quinta-feira, 18 de julho de 2019

O RÁDIO FAROL E ARREDORES.

Localização do Rádio Farol assinalado na foto.

O Rádio Farol era pretensamente um sistema de ajuda electrónica de orientação de aeronaves para a pista, posicionando-se no seu enfiamento. Foi um posto colocado em local ermo com antena exterior dotado de sinalização luminosa quando em funcionamento. Estava situado a cerca de 6 kms da Base.
O edifício do Rádio Farol
O edifício era construído em alvenaria muito rudimentar, comportava uma área de cerca de 5x5mts, dividida em duas partes; uma onde estava instalado o gerador Dorman e os bidões de combustível e no outro o equipamento electrónico de alta frequência, uma cama tropeira, um lavatório, uma sanita, uma mesa metálica com tampo em fórmica de cor verde/jade e um telefone que nos ligava à Base e à Cidade. Nessa mesa processavam-se as refeições, leituras e escritas.
A implantação do soalho era sobre-elevado para permitir o acesso aos cabos de ligação dos terminais de terra, distribuídos no solo em "aranha" circular num diâmetro de cerca de 40 metros.
O funcionamento do Rádio Farol começava ao alvorecer do dia e acabava no ocaso, mas em termos práticos resumia-se entre as 7:00 e as 19:00 horas. Por vezes a torre de controle contrariava essas rotinas por motivos operacionais.
Durante a noite a luz possível era uma lanterna. Quando se pensava que a noite dava lugar á calmaria, tal era um puro engano; começavam as loucas correrias dos ratos "kileiros" que chiavam toda a noite, penduravam-se em tudo, desde o equipamento ao fio telefónico, e caiam em cima da cama onde só tínhamos a protecção da famosa manta azul. Com o tempo habituá-mo-nos, mas tínhamos de esconder objectos pequenos, como por exemplo as meias, senão desapareciam. Também existiam outros animais nojentos, percevejos, osgas, melgas, mosquitos e rastejantes. Enfim, parecia uma câmara de castigo medieval.
A escala de serviço era praticamente de dez em dez dias, mas em Julho e Agosto tínhamos de alinhar mais amiúde, devido aos camaradas que  entravam de férias.
Quem desempenhava este serviço eram os Especialistas MELEC, tanto de centrais como de equipamentos.
Estrada de ligação da cidade à Base

Durante o dia a actividade era escassa, para além da escuta
ou leituras limitava-mo-nos a observar o movimento dos carros de e para a Base. A via passava a uns 50/60 mts do rádio farol. Como tinha sido implantado, desde o inicio, um furo artesiano, fornecíamos água aos nativos da sanzala próxima.
O fornecimento da água

Havia muita tranquilidade, o que originava baixarmos a guarda do equipamento e de nós próprios. Agora com a devida distância temporal, podemos afirmar que a guerra na Lunda era a do "alecrim e mangerona" (liamba !). Eles, IN, se quisessem apanhavam-nos à mão...mas não era só ali ! 

Em Tete, mais ou menos na mesma altura, foram mortos em duas emboscadas dois camaradas da FAP. O assassino do Savimbi era natural de Henrique de Carvalho e o pessoal do MPLA movimentava-se pelas sanzalas e pela cidade...nós sabíamos isso.
Uma vez estava de serviço o Filipe Raimundo, que após ter jantado e fechado as portas metálicas, uma orda de miúdos, ou não, deram em bater nas portas no intuito de assustar quem lá estivesse, fizeram-no mesmo sabendo que tínhamos uma FBP !
Havia duas rotinas diárias; uma a mudança do Melec de serviço e a das refeições. No começo tudo era servido com fartura, desde o pequeno almoço, em que exageravam no pão e manteiga, assim como ao almoço e jantar, mas com uma qualidade lastimável. Esta situação só mudou quando saiu de gerente das messes o Ten. MAEQ e sargento paraquedista, nomeados pelo 2º. comandante Major Ladeiras, que controlava as messes, os combustíveis, a cerâmica e a agro-pecuária, era um habilidoso profissional, maningante, que nasceu para a a "arte" nos anos 50 em S. Jacinto.
O comandante Ladeiras participando num churrasco promovido pela Esqª. de Abastecimento.


Em meados de 1971, teve um erro crasso, ao nomear para a gerência das messes o Cap. Amarino, um senhor em classe e de um profissionalismo a toda a prova. Apesar de segundo dizia não perceber nada do assunto, era de Abastecimento mas a chefia da Esquadrilha estava ocupada pelo Cap. Maia, aceitou a missão. Adquiriu equipamentos novos para a cozinha, comprou louças, mandou fazer mesas e cadeiras para os refeitórios, mudou os procedimentos, tanto na confecção da alimentação como do serviço, chegando perante a admiração geral a publicar as ementas para o próprio dia e para o seguinte. Como exemplo:
Sopa Juliana, Carne à Ville Roi, Frango à indiana, Ragu de vitela, as messes pareciam restaurantes concorrentes com os melhores da cidade.
As noites no Rádio Farol não eram sempre monótonas. Por vezes quando estava de serviço nocturno a telefonista da cidade, a filha do Firmino, mestre de obras "rateira", que era mais conhecido por ser avaliador e receptador de diamantes (kamangas). A pequena telefonista teria muito tempo livre na actividade de tira e mete cavilhas, já que a central era manual. Assim, o tédio apoderava-se dela e tinha a boa lembrança de nos ligar, com aquela voz langorosa e sabida explorava a solidão do cabo especialista, com conversas atrevidas incentivando e controlando o movimento das mãos, e só parava quando se ouvia de ambos os lados um som cavo de satisfação. Posso afirmar, seguramente, este foi o início das linhas eróticas, que muito mais tarde, nos anos 90, tanto dinheiro levaram aos paspalhos, que se queixavam que as contas do  telefone subiram exponencialmente sem razão aparente.
Na mesma linha, os TS, com a manteiga sobrante do pequeno almoço, inventaram actividades inspiradas no kamasutra; o Gil Lemos e o D.R. untavam o tampo de fórmica da mesa de serviço para provocar movimentos de vai-vem sem atrito.
Sanzala do Rádio Farol, mulher preparando a fuba

Na orla do Rádio Farol havia uma grande sanzala, que se estendia para a cidade em direcção a norte. A etnia principal era o Kioko, povo de origem guerreira, originário do Zaire e Zambia, que á custa de constantes guerras fratricidas se instalaram na Lunda, por esse motivo o dialecto local era o kioko. As casas, mais propriamente ditas as cubatas, eram feitas de blocos de adobe com capim e algumas pedras para lhes dar maior solidez. Os habitantes viviam ainda num estado semi-primitivo, eles ainda caçavam com arco e flecha, elas tratavam das lavras e moíam a fuba, sempre com os filhos ás costas. Algumas dedicavam-se à "prostituição", outras davam o seu corpo de livre vontade, e outras eram aquilo a que chamávamos sérias.
Batuque

Tive a felicidade de assistir a uma batucada daquelas que começam quando o sol se põe e acaba pela manhã. O som dos tambores era emitido a quilómetros e ao pé dos "tocadores" não se apercebia de tanto ruído. Os tambores, alguns grandes, tinham músicos dos dois lados com fogueiras a aquecerem as peles. No meio, os dançarinos ataviados com motivos desconhecidos evoluíam descalços, parando para beber uma bebida fermentada mal cheirosa que os deixava em êxtase.
EPILOGO
O Rádio Farol e as actividades que o delimitavam suscitaram-me reflexões positivas, mas também negativas. Fiquei com a certeza que o homem não é só um animal social, como disse Platão, é também um bicho com muitas atitudes irracionais. Tem hábitos diferenciados que vão de posições diametralmente opostas, até à ignorância programada.
Reparei nos conquistadores baratos, que por 20 "falancas" experimentavam os seus dotes dominadores nas nativas, e não era raro chegarem-lhe a roupa ao pelo, que coitadas, porque roupa quase não existia, sofriam mais. Dormiam nas cubatas, cheiravam horrivelmente. Haviam os normais, que apenas queriam satisfazer o seu desejo carnal porque o corpo assim o pedia, com a sofreguidão esqueciam-se da protecção e sem licença apareciam as gonorreias e outras indecências que eram remediadas com Hipopen de 1 milhão de unidades.
A última classe era composta por aqueles que não se atreviam a quaisquer práticas sexuais, quer por abstinência premeditada, quer por nojo, quer por imperativo de consciência.
Admito que era difícil abstrair da situação real. As nativas que mais visitavam o Rádio Farol eram a Rosa e a Genoveva, ambas vítimas da situação criada. A primeira tinha dois filhos mulatos, um deles rapaz chamado Jorge, com as barrigas muito dilatadas e olhos tristes. Ambas precisavam de dar de comer aos filhos, que quando homens não poderiam ser felizes.
O nosso Filipe Raimundo resume este drama nos seus dois poemas. 




quinta-feira, 11 de julho de 2019

ÚLTIMO VOO PARA PORTO HARCOURT-BIAFRA


O último voo para o Porto Harcourt antes de ser capturado foi a minha experiência mais perigosa. 
Os combates desenrolavam-se bem perto do aeroporto quando recebi uma nota urgente da doutora Lucy O'Brien. Lucy foi uma irmã missionária que foi médica responsável do programa médico da Cáritas no Biafra.
"Nós estamos simplesmente desesperados. Nunca esteve pior. Sem medicamentos, sem pensos, sem simples algodão, sem seringas. O nosso piso hospitalar está coberto de pessoas morrendo. Tony, tenta trazer-nos alguns suprimentos o mais rápido possível. Lucy."
Pedi a muitos pilotos para voarem, mas eles sentiram que era muito perigoso. Um piloto português, o capitão Manuel Reis, veio ao meu escritório.
"Tony, estou pronto para arriscar. Você vai voar comigo?"
"Claro que sim. Você acha que nós podemos, Manuel?"
"Se fizermos um pouso em espiral, vai ficar tudo bem."
Eu não fazia ideia do que ele queria dizer por "um pouso em espiral" e de alguma forma eu tinha certeza que seria melhor para os meus nervos se ele não explicasse. Eu saberia em breve o suficiente.
Estava uma noite escura quando saímos de de São Tomé, sem luar, uma linda noite para o nosso propósito. Sentado no cockpit com João à medida que nos aproximamos da Costa Biafra, a distante artilharia parecia silenciada. À medida que chegamos mais perto, a escala do bombardeio tornou-se aparente mais intensa. Eu tinha visto fogo anti-aeronave, "Flak", muitas vezes, mas nunca vi nada assim. A intensidade do bombardeio estava além da minha compreensão. Parecia impossível que qualquer um pudesse sobreviver lá em baixo.
Vimos muitos blindados a lutar a algumas milhas do aeroporto. Manuel estudou-o por um momento. A responsabilidade pela decisão de continuar, ou voltar atrás, foi unicamente sua: "meu Deus! Tony, está uma luta pesada lá em baixo."
Vamos aproximar-nos do aeroporto antes de começarmos a espiral. Vai reduzir um pouco o perigo.
Mantenha-se calmo e continue orando. Ok.
Aqui vamos nós!
A terrível lembrança do que eu tinha visto e experimentado durante os últimos dias no Biafra substituiu os meus medos. Aquela visão nunca me iriam deixar. Os mortos e os moribundos deitados por todo o lado nas ruas. Os gritos das crianças famintas, o assustador som das explosões e a desesperança reflectida no rosto de pessoas famintas e deslocadas. Eles se mudaram de um campo de refugiados para outro, tentando evitar o avanço do exército nigeriano. Agora o país deles está reduzido a um pequeno enclave, deixando-os sem lugar nenhum para correr, sem nenhum lugar para fugir.
A cara assustada de um jovem soldado deitado imóvel num camião do exército, sem ambas as pernas, estava bem vivo na minha mente. Eu tinha-lhe dado os últimos sacramentos, mas além disso, tudo o que eu poderia fazer era segurar as suas mãos quando morreu. Havia outros soldados, também, fugindo da frente da guerra, despindo os uniformes dos seus corpos cheios de fome, misturando-se com civis, esperando perder a sua identidade.
Pensando na causa original desta guerra amarga - os ricos recursos de petróleo do Biafra - fez-me espumar de raiva. Esta guerra poderia nunca ter acontecido se esses recursos não estivessem lá. Ninguém precisava de ter morrido.

A minha raiva aumentou quando pensei nos países que tinham vendido ou doado ajuda militar para a Nigéria e o Biafra. Os bombardeamentos que nos tinham aterrorizado em Uli tinham vindo de caças Mig russos, fornecidos pela Rússia e tanques doados pelos britânicos. Estes países usaram armamentos para o seu próprio benefício económico ou político à custa da vida de muitas pessoas inocentes.
Não! Nenhum inocente precisava ter sido sacrificado a estes modernos cultos do petróleo e da ganância.

"Transporte aéreo para o Biafra" (violando o bloqueio) Reverendo Padre Tony Byrne c.s.sp

quinta-feira, 4 de julho de 2019

A PRAXE


Desconheço em que data esta começou a ser praticada pelos Especialistas do AB4.
Sem certezas, julgo, que terá sido em finais de 1969.
Como todos sabem, as nossas rendições no final da comissão ultramarina eram individuais. A maioria quando o final da comissão estava próximo, ou já a tinha  ultrapassado, estando ao que chamáva-mos a "lerpar", mantinha a rotina de ir esperar toda a aeronave militar que chegasse de Luanda, na esperança de ver surgir uma cara nova sempre sinónimo de substituto para alguém.
A praxe "oficial", consistia na apresentação à classe, do maçarico recém chegado.
O Nord de segunda, ou sexta-feira, chegava normalmente próximo da hora de almoço, pelo que propiciava a máxima divulgação do "acontecimento".
O cerimonial consistia na apresentação pelo substituído do seu substituto. Ao recém-chegado, em pleno refeitório, era exigido que subisse a uma cadeira, o substituído passava-lhe para a mão o "especialista das Caldas", préviamente cheio com uma Nocal que deveria beber enquanto ia rodando por forma a ser visível pela ululante assistência, que entoava o "ó téri, téri, téri ...ó téri, téri, téri ...e é da malta" !
Estava desta forma praxado pelos "gajos do leste" e passaria a fazer parte da família do AB4.
Raras vezes, mas aconteceu, aparecer um púdico objector em mamar no "das Caldas". Nesse caso, quando as negociações falhavam e a renitência se mantinha, só restava uma hipótese ao raio do maçarico, mergulhar no lago do Clube fardado como estava. Portanto, opções havia !
Esta cena digamos oficial, não quer dizer que à noite, nas camaratas, outras "poucas vergonhas" não continuassem.

Sou franco, tendo chegado em Outubro de 1970, não me recordo se fui ou não praxado, assim como não sei quem fui substituir. Provávelmente, por não ter ido substituir alguém em particular mas apenas aumentar os efectivos, devo ter passado ao lado da "cerimónia" e ficado isento.
O mesmo se passa em relação ao meu substituto, que  apenas recentemente e após divulgação de algumas OS (ordens de serviço) vim a confirmar que se tratou do Diamantino Maia Costa Ferreira e que andou duas semanas a laurear o queijo em Luanda, antes de rumar a Henrique de Carvalho.
Convém referir, que esta praxe se tem mantido ao longo dos anos em todos os encontros anuais. Quem aparece pela primeira vez já sabe, vai ter de ir ao "castigo" e ser apresentado a toda a assembleia.

Por último, um lamento, de entre milhares de fotos do Álbum de Fotos do Blog, não há uma única que retrate a praxe ao tempo do AB4.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

ATERRAGEM NO MILHEIRAL


O Capitão Carlos Acabado, como piloto, foi uma das referências do AB4.
Fazendo várias comissões, conheceu como ninguém Angola e principalmente as terras do leste de Angola, onde também viveu uma série de peripécias e acidentes, bem retratados nos seus livros.
Uma pouco conhecida foi esta, a aterragem no milheiral !
Segundo o Cap. Acabado, certo dia, voando um DO 27, o motor do avião começou a aquecer demasiado e o mecânico Isidro, mais conhecido por "Meirim", que o acompanhava, diagnosticou uma fuga de óleo que os forçou a aterrar de emergência no mato, algures para os lados de Lumege.
Seria o que Deus nosso Senhor quisesse! Escolheram um milheiral com a plantação ainda rasa, a aterragem correu bem e até conseguiram comunicar à base a respectiva localização.
O problema era que estavam no meio de nenhures e naquela altura ainda não havia helicópteros a operarem na região, logo o mais provável seria terem de se aguentar por sua conta e risco durante uns dias até que uma companhia do Exército os fosse resgatar.Não sabendo se estavam em território amigável ou hostil, decidiram afastar-se do avião transportando o kit de sobrevivência, as rações de combate e os cantis da água. 
Foi nessa altura que viram vir ao seu encontro um grupo de locais com ar amistoso e sorridente: representavam o soba local, que convidava os homens do ar a aceitarem a sua hospitalidade na sanzala ali próxima.
Aliviados, os dois sinistrados aceitaram o convite e foram agradavelmente surpreendidos pela hospitalidade do soba Caxito, que era um homem cheio de dignidade e de histórias. Ancião fiel ao regime, ostentava mesmo orgulhosamente uma bandeira portuguesa que lhe tinha sido oferecida pelo anterior Presidente da República Craveiro Lopes num encontro atestado por uma fotografia em que o chefe de Estado posava com o velho soba, na altura bastante mais jovem.Enquanto os recém-chegados trocavam palavras cordiais com o homem grande daquela povoação, as mulheres preparavam com esmero uma refeição de moamba com dendém que seria acompanhada com hidromel que circulava numa cabaça partilhada por todos. Aparentemente em honra dos visitantes, seguiu-se um impressionante batuque pela noite dentro, num terreiro ao ar livre iluminado pelo calor das fogueiras: uma incursão ao que África tem de mais profundo e autêntico.
Para o Cap. Acabado, esta recepção foi uma das experiências mais intensas de sempre. O impacto do bater dos pés no solo e a dança dos corpos ao ritmo frenético dos batuques em aparentes transes que ficaram por explicar (seriam ervas?) emanavam um poder quase hipnótico que a todos embalava, e que se foi esbatendo já altas horas quase sem darem conta, à medida que os dançarinos se iam cansando e recolhendo.
Todos beneficiaram então do contrastante silêncio da noite, e piloto e mecânico compensaram então as emoções do dia num merecido descanso, lado a lado em duas esteiras de verga numa cubata que gentilmente lhes havia sido destinada. 
No dia seguinte, era altura de agir com pragmatismo: a forma mais fácil de saírem dali era aproveitarem o facto de o avião estar incólume, mandarem vir por «encomenda aérea» o material necessário para repararem a avaria, limparem a "pista" para conseguirem descolar e seguirem viagem sem precisarem de esperar por ninguém. 

E assim foi: contactada a base, lá apareceram caídos dos céus uma lata de óleo e um novo tubo. As mulheres da aldeia foram mobilizadas para alisarem a pista e a dupla de homens do ar despediu-se com carinho e amizade daquela gente boa que os tinha recebido de maneira exemplar.

Nota:
As fotos apresentadas não se referem ao incidente relatado.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

HENRIQUE DE CARVALHO, O PRINCÍPIO DO FIM, 11 E 12 DE JUNHO DE 1975.


Recolhemos dois relatos, do Manuel Vieira e do Carlos Sequeira"Mambo", dos acontecimentos vividos nesta data, que marcaram o inicio dos confrontos armados na cidade de HC.

O último “Dia da Unidade do AB4, o 11 de Junho de 1975”.
Faz hoje ao fim deste dia objectivamente 44 anos, que a rapaziada que como eu se tinha deslocado à cidade, na sua maioria o fizemos pela última vez..
Era prática ao fim do dia de “trabalho” no AB4, irmos à cidade passear e beber uns canecos, ir ao cinema e outros. Contudo nesse dia 11 de Junho de 1975, por volta das 19h00, hora prevista para regressarmos no autocarro da unidade, começou um intenso tiroteio entre o ELNA, exército da FNLA e as FAPLA do MPLA, o qual se prolongou por cerca de 28 a 30 horas
Só no dia seguinte, 12 de Junho e numa acalmia aparente, por volta das 11h00 da manhã, veio à cidade uma força da PA, para resgatar o autocarro da unidade e os militares da FAP que a ele conseguimos chegar. 
Contudo a noite anterior foi o de “assistir ao fogo de artifício” de tracejantes e ao ouvir o silvar de balas que cruzavam por cima das nossas cabeças, entre a sede das duas delegações do MPLA e da FNLA, bem como ao “assistir” impavidamente aos rebentamentos de obuses disparados pelo beligerantes, situados em lados opostos à rua adjacente e perpendicular à onde nos encontrávamos, pois já que o condutor e alguns militares nos tínhamos refugiado junto a um muro de uma vivenda próximo das traseiras do Cinema, depois de várias progressões desde a Pastelaria Bonina, até próximo do local onde normalmente estacionava o autocarro da Base.
Pastelaria Bonina
Ainda e já pela madrugada, os donos brancos de uma vivenda, para onde tínhamos saltado o muro e estávamos no seu quintal, ao aperceberem-se que éramos da FAP, nos chamaram e nos recolheram na sua casa até ser de dia. Depois como houve alguma acalmia no tiroteio, pois porventura as munições lhes estavam a faltar, passaram a patrulhar as ruas em grupos, o que conseguíamos ver pelas frestas das janelas e pelos sons das suas correrias e dialecto que pronunciavam e traduzidos pelos residentes, andavam à procura dos opositores, sabendo se os tinham morto ou se tinham fugido.
Deste dia reproduzo uma foto com a referida progressão, bem como uma foto tirada a bordo do C-47, 6164 que tinha tirado uns meses antes num voo local.

De igual modo e por pesquisas feitas publico por fonte: Arquivo Histórico Militar, zonas de implantação dos movimentos de libertação em Angola no primeiro trimestre de 1975 – estas duas imagens eram por nós desconhecidas dos comuns dos que por lá andávamos no terreno após os “Acordos de 15 de Janeiro de 1975 do Alvor”... 

Por:








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Nesse fim de tarde também vim para a cidade, de carro civil de um amigo, que me foi buscar à Base, para passar o resto do dia pela pastelaria Bonina e "picadeiro" lá do sítio. 
Foi em HC que tinha começado, em 64/65, o meu ensino secundário, no colégio de Saurimo, por detrás da igreja maritz...
Cine Chicapa

O tiroteio deflagrou ao entardecer e nós, antes do cruzamento da Bonina e do Cine Chicapa, fomos alertados pelas primeiras rajadas vindas do lado do MPLA, que tinha o quartel no armazém do Marques Dias Lda. 
Uma das rajadas  estilhaçou os para-brisas do nosso carro, quer o da frente quer o de trás! Saí ainda em andamento e baldei-me para o quintal contíguo à casa do presidente da Câmara, uma vivenda de esquina, pertencente à família Matos. O Carlos Matos, tinha sido Comando e já tinha saído da tropa. Embora mais velho do que eu, conhecíamo-nos dos tempos de escola, onde ele ia à saída das aulas para ver as "miúdas"!
Eu e o meu amigo Gorgulho, passamos até às 4 da manhã, com um cacimbo do caraças, deitados ao toro das árvores do seu quintal, ouvindo aquele zumbido das granadas a sair dos morteiros, que eram as que mais me preocupavam uma vez que se caíssem no quintal iríamos pelo ar. Quer as disparadas do quartel do MPLA, quer as que vinham do lado das (OP) Obras Públicas, onde a FNLA assentou arraiais...
Tínhamos por companhia, um pastor alemão pertencente à família dona da casa. O cão estava ferido e veio deitar-se entre nós...só às 4 da matina, já clareava e para nós, começávamos a ficar destapados, pois a noite ia levantar breve e ficaríamos expostos aos tiros directos do outro lado da rua, pois já tínhamos sido alvejados por 4 elementos que estavam no quintal oposto, ao lado do cinema, os quais foram destruindo o parapeito do muro...
Efeito dos combates

Aí, tomei a iniciativa de rastejar até à porta das traseiras, que como é uso em África, é sempre alta, havia uma escadaria de 4/5 degraus, que me punham ao nível do muro circundante e me exponham a ser baleado. Rastejei até lá, pondo-me encostado a dita escada, e esticando o braço, batia com o punho na parte de baixo da porta, chamando pelo Carlos Matos! Passado um bocado, ele perguntou, sem abrir a porta, quem era...identifiquei-me bem! Pois o meu apelido Familiar, era sonante naquela região. Ao entreabrir a porta, o pastor alemão de salto foi o primeiro a entrar, depois eu, rastejando e o Gorgulho que estava atrás de mim...
Das 4 da manhã até ao meio dia e tal ali permanecemos...os tiros pela manhã começaram a escassear, e de repente começamos a ouvir alguém com um megafone, com palavras de ordem em português, para cessarem fogo, ois que se estavam a matar entre irmãos.
Era um Capitão do Exército, do Batalhão de Cavalaria 8322, em pé num jeep Willys, apenas acompanhado do condutor...!
Entre o meio dia e a uma da tarde, houve uma acalmia, que deu tempo para que toda a cidade de Henrique de Carvalho, se mudasse literalmente para o AB4. 
Imagem do dia 12 de Junho, militares de uma das forças beligerantes

Ainda quero acrescentar, que no dia 10 de Junho, fizemos uma formação de 3 Alouettes III em continência à Bandeira, eu voava o héli canhão!
E no dia imediato, estava deitado num quintal da cidade a assistir ao que já foi reportado...ainda bem que alguém se lembra destes tristes episódios passados pelas nossas FAs..."Foxtrot"!
Depois disto, ainda fui ao Luso, várias vezes nesse carro que era um Ford Taunos 17M RS de cor verde, sem para-brisas nenhum...coisas dos 20 anos, idade da "imortalidade"....!

Manuel Vieira, fui o último piloto de Hélis que passou pelo AB4...saí do Luso a 16 de Agosto de 1975. Fui eu que fui com a delegação do MFA a Camissombo e Veríssimo Sarmento, para desarmar os Catangas...nem me deixaram aterrar dentro do quartel...!

Por:


quinta-feira, 13 de junho de 2019

AB4-HENRIQUE DE CARVALHO E ALGUMAS HISTÓRIAS



A grande leva de especialistas ligados aos PV2 entre Outubro de 1970 a fins de 1972.
Introdução:
Os PV2 estavam na BA9 em Luanda sendo a sua base de apoio. Por decisão dos cabeças gordas foram transferidos para Henrique de Carvalho, AB4, e com eles uma grande saída de especialistas das diversas áreas, principalmente quem não tinha cunhas, outros vieram directamente completar o quadro de pessoal como foi o caso do Raimundo e eu próprio.
O aeródromo ficou dotado de muito mais pessoal, embora só estivessem ao activo 5 PV2, o que restava dos 8 aparelhos que vieram directamente do Montijo, em fins de 1960, conforme relato do Gen. Silva Cardoso no seu livro de memórias.
Luso 15/7/1971 - PV2 4616
Em 1972 só havia 3 aeronaves a voar, mas mesmo estas com muitas avarias e faltas de peças. Neste ano, um deles não levantou e explodiu na pista de Luso por manifesta aselhice do Capitão Heitor, que nessa altura já era vegetariano e deixou cair o manche por falta de força. Pertencia ao grupo dos inábeis que o Gen. Kruz Abecasis descreveu no seu livro “Bordo de Ataque”, como sendo "pelicanos", que como já é sabido é uma ave desajeitada e não sabe voar em condições. 
O grupo dos PV2 pouco ou nada tinha que fazer. A minha secção tinha 10 sargentos e 11 cabos especialistas, o que quer dizer que estava tudo pirado. Eu e o sargento Mota formávamos a equipa “maravilha” o que nos fazia alinhar mais vezes.
Com o tempo disponível era muito comum existir mais actividades lúdicas, desporto e leitura, que beneficiou o nosso grupo e pôs-nos muito acima dos sargentos e oficiais que tudo faziam para merecer ir as nossas festas. Vou nomear mais essas actividades noutras histórias.

De forma aleatória vou prestar homenagem aos amigos, companheiros ou camaradas, as suas particularidades, virtudes, defeitos, retidos na memória até aos nossos dias.

Jaime Dias "Abi"
Lisboeta da Rua Angelina Vidal, já na recruta se dispunha a não fazer nada. Foi com ele que conheci Lisboa, comi e dormi na casa dele. Foi para os Açores e voltei a vê-lo no AB4.
Foi ele que me recebeu na placa e fiquei assim sem a praxe. Atrevo-me a sustentar que o Jaime Abi foi das pessoas mais inteligentes que conheci na FAP.
Em Henrique de Carvalho já dominava os jogos a dinheiro, king, poker e ramim, o abafa e lerpa, deixava pena vê-lo levar os tansos. O "Cacimbo 71" foi um evento que saiu da sua imaginação. Tivemos autorização de nos vestirmos á civil e foi a concurso um grupo de 10 canções.
Cacimbo 71, Bilinhos, Vitor Oliveira, Biker, Margalho e Abrantes


O Jaime era o apresentador, bem vestido com talco no cabelo para parecer que tinha o cabelo grisalho. Foi muito bom. O Jaime continuou a conviver com o grupo de amigos do AB4. Infelizmente já nos deixou há cerca de 10 anos. Trabalhou na seguradora Império, mas também em actividades comerciais, criou o modelo da loja do "pica-pau ", que era uma espécie de desconto para quem comprasse nas lojas aderentes, que tinham o símbolo do "pica-pau amarelo". Pelas quantidades pedidas comercializava mais barato e dava umas comissões para ele. Mais tarde, montou um esquema de fornecimento de materiais da loja dos trezentos e quando deixou de ser negócio incendiou o armazém, mas só recebeu muitos anos depois o valor segurado. Teve negócios pouco claros no Brasil e Angola. Enfim era o amigo que jamais esquecerei.
Fernando Braga
Este nosso companheiro também nos deixou. Era mecânico MMA e era a alegria do hangar. Formava com o António Braga e o Bilinhos a equipa que nos dava fado amiúdes vezes, mais tarde juntaram-se na fadistagem o Guedelha, o Castelo e o Abrantes. 
O Braga tinha fado em todo o corpo, valorizava e transmitia-nos a mensagem que necessitávamos.
Como todo o artista que se prezava tinha que possuir alguma loucura, e tinha-a na dose certa.Foi castigado pelo presidente do Clube, pelo excesso de crédito e mal fazer. 
Foi de férias para Luanda e alugou um carro juntamente com o António Braga que o conduzia. Na primeira rotunda, na ilha, o António perguntou ao Fernando se devia circular ou ir em frente. A resposta foi em frente, não hesitou e assim acabaram as férias de carro. 
Os charros fizeram o seu efeito.

José Gonçalves, Mendes Martins, Caixinha Borges e Vitor Faria "Pilas".

Estes artistas formavam o grupo de meteorologistas da base, a que pertencia também o Jaime "Abi" e o Eusébio. Eram muito esquisitos! Costumávamos dizer que eles estavam contaminados pelos charros e cacimbo.
O José Gonçalves, hoje dedica-se à pesca industrial, já organizou juntamente com o Viegas 3 eventos dos especialistas com todo o sucesso e primor. O grupo dos sexta-feira já foi a Olhão de propósito para um almoço amariscado.
Margalho, Gonçalves, Schmit e Eusébio


O Mendes Martins, que é originário da Guarda embora fizesse grande parte da vida em Lisboa, o seu apelido é “olho nele” pois foi maningante desde a recruta.
Mendes Martins, à esquerda em pé
É irmão do antigo provedor da comunicação social com o mesmo apelido Mendes Martins. Como era tradição no fim da recruta dava-se uma lembrança ao alferes e cabos milicianos após repasto num restaurante da Ota ou Vila Franca, para o qual também era convidado o major Noronha. O nosso amigo M.M. fez discurso e foi entregue uma lembrança, bem embrulhada, que todos tinham quotizado. Viemos depois a saber, pelo alferes, que a prenda, um relógio, tinha gravado: "oferta do RCP-Rádio Clube Português", onde trabalhava o irmão!
Em Henrique de Carvalho, era locutor da rádio Saurimo juntamente com o Dinis MMA e movimentava-se muito bem na fina flor do entulho da cidade. De mim posso afirmar, que me roubou um colar de malaquitos e uns óculos Rayban. Voltei a vê-lo em Luanda aquando da visita á cidade do PERCY SLEDGE. Já era habitué do clube mais “in” da cidade, o Flamingo.
Nos anos 80 era director comercial da Lusa, actualmente esta reformado onde atingiu o grau de professor universitário do Instituto Politécnico. Como é possível fazer a 4ª. classe com frangos e chegar tão longe?!
O Caixinha Borges não era do nosso mundo. 
Borges numa de músico
Pintava com classe, foi ele que fez o último trabalho plástico na nossa messe e num clube privado da cidade onde parava o Capitão Neto Portugal.
Via tudo através de um espelho, ou seja, ao contrário. 
Dormia com uma venda nos olhos almofadada e francamente com mau aspecto, em termos de masculinidade. Não se relacionava com as pessoas, que  por fugir dele e ele entrou mais tarde, já em Lisboa, na indigência. Parece que faleceu não tenho a certeza.

Parte da pintura do Clube



Vítor Faria "Pilas", um lisboeta castiço, mas com uma maluqueira de esfriar os ossos. Andava com as calças e camisas muito cintadas, organizava eventos nocturnos, loucos como as noites árabes no clube onde não faltavam odaliscas. Encenou uma matança com catanas junto a um lago que não era mais do que uma charca das águas pluviais, aguas essas onde cresciam rãs.
Vitor Faria "Pilas"
Foi para Luanda consertar os dentes, colocaram-lhe uma uma placa. Um dia mergulhou-a num copo com cerveja na mesa onde almoçavam 5 pessoas. Continuou a beber, embebedando-se, foi vomitar e perdeu a placa. Deixou de ter novamente dentes no dia que retornou ao AB4.
Noutra vez, na minha mesa, estávamos a jantar e estava um
Fernando Braga e Pilas
lagarto assado no redfish na travessa do Pilas, chamamos o Sargento Dia. Alertado o Oficial Dia, que fazia o primeiro serviço na Base, este olhou para o peixe, pediu um prato e talheres ao empregado de mesa civil, que neste caso era o Coimbra, retirou da travessa, cortou o peixe e comeu de seguida virando-se para o pilas disse: “Isto está bom”, se o oficial comeu ele também o podia fazer, e se reclamasse era castigado. A chiquice também tinha disto!

José Abílio "Bilinhos"
Esta figura típica não pesava mais que 50 kg sustentava-se somente de cerveja, tocava guitarra e qualquer instrumento. Era natural de uma aldeia de Ponte de Lima onde possuía uma quinta de família. Fui muitas vezes a casa dele que era no centro da vila e explorava com os pais uma mercearia. Mais tarde, faria extracção de areia do rio Lima, que teve que deixar por não serem emitidas licenças. Trabalhou depois numa firma de materiais de construção perto de casa. 
"Bilinhos"
Á sexta-feira carregava num carro velho, Fiat Ritmo, duas grades de cerveja e refugiava-se na sua quinta, propriedade que tinha vinho próprio e terra para cultivar. Vivia como um eremita, fazia as suas próprias refeições num fogão a lenha e não era raro pedir reforços de material bebível ao domingo de manhã. Tinha um cavalo na propriedade, que era montado por uma filha que estava no exército em Braga. 
Tentou com o advento da cultura biológica a plantação de batatas, sem fertilizantes no estado natural, a colheita foi inferior a metade, o que restou pôs à venda no estabelecimento da mulher com o rótulo de material biológico, mas mais caro e ninguém aceitou essa modernice. Para chegar ao edifício da quinta os carros tinham que encolher os espelhos tal era a largura da via. 
Nos últimos anos da sua vida já não tocava somente guitarra, preferia o banjo, o cavaquinho e a viola braguesa. Quando lhe pediam muito, dedilhava os acordes de Alcino Frazão, um vulto da guitarra que não foi muito conhecido porque morreu de acidente com menos de 30 anos. 
Um grupo de amigos constituído por mim, Esteves, Adriano, Neves e Dinis, há cerca de 11 anos fomos a casa dele para o convidarmos para almoçar o que declinou apesar da nossa insistência. Faleceu 10 dias depois!
Filipe Raimundo, "o poeta"
Raimundo com puto Mateus 
É um alentejano simpático de Portalegre nascido no ALEGRETE. Começou a recruta na Ota comigo e voltamos a ver-nos em Henrique de Carvalho. Estava ligado aos JUs e Alouettes na BA3, foi colocado no AB4 na secção das baterias, o que era típico na FAP pois já havia no Luso Alouettes III.
No AB4 estudámos e fizemos alguns exames em Luanda. Também ele como eu gostávamos de ler livros, nessa altura lia STENBEK e HEMINGUAI e ele SARTRE e FAULKNER. Não manifestava naquela altura a veia poética que tinha e presenteou-nos mais tarde com poemas lindíssimos, retratos do nosso dia-a-dia como a Rosa e o Radio farol.
Raimundo no Kimbo da Rosa (Rádio Farol)

Quem não consegue ser amigo do Filipe é porque não tem capacidade de se relacionar com ninguém.
Quem privar com este amigo sabe ver a grandeza da sua alma, a arte de se entregar. Merece o respeito de todos nós. Vai fazer 70 anos no dia 15 de Agosto, não se esqueçam dessa data. O Filipe está reformado, trabalhou numa multinacional ligada ao fabrico de polímero e poliéster, dedica-se á agricultura, tem um rebanho de borregos, muita terra para lavrar e plantar.
Enfim, vive feliz na companhia da sua grande companheira, a Anjos, filhos e netos. Recebe os amigos como ninguém.
Antonino Neves e Adriano Rui "Secas"
Adriano, Renca e Neves
Estes dois mamíferos do Norte tinham em comum sitiarem-se na Esquadrilha de Abastecimento, um grupo muito restrito que possuía uma certa autonomia.
Tinham um bar próprio, faziam  festas no local de trabalho e eram comandados pelo grande senhor Capitão Maia, que tinha aquários iluminados dentro do seu quarto.
Como eram muito amigos e ainda prezam essa amizade, as suas andanças eram similares. O primeiro mais alto e esgrouviado, não sei, o que faziam nos “ganfas”, posso dizer apenas que a sua preocupação era visitar as sobrinhas do Munhica, assalariado da secção. O Adriano Rui acompanhava-o nessas visitas diárias. 
Em HC, Neves, Pereira e Adriano

O Antonino Neves foi um dos animadores das marchas de Santo António, onde formaria a "rusga do bacalhau" que se executou no ringue da base em Junho de 1971. Baldas quanto baste, graças ao andebol, em representação da Base, andou por Luanda e Negage. 
No Camaxilo com Almeida
O Adriano Rui, que foi corrido de Luanda para Henrique de Carvalho por não ter cunhas, puxou pela imaginação e arranjou um Coronel do Exército, amigo ou conhecido do pai, que por outro lado conhecia o nosso Comandante Wilton Pereira e conseguiu que fosse nomeado "inspector de inventários" nas mudanças de comando dos destacamentos e assim conheceu a Maria "dos 6 dedos" e o Manel "da pedras", o mesmo que salvou de morrer queimado o Capitão Neto Portugal. 
O Adriano Rui quando saiu da tropa, com as habilidades aprendidas meteu uma cunha no banco Fernandes de Magalhães, fez concursos até gerente, mas reformou-se cedo como maluco, para exercer Advocacia já que se tinha aventurado a estudar á noite. Deu-se uma grande mudança, passou a ser o "Dr. Secas". Tem escritório na baixa do Porto, toda a gente o conhece pela sua simpatia e pistanice, só falta fazer consultas na rua. 
Começa a trabalhar as 10 horas e á sexta-feira (santa) não está para ninguém, vai almoçar com os amigos do AB4. 
Há quem diga que o Adriano é o terror dos juízes, como é cortês e simpático nas alegações, que são próprias nas defesa dos clientes, são tão longas e técnicas, que não o ousam interromper, só o fazem quando a noite se aproxima.
Azuil Jacinto, Luis Gomes, Brilhante Dias e Damiano Gil.
Tinham em comum serem electricistas de aviões e os três primeiros guarda-redes de andebol e futebol de salão. 
Azuil, Gomes e Mira
O Azuil de fino trato, veio de Tomar, tinha um estatuto especial, não estava na secção que devia de estar e ficou nos electrónicos juntamente com o Sargento Galante, enfim era mais um beneficiador das cunhas. Posteriormente mudou-se para os melhores já numa altura que quase nada se fazia. 
Pertencia ao trio da direcção do clube dos especialistas, na vigência do seu alto cargo nunca nos faltou cerveja, uísque e vinho. Não passou despercebido nos dois anos de comissão. 
O Luis Gomes de apelido o “carralhinho” por ser de Setúbal tinha
Brilhante Dias e António Braga
o sotaque dos “erres” dessa terra. Amigo muito simples e simpático. Hoje com menos cabelo e pinta-o! Ao que chegamos! 
Brilhante Dias era um lisboeta sociável no AB4, nas jornadas anuais dos encontros dos ex-especialistas só apareceu uma vez. Foi director da Feira Popular de Lisboa na sucessão do pai neste cargo. Tem um sobrinho ligado a politica, o Eurico Brilhante Dias, que até é parecido com o nosso amigo.
Gil e Fernando Braga
Damiano Gil conhecido também por Gil "Malavisa", que parece que foi atribuído para o diferenciar do Gil Lemos, também electricista. 
Era um rapaz alto, e um maravilhoso amigo que infelizmente nos deixou muito cedo. Fez parte da direcção do clube dos especialistas, quando o Charrinho acabou a comissão.
Arranjou-me algumas garrafas de uísque e uma delas ainda a tenho em meu poder. Foi concorrente ao Festival da Canção Cacimbo 71 onde ficou em último lugar (décimo). Reclamou mas não adiantou, o júri foi soberano. Foi a única vez que o vi muito mal disposto.
Simão Cabral 
Um domingo de general Mack Mack...uma desgraça. Neves, Fernando Braga, Simão
Foi um Zé especialista de vanguarda. Criava amizades com toda a gente, tinha acesso privilegiado ao Comandante, geria de forma exemplar o Clube dos Especialistas.
Gandas malucos, Azuil e Simão
Teria com certeza cunhas, pois nunca o vi trabalhar no hangar, na sua especialidade MMA, estava asilado na ferramentaria.
Já era muito conhecido na recruta, às 5 horas no fim das actividades dirigia-se às casernas com o slogan “Olha a bolachinha”. Começou sózinho e no fim já tinha uma organização de revendedores.
Embora ele seja oriundo da Guarda de uma aldeia que se chama Argomil foi para Felgueiras e depois Guimarães. Fundou uma firma ligada ao fabrico, comercialização e assistência de bombas de gasolina a Petrotec, que cresceu, cresceu, e hoje é líder em Portugal com delegações em Angola, India, Espanha e México. Não se deslumbrou, continua a ter as mesmas relações com os velhos amigos e companheiros da FAP, participa nos encontros e organizou o melhor de todos nas suas instalações na aldeia de Argomil. 
Actualmente, dedica-se á plantação e comercialização de mirtilos, criou condições extraordinárias para esta actividade. Fez um projecto, a terraplanagem, a procura e a retenção das águas e adquiriu a tecnologia necessária para esta planta tão incomum. 
Do 41º. Encontro em Argomil

Criou empregos na aldeia que não existiam, tem muitos hectares plantados que regalam os olhos. É um homem superior, não era qualquer um que se dedicava a um empreendimento tão gigantesco. Ele fê-lo com a convicção que ainda é muito novo.
Parece-me que só tem um defeito, é benfiquista!
João Esteves
Um dia chegou a Henrique de Carvalho, em Fevereiro ou Março de 1972, vinha dos jactos da BA5 e foi cair nos T6 e DOs, era assim a FAP. Já tinha experiência pré-militar pois foi levado precocemente para os Pupilos do Exército, onde desenvolveu um tique de poupadinho que lhe ficou até aos nossos dias.
O Esteves tinha qualidades para o andebol e rapidamente se sobressaiu dos restantes. Foi para a linha da frente, depois para o Luso e daí para destacamentos.

Era e é uma pessoa simpática, amigo do amigo, mas não gosta de gastar dinheiro, mas não é certamente por não o ter, pois possui um apartamento duplex no Porto e uma simpática quintinha em Vidago onde colhe vinho, azeitonas, amêndoas, cerejas(quando os melros deixam) e tem uma piscina de alimentação de água natural sempre corrente. Gosta e faz alarde de se sentir bem na companhia de amigos. Faz parte do grupo das “sextas-feiras santas” e agora deixou de ranhosar pelo preço das refeições, às vezes ainda se lembra e pede para não porem entradas e suspender a entrega da última garrafa, mas passa-lhe.
Já está reformado mas durante os restantes dias da semana, pega na pasta e vende pratos, tigelas, copos e agora cadeiras. Ainda não percebeu que este país não está para velhos! 
O dia-a-dia do nosso amigo é duro, só anda em estradas nacionais porque não têm portagens. Almoça em sítios escolhidos com, sopa, pão, prato do dia, um jarrinho de vinho, café e um cheirinho de bagaço paga o descalabro de 5,5€ a 6€. No barbeiro de Santo Tirso, onde vai há muitos anos, gasta a astronómica verba de 3€!
Na gerência da sua quintinha é exemplar. Ele não tem naturalmente tempo para se dedicar as actividades agrícolas, nem sabe, e por isso tem um vizinho na aldeia que faz a poda, sulfatagem, colheita das uvas, e a quem no fim da vindima o Esteves vende as uvas ao quilo, homem que faz delas, com outros vinhos daquela zona que são tradicionalmente bons. 

Para consumo próprio quando está em casa com a família compra o vinho. O vinho que adquiriu é pago naturalmente, sendo sempre do mais barato. Uma vez ofereceu-me um almoço na casa dele com um vinho que não parava de elogiar, provei-o e de imediato fiz uma cara tão feia que se admirou e perguntou: “Não gostas?”, disse-lhe que era vinagre, contrapôs que não podia ser.
Cheguei a conclusão que lá em casa o vinagre e o vinho eram a mesma coisa. O nosso grupo das “sextas-feiras” já lá foi mais duas vezes, mas eu levei uma grade de vinho que era sem dúvida melhor que o vinagre da casa. 
Tem também um relacionamento exemplar com os habitantes da aldeia. Fomos cerca de 10 pessoas a casa dele almoçar e rumamos a um café a 100 metros da entrada da quinta. Com tanta gente no café o ambiente entrou em reboliço, com mais sossego a dona perguntou-nos de onde vínhamos e explicamos-lhe que viemos a casa do Srº. Esteves, seu vizinho, aquele que morava na porta em frente. Ela disse que não conhecia e em tantos anos nunca ninguém da casa foi la ao café. Sem dúvida é um grande relações públicas. 
Na próxima haverá mais histórias do AB4.

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