sexta-feira, 20 de junho de 2014

O CIVIL EDUARDO PITA-GROZ

De todas as personagens que conheci em mais de 28 meses de comissão em Angola, sobressai um civil de nome Eduardo Pita-Groz. 
Encontrámo-nos primeiro no Cazombo em 1971, e posteriormente em Gago Coutinho em 1973, quando ele andou a construir novas placas e um hangar para os Pumas, que julgo, nunca chegaram a ficar totalmente construídos. 
O inicio das obras do Hangar - foto JFMA
Em 1973, começaram a ser feitas as cofragens e armações de ferro para erguer as paredes que haveriam de ser encimadas pelas asnas de vigas de aço que, por sua vez suportariam o telhado. Nessa obra em que ele era o encarregado trabalhavam vários locais, e de Henrique de Carvalho veio um camião báscula, com o cabo condutor de nome Lamar, para transportar as máquinas e os materiais inertes que serviam para levantar as paredes. Mas não era o lado laboral da coisa que nele mais me despertou a curiosidade, o bom do Pita-Groz era um “filósofo” um auto-didata, um contador de histórias nato, ex-camionista de profissão, como qualquer sertanejo, onde chegava semeava amizades e colhia amigos.
O aquário da patada - foto de e com JFMA
Chegou no Noratlas semanal, e a primeira coisa que fez, foi instalar uma pequena “cidade” de colmo dentro da cerca de arame, onde viveu enquanto duraram as obras, pelas fotos anexas, podemos ver que nada faltava, do chuveiro ao lago para os patos, do galinheiro à casota do Bambi, uma cria cuja mãe foi morta por engano e que foi trazida para que ele dela cuidasse.
A creche dos pintos - foto de JFMA
Eu e o Tomás, gostávamos particularmente do Pita-Groz, e dos petiscos que ele nos ensinava a preparar, como os lombos de um songo que ele uma vez nos pediu, para fazer um petisco, e depois pendurou ao sol, o que me levou a pensar, desta vez vou levar na cabeça por ter insistido que lhos entregassem, as moscas vão enchê-los de larvas, mas ele sabia o que estava a fazer, a carne foi untada com uma pasta de óleo e pimentão e muito jindungo, e as moscas nem chegavam perto, queimada pelo sol inclemente ganhou rapidamente uma crosta dura por fora, mantendo-se tenra e sucolenta por dentro, com uma consistência semelhante à de presunto, era uma delícia com Nocal, essencial para  cortar o picante do jindungo, ou as mioleiras de tudo o que era bicho e que ele preparava na perfeição, quando as galinhas e a patas puseram ovos, tínhamos omeletas e bolos, iguarias só possíveis nas grandes cidades, quando os ovos deram pintos e, fazíamos churrascos, e nunca o Pita-Groz reclamou o pagamento dos mesmos, por isso ele era nosso convidado sempre que nos reuníamos de volta do assador para comer um petisco, que a nossa guerra não era só trabalho, nem as nossas conversas eram só sobre o tempo que faltava para nos virmos embora... e tempo para ouvir histórias de caçadas e viagens pelos confins do Leste de Angola e comer os petiscos do Pita-Groz, era do que nunca nos cansavamos.
Churrasco, nome pomposo para fintar a fomeca, com o Pita Grós em primeiro plano

Gago Coutinho 1973
OPC ACO



1 comentário:

  1. descobri este blogue por mero acaso, e qual o meu espanto ao encontrar este post dedicado ao meu querido irmão Eduardo," o Cambuta" por ser o mais pequeno de todos nós, ou ainda o " meia-Cuca " depreende-se a razão.
    O meu bem-haja pelas suas palavras simpáticas.
    São Pita Groz

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