quarta-feira, 30 de junho de 2010

O DIA MAIS NEGRO DA FAP - 1 DE JULHO DE 1955

No 55º aniversário de tamanho acidente, recupero um artigo do Comandante A. Barros (TAP) publicado há muitos anos no jornal do SPAC “Por Dentro” e que pela sua importância e interesse e oportunidade aqui transcrevo na integra.
Creio que poucas pessoas sabem o significado de uma enorme cruz colocada no alto da serra de Carvalho, próximo de Poiares, no distrito de Coimbra.
Monumento da Serra do Carvalho-Poiares
Foi aí que na manhã de 1 de julho de 1955 pelas 09:50 morreram oito pilotos. Faziam parte de uma formação em coluna de 12 aviões de caça F-84G, cuja missão era sobrevoar algumas cidades durante as comemorações do dia da Força Aérea. Ao tentarem sobrevoar Coimbra, meteram-se numa camada de nuvens baixas e ocorreu a tragédia. Só escapou a primeira esquadrilha. Foi o dia mais negro da história da nossa aviação militar.
Senti profundamente esse acidente. Eram todos meus camaradas na Base Aérea da Ota, sendo quatro deles meus colegas de curso. O convívio diário e intenso que as actividades da Base nos proporcionava fortalecia indelevelmente os laços que nos uniam. Um pouco diferente do que se passa na Aviação Civil, onde infelizmente, cada um puxa para o seu lado! – Foi pois um dia bem triste esse 1 de julho de1955.
Estavam previstas grandes festividades aeronáuticas com a presença do Presidente da República e de muitos milhares de visitantes que em grande romaria invadiam aquela célebre unidade da Força Aérea, na altura teatro dos mais espectaculares festivais aéreos que alguma vez se fizeram em Portugal.
Na hora da catástrofe tudo foi interrompido e encerrada a porta de armas perante a angústia dos nossos familiares que procuravam ansiosamente obter algumas notícias.
O inquérito a este polémico acidente foi muito comentado e especulado pelos jornais da época, mas, como era habitual, jamais se chegou a qualquer conclusão. Valha a verdade que, neste campo, não progredimos muito. Continua quase tudo na mesma.
Houve cinco pilotos sobreviventes. Digo cinco porque havia um piloto de reserva que sobrevoava a formação a uma certa distância, mas sempre à vista, e que aliás foi a única testemunha ocular do acidente, embora me pareça que nunca tenha sido ouvido no processo de inquérito.
Este piloto era meu companheiro de quarto. Passámos uma noite em branco, não conseguimos dormir, comentando e lamentando a má sorte dos nossos queridos colegas. Ao meu camarada não lhe saia da mente a imagem das oito explosões quase simultâneas através das nuvens.
Desses cinco pilotos, três, felizmente, ainda fazem parte do nosso convívio e daqui lhes envio um grande abraço:
- Magalhães e Silva, reformado compulsivamente na sequência do 25 de Abril e irmão do nosso colega Magalhães, Comandante da TAP
- Luís Silva, actualmente um prestigiado empresário no meio cinematográfico.
- Rangel de Lima, que era o Comandante da formação, actualmente General reformado.
Os outros dois, infelizmente já falecidos, eram o Costa Cabral que foi Comandante da TAP e associado no nosso Sindicato, e o Fernando Alpalhão, piloto reserva, que faleceu no norte de Moçambique em missão operacional.
Ao aproximar-se a data desta triste efeméride, aqui deixo um apelo aos associados do SPAC: Se passarem no dia 1 de Julho próximo de Poiares, não deixem de parar uns momentos junto à cruz da serra de Carvalho.

Morreram no acidente os seguintes pilotos:
Tenente António Albino Rocha Mós, de 26 anos, de Lisboa;
Alferes Henrique Ferreira Pinto Howell, de 25 anos, de Leça de Palmeira;
Alferes Alfredo Fernandes Ventura Pinto, de 25 anos, de I.ageosa, Tondela;
Alferes José Nobre Guerreiro Bispo, de 25 anos, de Odemira;
Sargento Fernando da Silva Santos, de 25 anos, de Tomar;
Furriel Diniz Lopes Alves Martins, de 24 anos, de Rossio ao Sul do Tejo;
Furriel António Carvalho, de 24 anos, de Cabeceiras de Basto, residente em Maceira-Lis;
Furriel Danilo Martins da Fonseca, de 21 anos, de Lisboa. 



A.Barros

9 comentários:

  1. Vivi desde que me conheço com as memórias deste trágico dia. Por maioria de razão, porque um dos pilotos era meu tio materno: António Carvalho. Muito ouvi falar caractarizando-o como pessoa e muito ouvi comentar "dentro de portas" sobre a estranheza de toda a situação.
    Neste Natal, recordando os que partiram e ao fim de 55 anos de vida eis que encontro alguém que o terá conhecido pessoalmente e terá partilhado os seus últimos dias de juventude. Apeteceu-me desejar-lhe umas Festas Felizes nesta época de Família e de reencontros. Feliz Natal e um Feliz Ano Novo. Alcina

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    1. Adelino Leal01 julho, 2017

      No fatídico dia 1 de julho de 1955, eu estava na Ota (desde NOV52) e conhecia todos os que perderam a vida nesse dia, bem como os sobreviventes. Fui ao funeral do Furriel António Carvalho, em Maceira- Lis, Leiria, e fui um dos quatro militares que o acompanharam no carro militar que o transportou até à sua última morada. Eu ia, inevitavelmente, muito comovido, não só por ter perdido um grande amigo, mas porque atrás do carro, a pé, seguia uma sua irmã que, durante todo o percurso, chorava e lamentava a perda do irmão querido que, havia pouco tempo, lhe oferecera uma máquina de costura, que ela tanto desejava, por andar a aprender costura. Já lá vão mais de 60 anos e nunca mais esqueci aquelas suas palavras tão doridas. Possivelmente, a Alcina será filha da irmã do António Carvalho a que me refiro. Um bem haja! Adelino Leal - Leiria. 01Jul2017.

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  2. Vivi desde que me conheço com as memórias deste trágico dia. Por maioria de razão, porque um dos pilotos era meu tio materno: António Carvalho. Muito ouvi falar caractarizando-o como pessoa e muito ouvi comentar "dentro de portas" sobre a estranheza de toda a situação.
    Neste Natal, recordando os que partiram e ao fim de 55 anos de vida eis que encontro alguém que o terá conhecido pessoalmente e terá partilhado os seus últimos dias de juventude. Apeteceu-me desejar-lhe umas Festas Felizes nesta época de Família e de reencontros. Feliz Natal e um Feliz Ano Novo. Alcina

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    1. No fatídico dia 1 de julho de 1955, eu estava na Ota (desde NOV52) e conhecia todos os que perderam a vida nesse dia, bem como os sobreviventes. Fui ao funeral do Furriel António Carvalho, em Maceira- Lis, Leiria, e fui um dos quatro militares que o acompanharam no carro militar que o transportou até à sua última morada. Eu ia, inevitavelmente, muito comovido, não só por ter perdido um grande amigo, mas porque atrás do carro, a pé, seguia uma sua irmã que, durante todo o percurso, chorava e lamentava a perda do irmão querido que, havia pouco tempo, lhe oferecera uma máquina de costura, que ela tanto desejava, por andar a aprender costura. Já lá vão mais de 60 anos e nunca mais esqueci aquelas suas palavras tão doridas. Possivelmente, a Alcina será filha da irmã do António Carvalho a que me refiro. Um bem haja! Adelino Leal - Leiria. 01Jul2017.

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  3. Efeméride bastante triste, mas que deve ser sempre lembrada em memória dos camaradas falecidos e dos que ainda estão no nosso seio. Para todos o meu respeito e admiração. Os falecidos, que descansem em Paz....

    Sérgio Durães
    OPC 1/68

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  4. Eu tinha 9 anos, e meu pai, Manuel C Peres, Sargento (1º ou Ajudante, não me lembro), a prestar serviço na Ota, terá chegado a casa em estado de choque. O Sargento Fernando Silva Santos, tinha estado em nossa casa no domingo anterior, juntamento com a família a almoçar connosco. Pouco mais me recordo, mas o que não me sai da memória mesmo, foi ter visto meu pai chorar convulsivamente. Tenho hoje 71 anos a caminho dos 72, mas há dramas que nunca nos saiem da memória. Paz à alma destes heróis. Meu pai já está junto deles há 8 anos. Ass.: Jorge Manuel M Peres.

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  5. Agradecidos pelos vossos comentários.
    P'los Editores
    A.Neves

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  6. Todos os anos comemoramos o dia 1 de Julho, mas nunca nos demos ao trabalho de saber a história do passado lamentavelmente. Todos os anos antes de iniciar o desfile dos nossos camaradas,o Capelão dá a sua palavra pelos Camarões civis caídos em serviço mas nunca se recorda este trágico dia... Descansem em paz

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