sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS

Vi-o descer pelo carreiro da restolha do Calaia. Cana de pesca na mão direita, cacifo sobre o ombro, andar compassado ao ritmo das irregularidades do caminho. A pesca era destino. 
Para as poldras de Baçal ou talvez a represa da Camila. O Sabor corria-lhe no sangue. Nunca estava mais que uma semana sem visitar o rio.
-- Não te despedes do rapaz?
-- Já há muito que me ando a despedir dele, ouvi em voz morta de angústia.
--Nem parece teu..
-- Oh mulher, isto é uma vida danada. O outro já na Guiné, agora este para Angola!
-- Foi assim que quiseste! Os da D. Ofélia também são gémeos e foi um de cada vez.
--Sim, sim, mas prefiro passar dois anos em sofrimento do que quatro em permanente agonia. Não ia aguentar tanto tempo, na incerteza de dias sem Sol na alma, nem ter notícias amiúde.
-- Nossa senhora dos Montes Ermos há-de protegê-los, estou cheia de fé.
-- Pois, pois, Nossa Senhora…
Ouvi a porta bater, o som lento das botas a descer as escadas, o ranger do portão que dava para a rua.
-- António Júlio, anda comer! As sopas já estão no sítio.
Entrei na cozinha, a malga fumegante com sopas de café com leite eram fiéis ao local. No parapeito da janela da cozinha que davam para a restolha. Desde os tempos do liceu que era assim. Dali via os lameiros onde depois das aulas jogávamos à bola.
Em cima do aparador, o velho rádio dava som a “aprés toi”na voz de Vicky Leandros, ainda fresca pela vitória alcançada no festival da eurovisão desse ano.
Continuei a vê-lo, baixou ao lameiro do Lima e parou. Voltou o rosto e olhou para a janela durante alguns minutos. Sabia bem que eu estava lá. Não fez qualquer sinal, parou a olhar!
Eu sei pai, que não gostavas que te víssemos chorar. Só uma vez o fizeste diante de nós. Lembro-me do comício ,que a oposição ao regime fez em clandestinidade na serração do Martins Novo. Eu estudante , tu um pai cheio de ideais, cantámos o hino nacional e saíram-te umas lágrimas de liberdade.
Sei porque saíste sem despedida, sei que não ias à pesca, sei, que quando o combóio saísse de Bragança, já estarias em casa.

Continuou a afastar-se, agora em passo mais apressado, atravessou o lameiro da Joana Dias e perdeu-se na lomba da estrada junto à quinta de Ricafé.
Era tempo de ir para a estação. A mãe acompanhou-me até ao portão banhada em lágrimas. O correio, na pessoa do velho Conhés tirava da sacola um aerograma.
--Cá está mais um , vem da Guiné!
A ansiedade apoderou-se de ambos . Abri e comecei a ler.
…O Júlio já foi para Angola?
…Os da aviação têm uma vida melhor que nós, tudo há-de correr bem com ele!
Irmão porque não retardaste um pouco mais as tuas notícias? A emoção quase me fazia perder o combóio.

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3 comentários:

  1. fatima brandão08 dezembro, 2014

    Amigos do AB4 Estou em experiencias para saber como enviar o meu comentário.

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  2. fatima brandão08 dezembro, 2014

    Boa tarde!

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