quinta-feira, 12 de outubro de 2017

S.A.R. O SENHOR D.DUARTE PIO DE BRAGANÇA, PRÍNCIPE DA BEIRA E A FAP.

D. Duarte no AB3 Negage


Como monárquico, tenho o maior respeito pelo actual Duque de Bragança assim como uma enorme admiração pelo patriotismo, cultura e comportamento civil do Senhor Dom Duarte. São já tantas as suas obras e tal tem sido a sua enorme contribuição para a grandeza de Portugal que tentar fazer dele o que nunca foi só mancha a “folha limpa” do Senhor Dom Duarte.Falei longamente sobre o assunto com o historiador Prof. Mendo de Castro Henriques, que é o biógrafo da Casa de Bragança (e, coincidentemente, meu patrono na Sociedade de Geografia de Lisboa) corrigindo-o para o errado grande destaque à acção de D. Duarte na FAP dado no seu livro “Dom Duarte e a Democracia”. Tudo falso! Lembrei-o que, quando a verdade acabar por ser exposta (mais cedo ou mais tarde sempre é), os leitores serão tentados a pensar que outros feitos mencionados de grande destaque também o poderão ser. O que mais me admirou, e devo dizer que me decepcionou, foi que Dom Duarte, que leu o manuscrito antes da publicação, não tenha mandado eliminar o que se refere à sua passagem pela FAP.
Nas férias de verão de 1967 um importador Português de helicópteros oferece ao Dom Duarte a frequência de um curso de PPH (Piloto Privado de Helicópteros) em França. Lá voou em Hughes 300 e obteve a respectiva licença Francesa que foi reconhecida pelo DGAC. Totalizou cerca de 20:00 de voo.
Apesar de não ter concluído o curso complementar dos liceus no Colégio Militar, como seria necessário, foi, mesmo assim, dispensado da recruta. Mesmo com forte deficiência de visão, foi dado apto para pilotagem pelos serviços médicos da FAP e apresentou-se em Tancos como Soldado Cadete para frequentar o Curso Complementar de Pilotagem de Helicópteros. Vale lembrar que nestas alturas o CCPH só era dado a pilotos já brevetados em T-6 ou T-37.

PH1/67, D. Duarte é o 4º. da direita.

Dom Duarte, como Cadete, foi incluído no curso de helicópteros frequentado pelos Aspirantes do curso P1/67, que já tinham sido brevetados em Aveiro (Chipmunk e T-6).
Recebeu a instrução de helicóptero normal com o pequeno detalhe: nunca voo solo (largado). Um dia foi chamado ao gabinete do Comandante da base que lhe colocou as asas no peito e o promoveu a Aspirante.
Depois da conclusão do curso, um camarada de curso foi um bom amigo e, arriscando a sua própria carreira, num voo de navegação, após uma aterragem, autorizou o Dom Duarte a experimentar um breve voo solo. Este voo “secreto” foi a única vez que Dom Duarte voou solo numa aeronave da FAP.
Ao ser mobilizado para o Ultramar Dom Duarte foi colocado no AB3 Negage onde não só não existiam helicópteros como era até raro lá passarem! Apesar de manifestamente Dom Duarte muito desejar voar como os outros pilotos, “to add insult to injury” estava expressamente proibido (sabe-se lá por quem) de voar em monomotores, donde só lhe restava voar como co-piloto no Beech D.18S da base, o que acontecia raríssimas vezes pois todos os outros pilotos também queriam ter essa oportunidade e o avião não voava mais do que uma vez por semana.
Quando eu cheguei ao Negage ele já lá estava havia uns meses. Era uma pessoa normal, como nós todos e fizemos uma boa amizade. Nos meus passeios de mota à volta do Negage levei comigo várias vezes o então Príncipe da Beira (na altura tratávamo-lo por “tu” pois era, para nós, simplesmente o Duarte, nosso camarada piloto) e foi para mim um fantástico cicerone ao me mostrar os melhores pontos para assistir ao magnífico por do sol Africano.
Duarte piloto
Também fomos várias vezes no seu VW 1500 visitar fantásticas e belíssimas fazendas de café da região do Uíge. Era um bom Amigo!
O que era engraçado é que, se nós, de Furriel a Tenente o tratávamos por “tu”, de Capitão para cima tratavam-no por “Senhor Dom Duarte” (?!) Como para o Capitão França (Cte da EO) e para o TCoronel Belo (Cte da Base) a presença do Duarte e a situação que ele vivia de “piloto-nãopiloto” só criava embaraços, deixavam-no “desenfiar-se” à vontade (até gostavam!) e assim o Duarte apanhava “boleia” no Noratlas (Guia de Marcha para quê?) e ia para Luanda, e daí para onde quisesse, semanas a fio sem ninguém saber onde parava. 
O “diabo teceu-as” quando o Tcor. Belo foi substituído pelo Tcor. Cruz Novo. No dia seguinte de lá ter chegado, entra de manhã na sala de “briefing” com uma prancheta na mão onde tinha a lista dos pilotos. Começou a chamar um a um para se apresentarem. Quando diz “Bragança!” o Cap. Franca disse: “Ah! Esse é o Príncipe, não está cá”. Quando o Comandante perguntou onde é que ele estava e o Cap. França respondeu “não faço ideia!”! Então o Comandante perguntou pela “Guia de Marcha” e quando o Cap. França respondeu só com um sorriso o bom do Tcor Cruz Novo, que até era republicano ferrenho (como ele próprio o disse) teve um ataque de fúria e gritou: ”Ou amanhã de manhã ele se apresenta no meu gabinete ou eu levanto-lhe um processo por deserção!” E não estava a brincar! Como o Cap. França sabia que o Zé Inácio Vasconcelos e eu éramos amigos dele, pediu-nos para tentar achá-lo e deixou-nos usar o telefone do gabinete dele.
Negage 1969, Jorge Carvalheira
 e Duarte de Bragança
Depois de vários telefonemas para amigos comuns em Luanda lá ficámos a saber que ele estava numa fazenda algures e pedimos para alguém o avisar urgentemente da “pega” em que ele estava metido.
Cinco dias mais tarde lá apareceu o Duarte no Negage, mas o Comandante já tinha mandado abrir o processo. No dia seguinte foi para Luanda, o Comandante da 2ª.RA deu-lhe por encerrada a comissão e ele foi recambiado para a Metrópole.
Por mais respeito que eu tenha pela pessoa do Duque de Bragança, e tenho muito, acho um absurdo tentar enaltecê-lo deturpando a verdade, não só contando as suas “façanhas” como piloto, como também afirmando que ele tenha sido corrido de Angola por motivos políticos.
Esta é a VERDADE dos factos!

Por:
João M. Vidal

16 comentários:

  1. Resultado? Já nesse tempo havia compadres, corruptos, ladrões e vigaristas, falsários e toda a casta de miséria moral que grassa no nosso País.

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  2. Parabéns Vidal, por clarificares tão sucintamente o acontecido, grato pelos detalhes.

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  3. Parabéns Vidal, por clarificares tão sucintamente a passagem pela FAP, de Dº Duarte de Bragança. Grato pelo texto tão bem descrito, acabando com muitas teorias.

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  4. É claro que o palhaço não gostou do meu comentário e não o publicou. Deve pertencer ao grupo.

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    1. Aqui não há palhaços! Sentimo-nos pequenos para desempenhar tão nobre arte.
      Pelo contrário, pelo teor dos vossos comentários e linguagem utilizada, afigura-se-nos que sois um pretenso detentor de certas verdades, infeliz e caricato.
      A. Neves

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  5. Quem sou eu para duvidar. Haja quem fale as verdades porque as conheceu na primeira pessoa. Obrigado.

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  6. Obrigado pelo testemunho. Parabéns.

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  7. O seu a seu dono. Infelizmente muito boa Gente por aí pulula dizendo que fez (ou dizendo-se que fez)o que não aconteceu. Pobres de espírito apesar de "bem nascidos". As ditas "Boas Famílias" de Portugal tinham honra em se mostrarem dignas de seus Antepassados, vide o exº de seu primo van Huden que foi um destacado e destemido Senhor e herói na guerra colonial que o nosso País enfrentou entre 1961 e 1974. Enfim a conclusão é de todos NÓS! Há Homens de caracter e gente vulgar ... mesmo que de origens referenciáveis.

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  8. jose queiroga13 outubro, 2017

    Caro amigo Tudo muito bem e correto. antes de seguir para o Negage esteve na esq 94 uns dias ( onde aliás tinha sido colocado-só havia ALIII na BA9)Muito simples sem "cagança" (nem lhe seriam permitidas) tínhamos para com ele a mesma atitude que teríamos com outro qualquer"maçarico".
    Foi-lhe terminada a sua comissão como Alferes. Como era de lei após passagem à reserva todos os oficiais eram promovidos ao posto imediato.
    Voou comigo no 10 de Junho ce 1968 numa formação de ALIII porque o Negage o tinha nomeado para Porta Estandarte Nacional na cerimónia desse dia.
    Não fez qualquer comentário ao facto! Porem a causa monárquica movimentou-se e foi substituído. Logo, participou no desfile militar, mas a voar comigo.
    Foi um Senhor

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  9. Estive com O D. Duarte no GDACI (Monsanto) em 1969/1970 (?)e o que tenho em memória sobre ele e em especial pelo que apreciei num Sábado que estivemos os dois de serviço á Unidade, é que ele é uma pessoa extraordinariamente educada e respeitadora.
    Fiquei muito admirado (por ignorância minha claro) por constatar, devido a um facto que nos aconteceu no gabinete do oficial de dia, (tentativa de venda de uma enciclopédia por um vendedor) QUE AFINAL O HERDEIRO DA COROA DE PORTUGAL NÃO TINHA AUTONOMIA FINACEIRA. Apesar do seu interesse na obra, após um telefonema para o seu gestor, despedimos o vendedor e nada compramos (eu porque era um teso e ele porque o seu gestor mandava mais que ele!!!)Muito espantado comentei depois com os camaradas que o nosso rei não reinava nada. De qualquer forma apreciei a personalidade, apesar de na traseira do seu veiculo ter um ponto de interrogação(?) em lugar de um (P). Abraço aos camaradas da FAP Simão Pena.

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  10. Boa crónica. Desmente muitas estórias que me contaram na FAP, que me excuso aqui de repetir.

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  11. Como veterano da FAP,desconhecia que D. Duarte,serviu a Força Aérea Portuguesa,bem ou mal,não vem agora para o caso,pelo que achei esta narrativa muito interessante. Obrigado pelo testemunho e nunca é tarde,para aprender mais um pouco.

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  12. José Correia11 janeiro, 2018

    Cumpri serviço militar no Exército, comissão em Cabinda.
    Segundo rezava a história,narrada ene vezes pelo pessoal da FAP que nos apoiava (pilotos de helicanhão e MMA's,o Tenente PilAv. Duarte Pio de Bragança
    serviu como PilAv destas aeronaves nos anos 60,no referido enclave de Angola.

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  13. Toda a gente sabe, ou devia saber, que a pessoas de certo gabarito não lhes é permitido exporem-se numa guerra.

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  14. Mas é certo e sabido que, em dez anos de Guerra, filhos de gente bem, encontrei por lá vários, enquanto penduras polidores de esquinas fugiam de rabo entre as pernas para o estrangeiro

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  15. j Queiroga28 maio, 2018

    Sr Correia o Alferes Duarte, chegou a Angola em 1968. Nunca voou ALIII em Agola. Como ja disse aqui , voou comigo à boleia no dia 10 de Junho de 1968, numa formação de tres helicopteros
    .

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