sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O BLOCO DE ARRANQUE AUTOMÁTICO

1973 foi o ano de todas as operações. 
Em Gago Coutinho, tornou-se quase rotina ter quatro T-6, vários hélis, incluindo “Primos”, Pumas, PV-2, Dakotas e Nordatlas, voava-se todos os dias para efectuar não só os rotineiros transportes de abastecimentos, mas também em RVIS, e RVIS-ATIR, os mecânicos andavam numa roda viva e surgiam regularmente avarias quer por excesso de horas de voo, quer por fadiga de material, quer pela utilização do mesmo para além dos limites de tempo útil de vida, quer pelos locais inapropriados onde se operava. 
Grande movimento
Vem tudo isto a propósito de uma história caricata entre o nosso pessoal e os primos. 
O "zé especial" (MMA) tinha que ser não só um óptimo profissional quanto aos parâmetros de segurança, como tinha que ter uma “tarimba de adivinho” para algumas das “manhas” de material com milhares de horas de voo, e para os quais não havia stocks de peças em número suficiente para que cada avião ou héli pudesse ser acompanhado do que de mais elementar seria desejável, para que não se ficasse em terra num sítio por vezes a muitas horas da manutenção mais próxima. 
Nos hélis, isso era ainda mais flagrante, voavam e aterravam em locais inóspitos, com amplitudes térmicas inimagináveis, e com adaptações efectuadas em função da experiência adquirida com sucessivas comissões de pilotos e mecânicos. 
Uma das peças fundamentais nos hélis era o bloco de arranque automático, que "grosso modo" geria a sequência de arranque da turbina, era uma das peças fulcrais do sistema propulsor e quando ficava inoperativa impossibilitava o voo da aeronave, sempre que falhava um arranque era necessário efetuar uma sequência de procedimentos antes de voltar a tentar novo arranque sendo impossível efectuar um número indefinido de arranques sem substituir o bloco. 
Como era previsível, os hélis Primos voavam com um bloco de arranque suplente, para os nossos havia a inevitável capacidade de desenrasque do “zé especial”. Nesse dia quatro hélis nossos e onze Primos incluindo dois com canhão, efectuavam o lançamento de paras na zona de Mussuma na tentativa de cortar a fuga a um grupo do MPLA, que atacara a coluna Luso - Gago Coutinho com pesadas baixas, e no momento da descolagem o nosso primeiro héli armado de canhão falhou o arranque, desligado o sistema, abertas as portas de acesso, juntaram-se todos os MMA'S nossos e primos em volta do mesmo, os mecânicos mergulharam no interior da estrutura, e pouco depois um deles abanava a cabeça negativamente diagnosticando para o piloto: “o bloco de arranque foi-se” ! Resumindo o héli não saía dali sem novo bloco. 
Reunidos os pilotos, resolveram efectuar o movimento de largada com o material
Em reparação
disponível, enquanto se pedia um novo bloco para a manutenção no Luso ou a substituição do aparelho. U
m dos mecânicos mais velhos, conhecido entre nós pela alcunha de "Navalhinhas" e que segundo a "Voz da Caserna" tinha a cabeça a prémio pelo MPLA, afirmou que punha o héli no ar, mas queria toda a gente fora dali para ele poder trabalhar sem que ninguém visse o que ele ia fazer, uma vez que era expressamente proibido mexer na "electrónica" fora da manutenção, e ele negaria tudo se alguém viesse perguntar-lhe se ele andara a mexer no bloco de arranque automático. Olhos de espanto dos pilotos, primos e nossos, e dos restantes mecânicos, o nosso homem enfiou-se no interior da estrutura do aparelho com um pano onde embrulhava algumas das suas preciosas ferramentas, passados segundos, ouviram-se umas pancadas "tac-tac-tac-tac", de seguida fechou as portas e disse ao piloto podes por o motor em marcha, e o héli pegou de imediato, os primos olharam entre si com caras de espanto, os nossos deram meia volta e ninguém perguntou mais nada, descolaram e voltaram para efectuar a totalidade do transporte dos "Paras". 
Já noite cerrada em volta da fogueira que assava nacos de carne para a ceia, toda a gente quis saber o que é que ele tinha feito para reparar o bloco, e o mecânico, homem de poucas palavras, disse no meio de um silêncio expectante: estou careca de dizer aos maçaricos dos pilotos, que os hélis têm rodas para aterrarem como qualquer avião, não é para baterem com os aparelhos no chão, já chegam as vibrações das pás para desapertarem tudo, não é necessário massacrar mais o material, o bloco tem um sistema
Hora do descanso
de fixação frouxo, e 
no mínimo de vez em quando convém dar-lhe um aperto para ele ficar no ponto, isso faz-se na manutenção por quem sabe, e com as ferramentas apropriadas, aqui hà que improvisar, para que o fogareiro não se apague de vez... quando eu berro que não quero que me mexam nas ferramentas, tenho cá as minhas razões, cada macaco no seu galho, os pilotos "pilotam" os mecânicos "reparam" cada um com as suas "ferramentas" se por cada avaria se substituíssem as peças, tínhamos todos os aviões inoperativos, mas também não é motivo para resolver tudo com o "martelo" uma pancada com mais força e a electrónica do bloco "já era", como em tudo na vida quando é preciso bater, tem de ser na hora e com a força certa... e pegando na Nocal, levou-a à boca e bebeu de garganta seca após o para ele longo discurso, enquanto alguém em fundo, ainda traduzia para os "primos" o que ele acabara de dizer...

Gago Coutinho, 1973
OPC (ACO) 71/73


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