quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

UMA HISTÓRIA SOBRE GASOLINA DE AVIÃO



Após o termino da minha comissão em Angola, fui colocado no AB1 (actual AT1), e como a minha especialidade era MMA, passei a fazer parte da manutenção dos DC-6, aviões quadrimotores, equipados com poderosos motores em estrela dupla, que funcionavam a  gasolina , salvo erro de 114 octanas, notei que quase todos os que possuíam automóvel, que não era o meu caso porque andava de autocarro, procuravam andar com uma pequena pasta, do tipo dos cobradores, na altura, e que eram da dimensão de umas latas de óleo dos travões, formato rectangular, muito úteis para transportar debaixo do braço a dita pasta, com a latinha dentro cheia de gasolina. 
Na “doca” (local onde era colocado o avião para inspecção), uma estrutura onde “ encaixavam” os 4 motores do avião, com plataformas para nós, os mecânicos podermos trabalhar à altura dos motores, e a primeira acção era lavar os motores, usando preferencialmente a gasolina do avião, porque o tetracloreto recomendado era altamente tóxico e nós evitávamos de o utilizar. 
Com esta actividade camuflava-se o gamanço de gasolina, normalmente só  os mecânicos é que deviam retirar a gasolina das torneiras de purga dos depósitos, e enquanto o avião estava na “doca” era um corrupio de “mecânicos” a tirarem gasolina, “para lavagens”, paralelamente por detrás da “doca” havia uma espécie de “armazém” de latinhas rectangulares, que eram posteriormente transportadas dentro das tais pastas de cobradores. 
Algum tempo depois, apareceu na manutenção um 1º.cabo MMA “maçarico”, que me reservo de pronunciar o nome, pertencente a uma família de fadistas da nossa praça, e coisa rara num cabo especialista (não correspondia à versão do celebre fado do cabo especialista), era possuidor de um “carocha” uma autentica bomba um 1604, que “bebia” gasolina a dar com um pau. 
Era um menino, que agora aparece de vez em quando nos ecrãs da TV e diz que as mulheres servem para levar porrada. 
Um dia estando de serviço, vem aquela personagem ter comigo perguntar qual a hora de passar ronda aos postos, respondi-lhe que passava ronda entre as 2 e as 4 da madrugada, perguntei-lhe o porquê de saber a hora da minha ronda, o qual me respondeu, que uma carrinha civil estava junto à delimitação da futura unidade do Figo Maduro (na altura ampliava-se a unidade que deu origem ao AT1), e aguardava por uma zorra com bidões de gasolina que seria rebocada até lá (de notar que cada bidon levava 200L, e ele falou no plural).
A minha resposta foi que me faltavam 6 meses para passar à disponibilidade (passei à disponibilidade no fim de Outubro de 1972), e não estava disposto a correr o risco de ir parar ao forte de Elvas, e portanto se na altura de passar ronda eu visse alguma coisa de anormal, ele e quem mais lá estivesse viriam à minha frente direito ao oficial de dia, lembrei-o que fazia a ronda com uma pistola Walter à cinta.

Orlando Coelho MMA



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

JOGO ENTRE SOLTEIROS E CASADOS - CAMPO DAS MANGUEIRAS, 1972

As duas equipes, os solteiros e os casados

 Esta pequena história, para além de caricata, pretende fazer relembrar uma das formas em como passávamos o tempo na altura da nossa deslocação por terras do Leste Angolano, e avivar os nomes dos seus intervenientes. 

Retomamos à época de Fevereiro de 1972, e fixamo-nos no “Estádio de Futebol” da cidade de Saurimo, o Campo das Mangueiras.

Sede do C.D. Saurimo

Na Base, alguém apelou para que se organizassem duas equipas de futebol a fim de se travar um jogo entre solteiros e casados. Estas duas equipas eram constituídas essencialmente por Sargentos, e alguns já com largas “panças”.
A equipa para a qual fui alinhar, era a dos solteiros. Claro, mais jovem, com sangue na guelra porém, já havia quem não cumprisse com as boas regras de estágio – os tais sorvedouros de Whisky, e muitooos…
O nosso “team” era constituído pelo guardião Cossa, (meteorologista que todos conheciam) e, pelo Alex, (piloto particular do Governador), Carrão, Eu, João, Cibrão, Guiomar, Alá (todos controladores), Timóteo, Correia, (enfermeiro), Valverde, Caixinha, Martins, e Esteves.
Dos casados faziam parte: Soares, Nuno, Diogo, Penão, Marta; Gilberto, Amaral, Isidro, Garcia Vieira.

O campo, situado na parte traseira do velho “Clube de Saurimo”, apresentava-se em terra batida, esburacado, e com as balizas desprovidas de redes. Na assistência…estavam milhares!
Pelejámos para a conquista da já afirmada vitória e, no intervalo, conseguimos levar a vantagem de duas a uma bola. Pelos solteiros, marcaram o João e o Alex. Pelos casados, marcou o Amaral.
A animação era visível e, após um grande intervalo, retomámos o confronto. O momento deparava-se renhido, difícil de gerir. O entusiasmo levava a que cada equipa vencesse para se fazer do mote, o gozo da peleja.
A certa altura, deu-se a tal situação caricata…
A contornar o campo, havia uma densa vegetação contígua ao “pelado”. O jogo dançava consoante a movimentação da bola, mas para nosso espanto, a dança, inverteu-se. A bola ia para certo lado e o jogador, para outro… O guarda-redes saiu da baliza a correr a sete pés. Todos fugiam, e cada qual para o seu lado. Não havia ponto cardeal fixado e ninguém se entendia.
A bola parou de rolar, os jogadores saltaram as traves de protecção e, a assistência mantinha-se quietinha do outro lado lateral do campo, interrogando-se sobre as causas da debandada.
Quando abordei que os espectadores eram aos milhares, não me referia às pessoas que assistiam ao jogo, mas às abelhas que invadiram o campo de futebol. Enfurecidas atacaram todo o pessoal que se movimentava, e com tais ferroadas, que tivemos que parar o jogo por longos momentos.
A tropa, sempre engenhosa, foi buscar uns pneus velhos. Atearam-se, e conseguimos afugentar a bicharada, após longos minutos de “ais” e risos.
Continuado o jogo, marcaram-se mais golos. Finalizou-se com a vitória por quatro a dois, sendo os golos desta última parte atribulada, pertença dos companheiros Alex (2) João (1) e Oliveira (1). Pelos casados lembro-me do Amaral ter marcado (1). Os solteiros, venceram os casados por margem de dois golos - mas perdemos em ferroadas !...
Fase animada do jogo





No meio deste tipo de animação, havia sempre um reparo. O ALMOÇO.
Onde deveria ser celebrada a festa da goleada? Nas tais represas e cascatas do rio Chicapa – local aprazível e que ainda nos trás vivas recordações…
Quedas do Chicapa

O Amigo Vítor Oliveira – OCART



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

UM VOO DE RECONHECIMENTO


Aquela guerra terminou subitamente numa manhã de Abril.
No ar ficou a estranha sensação de que ninguém ganhara e todos haviam perdido
Desde então, dia a dia, os anos foram caindo na cascata do tempo e aquele cabo mecânico, como todos os homens da sua geração, deverá ser hoje um homem com já muita idade.
É bem possível que em noites de festa ou reuniões de família, oiçam, perplexos ou muito duvidosos, a história daquele voo que o avô, de cabelo branco e face enrugada e alguma tremura na voz insiste em recordar.
É natural que assim seja.
Ele fala de coisas que já ninguém entende.
São factos que há muito foram esquecidos, por há muito terem deixado de ser lembrados.
São recordações que pertencem apenas à vivência da última geração de Portugueses que teve um império à sua guarda.
Elas, essas gerações, durante séculos mantiveram vivo o milagre de transformar impossíveis em realidades quotidianas.
Foi esse milagre da vontade, essa força de animo, esse desígnio, que s que tornou real o sonho dum povo que sobreviveu em condições que só em sonhos é possível imaginar.
A história que aquele avô, de vez em quando relembra pouco difere de outras histórias que, ao longo dos séculos, durante a epopeia do encontro com o mundo desconhecido, gerações de jovens de Portugal protagonizaram.
Só foi possível manter um império tanto tempo, com tão pouca gente e tão escassos meios, porque houve sempre alguém que, em noites de medonha escuridão, quando o Céu perde as estrelas e o mar ruge apavorante, em navios sem velas nos mastros quebrados ou cruzando os céus em aviões em que o homem do leme morreu, conseguiu ter ânimo para, vencendo o mar e a tormenta, levar o seu batel a varar na praia onde só os audazes têm o privilégio de arrimar”
In” Histórias duma Bala Só”
De Cap. Carlos Acabado


quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

A "MANELA DA SATA"



Esta é uma história real que, de uma forma muito cristalina, faz a narrativa de uma mulher simples e solidária, que, numa pequena ilha dos Açores, ganhou a merecida consideração de todos os açorianos e muito particularmente dos habitantes da Graciosa e da Força Aérea Portuguesa. Pela sua enorme dedicação e solidariedade, estas simples palavras, são uma homenagem à “Manela da SATA”
Com a chegada dos helicópteros SA-330 Puma aos Açores, em novembro de 1976, as evacuações mais urgentes e de noite, da ilha da Graciosa, passaram a ser executadas pelos Pumas.
O aeroporto da Graciosa foi inaugurado em 11 de julho de 2001, era, à altura, pertença e gerido pela câmara municipal de Stª. Cruz da Graciosa. Esta pista era uma das poucas pequenas pistas nos Açores a ter iluminação noturna.
Para os pilotos dos helicópteros Puma era um conforto aterrar de noite na pista da Graciosa, muito particularmente, em dias de mau tempo. Todavia, havia um problema, o aeroporto e a sua pequena aerogare, fechavam por volta das cinco da tarde. O comando da base aérea das Lajes contactou a câmara de Stª. Cruz com o objetivo, e sempre que necessário, alguém da câmara fosse ligar as luzes da pista durante a noite.
Meu dito, meu feito...a câmara arranjou uma interessante e prática solução. Solicitou a uma funcionária administrativa da SATA na Graciosa, de seu nome Manuela Santos, sempre que necessário e fosse solicitado pela Força Aérea, ela ligasse as respetivas luzes, cujos interruptores estavam localizados na torre de controlo.
E, assim, durante muitos anos, esta prática e simples solução, foi funcionando da melhor forma.
Quando era recebido um pedido de evacuação noturna da Graciosa, as operações da base telefonavam de imediato para casa da dona Manuela Santos e ela metia-se no seu carro em direção ao aeroporto e ato continuo ligava as luzes da pista, e nunca falhou.
Os anos foram passando e a Manuela Santos ficou conhecida por todos, nomeadamente as tripulações dos Pumas como a “MANELA DA SATA”.

Conta-se a história, não verdadeira, que numa noite de inverno rigoroso com ventos fortes, foi pedida uma evacuação da Graciosa. Como habitual o oficial-de-dia às operações da base, telefonou para casa da “Manela da SATA” informando-a da evacuação. Passados cerca de 40 minutos o Puma estava a aterrar na pista da Graciosa, com esta devidamente iluminada. Como de costume, a Manela vinha cumprimentar a tripulação, só que desta vez, vinha de “Pijama e de Roupão”. Embora, este episódio nunca tenha acontecido, a história acabou quase como uma lenda oral na esquadra dos Pumas.
A “Manela da SATA”, pela sua enorme dedicação, solidariedade e humildade, no contributo da salvaguarda da vida humana, granjeou uma grande consideração e amizade de todos os habitantes da Graciosa e de todos as tripulações da base aérea das Lajes ... Bem hajas

Por: Gen. Alfredo Cruz (In FB)


quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

OS TAIP - TRANSPORTES AÉREOS DA INDIA PORTUGUESA


Pouco antes da invasão indiana do Estado Português da Índia, os TAIP foram utilizados para a evacuação de civis de Goa para Karachi.
No dia da invasão (18 de Dezembro de 1961) encontrava-se no Aeroporto de Dabolim apenas um DC-4 dos TAIP que escapou, juntamente com um avião da TAP, ao bombardeamento que sofreu aquela instalação.
Nessa noite a pista foi reparada permitindo aos dois aviões levantar voo para Karachi de onde seguiram para Lisboa. Acabou aí a operação dos TAIP.
No dia 19 de Dezembro de 1961, Nehru rompe o não ao belicismo e envia forças armadas para o ataque aos três territórios: Goa, Damão e Diu. Estavam a caminho das eleições, e o seu partido estava atrás nas sondagens.
Do lado de Portugal, Salazar queria jogar o papel de vítima, numa batalha perdida há muito. Às potências internacionais era-lhes interessante poder apontar o dedo moral a uma Índia não alinhada nas jogadas intercontinentais.
Aviões bombardeiros E.E. Camberra arrasam a pista e danificam o DC-4 dos TAIP e o Superconstellation da TAP ali estacionados. Incrivelmente ambos os aviões conseguiram descolar enquanto os indianos permaneciam convencidos de terem interditado o aeroporto e de terem capturado por preempção de fuga as aeronaves.
O Superconstellation (CS-TLA, “Vasco da Gama”,) da TAP, comandado por Manuel Correia Reis, copilotos Anselmo Ribeiro e Alcídio Nascimento, navegador P. Reis, mecânicos A. Coragem e H. Dias, radiotelegrafista A. Pereira, comissário Madeira e assistentes Prazeres e Carlota, descolou para Karachi usando apenas os 700 metros de pista disponível. Três horas depois aterrava com um pneu furado e 25 buracos, consequência dos estilhaços provocados pelo bombardeamento da aviação indiana à pista.
O Comandante Solano de Almeida pilotou o último voo efectivo dos TAIP, de Goa também para Karachi, capital do Paquistão na altura, em voo rasante ao solo para evitar a aviação inimiga, transportando as mulheres e crianças familiares dos militares portugueses.
De salientar que o ataque a Dabolim não teve justificação militar visto Portugal não ter ali um único meio aéreo que não fosse civil.
A guerra saldou-se com 34 mortos e 57 feridos em combate para Portugal, 30 mortos e 57 feridos para a Índia. Uma infantaria de pouco mais de 3.000 efectivos lutou durante dois dias contra uma força 10 vezes maior, e que dispunha de 22 caças e 20 bombardeiros como meios aéreos.
No geral, a recusa do militares em seguir a política de “terra queimada” imposta por Salazar, e lutar até á morte de todo o nosso contingente militar, fez com que se evitasse derramamento de sangue inútil e que a retirada de Portugal fosse para sempre vista como uma tragédia irresponsável e cruel.
A maior parte as potências ocidentais condenou o ataque Indiano, tanto por terem um passado colonialista, como por aproveitamento de minar a política de não-alinhamento de Nehru. O partido deste ganhou de facto as eleições, mas manchou a sua imagem, imaculada até então, de pacifista.

Miguel Pessoa Cor.Pilav.
Lisboa domingo, 30 de outubro de 2011

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

O MAJOR TOMÁS E O ALUNO LARILAS !



Estava de Sargento de Dia à EI (Esquadra de Instruendos), 69/70, quando o 1º.Sarg. Garcia, chefe da Secretaria me diz que sabia dum aluno OPCART, o nº.11, algarvio, andava metido com larilas e que andava constantemente baldado, pois tinha cunhas muito grandes e safava-se sempre.
Havia um gajo, que respondia por ele e era preciso caçá-lo. Calculem, que até os instrutores e monitores não davam as faltas do marmanjo Caço o gajo, que respondia por ele e fiquei a saber da história toda. Este, estava a ser bem pago, o outro andava com a dispensa dele, mas já estava desenfiado há 7 dias com o fim de semana. Até parecia impossível!!! Na segunda-feira de manhã, saio de serviço e vou à Formação entregar o relatório do serviço, as faltas e dizer ao Garcia o que se passava. Manda-me fazer a participação para o Comandante da Formação dar seguimento (Cap. Evaristo), e diz-me: Olegário, já livrámos a nossa responsabilidade, metemos os ditos cujos na virilha dos gajos do GITE, que têm de se justificar, mas espera pela resposta que até estala! Estava a almoçar quando recebo uma chamada do Ministério da Marinha, com um Comandante qualquer, a dizer-me que o nosso Almirante tal, alentejano (pensava eu, que no Alentejo não havia larilas!), queria falar comigo e queria saber a hora ideal para tal. Disse-lhe, que podia ser depois do almoço, já lixado sem saber o que se passava para ter a tal honra. O homenzinho até já sabia o meu nome, que tinha filhos pequenos, etc., que estava no início da carreira. Parecia uma conversa em família, e lá para as tantas diz-me que era para eu tirar a participação, porque o dito 11 estava com ele, e tinha adoecido, e não sei mais o quê, uma aldrabice. Respondi, que a dita já estava nos meus superiores e que só eles podiam fazer algo, tendo o senhorzinho quase me ameaçado com delicadeza. Cerca das 19 horas, aparece um bruto Mercedes da Marinha a deixar o 11 na Base.

No dia seguinte havia um jogo de andebol entre oficiais e sargentos, tendo o Major Tomás por casualidade...passado junto da Messe de Sargentos e dado uma boleia ao Olegário para irmos para as aulas!!! No meio da conversa acerca do jogo diz-me: Ah! Já me esquecia, esqueça a história do 11 que depois falamos. No mesmo dia deu duas carecadas e corte de dispensas a dois alunos de comunicações, porque não vinham na formatura. Fui falar com ele perguntar-lhe que moral era aquela, e que sendo assim seguia com a minha participação. Cale-se, ou então vai de imediato para África para o pior sítio que eles lhe vão arranjar e o seu futuro na FAP acaba aqui!
Turma OPCART da 1ª. de 1969
Dias mais tarde foi ter comigo à sala de aulas, chama-me cá fora e diz-me: Não calcula no que estava metido e só para sua informação deve calar-se e não contar a ninguém mas até do Gabinete do CEMFA recebi um telefonema. Digo-lhe isto porque tenho consideração por si e não volte a ir ter comigo com a chantagem para eu tirar o castigo aos seus alunos porque eu também cumpro ordens.

Por: Olegário Silva, Sarg. Chefe OPC

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

A MINHA HOMENAGEM AO GENERAL LUÍS ARAÚJO, RECORDO O DIA EM QUE NOS CONHECEMOS EM MUEDA

AM51 - Mueda
Hoje 5/12/2023 durante a missa das exéquias pela morte do meu camarada, companheiro e meu grande amigo, Luís Araújo, na tranquilidade e no silêncio da igreja, revi e recordei o dia em que nos conhecemos nos idos de 1972 em Mueda, Moçambique, em tempo de guerra.
O General Luís Araújo, Luís para os amigos, para lá das suas excelsas qualidades de militar e líder, para lá de ser um experiente piloto dos helicópteros Alouette III, era um notável contador de histórias. Um dia ainda durante os anos 80, depois de um jantar de amigos durante os anos que ambos fomos professores no saudoso IAEFA (Instituto de Altos Estudos da Força Aérea), bem bebidos e melhor comidos, o Luís com toda a sua bonomia resolveu contar a história do dia em que nos conhecemos. Como uma pequena homenagem, vou escrevê-la como ele a dissecou nas suas palavras.
Poucas semanas depois de ter chegado a Nampula fui enviado pelo comandante da esquadra 503 “Índios” para o meu primeiro destacamento no AM-51 em Mueda.
- Araújo pode chegar aqui ao meu gabinete, grita-me o capitão Estevinho.
Convida-me a sentar e calmamente diz-me.
- Araújo amanhã você vai de manhã para Mueda no Nordatlas, que sai daqui às 09h00, transmite-me.
Continuando as suas diretivas diz-me tranquilamente.
- Chegas lá cima agarras-te ao alferes Cruz, ele é um dos mais certinhos dos meus pilotos e o mais experiente, ele vai-te ensinar a combater no cenário da guerra no Planalto dos Macondes. Você vai gostar dele, acrescenta com um sorriso de confiança.
No dia seguinte depois do voo matinal entre Nampula e Mueda lá chego ao aeródromo de Mueda. Muitas histórias me tinham contado sobre aquele inferno, as histórias absolutamente loucas dos pilotos de Mueda eram já uma imagem de marca no imaginário de todos os militares no Planalto dos Macondes, interiormente pensava que eram manifestamente um exagero. Contudo ao descer as escadas do Nordatlas, verifiquei que efetivamente era pior do que tinha imaginado, uma placa cheia de aviões e helicópteros e o Nordatlas estacionado no meio da placa, pois não havia espaço para mais. O aspeto era deprimente, rodeado de arame farpado, era mesmo um lugar de guerra.

Ainda meio aturdido da primeira impressão de Mueda, que não foi manifestamente a melhor, aquilo era pior do que tinha imaginado nos meus piores pesadelos, questiono um sargento mecânico que ia a passar.
- Senhor sargento onde posso encontrar o alferes Cruz dos helicópteros.
- Senhor tenente o alferes Cruz foi fazer uma missão e deve estar a aterrar.
- Obrigado, respondo-lhe.
Passados alguns minutos ouço o barulho característico dos alouette III, aquele som de liberdade que sempre me impressionou desde o meu primeiro voo naquele fabuloso helicóptero. Rapidamente os dois pilotos saem dos helicópteros e dirigem-se em passo tranquilo para as operações, questiono um dos mecânicos.
- Nosso cabo, qual daqueles pilotos é o alferes Cruz?
- Senhor tenente, o Cruz é o que traz o lenço azul atado à cabeça, responde-me educadamente
O que vejo deixa-me completamente espantado, o aspeto é de um verdadeiro guerreiro, fato de voo impecável, barba, com um ar simpático, lenço de seda atado à volta do cabelo, qual Índio, numa mão o capacete e na outra mão a famosa Kalashnikov e o que me deixou mais intrigado um arco e flexas pendurado junto à sua arma de defesa.
Caminho vagarosamente pela placa em direção aos dois pilotos, olho mais especificamente para o tal alferes Cruz que caminha vagarosamente na minha direção, conforme se aproxima, olha para mim com um sorriso calmo e maroto, preparo-me para lhe dirigir a palavra, mas ele foi mais rápido que um raio, a cerca de dois a três metros de mim, olha-me com aquele sorriso e grita.
- Ó checa estás f**dido, bem-vindo a Mueda terra da guerra.
Quase em simultâneo envolve-me num forte abraço e sempre com aquele sorrido que irradiava confiança, uma enorme tranquilidade e claro também uma dose de loucura.
Aquele abraço de boas-vindas fez-me sentir a entrar num novo mundo onde sabia por outros camaradas ainda na metrópole, que era um mundo, onde a camaradagem e a coesão do grupo eram sublimes. Ao caminhar-mos os três em direção às operações senti um arrepio ao pensar nas palavras do capitão Estevinho sobre o alferes Cruz no dia anterior “se este é o mais certinho, imagino como serão os outros”
José Bento, Enf. Paraquedista e Luis Araújo
A noite no bar dos pilotos foi algo especial para mim, sentia-se no ar uma enorme alegria de todos os pilotos, a amizade e camaradagem eram bem evidentes e especialmente o alferes Cruz que me foi introduzindo naquele novo universo, sentia que estava a ser recebido e aceite no grupo.
Depois da noite caótica e animada no bar, fui finalmente para o meu quarto, onde no silêncio da noite, tive uma certeza, tinha ganho um amigo e não me enganei. Passados tantos anos continuamos tão próximos e tão amigos como naquele meu primeiro dia de Mueda, ficou para sempre marcado na minha memória. Por: Gen. Alfredo Cruz

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

GONÇALO LOBATO

6/6/1935 - Destroços do acidente do piloto Gonçalves Lobato

Para quem não sabe a origem do nome do Aeródromo Gonçalves Lobato, em Viseu, tem aqui a história deste grande pioneiro da aviação portuguesa.

António GONÇALVES LOBATO, Militar, nasceu em Lisboa, a 05-04-1909, e faleceu em Viseu, a 06-06-1935. Depois de frequentar o Ensino Comercial, assentou praça como voluntário na Aviação em 1927.
Primeiro-Sargento Mecânico da Aeronáutica Militar (actual Força Aérea Portuguesa). Antes de acompanhar Humberto da Cruz, na viagem de 1934, estivera nos Estados Unidos da América com Plácido de Abreu, e noutros países europeus com outros Aviadores Portugueses.
Humberto da Cruz escolhera-o como companheiro de viagem devido à sua competência, ao seu carácter alegre, aos seus aspectos morais, à sua correcção, aprumo e camaradagem.
Trabalhou como mecânico na Força Aérea Portuguesa, tendo atingido o posto de primeiro-sargento. Em 1931, viajou até à Alemanha e Suécia no avião Lisboa, em conjunto com o major António Maia, o capitão Amado da Cunha e o tenente-coronel Ribeiro da Fonseca, em missões de estudo para os Serviços Aéreos Portugueses.
Acompanhou o tenente Plácido António da Cunha Abreu numa viagem até aos Estados Unidos da América, a bordo do avião Foguete. Também participou, com o tenente Humberto Amaral da Cruz, no Raid Aéreo Lisboa - Timor - Lisboa, em 1934.
Faleceu em 6 de Junho de 1935, num acidente durante o II Rally Aéreo de Portugal. Nesse dia, descolou de Viseu às 6 horas da manhã com o tenente Tovar de Faro, e aterrou em Espinho às 9h15, tendo de seguida voltado para Viseu. No entanto, quando tentavam aterrar no campo de aviação da Muna, em Viseu, por volta das 10h30, o avião capotou, ficando quase totalmente destruído. Com a ajuda das pessoas no local, o tenente Tovar de Faro conseguiu sair dos destroços, tendo depois sido retirado o corpo do sargento António Lobato. Foram ambos levados por automóvel até ao Hospital de Viseu, onde António Lobato chegou já morto, com todas as costelas fracturadas, enquanto que o tenente Tovar de Faro ficou gravemente ferido. Às 16h30, o corpo foi transportado para a Câmara Municipal de Viseu, num cortejo fúnebre onde participaram muitos populares e as entidades oficiais. O funeral realizou-se no dia seguinte, ficando o corpo depositado no cemitério de Viseu até ser transladado para Lisboa, após as festas da cidade.
Na altura do seu falecimento, tinha 25 anos de idade, e estava noivo.
Aeródromo Gonçalves Lobato - Viseu


"Dos fracos não reza a história."

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

O PENSADOR TCHOKWE


Este Pensador foi concebido simetricamente, com a face ligeiramente inclinada para baixo para exprimir um subjectivismo intencional. 
Na sua filosofia, os Idosos ocupam um estatuto privilegiado: A sabedoria, a experiência de longos anos e o conhecimento dos segredos da Vida!...                                                        
E, pensando em nós que, em tudo o que o Pensador exprime é verdade, recuemos ao passado, a Angola, ao Leste dos Tchokwé´s e, trilhemos a nossa Vida, Experiência adquirida pelos anos fora, Sabedoria e…ainda com grandes segredos por desvendar!...
Na partida, sentimos uma saudade que em versos aqui se retrata: A nossa Majestosa esteve sempre presente connosco e ainda dá sinais da sua existência. Sentiu e ainda sente tudo aquilo que se passa em seu redor. Está viva, como nós vivemos a alegria deste 47º. Encontro.

Quando a noite veste de sombras o mundo
E o silêncio me desperta a solidão
Verto lágrimas e o meu sofrer é profundo
Põe-me louco de saudade o coração.

Quando penso que lá longe ela me espera,
Ansiando pelo dia da chegada,
Grito a Deus, que minha alma desespera,
Grito a Deus, mas o silêncio não diz nada.

Quando os pássaros saudando a madrugada
Me despertam para a guerra uma vez mais
Sinto o peso desta vida amargurada
Sinto ódio às minhas "asas" infernais.

Oh ! Henrique de Carvalho, meu desterro,
Que por dois anos me farás teu prisioneiro,
 Se eu morrer quero bem longe o meu enterro,
 Quero ser da paz eterno companheiro.

 Rocha Marques – AB4 - 1969

E O PENSADOR OBSERVA O NOSSO, REGRESSO!...



OS ANOS PASSAM…
As nossas vidas refazem-se e, sobrevivendo, eis-nos presentes neste Convívio, em Argomil. Surge a Esperança de voltarmos a reviver a nossa infância. A voz do Comandante João Pinto vibra e, a luz renasce!










AS JANELAS DESTE ENCONTRO, ABREM-SE!...



NA DESPEDIDA, COME-SE O BOLO




E…RECOLHEM-SE AS BANDEIRAS



ESTAMOS TODOS GRATOS AO SIMÃO CABRAL
SAUDAÇÕES AOS PRESENTES E AUSENTES
ATÉ PR´Ó ANO!...



Texto de V. Oliveira – 17/11/23



quinta-feira, 9 de novembro de 2023

GENERAL ANACORETA ALMEIDA VIANA

Inauguração do Clube de Especialistas, Gen. Anacoreta Viana comandante da 2ª. RA discursando, em 2º plano o Comandante Ten. Cor. Manuel Andrade Fernandes - Foto de Mário Mendes


Foi como aluno piloto que conheci, pela primeira vez, o Ten. Almeida Viana. Não era instrutor dos pilotos mas, dava aulas de Tecnologia, aos alunos mecânicos.
Mais tarde, voltei a encontrá-lo na qualidade de Director da Aeronáutica Civil, ao tirar o Certificado de Piloto Comercial.
Quando fui colocado em Angola (Out 1966) o Comandante da 2ª Região Aérea era, precisamente, o Gen. Almeida Viana.
A sua especialidade principal era Engenheiro Aeronáutico mas, também, piloto. Devido aos variados cargos como Engenheiro, a última função, como piloto, nunca a desempenhou em permanência.
Contudo, gostava de se sentar aos comandos mas, atendendo à idade e falta de experiência, pilotava mas sempre acompanhado.
Na altura, na Base, só havia um único piloto a voar C-45 Beechcraft, sendo necessário qualificar mais algum. Fomos nomeados dois pilotos para esse fim. Fizemos os voos de Adaptação considerados necessários e largados.
Logo depois comecei a ser nomeado para acompanhar o General. Ele fez-me uma “dissertação” em que reiterava a sua qualidade de piloto mas, inexperiente e já “velho” como dizia, mas exigia que em caso de necessidade eu é que era o responsável. Tinha de o corrigir quando necessário.
Assim, pouco depois, num voo de regresso de Cabinda, ao aterrar em Luanda, bate com o trem no chão e vamos para o ar numa posição um tanto ou quanto anormal. Reagi de imediato, tomei os comandos, reponho o avião a voar junto ao solo e, entrego-lhe o avião. Aterrou de seguida e bem. No vestiário volta-se para mim e diz: acerca da aterragem, fez muito bem, é para isso que quero um piloto experiente. Não sabia mas tinha acabado de passar num teste.
Foi por causa desta aterragem que ficou definitivamente a voar comigo. Quando precisava de sair, telefonava-me para saber da minha disponibilidade pois não queria estragar as outras minhas missões. Quando eu estava ausente chegava a aguardar a minha chegada para efectuar as suas saídas.
Entretanto, ainda em 1967, o General é nomeado Comandante-Chefe.
Inicialmente, os voos eram efectuados com o General, eu, o mecânico e o Ajudante de Campo mas, ao fim de pouco tempo, dispensou o Aj. de Campo. Na prática fiquei eu a substituí-lo. Para enfatizar disse-me: a partir de agora andará sempre comigo, vai para onde eu for.
Nesta fase, ainda não me tinha apercebido da profundidade daquele conceito.
Pouco depois, como disse, já na qualidade de Comandante-Chefe foi efectuar uma visita ao Governador da Lunda (na altura Maj. Soares Carneiro, mais tarde General que concorreu a Presidente da Republica), daí termos ido a Henrique de Carvalho. Aterramos eram quase 12 h. O Gen. seguiu nas viaturas da comitiva e, eu fiquei na Base. Almocei e estava a beber o café após o almoço. Toca o telefone – era o “nosso” general, a dizer-me: “então Mestre, estamos à sua espera para almoçar”.
Gaguejei… “mas, acabei de almoçar… e… sim meu general”.
“Já mandei uma viatura para o trazer”.
Tinha acabado de ser posto na “ordem” quase definitivamente.
Ao chegar à residência do Governador, cumprimentando as entidades apresentei as minhas desculpas pelo atraso – tinha estado a aprontar o avião (desculpa).
À mesa (8 pessoas) como se compreenderá, estava com fastio – tinha acabado de almoçar. Aí o “meu” general diz: Ó “Mestre” está mal disposto ou com fastio?
Compreendi que me tinha acrescentado mais uma lição. Não esqueci.
Enchi-me de coragem e virando-me para a anfitriã, pedi desculpas pela minha atitude e, pela minha falha perante as instruções dadas pelo meu chefe. Muito bem. Acharam graça, com especial relevo, para a minha franqueza.
Nunca mais deixei de o acompanhar, até em situações muito delicadas do ponto de vista militar. Não querendo identificar vou dar um exemplo.
Um chefe militar (brigadeiro) recém-chegado a Angola permitiu-se fazer algumas considerações depreciativas dos comandos.
O “general” foi-lhe fazer uma visita surpresa. Conseguimos entrar na Sala do Comando sem sermos detectados. Aí, começou uma “cena”. Sentindo que estava a mais comecei a recuar para a porta para abandonar a Sala. Eu era um simples Capitão e estavam a admoestar um Brigadeiro à minha frente. O General reparou e obrigou-me a ficar…
Normalmente, o General, equipava-se com uma combinação de voo em camuflado mas sem insígnias e, ao apresentar-se para quem o não conhecia, dizia: “Alf. Velho”.
Um dia fomos ao Camaxilo, AM42 destacamento do AB4. Após pararmos o avião, aparece um jeep com um alferes a apresentar-nos cumprimentos e dar-nos transporte. Claro, o General, apresentou-se como: Alf. Velho. Fomos para o bar. O alferes ofereceu-se para nos servirem qualquer coisa e… “meu capitão para aqui, alferes para ali”, enquanto se aguardava a chegada do Comandante (Ten. Cor). Quando este chegou apresentando-se com uma valente continência, dizendo: “muito prazer em vê-lo meu General”. O alferes abriu a boca de espanto e… pediu desculpa pela ignorância. Tudo bem. Foi um momento de descontracção.
Seguiram-se muitas e variadas saídas por toda a Angola.
Já contei noutro local uma viagem a “Terras do Fim do Mundo” – Coutada do Mucusso, junto à fronteira da Namíbia.
Como foi no Fim de Ano, a missão principal era confraternizar com o pessoal mais isolado de Angola. Connosco seguia um convidado especial, o Vice-Reitor da Universidade de Lourenço Marques amigo do general.
Jantamos com os soldados e ficamos até cerca das 3 da manhã em amena cavaqueira. O general tinha um jeito especial para lidar com as pessoas. No dia seguinte visitamos Luengue, Vila Nova de Armada, Cuito Canavale e paramos para visitar a guarnição de Gago Coutinho. Aí esperava-nos um almoço especial mas, o General quis, primeiro, fazer uma visita à Unidade. Passamos pelo Refeitório dos soldados, em pleno almoço – uma bela feijoada. Pretendendo dar uma lição de simplicidade, mete conversa com alguns soldados, gaba o almoço e virando-se para o Comandante do Batalhão pergunta se pode partilhar do almoço com o pessoal. A resposta só poderia ser uma. Lá nos sentamos em agradável convívio. Saiu de lá com um elevado capital de simpatia mas, das classes baixas porque, os outros não gostaram.
Foto com dedicatória
Houve algumas missões muito especiais e até secretas, como por exemplo, uma Reunião no Palácio do Governador em Serpa Pinto com o Ministro da Defesa da África do Sul, e mais 2 entidades com altos postos para negociações quanto a apoios militares da África do Sul. Estive sempre presente, as conversações foram em inglês (levamos um tradutor – oficial da Armada) mas esforcei-me para não querer saber pormenores.
Também recordo o último voo que fizemos. Já de noite de regresso de Silva Porto para Luanda. Expressou-me a sua nostalgia e o desgosto por ter de regressar a Lisboa.
Tinha caído em desgraça perante a capital. Pouco tempo antes as forças vivas locais prestaram-lhe uma grandiosa homenagem. Isto assustou Lisboa. Tiveram medo duma Declaração de Independência.
Para a sua exoneração serviu de desculpa o ataque ao Caminho de Ferro em Nova Lisboa.
Infelizmente já faleceu.
Tenho imensa honra e ficarei infinitamente grato pela confiança que em mim depositou. – Obrigado General Almeida Viana

Cap. Fernando Moutinho