quinta-feira, 24 de setembro de 2026

PARAQUEDISTAS/PUMA - O BINÓMIO LETAL DO FINAL DA GUERRA EM ANGOLA.


Face à guerra no Leste de Angola, constata-se que o Alouette  III não atingia o objectivo proposto em termos de autonomia para cobrir as vastíssimas áreas daquela zona.
Assim, Portugal inicia o processo de aquisição de novos helicópteros, os SA 330 Pumas.
No final dos anos 60, inicio de 1970, as forças do MPLA a partir de bases da Zâmbia, pretendiam dominar todo o Leste, e através de dois eixos principais de infiltração e penetração, atingir o norte da província.
É nesta vasta região com mais de 700 mil quilómetros quadrados, onde havia apenas 4 Batalhões do Exército, dava a razão de 1 soldado por cada 100km2, que era imperioso o uso de um meio aéreo com maior capacidade.
*"Nós compramos os helicópteros mas sem saber como é que o helicóptero se iria comportar, os helicópteros são entregues em Angola e quando chegam lá têm montes de problemas. A fábrica dos helicópteros montou lá uma equipa de observação em permanência com um engenheiro em que estavam constantemente a observar o comportamento do helicóptero e andaram nestas experiências mais de um ano, porque as temperaturas, as poeiras, as humidades afectavam o rendimento. O helicóptero teve de ser muito modificado e melhorado e praticamente podemos dizer que nós pagamos todas as melhorias que foram introduzidas no helicóptero. "
É com o Puma a fazer as heli-colocações e com o apoio do heli-canhão que os Paraquedistas, alternando com Fuzileiros e Comandos, eram empregues em reforço, era dado ao comando do BCP21 a zona para durante um mês fazer uma série de operações.


As zonas dos Paraquedistas foram duas, uma no Leste de Angola em Léua quase na zona de infiltração. Havia uma Companhia em permanência e rodavam de três em três meses com o BCP em Luanda. Mais tarde esta zona deixou de ter grande actividade pois era uma zona de passagem onde era muito difícil dar luta aos grupos que passavam.
O MPLA procurou instalar-se na zona de Luena, o antigo Luso, e passar ai o rio Cassai.
Desenvolveu-se uma sintonia perfeita entre os pilotos de helicóptero e os Páras, e a articulação entre o serviço de informações e essa equipa de «força aérea-força terrestre» permitiu uma perseguição muito eficaz e a destruição das colunas inimigas.
O conceito verdadeiro de operação aeroterrestre teve plena expressão dentro da Força Aérea, com o binómio Aeronave-Paraquedistas, permitindo flexibilidade e rapidez. A prática assídua deste conceito, através de uma série de campanhas sazonais, produziu equipas táticas com capacidades devastadoras num ambiente físico difícil, destruindo a capacidade do inimigo no Leste.

Com a criação da Unidade Táctica de Contra Infiltração – UTCI no Toto a partir de 1971, o meio de actuação numa operação englobava geralmente 3 AL III, 2 PUMA, 1 DO-27, equipa de pistagem, mais 30 páras, ficando em reserva 1 companhia de Paraquedistas e 1 avião Noratlas.
Numa 1ª. fase o conceito da operação passava por através do helicóptero (AL III) largar um grupo de pisteiros num local onde se tinha encontrado uma pista e realizar uma primeira avaliação de há quanto tempo tinha o inimigo passado ali, qual o seu efectivo, a sua direção, carga transportada, etc. Através destas sucessivas avaliações era depois colocado no terreno via Puma, um grupo para interceptar o inimigo, montando (por exemplo) uma emboscada ou um cerco descontínuo, entretanto outro grupo de combate era colocado na perseguição do grupo a pé na retaguarda deste para manter a pressão e cortar os itinerários de retirada.
Com o grupo de pisteiros geralmente seguia um heli-canhão para proteção e mais dois Alouette III. Por vezes eram colocados mais à frente quando as informações permitiam, se por ventura os grupo de guerrilheiros já tivessem passado nesse ponto, voltavam atrás para buscar os grupos que estavam em perseguição e eram colocados mais à frente usando os helicópteros, este processo era chamado “saltos de rã” por irem de salto em salto com a finalidade de encurtar a distância entre perseguidores e perseguidos.
O emprego do Puma que tinha uma autonomia de quase 600km (em comparação com os cerca 400 do Alouette) permitia-lhe colocar tropas frescas perto do local de acção, qualquer que fosse o grau de acessibilidade terrestre a esse local, fez alterar a forma de fazer a guerra, e constituiu certamente um factor de desequilíbrio a desfavor da guerrilha.
O Comando da Zona Militar Leste (o único Comando dos 3 teatros de operações a ser louvado) foi um sinónimo de que quando o interesse operacional se sobrepunha às burocracias e inoperância, os resultados apareciam; isto apenas dois anos depois de se terem revisto a estratégia da guerra e os processos operacionais.
Ao seu dispor o Comandante da ZML (Zona Militar Leste) exercia o comando operacional sobre os Sectores e as Forças do Exército em reserva da ZML; os meios operacionais do Comando Naval de Angola e da 2ª. Região Aérea estacionados na ZML; as Unidades de Reserva do CCFAA dos três Ramos estacionadas na ZML ou que lhe fossem atribuídas com carácter temporário e ainda sobre as Forças Auxiliares estacionadas na ZML. E exercia ainda o controlo operacional sobre os Flechas da Direcção Geral de Segurança (DGS) e outras forças militarizadas ou paramilitares. A isto a hipótese de ser reforçada era ainda uma realidade totalizando: 12.200 homens do Exército, 841 da Força Aérea, 234 da Marinha, 1.807 dos Grupos Especiais (GE), 2.431 Fiéis, 991 Flechas (DGS) e 88 da ZNA, num total de 18.592, conjunto de efectivos, que parece numeroso mas que se traduzia numa média de 32 militares, por cada um dos 666.521Km2 da Zona.


Para mais, no final de 1970 funcionava ainda em Cuito Cuanavale, o "Centro Conjunto de Apoio Aéreo" que coordenava a utilização de meios aéreos portugueses e da SAAF (República da Africa do Sul), estes em completo apoio às nossas forças.
Em oposição, o MPLA era o IN mais poderoso e usufruía do total apoio da Zâmbia. Dispunha de um efectivo de cerca de 4.000 homens.
As longas distâncias e a pobreza das comunicações terrestres dificultava imenso as ligações terrestres, portanto, os reabastecimentos. Para se ir de Cangumbe a Cangamba, demorava-se um dia, do Cangumbe ao Luso, dois dias, tal como do Luso a Luanda.
A transitabilidade das nossas forças era muito afectada, quer pela natureza do terreno, quer pelo alagamento (na época das chuvas) das zonas baixas que tornava intransitáveis grande parte das estradas e picadas, na generalidade de terra batida.
Quando o Puma e os Páras começam a ser usadas neste teatro, os guerrilheiros sentiam agora que não tinham como inimigo, tropas rotinadas como eram em geral as de quadrícula, mas sim tropas que actuavam como eles e que dispunham de meios mais sofisticados.
O planeamento destas acções requeria cuidados especiais para se obter alguma surpresa, sendo igualmente necessário o correspondente apoio de fogo para minimizar as vulnerabilidades, em especial no momento da recolha/largada dos Páras no terreno.
As operações mais delicadas, nas áreas eleitas como prioritárias, foram, em geral, executadas pelas forças de intervenção (Paraquedistas, Fuzileiros e Comandos) e, nalguns casos, por Forças Auxiliares (TE, OE e sobretudo Flechas), obrigando a guerrilha que não se sentia segura e começava a ceder, a ter que abandonar quase por completo as suas áreas de ocupação tradicionais, sendo obrigado a refugiar-se noutras de mais difícil acesso.
Ficando ainda com graves dificuldades de comando e alimentação o que a levou a provocar dissidências entre os chefes guerrilheiros e atritos com as populações.

Aos poucos os guerrilheiros começaram a furtar-se ao contacto com os Paraquedistas, e quando o faziam muitas vezes deixavam armamento e equipamento na fuga, notando-se a pouca preparação dos seus elementos presumindo-se que se tratavam de combatentes novos e pouco experientes, ou já muito desmotivados. É de crer que para evitar uma destruição total, que se afigurava previsível a curto prazo, que poderia pôr em risco os propósitos de uma luta prolongada, o MPLA iniciou uma retirada para a Zâmbia de importantes efectivos combatentes e de populações sob o seu controlo. A esta retirada estratégica correspondeu uma sensível redução, ou mesmo abandono, das áreas de fixação e acentuada quebra do potencial e de eficiência para o combate.
E assim chegados a Fevereiro de 1974, em toda a Frente Leste apenas houve 12 acções dos guerrilheiros com significado militar, quase todas na fronteira, das quais seis foram engenhos explosivos, duas emboscadas inexpressivas às NT, duas emboscada a uma viatura militar e outra civil, um ataque a uma povoação e uma tentativa de flagelação a Mussuma.
Sobre o Puma, era então possível atingir os objetivos com uma rapidez até aí nunca utilizada e sem fugas de informação.
A mobilidade e o efeito surpresa conjugados vieram dar uma vantagem decisiva às nossas forças combatentes na luta contra a guerrilha. O transporte das forças militares, nomeadamente forças especiais (Paraquedistas,  Fuzileiros e Comandos), através da terceira dimensão veio desorganizar a estrutura de defesa das bases inimigas, e interferir na intersecção de colunas de guerrilheiros vindos das fronteiras do Congo e da Zâmbia, servindo também na evacuação sanitária e apoio logístico. 
Numas Forças Armadas com a nossa dimensão, as que existiam no tempo das Províncias Ultramarinas e as do presente, onde impera os escassos recursos de meios aéreos, o conceito verdadeiro de operação aeroterrestre só teve e terá plena expressão dentro da Força Aérea, com o binómio Aeronave-Paraquedistas.

Em: Paraquedistas não são arremachos, Grupo do FB

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