quinta-feira, 28 de março de 2024

SAURIMO - "CONVERSAS NA CIDADE"

Nota Introdutória

Repuxando o nosso passado, aquele que se inseriu nas décadas de sessenta e setenta, já do século “ido”, ... há “c´anos”!... vou tentar transportar para os “especiais”, as famigeradas conversas da “treta” tidas em família sobre temas tão diversos que marcarem a nossa estadia por terras do outro Mundo – terras do Leste de Angola. 
Certamente que todos quererão relembrar a época dourada dos nossos “vintage” e, talvez duma forma interessante e maliciosa!... Pois, sendo assim, irei apelar para três personagens por mim criadas para darem a viva voz e “palrarem” sobre os nossos briosos feitos. 
Entrarão nas “peças cantantes”, o “Marrador”- aquele que marra, e não narra, o “Vito”, aquele que canta de cor, e o “Joca”
, aquele que escuta e consente. Todos eles terão licença para “serrar”, “morder”, “trincar”, com moderação – e fazem convite aos leitores da “aérea nação” para intervirem, procurando nos recônditos da memória já nutrida de fluidos de “alzeimer”, formas de criticarem, corrigirem, inventando ou, desmentindo o que bem lhes aprouverem.


Marrador – Da Toca da Base, saem dois “coelhos” desejosos de liberdade. Fardados ou, não, eis que deixam os bares internos, a Torre, as casernas, a cidade militar, toda a sua estrutura “fedorenta”, as “gaivota de chapa batida” no seu “vai vem” rotineiro, as “paladas” de cumprimentos, capitães, disciplina a matar, o remoer que perdura diariamente...

Querem ver as “garinas” de saias aladas na belíssima Saurimo, as “black” sanzaleiras despertas nos seus “gungungos” enfim, o desejo de pronunciarem o “Moyo”... para com os valentaços “batedores”. 
O Vito e o Joca já se estatelaram junto à Porta de Armas aguardando pelo transporte que os encaminhará para os lados de “Las Vegas”. 
Vou deixá-los “cantar” por longos minutos... Será uma estadia para cansar! 
Vito – Ehhh pá... ao encontrar-me aqui, à beirinha da Porta de Armas, fez-me lembrar uma situação que me afrontou há meses atrás, na altura em que cheguei a esta “guerra”. 
Joca – Conta, conta. Mas fala baixo porque está ali...malta graduada. 
Vito – Depois da minha aterragem nestas bandas, andei mais de quinze dias sem “arrear”. Estava tão “empedernido” que até pensei em deixar de comer, receando que pudesse vir a rebentar. Isto, de mudanças de ares, deixa-me sempre apreensivo, mas desta vez receei pela minha vida! 
Joca - E depois? Desanuviaste? 
Vito – Calma. Com este receio...acabei por resolver a situação porém, acagacei-me novamente! 
Pensei em exercitar o corpo, e para tal, vesti-me a rigor com o fato de treino - calçãozinho branco, ténis à maneira, camisola de manga cavada, e nos bolsos - metade dum rolo de papel higiénico. Tudo branquinho a marchar pelas matas ou, savana. Já me esquecia que estava em África e tomei as árvores como se fosse o “Pinhal do Rei”…
O “raso” da Porta de Armas bateu-me a “pala”, abriu a cancela, e deixou passar o pombinho branco…
Lá saltitei pela “cangosta”, pela picada a fora, aquela que seguia em frente da Porta de Armas. Andei, andei, corri, saltitei para ver se “desmoía” os “ingredientes” já amorfos, mas sinais?!... só de azoto! 
A meio caminho, já sem avistar o arame farpado das “borboletas voadoras”, oiço um ruído na medonha floresta que até me causou arrepios. O pinhal do rei, deixou de ser savana para passar a floresta pois, aqui não haviam melros a cantar... Barulho? Seria algum leão?! leopardo?! crocodilo?! E para maior temor meu, ainda pensei confusamente se o mesmo teria asas!...
Ohhh menino, fiz um rodopio, coloquei o acelerador a fundo, e só parei na “cagadeira” da rendição. Não houve tempo para chegar à minha “caserninha”. 
Joca – Tanta pressa? 
Vito – Duas pressas... O medo e o “bombardeamento” resultante da ginástica forçada e dos leões... 
Joca – Ou de alguma ratazana!... Enfim, ficaste curado!...
Marrador –
A conversa era da “treta” - tal qual as conversas dos “especiais”. 
Prontos para tomarem a “mercedes” a caminho da cidade, retomam o seu “falório” já em andamento. 
Não esqueçam que são apenas cinco quilómetros de percurso, mas havia muito para “palrar”. 
Vito – Já eram horas de partir. Decerto que o condutor adormeceu. 
Joca – Nahhh…. Há oficiais no grupo! 
Vito – Ei-la. Entramos. Bem, se não viesse, iríamos de “kinga” 
Joca – De “kinga”, a pé, de mota ou, numa “mini Honda 50”. 
Vito – Transportes que já utilizei. A pé, pela “picada” de terra batida e que marginaliza a estrada asfaltada pelo lado direito. De “kinga”, naquela que comprei ao João para me deslocar pela Base. De vez em quando monto nela e faço as minhas explorações etnológicas e sanzaleiras... 
Na “mini 50”…. Essa é que me assustou redondamente!...
Joca – Só sustos? Inicialmente, com os intestinos a darem-te volta, agora, a mota? 
Vito –
Pois, tinha pedido essa “motita” ao Girão para efectuar um “rally” à vilaça, e quando regressei no lusco-fusco, o farol “piscou-se”. Enquanto deslizava pela recta, mesmo sem lua, lá ia... Quando cheguei às curvas próximas da Base...fui a atalhar. Embrenhei-me na floresta. Afirmo, não era mata, era a floresta virgem e na total escuridão. E os “cagaços” que senti na estrada sem nada ver? Já imaginava os “turras” em cada canto. Catana daqui para ali e a prisão de ventre ficava-me curada…
Joca – “Cagaceiro”. Nem há “turras” nestas paragens. 
Calor, isso sim. Vês ali aquele caminho paralelo? Há uma semana atrás resolvi sair para tirar umas fotografias. Como não ia ninguém comigo, utilizei o “temporizador” assentando a máquina na terra batida. Quando levantei a máquina fotográfica, a correia que jazia no chão, estava separada. Tinha derretido! 
Vito –
Olha, olha... o Rádio Farol. Deve estar ali o Raimundo, ou o Toneta!...
Joca – Ele, e as suas turistas... Estão sempre a “espraiar”, e ele a versejar. Poetas que eles são! 
Vito – Atrás do Rádio Farol, segue uma picada estreita que se embrenha pelas silveiras abaixo. Tive uma aventura para aquelas bandas!...
Joca – Puxa pela língua. Mataste uma “surucucu”? 
Vito – Fui visitar a Rosa, aquela boneca negra, meiguinha de encantar.
Joca – Visitar? Fazes-me rir!... 
Vito – Maldoso!... Fui visitá-la e levar-lhe cumprimentos do Júlio que partiu para o “puto” e que me recomendou protecção. Levei-lhe umas lembranças para o filho de ambos…Afinal, foi mais uma das sacrificadas da guerra e acabou com mais um encargo para a vida! 
Joca – Seria esta a Rosa que é referida nos versos do “farolista” 
Vito – Parece-me que sim. Por alguns versos carregados de tristeza, tudo indica ser a mesma. Ora escuta…

Chama-se ROSA!
E a ROSA tem de humano,
A posição vertical.
O resto…
O resto
É de animal irracional.
Não tem ódio no olhar,
Nem rancor pelos tiranos;
Ambições também não tem,
Que a vida
Sempre lhe deu desenganos,
E ela deixou de ambicionar.
…,… …,…
Aquela é uma rosa
Que não se encontra nos rosais!
Pétalas negras,
Pistilo de marfim.
E dois estigmas dardejantes de pureza,
Que beleza!
Nunca vi outra assim.

Joca – Acredito na tua “bondade”. Não dormiste nessa noite, mas…Vito – Nem nessa, nem em mais alguma pois, quando tentava seguir a “picada”, pela noite, errava o caminho e emaranhava-me no “silveirado”. A cubata ficava distante do povoado, isolada…naquela mata sadia!
Joca –
Sadia…


Marrador - Como a distância da viagem era tão curta, não deu para dar largas “cuspidelas” às nossas “cuscas”. Encontramo-nos na grande Rotunda, entrada na cidade. Na nossa margem esquerda, encontra-se o grande depósito de água, pintado a branco. Toma-se a Avenida principal que nos encaminha em direcção à Capela, voltamos à esquerda, passamos pelo bairro dos Sargentos, roçamos o Bar Quioco, Hospital, e terminamos o circuito em frente do Hotel “Pereira Rodrigues”, no cruzamento que dá para o cinema “Chikapa”, o novo, - local dos “mirones” .


Caros leitores, puxem pelos vossos “neurónios”. Relembrem as vossas peripécias para aconchegarem os textos do Vito e do Joca. O Marrador, suaviza a coisa…

Até Breve 
O Amigo Vítor Oliveira




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