sexta-feira, 17 de julho de 2015

AS MEMÓRIAS DE UM LUENA (Parte 2/3)

CONTINUAÇÃO DO ARTIGO PUBLICADO EM 10 DE JULHO

A JUVENTUDE DO NOSSO TEMPO
Ora bem, escarafunchei o meu passado e as minhas memórias e, aqui fica o resultado desse trabalho, incompleto, porque a minha memória já cansada, a mais não obriga. Espero que, o que aqui foi esquecido, venha a ser completado com os vossos comentários.
Aqui vou eu.
De calça bem vincada, alguns mostrando o seu mataco, de camisinha cintada às cores, exibindo os peitorais... que foram construídos à custa do levantamento de alteres, num qualquer ginásio caseiro, ao ar livre, ao fundo do quintal ou na garagem.
Sapato engraxado na esquina mais próxima.
Estudantes, trabalhadores, magalas, turistas, calcinhas, reunidos em grupos e grupinhos, encontristas, sanguitos, liambados, motoqueiros, rosqueiros, penetras nos casamentos e batizados, no cinema, no futebol, nos bailes e bailaricos, de garagem, jango ou salão, nas rebitas.
Acampávamos os nossos tempos livres da melhor forma e da forma mais saudável e criativa, praticando desporto, na escola, na MP, nos clubes desportivos, participando em torneios de futsal, de basquete, handebol, no campeonato de futebol, nos festivais de ginástica, nos pik-niks, no cinema, nos bailes e bailaricos, nos saraus culturais, no teatro escolar, nos retiros espirituais, nas visitas ao hospital, confortando os doentes, conhecidos e desconhecidos e à cadeia local, apadrinhando reclusos.
Estávamos por todo o lado, nas esquinas do centro, colocando a escrita em dia, recolhendo as novidades, gozando uns com os outros, soltando estrondosas gargalhadas, de alegria. Na saída da santa missa dominical, à chegada da mala, nos rios luena, lumege, em Sacassange, no IIAA e no Dala.
Percorríamos a cidade, de lés a lés, em busca de novidades e de caras bonitas.
Cometemos excessos que apenas originavam danos pessoais.

MAS TUDO GENTE BOA.
Com a entrada dos movimentos de libertação, tudo isto mudou. Houve opções para alguns e incertezas para outros. Algumas amizades desfizeram-se. Estão agora a ressurgir. Ainda bem.

O CAMUSSEQUELE OU BOCHIMANE
Bochimanes
Era uma tribo que não tinha poiso certo. Vagueava por todo o sertão angolano, em zonas áridas, chanas e pelos países vizinhos do Botswana, SWA, Zâmbia e África do Sul. Viviam daquilo que a floresta lhes proporcionava, principalmente, do mel, ratos, raízes e frutos silvestres. Para quem não conhece, existiam umas abelhas, mais pequeninas que as normais, que fabricavam o...seu mel, não em colmeias, mas nos buracos feitos por animais roedores. Eram de baixa estatura, de pele acastanhada, com olhitos tipo chinocas e falavam aos estalidos. Eram bons conhecedores da floresta, nada lhes passava ao lado, qualquer pegada era logo dectetada, exímios caçadores, dominavam a zagaia, eram viciados na liamba e eram excelentes guias.
Bochimane "Flecha"
As nossas tropas, utilizavam-nos, com frequência, nas suas zonas, na perseguição dos então chamados "turras". Esse facto tornou-os mais respeitados perante as outras etnias, com quem pouco conviviam, somente o tempo necessário, para as suas trocas de produtos.

AS MINHAS KAWENHAS
Quem não se lembra da toma obrigatória e mensal do quinino? Com o paludismo não se brincava. Amargo. E da resoquina, da penicilina para os casos mais graves, a tintura de iodo para encher as crateras deixadas pelas bitacaias, o mercúrio e as sulfamidas para as feridas, o vick vapor-ub para esfregar as costinhas e os petinhos da garotada, por causa da constipação e da tosse, ...as papas de linhaça. Sabiam que o cheiro de eucalipto fazia bem à saúde? E uma picadela do marimbondo? Também. O aspro
Marimbondo
que foi substituído pela aspirina e por outros genéricos, o sais de fruto que fazia bolinhas e punham a gente a arrotar, o bicarbonato de sódio, para as dores do estômago.
No Muié, o meu falecido irmão Fernando, entornou por cima dele, uma cafeteira de água acabada de ferver que, inadvertidamente, fora deixada ao seu alcance. Ele tinha um anito e começara a andar. Resultado, teve que ser todo untado com claras de ovo. Funcionou aqui a receita caseira da minha velhota. E olhem, que resultou mesmo.
Ora bem, chegou a vez de vos falar de doenças esquisitas, como a biliosa, as bitacaias e a filária, já alguma vez contraíram uma destas doenças? Pois meus caros amigos e amigas, eu tive a sorte de contrair logo as três. Não foram contraídas por "atacado" ou "pacote" mas, em épocas diferentes.
A biliosa, foi por ter ingerido mangas ainda verdes, lá na nossa escola de Cangamba. Estavam mesmo ali ao alcance, desafiando-me e, zás, garoto que se prese, não leva desaforo para casa.
Extraindo a bitacaia
Muito rebolei de dores de barriga, fiquei mais amarelo que um pintainho.
As bitacaias, como devem saber ou deviam, eram umas pulgas que se entranhavam no nossa carne, por debaixo das unhas dos pés. Aonde havia currais de porcos, elas estavam lá... De início davam cá uma comichão desgraçada e depois de gordinhas, nem tanto. A sua extração era uma operação melindrosa, porque ela tinha que sair inteirinho com o seu saquito cheio da nossa chichinha. Caso contrário, pouco tempo depois, o degredo repetia-se. Depois desta operação, a cavidade deixada era inundada de álcool puro, depois tintura de iodo, sulfamidas em pó. Aquilo era de gritos. A sua extração fazia-se com a ajuda de uma agulha, afastando devagarinho a nossa pele e a carne.
Experimentem!
A filária foi contraída por andar descalço à chuva. Eu só usava sapatos em dias muito especiais, acho mesmo que até para a escola gostava de ir descalço, para não destoar dos patrícios, eu já nessa altura era solidário. Davam cá umas comichões e, o que mais me irritava nelas é que não tinham forma. Apenas sabia que elas estavam ali. Então, um dia resolvi, com uma vela acesa, pingar a sua cera sobre a zona infestada pelo IN. Repeti a dose durante mais uns dias e, meninos, foi um sucesso. Até hoje, nunca mais tive comichões parecidas.

PETISCOS DE NATUREZA GENTÍLICA
Comi e gostei de todos eles e, deles tenho muitas saudades. Vou agora abrir-vos o apetite, mas nada de baba no canto da boca, porque isso é muito feio. Carne seca ou peixe seco, escalado, guisados com óleo de palma, tomate, cebola e umas folhas de mandioca, para lhes dar um sabor amargo, acompanhados de um belo tchibundo, xima, pirão ou funge, ena tantos vocábulos para designarem um pitéu.
Preparando o funge
-Franguito gentio, untado com uma mistura de alho esmagado naquele pilãozito, óleo, sal, um pouco de
colorau, para lhe dar cor e gindungo q.b, assado no espeto ou na fogueira ou no fogareiro.
-Franguito de caril, com aquela mesma piroada.
-Mandioca assada à beira da fogueira e depois untada com mel e acompanhada de ginguba torrada no forno de lenha.
-Massaroca assada à beira da fogueira ou, enterrada com as suas folhas, na cinza da fogueira e depois alourada à beira da mesma.
membros superiores, para as derradeiras voltas finais. É preciso ter muito guço.
Algum de vocês sabe como se faz o pirão? É fácil, tomem nota:- coloca-se a água a ferver, depois, aos poucos deita-se a fuba, vai-se mexendo com um luíco, uma colher de pau rasa e resistente. Não deixar encaroçar e, quando a fuba já estiver cozida e consistente, dá-se, finalmente, umas voltas com a mesma colher, do tipo amassadela. Não se esqueçam de tirar a panela do lume, envolvê-la numa sarapilheira ou num pano e, com os pezinhos à volta da panela, segurando-a, de forma a libertar os membros superiores, para as derradeiras voltas finais. É preciso ter muito guço.
Existiam muitos mais petiscos, mas por hoje, contentem-se com estes.

AS PICADAS, A TUQUEIA E AS QUEIMADAS.
Vocês já irão perceber o porquê deste trio, mais desajustado. Vou começar pelo princípio, O VERBO ERA DEUS E DEUS ERA O VERBO E DEUS ESTAVA COM O VERBO E O VERBO ESTAVA COM DEUS. Nada disso. 
Chana ou nhara
As vias de comunicação, por excelência, entre as povoações, por nós mais conhecidas por postos administrativos, naquele distrito do Moxico, eram as famosas e, agora, saudosas, picadas. Havia como que uma "picada mãe" e, a partir desta, outras surgiam, por toda a savana, que na linguagem nativa se chamavam chanas ou nharas. Partem em todas as direções e, no final, todas elas vinham a desaguar naquela. Contudo, o camionista com a sua experiência, era quem escolhia o melhor percurso para a sua carripana. E tinha muito por onde escolher só que, as vezes, as coisas complicavam-se. 
As relheiras eram suficientemente profundas para impedir que a viatura de desviasse e, às vezes, bastava ligar o piloto automático para ela, devagarinho e sozinha deslizar pelo percurso e o seu condutor, tirar uma sonequinha. 
Picada
Eram poeirentas, de areia branca, preta, vermelha, solta e, com a deslocação toda a bicharada, moscas,
mosquitos e outros da família destes, era incomodada e vingavam-se em nós.
O que nos valia era a imensidão de rios e riachos,
de água cristalina, com leitos de areia branca, outros tapetados de ervas dançantes ao sabor da sua corrente, que serpenteavam por aquela zona e que nos proporcionavam umas belas banhocas. Mas era preciso estar alerta. 
Com as primeiras chuvadas, a terra exalava um cheiro tão gostoso e inexplicável, a areia da picada
assentava e tornava-se dura, aguentava melhor o peso da viatura e da sua carga e, a viagem corria às mil maravilhas. Mas quando chovia em demasia, transformava-se num lamaçal e então, dizia-se mal da vida e um chorrilho de insultos. Só filmado. Nos anos em que a chuva era abundante, as nharas eram cobertas pela sua água e, nelas surgiam do nada, uns peixinhos escuros que os indígenas apanhavam com a ajuda de umas quindas largas e colocavam a secar no cimo das suas cubatas. Davam-lhes o nome de tuqueia. Era considerado um pitéu mas o seu cheiro, que eu bem conheci, era por demais desagradável.
Tuqueia
Com o tempo seco, o espectáculo era outro, de certa forma mais violento. Surgiam as queimadas, ateadas consoante o sentido do vento, pelos camionistas e não só. Duravam dias, mas o que mais me fascinava era o facto de dois ou três dias depois, e já no regresso da viagem, encontrar aquele mesmo local, todo verdinho e cheio de vida selvagem. 
Por aquelas picadas desfilaram grandes e poderosas máquinas, que ainda hoje povoam a minha mente. Marcas como o jeep, land rover, ford, chevrolet, bedford, dodge, gmc, scania, man, mercedes, volvo, jipões americanos e camiões alemães, que segundo constava, gastavam cem aos cem, refugo da II GGM, não sei se comprados ou oferecidos ao governo portugês. Durante a guerra colonial, também por ali circularam unimog e berliet, em cujos bancos de madeira eu e milhares de jovens militares, muitos calos criaram no mataco.
Ainda hoje recordo com carinho e saudade aquelas viagens e alguns dos seus motoristas com quem mais viajei, Brandão, Almeida Camapunho, Ramalhete, Amaro falta dar, Manuel Lopes, Fernando Martins e o sr Júlio. Alguns destes amigos já partiram e vou aproveitar esta oportunidade para lhes prestar uma sentida homenagem de gratidão, por tudo aquilo que me proporcionaram e pela amizade que fizeram o favor de me dispensar. Aquelas picadas tiveram grandes melhorias, a partir dos anos de 66/67, para permitir o mais rápido abastecimento das nossas tropas, espalhadas por todo o canto e estimadas em cerca de vinte e cinco a trinta mil militares.

OS CAMIONISTAS
No seguimento da minha mucanda anterior, intitulada AS PICADAS, TUQUEIA E QUEIMADAS, chegou a vez de acrescentar mais qualquer coisita, acerca daqueles profissionais do volante, com quem tive o prazer, a alegria e o orgulho de privar. Para recordar e a pedido de várias famílias, aqui vão elas:
-1º- Combustível suficiente para a ida e volta. Recordo que uma viagem de Vila Luso ao Muié e regresso, por exemplo, eram cerca de oitocentos quilómetros. Por aquelas bandas, não existiam nenhumas bombas da Sonangol, da Galp ou da Texaco. Lubrificantes, óleos para o motor e travões e massa para lubrificação. O gasóleo que aquelas viaturas consumiam, era vendido em tambores de duzentos litros, assim como a gasolina e o petróleo; 
-2º- Peças de substituição tais como, pneus, molas traseiras e dianteiras, bateria, lanterna e farolim, semieixos ou veios de transmissão. A bateria também era utilizada nas caçadas noturnas, pás e picaretas, machados, tábuas, bomba de ar; 
-3º- Um bom ajudante que percebesse um pouco de mecânica e outro pouco de tudo, ligado ao camião. Um bom macaco, aqueles de perna longa e, finalmente;
-4º- Uma boa mala do rancho e agasalhos para o frio. Normalmente esta mala tinha como medida aproximada de 60 por 50 cm, mais ou menos e era em madeira ou latão ou chapa ou lá o que fosse. O seu interior era dividido em compartimentos para os diversos produtos, entre eles, os mais consumidos, o café, açúcar, sal, batatas, arroz, azeite, banha, por vezes enchidos, enfim, um pouco de tudo ao gosto do seu dono e, principalmente, produtos não perecíveis que aguentassem a longa viagem de ida e volta.
Tudo isto fazia parte das suas bicuatas que não podia dispensar ou descurar, sob pena de amargas uns largos dias de espera naquelas picadas. O problema deles residia nas avarias da viatura e por isso eles se precaviam com toda esta dispensa.
Quantos aos restantes passageiros, que viajavam no cimo da carga, à boleia, tinham que se precaver em terra. Se fossem conhecidos do camionista, comiam todos á pato. Em abono da verdade e justiça seja feita a estes homens, nunca ninguém ficou com a barriga a dar horas. Na hora do enfardar, todos alinhavam e repartiam os seus farnéis. Aqui fica mais um testemunho deste vosso amigo.
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SEXO EM HONRA DO FALECIDO/A
Quando falecia um dos cônjuges, o costume desta etnia, impunha uma relação sexual, com o parente mais próximo do falecido, em sua homenagem. Exemplificando melhor, se fosse o marido a falecer, a sua viúva, tinha que naquela noite, manter uma relação sexual com o parente, masculino, mais próximo daquele. Se fosse o contrário, o viúvo, devia manter uma relação, com uma parente mais próxima daquela. Os eleitos e as eleitas eram escolhidos/as, em conselho de família, no caso de existirem vários.

COMUNICAÇÃO ENTRE GENRO E SOGRA OU VICE-VERSA
Estes não falavam cara a cara, mal se avistavam. Escondiam-se atrás de uma árvore ou de uma bissapa mais próxima, de costas voltadas um para o outro, em sinal de respeito, batiam palmas, emitiam uma lenga lenga, quiçá uma saudação, tipo código que só eles entendiam e, todas as notícias de ambos os quimbos, boas ou más, eram transmitidas através de um intermediário, que as levava e trazia. Na ausência deste, essas notícias eram transmitidas em voz alta, a uma certa distância.
Eu fui uma vez convidado para servir de intermediário.

NOTICIAS VOADORAS...
Vou começar por vos relatar um episódio, no qual eu e os restantes companheiros de viagem, assistimos, quando nos deslocávamos do Muié para Cangamba, para aqui procedermos aos
nossos exames primários. Lembram-se, naquele tempo, para se passar de classe, tínhamos que provar saber as matérias. Não existiam borlas. A viagem foi feita na carripana do comerciante Sr. Gonçalves e a sua partida ocorreu, como já era costume, mais ou menos às cinco da matina. Naquela viagem, houve uma boca que ainda hoje, por nós, é muito recordada. A garotada, rapazes e raparigas, depois de umas boas horas de viagem, estavam "à rasquinha" para mijar, para os mais sensíveis, urinar. A carripana parou e toda s gente saltou, em busca de uma bissapa, para se aliviar. Só a nossa professora não o fez. Vai daí o meu irmão Manel ter reparado e lançou a seguinte boca:- " ...toda a gente mija menos a professora". Foi uma risada.
Cangamba
Ora bem, depois deste desvio, vamos ao que interessa e é o objectivo desta prosa. Neste percurso, foi abatida uma pacaça, era enorme e, como era óbvio, ela não podia ser transportada, não havia lugar para ela. De um momento para o outro, estávamos rodeados de uns nativos que, surgiram da xuata, do mato. Foi incumbido a estes a tarefa de desfazerem a peça e, como pagamento pelo serviço, eles podiam ficar com as miudezas. A peça seria recuperada no dia seguinte, no regresso.
Pois, quando chegamos a Cangamba, já toda a gente sabia que tínhamos abatido uma pacaça e, isto tinha ocorrido na parte da manhã, quase madrugada e, a nossa chegada deu-se já à tardinha, quase noite. Tínhamos percorrido se tanto, metade do percurso de cerca de 120 quilómetros. Vejam só, como isto é possível. Mas episódios destes, aconteciam com frequência e eu podia relatar aqui outros. Eles não possuíam o tão nosso conhecido P19 ou lá o que era. Lembram-se deste instrumento? Custa a acreditar, mas é pura verdade.

CACIMBAS, MANDIOCA, SISAL E ARMADILHAS PARA AS ROLAS
Muquixes
As cacimbas não forneciam somente água filtrada às populações. Estas também as utilizavam para amolecimento da mandioca, destinada à sua alimentação e, da folha do sisal, para a confeção de corda e vestimentas e outros adornos para os seus muquixes. Vamos por partes, o que é uma cacimba, perguntam aqueles que nunca a viram. Era um buraco escavado na margem de um qualquer curso de água, de diâmetro variável e cuja profundidade tinha que alcançar a parte arenosa da margem. Este buraco enchia-se de água cristalina, filtrada pela natureza e era utilizada no dia-a-dia. Mas estes buracos também serviam para amolecer a mandioca para que a sua casca grossa se soltasse, separando-se da sua parte branca. Era de seguida lavada nas águas corrente do rio, espremida, feita em bolinhas que depois eram postas a secar numa quinda-cesto raso de palha, no cimo das cubatas. Após a sua secagem, essas bolinhas eram enviadas para o pilão e transformadas em fuba, com que se convencionava o chamado tchibundo, pirão ou funge. Também o sei fazer, mas fica para a próxima. Quanto às folhas de sisal, seguiam a mesma técnica. Eram ali mergulhadas e depois amolecidas a parte verde carnuda e viscosa soltava-se com uma lavagem, ficando a nu os seus fios condutores, finos e duros. Eram com estes fios que eu preparava os laços para caçar as rolas, enrolando-os nas minhas pernocas como se estivesse a fabricar uma trança.
Sanzala de cubatas
Eram depois agrupados e presos a uma estaca ou cavilha e enterrados no chão. Mas antes, eram esfregados com terra vermelha, para se confundirem com o local onde iriam ser utilizados, de preferência num descampado, com o formato redondo e coberto de terra vermelha misturada com sal grosso. Vocês sabiam que as rolas gostam de sal? Ora bem, as aves, bem como os restantes animais, são curiosas e, nos seus voos diários, na busca de alimento, ao sobrevoarem aquela zona, eram logo atraídas pelo círculo vermelho. Depois de uma cuidada observação, lá no cimo das árvores mais próximas, faziam-se à pista. Ansiosas por levar o sal todo, não se apercebiam que iam apertando o laço e, quando davam por ela, já era tarde, ficavam presas pelas patitas. E pronto, escusado será dizer qual era o seu destino
CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA




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