sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

OS CAVALEIROS D'ANHARA

Os últimos cavaleiros do século vinte, uma análise muito particular do uso da cavalaria na guerra em Angola por muitos ignorada, por outros deturpada.
Foi para mim uma experiência única, já que ainda que com um cavalo emprestado e um chapéu dos Dragões, posso hoje dizer, que estive com os últimos cavaleiros do século XX, com os Cavaleiros d`Anhara, no teatro de operações no Parque Nacional da Cameia em Angola, em Agosto de 1971, pretendo com este documento prestar a minha homenagem, aos DRAGÔES DE ANGOLA, grupo de Cavalaria do Munhango. A GALOPE...!!!...
No Leste de Angola existem grandes planícies, ou savanas como são mais conhecidas. Os angolanos chamam à savana ANHARA, e eu gosto do nome. 
Para controlar e fiscalizar estas grandes áreas, era requerido uma intervenção militar diferente, atendendo às características do terreno e área envolvida.

Às extensas planícies sucedem-se pequenas áreas arborizadas com árvores ralas. Era o terreno propício para a actuação da cavalaria a cavalo e foi essa Cavalaria, que um dia fui encontrar na Cameia, aproveitando uma coluna de reabastecimento. A operação demorava cerca de 30 dias e de dez em dez dias eram reabastecidos, instalando-se um acampamento, onde era fornecida comida quente, cerveja fria e até serão musical ...
Nos últimos tempos, ouvi muita asneira sobre a guerra em Angola, versões fortemente tendenciosas, segundo os interesses político-económicos em causa. Há que, volvidos 30 anos voltar a analisar as circunstâncias em que as coisas decorreram, talvez só a minha versão, mas a versão de quem viveu aquela guerra nas mais diversas circunstâncias.
Pelo tratado de Tordesilhas, portugueses e espanhóis, partilharam o mundo em dois, metade para cada um, isto sem pedir a opinião de russos ou americanos, que na altura ou não existiam ou não tinham voz activa no assunto. Mas a Europa, começou a cobiçar África e franceses, ingleses, holandeses e belgas meteram-se a dividi-la e a ocupar onde lhes foi possível. Portugal e a Bélgica, ocupavam quase metade de África.
Depois da segunda guerra mundial surgiram duas grandes potências, russos e americanos, que se acharam no direito de partilhar o “bolo africano”, já que se julgavam senhores da faca. Surgiram assim em Angola duas pontas de lança desses interesses. Surgiu a luta armada, que iria garantir a “felicidade dos povos”, surgiu a ideia do guerrilheiro, figura romântica, a viver em harmonia com o povo, a lutar pelos ideais da liberdade. Não tenho dúvidas, passados 30 anos, que muitos deles lutaram por uma causa em que acreditavam, o povo chamava-lhes turras e pedia a protecção da tropa, e isto porquê?
Porque o MPLA, deixando de ter o apoio do Zaire, que passou a apoiar apenas o outro movimento, ou os interesses dos outros, tinha necessidade de criar uma nova frente de luta, para através do leste, poder reabastecer as suas bases no norte de Angola. Através da Zona de Ninda, introduziam armamento em Angola, era preciso impedir que esse reabastecimento chegasse ao norte e aqui a Cavalaria teve um papel importante.
A questão que se põe é que esta abertura da luta na frente leste foi feita com enviados do norte, que não conheciam nem a língua, nem os povos das zonas onde passavam ou se  instalavam. A população era-lhes hostil, porque eles para viver tinham que roubar comida nas lavras, raptavam mulheres para seu serviço e rapazes para irem receber treino de guerrilha no estrangeiro.

Eu sei que todas estas questões são discutíveis, mas esta introdução era necessária, Só assim se compreende que os Cavaleiros d`Anhara acreditassem na sua missão. Estes homens, recrutados em Angola, uns nascidos lá, outros que para lá foram morar, acreditavam estar a defender a sua terra e de facto evitaram que Angola se tornasse palco dos genocídios que abalaram África, nas lutas induzidas pela corrida ao saque.
Angolanos, brancos e negros, com a mesma farda, a mesma arma, a mesma panela! Para pasmo de muito boa gente, para quem aquela guerra era apenas de repressão.
Nos bons e maus momentos, ao contrário do que diziam as cassetes da altura, havia participação, não havia segregação, havia partilha, desenhava-se um futuro para todos.


As imagens têm este dom, o de falarem por si, mas agora vamos falar dos Cavaleiros. Para lá chegar é preciso apanhar muito pó na coluna de reabastecimento. Inventar novas estradas, caminhar por terrenos só acessíveis à cavalaria.


Organizar toda esta tarefa, não é fácil, há que levar reabastecimentos para 150 cavalos,
quase tantos cavaleiros, levar o correio, algum conforto, preparar condições para um
merecido repouso de 3 dias, com refeições quentes... montar um acampamento, preparar uma cozinha de campanha...

Faltava esperar que os cavaleiros chegassem, para o merecido descanso e vieram.


Ninguém consegue imaginar uma frente de 100 cavalos dispersos na anhara, a uma distância de 10 metros uns dos outros fazem uma frente de um q u i l ó m e t r o ...
É algo de grandioso, que realmente é preciso ver para poder acreditar...


Uns ouviram falar, outros nem isso. Patrulhar a Cameia durante trinta dias, é uma epopeia daquelas de que se ouviu falar, mas eu estive lá...comi da mesma panela, bebi as Nocal  que levávamos e reconheci o entusiasmo e valentia destes homens.


Ao pôr do sol e noite dentro, com artistas improvisados, cantámos e divertimo-nos.


Que a vida não é só trabalho, a vida é também convivência, diversão,  mesmo, ou especialmente nos momentos mais adversos das nossas vidas, mesmo quando nada nos parece de fácil solução, teimamos em sorrir, fazendo troça das dificuldades, talvez assim conseguindo que as tornemos mais fáceis de enfrentar no dia seguinte.
E na manhã do dia seguinte os cavaleiros, OS CAVALEIROS D´ANHARA, os ÚLTIMOS CAVALEIROS DO SÉCULO XX, talvez os últimos cavaleiros da história da cavalaria, seguiram na sua missão e eu digo com orgulho ESTIVE LÁ!    
    

Esta é a história de três dias da minha vida, que recordo com orgulho, a história de Homens que lutavam por um ideal, discutido e discutível, mas eles cumpriram, por isso merecem todo o meu apreço, todo o meu respeito, porquê?
Porque graças a eles e muitos outros foi possível evitar a desgraça anunciada por toda a África, fruto da cobiça e interesses delegados. Foi a protecção a esta terra e a paz possível, que  permitiu criar e manter a escolinha do Zeca António...


Cavaleiros soldados, Guerrilheiros, abandonados pela história... ambos lutaram por causas em que acreditaram. Passaram trinta anos, “outros” contam histórias, histórias de valentia e coragem, histórias de sacrifícios...passados em Paris, sem saber se a mesada chegava a tempo de pagar o almoço amanhã, ou em Argel, à espera dos subsídios prometidos em prol da luta e felicidade dos povos...os guerrilheiros foram dispensados, abandonados. Aos Cavaleiros que os não humilhe a história...são e serão o orgulho desta terra, não os que fugiram para Paris! 
Os lideres ficaram milionários, os outros sem pernas e outros traumas, outros escrevem livros glorificando as suas dificuldades em Paris, lutando pela liberdade dos povos, são os Ruis, os Rauis, os Rafaeis, os Ricardos e os raios que os partam...

Macondo em imaginação, Cameia no coração, 3 de Setembro de 2004.








Armando Monteiro.
Alf.Mil.Transmissões BCaç 3831

3 comentários:

  1. Realmente esta é a mais linda referência ao Grupo de Cavalaria N 1 Dragões.Parabens Armando Monteiro.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Como um dos "Cavaleiros do 2º Esquadrão a Cavalo, de 1970/73", do Grupo de Cavalaria nº 1 "Dragões de Angola," por mim aqui deixo o meu testemunho, de agradecimento. Viva Homenagem a todos aqueles que sendo pretos, mestiços ou brancos, defenderam naquele tempo a "Pátria". Obrigado Armando Monteiro!.
    O meu abraço.
    Carlos Henrique Costa Dos Santos

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