sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

MORREU O MAJOR TOMÁS

Morreu o Tomás !
Se, nos idos anos de 1969, alguém me dissesse que, quarenta e tal anos depois, eu iria escrever qualquer coisa sobre o Major Tomás, vulgarmente conhecido como “O Tomás”, eu diria, sem receio de desmentido, que essa pessoa estava com problemas na cabeça.
O Tomás ou o Major Tomás era, em 1969, comandante do GITE (Grupo Instrução de Técnicos Especialistas), na FAP, Base Aérea 2, na Ota, Alenquer. Eu fui um dos muitos mancebos que cumpriram o serviço militar na Força Aérea e conheci muito bem o Tomás.
Acabada a recruta em Dezembro de 1969, passámos à categoria de “alunos”, futuros especialistas e é aqui que entra em acção o terror do “Zé especial”.
“Eu como especialistas ao pequeno almoço”, “o especialista para mim é papel” (enquanto amarrotava uma folha de papel entre as mãos), “ò aluno, eu estou-te a ver”, “tu aí, anda cá – reforço fim de semana”, “anda cá, ò querido aluno, anda cá. Carecada já”, eram algumas frases com que nós éramos mimoseados pelo dito senhor, cuja autoridade era superior à do comandante da Base, ninguém o duvidava.
Quando, em formação de 4 homens por 10 homens, nos dirigíamos, marchando, para as aulas, situadas cerca de 1 km das nossas camaratas, às 7,45 h da manhã e víamos a Renault4, com a matrícula AM-64-qualquer coisa, a malta até tremia.
Havia sempre alguém, uns metros à frente de nós, que nos dizia (como conta a canção):
“Vem aí o Tomás”.
E, como que por encanto, o amontoado de 40 alunos mais ou menos disperso, de imediato se transformava numa formação, com o passo certo e tudo, marchando garbosamente e com os bivaques postos correctamente na cabeça. Era pouco frequente, mas acontecia que ele entrava subitamente numa aula, às vezes nem cumprimentando o “professor” (normalmente um sargento do quadro permanente) e, apontando com o dedo a um dos alunos, dizia: ”Tu, aluno, carecada, já”.
Alunos a caminho do GITE
Morreu o Tomás.
Mais de 40 anos depois, a notícia do seu falecimento deixa-me com sentimentos algo confusos. À época, ele era o terror da malta e era, mesmo, odiado, mas só enquanto alunos, naqueles 11 meses em que estávamos a tirar as especialidades. Porque depois, apesar de não nos convidar para beber um copo, não nos chateava absolutamente nada.
Não precisava de justificações, mas as carecadas e os reforços de fim de semana eram por as botas estarem mal engraxadas, por o cabelo estar comprido, por irmos com o passo trocado, eu sei lá que mais.
Juramento de Bandeira de uma recruta
Compreendo agora que a disciplina que ele impunha era, se calhar, imprescindível. Era tudo malta muito nova, entre os 17 e os 20 anos, na força da juventude. Talvez fosse, mesmo, necessária esta dureza.
Encontrei-o, uma única vez, em 1980, em Lisboa, na Av. Fontes Pereira de Melo, no então edifício Europeia. Eram 9 horas da manhã. Entrei no elevador e ele entrou logo de seguida. Mantinha o mesmo porte altivo, superior com que nos brindava 10 anos antes. Olhei para ele e em seguida, tanto tempo quanto demorou o elevador a ir do piso 0 ao piso 2, o meu pensamento voou e as mais variegadas lembranças chegaram em catadupa. E vi o ficar um fim de semana inteiro na Base de castigo, as carecadas, a carrinha Renault4 AM-60-24 , os roubos dos bivaques à entrada para a caserna, as aulas no GITE, o sargento Teixeira da
Aula de comunicações
Silva e a sua peculiar frase das 2as. Feiras: “ o pessoal não pode ir às gaiatas, senão, não apanha a “120” (querendo significar que os sinais morse não eram apanhados correctamente por nós, futuros operadores de comunicações, a 120 caracteres por minuto), o sargento BT das teleimpressoras, Angola, Henrique de Carvalho, Cazombo, Cuito Cuanavale, Luso, e…e…e…
Fantástico: 10 anos depois, já casado e com filhos, depois de ter estado no leste de Angola 26 meses, ainda senti um frémito no corpo. Não, não foi, obviamente, medo. Foi um sentimento que não consigo definir com clareza ainda hoje: talvez um misto de saudade, raiva, admiração, superioridade, inferioridade , não sei. 
O grande Tomás no mesmo elevador que eu, sem me conhecer e sem me dizer “ò aluno, eu estou-te a ver”.
Morreu o Tomás
Paz à sua alma

Nota dos editores: O Ten. Cor. Raul Tomás faleceu em 09 Março de 2012.




6 comentários:

  1. esta crónica fez-me lembrar velhos tempos. Não te sabia com veia poética, Baptista. Gostei do texto, mas acabo por ter pena que o Tomás tenha morrido. Abraços a todos.

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  2. Não sei se o comentário anterior ficou gravado ou não, por via das dúvidas repito:
    Eu sou da 1ª de 69 e penso que nessa data o Tomás já era tenente coronel, quem era major era o Noronha. sobre a matrícula do carro tenho quase a certeza que era o AM-40-60 só não juro que a ordem seja esta, também podia ser 40-60... Um abraço a todos especialmente aos OPC's
    Gil Milheiriço

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  3. Gostei do texto e também senti arrepios. Não de raiva mas sim de saudade.
    O Maj. Tomás foi mesmo figura ímpar. Eu, na qualidade de especialista de abastecimentos, prestei serviço no B.C.P - Belas - Luanda - e o comandante coronel Rafael Ferreira Durão ainda o achava mais violento e mais rude que o Tomás. Dois militares que muito me marcaram.
    O Texto está muito bem escrito e corresponde à realidade dos factos. Os tempos eram como eram.
    Que descansem em PAZ.

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  4. A sua recruta Martins já foi das pesadas. A minha em 62 foi uma belezura; e porquê? Porque o Cdte da recruta, MajPilNav. Branco, sendo mais antigo do que o Tomás não concordava com as ideias deste. O Maj. Branco dizia que a recruta para especialistas tinha por fim ministrar o essencial de uma formação militar a mancebos que iriam ter uma formação técnica nas diferentes especialidades da Força Aérea, cuja função não seria o combate no terreno. Esta discrepância hierárquica, a escola de recrutas dependia do GITE, passou a ser tida em conta nas recrutas subsequentes por reclamação do Tomás. A partir da 1ª recruta de 63 a coisa começou a ser mesmo dura com a construção do campo de obstáculos pelos próprios recrutas, as marchas nocturnas, as saídas para o campo aos fins e semana. etc..
    O seu mentor: um aprendiz de Tomás, o Alf. Coelho Dias.

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