sexta-feira, 14 de novembro de 2014

OS FOGUETES DE CARIPANDE

Era uma missão de rotina, não um passeio, mas uma “visita”à zona do saliente do Cazombo no extremo sul, onde Caripande era farol de vigia entre Angola e a Zambia.

O capitão Carlos Acabado, fizera um pequeno briefing na véspera e combinámos que, sem um plano de voo muito rígido, seguiríamos o Zambeze até ao ponto onde o rio se escapa das chanas luenas e corre para o mar por terras que outrora foi tratado por Mapa Cor de Rosa.
Cinco e meia da madrugada , o “velho” Tomás, preparava os aviões com o amor que o especialista dedica aos seus meninos. O MMA instalou o ninho das metralhadoras . Ficavam elegantes e agressivos os T-6 “vestidos” a rigor!
Saímos da sala de operações, os aviões como destino. O Sol passeava-se fresco nas montanhas do Macondo, ansioso por dar um beijo matinal à enfeitiçada Calunda.
Em África gostava de voar bem cedo. Sentia-me no conforto de uma alvorada cheia de força , que roubava ao sol menino a pujança  do seu nascimento.
Apertei o paraquedas
Subi para o T6, sobre asa apertei o pára quedas e ajustei o capacete. No avião do lado o capitão Acabado fez em código manual o gesto de que tudo estava bem.  Entrámos na carlinga, os procedimentos habituais; motores em marcha, o silêncio feliz por despertar com o ronco do motor daquele avião, “menino” mágico de uma geração que nele bebeu a feliz experiência de voar.
Alinhados na pista em formação cerrada, tinha sido o combinado, motor em “boost” máximo, descolagem na direcção do Oeste. O Zambeze fica para trás ainda na linha de subida. Estabilizámos no nível 02, sinal para passar a formação aberta.
O Cavungo surge cinco milhas mais á frente, o pequeno quartel das forças terrestres, sobressai da sanzala.
Enquanto me afastava do avião do comandante, o pensamento escapou para a presença daquele homem. Era diferente o capitão com o equipamento de voo vestido. Não lhe deixava sobressair a cor branca de neve do seu cabelo de sempre, ao meu conhecimento.
Cavungo - foto de José Carlos Macedo
Quando o vi pela primeira vez, adoptei-o como o meu preferido. Voar com ele era sonho e desejo de todos os mais novos. O seu carácter, a sua amizade a confiança que transmitia! Naquele dia segui-o com orgulho, estava com o meu protector
.
Sempre senti um respirar de magia, quando sobrevoava o Cavungo. Ali, no seu trono de bambu, Nhakatolo rainha do povo Luena, matriarca única em todo o território angolano, fora senhora recebida em Belém por presidente português com honras de majestade. Ali nos confins do mundo, uma rainha! Um povo em veneração, uma lenda noutros povos.
--Baixar para o nível 01, transmitiu o chefe.
Descida suave para as margens do rio. Havia indícios, por informações da DGS que, trilhos de guerrilheiros africanos, poderiam estar a evoluir para o Chilombo, aquartelamento dos fuzileiros, na outra margem.
Chilombo
Como estava lindo o Zambeze naquele dia! A mata de matizes verdes múltiplos, parecia querer sufocá-lo com a candura de mãe protectora. Deslizava imponente mas sereno, tranquilo na longa caminhada até ao Índico. Olhei as águas verdes das sombras da mata, vi crocodilos sonolentos, destronados no seu poder, deslizar assustados para o fundo do rio, desconfortáveis com o ruido dos motores.
Na passagem pelo Chilombo os “fuzos”, vieram ao terreiro do quartel, abanando os braços em gestos de convite para almoçar. Mesmo sabendo da impossibilidade técnica, de se fazer uma aterragem, mostravam a sua principal característica no teatro de guerra, eram uns bons compinchas os rapazes do Chilombo!
Continuámos a acompanhar a marcha do rio, passar na Lumbala era destino obrigatório. Um abanar de asas para cumprimentar os amigos do exército, duas voltas apertadas sobre os tectos de zinco que cobriam as instalações, voltámos em direcção ao destino. Gostava da Lumbala o Cap. Acabado! Ali viveu algumas das histórias com que decorou o seu livro Kinda e outras histórias de uma guerra esquecida, obra de grau elevado na narração de humanismo, lealdade e carácter,que uma guerra também pode mostrar. 
Já li e reli, não me canso!
Chegámos ao canto Sul do saliente do Cazombo, a fronteira com a Zâmbia, aparecia qual estrada em linha recta ao longo de dezenas de quilómetros. Voávamos a cerca de mil pés acima do solo, francamente dentro do espaço aéreo angolano. Parecia  que o céu tinha aberto as portas à nossa missão. Nem um ai de turbulência, tranquilidade total. Observava o solo procurando qualquer carreiro por onde o inimigo fizesse travessia. De vez em quando via rádio, trocava palavras de circunstância com o chefe da parelha.
O canto sul - foto de Eduardo Cruz
Olhei para a carlinga do T6 do comandante. Sorridente, assinalou com o polegar que tudo estava OK. Retribuí o sinal. Quando voltei à posição normal, o meu espanto!.. Novelos de fumo por cima da minha asa esquerda davam ar de arraial em festa de aldeia.
--Numero um veja nas suas nove horas!
Acompanhei-lhe o olhar, os novelos eram cada vez em maior número…
--Paquito, siga-me… ouvi nos auscultadores!
Com um meio “tonneaux”e nariz em baixo, entrámos numa descida louca. Ouvia a voz do chefe.
--Não se afaste de mim, lá para baixo o mais rápido possível! Aquilo são granadas de anti aérea.
Estabilizámos a cerca de cem pés da copa das árvores, ali estávamos mais em segurança, fechava-se o ângulo de lançamento das anti aéreas. Seguia o chefe com toda a confiança que aquele homem me inspirava. Como já o reconheci publicamente, no lançamento do seu livro, no instituto cultural Verney em Oeiras, sentia-me a voar nas asas de um anjo.
--Paquito passe para a frente!
O Acabado começa numa dança frenética por cima do meu avião, numa tentativa de detectar possíveis estragos na fuselagem e asas. Na carlinga já lhe tinha comunicado que estava tudo bem.
-- Não noto nada de anormal, parece tudo OK, rumo para o Cazombo, continue à frente!
Mais tranquilo, olho para as asas procurando algum sinal de estilhaço. Na  esquerda , ainda que muito indefinidos, pareceu-me ver uns pequenos furos. Alertei o chefe, começa nova dança à minha volta, procurava vestígios de fuga de gasolina. Confirmei que pela indicação dos instrumentos estava tudo normal.
A pista do Cazombo, aparecia a cerca de dez milhas. Entrada directa na final e rodas no chão. O pessoal do AM, entretanto alertado por nós via rádio, esperava-nos com ansiedade.
Estacionámos os aviões, saí da carlinga banhado em suor. A adrenalina e o sistema nervoso, fizeram estragos. Estragos também sofreu a asa esquerda. Alguns furos de formas irregulares testemunhavam o embate dos estilhaços, sem contudo terem atingido qualquer ponto nevrálgico do avião. Um grito de alívio, a alegria vivida com abraços dos companheiros, foram bálsamo para tranquilizar. O Capitão Acabado aproximou-se, selámos abraço.
--Desta já estamos “safos”, passámos ao lado dela!
Cruzámos o olhar, sabia bem estar longe do céu!

 Foi no Alto Zambeze em Novembro de 1972.
 Por:




4 comentários:

  1. A escrita do Júlio é afecto e emoção que a mim me comove e de que não posso abusar. O LESTE não podia ter encontrado melhores embaixadores: Acabado e Júlio. A ambos obrigado.

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  2. Gil Moutinho20 novembro, 2014

    Grande Koca

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  3. Só hoje tive oportunidade de ler este relato de mais uma missão feita no Leste. Corredeira,voavas a asa de um PILOTO,que deu os seus melhores anos de vida à causa pela qual estivemos em África!Conheci-o em Saurimo,(H. de Carvalho) nos idos de 64,era eu um menino,vindo do Dala,para dar início aos estudos depois da primária.A sua extremosa esposa,Primavera,foi minha Professora de Ciências e "Matemática",escrevo assim,porque era assim ao tempo. Sei que sou suspeito quando falamos de África,talvez pela paixão que hoje vai desfalecendo com o tempo decorrido,o ocaso da vida,numa final longa e espero que seja de toque brando e calmo.Gostei de te ler,como sempre !O Aviador,Tenente Acabado,já nesse tempo tinha o cabelo prateado.Era simpático com a criançada e sempre que podia,ia ao colégio buscar a sua amada esposa.Decorridos uns anitos,foi instrutor de um curso no ambito da M.P.Mocidade Portuguesa,eu fiz parte desse curso,onde o conheci mais de perto.Mais tarde,fomos Companheiros até ao fim,embora de Esq. diferentes.Voei algumas vezes com ele...Deixo um abraço para AMBOS.-P.S.Com ele estarei no dia 21 do mês corrente em Oeiras,espero ver-te também.

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  4. Um relato perfeito, de tal maneira que nos sentimos no teatro das operações. Felizmente para ambos acabou em bem.
    Muito obrigado Júlio, é sempre uma honra ler-te.
    Um abraço a ambos, embora nem sequer tenha a certeza de os ter conhecido pessoalmente, isso porém é de somenos importância........

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