sexta-feira, 29 de novembro de 2013

CONVERSAS NA CIDADE Nº.7



Nota Introdutória

Longas tardes se passaram naquela piscina, local de encontro deste povo citadino Saurimense. Aprazível para residentes e para os “migrantes” ocasionais. Soldadesca esverdeada e azulada conviviam com os civis numa camaradagem ímpar. Assim se vivia o clima de guerra por terras africanas!... 
Marrador - Depois deste duo acrobata ter passado um bom fim-de-semana na capital da Lunda…Depois de tanto entretenimento faustoso e gabarola….Havia que recolher ao casulo, à caserna militar. A “Base” distava poucos quilómetros, mas à pata, ninguém se sujeitava! Vamos desengatilhar o amuo dos artistas!...
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VITO – A caminho da toca?
JOCA – Toca…toca!... Já tinhas saudades?
VITO – Tinha, e não tinha! Há que deixar passar o tempo de comissão. Não há outra alternativa!...
JOCA – Deixa, não te lamentes. Goza esta boleia a caminho do A.B.4.
VITO – Boleia? Olha, os mangalas estão à nossa espera no meio da picada?!
JOCA – Chiuuu! Estão à espera do sanzaleiro!... Aproveitemos a Mercedes.
VITO – Pois, é melhor esta carreta da FAP do que ir a pé como o Cibrão e o Zé Soares.
JOCA – Foram a pé?
VITO – Sim, perderam o transporte e tiveram que caminhar sete quilómetros pela noite fora. Apanharam um “cagaço” que juraram não andarem mais pelas salas de visita da cidade. Quem se mete em atalhos, mete-se em “taralhos”…lá diz o ditado.
JOCA – “Taralhos”!... sempre com a boa educação na ponta, na ponta da língua!...
VITO – Cuidado!...Cu…Cu…Cuidado, “aprochega-se” o arame farpado!...
JOCA – “Induka”!... Parece-me que estão todos à nossa espera!...
VITO – Bruxo!…Deve ser por causa dos sanzaleiros!... Algum soba se queixou com o assalto às suas concubinas.

Marrador – Já dentro do arame farpado, os “chamuanzas” vaidosos no seu estilo continuavam no palreio. Queixavam-se, mas no fundo, até havia condição aceitável para passar o tempo de forma menos enfadonha. Sempre havia o cinema no velho Hangar, confraternizações acerbadas, petiscos no Bar e nas Secções de trabalho, tocatas recatadas, praxes de maçaricos, Carnavais, Passagens de Anos, Aniversários, jogos, leituras descansadas, circuitos de “kingas”, caçadas, recordações familiares e amorosas e captação de fotos sobre a juventude galã e…das savanas guerreiras. Mas mais do que palavras, O VITO e o JOCA vão “botar” umas fotos que farão recordar as vivências de outrora. Resumo dos seus actos em terras de negridão. Recordações até ao último sopro!... Puxem pela “cachimónia”.
JOCA – Bem, regressámos ao A.B.4, regressámos aos nossos afazeres repetitivos…
VITO – Sim. Mas amanhã é diferente. Temos um aniversário dentro do nosso grupo. Haverá mais calor humano! Cuca à fartazana!...
JOCA – Aniversários, convívios, distracção!... Não fosse isso, morreríamos de tédio, saudade, tristeza e apanágio!
VITO – Acalma-te meu! O tempo é passageiro. Um dia, quando as galinhas tiverem dentes…irás gostar de recordar estas passagens pelo Continente Mistério!...
JOCA – Até lá,… tenho que pôr a escrita em dia. Devo dar notícias à família, e quero saber as novidades do “puto”, também.

VITO – Notícias, nostalgia do longínquo jardim à beira mar plantado! Queres é namoriscar a tua catraia… Piu, piu, piu…
JOCA – Sempre se anima ao ler uma cartita feminina!... Depois, os velhotes, família, e amigos que nos esperam para reactivarmos a vida caseira!... Enfim, muita coisa tem mudado enquanto permanecemos por estas bandas, no cú de judas!
VITO – Eh!... Tens razão! Mas olha! Olha que a nossa camarata é o nosso albergue! Muitas lágrimas choradas no silêncio!... O que nos vale são os laços de amizade. União de todos numa missão idêntica. Aguardar, gastando esta fatia temporal da nossa juventude.
JOCA – Aguardar pacientemente! 
VITO – Matar o tempo!...
JOCA – Não tanto assim, mas quase!... Temos jogos, diversão diversa. Não andamos na guerra tal e qual o exército. Há calmaria nesta zona!...
VITO – Sim, ainda nos damos ao “luxo” de podermos ler um livro, revista ou, jornal, de forma descontraída, sem ter que ouvir os tiros da guerra.
JOCA – Temos biblioteca, temos um ringue para desportos. Pratica-se quase de tudo e temos torneios pela Província.
VITO – Somos uns campeões!... Futebol de salão, andebol de sete, e que mais!...

JOCA – Encaramos esta estadia como um emprego se tratasse, como emigrantes, deslocados. Uns, trabalham na Esquadrilha de Abastecimento. Outros, no Hangar, na reparação de aviões, e outros, na Torre de Controlo, tipo vigia. “Tá-ri-táris”, “rum-runs”, Meteos, e que mais!...
VITO – Sim, no fundo até há actividades interessantes!... A mim, calhou-me a especialidade de falar para o ar, mas gostava mais de ter sido pilotaço!...
JOCA – Voa, voa…em sonhos! Todas as especialidades são bonitas. Até a de enfermaria para podermos dar umas injecções às garinas.

VITO – Uihhh…Uih…Mete o “xico”.
JOCA – Aqui? Isso é coisa que se mete no “quimbo”. E, com cuidado!...
VITO – Logo à noite, como é que é? Vais jogar ao bingo?
JOCA – Nãoooo!... Vou escrever, descansar, e ouvir uma musiquinha do aparelho do Quim.
VITO – Também me acho um pouco amolecido. Talvez siga o teu exemplo. Amanhã terei uma jogata de futebol de salão com o pessoal…
JOCA – Mas há outro torneio em disputa?! Ouvi falar o nosso Paulus que iria estar de serviço na arbitragem.
VITO – Sim, parece-me que temos exercício aplicado nas arenas da bola.
JOCA – Esta semana será agitada. Além do aniversário do Russo, teremos um belo filme no Hangar. “A filha de Ryan”, com os célebres actores Robert Mitchum, Trevor Howard e Sarah Miles. Enfim, um drama dirigido por David Lean.
VITO – Eh pá!... Não posso perder essa película. Compra já “two tickets four nous”. 
JOCA – Os bilhetes?!... compro mais logo. E pensando melhor, antes de irmos para as palhinhas fofas…vamos visitar o “Camone” à pildra. Ele fica contente, faz-se-lhe um pouco de companhia, anima-se e fumaremos o cachimbo da paz nesta quadra festiva do Natal que se aproxima.
VITO – Vou nessa. Afinal, também é “especial”, e o que fez não foi crime nenhum!...
JOCA – Para animar, até podíamos seguidamente ver as árvores de Natal, lá no Clube. Por certo, já devem estar preparadas a rigor.
VITO – Queres é ouvir um fadito e mamar uma Cuca!...
JOCA – Terminar o dia em beleza…
VITO – Mas…sem demoras. O galo canta cedo!....
JOCA – Ok. OK. Meu!
Nota Final: Estes sete temas narrados nas “Conversas na cidade” foram o apetrecho para fazerem lembrar os tempos passados no Leste de Angola. Quarenta e poucos anos já cá cantam!...Outros tantos, não diremos! Foi feita a triangulação do A.B.4, cidade, quedas do Chikapa – de forma aligeirada. Alguns ditotes da época, alguma prosa em Quiouco, malandrice camuflada!... Na altura, houve momentos de profunda tristeza porém, hoje, recordamos com saudade essa juventude atribulada. É bom reviver esse passado! Foi bom ter reencontrado muitos de vós. Haja saúde para continuarmos alegres e participantes por mais alguns anos. Até breve. 

O amigo e  companheiro:

2 comentários:

  1. Só um "toque" sem ser de clarim! Antes do Início houve o "INÁCIO" sem ser o de Loyola. Podemos chamar-lhe o "Prefácio" e aí entram Jacarés e outros que tais, sem bandeiras esfarrapadas a "cobrirem" ELEFANTES BRANCOS. Noutras alturas iam aprumadas no topo do mastro mas ...eram outros tempos e outros ventos! Tenho um LOUVOR, o que mais valorizo, que fala no AB4 e no tempo do "PREFÁCIO". Fui sacá-lo ao Arquivo Histórico do Exército porque a minha Tulha não arquiva tudo. Um dia será Oferecido para que entre nos caboucos, e até pode ficar "enterrado", como ficaram parte das coisas que o Pel AA 55 conseguiu fazer para cumprir a sua missão na defesa do AB4 se para tal fosse necessário.

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