quinta-feira, 27 de agosto de 2026

MUKANDA: O RITUAL DE CIRCUNCISÃO DOS POVOS LUVALE


A comunidade Luvale é uma das mais representativas da região Leste de Angola e destaca-se pela preservação dos seus valores culturais. Entre as suas tradições mais importantes encontra-se o Mukanda, ritual de circuncisão masculina que representa uma verdadeira escola de formação moral, social e cultural.
O Mukanda simboliza a passagem da adolescência para a idade adulta. Durante este processo, o adolescente, denominado Candandji, permanece num espaço reservado, afastado do convívio familiar, onde recebe ensinamentos sobre respeito pelo próximo, disciplina, responsabilidade, vida conjugal, valorização da família e preservação das tradições. O período de iniciação pode durar entre dois meses e um ano, conforme os ensinamentos a transmitir.
Kulomba: o banho do renascimento
Uma das etapas mais marcantes é o Kulomba, o ritual do banho. Pela primeira vez, o Candandji é conduzido a um rio ao som de cânticos tradicionais, onde mergulha num acto que simboliza a purificação, o renascimento e o despertar para a vida adulta. Para os Luvale, este momento é frequentemente comparado ao baptismo.
A disciplina e o juramento
Durante o Mukanda, o Candandji cumpre regras rigorosas, como evitar o contacto com mulheres, incluindo a própria mãe, e com pessoas não circuncidadas. Antes de cada refeição, os iniciados entoam o Kulieye, um cântico que fortalece a disciplina e o espírito de união.
Antes da saída, os iniciados — Candandji (singular) e Thundandji (plural) — prestam o juramento denominado Txijila, comprometendo-se a guardar sigilo sobre os ensinamentos e vivências do Mukanda, conforme determina a tradição Luvale.
Ao amanhecer e ao entardecer, participam ainda em cânticos que expressam saudades das famílias, incentivam os jovens ainda não circuncidados e transmitem ensinamentos sobre o respeito pelos mais velhos e pela comunidade.
Kulohoka: a cerimónia da saída
O Kulohoka, que significa “saída”, marca o encerramento do Mukanda. É uma grande celebração comunitária em que familiares e amigos recebem os novos iniciados, num ambiente de festa e valorização da cultura.
Quando participam jovens de famílias diferentes, estes tornam-se irmãos para toda a vida e adoptam alcunhas escolhidas por si. O primeiro iniciado é denominado Kambungo e o último Hapwa Songo. Durante todo o processo são acompanhados pelos Tchilombola, seus guardiões e orientadores, sob a liderança do Tchijika Mukanda, a autoridade máxima responsável por dirigir o ritual e assegurar o cumprimento das normas e tradições.
Na cerimónia de saída, os Candandji vestem roupas novas, caminham com os rostos voltados para baixo e são acompanhados pela comunidade, simbolizando o nascimento de um novo homem, preparado para assumir responsabilidades familiares, sociais e conjugais.
O Mukanda permanece como um dos maiores patrimónios culturais dos povos Luvale e de outras comunidades da região Leste de Angola. A sua importância é igualmente celebrada durante o Mize, cerimónia tradicional realizada anualmente na vila de Cazombo, onde se reafirmam a identidade, a história e os valores ancestrais.
Mukanda: tradição, identidade e sabedoria. Um legado que honra o passado, educa o presente e prepara o futuro.



GABINETE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DO GOVERNO DO MOXICO LESTE

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

MEMÓRIAS QUE A ESPUMA DOS TEMPOS NÃO APAGA


Aeródromo Base nº. 5 - ESQª. INDIOS - AM 51 - MUEDA 1971/73

Memórias que a espuma dos tempos não apaga.
Faz hoje 54 anos que numa operação de assalto à base Nampula da FRELIMO, com a companhia de paraquedistas do BCP 32 do meu amigo Barroca Monteiro. A base dos guerrilheiros, estava localizada, não muito distante do rio Litinguinhas, no Planalto dos Macondes.
Éramos 5 helicópteros e um heli canhão, eu voava a número três da formação dos Índios, na última leva, em direção da base dos guerrilheiros, o meu helicóptero o 9362, foi atingido no radiador de óleo da BTP (caixa de transmissão principal), deixando atrás de si uma rasto de fumo branco. Em gíria aeronáutica militar quer dizer “fui abatido”. O Iko que voava imediatamente atras de mim, disse-me com uma voz grave e ansiosa “estás a arder”. De imediato a luz vermelha da BTP acendeu-se no painel, só me restou aterrar de emergência numa “langua”. Por minha sorte e felicidade, era larga a permitiu a aterragem, dos outros 4 helicópteros.
Largámos os paraquedistas, que ficaram a guardar o helicóptero, fui recuperado e todos regressámos a Mueda.
As duas horas seguintes foram de um caos absoluto, era imperativo recuperar o helicóptero abatido. Uma equipa da manutenção liderada pelo meu grande amigo, o cabo mecânico Cláudio Costa, foram colocados no local e mudaram o radiador de óleo em pouco mais de 20 minutos, sempre com música ambiente, isto é, sob um ataque de morteiradas. No fim tudo correu bem passado um pouco mais de 2 horas, recuperei o helicóptero e estava de volta a Mueda “são e salvo”.
Uma data que jamais esquecerei.

Por: Gen. Alfredo Cruz