sexta-feira, 10 de julho de 2015

AS MEMÓRIAS DE UM LUENA (Parte 1/3)

Revisitando o leste de Angola, concrectamente a província do Moxico.
Neste conjunto de "lembranças" do Luena António Gomes, quarenta anos após, muitos de nós podem relembrar um conjunto vasto de factos, vivências e da cultura Luena.
Ficamos gratos António Gomes, por este vosso contributo.


AS NOSSAS ALCUNHAS
Vou começar por vos falar da minha alcunha- GALO/GALITO/DEMBA e, como ela nasceu. Mas antes de me alongar, direi apenas que, quem chegasse àquela maravilhosa cidade do Luso e perguntasse pelo menino António Ferreira Gomes, iria ouvir um "não sei quem é, não conheço". Mas, se tivesse a bondade de pronunciar a minha alcunha, por certo e pelo menos, o pessoal da minha classe etária iria movimentar a sua cabecinha, de cima para baixo, com entusiasmo, que me conhecia e até onde morava.
Luso 1970 - foto de Gonçalo de Carvalho
O ambiente que o originou, foi o recinto improvisado onde nós nos intervalos ou nas borlas das aulas, jogávamos umas futeboladas. Cinco golos e, salta fora, venha outra se houvesse tempo para isso. A campainha, dava cabo de tudo e, lá íamos nós, todos esbaforidos, suados, os mais branquelas avermelhados, a cheirar a catinga, para a sala de aulas.
Para além da minha pessoa, o outro protagonista foi o Carlos, hoje mais conhecido pelo FALECIDO/ TCHAMBAMBA.
Este kamba, tinha uma forma muito peculiar de jogar futebol, estava sempre aos saltitos, até para chutar ele saltava. Para além de trocar as pernas, era um grande trapalhão. Desculpa lá Carlinhos mas, tenho que compor isto da melhor forma a fazer rir os amigos que se vão dar ao trabalho de o ler.
Numa determinada jogada, quando eu me preparava para marcar o tento, eis que surge ele aos saltinhos. Lá se foi a oportunidade. Não marquei e todo irritado, virei-me para eles e disse-lhe, porra... Pareces um galo gentio aos saltos.
Ora bem, ele pegou na deixa e em complô com os restantes colegas, há que me chamar de galo. Virou-se o feitiço contra o feiticeiro. Naquele tempo as coisas funcionavam assim.
A partir daqui, os meus três irmãos que eram mais novos, passaram a ser chamados e conhecidos por GALITOS.
Mas a coisa foi mais longe e, logo apareceu alguém, a traduzir a alcunha para a linguagem nativa e vem daí o DEMBA, cujo feminino como alguns sabem ou deviam saber, é CASSUMBI.
Mas esta história não fica por aqui, porque também sobrou para o menino Carlinhos, mas fica para a minha próxima mucanda. Eu tenho que fazer render o peixe, a ver se aparece alguém para o comprar.
Pois bem, mas o nosso amigo Carlinhos não se ficou a rir porque também ficou com duas, senão vejamos:- A sua imagem de marca era um chapeuzinho escuro que, fizesse sol, chuva ou frio, lá andava ele no cimo da sua trunfa. Começamos a questioná-lo onde o havia adquirido. Não o sabia e, alguém, com imaginação, já que estávamos perto dele, disse:- foi roubado ali no cemitério a algum falecido e assim ficou ele com o chapéu do FALECIDO. Então, logo apareceu outro alguém, que aliou este triste facto a uma ave nocturna, o mocho, que era por ali pernoitava e, logo foi traduzido para a linguagem nativa o TCHAMBAMBA.
Recordo aqui que, naquele nosso tempo, corria muita imaginação nas nossas cabecinhas. A minha velhota também nos obrigava a andar de chapéu ou boné, mas eu detestava, deixava-me bicolor, entre o moreno e o castanho escuro.
Agora vou proceder a um longo exercício de memória e botar aqui algumas das nossas alcunhas e, vou fazê-lo por ordem alfabética.
Baleia- Sereno, já falecido; Barrigana- Jorge Almeida Camapunho; Barriguinha- Taveira mais novo; Batatinha- Patrício; Bochechas- Fernando Sapateiro; Cabide- Rui Perestrelo, por causa do seu andar; Campónio- Antonino; Caninga- Zé Carlos Camapunho; Catola- Carlos; Catota- Director EIC, já falecido; Chambamba/falecido- Carlos; Chimutué- Américo continuo; Chipeta- Eliseu Jaea; Chipulo- Lito; Chupão- irmão mais novo do Joca, baterista; Espirra Canivetes- Armindo; Falta Dar- Amaro camionista; Febrinhas- Louça, já falecido; Forno- Manuel Lopes; Galo/galito/demba- eu e os meus irmãos; Léua- Manuel Gomes; Perico- Cesar Seabra; Pig- Porf. de inglês; Pilinhas Costa Pereira- Prof. Marta; Pinóquio- Rodrigues; Porquinho- João Soares; Sacassange- João Preto.
Não me recordo dos seus verdadeiros nomes dos que a seguir vou mencionar:- Book Jones; Camuringue; Chicala; Choêm; Cuca; Galinha; Lóló; Malangino e o Marimenda. 

OS BISSONDES OU KISSONDES
Eram as nossas tão conhecidas formigas assassinas. Matavam tudo que encontravam no seu caminho até mesmo animais de grande porte. Eram aos milhões, acastanhadas vermelhadas, com uns enormes tenazes.
No Sessa, tivemos uma invasão deles. O alarme veio, de madrugada, da capoeira a primeira a ser
Bissonde vermelho
invadida. Se não fossem os galináceos, tínhamos sido apanhados a dormir e já estávamos por eles cercados. Foi um alvoroço em pijamas de flanela, quentinhos. Tivemos que espalhar fuba de mandioca em redor de toda a loja para não nos invadirem a casa. Seria uma catástrofe. Mesmo assim, tínhamos que estar vigilantes, porque bastava uma pequenina oportunidade, para eles avançarem.
A farinha/fuba, faziam com que eles ficassem presos pelas patinhas. Era a fuba ou a água fria ou a ferver, tudo isso nós utilizamos. Tivemos que soltar os animais.
Foram alguns dias de prevenção. Até que, descobrimos o quartel-general, nas redondezas.
Amontoamos mesmo por cima da sua entrada, na sua "porta d`armas", um montão de lenha, regamo-la com petróleo e ateamos-lhe o fogo. Foi remédio santo, levantaram o acampamento e foram incomodar outros, Desapareceram.

HISTÓRIAS DE LEÕES
Das histórias que a seguir vou contar, duas delas são do meu tempo Numa assisti à construção do estrado noutra vi com os meus próprios olhos, o local onde tudo se passou.
A primeira, passou-se no Sessa. Os leões andavam esfomeados, urravam por todo o lado e, só se podia circular, naquelas "tchuatas", em grupos e armados. O nosso gado levava, de vez em quando, sumiço.
O meu Pai e o outro comerciante, resolveram pôr fim ao "cunhana" dos "tchimunos" dos "dumbas."
Resolveram construir um estrado, numa enorme mulemba, onde se situava o curral dos "gombe" e, à noitinha, bem agasalhados por causa da "massica" e munidos de uma "uta", não sei se de uma caçadeira, tomaram assento no referido estrado, fazendo turnos de vigilância.
De nada lhes serviu, o larápio veio e serviu-se, num piscar de olhos. Desapareceu na mata e até hoje, ninguém lhe pôs os "messô" em cima.
A outra, é um pouco parecida com esta, que ouvia contar no Muié. Os comerciantes resolveram fazer uma espera ao leão. Ataram um "pembe" preso a uma estaca, a uns escassos metros, mesmo em frente da loja. Ficaram à espera deles sentados na sua varanda. Mais uma vez, de nada lhes valeu. Quando abriram os olhos, o cabrito tinha desaparecido sem um gemido.
Tudo isto, acontecia sobre a madrugada e o leão pressentia quando os "tchindeles" dormitavam, era preciso na sua atuação, não falhava.
Uma outra, está relacionada com a sua força muscular. Isto passou-se no curral dos nossos bois, no Muié, cujo cercado tinha uma altura superior a de um "lunga". Pois o artista, entrou nele, escolheu e matou a peça desejada e através do mesmo cercado, transportou-o cá para fora para o compartilhar com a sua trupe. A referida cerca estava praticamente intacta, apenas forçada num dos lados por onde o retirou.
Mas que grandes campeões, estes leões.

O FEITIÇO
O que a seguir vos vou contar, passou-se com a minha irmã mais velha. Juro que não é imaginação minha, tratou-se de um caso verídico, passado lá nos Muié.
Nós tínhamos uma cadela com o nome de "Diana". Já não sei quem foi o padrinho ou a madrinha da bicha.
Muié - 1973 - foto de António Gomes
Ora bem, numa bela noite, ouviu-se uma colossal agitação, maka mesmo, no quintal e, o meu pai, empunhando a mauser, que lhe havia sido distribuída pelo Chefe do Posto, foi à janela da sala de jantar, verificar o que se estava a passar. Nada viu.
No dia seguinte, a cadela estava toda ferida, mas os golpes eram estranhos. Pensamos logo que teria sido obra de uma onça.
E há que construir uma armadilha para a caçar, na eventualidade de ela voltar ao local do crime. Não se pensou noutra coisa, é onça.
Mas ela nunca mais ali voltou e a armadilha por lá ficou, de recordação.
Seguimos-lhe o rasto que era algo esquisito e não tinha as formas de uma pegada de um felino, era difícil chegar a essa conclusão e ele desaparecia à beira de um quimbo, onde residia uma caxina caji, com fama de feiticeira.
Um dia depois a minha irmã adoeceu e ninguém sabia dizer qual era o seu mal, nem a enfermeira que sabia mais que um qualquer médico de hoje, conseguia diagnosticar a sua enfermidade. Ficou vegetativa, não falava, não andava, não comia.
Vai daí, a minha mãe começou a pensar na tal dita velhota, só podia ser obra dela, feitiço e foi queixar-se dela ao Chefe que, logo a mandou buscar e a prendeu, sem antes lhe ter sacudido o pó dos seus kitengues.
Depois de uns bons apalpanços finalmente confessou o seu crime. Os motivos prendiam-se com a cadela.
Ela tinha uma nora com o mesmo nome da cadela e, chegou a pedir-nos que lhe mudássemos o nome. Como não o fizemos, vingou-se na minha irmã, lançando-lhe um feitiço, sei lá, um mau-olhado.
Passados uns dias, o feitiço foi desfeito e ela voltou ao normal.
Hoje fico a pensar como é que e, quem é que, atribuiu um nome daqueles- DIANA, a uma nativa/indígena? Teria sido algum tchindele? É que a moça era mesmo negra e nem sequer "puto" sabia falar.

O FEITICEIRO MUÉ CHICUNZA
Era um seculo que cheirava muito a catinga, desdentado, que trajava uma enorme casaca de caqui castanho, na qual se perdia, pano à cintura como as mulheres, cumprida até as tornozelos e calçava umas enormes botas, cujas solas estavam pejadas de protetores de chumbo e tachas, que eram a sua marca.
Em Cangamba, habitava num quimbo lá para os lados da loja do Pinto Martins..., à saída para o Alto Kuito. Era muito conhecido por aquelas paragens e muito mais temido, por ser feiticeiro.
Por onde passava deixava o seu característico rasto e, em superfícies duras como chão de cimento, muito usado nos nossos edifícios ou lojas, daquele tempo, fazia um enorme cagaçal, audível a quilómetros de distância. Exagero meu.
De quando em quando, anunciava-se, ao som dos seus protetores mas, aparecia do nada. O homem, além de feiticeiro, era mesmo mágico, um tchimunum ou cazumbi, fantasma.
Nós putos, gozávamos à brava com o velho, não obstante os avisos dos adultos.
Agora, imaginem vocês, aquele cagaçal, no silêncio da noite, com toda a gente a dormir?
Foi assim que uma bela noite ou madrugada, o feiticeiro resolveu visitar-nos, talvez, para se vingar dos nossos inocentes gozos.
O som das suas botas surgia de todos os lados. Acenderam-se as velas e os candeeiros a petróleo, de vidro e de alumínio, muito usados naquelas paragens mas, também, do nada e inesperadamente, surgia uma rabanada de vento que tudo apagava.
A confusão e o medo estavam estampados nos rostos de toda a gente, incluindo os adultos.
O cagaço durou escassos minutos, o suficiente para revermos a nossa atuação futura, em relação ao artista. Ninguém o viu mas a marca das suas botas, estava por todo o lado.
No dia seguinte, o dono da casa, o falecido senhor Luciano Amaral, enviou-lhe um mensageiro.
Compareceu mas o safado negou tudo. Por fim chegaram a um acordo que se resumiu no seguinte:- não seria apresentada queixa do sucedido ao administrador e ele comprometeu-se a não voltar a atuar daquela forma.
E nós nunca mais o gozamos, foi remédio santo.
O Pedro assistiu a tudo isto, ele também lá estava, isto não é nenhuma peta ou invenção minha.
Como devem saber, a prática da feitiçaria era proibida pelas nossas autoridades.

A MOCIDADE PORTUGUESA
Não pretendo aqui debater a sua origem nem a ideologia que estiveram subjacentes à sua criação. Ela é por demais conhecida. Vou limitar-me a transmitir a minha vivência, enquanto adolescente e jovem. e começo por dizer que, quem desse duas faltas à sua instrução, perdia o ano, mesmo que fosse aluno de vinte valores. Era, a bem dizer, uma disciplina obrigatória. Todos os sábados, à tarde, tínhamos ordem unida e depois desfilávamos pela Rua Marechal Carmona, até ao Jardim OS., para aí assistirmos aos jogos entre a nossa Escola, o Colégio de S. Bento, depois Liceu Marcelo Caetano e o Magistério Rural, nas modalidades de basquetebol ou andebol ou, para o Estádio Municipal, para os jogos de futebol, entre estes mesmos estabelecimentos de ensino. Era o desporto escolar em acção, promovido pela MP.
Foi através das suas diversas atividades que a minha geração aprendeu, para além da ordem unidade que muito jeito nos fez na recruta, a trabalhar em grupo, orientação, a praticar desporto, camaradagem, o contacto permanente com a natureza e acima de tudo, teve umas férias diferentes, algumas das vezes a trabalhar e a participar em torneios, tudo organizado por ela.
Férias, naquele tempo, era coisa de gente rica.
Foi assim que conheci Nova Lisboa, onde, nos seus arredores, passei mais uns quantos do Luso e de toda a então província,a construir uma enfermaria.
Mas houve quem, à sua custa, tivesse estado aqui (Portugal) aquando da inauguração da ponte Salazar, hoje 25 de Abril e tivesse colecionado eventos vários, como os cursos de graduados e de portugalidade. Para nós tudo isto era uma forma de mudar de ares e de contactar outros jovens. Pela parte que me toca, achei o ambiente gratificante e, pergunto, quantos de nós pensava em política.
Participei em inúmeros acampamentos, nas suas chamas, nas caminhadas, nas vigílias, na ação Social e nos Primeiros Jogos da Juventude de Angola, na modalidade de Handebol, cuja medalha ainda hoje conservo. Para a prática desportiva éramos submetidos a exames médicos, realizados pelo Delegado de Saúde local, tudo pago pela MP.
As entidades oficiais que visitavam aquela cidade, eram recebidas, em parada seguida de desfile e saudação, no aeroporto, pela MP. As paradas militares surgiram mais tarde com a ocupação militar. 
Através da Acão Social ajudamos a construir, por todo aquele território, escolas, capelas,enfermarias, mesmo lá nos seus confins. Os jovens provinham de todas as cidades e, para participarem, tinham que obter uma autorização, por escrito, dos pais.
Era distribuída uma lista do que devíamos levar, duas fardas, linhas e agulhas, prato e caneca de alumínio ou esmalte para não se quebrarem, talheres, sabão e sabonete, fósforos, lanterna, escova de dentes e a pasta que, muitas vezes utilizávamos nas sobrancelhas dos dorminhocos.
Participei numa dessas ações, nos arredores de NL, foi muito fixe, na companhia do Armindo, Taveira, João Paulo, Catola e Vilela, mas havia mais. No dia da inauguração, com as autoridades nas proximidades, faltava pintar o símbolo da enfermaria, aquela cruz. O Delegado tinha-se esquecido de comprar a tinta vermelha. A cidade ficava a muitos km. Resultado foi pintada com Mercúrio cromo, ficou cor de rosa. Depois, o soba queria tomar conta do edifício julgando que era para sua habitação. Foi uma carga de trabalhos para o demover. Ficou fulo que nem uma onça.

PEQUENAS E SOLTAS LEMBRANÇAS

OS HOSPITAIS, CIVIL E MILITAR
A chegada de mais uma evacuação
Estes dois hospitais situavam-se por trás do Governo Civil, onde funcionava a nossa Escola, no seu rés-do-chão, a caminho do aeroporto do Luso. Falo dele porque, a partir de 1966/67, diariamente ali aterravam helicópteros da nossa Força Aérea, descarregando militares feridos ou mortos em combate. E com alguma frequência, havia um funeral...de um filho da terra. Foram anos a a ver passar cortejos fúnebres a caminho do cemitério que, por sinal, também ali ficava perto. Isto marcou muita gente.

O 1º. CAMPEONATO DE PARAQUEDISMO DE ANGOLA
Teve a sua realização naquela linda cidade, no ano de 1973 e foi organizado pelo Aeroclube do Moxico. Possuo no meu álbum, um exemplar do emblema que assinalou este evento, bordado à máquina, por alguém da terra. Aquela cidade era toda prafrentex, não obstante os perigos nas suas zonas limítrofes.

O REBIMBAS CACULETE
Não sou a pessoa mais indicada para vos vir falar desta simpática criatura, carismática e, nem sequer me ocorre o seu nome verdadeiro. Persentia aos nossos convívios de café. O seu estilo de condução, do seu jeep descapotável, era inconfundível. Chegava mesmo, nos cruzamentos, a pará-lo, para verificar in loco, se lá vinha outro veículo. Só depois arrancava, aos soluços.
Os novatos quando chegavam àquela cidade, logo, na primeira oportunidade, eram enviados à sua loja, para comprar cigarros ou rebuçados da marca rebimbas.
Saiam do estabelecimento a correr e o seu dono atrás, com uma vara, de um metro com a qual procedia à medição dos tecidos.
E nós na esquina mais próxima apreciando o espetáculo, às gargalhadas.

AS FESTAS DA CIDADE
Ocorriam anualmente, se a memória não me falha, no mês de Setembro. No meu tempo elas eram realizadas no recinto da Associação Comercial e depois, foram transferidas para um descampado mais amplo, junto ao CTT, mesmo em frente do Governo Civil. O primeiro recinto era todo murado e o segundo, era todo cercado. O seu acesso era pago, acho que custava dois escudos e cinquenta centavos. Dentro dele existiam barracas de quermesses, comes e bebes, loto, um pouco de tudo aquilo que por aí se vê, neste tipo de eventos. No acesso ao recinto do baile, só os cavalheiros pagavam e este era abrilhantado, por um conjunto musical local e de cujos elementos apenas me recordo do falecido senhor Bandarra que tocava aquele violão, da bateria o Rui filho do boxeur e do Lito que tocava viola baixo.

OS ENCONTRISTAS
Era um movimento afeto à igreja católica, mas recebia no seu seio, jovens de outras confições religiosas. Desconheço por completo o decreto papal da sua existência, o que sei é que, durante a minha curta gestão, tinha como principais preocupações os prolemas da juventude.
As nossas reuniões semanais, ocorriam por norma as sábados à tarde e nelas se discutiam todo o tipo de assunto, particularmente as drogas, a prostituição, os conflitos familiares, a sexualidade, os namoros, as outras corrente religiosas.
Fazíamos visitas ao hospital e à cadeia local, onde chegamos a apadrinhar alguns dos reclusos. Pelo menos, chegamos a fazer uma visita à Igreja que se situava junto ao Liceu, cujo nome sempre esqueço ou faço confusão com as outras existentes no Luso. Perdoem esta cabecinha cansada. Foi maravilhosa a recepção. Recordo aqui o nosso estimado amigo e colega o Virgílio que, segundo soube, já partiu. Que a sua alma esteja em descanso.
Para além disto, tínhamos muita atividade, a prática desportiva aos domingos, em conjunto com as raparigas, na missão das madres, convívios, retiros espirituais na missão dos padres, saraus culturais para angariação de fundos, e, ultimamente, procuramos reuniões com os três movimentos jovens partidários. Não foi possível.
Também chegamos a reunir com um grupo de jovens consumidores de drogas leves, para nosso espanto, apareceram já drogados.
Tínhamos um programa radiofónico, no RCM, também aos sábados à tarde, apresentado e produzido pelo Victor Nunes, meu cunhado e pelo João Soares.
Publicávamos mensalmente uma pequena revista com toda a nossa atividade, que tinha o título de O ENCONTRO. A sua primeira edição saiu a 15.02.75 e a última em 12.07 do mesmo ano. Conservo um exemplar desta. Eu era o diretor, o dactilógrafo e o impressor. Todo este trabalho era preparado na Direção de Finanças. Hoje posso divulgar a notícia porque estou livre de um processo disciplinar. Só não me recordo do número de exemplares extraídos. Eram poucos.
Tinha uma nota de abertura da minha autoria, três artigos do Lito Tchipulo e a última página, com desenhos bonitos da autoria do Antonino, mais conhecido por Campónio.
Finalmente, tínhamos como responsáveis o nosso saudoso Tio José de Almeida e a sua estimada esposa, a tia Lurdes e como responsável espiritual o padre Zé.
As nossas missas eram realizadas ao sábado à tarde na Sé e eram muito concorridas, devido aos cantos que partilhávamos com os estudantes do Magistério Rural.
O nosso grupo era composto por cerca de trinta elementos, e, vou apenas mencionar os que recordo, Alda, Carmem, Anabela Ratinho e a irmã Célia, Fernanda Sequeira, Magui, Goret e a sua irmã, Isabel da socomol, Luísa, Clarisse minha esposa, Victor Nunes, João Soares, Juca, Lito, Antonino, Fernando Almeida Camapunho, Painço, Belguinha, Patuleia, Zé Lemos Minita e o Marimenda. Peço desculpa aos esquecidos. Um forte abraço para todos.

OS CASAMENTOS E OS PENETRAS
Caras conhecidas no
casamento do Jose Folgado
Não se celebrava um casamento naquela nossa cidade, que não tivesse uns penetras. Não porque tivessem dificuldades alimentares em suas casas mas, por puro requintado gozo. Eram uns autênticos profissionais, até apostas se faziam. Conheci alguns amigos, cujos nomes não vou aqui divulgar, porque não sou nenhum bufo, que faziam questão nisso. Preparavam-se a rigor, de gravata e tudo, sapatos engraxados, para não destoarem ou darem nas vistas, assistiam à competente celebração litúrgica e, aí iam eles, de boleia, todos enfarpelados, para o banquete. 
Nunca penetrei em nenhum sem ser convidado e, em pelo menos num em que o fui, quando cheguei escassos minutos depois do seu início, para lambariscar, estava tudo limpo.

O RÁDIO CLUBE DO MOXICO
Mas quem não escutava, diariamente, esta emissora local? Dos seus programas, o que a malta jovem mais gostava, era do "Música a Pedido". Por um sawuevo, o que corresponde a dois escudos e cinquenta centavos, colados numa cartinha com o pedido, em envelope fechado, entregue na sua recepção. E, depois era só aguardar pela sua hora de emissão, à tardinha, para ouvir o seu pedido e a sua dedicatória à sua apaixonada. 
Para evitar certos embaraços, criava-se um pseudónimo. Toda a maltinha, tinha um. O nosso, que hoje já posso divulgar, sem qualquer
receio de uma espera ou afronta, era "os três mosqueteiros" composto por mim, o Neco Almeida e o irmão do Praia Gonçalves e a nossa paixão, assolapada, era uma menina que morava numa esquina da Avª. António de Almeida. E mais não digo.
Quem não se lembra dos nossos ídolos, Adamo, Nelson Ned, Roberto Carlos, Delta Queen, Demis
Estúdio do RCM
- foto de Vitor Peixinho
Roussus, Fausto Papetti, Geroge Harrison, Nada, Os Bichos, David Bowie, Tony de Matos, Elvis, Wallace Collection, eu sei lá, tantos e tantos. Músiquetas românticas que nos faziam andar melados.
Para os nossos patrícios era o Teixeirinha. Até se dizia que eles compravam aqueles rádios pequenitos de pilhas só para o ouvir e fazer estilo, nas suas passeatas de quinga.
Mas no dia em que não o escutavam, porque a emissora não o passava, voltavam a loja para devolver o rádio, porque não apanhava o Teixeirinha. Verdade ou não, nunca se saberá.
De locutores recordo na Adélia, da Celeste Rodrigues, do António Manuel e de operadores de som, dos meus amigos e colegas, Zé Agusto, do famoso trio Ipiranga, do Zé Caninga, do Praia Gonçalves, do Barroso o "Cansado" e de tantos outros.
RCM - foto de Vitor Peixinho
Eu também por aqui passei num curtíssimo estágio, promovido pelo Zé Augusto. Curtíssimo porque, fomos, agraciados com uma multa, imposta pelo responsável da emissora, cujo nome já não me recordo. Mas, vocês devem-se lembrar que, à uma hora em ponto, para efeitos do noticiário, havia uma ligação à emissora Provincial ou Nacional. Só que, o locutor de serviço, não havia meio de se apresentar e, não querendo tramá-lo, o Zé Augusto transmitiu o que devia fazer na tal consola e foi para a respectiva cabine. Tudo correu às mil maravilhas, eu estava orgulhoso do feito já que tinha apenas umas escassas horas de contacto com aquela realidade. Mal ele acabou de fazer a ligação, recebeu um telefonema do dito chefe, com um raspanete e a aplicação da multa. Ora, eu como não passava de um simples estagiário, sem contrato assinado e sem remuneração estipulada, saltei fora.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA




1 comentário:

  1. GOSTEI É SEMPRE BOM REVIVER UM ABRAÇO AO AUTOR E AO PUBLICADOR INCANSÁVEL
    A. NEVES

    ResponderEliminar