sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O AJAX * - PERCY SLEDGE

O ruído, foi-se instalando espraiando-se em círculos concêntricos ocupando primeiro a placa civil, depois a aerogare, por fim a placa militar e os hangares, penetrando em todos os espaços.
Aerogare do aeródromo do Luso
Não era um ruído normal num destacamento militar, não era o tom, nem o timbre, nem o volume que mais destoavam, era o seu conteúdo, composto pelos risos e gritos nervosos de gargantas muito jovens maioritariamente femininas, o espanto do insólito da situação foi tomando de assalto todos os departamentos da Unidade e finalmente chegou ao interior do posto de rádio.
Passados quarenta anos não consigo precisar o mês e o dia, foi no início de 1973, estava de serviço e encaminhava-me para a placa para apanhar sol e desanuviar a cabeça, depois de mais de quatro horas fechado no espaço limitado do “cofre” assim chamávamos à zona restrita onde se processava o arquivo, registo e tratamento de todo o tráfego de mensagens cifradas, a tentar decifrar uma mensagem que dava sistematicamente um erro indecifrável. 
Era uma situação comum e até desafiante, que por vezes não obrigava à repetição de toda mensagem grupo a grupo, letra a letra, mas existiam excepções como era o caso e desisti de resolver o problema, e enquanto Carvalho não voltasse a transmitir tudo a partir do grupo que dava erro, estava por minha conta.
Assim que saí do interior do “cofre” comecei a ouvir a algazarra, enquanto percorria o estreito corredor até ao hangar, o volume aumentava desmesuradamente, proveniente da zona civil da placa, fui espreitar e para meu espanto dezenas de miúdas do liceu enchiam o espaço em frente do edifício da aerogare numa agitação frenética, perguntei ao pessoal que entretanto se juntara e ninguém sabia o porquê do mulherio e da animação.

Voltei ao posto de rádio e perguntei ao Vieira que era o nosso controlador, se sabia de alguma chegada de algum avião civil fora do normal, ele resolveu perguntar ao controle civil e eles informaram que esperavam um voo particular vindo da Zâmbia para uma escala técnica por avaria.
Era no mínimo estranho, mas desliguei do assunto, mais tarde entrou um dos operadores dizendo que estava um jacto particular na placa com as miúdas todas aos gritos e a desmaiar num ataque geral de histeria que não dava para acreditar, voltei ao hangar e à placa e as coisas não estavam fáceis para os responsáveis pela segurança da placa. 
 

Percy Sledge, em foto
promocional da sua
digressão Africana
Pela instalação sonora começaram entretanto a transmitir uma música bastante conhecida “WHEN A MAN LOVES A WOMAN” quando a porta do avião se abriu e surgiu um sujeito todo vestido de negro, com um chapéu-de-sol branco, cobrindo um outro negro, vestido todo de branco, bota de tacão altíssimo, calça, camisa, colete e gibão e um chapéu de aba larga de feltro “adivinhem a cor”... branco!
As miúdas que não desmaiaram correram em direcção às escadas do avião, dando-se um movimento contrário dos passageiros; pela instalação, cortada a música, avisaram que se não recuassem para os limites de segurança, evacuavam a placa, e o “Sr. PERCY SLEDGE” não saía do avião... Instalado o impasse, perguntei ao Vilhete, que era Guineense se sabia quem era o “AJAX”, mas ele desconhecia a personagem, a minha cultura musical dava para reconhecer os nomes



Capa do Disco igual 
para toda a digressão.
de “OTIS REDING, WILSON PICKETT, JAMES BROWN, RAY CHARLES, AREHTA FRANKLIN” mas deste nunca tinha ouvido falar, e não percebi o porquê do desatino, afinal o homem media para aí um metro e sessenta, era feio como uma noite de trovoada, e devia estar tão pedrado que tinham que o apoiar para andar e nem conseguiria certamente ouvir o mulherio.
Após quarenta minutos, o avião descolou rumo a Luanda, onde o cantor iria actuar, enquanto as miúdas continuavam a gritar e a desmaiar na placa, depois de o avião descolar, cada um voltou ao seu serviço e rapidamente a fugaz passagem do AJAX, qual cometa, passou a fazer parte das histórias pitorescas do aeródromo, só anos mais tarde vim efectivamente a perceber quem era e a importância da distinta personagem, daí ter vários discos dele incluindo o da "tal" digressão Africana.


(* AJAX, personagem da Mitologia Grega e neste caso de um anúncio televisivo dos anos 60, simbolizando um cavaleiro medieval todo de branco montado num cavalo branco, com uma banda sonora que passava a mensagem "o mais poderoso! " como promoção de um detergente com a marca AJAX...)

Luso, 1973
Por:
OPC ACO


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

REPÓRTER FOTOGRÁFICO

E mais uma vez na procura de temas relacionados com a FAP por este pequeno Portugal.
As fotos são o nosso cartão de visita para quem vê um Blog de recordações e, veio ter ás nossas mãos mais uma foto muito interessante que, para alguns, será uma recordação e para outros o orgulho de terem pertencido a um grupo tão grande, a FAP.
GDACI Esquadra 13 - Seia Edifício do Comando
Enviado por João Saraiva

Assim espero que os nossos companheiros continuem à procura de monumentos, placas, azulejos, e outros relacionados com a FAP.
Desejamos que tenham um bom fim-de-semana na companhia do vossos familiares.
Recebam um especial abraço dos editores e especialistas do AB4.
P´los Editores
Rui Neves

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

CHEGADA A LUANDA

Luanda, 23 de Março de 1970, pelas 06h00.
Aquele avião de carga ( DC6 ) de que não me recordo a matricula, tinha acabado de aterrar em terra africana, Angola.
Ao abrirem a porta, uma lufada de ar quente fez-me quase de imediato transpirar.
Quando saímos de Portugal (puto) fazia frio, por isso vínhamos, penso que todos, mais ou menos agasalhados por isso, lá estávamos eu de farda amarela, todo bem-parecido com camisa de manga comprida, gravata e dólmen a condizer. Até parecíamos todos, (os Especialistas) gente importante. Realmente a nossa farda era bonita, chamava a atenção e isso enchia-nos de orgulho e vaidade poder usá-la, mas aquele momento preferia ter apenas uma camisa de manga curta, sem mais nada por cima...teria sido agradável.Tal como todos, desci a escada, e pisei solo de Angola (já pela 2ª.vez), já lá tinha estado muitos anos atrás, com os meus pais, vindos de Moçambique. Era ainda um miúdo com apenas dez anos, na minha primeira passagem, mas o cheiro, aquele cheiro característico da terra africana, senti quase de imediato, como se nunca de África tivesse saído. Esta coisa de sentir o cheiro da terra, que contamos tanta vez, a tantos que nunca lá estiveram e não acreditam, é verdade, sente-se mesmo os cheiros, os sons, os sentidos ficam mais apurados.
Entretanto lá nos meteram no autocarro da Base, e fomos para aquela que seria a minha 1ª. experiência de homem livre e preso ao mesmo tempo, aquela que seria a minha casa durante alguns dias, BA9.
Chegado à Base fui apresentar-me à Esquadra de Pessoal. Lá disseram-me que o processo de colocação levava pelo menos uma semana, pelo que estaria livre, mas tendo de apresentar-me sempre na Base (E.P.) todos os dias, para quaisquer notícias sobre a minha colocação.
Depois de me ter sido dado local de alojamento, a primeira coisa que fiz foi tomar banho.
Ainda não tinha chegado ao quarto e já estava outra vez, com o corpo pegajoso tal era o grau de humidade. Cheguei a deitar-me em lençóis molhados, tal era o desconforto do corpo naquele ambiente. Apenas se estava bem num ambiente com ar condicionado caso do nosso clube.
Logo nesse primeiro dia, fui abordado por vários camaradas da especialidade, tentando convencer-me que o “bom” era ficar Luanda. Houve alguns “especiais “que me tentavam com a Esquadra 94. Que era a melhor de Angola, blá.. blá ..blá.. e eu sem ter qualquer  voto na matéria, (lá os ia ouvindo ) e bem que  gostaria, pois parecia-me que seria bom ficar por ali.
Cidade bonita com uma bela baía, muitas esplanadas, sol, praia e muitas miúdas giras, pretas, mulatas, brancas. Claro que logo por isso, era suficiente para ficar apaixonado e acreditar que ali é que eu estaria bem.

Neste entretantos de boa vida vi algumas coisas que me chamaram a atenção de forma muito particular e ao mesmo tempo intrigante. Há imagens que não nos saem da memória e estas são algumas delas.
Certo dia vejo um Especialista dirigir-se para a Porta d Armas, com o “ar" mais desmazelado que já vira, pelo que fiquei na expectativa do que se iria passar quando a sentinela o visse.
Já tinha visto por várias vezes que todos os que saiam da base, quase se apresentavam à sentinela de serviço, este cumprimenta-os, e depois saíam. Até o Comandante, quando fardado, vi sair do carro, o que me surpreendeu muito tal atitude, pois para mim tal era impensável nas outras bases por onde andei.
Voltando ao Especialista, tomei atenção ao seu porte “aéreo” e não queria acreditar no estava a ver. Boné com a pala quase a meio da cabeça, (à reguila), os sapatos a fazerem flap,..flap,..flap,.. ou seja, as solas estavam partidas ou descoladas e um deles, na biqueira tinha um arame de frenar a segurar a sola.
Na maior das calmas aproxima-se da Porta d’Armas passa pela mesma sem que alguém, o sentinela PA o tivesse “visto”.
Não dava para acreditar!
Claro que fiz conversa disto com uns tantos camaradas, mostrando-lhes o quanto incrédulo estava e sem perceber o porquê daquele procedimento.
A resposta veio curta e seca;  ó pá, era um “gajo” do AB4 de certeza. É tudo pessoal “cacimbado”, não ligam nenhum a isto, é pessoal que não “bate “certo....
Depois desta informação fiz tudo para ficar na BA9.
No dia 27 de Março apenas quatro dias de estar em Luanda, tive guia de marcha......
AB4 em Henrique de Carvalho.

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sexta-feira, 25 de julho de 2014

O BAR AMERICANO DE GAGO COUTINHO.

Tirar fotografias “para mais tarde recordar”, era um dos clássicos passatempos a que nos entregávamos apaixonadamente, o reverso é que nos destacamentos mais isolados não havia nenhuma possibilidade de revelar e imprimir as tão desejadas fotos, e na maior parte dos casos os negativos perdiam qualidade.
Em Gago Coutinho, existia um fotógrafo que supria essa falta, mas a qualidade dos banhos “revelador e fixador”, para não falar mal do “fotógrafo”, deveriam ser muito deficientes pois passado pouco tempo as fotos desapareciam ou ficavam sem qualquer qualidade. 
Numa dessas idas à vila para fazer algumas compras e ver se revelava um rolo, fomos no camião das obras aproveitando a ida do mesmo ao rio Nhengo, para carregar areia. 
Na volta, resolvemos ir beber umas cervejas e o condutor, o 1º. cabo Lamares, levou-nos directos ao “Bar Americano”. Não me perguntem o porquê do nome pomposo para uma construção com quatro pilares, um telhado de chapas de zinco, e paredes formadas por grades de cerveja, sem porta ou cadeiras, mas com muitas “mininas” muita confusão e música “autóctone” acima dos decibéis recomendados por um qualquer otorrinolaringologista. 
Entrámos animados, sob o olhar guloso das presentes, e da luz esfuziante do exterior, passámos a uma penumbra amarelada e poeirenta, coada pelas garrafas vazias das grades das paredes, e provocada pelo bater dos pés descalços na terra batida do interior. Num dos cantos um balcão com um branco entroncado, a atirar para o barrigudo, careca, com uma camisola interior de alças outrora branca, que nos perguntou o que queríamos beber. 
Pedimos Nocais, e ele virou-se para uma arca que tinha por detrás, retirou as cervejas e uma a uma foi retirando as caricas não de qualquer forma conhecida, mas apanhando o rebordo rugoso com as falanges das articulações dos dedos médio e anelar da mão direita, depois de tirar as caricas, voltou a colocá-las entre os mesmos dedos e dobrou-as ao meio e ainda não satisfeito voltou a repetir a operação e a dobrá-las novamente, atirando-as por cima do ombro direito para uma pilha existente ao lado da arca no chão de terra batida. 
Tudo sem aparentar o mínimo esforço ou desconforto, olhando-nos nos olhos e atirando num tom neutro, “mais alguma coisa”? Os nossos olhos estavam pregados naqueles dois trambolhos, calosamente deformados por anos de maus tratos, só me ocorreu perguntar-lhe onde poderia comprar tabaco, sem me responder, apontou uma porta interior que dava para uma “quitanda” comum em todas as povoações do leste de Angola onde se vendia de tudo. 
Levei a Nocal comigo, não ia meter a boca no gargalo de uma garrafa afagado por uma mão daquelas, e de caminho entornei alguma da cerveja e limpei o gargalo na fralda da camisa, cruzei a porta e o cheiro mudou do perfume barato das "mininas", para o de peixe seco e outras iguarias, olhei em volta deslumbrado, do chão até ao tecto, pilhas de alguidares de plástico, peças de fazenda, ferramentas e sacas com os mais variados cereais e leguminosas enchiam todo o espaço visível, passei os olhos pelas prateleiras mais altas, e num canto mais escuro e distante, dois vultos chamaram-me a atenção, o meu coração disparou e aproximei-me curioso, aquelas latas vermelhas com desenhos e letras douradas, eram exactamente iguais às da fábrica “Dominguez & Dominguez”, da minha terra adoptiva, a Golegã. 
Agarrei num escadote e com o coração aos pulos trepei na ânsia de não me ter enganado, como é que era possível, duas latas de cinco quilos cada, do melhor pimentão que se fabricava no Ribatejo, estarem ali, no “cu de judas” à minha espera, desci com os olhos marejados de lágrimas, mais carregado que subira, e perguntei ao espantado moleque que estava atrás do balcão quanto era pelas duas latas, ele não sabia e berrei-lhe “vai perguntar ao patrão, molenga!” como ele demorasse, atravessei novamente a porta de ligação com uma lata debaixo de cada braço, na certeza que dali já não sairiam. O careca, olhou-me com o mesmo ar de espanto com que eu assistira ao retirar das caricas das Nocais, e atirei-lhe por cima da música, quanto custam as duas latas? 
Ele balbuciou, não sei! Tenho de procurar a lista dos preços que o antigo dono tinha quando lhe comprei o negócio, e não sei se a vou encontrar. Não desisti, aproximei-me ainda mais do balcão e disse-lhe: olhe amigo, a fábrica que faz esta preciosidade é ao fim da minha rua lá na terrinha, se verificar no fundo da lata, terá a data de validade e o preço recomendado, e enquanto falava, virei uma das latas em cima do balcão e terminei, dou-lhe o dobro do que lá estiver escrito. 
Ele olhou-me nos olhos e retorquiu, são suas, quando fizerem um churrasco, convidem-me e ficamos pagos, demos um aperto de mãos e viemos embora rapidamente, esquecendo a música e as “mininas”, não fosse o fulano mudar de ideias e eu ter de devolver as minhas queridas latas de pimentão, que iriam fazer as delícias do meu amigo civil, Eduardo Pita-Groz. 
Dali em diante tudo o que fosse comida, levaria pimentão, da sopa à sobremesa...


Gago Coutinho 1973
OPC ACO

sexta-feira, 18 de julho de 2014

ÁLVARO BARROSO - A CAMINHO DO AB4


Depois de dezanove meses de serviço militar, e quando nada o fazia esperar (há explicação para tal, mas não vem agora ao caso), eis que na Ordem de Serviço da BA 1 – Sintra, sai a minha nomeação para o AB 4 – Henrique de Carvalho – Angola.
As datas eram bem definidas e tinha duas semanas para tratar de tudo, desde a despedida da família (que estava a mais de 400 Km, entre ida e volta) até ao desquite, na unidade e o recebimento do fardamento para o Ultramar.
Na BA 1, não tinha recebido qualquer tipo de fardamento, mas sim na recruta na BA 2 –Ota, e nem todo ele novo (a estrear), mas quando do “famigerado” desquite, toca a pagar pelo uso que não tinha dado, desde as botas que eram para 26 meses (mas que agora o Sarg. Avaliador) dizia que nem para um mês davam, até aos lenços que não me assoei, tive que pagar. Como isto fosse pouco, ainda havia que passar por todas as Secções, Serviços, Secretarias e Bares (de Praças, Sargentos e Oficias, como se lá tivéssemos entrada, pois que era Cabo Especialista/praça), em como não tínhamos dividas.         
Posto estas primeiras “aventuras“ e para encurtar, pois que mais haveria para dizer, estava pronto para embarcar, mas não de avião como seria suposto uma vez que servia a Força Aérea, mas sim de barco, no Vera Cruz.

Maio de 1967, Cais de Rocha de Conde de Óbidos, sozinho e sem ninguém para dizer um adeus (mas com algumas centenas de homens do Exército que formavam Companhias/Batalhões ) e alguns poucos companheiros da Força Aérea, em que só conhecia UM.
Este (UM) tinha feito os Cursos comigo e tinha vindo de Angola (onde tinha toda a família ) fazer o serviço militar na F.A.. Grande AMIGO e COMPANHEIRO que foi quem me deu grande apoio e ânimo para aquela viagem até África, que ele tão bem conhecia.
A viagem no que respeita a termos meteorológicos, até decorreu bem com mar calmo e céu limpo, mas já o mesmo não aconteceu no que diz respeito a alojamentos e alimentação. Como Praças que éramos, lá fomos instalados num beliche lá bem no fundo do navio, que tinha todos os espaços (corredores) ocupados com camas duplas de r/c e 1º andar, tal como no beliche, pois que quantos mais coubessem, melhor seria.
Com tanta gente a bordo, para o qual o navio não tinha sido construído é de prever o que acontecia com as casas de banho, com uma piscina (tanque em madeira) forrado com uma tela impermeável, colocada na popa (ré) do navio. Pois bem, no meio de todo aquele pessoal encontravam-se militares que da semana de campo (treino que faziam para embarcar para África) seguiram para bordo, e ainda traziam lama nos calções da preparação física, e que seriam os mesmos que iriam servir de fato de banho para irem para a piscina. 
Escusado será dizer, que passados poucos minutos de a piscina ser lavada, e cheia de água limpa, estava toda turva e imprópria. Nunca lá me meti, mas numa noite (de dia não era possível) e quando o calor já era muito a anunciar a proximidade de África, fui para a piscina dos oficiais, pois que viajavam em 1ª classe e os sargentos em 2ª . Na 3ª classe, a das praças, via-se de tudo, desde o urinar para o chão até obrar para a bacia das limpezas da referida zona.     E assim se foram passando os 11 onze dias de viagem, mas quando na noite de véspera da entrada do navio na baía de Luanda, este desliga uma das hélices e adorna para um dos lados, nem vos passa pela cabeça, o que eram aqueles corredores, cheios de líquidos…

Finalmente Luanda, cidade lindíssima e com uma baía, uma ilha e uma marginal espectaculares, mas muito, muito quente.

Ainda não bem refeito de todas as peripécias da viagem (porque foram mais que as anteriormente descritas), eis outro problema pela frente o calor, com a sede que ele provoca, a transpiração e a necessidade de roupa leve.
Qual quê, nada disso: ainda dentro do navio, tínhamos sido avisados de que tínhamos que sair fardados com o uniforme de 1ª ; “ Dólmen, Camisa e Gravata, etc. “ para apresentação na Região Aérea.
Apresentação feita e envio para a BA 9 - Luanda, para camarata pré-fabricada em metal, em que o calor ainda era superior ao do exterior. Tomávamos banho e em seguida, a transpiração era superior à anterior ao banho, e sem ser necessário enxugar a água- Vou-me desfazer com “em suor”, e vou desaparecer para sempre……- Calma “ irmão “ , dizia-me o UM – para onde vamos, Henrique de Carvalho – AB 4, tem um clima muito idêntico ao da Metrópole.Por ali ficámos mais uns dias, aguardando o NordAtlas que nos levaria ao destino.O dia chegou e o destino também, e uma Família desconhecida nos esperava.FAMÍLIA essa, que ainda hoje se reúne e que com SAUDADE, AMIZADE e que com um ESPIRITO FRATERNO, recorda essas histórias...“ os CHAMUANZAS “
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quinta-feira, 10 de julho de 2014

O DOVE CR-LKE

 Posição do CR-LKE após aterragem de barriga
De todos os aviões civis e militares que controlei, o CR-LKE, foi o que mais recordações me deixou, quer no Cazombo, em Neriquinha , ou em Gago Coutinho.
Era um De Haviland DH-108 modelo Dove, “Pombo/a” com dois motores gipsy queen 70-2 de seis cilindros em linha com 400 cavalos cada, com um curioso cokpit em bolha destacada da fuselagem, transportava dois tripulantes e até oito passageiros, pertencente à AERANGOL, Transportes Aéreos de Angola, operava a partir de Moçâmedes, cruzando todo o Sul de Angola, passando por Sá da Bandeira, Vila Artur Paiva, Serpa Pinto, Cuito Cuanaval, Neriquinha, Gago Coutinho, Luso,  Vila Teixeira de Sousa e Cazombo, a rota era delineada conforme os passageiros ou a mercadoria mas muitas vezes também o correio. 
O início da produção deste modelo deu-se em 1945, para substituir o De Havilande modelo Dragon Rapid, de que existe um belo exemplar no Museu do Ar. Desconheço o ano de fabrico do LKE, mas já aparentava bastante uso, e nalguns instrumentos que guardo como recordação está inscrito o ano de 1965.
Vem tudo isto a propósito do acidente que presenciei em directo em Gago Coutinho. Efectuava um voo à vertical com o Corredeira, já tínhamos conhecimento do movimento do LKE, e o Corredeira já tinha entrado em contacto directo com o piloto, depois de verificar-mos a sua posição, acompanhámos a aproximação a Gago Coutinho voando na sua asa, retribuindo os acenos dos passageiros, no início da perna-base, a aproximação fizera-se de Oeste para Leste, comentei com o Corredeira se eles não estariam demasiado baixo, e ele respondeu-me que eles deveriam saber o que estavam a fazer, o avião voava cada vez mais devagar e mais baixo, e dei comigo a pensar que eles não iam chegar à cabeceira da pista sem bater na vegetação que ficava no seu enfiamento.
Acompanhávamos a aterragem e o afundamento do avião, quando o piloto se apercebeu finalmente que não chegava à pista, tentou em desespero elevar o avião, mas devido à pouca asa, praticamente não havia metido flaps e à pouca velocidade o pior aconteceu, a asa direita bateu numa árvore e o avião começou a rodar pela direita e afundou subitamente, envolto numa núvem de pó vermelho, soltando peças das asas e num bailado em câmara lenta, foi dando voltas arrastando-se pelo chão, levantando ainda mais pó até se imobilizar de nariz, perpendicularmente à pista mas ligeiramente fora dela. 
Enquanto eu assistia a este bailado macabro o Corredeira avisou o posto de rádio, para que mobilizassem o hospital e toda a gente que pudesse vir dar uma ajuda aos passageiros e tripulação. Passámos entretanto a rapar sobre o destacamento a abanar as asas, tentando chamar a atenção do pessoal que estava na placa.
Aterrámos contra o vento e parámos ainda longe do avião, corríamos na sua direcção quando a porta lateral se abriu e saiu um homem com sangue na cabeça, a esposa grávida em final de tempo, ia para o Luso onde teria a criança, e ele estava completamente alterado, tentando a todo o custo retirá-la pela pequena porta onde ela mal cabia. Um a um todos os passageiros e tripulação acabaram por sair pelo seu pé, ninguém para além do marido nervoso se feriu, e a mulher grávida aparentava ser a única calma do grupo.
O facto da pista ser de terra batida evitara o pior, uma das asas vertia combustível, a roda de nariz do trem de aterragem em triciclo estava dobrada, do mesmo modo que a esquerda, a direita fora simplesmente arrancada, os hélices, estavam dobrados, como o trem colapsara a aterragem fizera-se de barriga, toda a parte de baixo da fuselagem estava amolgada, as asas a mesma coisa, possivelmente teria sido a última aterragem do CR-LKE. 
 Retirada do CR-LKE da pista para zona da placa. 
Agora levantava-se outra questão, o que fazer àquele monte de sucata, ali não poderia ficar. Com tudo mais calmo, fui a corta-mato para o posto de rádio confirmar com o Costa como se passaram os contactos na aproximação, não queria que ainda sobrasse para nós qualquer dúvida sobre o porquê da queda do avião, restavam os passageiros e a carga. Após conversa com o piloto, enviei uma mensagem para Luanda para a companhia, para que enviassem um transporte que levasse os passageiros e a carga, e para que nos informassem de como iriam proceder para retirar o avião da posição em que ficara, uma vez que obrigava à utilização bastante limitada da pista.
Feitos os avisos para a ICAO,  Secarleste, a pedido do piloto recolhemos a carga, e “sequestrámos” uma das caixas de caranguejo de Moçâmedes, que “inexplicavelmente” ficara inutilizada e que constituiu o nosso jantar. 
Quanto ao LKE, foi desmontado e transportado via terrestre para Luanda, julgo para ser canibalizado para outros aviões do mesmo modelo.
Ainda hoje passados quarenta anos, conservo alguns dos seus instrumentos.
Conta e Indicador de Rumo de Rádio Farol (ADF)

Gago Coutinho, 1973
Por:
OPC ACO

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O BEECHCRAFT 2519, DA MINHA EVACUAÇÃO.


No interior deste avião, não sei se o silêncio era absoluto. O barulho dos dois motores em estrela ficava fora, na madrugada que clareava a cor prata do 2519. Os meus colegas pesavam o silêncio, a viagem não era um passeio agradável.

No interior desse avião, eu estava a acabar. O meu corpo extinguia-se por dentro, as hemorragias eram fatais, a perna esquerda e algumas costelas fracturadas eram o menos, o meu cérebro adormecido – sonharia com palmeiras? – acordou uma vez durante a viagem – lembro-me de rostos indecifráveis que me olhavam de cima.

O dia amanheceu cedo, no Leste de Angola, do ar do AB 4 para o ar da vila do Luso, o rumo era o hospital militar. O dia 9 de Maio de 1970.
O Beech deve ter-se feito à pista conforme os procedimentos, no interior da minha mente, como no interior do avião, nada, silêncio.
Recobrei os sentidos na mesa de operações, para voltar a entrar num túnel.

Voltei da anestesia geral horas depois, regressei das mãos de Deus e do cirurgião militar, há quarenta e quatro anos.

Aquele Beech (na foto estacionado na placa do AB4, Henrique de Carvalho), não sei hoje onde está, talvez sucata apaixonada, não sei que voos fará, de certeza só nas nossas memórias, dos que ainda vivem.

© João Tomaz Parreira

quinta-feira, 26 de junho de 2014

CAMARADAGEM - A ANTENA DO CAZOMBO

Instalações do AM, vendo-se a torre acidentada
Depois do almoço, numa tarde tranquila em que o não haver nada para fazer era o habitual, tirando o OPC, que tinha de estar atento a qualquer ccomunicação, eis que uma ambulância do Batalhão do Exército, que estava mesmo ao lado do AM 43 no Cazombo, entra na unidade e cujo condutor da mesma era um Furriel enfermeiro, posiciona a dita ambulância perto do táxiway. 
A finalidade, era recolher um ferido que vinha evacuado de heli. Não me recordo, mas presumo que era um fuzileiro naval. Bom, toda a gente a postos e afluímos ao posto de rádio para obter mais informações através do piloto do heli. 
De repente, um estrondo ao lado do posto de rádio e o silêncio foi total. Saímos a correr para ver o que se passava e qual não foi o nosso espanto, uma das torres que segurava a ponta da única antena dipolo de onda curta e que nos punha em contacto com Henrique de Carvalho e as outras unidades da FAP, tinha caído. O Fur. Enfermeiro., tinha feito mais uma manobra com a viatura, e com o para choques traseiro da ambulância, tinha esticado os cabos de sustentação da torre e claro, o resultado foi a queda da mesma.
O Dakota no Cazombo
Sabíamos que o Cap. PilAv. Oliveira, vinha no dia seguinte num Dakota para fazer o reabastecimento. Era um homem que não merecia muito a nossa simpatia, mas a coisa era reciproca e sem comunicações, as coisas seriam feias quando ele aterrasse. 
Virei-me para a rapaziada e disse: camaradas, calma que tudo se arranja e a torre vai para o ar. Houve gente que duvidou e com razão, até eu, não tinha a certeza de conseguir colocar a dita cuja no ar e numa noite. A torre estava toda retorcida. 
Instalações do PAD
Saí do AM e fui ao PAD (Pelotão de Apoio Directo), falei com o Comandante que era um Tenente e logo de imediato se disponibilizou a enviar os seus homens e uma viatura oficina, com todo o equipamento necessário para a recuperação da torre. 
Corta de uma lado, solda do outro, martelo em outro lugar, a torre foi começando a compor-se.
A noite já ia longa e já pelas 3 hora da madrugada, faz-se a primeira tentativa de colocar a torre no sítio e ao alto, mas como era feita com um material que não oferecia grande segurança e os seus lados eram estreitos, a resistência do material era fraca, ficando ainda mais fragilizada com os remendos feitos, acreditem que não tinha a certeza da operação ser bem sucedida.
Era uma torre com +/- 30 metros e de certeza que quando foi montada pela primeira vez, foi lanço a lanço e logo sendo espiada. Naquela situação, não podia operar dessa forma e tinha de a levantar de uma só vez. Amarrei os cabos de aço à torre e a diferentes alturas, com a ajuda do guincho da viatura do P.A.D., quando se começasse a puxar, as forças estavam equilibradas e a torre, teoricamente deveria erguer-se. Como não ia apoiada dos outros lados, começou a balouçar e voltou a dobrar, mas desta vez só a meio, o que foi bom. 
Feita a reparação, amarrei uns paus aos tubos da torre para lhes dar mais resistência mecânica e eis que a torre se ergueu cerca das 5 horas da manhã. 
O resto foi simples, foi espiar e a destreza da juventude. Faltava amarrar a antena dipolo no topo. Este rapaz subiu à torre e colocou não no topo, mas quase, a antena. 
No dia seguinte, havia comunicações e quando o Capitão aterrou, não se passou nada. Era um dia igual aos outros. 
Quero publicamente, deixar um abraço e o meu muito obrigado ao Tenente, cujo nome não me recordo e a toda a sua equipe que trabalhou arduamente durante uma noite inteira, para que fosse possível erguer uma torre que à partida parecia impossível. 
Escusado será dizer que se meteram umas cervejinhas pelo meio da noite. 

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sexta-feira, 20 de junho de 2014

O CIVIL EDUARDO PITTA-GROZ

De todas as personagens que conheci em mais de 28 meses de comissão em Angola, sobressai um civil de nome Eduardo Pitta-Groz. 
Encontrámo-nos primeiro no Cazombo em 1971, e posteriormente em Gago Coutinho em 1973, quando ele andou a construir novas placas e um hangar para os Pumas, que julgo, nunca chegaram a ficar totalmente construídos. 
O inicio das obras do Hangar - foto JFMA
Em 1973, começaram a ser feitas as cofragens e armações de ferro para erguer as paredes que haveriam de ser encimadas pelas asnas de vigas de aço que, por sua vez suportariam o telhado. Nessa obra em que ele era o encarregado trabalhavam vários locais, e de Henrique de Carvalho veio um camião báscula, com o cabo condutor de nome Lamar, para transportar as máquinas e os materiais inertes que serviam para levantar as paredes. Mas não era o lado laboral da coisa que nele mais me despertou a curiosidade, o bom do Pitta-Groz era um “filósofo” um auto-didata, um contador de histórias nato, ex-camionista de profissão, como qualquer sertanejo, onde chegava semeava amizades e colhia amigos.
O aquário da patada - foto de e com JFMA
Chegou no Noratlas semanal, e a primeira coisa que fez, foi instalar uma pequena “cidade” de colmo dentro da cerca de arame, onde viveu enquanto duraram as obras, pelas fotos anexas, podemos ver que nada faltava, do chuveiro ao lago para os patos, do galinheiro à casota do Bambi, uma cria cuja mãe foi morta por engano e que foi trazida para que ele dela cuidasse.
A creche dos pintos - foto de JFMA
Eu e o Tomás, gostávamos particularmente do Pitta-Groz, e dos petiscos que ele nos ensinava a preparar, como os lombos de um songo que ele uma vez nos pediu, para fazer um petisco, e depois pendurou ao sol, o que me levou a pensar, desta vez vou levar na cabeça por ter insistido que lhos entregassem, as moscas vão enchê-los de larvas, mas ele sabia o que estava a fazer, a carne foi untada com uma pasta de óleo e pimentão e muito jindungo, e as moscas nem chegavam perto, queimada pelo sol inclemente ganhou rapidamente uma crosta dura por fora, mantendo-se tenra e sucolenta por dentro, com uma consistência semelhante à de presunto, era uma delícia com Nocal, essencial para cortar o picante do jindungo, ou as mioleiras de tudo o que era bicho e que ele preparava na perfeição. Quando as galinhas e a patas puseram ovos, tínhamos omeletas e bolos, iguarias só possíveis nas grandes cidades, quando os ovos deram pintos e, fazíamos churrascos, e nunca o Pitta-Groz reclamou o pagamento dos mesmos, por isso ele era nosso convidado sempre que nos reuníamos de volta do assador para comer um petisco, que a nossa guerra não era só trabalho, nem as nossas conversas eram só sobre o tempo que faltava para nos virmos embora... e tempo para ouvir histórias de caçadas e viagens pelos confins do Leste de Angola e comer os petiscos do Pitta-Groz, era do que nunca nos cansávamos.
Churrasco, nome pomposo para fintar a fomeca, com o Pitta Grós em primeiro plano

Gago Coutinho 1973
OPC ACO



sexta-feira, 13 de junho de 2014

UMA AVENTURA NO CUITO CUANAVALE




Vou tentar puxar pelos neurónios para fazer um relato o mais verdadeiro possível do famoso acidente ocorrido, creio que em Março de 1970, em que estive envolvido conjuntamente com o Gonçalo Carvalho. O acontecimento tem o seu quê de pitoresco.
No dia da chegada do Nord-Atlas, sem que tivéssemos sido informados, fomos surpreendidos pela imagem de quatro elementos do Movimento Nacional Feminino na porta do Nord, todas vestidas de branco e saia pelo joelho, qual aparecimento de Fátima aos pastorinhos. Três delas jeitosas e uma mais entradota estilo madre superiora do convento (se calhar era a Supico Pinto). Foi quanto bastou para o pessoal ficar em pé de guerra! 
A que veio falar comigo, com um ar angélico, disse-me que cada um ia receber uma oferta. A mim calhou-me um isqueiro da cruz vermelha estilo zippo, duas latas de leite condensado Cruz Azul e um maço de cigarros Porto (eu que era do Sporting!). A do leite condensado, deixou-me vidrado, mas valeu o sorriso da doadora.
As pequenas depois de entregarem as ofertas, mandaram-nos às urtigas e foram  para a residência do administrador do burgo beber uns “drinks” na frescura da varanda. 
Logo nos mobilizámos e todos aperaltados, estilo Rambo, saltámos para cima do jeep e fomos fazer uma “rapada” frente à dita varanda. Para disfarçar, na passagem demos uma aceleradela e começámos a descer a picada que ia dar ao rio Cuito. Azar dos azares ainda não refeitos de ver o MNF de perna traçada, a barra de direcção do jeep partiu-se e fomos embater numa árvore à beira da estrada. Fomos projectados borda fora e creio que ficámos todos feridos, uns mais que outros.
O jeep e Angelo Santos,antes e após o acidente
Um unimog do exército que vinha do rio – tinha ido buscar água – fez a evacuação para o destacamento do exército e deve ter sido caricato o MNF ver passar à sua frente tão garbosos guerreiros, a gemer e a pedir às alminhas. 
Na enfermaria, se é que aquilo era uma enfermaria, fomos socorridos pelo ajudante do enfermeiro, que cheio de boas intenções desatou a dar-nos injecções contra o tétano, a torto e a direito. O que sei é que o homem perdeu a noção em quem tinha sido o primeiro e levei segunda dose. Caí para o lado e só acordei no dia seguinte e  foi quando soube que o Gonçalo tinha sido evacuado, creio que juntamente com o MMA.
Angelo Santos e Gonçalo de Carvalho em confraternização com os "primos"

Se falarem com o Gonçalo um abraço da minha parte, o OPC que punha música durante a descolagem...

Um abraço