sexta-feira, 8 de novembro de 2013

HAVIA PESSOAL NA FAP COM MUITA CATEGORIA.

Messes dos especialistas, oficiais e sargentos, vista da torre de control
Quando cheguei ao AB4 em Outubro de 1970, estava instalado o “orientanço” (para não utilizar outro termo) generalizado.
O 2º. Cmd. Ladeiras, era tão só o "administrador" da cerâmica, da agro-pecuária, dos combustíveis e das messes.
Ele voava pouco, até pela inerência do comando e pelo se constava mal, logo era razoável ter outras "girências", nomeadamente o famoso “saco azul”.
Mas estava a dizer, chego ao AB4 ido da "estância" GDACI/Montejunto e constato que no que respeitava a alimentação e condições das várias messes, era uma miséria. 
Estávamos a mais de 1000Km do mar, mas graças a Deus, peixinho era uma coisa que nunca faltava.
A carga do Nord bissemanal, era essencialmente constituída por caixas do dito. Bom, então peixinho e 365 (arroz) era a "dieta" quase diária!
Ao domingo, dizia-me na primeira semana o Manuel Ramalho ( do meu curso e quase há um ano no AB4), havia frango com 365 e batata frita ! Mas convém dizer, que do dito frango, ao refeitório dos especialistas só chegavam as asas (a que chamávamos brevets) e as patas.
Bifes, costeletas (apesar de termos porcos na agro-pecuária) era coisa rara, só para dias de festa. Fruta idem, quem quisesse, que comprasse no bar as latas sul-africanas, bem boas e, que serviram muitas vezes com as de atum, salsichas e sardinha, para apaziguar a larica.
Quem eram os "girentes" das messes? Um ten.de Armamento e um sgt. Pára, que por ser bom moço tinha sido despachado para o SG do AB4.
Não se pense que isto se passava apenas na nossa messe, não, a situação era generalizada.
O que é que este mal estar originava?
Tinha poucos dias de HC e ao jantar foi mais uma de chaputa cozida (?), uma cabeça enchia o prato e era uso pô-la ao alto com um cigarro na boca (nos queixos)!
Nesse dia, alguém dos mais velhos diz; ninguém janta, o que aliás não era difícil de cumprir.
O sgt. da messe, o tal pára, estava na cozinha, estava de sargento de dia e ao aperceber-se da "rebelião", avançou pelo postigo para a sala, exigindo aos berros que o pessoal comesse ! Claro que a malta não ligou patavina e abandonou a sala ficando ele aos berros tendo chegado a puxar da arma na tentativa de se fazer obedecer.
Olha com quem ! Naquele tempo ?! Ele que metesse a arma no cú ! Ninguém comeu.
Neste período várias situações similares de contestação ocorreram, como aquando da visita do "Vison Voador" e do secretário de estado, ou governador geral (?), mas estas "manifestações" nunca surtiram melhorias.
Visitas em massa ao posto médico, como forma de fazer sentir o nosso descontentamento, solicitando vitaminas, passividade no trabalho por alegada debilidade física , tudo foi utilizado.
Em princípios de 1971, o Ladeiras cometeu o erro crasso de nomear para as messes o cap. Amarino, um bom e honesto oficial do quadro, da especialidade de Abastecimento.
Ele próprio nos dizia que não percebia nada do assunto, mas enfrentava o desafio. Era a nossa esperança !
Um dos seus primeiros actos foi comprar um livro de culinária ! Depois, adquiriu para as cozinhas equipamentos universais de restauração que não existiam, comprou toalhas, talheres e louças (as celebres “pirex”) que não havia em quantidade suficiente. Pelo mesma razão mandou fazer, nas oficinas da Base, mobiliário, mesas e cadeiras.
E começou a funcionar .
A primeira grande surpresa; afixação no clube, da ementa do dia e a do dia seguinte. A ementa contemplava, sopa, prato de dieta, prato de peixe ou carne, sobremesa (até gelado chegou a mandar vir da cidade !) e bebidas. Tudo de alta qualidade e bem servido. As ementas dificilmente se repetiam, antes de decorridos quinze dias .A partir daqui, as messes passaram a restaurantes do AB4, pessoal que comia na cidade, principalmente sargentos e oficiais, passaram a utentes assíduos, até ao fim de semana.
Claro que o comt. Ladeiras, ao ver este” desvario” ficou preocupado … via as receitas desta área acabarem e decide convocar o cap. Amarino ao comando.
Contou-nos ele mais tarde, da preocupação do comandante, em que as verbas não chegassem, e que ele Amarino tivesse de suportar do seu bolso os “prejuízos” inerentes. A resposta foi lapidar: senhor comandante, não tenho intenção que tal aconteça…se há coisa que sei fazer são contas…lhe garanto, que não espero pôr um único escudo do meu bolso e a verba que me é atribuída para alimentação do pessoal, será gasta na sua totalidade para o efeito.
Não esqueço, quando acabou a sua “missão” e o pessoal do SG pretendeu passeá-lo em ombros, tal a admiração e reconhecimento que mereceu a sua gerência.

            Havia pessoal na FAP com muita categoria, o cap. Amarino Fonseca Pereira, foi um deles.

Por:


3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  2. Cá está um bom exemplo de que os Homens são o que decidem ser.

    ResponderEliminar
  3. Procuro Vitor Manuel Martins furriel que vivia na Messe de Sargentos em Luanda em 1967

    ResponderEliminar