sexta-feira, 22 de maio de 2026

"ALMOÇOS"

 Visita Presidencial de Craveiro Lopes, 1954.

Já em escritos anteriores, fiz referencia à viagem do Presidente Craveiro Lopes, a Angola. Foram trinta e seis dias cansativos mas cheios de “casos e peripécias” dignos de serem recordados agora, a cinquenta e três anos de distância.
Este título “Almoços” pode dar a ideia de que teríamos passado a vida à mesa.
De facto, trinta e seis dias, implicariam 36 almoços. O que é quase verdade, mas o certo é que viagens houve em que o almoço foi substituído por longas e penosas horas de carro…e de “fome”...!
Os almoços servidos nos “Grande Centros” não deixaram história, eram todos iguais, mais ou menos protocolares, os mesmos salamaleques, a mesma hipocrisia.
Nas pequenas terras do interior, nessas sim, os almoços têm história. Muitos deles, separados uns dos outros por centenas de quilómetros, ou por vários dias, apresentavam-nos, com toda a gentileza aliás, uma ementa igual à da véspera: - croquetes, pastéis de bacalhau, de massa tenra carnes frias, frango assado, queijo, um, ou mais doces, enfim tudo o requerido por um “almoço volante”. Quanto a bebidas, sumos de frutos para o Presidente. Algumas garrafas de água mineral e, cerveja em abundância, e era com, ela que os convivas matavam a sede, daí a escassez de água propriamente dita.
Acabado o almoço, ouvidos os mesmos discursos do anterior, partamos ao encontro dos seus irmãos gémeos. A comitiva era grande, e acrescida da gente da terra, não havia sala que a abrigasse.
Era então que se dava verdadeiro valor à generosa Natureza. Aproveitando a sombra de uma frondosa árvore, improvisavam um verdadeiro banquete de rissóis, pasteis de bacalhau, massa tenra, frango e…cerveja, nada que não tivéssemos degustado já por mais de uma vez.
As Senhoras – mulheres dos “forças vivas ”locais" que se tinham dedicado talvez toda a noite à culinária, multiplicavam-se agora na disposição da comprida, mesa onde um “Almoço Volante” esperaria por Sua Excelência e acompanhantes que deveriam chegar à hora protocolar. Deveriam, mas milagre seria se o protocolo se cumprisse. Prudentes e ingénuas as pobres Senhoras, na previsão de que o Presidente chegasse mais cedo do que o esperado, providenciaram para que tudo estivesse pronto com antecedência. Assim, tudo foi armado à sombra de uma frondosa árvore onde uma enorme mesa coberta de iguarias: rissóis, pasteis de massa tenra, de bacalhau, carnes frias, frango assado, doces vários, frutos e…cerveja.
Tudo teria oferecido um atraente e delicioso espectáculo…DUAS HORAS antes. Porém a comitiva, como sempre, atrasou-se e a sombra fresca e protectora, da frondosa árvore, foi fugindo indiferente ao sofrimento das chorosas Senhoras. Tudo estava ressequido, rijo, e até a cerveja estava morna quando chegámos e as chorosas Senhoras nos encheram de pedidos de desculpas. Mas a fome que trazíamos acabou por nos levar a fazer as honras à Cerveja morna e aos pasteis secos que de certa maneira ajudaram a secar os lacrimosos olhos femininos. Quanto a bebidas, para além dos sumos para o Presidente (julgo que trazidos pelo Mordomo da Presidência), e de algumas garrafas de água mineral, em matéria hídrica apenas cerveja, tinham cuidado pouco da água propriamente dita.
Para mim, esta falta foi dramática.
Como repórter cinematográfico, transportando uma câmara que àquela hora já pesava bem mais do que os seis quilos originais, não podia, como aliás todos os meus camaradas da Imagem, não podíamos comer muito para nos podermos movimentar com facilidade.
No meu caso estava fora de questão qualquer bebida alcoólica durante o trabalho, a bem da firmeza de mãos…e da câmara, por isso não bebia, e não comia para não ter sede.

Era a segunda vez que me deslocava a Cazombo, onde estivera a filmar a Leprosaria.
Nesta altura o meu desespero era grande, e mal pude dar por finda a reportagem, larguei a correr estrada abaixo a caminho do avião que estava longe mas onde havia água fresca.
Quando atravessava a Povoação onde tudo estava fechado, reparei numa casa com a porta semi-aberta, e de onde vinha um som de festa. Não pensei duas vezes. Empurrei a porta e entrei.
Era uma loja, e lá ao fundo, para lá do balcão, uma mesa com comida e gente ruidosa em volta..
-“Boa tarde, por favor dêem-me um copo de água, estou morto de sede”
-"Olá, então por cá outra vez ?”
Reconhecera-me pela câmara, certamente...
Levantara-se um homem, que veio cumprimentar-me.
Com uns restos de humidade que ainda conservava na boca, consegui articular: “por favor, um copinho de água”?
“Qual água! Qual nada!”, o Amigo vai é beber uma cervejinha aqui com a gente”.
“Não. Não. Por favor, prefiro água “.
Mas aquela gentileza de pessoa, virou-se encaminhando-se para a geleira repetindo:“qual água, uma cervejinha é que é”.
E eu, junto ao balcão, com a voz suplicante de um ser perdido no deserto: “Água! Por favor Água”!
Então, vendo que o homem não desistia. Já abria a geleira, virei as costas, saí porta fora e corri desesperadamente até ao avião que ficava longe, mas tinha água fresca.
Mais tarde, já “após água”, pus-me a pensar nos comentários que o homem - que tão gentil quisera ser, teria feito sobre a minha inexplicável grosseria.
Por mim, penso que a minha pobre Mãe, se os tivesse ouvido, não teria gostado.
Os deuses protegeram-me .
Nunca mais tive de ir a Cazombo.


João Silva
Rxa Xenaide

quinta-feira, 7 de maio de 2026

VOANDO SOBRE A "ESPINHA DO BACALHAU" OU, COMO FOI VIOLADO O ESPAÇO AÉREO DO CONGO.




Voar grandes distâncias em territórios desconhecidos com uma rarefação de povoações e vias de comunicação com uma paisagem sem grandes variações onde as referências não eram muitas com o apoio de cartas pouco precisas e rádio ajudas inexistentes ou pouco fiáveis, era uma tarefa muito difícil e que exigia muita atenção e experiência.
Por vezes eram algumas particularidades no terreno ou formas acidentais um tanto bizarras que serviam de referências à posição onde a aeronave se encontrava. Também os rios quando eram visíveis e com algum caudal, serviam para referenciar a navegação. Mas muitas vezes a meteorologia pregava partidas que deixavam os pilotos com grandes dificuldades de orientação.
Tudo isto obrigava a um período grande de adaptação dos pilotos recém-chegados o que penalizava o seu rendimento nos primeiros meses das suas comissões.
Mesmo aqueles pilotos já com alguma experiência encontravam-se por vezes em situação complicadas e que com grande dificuldade conseguiam ultrapassar.
O nordeste de Angola era uma zona particularmente difícil de se navegar com segurança, onde situações como a que ocorreu naquele Fevereiro de 1964, evidenciavam essas dificuldades.
Portugália era a linda vila onde a Diamang estendia a sua conceção de exploração de diamantes. Estava situada a norte da nossa Base de Henrique de Carvalho e quem por lá voou sabia que a «espinha do bacalhau» era o aspeto que tinha vista do ar a estrada com vários cursos de água que de ambos os lados serviam de drenagem quando as chuvas começavam.
Naquele dia o alferes piloto-aviador Nabais que estava cumprindo a sua primeira comissão no Aeródromo Base n.°4 (AB4) em Henrique de Carvalho e nesse dia depois de ter feito a evacuação de um doente para o hospital da Diamang no Dundo - um excelente hospital a condizer com o produto que aquela Companhia explorava - preparava-se então para regressar à sua Base.
AB4-1963, Monroia e Nabais
Foto de Manuel Flórido Bem-Haja
O avião que pilotava era um DO27 e com ele iam o cabo mecânico do avião Monraia e o cabo enfermeiro do Exército que acompanhou o doente ao hospital. O avião estava nas devidas condições mas o tempo «torcia o nariz». O habitual da época das chuvas.
Após uma não muito extensa rolagem, o aeródromo não era muito grande, com os procedimentos já executados e o avião alinhado no topo da pista, manetes à frente e o motor a responder, numa curta corrida de descolagem, após um pequeno alívio no manche e estava o DO no ar.
Ainda na linha de subida, foi iniciada uma volta suave pela esquerda e num instante já estava o avião apontado ao rumo para o destino. Logo que nivelou na altitude recomendada, o alferes Nabais, largou a antena do HF(um cabo com cerca de 10 metros, que saia por um orifício na parte ventral do avião, quando era necessário utilizar as comunicações em HF) e reporta a sua estima a Henrique de Carvalho com «operações normais».
Contudo, a meteorologia parecia que não iria deixar por muito tempo que as ditas operações fossem normais. Nuvens cumuliformes e bastante negras erguiam-se ao longe. Parecia que de propósito cerravam o caminho para a Base.
Efetivamente à medida que se aproximava da parte intermédia da rota, cada vez as nuvens se tornavam maiores, mais negras e ameaçadoras e cada vez mais era difícil seguir a dita «espinha do bacalhau».
Havia que alterar urgentemente a rota para não entrar dentro da tempestade. Primeiro foram 30 graus para leste, mas por fim o desvio já tinha ultrapassado os 90 graus.
O alferes Nabais, tentava desesperadamente manter o contato visual com o terreno, mas a visibilidade era praticamente nula e o tempo agravava-se rapidamente. O voo prosseguia já dentro e fora de nuvens, sempre a fugir das mais negras. Para conseguir manter o contacto com o terreno voava o mais baixo possível e a antena do rádio de HF que continuava saída, acabou por se partir ao prender-se numa árvore, dispondo a partir de então apenas dos rádios de VHF AM e FM os quais nãos ó tinham um alcance muito reduzido quando voando muito perto do solo como as péssimas condições atmosféricas também agravavam o seu funcionamento.
O alferes Nabais continuava a chamar a torre de controlo do AB 4 mas ninguém lhe respondia. Entretanto tentava encontrar uma referência no terreno que lhe indicasse onde se encontrava, mas era muito difícil com aquela visibilidade reconhecer o que quer que fosse.
Até que num momento, por entre os farrapos de uma nuvem pareceu-lhe ver um rio. Era certamente o Cassai, que fazia fronteira com o Congo e o levava de novo à região da Portugália. Com alguma dificuldade foi-o sobrevoando. O terreno era irregular e muito arborizado e parecia-lhe algo diferente do que estava habituado a observar, via muitos caminhos e pessoal a trabalhar nas lavras que ao ouvir o avião, levantavam a cabeça e acenavam-lhe alegremente. Aqui e ali, alguns quimbos não muito grandes, mas bem arranjados sobe a sombra do arvoredo, mostravam uma vida normal de quem os habitava.

Uma curiosa e enorme dúvida ia assaltando o espírito do alferes Nabais. Não estaria já do outro lado da fronteira? Seria aquele rio o Cassai? Por vezes os outros dois tripulantes também davam alguns palpites, demonstrando uma natural apreensão e expetativa pela forma como ira terminar aquele voo.
Entretanto o indicador da gasolina começava a aproximar-se rapidamente do zero, a hora estimada para a aterragem no AB4, já havia sido ultrapassada há algum tempo, e o que agora importava era descobri uma pista para aterrar.
Então como por milagre que de repente ao longe no meio da neblina aparece algo parecido com uma povoação. Ou antes com uma cidade o que era insólito e inesperado naquela região. O alferes Nabais não se lembrava de nada parecido por aquelas imediações, mas sempre acreditou que a África era cheia de mistérios. E para melhor saborear aquela aparição, repara numa enorme pista asfaltada e bem apontada na sua direção.
Começou então definitivamente a creditar que tinha passado por cima do risco da fronteira com o Congo, sem dar por isso, Mas agora não tinha outra opção que não fosse aproveitar aquela pista para aterrar.
A gasolina já há algum tempo nos mínimos e o tempo a piorar. A única solução era aterrar nas melhores condições. Ali estava à sua frente uma linda e convidativa pista.
Com voz pouco firme, pediu na frequência do controle civil autorização para aterragem, identificando-se como Portuguese Air Force.
Eis então que ouve com algum espanto o controlador da torre responder-lhe em português com o tom musical da típica pronúncia brasileira, informando-o que esta em aproximação do Luluabour atual Cananga e que estava autorizado a aterrar. Aquilo que suspeitava confirmava-se, era mesmo o Congo. Veio posteriormente a saber que de facto o Controlo do Tráfego Aéreo estava sendo feito por controladores civis brasileiros ao serviço da ONU, pois era esta Organização que estava garantindo o Controlo de Tráfego Aéreo e que tinha também destacado um dispositivo militar com o fim de policiar os grupos rivais que lutavam pelo poder no Congo.

A aterragem foi feita em perfeitas condições, mas o estacionamento já estava pejado de militares que de espingarda em punho, apontavam para o nosso «perigosíssimo» avião.
A receção não foi nada amigável. E os nossos três aviadores são embarcados num jeep, onde se encavalitam mais um «molho» de soldados e levados como trofeus de caça, para o Comando da Polícia local, onde, tidos como suspeitos de estarem fazendo espionagem, são sujeitos a um intenso interrogatório.
Teria sido bastante difícil, convencer aqueles sagazes polícias que a única causa daquela aterragem tinha sido o mau tempo, se não tem aparecido de forma providencial e quase milagrosa o Sr. Teixeira.
Pois é, o Sr. Teixeira era um português de Coimbra sertanejo de longa data e ali se tinha «plantado» há mais de uma dezena de anos.
Explorava um daqueles comércios que dá para vender tudo e que muito proliferaram por toda a África e devido à sua maneira de ser, a típica índole do português, era bastante considerado por toda a «paróquia» e principalmente pelas forças vivas (vivas até ao momento...)
Então, com a ajuda e comprometimento do Sr. Teixeira em como os portugueses não fugiam, o alferes Nabais e os seus companheiros de infortúnio lá foram para casa do Sr. Teixeira, onde ficaram aboletados, sendo assim certamente poupados a um encarceramento numa prisão de delito comume a outras imprevistas consequências.
A partir daquele dia, a família do Sr. Teixeira - constituída pela mulher e um filho ainda garoto, demonstraram grande simpatia e um elevado espírito da solidariedade e porque não patriotismo - passou a comungar a sua casa e a partilhar os alimentos com aqueles hóspedes forçados.
À porta mantinham-se em permanência um ou dois soldados de sentinela que em breve também começaram a confraternizar com os prisioneiros. Passados poucos dias já comiam e dormiam lá em cas quase diariamente e aproveitando as capacidades poliglotas do alferes Nabais - o único dos três que falava francês - lá passavam o tempo com longas conversas.
Entretanto no «PUTO» a notícia foi transmitida às respetivas famílias pelo Chefe do Gabinete do Ministro da Defesa que as tentou sossegar dizendo-lhes que a saúde de todos era boa e que já se estava a fazer diligências para o seu breve repatriamento.
Efetívamente as negociações que os nossos agentes secretos, da altura, desenvolviam com os seus congéneres congoleses estavam já em fase adiantada. Faltava apenas ajustar o preço do resgate, o que acabou por ser rematado e conseguido à custa de pagamentos em Kinshasa.
Foi de facto no momento exato, pois tinha sido já decidido por um outro «braço», a multifacetada autoridade congolesa, que aqueles prisioneiros seriam transferidos o mais rapidamente possível para um
prisão na capital.
Foi através da rede de Tráfego Aéreo que a Torre de Controlo de Luíuabourg, recebeu a autorização para a descolagem do DO27 português, tendo sido comunicado de imediato pelos controladores brasileiros ao comando militar local que havia ordem do Ministério da Defesa em Kinshasa para deixarem partir os prisioneiros portugueses.
E assim, na manhã de 10 de Março, quase um mês depois, um jeep foi buscar os três portugueses a casa do Sr. Teixeira transportou-os diretamente ao aeródromo.
Foram grandes aqueles abraços de despedida, não pelas saudade daquele desterro que decerto não as havia, mas porque queriam simplesmente testemunhar um grande obrigado que qualquer dos três quis deixar bem vincado naquela família que tão bem os tinha recebido e que assim lhes tinha evitado, sabe-se lá, que dificuldades e padecimentos
O DO27 lá estava bem posicionado na placa de estacionamento.
O pessoal do aeródromo, com a ajuda dos controladores brasileiro; tinham-no reabastecido e um deles, junto ao avião aguardava o nosso pessoal ao mesmo tempo que fornecia ao alferes Nabais um mapa da região com o rumo e a rota traçada para Henrique de Carvalho, recomendando-lhe para ele se apressar a descolar, pois a todo o momento poderia vir uma contraordem e chegar outra tropa com outras ordens.
E assim sem mais delongas o avião foi posto em marcha.
Milagrosamente, o motor pegou à primeira tentativa. Com os procedimentos abreviados e feitos durante a rolagem, o avião entrou na pista e sem parar, com as manetes ao fundo e o motor a responder ruidosamente nas máximas rotações, deixou para trás aquelas terras com grande suspiro de alívio dos tripulantes.
Henrique de Carvalho continuava com uma meteo muito cinzenta e chuvosa, pelo que ainda foi preciso, uma paragem intermédia Muriéje, antes de se estar de novo a sobrevoar a «espinha do bacalhau» para pouco depois, finalmente, o DO aterrar na sua Base, no meio de uma fantástica receção. Naquela noite a festa foi rija, lembrando  as descritas no final das aventuras do Astérix e do seu clã de gauleses.

Mas falta ainda contar o epílogo desta missão que é no mínimo curioso, pois dele emerge mais uma vez o incompreensível, burlesco e incongruente, tratamento administrativo que a pouca clarividência do  pessoal aplica a estas situações. Assim, enquanto ao alferes Nabais ao cabo mecânico do avião, ambos da Força Aérea, lhes foi atribuído o o estatuto de serviço de saída em serviço para o estrangeiro e por conseguinte foram abonados das respetivas ajudas de custo, ao cabo enfermeiro do exército, tinha sido dado como ausente sem licença e foi-lhe aplicado o respetivo processo de deserção...

Extraído do Livro:




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