sexta-feira, 23 de setembro de 2016

CHEGADA A HENRIQUE DE CARVALHO

Chegada do Nord- foto de Anselmo Cardão
Cheguei ao AB4, a 20 de Setembro de 1971, uma Segunda-Feira que nunca irei esquecer, era o fim de uma longa manhã de calor, muito barulho e vários sustos, passada entre os TAM da BA9 e o Nordatlas que me transportara por entre caixas de fruta, peixe dito fresco, sacos de frangos e outras coisas que nem consegui identificar.
O meu ar apreensivo arrancou sorrisos ao meu companheiro de viagem já com mais de meia comissão cumprida, enquanto íamos sustendo a carga a cada movimento mais brusco do avião, quando aterrámos ele ainda me disse: Prepara-te para a recepção pouco amistosa, isto depois de eu ter dito que vinha aumentar o efectivo, e não, render alguém com a a comissão já terminada.
À chegada tínhamos uma turba de especialistas, que passavam revista às guias de marcha, para verificarem qual a nossa situação; se vínhamos render alguém, preencher vagas no quadro, ou aumentar o efectivo, assim que me viram a guia de marcha, passaram a outros e deixaram-me em paz que era o que eu mais desejava.
Comando Operacional - foto de Rui Neves
Peguei nas mochilas e zarpei para o posto de rádio que presumi fosse no edifício com as antenas, tinha de entregar rapidamente a alguém responsável pela cifra, o material classificado de um curso de cifra que frequentara e que transportara desde Lisboa, que me obrigara a ir à "António Maria Cardoso", (para os mais distraídos, a sede da PIDE) onde passei horas fechado numa sala à espera que me dessem um questionário e um documento para assinar, onde por entre outros impropérios “jurava por minha honra defender com a própria vida, não divulgar, ou de qualquer outro modo dar a conhecer o conteúdo do curso que iria fazer ou do material que me fosse entregue para utilizar ou transportar” assim como não me separar do mesmo até o entregar pessoalmente aos responsáveis pelas cifras do Comando da 2ª.Região Aérea e AB4. Era o que transportava numa das mochilas e que me obrigara a andar sob escolta e a ir dormir no BCP21, na semana que levei a instruir o pessoal de Luanda, e que tinha sido motivo de desconfiança de toda a gente por me verem sempre acompanhado de dois PA'S que só me largaram quando entrei no avião.
Percorri o corredor do edifício seguindo o som de transmissões em código Morse, e ao espreitar pelo postigo da porta azul blindada, deparei com um sargento com quem tinha trabalhado no Continente, avancei de peito aberto porta dentro com as “imbambas” às costas e estendi a mão atirando com um ar satisfeito por ver finalmente uma cara conhecida,"então como vão essas arbitragens e essa "Bíblia" (tradução) o jornal desportivo "A Bola"?
O sargento, levantou a cabeça do jornal, olhou pelo canto do olho a cara pouco mais que em pânico dos presentes, e disparou: o nosso cabo vai pegar nas "imbambas" dar meia volta, sair e fechar a porta pedir licença para entrar e apresentar-se como manda o RDM, ou então embrulho-o numa folha azul de 25 linhas e dou-lhe o máximo da minha competência!", levantando o jornal, não sem antes voltar a olhar pelo canto do olho, para confirmar, que toda a gente ouvira o que ele dissera.
O autor á porta do Clube
Imediatamente percebi que dera com os burrinhos na água, o único culpado da situação era eu, nunca deveria ter baixado a guarda e o impacto que sofri foi demolidor, peguei nas imbambas, dei meia volta e saí, fechei a porta, abri o postigo e pedi licença para entrar, pousei tudo no chão e fiz a apresentação regulamentar aguardando em posição de sentido. O sargento olhou os presentes com ar dominador, levantou-se e estendeu-me a mão atirando magnânimo:"Então como está o "Puto"? (tradução) pelo seu tamanho minúsculo, o Continente era assim chamado em Angola, mantive a posição de sentido, e deixei arrefecer-lhe o entusiasmo, passados segundos respondi: Cumpri a obrigatoriedade da apresentação como manda o RDM, os apertos de mão guardo-os para os amigos, e afinal enganei-me, pois não vejo aqui ninguém digno desse nome, se não deseja mais nada gostaria de ser dispensado para efectuar a entrega do material de cifra que transporto e da guia de marcha na secretaria do pessoal. O sargento baixou a mão com uma cara de poucos amigos, mas não havia volta a dar, eu tinha feito o que regulamentarmente me era exigido, mas com este gesto irrefletido, acabara de me incompatibilizar definitiva e irremediavelmente com as chefias, o que me conduziria a uma luta solitária incerta, que só acabaria no dia em que saí de Carvalho para Luanda vinte e oito meses e meio depois.

Henrique de Carvalho 20/09/1971
OPC ACO

domingo, 4 de setembro de 2016

JONAS SAVIMBI

ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992

Durante a campanha aérea da ONU para as Primeiras Eleições Livres em Angola (1992), os dias passaram num carrossel de aterragens e descolagens. A ONU geriu e levou a bom porto a maior operação aérea jamais organizada de suporte a atos eleitorais supervisionados por aquela organização. Algo que, na altura, parecia ser um passo maior que a perna, só foi possível devido ao empenho dos dez oficiais da Força Aérea Portuguesa, destacados para Angola para ajudarem na gestão daquela atividade aérea. Os elementos da FAP fizeram parte de uma grande equipa com 25.000 pessoas, angolanas e estrangeiras, que de alguma forma participaram para o sucesso daquele ato eleitoral, dos quais constavam cerca de 800 observadores internacionais.
Por razões de segurança, durante os dois dias em que decorreram as eleições legislativas Angolanas, 29 e 30 de Setembro de 1992, o Governo Angolano interditou o espaço aéreo a voos internacionais e encerrou as fronteiras terrestres, marítimas e fluviais.
Os Angolanos votaram em massa, ultrapassando as previsões mais otimistas, com 92% dos eleitores inscritos (4 milhões e 400 mil pessoas) a exercerem pela primeira vez o dever de voto. O número surpreendeu, já que se admitia uma taxa de abstenção na casa dos 20% a 30%. Os angolanos escolhiam entre 19 partidos, quem os iria governar.
No dia 01 de Outubro, depois do ato eleitoral, era a loucura total em Luena. Todas aquelas urnas de voto tinham de ser rapidamente retiradas dos vários locais e trazidas para a capital do Moxico, de onde seguiriam de imediato para Luanda em C-130. O que havia levado semanas a montar, levava agora horas a desmontar.
Segundo os acordos de Bicesse, que travaram o conflito entre a UNITA e o MPLA e abriram espaço ao ato eleitoral, os resultados eleitorais só deveriam ser formalmente anunciados no dia 08 de Outubro. Contudo, a comunicação social divulgou-os conforme se ia sabendo os resultados parciais. 
No dia 3 de Outubro, Jonas Savimbi (então líder da UNITA) dirigiu uma «Mensagem à Nação», na qual expressava que não aceitava os resultados das eleições, por ter havido fraude. A violência escalou consideravelmente e o PNUD de Luena decidiu ativar o plano de evacuação que tinha elaborado. Luanda parecia continuar no controlo das forças governamentais, sendo a melhor saída para uma evacuação internacional. Decidiu-se voar para Luanda no dia 05 de Outubro. Entretanto, na capital do País, a situação de segurança estava a degradar-se de dia para dia. Após tratar de toda a burocracia da ONU, os militares portugueses receberam instruções para sair imediatamente de Luanda e regressar a Portugal no dia 08 de Outubro. Partiríamos nessa mesma tarde, num voo comercial que estava, obviamente, lotado, ao ponto de não haver catering para todos os passageiros. Cerca de 20 minutos após a descolagem de Luanda, o comandante de bordo utilizou o sistema de som para fazer um pequeno anúncio:
- “Senhoras e senhores passageiros, informamos que, por motivos de segurança, o Aeroporto Internacional de Luanda acabou de fechar a todo o tráfego aéreo, sem data anunciada para reabrir.”
Tínhamos conseguido sair de Luanda ”In Extremis”!
Quando, na tarde do dia seguinte desembarcámos em Lisboa, veio a notícia:
Os oficiais da UNITA abandonaram as (unificadas) Forças Armadas Angolanas e regressavam às suas anteriores posições. Tinha recomeçado a guerra civil Angolana. O governo português estava agora preocupado com a segurança dos nossos cidadãos que residiam em Angola. A Força Aérea preparou os seus (na altura) paraquedistas e os C-130, para retirarem os portugueses que estivessem em Angola e quisessem sair.
No início do mês de novembro de 1992, as Forças Armadas Portuguesas lançaram a “Operação Repatriamento”, com o objetivo de retirar de Angola os cidadãos portugueses que ali não desejassem permanecer. As Tropas Paraquedistas Portuguesas não tiveram de atuar, mas as aeronaves da FAP evacuaram de Angola cerca de 2 500 portugueses. O conflito interno Angolano assumia agora uma violência redobrada, inflamado por novas desconfianças e ódios.
A Guerra Civil Angolana só viria a finalizar com a morte em combate de Jonas Savimbi, num local muito próximo de Luena, no ano de 2002. O povo Angolano sofreu um conflito fratricida, durante 27 anos, com uma ligeira interrupção de “paz podre” para se fazerem eleições em 1992.

A experiência angariada naquela missão das Nações Unidas seria, décadas mais tarde, primordial na resolução de problemas numas outras eleições, igualmente problemáticas. Mas isso será matéria para uma outra “Estória de Missão ao serviço da ONU”.


(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)



Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.

sábado, 3 de setembro de 2016

AS MEMÓRIAS DE UM LUENA













 A JANGADA DO LUNGUÉ BUNGO

Era um estrutura flutuante, composta por quatro fiadas de tambores, de largura e uns dez de comprido, daqueles que eram utilizados no armazenamento e transporte de combustíveis, gasóleo, gasolina e petróleo, de duzentos litros, ligados uns aos outros por uns cabos de aço, e presos, por baixo de uma estrutura de madeira grossa, que recebia a camioneta de tonelagem até dois mil quilos ou, dois Land rover, de caixa aberta. Era uma estrutura bem estudada, uma autêntica obra prima da nossa engenharia.
Este conjunto estava preso, nas suas duas extremidades do seu comprimento, a dois cabos de aço com duas roldanas nas pontas, para facilitar a sua deslocação, que por sua vez, estavam enfiadas num outro cabo de aço, mais grosso, preso às duas margens do rio, onde existiam duas enormes roldanas, uma de cada lado, que a puxavam para a margem pretendida, tarefa essa que estava a cargo de dois nativos.
Caso a jangada estivesse no lado contrário, ela teria que ser puxada para aquela e, isso obrigava a que outros dois nativos, atravessassem o rio numa canoa, para o lado pretendido. Estes quatro executantes, vivam num quimbo ali próximo, situado na sua margem direita e executavam o serviço a troca, creio eu,  de uns cem escudos. A avaliar pelo cumprimento da vara utilizada na condução da canoa, o rio era mesmo muito fundo e correntoso e a outra margem não se via.
Era por esta via que se alcançava o posto administrativo do Lutuai e, também, se podia fazê-lo pela via do Lucusse, e, uns quilómetros logo a seguir ao destacamento dos fuzileiros, junto à ponte sobre este mesmo rio, virava-se à direita para Cassamba (velha) e, mesmo à entrada desta, voltava-se, novamente à direita, andava-se para trás.
Ponte de Lungué Bungo e destacamento dos Fuzileiros

A travessia fazia-se em cerca de uma, arrepiante, meia hora. Sentia-se um enorme alívio quando se alcançava a outra margem. Cheguei a atravessá-la de noite e, também, cheguei a ouvir relatos de acidentes ali ocorridos, com a perda de viaturas, carga e algumas vidas.
Da última vez que a utilizei, pouco tempo depois do vinte e cinco de abril, quando ainda tudo andava atordoado, os tambores, tinham sido substituídos por uma enorme banheira de ferro mas, os métodos de funcionamento, continuavam os mesmos, situação, um tanto ou quanto parecida com aquela que então se vivia.

A CONSTRUÇÃO DE UMA CUBATA

Até aos meus quinze anitos, vivi muito de perto com as populações da etnia ganguela. Julgo ter conhecido muitos dos seus hábitos e costumes e assimilado, muitos deles. É um pouco desse conhecimento que eu pretendo aqui transmitir-vos. O que irão fazer com ele ou, que utilidade vos irá prestar, no vosso dia a dia, não sei, mas olhem que isto poderá enriquecer a vossa cultura geral.
Ora muito bem, a estrutura base, era constituída por pequenos troncos/mutondos, com o diâmetro aproximado de dez centímetros e com uma altura de um homem, na linguagem nativa, isto é, cerca de dois metros de altura. Estes mutondos eram aguçados numa das extremidades, para facilitar o seu enterramento no solo. Ficavam distânciados uns dos outros, cerca de dez a quinze centímetros, em forma circular, rectangular ou em quadrado, consoante os desejos do seu proprietário ou o seu estatuto social.
Eram depois ligados uns aos outros, por dentro e por fora, através de uns ramos esgaçados ao meio e atados com londovis, um atilho extraído de um arbusto rasteiro a que davam o nome de bissapa, de alto a baixo, com intervalos, entre eles, de cerca dez centímetros.
Depois, os intervalos deixados nesta estrutura, eram preenchidos com uma argamassa, de terra vermelha, misturada com capim e água e, por fim, alisada e algumas até eram caiadas.

A maioria destas cubatas eram de uma única divisão, com uma entrada. As maiores, com três divisões, mantinha a porta a meio e uma janelita em cada divisão. Não convinha terem muitas janelas ou portas, por causa do frio.
Mas, esta mesma estrutura podia ser mais económica, isto é, dispensar a ligação interior e ser revestida, exteriormente, por pequenos molhos de capim, a exemplo do tecto, como a seguir tentarei explicar.
Quanto ao tecto, seguia as mesmas regras, apenas com ligações exteriores, aonde seriam atados os pequenos molhos de capim, com uma técnica muito própria e, essa cobertura começava cá por baixo, a toda a volta da cubata e ia subindo, em forma de sucalcos, evitando desta forma a entrada da chuva e do vento. Estes telhados eram, como todos nós sabemos, em forma cónica ou triangulares, a exemplo das nossas casas.
Todos os materiais ali aplicados, provinham da mãe natureza. Eram construções verdadeiramente ecológicas. Tinham uma duração de vida considerável, aguentavam bem o mau tempo e só o fogo ou uma forte tempestade, as derrubava.

OS CAMUSSEQUELES OU BOCHIMANES

Eram uma tribo que não tinha poiso certo. Vagueava por todo o sertão angolano, em zonas áridas, nharas/chanas e pelos países vizinhos do Botswana, SWA, Zâmbia e Africa do Sul.
Viviam daquilo que a floresta lhes proporcionava, principalmente do mel, ratos, raizes e frutos silvestres.

Para quem não conhece, existia em Angola, umas abelhas mais pequenas do que as normais, que fabricavam o seu mel, não em colmeias mas, nos buracos feitos pelos roedores e era deste que eles se alimentavam.
Eram de baixa estatura, de cor acastanhada, com os olhitos tipo chinocas e falavam aos estalitos, mas também falavam outros dialectos. 
Como bons conhecedores da floresta, eram exímios caçadores, viciados em liamba e, excelentes guias.
O nosso exército utilizava-os com muita frequência, na zona leste, na perseguição dos então "turras".
Não conviviam com as outras etnias e, eram mesmo discriminados.
Eram bons fregueses do meu velhote e, convivi muito com eles, curioso de aprender a sua linguagem.

A CONSTRUÇÃO DE UM MUQUIXE

A sua base começava na cabecinha, tipo capacete, feito de pequenos e leves ramos, ainda verdes, para melhor serem trabalhados e não se partirem. Eram ligados entre si por londovis.
A partir daqui, ao capacete eram adicionadas outras formas, tudo feito com pequenos e verdes ramos, pelo motivo já apontado e ainda por causa do seu peso. Das formas podiam nascer um cone, do tipo, unicorne, que tinha a designação de tchicunza, com dois ou quatro arcos, em forma de lua ou, simplesmente, o capacete.
Muquixe em cerimónia da Mucanda
Depois, esta estrutura era toda revistida e ajustada com uma espécie de sarapilheira, também conhecida por tchilondos, que era extraída de uma árvore e toda ela cozida à mão, de forma a obter as formas pretendidas. O interior do capacete também era bem revestido para não magoar e era preso por baixo do queixo. O rosto era todo revestido de cera derretida para lhe dar realce à cavidade dos olhos e da boca e, depois, pintado de cor branca, preta, vermelha, às pintas, às riscas, em pequenos círculos, com barros extraídos da margem ou do próprio rio. Eram mesmo muito bonitos, cheguei a dominava a sua construção e alguns deles, chegaram mesmo a ser exibidos em público.
A par disto, todo o corpo era revestido com uma espécie de renda artesanal, muito bem trabalhada, onde sobressaiam as cores preta, vermelha e branca.
À cintura levavam uma espécie de saiote, feito de sisal, com duas ou mais voltas e, nos tornozelos, uma espécie de guizos.
Ao som do batuque e, em movimentos ritmados e cincronizados das ancas, das pernas e dos pés, o artista, rodeado de mulheres, batendo palmas cantando e gritando, dava vida ao saiote e, levantava poeira.
Estas danças tinham vários interveniente, em simultâneo e a festa durava todo o dia. Também eram revesados. Poderão imaginar o esforço dispendido pelos artistas.
Isto acontecia, normalmente, no fim da mucanda que, no próximo artigo, irei abordar.
Eu era mesmo muito entendido nesta arte, se lá tenho ficado, tinha o meu futuro assegurado.

A CONSTRUÇÃO DA MUCANDA

Começo por vos confessar que nunca entrei em nenhuma e, o que vos vou descrever, é um testemunho de um dos nossos colaboradores, mais conhecidos por serventes, que a frequentava.  Era um local onde apenas os circuncisados tinham acesso, algo afastado dos quimbos e, normalmente, à beira de um curso de água, todo ele cercado e revestido com capim, para o tornar mais acolhedor, com umas palhotas para albergar os responsáveis e acompanhantes, todos eles lungas/homens. As crianças circuncisadas dormiam ao relento, à volta da fogueira, despojadas das suas roupas, ficavam todas nuas.
O termo MUCANDA, também quer dizer, carta/escrita.
Rapazes da Mucanda

O acto propriamente dito, o corte do kinhunga, do tapa chamas, como eles gostavam de falar, ou do prepúcio, era executado a sangue frio, sem qualquer anestesia, com uma navalha bem afiada, manejada por um homem experiente nestas lides. Os garotos eram segurados pelos adultos. O enfermeiro só era chamado, em casos de infecção.
No final de alguns meses, com a ferida já cicatrizada, era organizada uma festa de arromba, com batucadas e a dança de muquixes que durava todo o dia. No final deste evento, aquelas instalações eram destruídas pelo fogo.
Depois deste acto, as crianças eram consideradas adultas e, a casa que então partilhavam com os pais, deixava de nela poder entrar e, por isso, no decurso desta estadia, era-lhe construida uma cubata.
Mas as mulheres, também, tinham a sua mucanda. Quando à rapariguinha lhe vinha a sua primeira menstruação, ela era desflorada e, o método, segundo contavam, era também violento e consistia na introdução na sua vagina um pau afiado na ponta, ao contrário do que ainda hoje acontece na Guiné em que lhes é extraído o clitóris.
Sofria também um retiro de alguns dias do seu ambiente familiar e também,  se tornava adulta com moradia própria.
Custa-me a acreditar que este acto, tenha alguma coisa a ver com a impossibilidade de estas crianças ou jovens , serem desvergindadas, de forma natural, pelos seus pares, por estes possuirem um grande pénis que não se alterava com a excitação.
Na nossa linguagem vernácula, quer ele estivesse teso ou murcho, o tamanho era sempre o mesmo.
Mas era isto se servia de explicação para tal violência.

Fiquem bem e móioué.


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

CUMULONIMBUS AFRICANOS

ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992

Durante o mês de setembro de 1992 ocorreram algumas 
tempestades tropicais, no centro de Angola, as quais eram bastante perigosas para a aviação. Recordo estar na placa e ouvir no rádio a torre de Luena informar que iria aterrar uma aeronave em emergência. Era um pequeno avião de passageiros, com um motor em cada asa e a fuselagem ao centro. O Beechcraft C-90 GT, conhecido no meio aeronáutico como o menor dos turbo-hélices da família King Air, estava em sérias dificuldades para conseguir chegar a Luena. Pouco tempo depois do reporte, o piloto conseguiu aterrar e conduziu o King Air para a placa, tendo vindo estacionar na zona normalmente utilizada pela ONU. Desloquei-me ao aparelho em questão para ver se podíamos auxiliar em alguma coisa. Ao ver a aeronave assaltou-me a imagem que Beechcraft tinha andado à bulha com um leão. Ou melhor, com um bando de leões, tal era a quantidade de arranhões profundos e amolgadelas na chaparia; antenas arrancadas à fuselagem; hélices ratadas; vidros rachados; lemes e ailerons amachucados; luzes de navegação e faróis de aterragem partidos; e até a faixa de borracha preta, que revestia o anticongelante no bordo de ataque das asas, estava feita em tiras e pendia em franjas. Mas aquilo que mais impressionava era o tremendo abalroamento no nariz pontiagudo da fuselagem. Dir-se-ia que alguém tinha dado um valente murro no nariz do Beechcraft, transformando o que era côncavo em convexo.
- “Já estava a ficar aflito” - disse o piloto-comandante ao sair do avião – “ fiquei sem a antena de
GPS, não sabia onde estava, e o nível de combustível nos depósitos estava a ficar francamente baixo. Segui um rio afluente do Zambeze voando para Noroeste na esperança que fosse o Luena. Correu bem, mas apanhei um susto. ”
O copiloto estava francamente enervado e quase não falava. Quando saiu do avião meteu os calços nas rodas e foi fumar um cigarro para longe.
- “Mas o que é que vos aconteceu para ficarem com o avião neste estado? – Perguntei curioso enquanto examinava a borracha protetora do sistema anticongelante feita em tiras.
- “A Sudeste daqui há uma parede de Cúmulo-nimbos. São incrivelmente altos, mais de 45.000 pés, não tínhamos capacidade de passar por cima. Tentámos atravessá-los na perpendicular mas, pouco depois de entrarmos nas nuvens, parecia que tínhamos batido contra uma parede de gelo. Não se via nada para fora; só relâmpagos e bolas de gelo a baterem no avião com uma grande força. Perdemos potência; ficámos sem GPS; não tínhamos informação de velocidade nem de altitude. Ainda bem que vínhamos sozinhos porque se trouxesse passageiros teria sido o pânico abordo.”
Aeroporto de Luena 
Ofereci a nossa hospitalidade e os meios de comunicação que tínhamos disponíveis para o piloto contactar a sua organização. Abasteceu com o combustível do aeródromo e, antes do final do dia, voltou a descolar rumo a Luanda. Ficou-nos a lição de que a mãe natureza continua a reinar e em África, havia CumulonimbusAfricanus!


(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)





Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

AS MEMÓRIAS DE UM LUENA - O POSTO DO MUIÉ


O POSTO ADMINISTRATIVO DO MUIÉ
Muié vista áerea, foto Bat."Ás de Espadas" 

Pertencia à Circunscrição dos Luchazes e situava-se na margem direita do Rio Muié, que lhe deu o nome. Tinha uma avenida larga, talvez com uns vinte metros e cerca de mil de comprimento, toda ela ladeada de eucaliptos adultos, com mais de trinta anos. Situado numa zona plana, com ligeira inclinação para o referido rio e do qual distava cerca de uns quinhentos metros, mais coisa menos coisa.
Mas eu peço-vos para se deterem por uns segundos, na foto acima e acompanhem a minha descrição, que irei fazer, com alguma emoção. Antes porém, devo referir que vou começa-la pelo posto, povoação, em si e, só depois e em separado, irei descrever a missão que começa ou acaba, consoante a entrada ou a saída, aqui mesmo na parte inferior desta mesma foto. A fotografia é aérea e foi tirada por um dos nossos amigos da FAP, do tempo do Mambo (Carlos Sequeira) e já tive a oportunidade de lhe agradecer. 
Então temos, a primeira edificação que se vê, é a enfermaria dos acamados e logo de seguida a residência do enfermeiro e enfermaria. Esta construção e a do posto que irei citar de seguida, foram construídas na minha ausência, andava eu na 3ª. classe, na Escola Primária 53, no Luso. Estes três edifícios foram construídos, em pouco mais de um ano lectivo. Naquele tempo, não se brincava em serviço. O pedreiro-mor, era um cabo verdiano a quem o meu pai construiu, nos arredores do nosso quintal, uma bela cubata.
Os nossos antigos, traçavam tudo a régua e esquadro. Reparem bem na foto.
A seguir à residência do enfermeiro, havia uma construção de adobe, coberta a folhas de zinco ondulado, que servia de sala de aulas aos indígenas e logo a seguir, a minha escola e residência do professor. Um prédio enorme, também de adobe mas coberto a capim. Tinha uma varanda à toda a volta, com uma proteção em madeira. Este foi o primitivo posto administrativo. Nas traseiras, existia um outro imóvel mais pequeno que, naquele tempo, servia de cadeia. Mais atrás, existiam umas cubatas dos sipaios. Tudo rodeado de eucaliptos adultos e jovens.
Muié vista parcial da Sanzala, foto Bat."Ás de Espadas" 

Sobre a cadeia, vou contar-vos uma história. Isto passou-se no início dos anos sessenta, quando o chamado terrorismo, surgiu no norte da província ultramarina. As autoridades administrativas e não só, puseram-se logo em campo, no sentido de controlarem tudo e todos, particularmente os nativos, com receio de que aquela "febre" se disseminasse pelo resto da província, o que veio mesmo a acontecer e com dureza, a partir dos anos 1966/67, nesta zona, concretamente.
Fizeram umas detenções e chegaram mesmo a torturar, como era hábito, alguns desgraçados, com a ajuda de uma secção do nosso exército que para ali havia sido destacada. Segundo diziam à boca pequena, alguns não aguentaram o referido tratamento e sucumbiram e, foram, pela calada da noite, levados na viatura da administração e abandonados no Rio Cussibi. Não sei se foi ou não verdade. Eu era apenas um kanuqui com uns dez ou doze anitos. Mas a história não fica por aqui e o melhor vem já de seguida.
Os presos dormiam acorrentados e, como não podiam sair para urinar, faziam-no numa esquina interior da referida cadeia, contra a parede. Não sei se estão a ver o filme, adobe com água ou mijo, o efeito era o mesmo, a parede tronou-se vulnerável. E, uma bela noite, ao som dos canitos, todos os reclusos deram o fora, depois de terem escavado a referida parede, desapareceram na escuridão da noite, por aquele mato fora. Ora bem, o sipaio responsável por aquela tarefa, era o principal e único suspeito.
O chefe do posto e os militares que conduziam aquela operação, para não darem nas vistas e não serem motivo de chacota, por parte dos nativos, resolveram ordenar ao cipaio que fosse a Cangamba buscar o correio, coisa nunca feita, isso era da responsabilidade do chefe, para aí ele ser então preso, longe das nossas vistas. 
O sipaio, prevendo aquele desfecho, acatou as ordens e partiu, só que em sentido contrário, fugiu para Zambia e foi-se juntar aos prisioneiros fujões.
Quando se deu o vinte e cinco de Abril, este amigo, foi lá a casa visitar-nos e entre outras passagens, este, foi tema de conversa. Fartei-me de rir com ele a contar esta peripécia. Afinal, os patrício tem esperto nos cabeça.
Mas voltando à escola, à sua frente existia um cerca, mesmo junto aos eucaliptos, com um portão, canteiros de flores e, do outro lado da avenida, um enorme descampado, ocupado, entranto, por aquela enorme sanzala e ao fundo desta, a caminho do rio, a pista de aviação.
Muié vista áerea, foto de Carlos Antolin 
O professor era de raça negra, foi o primeiro e único que tive, era uma pessoa bem educada, simpático, afável e ensinava bem. Como não existiam ali restaurantes, comia em nossa casa e, nunca mais me esquece, quando se foi embora - só lá esteve um ano -, como não havia recebido o seu vencimento, entregou ao meu pai uma máquina fotográfica, cujo valor o meu pai desconhecia mas, aceitou-a e, deu como saldadas as contas. Possuo algumas fotos tiradas com essa máquina. Cruzei-me uma única vez com ele no Luso, andava eu já no 1º. ano do CGC.
E quem não se recorda das moscas pela manhã, que se colavam nas nossas costas. Íamos todo o caminho para a escola, com uma bissapa a enxotá-las.
Continuo a explorar apenas o lado direito da já referida avenida, da fotografia, antes que a fonte se esgote e receba por aí a vizita daquele senhor "Alzaimer".
Instalações do Quartel, foto Bat."Ás de Espadas" 
A seguir às moscas, vem o novo posto administrativo, meu contemporâneo mas que, como já disse, nasceu na minha ausência.
Era um edifício moderno, à boa maneira colonial, ficava lá nas alturas, como se fosse o trono do régulo D.Aleixo. A secretaria ficava virada para a avenida, com um amplo descampado à sua frente, possivelmente, destinado a jardim, quiça, uma mini praça do império e, o seu acesso fazia-se por uma escadaria, ladeada de ambos os lados por uma estrutura de ferro e, ao cimo, uma varanda, também esta, rodeada por idêntica estrutura e com um banco corrido, para descanso do sipaio e das visitas. O acesso à residência fazia-se também por uma escadaria, lateral, do lado esquerdo.
A seguir a este, vinha a primeira loja da firma Pinto Martins, gerida pelo amigo António Roque, a quem o nativo atribuiu o cognome de "kessi na mila", o que traduzindo quer dizer mais ou menos, aquele que não tem tripas, por ser alto e magrinho. Este amigo era ali de Vila Nova de Tazém. 
A loja era rodeada de uma varanda e do seu lado direito, existia um enorme jango, que era utilizado com sala de estar e de refeições, já que o edifício principal apenas possuía um pequeno armazém, um quarto e uma privada. Atrás desta loja, ou comércio, encontrava instalada uma descascadora de arroz, ainda no meu tempo. E aqui, vou, para memória futura, fazer mais um desvio, para vos dizer que, esta zona produzia muito arroz e cera, mas o forte era mesmo arroz de sequeiro. Ora a técnica utilizada pelo nativo, no seu descasque, era o pilão e, o arroz era todo partido, transformava-se em trinca, sem qualquer valor comercial. A nova medida, apanhou todos de surpresa e não foi do agrado nem dos produtores, nem dos comerciantes. Uns porque se julgavam prejudicados no preço e outros porque não estavam preparados para tal mudança. O meu velhote optou por esvaziar uma divisão contígua à loja e despejar para ali o arroz, depois de pesado e pago. Depois, outro problema surgiu que foi o transporte para a descascadora e, depois de descascado, para o armazém. Eram ainda perto de trezentos metros de percurso.
Entre o posto e este comércio, existia um arvoredo, bem capinado, e relvado na época das chuvas, por graça da natureza.
Depois, a seguir vinha o comércio do senhor Gonçalves, pai do meu amigo e colega Dionísio Gonçalves. Em termos de áreas, as lojas eram parecidas mas esta, era a única que não possuía varanda à volta. Tinha um quintal, todo cercado, com laranjeiras, tangerineiras e uma horta.
Era o único comerciante que possuía uma carripana Ford. Viajei nela, pelo menos umas três vezes, duas em picknick e uma a Cangamba, para fazermos exames e, mais um desvio para vos contar uma passagem engraçada, com o meu irmão Manel. A carrinha enterrou-se e, toda a gente saltou da sua carga para ajudar e, aproveitou-se o momento, para nos aliviarmos. Só a nossa professora não o fez, não largou a cabine. Então o puto, saiu-se com conta boca: -"todos mijam só a professora é que não". Foi uma risada. O certo é que a professora só se aliviou em Cangamba e, olhem lá, foram umas quatro ou cinco horas de viagem.
Nesta viagem, matou-se um nunce e, como não havia lugar para ele, na viatura, a peça ficou à guarda de uns nativos que, do nada ali pareceram. Ficou combinado no regresso, recuperarmos parte do bicho. Mas o mais engraçado, foi quando chegamos a Cangamba, já toda a gente sabia da caçada. Olhem que não existiam telemóveis!
DO 27 em trânsito, foto de Carlos Gomes da Silva

E vamos voltar à picada mãe.
Finalmente, neste correr, vinha a segunda loja da firma Pinto Martins, ocupada pela nossa família, a quem os patrícios alcunharam o meu saudoso velhote de Manel "saba niqué" isto é, pai de muitos filhos. Pudera, naquele tempo, já éramos sete, a mais velha com quinze anitos e a mais nova com cerca de meses. Esta foi a nossa segunda residência neste posto. A loja era também rodeada por uma varanda, tinha apenas três divisões, a loja em si, o armazém, e o quarto do empregado e atrás, a privada. Ao lado direito deste edifício, existia um enorme casarão, possivelmente, a loja inicial, de adobe e coberto a capim e tinha para além de um armazém, seis divisões. Era nele que residíamos. Tinha também à toda a volta uma varanda e à frente, um enorme avançado. A casinha, ficava atrás, em edifício próprio.
Voltando às minhas recordações, começo por vos dizer que, todos os edifícios, que eram propriedade do Estado, como sejam, as enfermarias, as escolas e o posto administrativo, citadas anteriormente, serviram de quartel a uma Companhia de Caçadores, "Ás de Espadas", pertencente ao Batalhão de Cangamba e que, o seu comandante, o senhor
Monumento ao Cap. Costa Martins,
 foto Bat."Ás de Espadas"
 
Capitão Costa Martins, ali faleceu, vitima de uma mina anticarro, perto do Rio Chicului. Foi até edificado um monumento em sua memória, junto àquela que fora a enfermaria e residência do enfermeiro.
E agora, vou voltar ao tema da "casinha". É que, em todos os edifícios que habitei e que conheci, naquelas bandas, em nenhum deles esta divisão, onde os "fortes se transformam em fracos", tinha ligação interna à restante residência, o seu acesso, era sempre pelo lado de fora. Nunca entendi isto e, não sei se existirá por aí alguém que conheça as razões objectivas desta discriminação arquitetônica. Alguns tinham mesmo um edifício próprio, como era o caso da minha última residência, citada no meu trabalho anterior.
Esta nossa morada tinha umas sete divisões e no quintal, que era enorme, tínhamos mais
Casa e família de Antonio Gomes 
quatro pequenas casas, a cozinha, com formo e tudo, a dita privada, a capoeira e o alojamento para os nossos fregueses, muitas árvores de fruto, laranjeiras, tangerineiras, limoeiros, ananases, nespereiras, mangueiras, goiabeiras e mamoeiros. Para além destas existia ainda, mas afastados, o curral dos porcos, dos bois e das cabritinhas. Uma parte desse quintal era ocupado por uma horta, no tempo das chuvas e uma outra parte, com a cultura de milho. Muita massaroca comia.
Para nos mantermos, minimamente, informados, todos os comerciantes tinham um rádio, o nosso era da marca Philips, utilizava uma enorme bateria do mesmo tamanho do rádio e só funcionava nas horas dos noticiários, da Emissora Oficial, no horário das comunicações, via P19 do chefe do posto e à noite, para o meu pai, à socapa, escutar a BBC de Londres, transmitida através da Africa do Sul, o que era proibido.
Um belo dia, o chefe desconfiou destas escutas ilegais e, resolveu, confiscar todos os rádios ali existentes. Ficamos mesmos às escuras, deixamos de ouvir uns fadinhos e o Teixeirinha, à hora das lides domésticas, a cargo das minhas irmãs Isabel e Lurdes. Por vezes, as notícias eram mesmo alarmantes. Depois, pesou-lhe na consciência e devolveu-os.
Muié vista áerea, foto Bat."Ás de Espadas" 

Vou voltar ao início daquela avenida, para vos descrever, agora, o seu lado direito mas, antes porém, devo aqui fazer uma referência, que se impõe, sobre a figura do Chefe ou Administrador do Posto, que era, como todos sabemos, a autoridade máxima daquela zona e que acumulava a bem dizer, todas as funções atribuídas a um governante. Eram os usos e costumes da época, que se utilizavam e em certos casos, com alguma malvadez e prepotência, os próprios poderes. O chicote e a palmatória, eram os instrumentos usuais, mas em abono da verdade, muito poucas vezes os vi entrar em acção. E, não querendo cometer nenhuma injustiça, vou apenas dizer que, estavam sempre ausentes, a culpa não seria deles, mas eu comprovei isso, naqueles postos por onde passei e, foram pelo menos uns dez anitos. Eram colocados mas, como havia muita falta deles, eram retidos nas sedes dos concelhos e, uma vez por ano, desciam ou subiam, conforme o terreno, para fazerem a recolha do IGM ou para confirmarem, perante o mundo, a presença no território, cuja administração pertencia a Portugal. Eu tive um exemplo desse na minha família.No Muié, houve apenas um chefe que, no meu tempo, chegou a aquecer o lugar, o tempo suficiente, para nos tirar uma foto de família, onde está incluída a sua e de todos os comerciantes. Mas não chegou a passar lá um Natal e, justiça lhe seja feita, apareceu uns meses depois, com presentes para todos nós. Eu ainda me recordo do descapotável, em plástico que dele recebi e, o único defeito que lhe apontei, foi ser verde e, era muito frágil para aquelas picadas. Ora bem, o homem era simpático, acessível, uma boa autoridade. Aceito como certo, o facto deles também, a exemplo dos comerciantes, terem corrido riscos de vida, no exercícios das suas funções. Vocês nunca se esqueçam que, o isolamento mata mesmo. Nós ficávamos todos felizes, eufóricos mesmo, quando ao longe escutávamos o roncar de um camião ou de uma outra qualquer carripana, que nos vinha visitar, o dia mudava totalmente, nem os patrícios fugiam á regra. A monotonia era quebrada e a noite fazia-se dia. Exagero meu, mas só quem viveu estas experiências, sabe avaliar. 
Muié vista áerea, foto Bat."Ás de Espadas" 

Mas, continuo a dizer que, os nossos antigos, traçavam tudo a régua e esquadro. Duvido que aqueles projetos de povoações, tivessem sido feitos por engenheiros, porque eles não existiam ou, existiam poucos e, não se aventuravam naqueles confins. O que me leva a concluir que os referidos traçados tenham sido concebidos pelas primeiras autoridades que, como todos sabemos, eram oficiais do nosso exército, porque a nossa penetração, naquele território, assim o obrigava.

Agora sim, vou descrever-vos a lado direito da dita avenida e, volto a chamar a vossa especial atenção para a foto que figura no topo.
Ali naquele local onde está localizada aquela enorme sanzala, existia um descampado com o tamanho de um campo de futebol. Assisti à construção daquela pista de aterragem mas, não assisti a nenhuma aterragem. Não tenho a certeza mas, isso aconteceu pela primeira vez, com a evacuação dos missionários e, pouco tempo depois, com a minha mãe. Todo o resto era mato rasteiro, bissapas e mais bissapas.
A seguir a esta sanzala, vinha o comércio/loja do meu falecido tio Luis Ferreira da Silva. Devia ser o maior edifício, em termos de área coberta, e era o único coberto a telha. Era mesmo enorme, tinha oito divisões, sete portas e seis janelas. Tinha uma varanda a toda a volta e era vedado do lado direito, com um pequeno muro com frestas. Também nesta, a entrada para a "casinha", fazia-se pelo lado da varanda, não tinha comunicação directa com o resto da casa. No quintal, que era todo cercado, existiam mais cinco edificações, casas de pau a pique, utilizadas como armazém, dispensa, cozinha, alojamento para os nossos fregueses, capoeira e curral das "pembes". Ao fundo do quintal que era enorme, ficavam os currais dos "gombes" e dos" gulos". Neste quintal existiam muitas mangueiras, mamoeiros, goiabeiras, laranjeiras, limoeiros, tangerineiras, ananases e uma amoreira junto ao tanque dos patos. Também tínhamos coelhos e uma coelheira. E uma cadela, a Diana, cuja história já vos contei.
Instalações do Quartel, foto Bat."Ás de Espadas" 
Esta foi a nossa primeira residência neste posto administrativos, depois de termos saído do Sessa e deu-se, numa altura em que o meu pai se incompatibilizou com o nosso tio Ferreira das Barbas e na mesma altura, em que o meu tio Luis, se mudou para o Moxico Velho. À sua volta e, no lado residencial, tínhamos plantadas algumas flores. Esta loja, após a nossa saída, foi ainda habitada pelo falecido senhor Luciano e, depois de ele sair para o Mussuma, foi ocupada como quartel, por um pelotão do nosso exército que pertencia, se a memória não me falha, a uma companhia (naquele tempo ainda não era sede de Batalhão), que pertencia a Gago Coutinho. O mesmo acontecia em Cangamba que, inicialmente, teve lá instalada uma companhia. Só mais tarde é que virou sede de um Batalhão.
A segunda  e a terceira habitação, que distavam umas das outras, cerca de cem metros, eram de pau a pique e cobertas a capim e tudo indicava que tinham sido as lojas primitivas, da firma Pinto Martins e do senhor Gonçalves, cujas lojas definitivas, construídas a adobes, já eu as citei quando descrevi o lado esquerdo desta mesma avenida, aliás,  elas estavam localizadas, sensivelmente, em frente umas das outras. Ambas tinham quintais cercados com árvores de frutos, principalmente, mangeiras, laranjeiras e limoeiros que faziam muito bem às cauenhas. De resto, também este lado era rodeado de quimbos e de bissapas.
Instalações do Quartel, foto Bat."Ás de Espadas" 

O povoado era mesmo muito airoso e perfumado pelo cheiro dos eucaliptos e, no tempo da floração, aquelas bissapas deitavam uma flor amarela e ouvia-se por todo o lado, os zumbidos das abelhas. Em determinados anos, estas com o frio e a geada, ficavam totalmente queimadas e, quando isso acontecia, o espetáculo era desolador, um desastre para as abelhas e para a economia local que vivia muito do seu mel e, consequentemente, da sua cera.
A missão, situava-se à entrada do posto administrativo, para quem vinha dos lados de Cangombe/Cangamba. Com cerca de dois mil metros de comprimento  e uns quinhentos de largura, era toda vedada, com uma cerca da altura de um homem, muito arborizada, com relva por todo o lado, limpinha, cheia de pomares com toranjas, fruta que eu nunca tinha provado e não gostei.
Possuía umas quinze edificações, em adobe e a maioria delas cobertas a capim, todas pintadas de branco, com varandas largas e muradas, a saber, seis, eram residências dos missionários e da professora, muito acolhedoras, todas elas com lareiras;  três eram salas de aulas, duas delas em anfiteatro, coisa nunca vista; um internato feminino; uma enfermaria e, uma igreja e um internato masculino, em forma de U que se situavam fora da vedação, por razões óbvias. 
Afastado de tudo e de todos, estava uma leprosaria. As restantes eram casas de apoio.
Tinham água canalizada e telefone interno. Residiam ali sete missionários, de nacionalidades americana, canadiana e sul-africana, o sr. Brainer era o responsável pela missão, casado, a Dona Buila era a enfermeira chefe, ajudada pela enfermeira Dona Margarida; a Dona Cecília era a responsável pelo internato feminino e o Sr. Muir era, o cavaleiro andante lá da missão.
Os leprosos só estavam autorizados a circular pelo posto, aos sábados, e percorriam todas as quatro lojas a pedir esmolas. Toda a gente, principalmente os nativos, fugiam deles mas, eu e a minha família nunca o fizemos e sempre os ajudamos, com fuba, sal, alguma tuqueia e às vezes até sabão.
RESUMO E CONCLUSÃO
Alguns residentes no Muié, foto de Antonio Gomes 
Cheguei a contabilizar, num determinado ano, ali a existência de trinta "chindeles", na sua maioria portugueses, e a família mais numerosa era sem dúvida alguma a minha, composta por nove elementos.
Existiam naquele posto quatro viaturas, o Land Rover do chefe do posto, a carripana do senhor Gonçalves, o jeep Willis do senhor Muir e a Dodge do senhor Brainer. Todas elas de caixa aberta.
Pelo menos duas quingas, a nossa e a do senhor Prata que era um vizinho nosso, negro, que desempenhava um cargo importante na missão, ligado à igreja.
Duas enfermarias, a da missão e a do Estado; três enfermeiros, um do Estado e duas da missão; cinco salas de aulas,  duas do Estado e três da missão.
Em termos de nativos, existiam muitos quimbos na redondeza e, estimo uma população a rondar o meio milhar de famílias.
Não sei precisar o ano, mas tivemos a visita do Governador Geral de Angola, o general Silvino Silvério Marques, acho que foi o único que ousou enfrentar aquelas picadas. Naquele tempo, ainda não existia a pista. A festa começou logo pela manhã com batucadas para reunir o pessoal, a povoação foi toda engalanada, com faixa de pano cru branco pintado com mensagens de boas vindas, presas aos eucaliptos, em frente ao posto foi feito um corredor, com duas longas filas de alunos, com as suas batas branquinhas e com bandeirinhas de papel, de cor verde e vermelha, todos os comerciantes e missionários, sobas e sobetas, muitos nativos e cantou-se o hino nacional e o ANGOLA É NOSSA.
O governante ouvia algumas queixas e pedidos, comeu alguma coisa e, ala que se faz tarde.


O amigo Luena






sexta-feira, 22 de julho de 2016

EXCESSO DE CONFIANÇA

ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992

Cartoon do autor
A atividade da ONU na placa do aeródromo de Luena tinha momentos de intenso movimento de pessoas e material. A nossa presença era absolutamente estranha para os populares que deambulavam pelo local, buscando apanhar um voo para Luanda. Muitos desses elementos eram desmobilizados e alguns tinham armas em seu poder. 
Certo dia Irritados e em desespero de causa, alguns desmobilizados começaram a manifestar-se violentamente por não conseguirem um voo para fora de Luena. Não tardou e ocorreram os primeiros disparos de armas automáticas. 
Comigo na placa, estava um grupo de jornalistas holandeses, que tinham vindo a Luena em trabalho de reportagem sobre a região. Os jornalistas aguardavam por um C-130, ao serviço da ONU, para regressarem a Luanda. Ao ouvirem os tiros, os jornalistas holandeses entraram em pânico e atiraram-se ao chão para não serem alvejados. Havia gritos em Holandês (Flamengo), em Inglês e até estava alguém a chorar. Eu continuei a trabalhar, de um lado para o outro; organizando as bagagens de embarque; falando pela rádio com o pessoal da torre para saber a estima do nosso avião; procurando pelo nosso pessoal de apoio em terra para me ajudar nas tarefas; etc. 
Os tiros eram coisa corriqueira por ali, e eu tinha muito assunto para resolver antes do C-130 chegar. Era como se os disparos fizessem parte do cenário de um filme onde, por acaso, eu também participava. Tudo aquilo eram cenários e figurantes do meu filme. Foi nessa altura que ouvi o som de algo a bater no chão ao pé de mim, com muita força. Só depois ouvi o som do disparo. Aquele tiro tinha sido dado na minha direção e, como a bala voava mais rápido que o som, só ouvi o disparo da arma depois do impacto a meus pés. Logo a seguir, ouvi um assobio do lado direito da cabeça e, de novo, o som do disparo veio a seguir. Alguém estava a disparar na minha direção, e não eram balas perdidas. Atirei-me ao chão procurando esconder-me por detrás de alguns volumes que ali estavam para embarcar. Os caixotes não iriam impedir as balas de me atingir mas, pelo menos, ocultavam a minha silhueta ao atirador. Segundos depois começou um arraial de tiros isolados, rajadas de armas automáticas e muita gritaria. Os Ninjas tinham regressado ao aeródromo. A diferença em relação à sua primeira intervenção era que, desta vez, não estavam a usar bastões de madeira mas sim kalashnikovs. 
Quando tudo acabou, estavam várias pessoas estendidas no chão da placa, onde o avião da TAAG tinha estado estacionado. O pequeno grupo que foi buscar a antiaérea foi considerado instigador daquela ação, tendo sido algemados no local. Os presos e os feridos foram levados pela polícia antimotim e o ambiente acalmou de novo.
Ouviu-se o ronco surdo de um outro C-130 a aterrar, seguido do som intenso do procedimento de travagem com os motores em reverse. Era o nosso avião que chegava. Quando os holandeses subiram a bordo, tinham os olhos vermelhos de terem estado a chorar. Eu tinha o semblante aparvalhado de ter escapado, por muito pouco, a levar um tiro na cabeça. Tudo por ter cometido um erro comum neste tipo de operações – baixar a guarda devido à rotina.
Registei a minha lição número dois, em ambiente de conflito: - “O Excesso de Confiança mata!”


(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)



Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração. Bem Haja.