quinta-feira, 24 de agosto de 2017

MUITO PERTO DA MORTE


Acabados de chegar à Vila de Gago Coutinho, hoje Lumbala N’Guimbo, uma das primeiras operações do pelotão a que eu pertencia, foi a de ir efectuar protecção à JAEA (Junta Autónoma de Estradas de Angola) cuja equipa era chefiada, naquela zona, pelo célebre “Samuapa” encarregado de equipa da JAEA, pessoa altamente disciplinadora e muito temida por quem com ele trabalhava.
A equipa do “Samuapa” estava a reparar uma ponte de madeira que tinha sido parcialmente queimada pelo inimigo (MPLA).
Para os militares, o serviço de protecção aos trabalhos da JAEA era considerado como “um certo repouso”, pois limitava-se a que, durante as horas de trabalho, estivessem nas orlas da mata a fazer a respectiva segurança. 
O problema principal era o do alojamento que, na maioria das vezes, era bastante precário, pois, ou era em casas abandonadas e em ruínas, ou em tendas, como foi neste caso.
Juntamente com o pelotão estava, como reforço, um grupo de uma dúzia de “Flechas” (como era designada a tropa africana recuperada ao IN) que se encontrava igualmente sediada em Gago Coutinho e cuja actividade era coordenada pela Pide.
As obras de restauração da ponte decorriam com alguma normalidade.
Os estragos eram razoáveis e quando queimaram a ponte, os “tipos” deixaram lá uma mensagem escrita em papel, a qual dizia mais ou menos isto: “estas pontes de madeira já não se usam, substituam-na por uma de betão” (além de “chatos” os “tipos” eram exigentes!).
Estava tudo a andar nos conformes até que num belo dia, ao anoitecer e quando o pessoal já se estava a preparar para a segurança dessa noite com o gerador da JAEA ligado para iluminar o acampamento, começamos a ouvir um barulho de um helicóptero no ar.
Desligou-se o gerador, ficou tudo às escuras e o héli começou a andar ali às voltas no ar com todo o pessoal de G3 apontada ao héli, até que se ligou novamente o gerador e o alferes ordenou aos condutores para ligarem os faróis dos Unimog’s e apontarem as luzes para a picada, onde o héli acabou por aterrar.
Nós sabíamos que os helicópteros estavam proibidos de levantarem voo a partir das cinco horas da tarde, já que não possuíam instrumentos de navegação nocturna, nem as pistas existentes no mato tinham iluminação.
Aconteceu que o alferes-piloto levantou voo, para proceder à evacuação de dois soldados dos comandos, já depois da hora permitida.
Anoiteceu, perdeu-se, já estava quase sem combustível e foi um milagre ter encontrado ali o nosso acampamento, pois, caso contrário, teria que aterrar no mato e lá passar a noite.
Esta situação causou-nos alguma perplexidade, à mistura com um grande susto, já que era completamente inesperado ver um “bicho” daqueles voar à noite e, por momentos, chegamos a pensar que íamos ser atacados pelo helicóptero.
Para o piloto, cabo especialista e para os dois feridos que, por sinal, até nem tinham nada de grave, foi uma sorte dos diabos, pois a rota para Gago Coutinho nada tinha a ver com o local onde nos encontraram.
O enfermeiro lá deu uma ajuda aos feridos e o alferes-piloto mais o cabo especialista apanharam uma grande “moca” pois, segundo eles, não se podiam ir deitar sem comemorarem a nossa inesperada recepção.
O radiotelegrafista mandou uma mensagem informando que o héli estava estacionado no nosso acampamento, o qual ficava a cerca de 70 km de Gago Coutinho, local onde se encontrava o destacamento da FAP e o comando militar, tendo igualmente solicitado o envio urgente de gasolina para o helicóptero.
No dia seguinte, após ter chegado a coluna com o combustível, o héli lá regressou a Gago Coutinho, sem que antes o piloto se viesse despedir muito efusivamente de todos nós.
As obras de recuperação da ponte continuavam em bom ritmo, até que a chuva apareceu, os trabalhos foram interrompidos e parte do pessoal recolheu às tendas.
Eu também fui para a minha tenda e deitei-me para ler uma revista das selecções Reader’s Digest bastante antiga que alguém me tinha feito chegar às mãos.
Estava eu deitado com as cartucheiras a fazerem de almofada e, só por um mero acaso, não estava com a cabeça encostada ao pano da tenda porque este estava molhado, quando, volvidos alguns minutos, ouço um tiro, mas não liguei grande importância já que era muito frequente haver um ou outro disparo de arma, por descuido de algum militar. No entanto, começo a ouvir vozes que dizem haver um ferido e, logo de seguida, aparece-me o Furriel Frota à entrada da minha tenda e pergunta:
- “Ó Magro, estás vivo?!”
Eu, que entretanto já me tinha sentado, pergunto sobressaltado:
- “Ó pá, o que foi?! O que é que se passa?!”
Responde-me o Frota:
- “Olha para trás, para o pano da tenda!”
Olhei e vi que a tenda estava furada pelo projéctil do tiro que se tinha ouvido no acampamento, havia alguns segundos atrás. 
Continuou o Frota:
- “Um ‘Flecha’, na tenda ao lado da nossa, estava sentado com a FBP (1) em cima dos
joelhos e, talvez por descuido, a arma disparou e a bala atravessou a nossa tenda e foi atingir um outro tipo dos ‘Flechas’ que se encontrava na tenda a seguir e que dormia ao contrário, isto é: com a cabeça para o lado dos pés. Por isso também teve sorte, levou um tiro num pé.”
Eu voltei-me novamente para trás a observar o furo na tenda provocado pelo projéctil, o qual estava a centímetros das cartucheiras que me serviram de almofada e onde eu tinha a cabeça.
Fiquei ali uns minutos a reflectir e a falar com os meus botões:
- “Ias ‘lerpando’ (2) deitado, com um tiro na ‘moleirinha’ e a ler umas selecções muito antigas do Reader’s Digest!”
Entretanto, lá chegou o helicóptero que evacuou o ‘Flecha’ ferido com o tiro no pé.
A ponte, passados mais uns dias, ficou reparada, mas creio que mais tarde voltou a ser queimada, mas já não me calhou a mim ter de ir para lá novamente.
A cada passo, nos encontros de almoços anuais da tropa, lá me vêm alguns soldados recordar, uns da emboscada, outro do susto do helicóptero e outros a lembrarem-se e a dizer-me:
- “Eh pá, e quando você ia ‘lerpando’ deitado a ler?!”

(1) – A Pistola-metralhadora FBP foi projectada no final da década de 1940 por Gonçalves Cardoso, Major de Artilharia do Exército Português e foi produzida pela Fábrica de Braço de Prata (FBP) em Lisboa, com cuja sigla foi baptizada. Foi muito utilizada em África, no início das guerras coloniais, mas, por ser uma arma pouco confiável (em caso de queda, podia dar-se um disparo), deixou de ser usada em termos operacionais. (2) - “Lerpar”, termo usado no jogo da Lerpa, muito praticado pelos militares, jogo a dinheiro, muito simples no qual era tirada uma carta que era o trunfo, cada jogador tinha três cartas e quem fosse a jogo e não fizesse nenhuma vaza, “lerpava” e colocava na mesa o valor correspondente ao dinheiro em jogo que se encontrava na mesa.


Por: Rogério Alberto Valente Magro

ex-Fur. Milº Atirador de Infantaria CCAÇ 1719
Angola - 1967/1969 


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

BA2 OTA - JURAMENTO DE BANDEIRA DA ER 2ª./71 E BA3 - TANCOS ENTREGA DE BREVETS AO PH1//71


JURAMENTO DE BANDEIRA E ENTREGA DE DIPLOMAS
B.A. Nº. 2 – OTA – 27/AGOSTO/1971
Juramento de Bandeira da Escola de Recrutas 2/71

Em 27 de Agosto de 1971 realizou-se na Base Aérea nº. 2 a cerimónia do Juramento de Bandeira dos soldados cadetes do curso de oficiais milicianos pilotos aviadores 1/71, de soldados alunos do curso de sargentos milicianos pilotos 1/71 e de soldados alunos recrutas especialistas 2/71, efectuando-se também a entrega de diplomas aos  soldados cadetes alunos que terminaram os cursos de formação.
Presidiu às cerimónias o
subchefe do Estado-Maior da Força Aérea, brigadeiro Braz de Oliveira, que estava acompanhado pelo brigadeiro José André da Silva, director do serviço de Intendência e Contabilidade, pelo coronel para-quedista Alcino Ribeiro, da Direcção do Serviço de Instrução, pelo coronel médico Fernandes Tender, da Direcção do Serviço de Saúde e outros oficiais. Depois de passar revista à guarda de honra, comandada pelo capitão Sengo, o brigadeiro Braz de Oliveira e os restantes oficiais dirigiram-se para a tribuna de honra.
A iniciar as cerimónias, usou da palavra o comandante da Base Aérea nº. 2,
coronel Brochado de Miranda, que pronunciou o discurso que mais abaixo publicamos. A preceder o acto do juramento de bandeira, o alferes Salvador proferiu uma alocução alusiva ao acto. A fórmula do juramento foi lida pelo tenente-coronel Raul Tomás, que comandava a formatura em parada, sendo comandante do Grupo de Instrução o major Noronha. Seguiu-se a entrega de diplomas e prémios, finda a qual as forças em parada desfilaram em continência perante a tribuna de honra. A encerrar houve demonstrações de manejo de arma a pé firme em marcha e de luta individual.
Cor. Brochado de Miranda
A abrir a cerimónia, o comandante da Unidade, coronel Brochado de Miranda, leu o seguinte discurso:
“Vestiu-se de galas a Base Aérea nº. 2 para realizar condignamente mais uma cerimónia de Juramento de Bandeira. Vestiu-se de galas para honrar altas entidades oficiais e para acolher convidados e visitantes. Uma vez mais tenho eu o privilégio de saudar Vª. Exªs. e de lhes apresentar cumprimentos de boas vindas.
O estandarte da Unidade sai hoje do recolhimento em que normalmente repousa, em lugar de distinção, para, às mãos de quem este ano foi distinguido com a honrosa missão de Porta-Bandeira, se postar em frente da formatura geral da B.A.2 e, como símbolo e imagem da Pátria, receber um compromisso de honra de várias centenas de jovens militares da Força Aérea.
Foi ainda há poucas semanas que estes rapazes se apresentaram. A instrução que até agora lhes foi ministrada teve por finalidade essencial enquadrá-los num conjunto onde se procurou desenvolver a capacidade individual de resistência ao esforço físico, estimular a vontade para vencer dificuldades e interesses pessoais e, paralelamente, excitar o espírito de solidariedade. 
O que atraiu ou porque vieram servir na Força Aérea?
Pelo interesse na carreira militar?
Pela possibilidade de associar, à obrigatoriedade de prestação de serviço militar, a aquisição de conhecimentos úteis à sua formação ou valorização profissional?
Ou simplesmente para, frustrados os intentos de prosseguir na sequência normal de estudos, cumprir o serviço militar em circunstâncias que julgam menos rudes ou mais isentas de perigo?
Ou ainda em busca de correcção para desvios por caminhos errados ou para carência de autoridade familiar?
Distribuição de prémios aos soldados alunos que se distinguiram

Não é oportuno neste momento dar resposta às interrogações. O certo é que, seja qual for o motivo, todos eles são elementos da Força Aérea que interessa bem treinados. A sua instrução merecerá pois os mais diligentes cuidados, dedicando-se a partir de agora maior atenção ao indivíduo do que ao grupo. Porque a nossa missão não é só a de ensinar a combater adversários, mas também a de ajudar cada um a descobrir-se a si próprio, a saber suportar responsabilidades, a respeitar a autoridade, a desenvolver e armazenar energias morais.
Nas formalidades que se vão suceder não encontraremos somente o acto do Juramento, que dá o nome à cerimónia. Para que tudo não decorra com demasiada rapidez e com o propósito de que a lembrança do momento se não esvaia facilmente da memória de cada um, entendemos cercá-lo de ornamentos e colorido que, guardando-se todavia o ambiente de solene seriedade, lhe não tirem a importância mas lhe realcem o significado. É o que iremos encontrar no aprumo e altivez das tropas em parada; na sua atitude firme e perfilada; no atavio; nas evoluções coordenadas em exercícios sincronizados; no som galvanizante da marcha cadenciada; na distribuição de diplomas, prémios e felicitações…
Ajuda-nos o dia, o ambiente e o local.
Faço votos para que guardem bem presente uma recordação viva desta ocasião e desejo a todos as maiores felicidades.” 

NUMEROSO CURSO DE PILOTOS DE HELICÓPTEROS RECEBEU “BREVETS”

BASE AÉREA Nº. 3 – TANCOS – 14/OUTUBRO/1971
Tradicional foto de fim de curso

Na Base Aérea nº. 3 (Tancos) realizou-se no dia 14 de Outubro de 1971 a cerimónia do brevetamento de 32 pilotos de helicópteros do PH1/71, que constitui um dos mais numerosos cursos dos últimos tempos.
Cor. Ferreira Valente
Presidiu o Secretário de Estado da Aeronáutica, brigadeiro Pereira do  Nascimento, que estava acompanhado pelo Director do Serviço de Comunicações e Tráfego Aéreo, brigadeiro Jorge Noronha, e pelo Director do Serviço de Instrução, brigadeiro Diogo Neto.
Ao chegar à Base Aérea nº. 3, o Secretário de Estado da Aeronáutica recebeu os cumprimentos do comandante da Unidade, coronel Ferreira Valente, dirigindo-se depois para a tribuna de honra, junto da qual o aguardavam os oficiais que prestam serviço na BA3.
A iniciar as cerimónias, o coronel Ferreira Valente pronunciou algumas palavras.
Em seguida, os instrutores colocaram no peito dos seus instruendos as “asas” de pilotos de helicópteros, após o que o Secretário de Estado da Aeronáutica e os oficiais generais presentes entregaram os diplomas aos novos pilotos. Finda a entrega dos diplomas, os 32 novos pilotos desfilaram em continência perante a tribuna de honra, seguindo-se o desfile das forças em parada, comandadas pelo 2.º comandante da Unidade, tenente-coronel Orlando Amaral.

Ao terminar a cerimónia seis helicópteros efectuaram alguns voos de formação, enquanto um se exibia em várias figuras demonstrativas das possibilidades de manobra daquelas aeronaves.
Brig. Pereira Nascimento na entrega de diplomas

No discurso que pronunciou, o comandante da BA 3 teve a ocasião de tecer algumas considerações sobre os cursos de pilotos de helicópteros. Dirigindo-se aos pais dos alunos, transmitiu-lhes felicitações pela vitória alcançada. “Vitória que, quero saibais não ter sido fácil e de que foram eles os principais obreiros, posto que tenha sido prazer e obrigação de funções o amparo que os seus superiores lhes proporcionaram para poderem chegar a este dia, deixando pelo caminho tantos que os não puderam acompanhar na dura escalada que tiveram de vencer”. No final do seu discurso felicitou os alunos do curso a brevetar, tendo palavras de muito apreço pelo trabalho realizado, considerando-os “Um escol que, para mais, teve a viril decisão de escolher cumprir o seu tempo de serviço militar num ramo e especialidades das forças armadas onde relativamente bem poucos têm viabilidade de vencer”. 

 “Capacidade individual de resistência ao esforço físico, estimular a vontade para vencer dificuldades e interesses pessoais e, paralelamente, excitar o espírito de solidariedade.”
Tribuna de honra com o SEA

Notas: Recolha de informação nas Revistas “Mais Alto” nº. 148 – AGOSTO e nº. 149/150 de SETEMBRO/OUTUBRO DE 1971
           

Até breve                                                                                   
O amigo 




quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A RENOVAÇÃO DA AVIAÇÃO DE COMBATE PORTUGUESA

Depois da Guerra do Ultramar (1974-1984) - Os planos da Força Aérea.
Os primeiros contactos a este nível são realizados logo em Junho de 1974, entre o então Chefe de Estado-Maior da Força Aérea, general Diogo Neto e o coronel Wilkerson, chefe da secção do Military Assistance Advisory Group (MAAG) sedeado na embaixada americana, em Lisboa.
Na manhã do dia 5 de Junho, Diogo Neto recebe no seu gabinete Wilkerson e dá-lhe conta dos planos que tinha para a FAP. A nível da aviação de combate, o objectivo da Força Aérea era ter duas esquadras, uma equipada com o F-5E Tiger II e outra com o F-4E Phantom. Além disso, desejava também o Northrop T-38A Talon para substituir o T-33 na função de treinamento e o T-41 Mescalero para substituir o velho Chipmunk.
Surpreendido com a magnitude do pedido, Wilkerson promete fazer chegar os planos portugueses à Administração americana, lembrando, no entanto, que o embargo de armas continuava nessa altura em vigor contra Portugal e que seria muito difícil tais intenções de reequipamento serem satisfeitas pelos americanos.
Na resposta, Diogo Neto salienta que os aviões a adquirir são apenas para uso no continente europeu e que a Força Aérea pretende retirar do Ultramar de forma faseada.
É também abordada a questão de como iria Portugal pagar tais aviões, um problema que na visão do general Diogo Neto devia ser resolvido no âmbito das negociações do acordo da base das Lajes, algo que ultrapassava obviamente o âmbito do MAAG, o que é dito claramente pelo coronel Wilkerson.
No comentário que faz depois ao Departamento de Estado acerca desta reunião, a embaixada americana em Lisboa considera genuínas as preocupações portuguesas em modernizar a Força Aérea, estranha, no entanto, a ausência de referência a aviões de luta anti-submarina como o P-3 Orion, que já tinham sido pedidos pelas autoridades portuguesas a Washington, ainda antes do 25 de Abril.
Apesar do comentário de Wilkerson, a verdade é que o P-3 também fazia parte dos planos de modernização da FAP, pois o próprio Diogo Neto o tinha incluído numa lista de material a incluir num futuro acordo de assistência com os EUA.
O documento datado de 3 de Junho previa a aquisição durante um período de 4 anos de 165 aeronaves para a Força Aérea dos mais variados tipos, como se pode ver pelo quadro, que consta do referido memorando. 
Pouco tempo depois, a 30 de Julho, decorre uma reunião no Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre as necessidades militares a incluir num acordo sobre a base dos Açores, e, no dia seguinte, o brigadeiro João Pinheiro, adjunto do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), faz chegar a este ministério uma lista do material a pedir no âmbito de um futuro acordo.
No caso da Força Aérea são pedidos: 16 F-5E, com sobressalentes e material de apoio, além de 16 aviões T-38A, 20 T-41A e 12 helicópteros de combate AH-1Q, igualmente com sobressalentes e material de apoio. Tudo isto por um valor estimado de 4,3 milhões de contos (165 milhões de dólares). 
Diogo Neto apresentava assim um plano mais realista para a modernização da Força Aérea, pois era óbvio que o número de aviões previsto no documento de Junho excedia claramente qualquer apoio que os EUA estivessem dispostos a prestar a Portugal.




















Por:
Joaquim Ferreira

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O HELI DOS "PRIMOS" E A HISTÓRIA DA MALA


No meio da grande azáfama inerente a uma grande operação a nível de Batalhão, apoiada por Helicópteros, surge a notícia veiculada por um dos pilotos “primos” que teria sido avistada uma mala no cimo de uma árvore no meio da mata..
Perante este relato, as mais diversas conjunturas se fizeram, nomeadamente já se vislumbrava uma mala cheia de armas.
Constituiu-se uma equipa de “voluntários” e lá fomos de helicóptero à procura da mala e, a cerca de 10 minutos de voo, lá estava ela com todo o seu mistério. A equipa de 4 elementos saltou do heli numa “anhara”(*) próxima, mas, por razões de segurança, o heli zarpou de novo para os ares, e quando pensávamos que ficaria por ali a pairar, foi-se afastando até deixar de se ouvir…????.... !!!!!
Na mata ficaram 4 “gatos pingados” armados de G3 e granadas que foram à procura da famosa árvore da mala.
A expectativa era grande e o silêncio, após a partida do heli, tornava o ambiente pesado, afinal estavam ali apenas 4 militares entregues a si mesmos.
Seria no entanto, pensávamos nós, o chamado risco controlado dado ter-se tratado de uma “operação” decidida em surpresa e seria um grande azar estarmos “na boca do lobo”.
Como quem lá esteve sabe, pouco tempo depois, o risco estava esquecido e fomos caminhando na mata até à famosa árvore com a mala no topo, decididos a averiguar o seu conteúdo.
Ali chegados, alguém trepou e,….espantosamente, a mala estava vazia!!!!
Em silêncio voltámos para junto da “anhara” (*) esperançados em que não se tivessem esquecido de nós. Foi uma espera tensa de mais de 45 minutos até que ao longe se voltou a ouvir o silvo tradicional do Alouette. 


Soubemos depois, que foi ao quartel do Muié abastecer de combustível que já escasseava. Na mata apenas tínhamos o rádio “banana” com a frequência da Força Aérea, mas cujo alcance reduzido, (era um terra/ar), fez com que estivéssemos numa espera tensa sem sabermos quando terminaria, por falta de notícias.  
Regressámos sem mala, mas com a missão cumprida !!!!...........
(*) anhara – área (maior ou menor) da mata, sem vegetação nem água, chana.

Por:



quinta-feira, 27 de julho de 2017

ESTEVE NA LUNDA

UM DOS FILHOS DE HENRIQUE DE CARVALHO ESTEVE NA LUNDA.
Assim informava o Jornal da Lunda de Setembro de 1971 e que passamos a transcrever.


O senhor Coronel João Augusto Noronha Dias de Carvalho, filho do Gen. Henrique Dias de Carvalho, veio em romagem de saudade até Angola, visitando especialmente a Lunda, região onde seu pai marcou inconfundível presença entre 1884-1888.
Depois de passar alguns dias no Dundo, rodeado de mil atenções pelos representantes da Diamang, chegou à capital do distrito em 12 de Setembro. No aeroporto foi aguardado pelo Presidente da Câmara Municipal, Comandante da PSP, Secretário do Governador do Distrito, Director da Fazenda, Inspector Escolar, Directores da Repartição Escolar, Escola Preparatória, Escola de Professores de Posto, Junta Autónoma das Estradas e por uma representação de comerciantes.
Envergando a sua farda militar, com o peito recamado de medalhas, o Sr. Coronel João Augusto Noronha Dias de Carvalho, logo que desceu do avião, não pode esconder uma certa emoção ao receber os cumprimentos dos habitantes de Henrique de Carvalho.
Na residência do Governador foi-lhe oferecido um almoço intimo. 
Pelas 16 horas, o Sr. Coronel assistiu na aldeia de Nanguanza ao batuque da Mulanda.
Pelas 18 horas, jantou no Palácio do Governador do Distrito rodeado por um grupo de convidados.
Na segunda-feira 13, depois de uma visita pelos subúrbios da cidade, foi recebido às 11 horas, na Escola Preparatória que tem como patrono Henrique de Carvalho, onde se realizou uma Sessão Solene.
Na mesa da presidência o Sr. Coronel João Augusto Noronha Dias de Carvalho, estava ladeado pelo Presidente da Câmara Municipal, Comandante da PSP, Superior da Missão Católica e pelo Director da Escola.
Apesar de ser ainda tempo de férias, a sala encheu-se alunos, que ao terem conhecimento da estadia de um filho de Henrique de Carvalho na capital do Distrito, quiseram vê-lo de perto, saudá-lo. Juntaram-se à numerosa representação de gente adulta que acorreu à Escola, abriram alas nos corredores, bateram palmas e espalharam sorrisos de contentamento dando uma nota de ternura à homenagem que a cidade, por intermédio da Câmara Municipal, quis prestar ao filho do grande General pacificador da Lunda.
A abrir a secção, o Director da Escola evocou a figura heróica de Henrique de Carvalho, referindo, depois, a tradição militar da família, terminando por enaltecer o Coronel 
João Augusto Noronha Dias de Carvalho, várias vezes galardoado ao longo de uma brilhante carreira militar.
Seguidamente, a aluna Maria Margarida Wilton Pereira, em nome da Câmara Municipal, fez entrega ao homenageado de uma fotografia emoldurada do Monumento a Henrique de Carvalho erigido nos jardins da cidade.
Por fim, o Sr. Coronel levantou-se para agradecer. As suas palavras foram escutadas com religioso interesse por todos os presentes.
Ao terminar, anunciou que na abertura solene das aulas, na Escola Preparatória, vai ser entregue um prémio nacional ao aluno mais classificado instituído por si próprio há cerca de 10 anos.
Ás 13 horas, no Hotel Central, reuniram-se cerca de 40, com o Governador do Distrito à frente, em almoço de confraternização.
Na altura dos brindes, usou da palavra o Sr. Manuel dos Santos Pereira dizendo quanto a cidade se sentiu honrada com tão ilustre visita. Em nome dos comerciantes, entregou, depois, ao Sr. Coronel um objecto decorativo.
Pelas 17 horas, aos pés do monumento a Henrique de Carvalho, o filho rigorosamente fardado, e na presença do Governador, Major Soares Carneiro, dos Comandantes Militares e da PSP, de vários oficiais, sargentos e praças, chefes de Serviço e de uma representação da população civil, colocou um ramo de flores.
Seguidamente foi rezada missa por alma do General Henrique de Carvalho.
Na terça-feira, dia 14,  no avião da DTA, o Sr. Coronel partiu, rumo a Malange, tendo afectuosa despedida no aeroporto onde se juntou um público que sempre caprichou em ser hospitaleiro. 


quinta-feira, 20 de julho de 2017

AEROPORTO COMANDANTE "PERIGOSO"



Mas afinal quem foi o comandante Dangereux, que dá o nome ao novo aeroporto de Luena, ex-Luso?

Paulo da Silva Mugongo, nasceu a 10 de Julho de 1947, na comuna do Muié, município dos Luchazes, província do Moxico
 onde fez a instrução primária na escola desta localidade. No Luso, entre os amigos da época, era conhecido por Silva "Perigoso".
O comandante "Dangereux" como era conhecido nos anos 70, era o comandante chefe das tropas do MPLA na zona do Moxico.

O comandante "Dangereux", segundo J. Corredeira: "Era na altura que estive no Leste, o comandante chefe das tropas do MPLA na zona do Moxico. Actuava essencialmente na zona do Lumeje, Léua, Casage, Luacano, quase sempre na zona junto ao caminho de ferro.
A sua mulher (Domingas Kalunga Albino), enfermeira, foi um dia capturada pelos comandos.
Coube-me a mim a missão de transportar um jornalista Sul Africano, que se deslocou ao Léua (?), para tirar umas fotos à prisioneira, mas, só fotos com a mulher a sorrir.
Assisti à sessão fotográfica , com curiosidade e alguma revolta.
A esposa do comandante "
Dangereux" mostrou um carácter e personalidade fora do comum. Só de uma "maneira" especial um sargento comando obrigou a prisioneira a sorrir, ainda que o tenha feito com total desdém .
Teve o afortunado jornalista, a sua foto de guerra para publicar num qualquer jornal . A legenda imagino: "guerrilheiros vivem felizes no meio das tropas portuguesas".
De regresso ao Luso, debaixo de uma chuva torrencial, questionei o jornalista sobre a maneira como aceitou tirar a foto. Deu-me resposta " contundente"! Vocês estão em guerra !!!
Fiquei a saber naquele dia que estava em guerra, mas fiquei também a conhecer mais um cretino!
Passando por cima da minha ironia, que diabo!!! Estávamos em guerra mas o prisioneiro era uma mulher!"

Também P. Dinis, nos relata: "A tropa dele um certo dia prendeu o Sarg. Duarte. Quando a notícia chegou ao AR, o nosso comandante de Esquadra, furioso foi à Delegação do MPLA, entrou pelo gabinete dele e depois de uma "conversa interessante", o Duarte foi libertado e regressou ao AR com o Capitão."

O comandante Paulo da Silva Mugongo "Dangereux", foi o primeiro chefe do Estado-Maior da então Frente Leste (Região Militar Leste), foi membro do Comité Central do MPLA, membro do Estado-Maior das FAPLA e do Conselho da Revolução.
Foi morto em Luanda em 27 de Maio de 1977, aquando da "revolta" do denominado grupo fraccionista, encabeçada por Nito Alves e Van Dunen. O seu corpo e de mais 7 "fraccionistas", foram encontrados carbonizados num jipe e numa ambulância, no dia 28, na zona da Boavista.




sexta-feira, 14 de julho de 2017

CONSELHO ADMINISTRATIVO DO AERÓDROMO BASE Nº.4

O AB4 em 1966

O Aeródromo-Base n.° 4 foi criado por Portaria n.° 19009, de 5Fev62, com localização em Henrique de Carvalho, hoje Saurimo, no Distrito de Luanda, em Angola. Os efectivos da Unidade foram fixados pela Portaria n." 19020, de 12Fev62, que previa a atribuição de um oficial do Quadro IC com o posto de capitão ou subalterno.
Com esta mesma designação dada ao AB4, chegou a ser prevista a organização de uma Unidade na Ilha do Sal, em Cabo Verde, segundo os estudos de 1959 que deram lugar à publicação de uma Portaria (Portaria 16993, de 12Jan59) onde tal constava. Como sabemos, houve posteriormente uma revisão do dispositivo e por ela atribuído ao Arquipélago de Cabo Verde, para activação na Ilha do Sal, do Aeródromo de Trânsito n.° l e decidida a criação do Aeródromo-Base n.° 4, em Henrique de Carvalho.
Assim se concretizou.
O AB4 foi organizado em 1963, chegando o respectivo Comando a assumir funções em sede provisória na cidade de Luanda e a funcionar nas instalações do Comando da 2ª. Região Aérea, nesta cidade.
Porém, esta situação foi de curta duração, porquanto, passado meses já funcionava em Henrique de Carvalho.
O Conselho Administrativo da Unidade também foi activado em Luanda, a 22Mai63, mas a 16 de Julho imediato já havia sido transferido para Henrique de Carvalho. No acto da sua activação tinha a seguinte composição: Presidente: Maj. Pilav António Carita Silvestre; Chefe da Contabilidade: Alf. IC João Eduardo Melo de Oliveira Sobral Costa; Tesoureiro: Alf. Mil. SG Manuel Pedro Mega Mesquita Lemos.
Por este Conselho Administrativo passaram diversos oficiais IC que citamos, para além do então Alferes Sobral Costa já referido e que se manteve nas funções até 17Nov63: Alf. Henrique José Grande Candeias (18Nov63 a 18Nov65); Ten. Carlos Jorge Lobo da Fonseca (19Nov65 a 2Set68): Cap. José Carlos Miranda Vieira (3Set68 a 25Mai71); Cap. Júlio Pires Ribeiro (26Mai71 a 24Jul72); Cap. Mário José Silva Ascenção (desde esta última data até Novembro de 1974) e Cap. Manuel António Lourenço de Campos Almeida (27Nov74 a 30Jun75).
O Conselho Administrativo foi extinto reportado a 31Dez74 e a partir dessa data constituiu-se uma Secção de Intendência que se manteve em actividade, até ao encerramento da Unidade, sob a chefia do Ten. Mil. Victor Santos Nunes.
AM43 - Cazombo
Esteve prevista a criação de uma Messe de Oficiais e outra de Sargentos para funcionarem em Henrique de Carvalho (Portaria19177, de l1Mai62) mas, certamente por o movimento não o justificar, nunca se passou à sua concretização. Entretanto, desde meados da década de 60 e até ao final da guerra, o maior movimento de pessoal na área incidiu sobre a cidade do Luso, como consequência das operações se desencadearem mais para Sul e Leste. Como nesta cidade existia uma Messe do Exército e foram inicialmente conseguidas outras facilidades para alimentação e alojamento do pessoal, nomeadamente, através de contratos com entidades particulares (Pensão Nobre), a questão de abertura de uma Messe da FA nunca se pôs.
Esta Unidade participou no esforço de guerra com intervenção operacional por toda uma vastíssima área de Angola compreendendo todo o Leste, ou seja, os Distritos de Lunda; Moxico e Cuando Cubango e onde se localizavam diversos aeródromos como Camaxilo, Teixeira de Sousa, Cazombo, Luso, Cuito-Canavale, Gago Coutinho, Luiana, em plenas "Terras do Fim do Mundo", etc.
A activação da luta no Leste, iniciada por volta de 1966, teve como consequência o redobrar das responsabilidades do AB4 e a criação do Comando Aéreo do Leste na cidade do Luso (hoje Luena). Como já dissemos, o peso operacional do AB4, deslocou-se, então, mais para Sul e o respectivo CA chegou a organizar uma Secção no Aeródromo do Luso, directamente sua dependente, para corresponder às necessidades sentidas no local.
Messes em 1969
No AB4 foi activada e mantida uma Cantina com razoável dimensão.
A Unidade também organizou uma exploração agro-pecuária.
Pretendeu-se com esta exploração suprir as deficiências no mercado local, mas não obstante o apreciável contributo nesse sentido, não impediu que alguns abastecimentos tivessem que seguir de Luanda. A actividade recaiu sobretudo na produção de frutos e hortaliças e criação de gado (bovino, caprino, ovino e suíno) e de aves para abate e produção de ovos.
Outra exploração com interesse foi a de cinema, muito frequentado e funcionando em regime de concessão dada a uma firma distribuidora de filmes.
A exploração mais curiosa, por original, foi a que abrangeu uma fábrica de cerâmica. A Cerâmica foi herdada da Delegação da Direcção do Serviço de Infraestruturas em Agosto de 1965, que a tinha instalado e explorado para satisfação das necessidades próprias sentidas com as obras e construções que executou na área. Esta Cerâmica não só abasteceu a FAP em tijolos, como supriu as necessidades locais do Exército e até do Governo do Distrito.
É digna de referência a Secção de Subsistência construída no AB4. Foi montada com largueza e equipada com moderno material e funcionando em condições que uma Unidade de maiores efectivos não desdenharia. O seu sub-aproveitamento, resultante da ocasião em que ficou pronta e da dimensão com que foi concebida, é a nota discordante a registar.
Esta Unidade foi construída num estilo diferente das restantes da Região Aérea. Notava-se menor emprego de pré-fabricados e uma melhora adaptação das edificações às exigências climatéricas. Julgamos deverem-se estas características ao facto de ter sido a última Unidade a construir-se, tê-lo sido sem pressas e a preocupação de aproveitar a experiência anterior ter estado, ao que parece, na mente de quem a concebeu e construiu.
Comando, alojamentos e ao fundo as novas messes, em 1975

No início de 1975 o Conselho Administrativo foi desactivado.
Na ocasião, comandava a Unidade o Cor. Pilav Joaquim Vito Corte-Real Negrão. 
Quando a Unidade encerrou, comandava-a o Maj. Pilav José Bernardo Fermeiro.


Pelo Coronel IC Velho da Costa
Em Mais Alto

sexta-feira, 7 de julho de 2017

SAUDADES DA BASE AÉREA Nº.3 TANCOS

Chegamos!
Trouxemos Tejo e Tancos no coração,
Ficamos!
Aqui Alentejo terra ardente,
Continua a missão.



Estas palavras em jeito de rima e metricamente desalinhadas podem representar o que foi a grande reorganização da Força Aérea Portuguesa (FAP) no início da década de noventa. Foi o Major Rui Mateus ao tempo, 1992, Comandante da Esquadra 552 ALIII, que me desafiou para as escrever, simbolizando a nossa saída de Tancos para Beja, onde continuaríamos a operar o velhinho e generoso ALIII. Passados 23 anos, ainda lá continuam em grande destaque.
Na realidade, face à entrega por parte Governo Alemão da Base Aérea 11 em Beja, da passagem do Corpo de Tropas Paraquedistas para o Exército e a extinção de operação da BA3 por parte da FAP, muito mudou nos sistemas de armas e na vida daqueles que os operavam.
Relativamente à BA3 e como atrás referi os helicópteros ALIII começaram a operar a partir de Beja, e o Aviocar C212 a partir da BA1 Sintra. A BA3 fica assim liberta dos dois sistemas de armas e é iniciado o processo de entrega ao Exército, a fim de constituir uma unidade de elite daquele ramo das forças armadas.
Por ordens superiores marchei de Tancos para Beja dois meses antes da previsão de chegada dos helicópteros, a fim de coordenar tudo o que estava relacionado com a operação dos mesmos. Como me senti triste sem eles os helicópteros, e todo o pessoal que os operava. Envolvi-me em tarefas nunca antes desenvolvidas. Adaptei-me Ao calor Alentejano, fui-me ajustando à alteração das cores da paisagem, bem como a ausência do Tejo. Queria de forma rápida coordenar tudo para que as máquinas e seus operadores pudessem vir, já que estava assumido que tinham mesmo que vir. Sentia-me só com saudade das máquinas e seus operadores. Dois longos meses de trabalho e quase isolamento, pois não tinha muito conhecimento da Base nem do pessoal que lá prestava serviço.
Criadas as condições para a chegada dos meninos, ei-los! Como me lembro de os ver ao longe numa longa formação. Todos prontos, todos a voar pelo próprio «pé”. Eu mesmo com pouco jeito para a sinalética os quis receber um a um na placa em frente ao hangar, que passaria a ser a sua nova casa. Uma pancada na cabine e um cumprimento aos ocupantes. Tinha chegado tudo o que eu precisava. As Máquinas, a minha gente. Foram dez anos nas terras de Pax Júlia! Lá fui utilizando o gerúndio, habituando-me também à sopa de cação, ao borrego, beldroegas, gaspacho e assim.

Depois veio Angola, mais uma vez! Agora sem guerra, muito melhor seguramente. Mais dois anos sem nada ver ou saber de Tancos. Depois, depois como o tempo não perdoa, começou a chegar altura de dar lugar aos outros. Assim aconteceu! Cumpridas que foram as formalidades de aposentação. Por estranho que pareça de Tancos nem um sinal. Ainda hoje me interrogo acerca de tão prolongada separação!
Finalmente no passado dia 17 aconteceu! Depois de 23 anos, Juntei-me a cerca de três centenas de servidores na BA3 e lá fui. Uns bons quilómetros antes comecei a visualizar o serpentear do Tejo que tanto me marcou. Ainda na margem sul já via a Torre de Controlo e os dois marcantes hangares. Aproxima-se a estrutura e aproximavam-se os companheiros para a jornada de convívio.
Junto à porta de armas os abraços prolongados, as perguntas circunstanciais e todo um sentimento de saudade e nostalgia. Muitos cabelos brancos, muitas caras enrugadas. Quase não dava para falar com ninguém pois sempre se vinham aproximando mais e mais querendo abraços e perguntas. Lá fomos base dentro até encontrar a nossa capela onde o Padre Bernardo nosso capelão muitos anos, se preparava para celebrar a indispensável missa. Os olhos andavam mais que as pernas! As modificações, as diferenças, como tudo tinha mudado! Que coisa estranha o que os meus olhos viam! Finda a missa muito marcada pelas sábias palavras do nosso capelão, dirigimo-nos ao Hangar Norte e Torre de Controlo para a foto de grupo.
Quando entrei naquele hangar que foi meu local de actividade durante muitos anos, fiquei como se algo de estranho me tivesse invadido o pensamento. Lá no primeiro andar o gabinete onde tempos e tempos passei a trabalhar quiçá a pensar. Recatos de uma vida. Estava igual, apenas fechado. Queria ver tudo muito depressa! Estranhamente ou não, no hangar nem um daqueles helicópteros generosos que já falei. Apenas pintados nas paredes como deixamos, os emblemas das várias Esquadras da FAP que operaram helicópteros. Não sei a razão de tão grande impulso, mas algumas lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto sem que tenha tido meios para as evitar.
Senti a fraqueza ou não do ser humano, refugiando-me em local mais recatado procurando esconder a minha fragilidade. Estava a sentir que aquela era última das milhares de vezes que por ali estive. 
Nunca mais cá virei
Passear em tuas ruas,
Mas sempre te direi
Que vou ter saudades tuas
Ao fim da tarde depois de um belo repasto em que os companheiros estavam mais interessados em conversar, foram as despedidas sempre dolorosas.



Texto de:












(Oficial Superior da FAP)