sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

MEU CARO GUIMARÃES:


O texto “Os Cavaleiros d`Anhara surgiu como uma revolta contra certos senhores que por aí andam a propagandear as dificuldades que tiveram de passar em Paris, com a mensalidade atrasada...e dizem-se esclarecidos, amigos dos povos, quando na verdade tentavam apenas salvar o traseiro ao conflito. Estou a escrever-te isto com a autoridade de quem contigo por ali andou, sentias que aquela guerra não era contigo, mas como muitos milhares tinhas compromissos sociais e familiares que não te permitiam uma simples retirada para Paris. Isto é particularmente importante quando penso que ambos tínhamos condições familiares capazes de nos apoiarem financeiramente nessa outra aventura.

...na minha terra um desertor dos campos da Flandes, na 1ª guerra mundial só ao fim de 35 anos pôde regressar...

Por outro lado fui convidado para um convívio dos Dragões de Angola, de que faziam parte o esquadrão de cavalaria com quem estivemos na Cameia. Impressionou-me saber que foram aqueles homens os últimos a abandonar Luanda às dez da noite do dia 10 de Novembro de 1975, duas horas antes de ser proclamada a independência, garantindo assim a segurança até ao último minuto. Não seria tão importante assim se não soubesse que todos eles foram de recrutamento angolano, por serem ali nascidos ou criados. Voluntários! A cada um foi questionado se queria partir ou ficar nesse último grupo e ficaram firmes, tenho assim de ter alguma admiração por eles.

Nesse convívio, o primeiro que frequentei depois de trinta anos, apercebi-me quão injusta tem sido a sociedade para com esses e outros milhares de jovens que como nós foram enviados para longe e ali cumpriram a sua missão e hoje andam pelos cantos dos cafés das aldeias envergonhados da missão que tão arduamente cumpriram. Pode-se acusar o sistema político, o soldado tem de ser respeitado, cabe a quem tenha a capacidade, recuperar e louvar esta memória colectiva e ando a ferver com este tema e sinto que algo tenho de fazer. Costumo dizer que não sou bélicista porque fiz a guerra, não sou pacifista, porque tenho medo da guerra.

Por mim foi também uma experiência humana enriquecedora, no sentido em que nunca tive uma experiência negativa na minha vida, tive sim algumas experiências que me custaram muito. Por isso e tentando rememorar a situação cá vou tentando reanalizar a situação que me levou até ao Macondo...

Se há coisas de que estou consciente é que nunca tive feitio para ser militar, um dia mandaram-me comandar uma companhia, precisamente a companhia sedeada na Calunda, bem lá no centro do saliente do Cazombo e a uma altitude superior a 1700 metros. 
Não sei se consegues imaginar-me nessa situação, mas no dia seguinte às oito da manhã lá estava eu com a barbinha feita a tentar manter as aparências. Estava consciente de que aquele grupo de homens, em caso de conflito esperava que eu o “seu comandante” tomasse as decisões certas, que garantisse a segurança e a vida daqueles homens que esperam isso mesmo do líder...e eu não me tinha oferecido para ali estar...
É costume dizer-se que por um sorriso vale a pena, hoje ao rever estas imagens, este sorriso, apesar de tudo este bebé rechonchudo penso que não foi em vão o tempo que por ali passei, sentia que a população se sentia protegida e muitas vezes me vinha dizer “anda bandido aí nos lavra a roubar comida”, Macondo, bem lá no fundo do Saliente do Cazombo foi onde passei os últimos quatro meses.
E muitas vezes me recordo desta passagem para a minha coutada privada para lá do rio Macondo. Ao ler hoje um pouco de história, ao saber que os portugueses ocuparam esta zona à menos de 100 anos, zona de disputa relacionada com o Mapa cor-de-rosa e também por causa da questão do Barotze. É que toda a província do Moxico faz parte já da bacia hidrográfica do Zambeze, da África oriental.

Eram as ideias da época, mas acima de tudo ideias de quem pensava em grande, vemos hoje a juventude portuguesa a admirar Cristóvão Colombo, porque a Coca-Cola o promove como o grande navegador, quando não passou de um subproduto da aventura marítima dos portugueses, em nada se podendo comparar com o feito de um Vasco da Gama e outros. Há demasiados carneirinhos de animação, que se julgam originais...sem ideias próprias, eternos risonhos amorfos, “os iluminados”.
O Macondo vem nos mapas, fica ao sul do Saliente do Cazombo, bem lá no Leste de Angola. Era apenas isto um posto administrativo à esquerda, um pequeno quartel à direita e uma pequena sanzala, era o destacamento mais a leste de Angola, e no entanto até um ministro zambiano por aqui passou...coisas secretas, planos a decorrer...estávamos em princípios de 1973.

Uma pequena sanzala onde morava uma população tranquila e é por isso que muitas vezes me recordo dos bons tempos que por ali passei. Apenas uma vez fiquei atónito quando na ausência do chefe de posto, me vêm pedir autorização para fazer batuque, porque razão eu um europeu no meio de África teria de estar a autorizar ou não a fazer batuque? Claro que adormeci com o troar dos tambores africanos.
Caçando Javalis com o meu companheiro José Mwoca à minha esquerda, elementos da população armados para auto defesa, as armas eram Mauser de 1904, tendo gravado nos canos D. Carlos I Rei de Portugal e dos Algarves... e era com eles, pisteiros extraordinários que corria as matas à volta do quartel. Os javalis eram tantos que atacavam as lavras de noite. Vês! Nós confiávamos-lhe as armas...

Fala-se muito do pouco que os portugueses por ali fizeram, por mim fico a olhar para esta escola e à sua localização, lá, muito mais longe que o “depois de” havia uma escola, um professor, um posto de enfermagem, que funcionava no quartel, não pretendo com isto defender o “sistema” então vigente, mas mostrar que alguma coisa se fez, coisas de que nos podemos orgulhar, havia boa vontade, outras razões, a história que as discuta.
Ainda hoje não me canso de olhar para este “diploma” que o Zeca António resolveu expor na parede da sua cubata, o seu diploma de 2ª classe e penso que mais que a guerra para onde me mandaram, por ali garanti a paz, ali permiti que outros Zeca António tivessem a sua escola e eu tenho muito orgulho em ter contribuído para isto e gosto de espetar este diploma na cara de muito boa e convencida gente...

Se juntares a isto alguns dos mais belos pôr de sol que alguma vez vi na minha vida, o que de alguma forma compensava as frustrações por que passámos, bem diferentes daquelas outras de que se queixam hoje em livros dramáticos aqueles outros esclarecidos “amigos dos povos”...Refugiados em Paris...
Mas houve outras compensações encontrei outras gentes e um campo fotográfico que se estendia de coisas simples como este moinho que seria quiçá a maior glória e alegria de um arqueólogo, mas que consegui fotografar “a funcionar”, captando o movimento daquelas mãos moendo o massango...dez mil anos de história neste balançar de mãos e um eterno sorriso nos lábios...

E ainda uma piscina privada com água corrente, pois foi construída em cima de uma nascente, vendo-se borbulhar a areia no fundo, é caso para pensar que nem tudo foi tempo perdido por ali. Falta expor o segredo do Macondo, um plano secreto para o futuro de Angola, em que participei activamente desde o Luso. Quem o sabotou?

Mas voltemos aos Cavaleiros d`Anhara em Agosto de 1971. Apesar de todas as contradições foi uma experiência única. Mais uma vez esta imagem contradiz algumas coisas que vão dizendo sobre aquela guerra...nunca mais esquecerei um comentário recente de um jovem de 40 anos. “Mas há soldados pretos aqui misturados...”

Lembro-me que o “Rapaz Amaro” o médico veterinário estava ali contrariado.
A mulher estava à espera do primeiro filho, tinha acabado o tempo e lá estava ele a tratar dos cavalos, longe da esposa com quem gostaria de estar nesses momentos. Mas chegou a tempo e a menina lá nasceu com a sua presença, cheguei a conhecer a menina e a mãe, formada em economia, nunca mais soube nada deles... 

Enfim noutros tempos poderíamos ter tido outras condições e ter ficado nas instalações turísticas do Parque Nacional da Cameia. Chegámos lá tarde de mais, ou cedo de mais, já que parece que estão a tentar recuperar o parque. Sabes que mais, apesar de tudo não deixei de andar por lá a fazer turismo...hoje rio-me ao imaginar-te a contar estas coisas aos netos...
Mas sim fiz algum turismo, muito voei naquelas longínquas terras, de onde trouxe histórias para contar. Começaria por esta vista aérea das quedas de Chafinda. Um dia mandaram-me lá fotografar isto mais de perto e fui...e cheguei a estar atrás daquelas quedas, afinal todas as quedas de água têm uma caverna por trás, Chafinda a tão bela, emocionante, traiçoeira e perigosa Chafinda...

E fui também às quedas do Dala que sobrevoei em Helicóptero

E fotografei Lagos e florestas encantadas

E as flores da Acácia Rubra

E as flores da Mangueira e flores selvagens que cresciam por lá

E fui à praça do Luso, a ver como era e vi torrar ginguba ali mesmo, orgulhosa uma mamã passeava a sua filha enquanto procurava Tuqueia e Bagres secos da Cameia

Na verdade não foram só os cavalos que vi por lá



Andei a cavalo na Cameia, voei nos Allouete III e nos T-6 Harvard, nos Noratlas ou Barriga de Ginguba, a jacto e hélice, atravessei o Zambeze em Zebro na Lumbala

Viajei para Teixeira de Sousa no Mala puxado por uma locomotiva a vapor, uma NONA, com serviço de restaurante de primeira classe, fotografei em Cangumbe uma GARRATT a mais poderosa locomotiva a vapor que alguma vez se fabricou

Bebi uns copos no Pica-Pau, fotografei os jardins do Luso, a praça e até as escolas

Fotografei esta maravilha da engenharia hidráulica no Rio Macondo.

Não imaginas as coisas que por lá havia entre a fortaleza de S.Miguel em Luanda e o soldado negro que, no seu castelo de formigas Salalé vigiava a fronteira, lá longe, na Caianda, no mais longínquo leste do saliente do Cazombo, bem no meio de África.


Mandaram-me a Luanda em serviço viajei por outra Angola, sem armas nem escoltas desci do comboio Mala e vi um menino negro de mão dada com um menino branco, uma menina passeava por ali, coisas simples, gestos de confiança.

Na verdade foi a minha mulher que reparou neste pormenor, escondido durante mais de trinta anos, mas vale por mil palavras.
E lá fui a Luanda de autocarro, vendo maravilhas pelo caminho,



E lá voltei à praia fluvial do Luena e aos jardins nocturnos do velho Luso


E fui ver os musseques, e as bananas a crescer e os tchinganges e os fontanários

Em dias de festa, no dia a dia, misturado no meio de um povo com formas de viver diferentes, com cultura diferente, mas onde não me senti estrangeiro, nos Bairros de Benfica, Espirito Santo ou Mandemboa, a todos corri com a minha mini-Honda.
Lembras-te do Avião do CFB que o Comandante do Batalhão usava como taxi aéreo? 
Da Aerangol que levava viveres e correio para todo o Leste de Angola?

Em todos voei, mas o T-6 Harvard era um avião mágico, cheguei a pilotar um deles, ou melhor “segurá-lo” sim! Por momentos pilotei uma daquelas máquinas

Tudo isto meu caro Guimarães para te pedir, que se um dia por aí no canto de um qualquer café de aldeia, vires um velho soldado daqueles que baralhado pela história e mais ainda pelas palavras oportunistas que exaltaram aqueles outros que em Paris se diziam defensores da liberdade dos povos e acabaram por entregar os destinos daquele povo aos oportunistas mandatados pelos grandes interesses internacionais, semeando por ali a barbárie e a guerra que plantou minas e mais minas onde outrora foram campos onde crescia o milho e a mandioca...Guimarães! Dá-lhe um grande abraço de solidariedade de minha parte, e diz-lhe que os heróis desta história não são os agora auto exaltados Rauis ou Rafaeis e outros Migueis, mas sim ele o soldado anónimo que sofreu na picada e nas vigílias nocturnas em abrigos duros, para que meninos pudessem continuar a comer tranquilamente o seu fungi sentados na esteira que a mamã estendeu. Foram os médicos que ali salvaram vidas, incansáveis e dedicados, foram os pilotos dos helicópteros, auto apelidados de Saltimbancos, que resgataram vidas.

Meu caro Guimarães, mandaram-nos a fazer a guerra e eu sinto que ali garanti a paz, por isso o meu soldado tem de ser respeitado, se alguma questão houver de ser levantada, falem com o general, ainda que também ele seja um soldado, mas ele saberá defender-se, ao soldado não deixes que o humilhe a história, diz-lhe que nada foi em vão e que lá longe, tão longe naquele infinito Leste de Angola, que as águas corriam já para o outro mar, levando-as o Zambeze até ao Indico, diz-lhe que um menino graças a ele teve escola e orgulhoso do seu saber lhe deixou em herança o seu diploma exposto ao lado da porta nº 29 da sua cubata na rua nº1 do Macondo, foi a sua maneira de dizer ao velho soldado, Foi graças a ti, que eu tive paz e a minha escola!        
Não foi em vão o teu sacrifício!

Março de 2005








Armando Monteiro.
Alf.Mil.Transmissões BCaç 3831

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

UMA AVENTURA PARA CONTAR


Esta foto foi tirada no dia em que resolvi dar uma volta a uma sanzala próxima do Camaxilo, levando os "canhicas" a passear. 
Foram contados à saída e quando estávamos a chegar ao nosso destino ouvi um grande burburinho acompanhado pela descida inopinada da "criançada" que apontava aos gritos para o rodado do Unimog. O meu primeiro pensamento, pessimista, sugeriu que algo de grave se teria passado, pelo que, dum salto cheguei ao chão na ânsia de procurar a causa de tanto alarido. E, depois de constatar a razão de tanta algazarra, fui invadido por uma alegria e um alívio difíceis de descrever, pois afinal...era só um furo no pneu de trás do Unimog.
Agora, havia que arranjar o furo, ou substituir o pneu, o que não era fácil, pois não tínhamos ali os meios para isso. Aí entrou a "diplomacia" com o soba, que disponibilizou um "cambuta", que de bicicleta fez os dez quilómetros na picada bastante arenosa, até à Companhia do Exército em busca de auxílio. Passadas duas horas, mais coisa, menos coisa, lá apareceu a Berliet com o material necessário à reparação que se impunha.

Depois foi encontrar todos os canhicas, contá-los e regressar à sanzala de origem - Camaxilo - onde o cabo condutor Aço, nos aguardava impaciente, pois entretanto tinha anoitecido e toda a população o questionava sobre o nosso paradeiro... 
A recepção daqueles pais, foi um misto de alegria e censura... (hoje à distância dá para pensar que com os telemóveis seria de fácil resolução este contratempo, mas...não teria havido " uma aventura" para contar...)


Por:

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

OS CAVALEIROS D'ANHARA

Algures numa anhara do leste de Angola - foto de Antonio Alves Monteiro

Os últimos cavaleiros do século vinte, uma análise muito particular do uso da cavalaria na guerra em Angola por muitos ignorada, por outros deturpada.
Foi para mim uma experiência única, já que ainda que com um cavalo emprestado e um chapéu dos Dragões, posso hoje dizer, que estive com os últimos cavaleiros do século XX, com os Cavaleiros d`Anhara, no teatro de operações no Parque Nacional da Cameia em Angola, em Agosto de 1971, pretendo com este documento prestar a minha homenagem, aos DRAGÔES DE ANGOLA, grupo de Cavalaria do Munhango. A GALOPE...!!!...
No Leste de Angola existem grandes planícies, ou savanas como são mais conhecidas. Os angolanos chamam à savana ANHARA, e eu gosto do nome. 
Para controlar e fiscalizar estas grandes áreas, era requerido uma intervenção militar diferente, atendendo às características do terreno e área envolvida.

Às extensas planícies sucedem-se pequenas áreas arborizadas com árvores ralas. Era o terreno propício para a actuação da cavalaria a cavalo e foi essa Cavalaria, que um dia fui encontrar na Cameia, aproveitando uma coluna de reabastecimento. A operação demorava cerca de 30 dias e de dez em dez dias eram reabastecidos, instalando-se um acampamento, onde era fornecida comida quente, cerveja fria e até serão musical ...
Nos últimos tempos, ouvi muita asneira sobre a guerra em Angola, versões fortemente tendenciosas, segundo os interesses político-económicos em causa. Há que, volvidos 30 anos voltar a analisar as circunstâncias em que as coisas decorreram, talvez só a minha versão, mas a versão de quem viveu aquela guerra nas mais diversas circunstâncias.
Pelo tratado de Tordesilhas, portugueses e espanhóis, partilharam o mundo em dois, metade para cada um, isto sem pedir a opinião de russos ou americanos, que na altura ou não existiam ou não tinham voz activa no assunto. Mas a Europa, começou a cobiçar África e franceses, ingleses, holandeses e belgas meteram-se a dividi-la e a ocupar onde lhes foi possível. Portugal e a Bélgica, ocupavam quase metade de África.
Depois da segunda guerra mundial surgiram duas grandes potências, russos e americanos, que se acharam no direito de partilhar o “bolo africano”, já que se julgavam senhores da faca. Surgiram assim em Angola duas pontas de lança desses interesses. Surgiu a luta armada, que iria garantir a “felicidade dos povos”, surgiu a ideia do guerrilheiro, figura romântica, a viver em harmonia com o povo, a lutar pelos ideais da liberdade. Não tenho dúvidas, passados 30 anos, que muitos deles lutaram por uma causa em que acreditavam, o povo chamava-lhes turras e pedia a protecção da tropa, e isto porquê?
Porque o MPLA, deixando de ter o apoio do Zaire, que passou a apoiar apenas o outro movimento, ou os interesses dos outros, tinha necessidade de criar uma nova frente de luta, para através do leste, poder reabastecer as suas bases no norte de Angola. Através da Zona de Ninda, introduziam armamento em Angola, era preciso impedir que esse reabastecimento chegasse ao norte e aqui a Cavalaria teve um papel importante.
A questão que se põe é que esta abertura da luta na frente leste foi feita com enviados do norte, que não conheciam nem a língua, nem os povos das zonas onde passavam ou se  instalavam. A população era-lhes hostil, porque eles para viver tinham que roubar comida nas lavras, raptavam mulheres para seu serviço e rapazes para irem receber treino de guerrilha no estrangeiro.

Eu sei que todas estas questões são discutíveis, mas esta introdução era necessária, Só assim se compreende que os Cavaleiros d`Anhara acreditassem na sua missão. Estes homens, recrutados em Angola, uns nascidos lá, outros que para lá foram morar, acreditavam estar a defender a sua terra e de facto evitaram que Angola se tornasse palco dos genocídios que abalaram África, nas lutas induzidas pela corrida ao saque.
Angolanos, brancos e negros, com a mesma farda, a mesma arma, a mesma panela! Para pasmo de muito boa gente, para quem aquela guerra era apenas de repressão.
Nos bons e maus momentos, ao contrário do que diziam as cassetes da altura, havia participação, não havia segregação, havia partilha, desenhava-se um futuro para todos.


As imagens têm este dom, o de falarem por si, mas agora vamos falar dos Cavaleiros. Para lá chegar é preciso apanhar muito pó na coluna de reabastecimento. Inventar novas estradas, caminhar por terrenos só acessíveis à cavalaria.


Organizar toda esta tarefa, não é fácil, há que levar reabastecimentos para 150 cavalos,
quase tantos cavaleiros, levar o correio, algum conforto, preparar condições para um merecido repouso de 3 dias, com refeições quentes... montar um acampamento, preparar uma cozinha de campanha...


Faltava esperar que os cavaleiros chegassem, para o merecido descanso e vieram.


Ninguém consegue imaginar uma frente de 100 cavalos dispersos na anhara, a uma distância de 10 metros uns dos outros fazem uma frente de um q u i l ó m e t r o ...
É algo de grandioso, que realmente é preciso ver para poder acreditar...


Uns ouviram falar, outros nem isso. Patrulhar a Cameia durante trinta dias, é uma epopeia daquelas de que se ouviu falar, mas eu estive lá...comi da mesma panela, bebi as Nocal  que levávamos e reconheci o entusiasmo e valentia destes homens.


Ao pôr do sol e noite dentro, com artistas improvisados, cantámos e divertimo-nos.


Que a vida não é só trabalho, a vida é também convivência, diversão,  mesmo, ou especialmente nos momentos mais adversos das nossas vidas, mesmo quando nada nos parece de fácil solução, teimamos em sorrir, fazendo troça das dificuldades, talvez assim conseguindo que as tornemos mais fáceis de enfrentar no dia seguinte.
E na manhã do dia seguinte os cavaleiros, OS CAVALEIROS D´ANHARA, os ÚLTIMOS CAVALEIROS DO SÉCULO XX, talvez os últimos cavaleiros da história da cavalaria, seguiram na sua missão e eu digo com orgulho ESTIVE LÁ!    
    

Esta é a história de três dias da minha vida, que recordo com orgulho, a história de Homens que lutavam por um ideal, discutido e discutível, mas eles cumpriram, por isso merecem todo o meu apreço, todo o meu respeito, porquê?
Porque graças a eles e muitos outros foi possível evitar a desgraça anunciada por toda a África, fruto da cobiça e interesses delegados. Foi a protecção a esta terra e a paz possível, que  permitiu criar e manter a escolinha do Zeca António...


Cavaleiros soldados, Guerrilheiros, abandonados pela história... ambos lutaram por causas em que acreditaram. Passaram trinta anos, “outros” contam histórias, histórias de valentia e coragem, histórias de sacrifícios...passados em Paris, sem saber se a mesada chegava a tempo de pagar o almoço amanhã, ou em Argel, à espera dos subsídios prometidos em prol da luta e felicidade dos povos...os guerrilheiros foram dispensados, abandonados. Aos Cavaleiros que os não humilhe a história...são e serão o orgulho desta terra, não os que fugiram para Paris! 
Os lideres ficaram milionários, os outros sem pernas e outros traumas, outros escrevem livros glorificando as suas dificuldades em Paris, lutando pela liberdade dos povos, são os Ruis, os Rauis, os Rafaeis, os Ricardos e os raios que os partam...

Macondo em imaginação, Cameia no coração, 3 de Setembro de 2004.








Armando Monteiro.
Alf.Mil.Transmissões BCaç 3831

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

A CASA DA SANZALA

A cidade do Luso em 1970 - foto de Gonçalo de Carvalho
Já tinha meses de comissão, quando fui colocado no Secarleste no Luso, chegado ao destacamento, fiquei deveras preocupado quando o (Sousa) meu antecessor me mostrou uma chave de porta e me informou que caso eu quisesse ir viver para a casa que eles ocupavam na sanzala, era só pedir ao condutor que me levasse e ele me deixaria no local. 
Nas passagens anteriores pelo Luso a caminho dos "hotéis" de Neriquinha e do Cazombo, dormira num cubículo nas traseiras do Luso Hotel, sem luz, sanitários, janelas, mas era central e seguro, por isso perguntei o porquê da casa na sanzala e ele informou-me que não haviam casernas, nem refeitório nem quartel no Luso, e como o quarto na cidade estava ocupado era cada um por si, podia dormir no posto de rádio, no hangar ou mesmo dentro de algum avião, era comigo, ou então podia ir para a casa na sanzala e ter "tudo num só sítio" (cama, mesa, roupa lavada e o resto) com o aumento de pessoal, teriam de construir casernas, cozinhas refeitório e tudo o que era normal numa Base, até lá cada um desenrascava-se como podia, mas a decisão era minha. 
Posto de rádio - foto de Rui Pires
Antes da criação do Secarleste, o posto de rádio tinha uma guarnição para cumprir um horário de 12 horas comum aos destacamentos, das 06:00 às 18:00 Zulo, com o horário a passar para 24:00 horas, era inevitável o aumento de pessoal. Até ali os OPC'S, dormiam num cubículo nas traseiras do Luso Hotel, agora era fisicamente impossível albergar mais operadores num espaço tão pequeno. 
O Luso era uma cidade arejada, onde a guerra era mitigada por uma população civil branca em número suficiente para lhe dar o ar de paz e progresso, tão ao gosto do "regime" mas sobretudo de normalidade que se sobrepunha ao que se passava para além dos chamados "limites urbanos de segurança" , pela concentração de quartéis dos três ramos das Forças Armadas, mesmo as sanzalas limítrofes eram relativamente seguras para albergarem os malucos dos OPC'S que resolveram ir viver no seu interior. 
Aceitei a chave com o mesmo sentimento de inevitabilidade que um condenado aceita a farda de riscas o cobertor e os lençóis para a enxerga, e no fim do dia lá segui pouco convencido no jeep com os outros dois habitantes da casa situada relativamente perto do aeroporto, numa das primeiras ruas de terra batida à esquerda de quem seguia para a cidade e em frente de um dos quartéis do exército.
Habitações típicas da sanzala 
- foto de Rui Neves
Era uma casa de adobe rebocado e pintada com um branco desbotado pelo sol e pó inclementes, o telhado de chapas de zinco ferrugentas, deixava passar o calor de dia e o frio à noite, vários buracos de pregos de utilizações anteriores, deixavam atravessar os raios de luz que desenhavam no pó sempre presente, riscos e formas luminosas, contrastando com o escuro da única divisão, os três colchões assentes em tijolos, eram os únicos vestígios de mobília e ocupavam praticamente todo o espaço, não existiam janelas, e a porta era o único adorno que descontinuava as paredes irregulares, o tecto baixo, aumentava a sensação claustrofóbica provocada pela ausência de espaço e aumentava o calor infernal, devido aos cães e outros bichos mais ou menos autóctones, de quatro ou duas patas, era desaconselhável mante-la aberta. 
Se já tinha dúvidas antes de ali chegar, imediatamente me arrependi de para ali ter ido, era um tecto para dormir e pouco mais, não havia luz, água, sanitários, nem segurança para deixar ali qualquer coisa de valor monetário ou sentimental, antes dormir no chão da cifra ou do posto de rádio. 
Mas foi ali que passei os meus primeiros tempos, quando estava de folga, corria para a cidade na busca de um outro sítio onde me aboletar, que fosse pelo menos seguro o suficiente para não andar continuamente com a mochila às costas com os parcos haveres de que me não separava na certeza que se os deixasse ao acaso nunca mais os veria. 
A renda era paga ao "Soba" e a roupa lavada pelas suas mulheres, e era ele que mantinha a "segurança" do local e o respeito que nos era devido na nossa ausência. Aos domingos éramos convidados para o almoço, debaixo de uma latada, mas nunca me senti tentado a comer o peixe seco ou o funje de frango do cardápio, o máximo que me fazia socializar com eles eram uns copos de hidromel ao pôr-do-sol e dois dedos de conversa de "conveniência" com as jovens "filhas" do soba pela noite dentro. 
Às horas do transporte para a cidade, ou para as refeições, eram sintomáticos os olhares de reprovação dos que nos viam sair no meio da sanzala para irmos dormir ou a apanhar o transporte para o aeródromo de manhã para irmos trabalhar. 
O Adjunto do Comando tentou por várias vezes junto do nosso Sargento, fazer pressão para que fôssemos viver para outro sítio mais digno, ao que sempre contrapusemos o argumento de que a FAP, tinha a obrigação de nos dar cama roupa e comida, e sempre nos recusámos a ir viver para uma camarata de um qualquer quartel do Exército.
Na República dos Saltimbancos,
eu, Soares, Mósca e Martins
O tempo passou e vim a saber da existência da República dos Saltimbancos e a convite do MMA Mósca, eu e o OPC Martins, visitámos as instalações, a evidência do que fomos encontrar mais nos mobilizaram para convencer os restantes OPC'S a alugar-mos uma casa ou vivenda para concretizarmos o que nos parecia mais lógico, termos um local digno, e com condições para podermos deixar os haveres, não só quando íamos para o serviço, mas sobretudo quando íamos para destacamento. 
Hoje passados 44 anos, ainda me espanto como nestas condições miseráveis, o serviço era mantido 24 horas por dia, com o máximo da eficiência, sem que os sucessivos "recados" mandados para Henrique de Carvalho alertando para a ausência de condições mínimas de alojamento e de segurança dos operadores de comunicações, surtissem qualquer efeito ou tivessem eco nas chefias da estação directora da rede de comunicações do Leste de Angola, e só quando da chegada do T.C. Sachetti, que exigiu que cada militar tivesse um local certo onde pudesse ser localizado quando necessário, até que as futuras instalações militares estivessem construídas, é que pela primeira vez alguém nos ouviu, nos deu razão e resolveu a situação, atribuindo-nos um subsídio provisório para a renda e garantindo o pagamento de forma a que pudéssemos assinar um contrato legal com o senhorio do moderno andar que viria a ser a sede da República dos Tá-Ri-Rá-Ris no Luso.
A República dos TA-Ri-Ra-Ris - foto de JFMA
LUSO 1971

OPC ACO

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

BA2 OTA - JURAMENTO DE BANDEIRA DA ER 1ª./70

Tribuna de honra com as individualidades presentes

JURARAM BANDEIRA 469 SOLDADOS RECRUTAS
B.A. Nº. 2 – OTA – 24/ABRIL/1970
Juramento de Bandeira da Escola de Recrutas 1/70


SEA entrega diplomas
“Na Base Aérea nº.2 (OTA) realizou-se no dia 24 de Abril (1970) o juramento de bandeira dos soldados cadetes do curso de oficiais milicianos pilotos aviadores 1/70, dos soldados do curso de sargentos milicianos 1/70 e dos soldados alunos recrutas especialistas 1/70.
Presidiu à cerimónia o Secretário de Estado da Aeronáutica, brigadeiro Pereira do Nascimento, com a presença do Director do Serviço de Instrução, brigadeiro Krus Abecassis, do Director do Serviço de Pessoal, brigadeiro Braz de Oliveira, do Director de Serviço de Saúde, brigadeiro Lemos de Meneses, e outros oficiais.
Depois de ter passado revista à guarda de honra, comandada pelo capitão Sengo, o Secretário de Estado da Aeronáutica, acompanhado pelas individualidades presentes, dirigiu-se para a tribuna de honra.
A iniciar as cerimónias, usou da palavra o comandante da Unidade, coronel piloto aviador Brochado de Miranda que pronunciou o discurso que adiante publicamos.
Em seguida, o aspirante miliciano Elídio Martinez Paramés Fortes dirigiu uma exortação aos soldados alunos recrutas.
Procedeu-se depois ao acto solene do juramento perante a bandeira. A fórmula do juramento foi lida pelo 2º. Comandante da Unidade, tenente-coronel piloto aviador Vargas de Matos, que comandava as forças em parada.
JURO !
Em seguida, o Secretário de Estado da Aeronáutica e os Directores dos Serviços de Instrução e de Pessoal procederam à entrega de diplomas e prémios aos soldados alunos que mais se distinguiram, após o que as forças em parada desfilaram em continência.
Seguiu-se a demonstração de manejo de arma a pé firme e em marcha dos soldados dos cursos de oficiais e sargentos milicianos sob as ordens do tenente Máximo, tendo, logo após, feito a mesma demonstração os soldados alunos recrutas, sob a orientação do major para-quedista Calheiros.
A terminar, os soldados alunos recrutas fizeram demonstrações de treino físico militar e de luta individual, e disputaram jogos de voleibol e basquetebol. 
O comandante da B.A.2, coronel Brochado de Miranda, pronunciando o seu discurso.
Realiza-se hoje mais uma cerimónia de Juramento de Bandeira, facto que, com ligeiras alterações, se vem a repetir de quatro em quatro meses.
Poderá pensar-se que por este motivo havemos caído em formalidades de rotina. Tal não acontece, porém. É nossa constante preocupação que cada uma se desenrole com a maior perfeição, dignidade e solenidade, de forma a criar o ambiente próprio para que os graves termos do Juramento sejam pronunciados e ouvidos com a necessária seriedade.
Senhor Secretário de Estado – A presença de Vª. Exª, que mais uma vez se digna presidir a uma cerimónia como esta, é para nós motivo de muita satisfação pois que, além de exaltar a sua mais solene expressão, mostra-nos um estimulante interesse pelas nossas actividades. Em meu nome e no de todo o pessoal desta Base Aérea eu dirijo a Vª. Exª. as mais efusivas saudações.
Saúdo igualmente os Exmos. Senhores Directores de Serviços e Comandantes de Unidades cuja presença interpretamos também como uma manifestação de apreço pelo trabalho aqui produzido, o que nos revigora a vontade de prosseguir contra todas as dificuldades e contrariedades, que não são poucas, nem pequenas.
Perante V. Exª., estão 1517 homens, 469 dos quais são soldados recrutas. Destes, 60 destinam-se a pilotos de aviões e helicópteros e os restantes às diversas especialidades de operadores e mecânicos.
Banda da FAP - Maestro Silvério de Campos
O dia de hoje é para eles uma confirmação de liberdade e de responsabilidade. Quando se alistaram voluntariamente, com o assentimento paterno, passaram a ser inteiramente responsáveis pelos seus actos. Em plena função dessa responsabilidade, vão, dentro de breves momentos, perante a Bandeira Nacional e de todos nós aqui presentes, comprometer-se a cumprir obrigações que os ligam à Pátria e às Instituições Militares.
Compete à Base Aérea nº. 2 a ingente tarefa de instruir, através de cursos de formação ou de promoção, a quase totalidade do pessoal técnico da FA, dos quadros permanente e não permanente, bem como a preparação final dos pilotos que se destinam às Bases equipadas com aviões de caça de reacção.
Como é sabido, e sempre oportuno repetir, uma boa instrução infere a presença de instrutores bem qualificados – sabedores, entusiastas e sinceros – bem como de instalações e equipamentos adequados.
Uma boa instrução significa maior rendimento do trabalho, maior segurança, maios eficiência operacional.
Uma má instrução é causa de erros, insegurança, perda de vidas, destruição de material, desperdício, baixo rendimento.
Exibição de voleibol e demonstração de boxe
 A situação neste sector é bem conhecida pelo que me dispenso de quaisquer considerações. Quero simplesmente afirmar o interesse e o esforço desenvolvido pelas Sub-Unidades directamente responsáveis pela instrução, de cuja obra esta cerimónia é um ténue reflexo, que se tem aplicado com total dedicação e até sacrifício, a tirar o melhor rendimento dos meios humanos e materiais postos à sua disposição para cumprir programas superiormente determinados.
Familiares dos mancebos assistindo á cerimónia
Vão receber o diploma de fim de curso 282 soldados-alunos que terminaram cursos de formação de várias especialidades. Brevemente serão distribuídos pelas unidades da FA, na Metrópole e no Ultramar. Após 11 meses de instrução irão pôr em prática alguma coisa do que aprenderam e que é a base do muito que ainda terão de aprender.
De facto, aos militares exigem-se aptidões para o desempenho das tarefas mais variadas: pede-se-lhes que empunhem armas, que sacrifiquem a sua vida se necessário, que defendam a autoridade constituída, que sejam um modelo de virtudes, que cultivem o espírito, o intelecto e o vigor físico.
Só será pois verdadeiramente um militar aquele que assumir uma atitude mental permanentemente orientada no sentido do aperfeiçoamento.
Por outro lado, mesmo o mais individualista não pode esquecer que agora faz parte de um todo.
À palavra “Unidade” que frequentemente se usa para designar o estabelecimento onde o militar presta serviço, não perdeu a sua verdadeira significação etimológica. Unidade é coesão, sinónimo de força. Sá há coesão, onde houver disciplina. 
Os assistentes mais novos.
É esta uma das virtudes fundamentais que o militar deve cultivar e a que, por vezes, por ignorância ou má intenção se atribui o significado menos dignificante de obediência cega e despersonalizante.
Ora disciplina não é tal.
“É aceitação da hierarquia e da autoridade sem ideia de submissão ou humilhação”.
“É reconhecimento espontâneo e consciente da autoridade dos chefes sem excluir a mútua união, estima, compreensão e respeito”.
“É obediência a uma regra de comportamento, comum aos que fazem parte de uma corporação”.
A disciplina não mata a personalidade mas harmoniza os homens coordenando-lhes os esforços. Um militar disciplinado cumpre as ordens e os deveres que lhes impõe os regulamentos, ou as circunstâncias de ocasião, por ponto de honra, não com receio de castigo.
Sobre a juventude presente nesta parada irá recair, na altura própria, parte do esforço que se desenvolve no Ultramar.
Devo salientar-lhe, todavia, que não é verdadeiramente militar só porque fez um juramento, por mais solene, ou veste uma farda, por mais esplendorosa.
É necessário que cumpra o Juramento, em qualquer circunstância.
É necessário que dentro de cada uniforme esteja um homem que o saiba dignificar: pelo saber, pelas atitudes e pelos sacrifícios.

Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 133 – Maio 1970

Por:



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

HERÓI POR UM DIA

(ficção sobre factos reais)

Nunca em meses de comissão vacilara sobre o que me aconteceria se tivesse ido para outra especialidade ou ramo militar, se a minha passagem por África seria diferente, ou se me arrependeria de alguma coisa que tivesse feito, até àquele dia.
OPCs Costa e Aco - foto de JFMA
Estava novamente em Gago Coutinho com o Costa, a actividade militar atingia o zénite de um lado e outro da barricada os contendores procuravam infligir os maiores danos possíveis, e a guerra travava-se cada vez mais nas Lundas, Moxico e Cuando Cubango. Tinham-me pedido para tentar saber quando chegava a coluna do Luso, onde vinha um camião da FAP, com materiais para as obras do novo hangar para os Pumas.
Levantara-me às 05h30 zulo, mas a nossa rede estava "morta" (traduzindo) ainda ninguém respondia nas frequências.Na coluna vinha também pessoal do Exército para efectuar a rotação do Batalhão, ligara o emissor/receptor Racal TR-28, de origem Sul Africana que tinha as frequências do exército e as comuns aos três ramos militares, e fui fazendo buscas sucessivas até sintonizar o posto de rádio dos vizinhos do lado, a "diarreia verbal" do operador de serviço levou-me a baixar o volume e a ir pôr a frigideira ao lume para preparar o mata bicho composto de bife de songo com pão de véspera e Nocais frescas, lá pelo meio da manhã chegaria o "regulamentar" café aguado com leite em pó e uma carcaça com manteiga mais ou menos rançosa, trazidos pelo "Zé Manel", o nosso assalariado.
Passou o tempo ouvi alguém a chamar repetidamente por Coutinho no TR-28, resolvi responder mesmo sabendo que não era comigo, uma vez que aquela era uma frequência só utilizada pelo Exército, e confirmaram-se as minhas suspeitas, era a coluna. Informei-os , que se necessitassem de ajuda estaria à escuta e de que iria passar a informação ao Batalhão, assentei o indicativo fiz o telefonema e esqueci a coluna.
Saí do P.R.(posto de rádio) e fui espreitar a placa, a actividade àquela hora já era frenética,
Posto de rádio - foto de Rui Pires
os "metralhas" havia pessoal a dobrar para um "Siroco" que estava marcado para daí a dois dias, municiavam os quatro T-6, que iriam efectuar RVIS na área do destacamento, os mecânicos abasteciam e inspecionavam tudo. Chamei-lhes a atenção e manifestei a disponibilidade para testar os rádios e voltei para o meu "ninho". 

Passados minutos respondi aos vários contactos dos mecânicos para testar as frequências de aproximação dos aviões e héli, já se ouvia entretanto a betoneira a trabalhar no estaleiro da obra e resolvi ir avisar o Pita Grós do contacto, quando voltei subi os níveis das escutas e subitamente, o TR-28 começou a fervilhar com múltiplas entradas de emissores no ar, gente aos berros e a pedir socorro, num caos total, apercebi-me imediatamente de que a coluna estava debaixo de fogo, chamei pelo indicativo que obtivera e confirmava-se a minha suspeita, (estavam debaixo de fogo de morteiros e armas ligeiras, havia já dezenas de feridos e possivelmente mortos, a coluna progredia espalhada por quilómetros de extensão e quando uma das viaturas saiu da estrada para passarem a vau um pequeno rio, talvez por ser mais radical, e foi seguida por outras, uma delas atascou obrigando à imobilização das restantes, tinha sido por essas que começaram a cair os morteiros). 
Avisei o posto de rádio do Batalhão, e fui acordar os pilotos, aquilo ia sobrar para nós de certeza, imediatamente foi pedida autorização ao Secarleste, para descolarem dois T-6, que pudessem dar cobertura à vertical da coluna e obterem mais informações, quer sobre a necessidade de outros meios aéreos para eventuais evacuações que fossem necessárias, quer sobre o nosso transporte.
Picada Gago Cotinho/Ninda
- foto Armando Carvalho
Do Luso ZML (Zona Militar Leste) informaram que desconheciam qualquer ataque à coluna, do Secarleste e após confirmação nossa foi autorizada a descolagem dos T-6, que entretanto já estavam abastecidos e municiados, e do Héli, para a primeira das várias evacuações. 
Agora só quando eles estivessem à vertical é que perceberíamos a verdadeira dimensão do ataque e dos meios necessários. Liguei novamente para o Batalhão, para me porem em contacto com um dos médicos, para que me dissessem do que precisavam numa situação de excepção como aquela e fui aguardando o reporte dos T-6.
Entretanto, toda a gente se juntara no hangar a ouvir o desenrolar dos acontecimentos, através da instalação normalmente usada para ouvir música, quando chegou um dos médicos, para saber se já sabíamos alguma coisa, chamaram por mim, fui directo e conciso, havia um grande número de feridos e possivelmente mortos, o que é que eles precisavam que não tivessem no hospital, uma vez que viriam de certeza do Luso mais meios aéreos para as evacuações. 

Ele olhou-me com cara de espanto e respondeu: e como é que eu vou pedir seja o que for se ninguém sabe qual a situação real, e mesmo sabendo do que preciso, leva semanas a chegar cá! 
Respondi-lhe: estamos a perder tempo, escreva-me em maiúsculas num papel o que precisa de forma que eu consiga ler, e em cinco minutos no máximo, a lista está a caminho da ZML. Ele nem hesitou, sentou-se à mesa e passados minutos tinha uma lista de material que enviei "sob reserva" para a ZML, com informação ao Secarleste.
Finalmente dos T-6 à vertical da coluna, veio a confirmação do que menos queríamos
T6 á vertical de coluna
-foto de Gonçalo Carvalho
ouvir, (os soldados que vinham efectuar a rendição, com pouco mais de uma 
semana de comissão, vinham em tronco nu em cima dos transportes a apanhar sol, não vinham de armas em prontidão, e alguns nem sequer saltaram das viaturas, morreram sentados como vinham, existiam várias viaturas a arder junto duma ponte, tinha sido a cabeça da coluna que tinha sido atingida, como andava mais depressa, os veículos mais pesados tinham ficado para trás, como era o caso do nosso camião que nada sofrera, limitaram-se a sair da estrada e a procurarem abrigo na mata), nenhum dos pilotos conseguia contacto com o chão, nem se via qualquer actividade que indicasse para onde fugiram os atacantes, mas uma coisa era certa havia uma quantidade anormal de feridos sendo necessário outro héli, e um PV-2 ou mesmo um DC-3 para transportar os mais graves para o Luso.
Voltei a chamar a coluna indiquei-lhes o canal com que poderiam falar com os "milhafres" que tinham à vertical, e transmiti nova mensagem ZULO para o Secarleste, dando a localização exacta do ataque e confirmando o reforço de meios para evacuação dos feridos, primeiro para Coutinho e depois para o Luso, o héli de alerta ia descolar directamente para o local e um PV-2 com parte do material pedido iria descolar também, assim que fosse reunido o restante, um DC-3 viria fazer a evacuação final.
Com a chegada dos feridos, todos nós nos mobilizáramos para dispor combustível na placa, e para apoiar os mecânicos no que fosse necessário, a adrenalina estava no seu pico máximo, acabei por dar por mim, como toda a gente, a meter os braços por baixo de corpos mutilados, a apoiar membros quase decepados, a conter as entranhas de corpos que não faziam sentido, tudo sem me importar com o sangue e outros fluidos e sem perceber o porquê daquela barbárie, a maior parte deles nem barba tinha, recém desembarcados, nem ao destino tinham chegado e já tinham infelizmente muito que contar. 
Eram miúdos como eu, e os seus olhares de medo e espanto pelo que lhes tinha acontecido dizia tudo e não explicava nada; a triagem era feita na placa, os que tinham tratamento, seguiam em macas improvisadas para o hospital, os outros eram encharcados em morfina e ficavam logo ali, num canto da placa, gemendo e implorando que os salvassem. 
Ao passar junto de um deles, ouvi chamar pelo meu nome, olhei e vi um Furriel chamado Henriques, que tinha andado comigo a estudar, cheguei-me a ele e ouvi o seu lamento, (não me deixem morrer, eu prometi à minha mãe que voltava), enchi-me de coragem e confirmei-lhe tem calma pá ainda não é desta que vais morrer, isso são só uns arranhões, segurei-lhe as mãos e senti que os seus dedos pouco a pouco faziam cada vez menos força nos meus, chamei um dos maqueiros e ele de passagem confirmou-me o que suspeitava, mas recusava aceitar, não posso perder tempo com esses, há outros que ainda se podem salvar, fiquei ali, com as mãos dele nas minhas, até chegarem os menos sortudos, transportados em sacos pretos.
Uma raiva incontida toldou-me a visão, e um véu colérico, vermelho da cor do pó e do sangue já seco nas poças dos que tombaram, cobriu-me os olhos e passei-me completamente, cruzei-lhe os braços sobre o tronco e de forma solene mas inconsciente prometi que vingaria a sua morte. 
Fora de mim corri à camarata com as lágrimas a sulcarem-me o rosto, quando voltei, de camuflado e armado até aos dentes, toda a gente me olhou espantada, eu que era o menos guerreiro do destacamento, exigi que me deixassem ir no primeiro héli com os militares que fariam o corte de retirada aos cabrões, que tinham cobardemente efectuado o ataque à coluna. 
Felizmente que me chamaram à razão e ninguém me deixou ir, naquele dia teria tomado com certeza as piores decisões de que me arrependeria possivelmente para o resto da minha vida.
No final do alvoroço, o Secarleste, entretanto chegado, mandou reunir o pessoal no hangar, e dirigindo-se ao Alferes Piloto que comandava o destacamento perguntou: como é que nós tínhamos conseguido o milagre de ter pedido os apoios e meios praticamente na hora que o ataque aconteceu, evitando a morte de muitos dos feridos? O Alferes, que entre nós era carinhosamente conhecido como o mais sorna de todos, mas um piloto e sobretudo um homem excepcional, retorquiu, é para que eles saibam que enquanto eu estiver no comando do aeródromo a guerra é para ser levada a sério. 
Toda a gente se riu com a saída dele, mas respondendo directamente ao Secarleste, apontando para os dois OPC'S informou: o mérito é deles, foram eles que avisaram até o Exército, como o conseguiram, não sei mas eles foram os heróis. O Costa, respondeu, eu não fiz nada nem era eu que estava de serviço, o herói é ele. Meti-me na conversa para dizer: que o dia de hoje nos sirva a todos de lição, quando acham que eu sou arrogante a correr com os que invadem um espaço que tem de ser de trabalho e atenção constante e não de conversa e distração, faço-o para que quando alguém, no ar ou em terra, peça ajuda, tenha a certeza que é ouvido e serão tomadas as decisões necessárias à resolução de qualquer situação.
Grande actividade no AR 
- foto de Afonso Palma
No dia seguinte, antecipado o Siroco, chegaram um Nordatlas com os Paras, os Alouette III, e os Pumas, nossos e dos "Primos", que em cooperação com os Flechas e Exército, levaram a cabo a maior e mais bem sucedida operação a que se assistiu na zona de Gago Coutinho, com a destruição de um vasto complexo de apoios, paióis, um hospital de campanha, vários abrigos, a libertação de elementos da população civil utilizados como transportadores e pisteiros, entre os detidos um alto cargo referenciado como dissidente do MPLA e que posteriormente foi utilizado na contra propaganda, numa Rádio que transmitia para o interior e exterior do território, diverso armamento, incluindo uma curiosa mini antiaérea, a destruição de diversas lavras e pirogas, mas sobretudo com esta operação começou o declínio da capacidade do MPLA, de agir como até ali, tomando a iniciativa.
Acabado o destacamento voltei ao Luso, ao regressar ao posto de rádio, mostraram-me uma mensagem originada conjuntamente pela ZML e Secarleste, propondo ao Comandante Militar da Província o louvor da guarnição do AR de Gago Coutinho, pela determinação atempada na resposta ao ataque à coluna Luso-Gago Coutinho, e no exemplar desempenho na coordenação das posteriores operações de evacuação de todos os feridos, de retaliação, limpeza e desactivação dos meios de apoio na zona de acção do destacamento.

Gago Coutinho, 1972.

OPC ACO 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

40º. ENCONTRO DE ESPECIALISTAS DO AB4


Sábado, 14 de Novembro, das 11:30 ás 18:30 h 
No Espaço Leça Marina - Av. da Liberdade - Leça da Palmeira
GPS: Latitude (41.11' 18'' N) Longitude (8.42' 12'' W

Amigos, cá estamos para mais um Encontro!

Este ano é no Norte, mais concretamente no Concelho de Matosinhos, junto ao porto de Leixões, no Espaço Leça Marina (ELM), situado à entrada da Marina de Leixões, na Av. da Liberdade (GPS Latitude 41.11’18’’N Longitude 8.42’12’’W), em Leça da Palmeira, Porto, Portugal.
Como sempre, esperamos contar com a vossa presença, bem como das “avionetas” e de quem mais quiserem trazer. Serão todos bem-vindos, só têm que confirmar até 31 de Outubro, para

Fernando Chanana 917631596 fernandochanana@hotmail.com

PROGRAMA:
Recepção dos companheiros
11.30 – Buffet de entradas variadas
13.00 – Almoço : 
- Filetes de pescada com salada russa
- Corta-sabores de limão
- Miminhos com bacon, batata de forno, arroz, legumes e feijão preto
Sobremesa: - Rabanadas
- Mousse de chocolate
- Leite-creme
- Salada de fruta
Café e digestivos
16.00 – Animação musical
18.00 – Praxes e distribuição de lembrança alusiva 
18.30 – Mesa regional para lanche 
(Durante o Evento serão servidos: água, refrigerantes, sangria, vinhos tintos e brancos)
Encerramento
- Corte de bolo
- Elaboração de Acta, leitura e assinatura da mesma
- Eleição de responsáveis para o Encontro de 2016 (41º)

Valor por pessoa: 30€

Ao chegares a este local, devidamente identificado na foto, lado norte do porto de Leixões, vira à esquerda para o parque.
Junto à barreira, encontra-se um elemento, a quem deves mostrar esta folha, que deverás imprimir, e que te vai permitir a abertura da cancela.
Caso haja alguma dúvida, ligas ao Chanana (91 763 15 96)