibilitassem a execução do serviço de que estavam incumbidos!
- Os mesmos 15 militares foram soltos no 2º. dia de prisão, a fim de participarem numa operação!

Ele há coisas que, de tão absurdas, só mesmo na guerra é que podem acontecer. 

Por: Rogério Alberto Valente Magro
ex-Fur. Milº Atirador de Infantaria CCAÇ 1719
Angola - 1967/1969 



sábado, 3 de junho de 2017

NUNO ALMEIDA "POETA" - MECÂNICO DE HELICÓPTERO



Ao fim de 10 meses, fui ferido. Vinha passar cá os anos, o Natal e o Ano Novo. 
Era 25 de Novembro de 1972.
Levantei-me mais tarde, preparei-me para embarcar às 16h e fui despedir-me da malta ao hangar. De repente apareceu um jipe de alerta com um piloto. O gajo que estava de serviço foi para o helicóptero, preparou tudo, e
 quando o motor começou a trabalhar fiquei a pensar que ia andar um mês e tal sem andar num bicho daqueles. 

Desatei a correr, o piloto parou, abri a porta e pedi-lhe: “Deixa-me ir a mim.” Quinze minutos depois saltei com a maca para ir buscar os feridos à mata de Choquemone, ao pé de Bula. Era pessoal do exército. Piriquitos, só com dois meses de Guiné. Tiveram dois feridos, estenderam os oleados cor-de-laranja, pediram a evacuação e ficaram sossegados, sem fazer o perímetro de protecção. 
Os turras ficaram ali à espera. Quando saí, ouvi uma morteirada cair. Ia a caminhar para os feridos e os gajos levantaram-se à minha frente a disparar. Virei-me para ir para trás e caí logo em cima da maca: levei com uma bala de cabeça cortada na artéria femural da perna esquerda. Entrou, mas não saiu. Não sei se desmaiei logo. Tenho flashes. Só ouvia uma voz: “Não grites para eles não saberem que estamos aqui”. Era o furriel que me salvou a vida. Ficámos nós e os dois feridos. Os outros fugiram e foram abatidos. 
Morreram 35 gajos. Ele fez-me um torniquete e, como tinha um buraco a deitar golfadas de sangue, agarrou nos guardanapos de papel das rações de combate, fez bolas e empurrou-as lá para dentro com o dedo. Meteu tanto papel que aquilo coagulou, secou e deixei de ter hemorragia. 
O piloto ao ver-me cair levantou voo. O helicóptero levou com 117 balas e só aguentou sete minutos no ar. Antes, comunicou para a base que a tropa estava a ser dizimada e que eu tinha morrido. 
Um rapaz da Força Aérea embarcou para Lisboa com essa informação e, quando aterrou em Figo Maduro, disse à minha família que eu tinha ido fazer uma evacuação antes do embarque e que tinha falecido."

Por:



sexta-feira, 26 de maio de 2017

DESTACAMENTO ATRIBULADO

Estávamos em Agosto de 1966.
O MPLA mais bem organizado que a FNLA, começava cada vez mais a dar sinais de crescente actividade e as suas acções já alastravam ao leste, até então sossegado e com uma actividade militar reduzida.
Um aquartelamento perto de Gago Coutinho foi insólitamente atacado. A NT, apanhada de surpresa, não reagiu a tempo de evitar alguns feridos com certa gravidade.
O AB4-Aeródromo Base nº.4, de Henrique de Carvalho, era a unidade que cobria aquela enorme área, com uma dimensão de cerca de 7 e meia de Portugal continental e que apoiava as forças atribuídas á Zona de Intervenção Leste (ZIL). Dispunha de dois Aeródromos de Manobra (AM), um no Camaxilo (AM 42), no nordeste, e outro no saliente do Cazombo (AM 43).
O Luso, com o seu aeroporto, era também um óptimo ponto de apoio, quer pela sua localização, quer por estar instalado naquela cidade o comando da ZIL.
Foi neste contexto, e em consequência do ataque já referido, que foi decidido enviar dois AL III da Esquadra 94 da BA9 (lema: do Miconge á Luiana) para o Leste de Angola, mais exactamente para o Luvuei, na zona de Gago Coutinho, a fim de apoiar, em vários tipos de acções, o Batalhão ali aquartelado, entretanto reforçado com uma companhia de Comandos.
Foram para esta missão escolhidos e nomeados os pilotos, Tenente Vilalobos e o Sargento Pinho, que durante cerca de dois meses desenvolveram de forma brilhante, intensa actividade operacional, intervindo directamente nas operações então realizadas, quer através de acções de transporte de manobra e assalto, quer apoiando logisticamente a tropa no terreno, ou procedendo à evacuação de feridos. Foi ainda integrado no Destacamento um DO 27 do AB4, pilotado pelo sargento Pinto de Sousa.
Entre os vários momentos de grande tensão porque passaram estes pilotos, durante a sua permanência por aquelas paragens, um episódio de certa forma insólito, ocorreu na sequência de uma acção de investigar um ajuntamento de pessoal deveras suspeito, referenciado junto de um quimbo, e que, segundo os especialistas em informações, estaria presumidamente a receber propaganda e instruções do MPLA.
A pressa com que foi decidida esta missão, não deu sequer tempo para nela poder participar o tenente Vilalobos, entretanto voando no DO 27. Assim, foi o sargento Pinho que tentando aproveitar o factor surpresa, preparou a missão com cuidado especial, de maneira a não serem dados indícios do movimento aéreo a eventuais informadores do MPLA. Logo que o seu héli ficou pronto, mandou embarcar para-quedistas e descolou o mais rápido possível em direcção ao objectivo, mantendo um voo rasante durante toda a rota. Já com o quimbo identificado, manteve-se na aproximação final encoberto pelas copas das árvores até aparecer repentinamente, no meio de grande alvoroço daquelas gentes e de uma enorme de poeira, já imobilizado em voo estacionário, a dois metros de altura, mesmo no centro do tal ajuntamento.
Num instante os "paras" saltaram do AL III, apontando as armas aquele pessoal completamente surpreso e amedrontado, enquanto o héli descolava para se manter a circular sobre a zona, vigiando o desenrolar dos acontecimentos.
Entretanto, cá em baixo os "páras" averiguavam a razão daquele ajuntamento, enquanto o sargento Pinho aguardava ansiosamente o resultado da acção e as instruções para a segunda fase. Não foi preciso esperar muito, rapidamente os "páras" informaram que a razão daquela "reunião": era simplesmente um casamento !!
Claro que posta de lado uma infiltração do MPLA, o sargento Pinho aterrou calmamente para recolher o pessoal.
Porém não foi fácil o reembarque, pois os chefes indígenas (não sei se os pais da noiva ou do noivo) à viva força queriam que o nosso pessoal participasse na boda .
Nem todas as participações dos nossos aviadores foram tão felizes como esta. A guerrilha ia melhorando a sua técnica, o IN obtinha resultados significativos devido a uma perfeita aplicação do factor surpresa, a um forte armamento e a uma inteligente utilização dos caminhos de fuga durante a noite.
O apoio aéreo tornava-se cada vez mais indispensável, quer através de meios de ataque, reconhecimento e perseguição, quer para evacuação de feridos, transporte de pessoal ou mantimentos.
Assim, considerando-se a necessidade de manter meios aéreos naquela região, foi decidido manter um destacamento aéreo permanente no AM 43, situado na vila do Cazombo.
E para dar inicio a essa missão, fui eu próprio nomeado juntamente com o nosso saudoso Jofre que nessa altura, embora ainda sargento e muito jovem, era já evidente a sua coragem e espírito de missão, para além das suas extraordinárias qualidades humanas e proficiência técnica como piloto.

O Cazombo era uma povoação de dimensão já significativa naquele extremo de Angola. Teria aproximadamente dois milhares de habitantes, dos quais três ou quatro dezenas de brancos, quase todos comerciantes ou funcionários administrativos, que davam um certo movimento àquela terra, onde recentes construções em ruas geometricamente desenhadas lhe conferiam um ar moderno.
Tínhamos descolado de Luanda há já umas horas, e percorrida uma rota bem referenciada até Silva Porto (actual Kuito), prosseguindo depois ao longo do Caminho de Ferro de Benguela (CFB). Para trás tinha ficado o Luso onde nos encontrámos  com o tenente Vilalobos e o sargento Pinho, que estavam de regresso a Luanda, depois de cumprirem a missão anteriormente referida.
Voando em parelha numa formação alargada, prosseguimos, directos ao Cazombo. A visibilidade era excelente e as referências no terreno, facilmente identificáveis, proporcionavam uma navegação fácil, o que era bastante apreciado na época, pois os únicos instrumentos de navegação que o Alouette III possuía eram uma bússola magnética e um "gyro", e quanto a cartas de navegação, para além das cartas aeronáuticas com escala de 1/1.000.000, havia alguns desenhos feitos não se sabe à quanto tempo, mas provavelmente já usados pelo almirante Gago Coutinho quando andou por aquelas paragens.
A paisagem era completamente diferente da que estávamos habituados a ver no norte. As grandes e cerradas matas, cobrindo terreno acidentado e por vezes montanhoso, em que rios caudalosos corriam rápido emaranhados na densa vegetação, davam lugar, aqui no leste, a uma paisagem dominada pela savana, a que os habitantes designavam por "chana", enorme planície coberta de vegetação herbácea onde os rios largos e não muito profundos, de margens pouco definidas, contorcendo-se em meandros, corriam lentamente para o mar a milhares de quilómetros de distância.
No horizonte já se desenhava o recorte insólito naquele plano, de duas elevações arredondadas cuja silhueta fazia lembrar os seios bonitos de uma mulher. O aeródromo tornava-se cada vez mais visível. E após uma aproximação circular que deu para observar toda a povoação, aterramos finalmente. Aquela iria ser a nossa base nos próximos tempos.
A unidade do Exército ali aquartelado era um Batalhão de Cavalaria com o qual manteríamos uma estreita ligação, dando-lhe apoio operacional e logístico.
Poucos dias tinham passado após a nossa chegada quando somos alertados para um pedido de uma evacuação sanitária de um Grupo de Combate que fazia que fazia um patrulhamento perto da fronteira. Evacuámos quatro feridos e um morto, provocados pelo rebentamento de várias granadas de mão lançadas por um guerrilheiro, que em passo de corrida atravessou de surpresa o local onde a tropa se preparava para pernoitar, sem dar tempo a qualquer reacção.
Embora a vida quotidiana nos quimbos existentes naquela região decorresse normalmente, dentro de um bom convívio com os brancos, cada vez eram mais evidentes os sinais da presença de grupos armados nas vizinhanças e o aspecto comprometido das populações, davam-nos a certeza dos contactos e apoios que estas lhes prestavam.
Com grande frequência eram assinalados, nos voos de reconhecimento, trilhos recentes e abundantes que indicavam deslocações de grandes grupos, a coberto das matas, fora dos caminhos traçados e normalmente utilizados.
Entretanto o nosso trabalho decorria normalmente, sem acontecimentos dignos de realce lá iam correndo os dias, praticamente dedicados a uma actividade aérea de apoio ao Exército e ao Destacamento de Fuzileiros, aquartelado em Lumbala, situada a uns 40 a 50 quilómetros a sul do Cazombo, na margem esquerda do rio Zambeze.
Um dia pela manhã, finalmente, pensámos nós, chega um PV2. A chegada deste avião, era um acontecimento sempre desejado, o aeródromo conhecia uma certa vivacidade, certamente vinha correio, novidades e neste caso, provavelmente, os nossos substitutos. Mas não foi a tão esperada rendição que ocorreu! Além de alguma carga de frescos e uns tantos elementos da Polícia Aérea - para reforçar a segurança do aeródromo e diga-se de passagem que, dado virem desarmados, pensámos na altura que provavelmente viriam preparados só para a "luta corpo a corpo"...- o comandante de bordo entregou-me uma enorme caixa proveniente da Região Aérea que me era dirigida pessoalmente.
Era certamente algo importante! Cheio de curiosidade rapidamente comecei a desembrulhar tão volumosa e pesada encomenda. Mas, já com a surpresa inicialmente mal contida, a esbater-se no meu rosto, constatei um pouco incrédulo que mesmo quando afastados naquele longínquo lugar, a Força Aérea mantinha, mesmo assim, uma permanente preocupação pela formação dos seus oficiais..., pois estava-me enviando toda a literatura do curso de capitão, com a recomendação, de eu bem aproveitar o tempo para estudar, pois quando chegasse a Luanda logo teria um exame à minha espera.
Contudo, não foi muito alargada a oportunidade de me instruir com tão erudita matéria, pois poucos dias depois deu-se início a uma operação de grande envergadura, da responsabilidade do comando da ZIL, designada "Luena Grande".
O Agrupamento Aéreo então formado e do qual me foi atribuído o respectivo comando, seria reforçado com meios aéreos do AB4, tomando a seguinte constituição: os nossos dois AL III, uma parelha de T6 armados com foguetes de 37mm, um DO 27 preparado para transporte geral e evacuações, e ainda um PV2 que ficava baseado no AB4 ou no Cazombo, para ser utilizado em reforço se necessário.
Nós com os AL III e o DO 27 transferimo-nos para a Lumbala para junto do comando das operações, os dois T6 ficaram no Cazombo em alerta.
Na Lumbala estava aquartelada além do Destacamento de Fuzileiros já referido, uma Companhia de Cavalaria do Batalhão do Cazombo. O seu comandante disponibilizou instalações para a sala de operações e alojamentos do pessoal e ainda um espaço no interior do aquartelamento para estcionar os helis durante a noite (o DO 27 iria pernoitar ao Cazombo).
Eu e outros oficiais do Estado-Maior da ZIL, tínhamos para dormir um bom bocado do chão cimentado da sala de operações. Prestimosamente o então capitão para-quedista Mansilha emprestou-me um bonito colchão insuflável, que por ter a particularidade de ir deixando escapar o ar, por algum misterioso orifício, oferecia-me a oportunidade de durante a noite fazer alguma ginástica respiratória a assoprar no pipo do colchão.
A zona onde a operação deveria desenrolar-se era uma enorme região caracterizada por matas pouco densas, de árvores baixas, na continuação de uma imensa "chana" na margem direita do rio Zambeze, onde foram colocados por meios auto os Grupos de Combate intervenientes.
A táctica utilizada consistia em tentar, através de uma manobra envolvente, empurrar os grupos da guerrilha para o Zambeze, de forma a ficarem com a retirada cortada por este obstáculo e podendo assim conseguir-se a sua captura.
Claro que os resultados foram muito diferentes do esperado e para além de vários incidentes, alguns um tanto bizarros, esta primeira grande operação no Leste de Angola, que decorreu no meio de um cenário de dimensões desproporcionadas em relação ás Forças empenhadas, fracos resultados alcançou, a não ser a experiência conseguida para para a luta que naquele teatro se viria a travar durante vários anos.
Tinha a operação começado há um ou dois dias quando um tremendo temporal caiu em cima do quartel de Lumbala onde estava instalada a nossa Base Táctica (BT).
A Sala de operações, que tinha sido muito bem organizada pelo capitão Mansilha, foi sacudida por fortíssimas rajadas de vento e num ápice ficou sem cobertura... E claro os papéis da guerra voaram no meio do vendaval. Recordo o comandante da ZIL e da Operação nessa altura, dentro da sala, a agarrar-se a um armário de ferro, talvez com receio de também ser levado pela ventania. Uma dessa coberturas de zinco, rodopiando no meio da ventania, passou a rasar as pás de um héli estacionado no interior do quartel, não lhe tocando por uma "unha negra".
A operação não estava a começar nada bem. Mas, ainda assim, todas as unidades envolvidas estavam bem posicionadas e a evoluir correctamente conforme era estabelecido na Ordem de Operações.
Contudo, dois dias já tinham decorrido e nenhuma das unidades tinha sequer tido qualquer contacto com o IN.
Pensávamos que as nossas perdas tinham apenas sido devido ao temporal, quando ao fim da tarde do terceiro dia recebemos o pedido de apoio de uma coluna logística vinda de Caripande - que ficava na margem esquerda do Zambeze junto à fronteira com a Zâmbia, e fora da zona da operação - pois tinha caído numa emboscada e estava a ser fortemente atacada por um grupo com aramas automáticas e RPG (lançador de granadas foguete), e que nessa altura era ainda praticamente novidade, a utilização desse tipo de armamento.
Embora os dois T6 do Cazombo, tivessem descolada imediatamente, logo que receberam a ordem de descolagem, a noite, que entretanto caíra rapidamente impossibilitou qualquer apoio de fogo. E após algum tempo de espera inquieta, finalmente a coluna lá chegou com alguns feridos e algumas viaturas completamente inutilizadas. Afinal, o IN estava aparecendo, mas fora do sítio "combinado". Estava obviamente a não querer colaborar...
O dia seguinte amanheceu com mais nuvens negras a ameaçar grande "trapezana". E o DO 27 tinha uma evacuação de um ferido mais grave, da emboscada da véspera, a fazer para o Luso.
O piloto era o sargento Alvim cujas qualidades muito apreciadas, já eu bem conhecia desde os seus tempos de aluno na Base de Sintra.
Instruído sobre a meteorologia, lá descolou rumo ao Luso.
O estado do tempo deixou-me um tanto preocupado, e atento ao ETA, fiquei a aguardar o seu reporte antes da aterragem. Mas, a hora prevista para a chegada ao destino foi ultrapassada e o rádio em escuta na frequência estabelecida mantinha-se silencioso. Nada mais se recebia que os ruídos de uma forte estática, indicadora de forte turbulência atmosférica.
A minha preocupação aumentou quando soube que o Luso estava fechado devido a forte temporal e que em nenhuma outra pista havia aterrado ou sido recebido qualquer contacto do DO 27...Seria que tinha aterrado na "chana" ?...Porque não teria enviado qualquer mensagem ?...Eram perguntas que nos faziam considerar vários tipos de hipóteses e todas inquietantes.
Com o AB4 informado, e as buscas quase a começarem, ouve-se finalmente o Alvim com uma voz calma e firme a chamar o nosso controlo, pedindo instruções para fazer a sua aproximação à pista. E foi, de facto, um grande alívio quando alguns minutos depois o vimos fazer uma aterragem impecável, com o avião aparentemente em estado normal.
A razão daquele atraso e seu desaparecimento momentâneo foi-nos explicado por ele próprio. Assim, contou-nos que depois de descolar da Lumbala ao aproximar-se do Luso verificou que era impossível ali aterrar devido a uma grande trovoada. Decidiu voar para Henrique de Carvalho, sobrevoando a estrada asfaltada que seguia naquela direcção. Mas o tempo continuava a piorar rapidamente na sua frente o que também tornava problemática a aproximação àquele aeródromo, e embora tentasse várias vezes reportar a
sua posição, não conseguia contacto rádio com qualquer estação. Entretanto, o ferido dava sinais de grande agitação e dava para perceber que carecia de chegar urgentemente ao hospital. Foi então que viu na estrada uma camioneta, dirigindo-se para Sul. Era aquela a solução, o vento estava alinhado com a estrada e esta seguia com uma enorme recta num vasto terreno plano. Sem hesitar volta 180º para Sul, reduz o motor, flaps em baixo e estabelece uma final bem alinhado com a estrada, no momento seguinte aterrava suavemente. Com o avião imobilizado e "estacionado" o mais na berma possível, saiu cá para fora, esperando pela camioneta que se ia aproximando e cujo condutor estaria provavelmente muito admirado com o aparecimento à sua frente daquele "veículo" vindo do céu.
O sargento Alvim, fácilmente convenceu a anuência do condutor em transportar o ferido para o Luso e feita a sua transferência do avião para o meio auto, logo que ficou de novo com a "pista" livre, meteu motor, descolou e regressou à Lumbala com a missão cumprida.
Fácil...
Mas voltando à nossa operação, esta lá ia prosseguindo sem até então ter sido obtido qualquer contacto com o IN. A actividade aérea limitava-se a missões de Comando Aéreo com o DO 27 e transportes gerais com os AL III. Porém, um problema logístico estava entretanto a ter fortes para a operação dos helis. O combustível, JP4 estava práticamente no fim, e embora tivesse sido pedido insistentemente o seu reabastecimento, o que era certo é que até à data não tinha chegado. Apenas havia o que os helis tinham nos depósitos.
Surgiu então uma necessidade urgente de levar um rádio AN GRC9 a um dos agrupamentos que estava no terreno. Embora importante, este transporte feito em heli, poderia comprometer a necessidade de se executar uma eventual evacuação, caso o combustível continuasse a não chegar.
Como solução para este problema, o capitão Mansilha propôs lançar do DO 27 em pára-quedas o dito rádio. Para tal o carpinteiro fez uma resistente caixa em madeira onde o rádio foi encaixado, o capitão Mansilha prendeu-lhe um pára-quedas de carga, embarcou no DO 27 e lá foi na direcção do tal agrupamento.
Ao chegarem á vertical da tropa já tinham atingido a altitude de lançamento. Depois de calcular o vento e introduzir as necessárias correcções, o capitão Mansilha lançou o equipamento sobre o ponto exacto. Com a cabeça ligeiramente fora da janela do avião, foi seguindo visualmente a trajectória do equipamento. O pára-quedas estava há muito completamente distendido, mas teimava em não abrir, e com o rádio a cair em plena queda livre, já com o solo muito perto, apenas um único pensamento saltava como um "flash" à cabeça do capitão Mansilha: Onde vou buscar dinheiro para pagar o rádio ? Mas, como num bom filme de "suspense", eis que no último instante, finalmente, o pára-quedas se abriu e o rádio chegou inteirinho ao chão. Um pequeno erro de cálculo na altitude que rondaria os 2.000 metros obrigava a fazer-se o lançamento um pouco mais alto.
Este acontecimento levou a alguns agrupamentos, com posições mais estáticas, a preparem pistas, aproveitando a planura natural da "chana" e os pontos com terreno mais consistente, o que veio poupar algumas horas de voo aos hélis, visto assim poder-se utilizar mais frequentemente o avião.
Todavia, era sobre a Este do Zambeze que se continuava a sentir grande actividade do IN, com ataques ou flagelações a colunas e até mesmo ao aquartelamento de Caripande, onde a Companhia lá instalada foi reforçada com alguns obuses de 8.8 de uma bateria de Artilharia. Havia informações seguras que estaria eminente um grande ataque a Caripande.
Naturalmente que era mais uma preocupação para o comandante da Operação, a braços já com exigências de carácter logístico provenientes da dimensão da zona atribuída à Operação, ao número dos efectivos envolvidos e à insuficiência dos meios para reabastecimento dos agrupamentos.
Todavia, a situação em víveres em Caripande poderia ser melhorada se para lá fosse encaminhado algum gado encontrado por um dos agrupamentos, aparentemente abandonado, pachorrentamente a pastar na "chana" junto à fronteira.
Não  estando já muito longe, foi então que o pessoal desse agrupamento, embora apeado e sem os os cavalos utilizados pelos "cowboys" naquele tipo de trabalho, lá foi encaminhando o gado em direcção a Caripande, até terem de parar junto a um obstáculo de difícil transposição - o Zambeze - sem a ajuda da tropa do aquartelamento.
Era pois preciso avisar Caripande que ali estavam à sua beira uns belos bifes que não convinha desperdiçar. Para essa comunicação tentaram primeiro usar a electrónica, mas nem os assopros ou assobios, ou as contagens para sintonia, conseguiram que os rádios funcionassem. Depois, experimentaram o grito tipo Tarzan, mas se alguém ouviu, foi provavelmente a "cheeta" e como não estava muito interessada não transmitiu o recado.
Então, houve alguém que teve uma ideia luminosa. Porque não uns tiros de aviso com a G3 ?! Certamente que se ainda houvesse alguém do outro lado, iriam ouvir os tiros, e talvez admirados com tal, procurariam saber quem estaria a dar tiros naquela zona. Algum safari provavelmente...
Pois é, ainda hoje muita gente considera que aquela tropa do Caripande, sem qualquer razão, logo foi pensar no pior...Que era o IN que os estava a flagelar. E então despropositadamente, continuam a pensar alguns, - não é que sem consideração por quem lhes estava oferecendo tão apetitoso manjar - respondem sem qualquer cerimónia com várias salvas de artilharia...
Calculam com certeza o pandemónio que se gerou. O gado todo tresmalhado, o pessoal correndo cada um para seu lado no meio da "chana", sempre à espera que o próximo lhe caísse em cima da cabeça e sem que ninguém de Caripande viesse saber para quem estavam a dar tiros.
Felizmente as comunicações do grupo com o gado e o BT, funcionaram, o que tornou possível o conhecimento de tão insólita situação e que rapidamente o oficial de operações desse um "salto" no DO 27 à vertical de Caripande, mandar silenciar a artilharia.
Este episódio foi praticamente o último daquela mega operação, cujos resultados ocuparam certamente poucas linhas de um volumoso relatório caído no esquecimento de algum arquivo poeirento.
Mais um ou dois dias e fomos finalmente rendidos. Regressámos a Luanda cansados e com a sensação de que cada vez mais se iria naquelas paragens, o que eu próprio viria a confirmar quando alguns anos mais tarde lá voltei.

Mas entretanto, encostei-me no assento de lona do Noratlas que nos levou de regresso a Luanda e pus-me a pensar que afinal ia ter de fazer exame e não aberto os livros.

Artigo do Maj.Gen.Pil Ricardo Cubas
Pub. na Mais Alto
  



sexta-feira, 19 de maio de 2017

O PAPA FRANCISCO!



Quando começaram a ser conhecidos os primeiros contornos da visita do Papa Francisco a Portugal, comecei a dar uma parte da minha atenção a esta histórica visita, pelos três motivos que seguidamente enunciarei:

Razão um: ser Católico
Razão dois: Ser um admirador do Papa Francisco
Razão três: Curiosidade relativamente à complexa missão da Força Aérea Portuguesa nesta histórica visita.
Quanto à primeira razão que se prende com o catolicismo, não existem dúvidas relativamente ao direcionamento espiritual do povo Português. As imagens dos peregrinos, a massa humana no Santuário, a fé espelhado nos rostos, é suficientemente elucidativa, dispensando pois outras palavras.
A segunda razão que me leva a admirar o Papa Francisco fica hoje mais alicerçada tendo em conta as imagens que milhões já viram e que valem por mil palavras. Francisco é incontestavelmente um líder do mundo, um homem simples que tem na génese o bem comum, a paz e o bem-estar da humanidade.
Finalmente e quanto à Força Aérea Portuguesa a que me ligam trinta e seis anos de serviço, não podia ter cumprido melhor esta missão de paz que lhe foi atribuída.


Foi um regalo ver todas as infraestruturas da base limpas, arrumadas e pintadas. Foi extraordinário perceber o planeamento e organização de todo o protocolo para receber para além de vários ministros dois chefes de estado, sendo um deles o Chefe da Igreja Católica.
Um almoço protocolar antes da chegada de Francisco onde estavam os mais altos dignatários da Nação. Guardas de honra, banda de música coral militar, preparação da sala de briefing para receber o Papa e o nosso Presidente,
A singeleza briosa da capela da base onde o Papa rezou. A forma organizada com que Francisco percorreu alguns espaços da Base onde os militares e suas famílias o acolheram.
A recepção do avião comercial que transportou Sua Santidade, a parelha de dois caças F16 que fez a protocolar protecão desde que o avião de Francisco entrou no nosso espaço aéreo. Os três helicópteros ALIII que tinham missões bem importantes em termos de segurança e de apoio à comunicação, para não falar daquela aeronave fabulosa EH101 que transportou sua santidade e demais elementos da comitiva.
Foi bom de ver!
O Senhor Comandante da BA5 um jovem Coronel, cumpriu na perfeição todas as orientações superiormente emanadas.
Os Portugueses tiveram oportunidade de ver hoje nas televisões, que a Força Aérea Portuguesa para além de formar pilotos para cumprir a sua missão primária, forma homens e mulheres que estão habilitados a cumprir qualquer missão.
Na Base Aérea 5 em Monte Real onde tudo isto aconteceu, está sediada uma esquadra os «Falcões» que tem por lema, “GUERRA OU PAZ TANTO NOS FAZ».
Hoje em tempo de paz, provou-se que assim é.
Obrigado camaradas!


sexta-feira, 12 de maio de 2017

O COMBATENTE

O dia estava sufocante.
A temperatura oscilava os 42 graus, com uma percentagem de humidade que afligia os pulmões daquele grupo de homens que avançavam de nervos tensos através do emaranhado da floresta tropical da Guiné.

Tinha por missão o grupo de “Comandos” fazer a ligação com outro grupo de combate, o 7 º. Destacamento de Fuzileiros Especiais. Deste grupo fazia parte um rijo ribatejano “borda de água,” de seu nome António Manuel Vassalo Miranda, com o posto de Furriel Miliciano e que tinha por incumbência o comando da primeira secção de assalto e choque. Homem destemido, nunca levara a sério os horrores da guerra ou se importara com as vicissitudes de uma vida errante, em que se sabe que se parte para a fogueira mas não se tem a certeza do regresso. Para ele, morrer e viver era-lhe indiferente.

No mais aceso da refrega reagia friamente: começava por acender um cigarro, ajeitava  o “boné à legionário”, molhava o polegar na língua e acariciava docemente a G-3; depois , era um autentico leão, nem o ribombar das granadas, os silvos das balas os gritos dos moribundos o desviavam do sua determinação: MATAR.
Arrepiados, os companheiros e até homens sobre o seu comando diziam que o Furriel era “afilhado de Deus”. No entanto este homem afirmava-se ateu convicto.
Interpretara a Bíblia a seu modo e não havia argumentos, por mais válidos, que o fizessem abalar quanto às suas teses. Contestava, blasfemava e ironizava palavra de DEUS...”Ainda um dia engolirás tudo o que dizes”, ter-lhe-á dito um amigo, ao que ele retorquía, “Estás louco homem. Como posso eu acreditar em milagres em pleno século XX”- respondia com tom sarcástico.
Qualquer doutrina ou acção que revelasse opressão, falta de civismo ou injustiça era para ele era suficiente para proclamar bem alto todo o seu protesto e houve até alturas em que entrou em rixas na defesa de oprimidos. Mas este “Cavaleiro Andante” nunca era molestado pelos organismos que defendiam mais ou menos os opressores. Inclusivamente numa altura em que a disciplina militar era rígida, ele que, foi tão bom combatente como mau militar, nunca teve problemas. Nem quando o sentaram no banco dos réus de onde saiu ilibado de qualquer culpa e com passagem marcada no primeiro avião da FAP para um bem merecido repouso junto às margens do seu adorado Tejo.

Que estranho poder parecia olhar para esta alma tão contraditória?
E naquele dia algo sucedeu, terrifico, grandioso. Só ele viveu este segundo...essa eternidade!
Pelo meio-dia o Grupo de “Comandos” chegou perto de uma clareira onde se travava renhido combate entre os terroristas e o 7º. Destacamento de Fuzileiros. Miranda desde a noite anterior que vinha sofrendo de crises palustre. Nessa manhã durante um desses ataques havia desmaiado. Recusava-se a ser evacuado. Queria estar presente para acompanhar aqueles que nele confiavam, além disso, ele tinha sem saber um encontro marcado. E não podia faltar.

À aproximação dos reforços que acudiam aos sitiados Fuzileiros os inimigos manobraram de forma a deixarem-nos penetrar no círculo. Porém perante o perigo o espírito combativo do furriel sobrepôs-se às sezões e ei-lo de novo à frente explorando o caminho, atento ao capim partido, ao avançar tranquilo ou aflito das aves, ao movimento desusado dos macacos, enfim, indícios que de um verdadeiro guerrilheiro não deve menosprezar, para a localização de forças inimigas.
O caminho estendia-se sob uma abóbada de vegetação que projectava uma convidativa sombra fresca para aqueles pobres antes desidratados até aos ossos. Mas estranhamente no subconsciente do furriel Miranda acudiu-lhe um frio de morte. Algo lhe dizia que naquele túnel ameaça de mortal o aguardava. Parou.

O comandante reuniu-se-lhe. O semblante do furriel estava estranhamente sombrio,- “ porque paramos?” - “Vejo a morte à entrada do túnel, meu alferes”.
-Estranhou o comandante semelhante resposta, vindo de quem vinha.
Não era natural. “Morte?”- pensou o alferes “Deve ser das sezões. Vou substitui-lo.”

Tentou fazê-lo mas o furriel opôs-se, ele via, mesmo no meio do túnel sombrio, uma figura negra pesada, duas mãos descarnadas abertas em cruz, e uma caveira branca de onde saia um sorriso tétrico: por entre os amarelados dentes uma voz melodiosa sussurrava...”Venham, meus filhos...Venham”.
O ambiente estava silencioso, denso. Miranda julga ouvir as respirações, não sabia se da morte ou dos inimigos emboscados ao longo do túnel. Lá no céu dois abutres voavam em círculo. De súbito algo faz desviar os olhos cansados e doentios do furriel para um objecto que por uma fracção de segundos brilhou a alguns metros, sobre o lado direito. O cérebro, até aí paralisado pela febre ou pela estranha imagem começou a trabalhar. Aproximou-se, era um invólucro de uma “G3”. Pegou-lhe.Ainda estava quente. Olhou em frente. Mais cápsulas. Segui-lhes o rasto até desembocar numa clareira.

Não havia dúvidas. Os fuzileiros deviam estar algures do outro lado. Voltou à picada. Olhou para o túnel. Lá estava a mesma figura, o mesmo mistério. Transmitiu rapidamente a sua descoberta ao alferes. Todos decidiram sair da Estrada. Miranda tornou a olhar para o “ fantasma”. Um riso macabro, e a estranha visão desapareceu “Devo estar louco”!

Quando uma pequena força chegou junto à orla foi decidido atravessa-la. Formando um losango de 15 homens encetaram a travessia.
Ainda não haviam decorridos uns 40 metros quando rebenta a fuzilaria endemoninhada.
Apanhados de surpresa os "Comandos" precipitaram-se em todas as direcções na ânsia de fugirem aquele diluvio de morte. À frente do Furriel Miranda surgiu uma pequena vala que não tinha mais e 30 cm de profundidade. Mergulhou por ela, e decididamente abriu fogo na esperança de poder cobrir a fuga dos seus camaradas. Primeiro os outros, depois ele.

Sendo o único que respondia aos ataques dos terroristas, estes tomaram-no por alvo e concentraram todo o seu  fogo sobre ele. Depressa os cinco carregadores se esgotaram. Mais de duas horas ficou para ali perdido. Os companheiros na ânsia de o poderem salvar lançaram fogo rasteiro ao capim que por acção do vento correu célere para ele. Sentindo o crepitar das chamas, voltou a cabeça. A hora de sair do buraco chegara. Olhou novamente para a floresta e sua respiração ficou suspensa. Mesmo no eixo da vala avançava inexoravelmente  e arrepiante uma rajada.Sabe-se que é praticamente impossível manter uma longa  rajada de arma pesada no enfiamento do cano e esta rajada vinha simetricamente pelo centro da vala, mais de 40 metros. As balas ricocheteavam e explodiam. A valeta era demasiadamente estreita para poder desviar o corpo. As balas aproximavam-se vitoriosas. Iriam cortar a meio o corpo do soldado?

Dez, cinco metros.....Miranda olhava hipnotizado. De repente estendeu os braços como que a defender a cabeça. Contraiu-se e gritou: MEU DEUS , SALVA-ME...MÃEEE

E então perante os olhos cerrados, ouviu uma VOZ em tom inefável : NÃO TENHAS MEDO MEU FILHO.

Uma paz imensa invadiu-o. Descontraiu-se. Abriu os olhos. O suor queimou-os. Reabriu-os olhou em volta. Estava terrivelmente esgotado. A escassos centímetros da sua cabeça a rajada desviara-se e rasgara-lhe o camuflado ao longo do tronco e das pernas. Nem uma única arranhadela. E eram balas explosivas! Ergueu os olhos ao céu. Nunca o céu lhe parecera tão limpo e azul:"Obrigado meu Deus. Eu não to mereci.Só hoje compreendo. Obrigado"

Vassalo Miranda
Por mais estranho que pareça, neste mesmo dia em Vila Franca de Xira, a mãe deste combatente teve a sensação angustiante do milagre que a milhares de quilómetros se havia dado.


Especial agradecimento a Vassalo Miranda em autorizar este relato e na cedência das fotos.







Compilado, redigido e montado por:
Aníbal de Oliveira

sexta-feira, 5 de maio de 2017

NECESSIDADE DO "GUERREIRO" DESCONTRAIR.




Andava na minha mente e após o rebuçadinho que o meu filhote João Sousa me enviou, com a conivência do grande irmão Pedro Garcia, vou contar a segunda parte da minha primeira ida a N´Riquinha - leste de Angola também chamada de “Terras do fim do Mundo”. 
Acompanhava-me naquela véspera de Natal de 1969, o cabo Costa OPC, de cor negra e de São Tomé, que ia render um cabo OPC salvo erro Cordeiro, branco, que era natural de Moçambique, da 1ª. incorporação de 66 se não me engano. Eu ia substituir o João Gomes MRAD, do Porto, da 1ª. de 67. Foi gerente do bar da malta – Clube de Especialistas – na BA9. Estivemos os quatro uma semana juntos para a passagem de testemunho, ficando eu e o Costa na perspectiva de por lá ficar-mos 2 meses.
Os "quatro"



Como o Gomes tinha combinado comigo criar um porco que ele me tinha lá deixado, e quando voltasse a rendição ficava lá mais uma semana para a matança do porco, o que veio acontecer, por lá fiquei esse tempo ou talvez mais. 
Costa e Ferreira

O Costa OPC, se já não era muito certo da cabeça ali pirou, e não foi preciso muito tempo. Começou a enviar mensagens zulos para o comandante da 2ª. Região Aérea a pedir o alcatroamento da pista, insecticida de preferência marca “Baygom”, papel higiénico “Renova”, gel de banho e não sei o que mais de momento.
Escusado será dizer que o Costa foi substituído, voltou para lá o tal moçambicano dar conhecimentos ao Martins “algarvio” e ambos tínhamos o nome de guerra “o massa”. Lembro-me, que o Costa levou uma porrada e foi para Henrique de Carvalho.
Para terminar este episódio, recordo que a matança do porco impediu que eu fosse ao Rivungo “clandestinamente” nadar, e eram só 10 horas de Berliet. Dessa vez uma mina rebentou com a coitada da camioneta, felizmente sem danos pessoais, mas quando se foi buscar os destroços dizia-me o meu habitual companheiro um 2º. sargento muito comovido: "vês Ferreira, aonde tu costumavas ir está aqui um buraco dos estilhaços, não escapavas!"
Como a sorte de um homem é escapar ainda por cá estou, chateando uns, chateando-me a mim outros.
Com a promessa de voltar com outros episódios despeço-me de todos em geral e em particular saudades para o meu “filhinho” João Sousa, que combateu cá mais para norte e para o meu “irmão” Pedro Garcia, que pensava estar sempre na alcatifa na 2ª. RA e também foi parar ao mato lá para os lados de Santa Eulália, Zala, Quibage, Quipedro e outros locais, que eu viria a conhecer quando para nós de Luanda acabou o Leste e viemos fazer os destacamentos para Norte.

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