sexta-feira, 2 de maio de 2014

A PARTICIPAÇÃO DA FAP NA GUERRA DE ÁFRICA (1961-1975)




A preparação para a guerra

Importava, fundamentalmente, intensificar a presença militar. No âmbito aeronáu­tico essa presença era diminuta, por razões da dimensão do Poder Aéreo Nacional na altura.
Na grande reestruturação da Aeronáutica Militar em 1956, onde se passa do con­cei­to de forças aéreas para o conceito de Força Aérea, uma das áreas con­tem­­pla­das dizia respeito à extensão orgânica relativa ao espaço aéreo ultramari­no.
Por força destes diplomas legais, foram criadas as Re­giões Aéreas, uma abran­gendo o território continental, os Arquipélagos dos Açores, da Madeira, de Cabo Verde, e a Guiné; outra que incluia Angola e S. Tomé e Príncipe e outra com sede em Moçambique que incluía, além deste território, os ter­ritórios portugueses da Índia, Macau e Timor. Em cada uma destas Regiões estava prevista a constituição de Bases Aéreas, e outras clas­ses de aeródro­mos, no sentido de garantir uma cobertura total do Império Português, em termos de ju­risdição aérea. Levou ainda algum tempo para que os co­man­dos se organizassem e para que os meios fossem destacados para essas remotas paragens; contudo, estavam criadas as condições legais para uma implemen­ta­ção rápida face ao evoluir da situação.
Em 1957 o Subsecretário de Estado da Aeronáu­tica faz publicar uma Directiva para lança­men­to das infra-estruturas necessárias às operações aéreas nos territórios ul­tra­marinos portugueses, tanto na previsão da operação local como para apoio das aeronaves em trânsito na sua deslocação inter-teatros.
Em 1958 é efectuada uma visita de inspecção para avaliação da situação por uma equipa chefiada pelo Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, e no ano seguinte tem lugar o célebre Exercício Himba.
BA9 - 27-04-1959 - Exercicio HIMBA - Foto ex-OGMA 

O exercício HIMBA consistiu numa operação de transporte aéreo militar para verificar rotas e infra-estruturas, escalas possíveis para o trânsito e opera­ção, e numa demonstração de soberania, de pre­sen­ça militar portuguesa em Á­­fri­­ca; foram envolvidos 14 aviões, desi­gnadamente 6 Skymaster, 2 C-47 Da­­­kota, e 6 PV-2 Harpoon que voaram da Metrópole até Angola, utilizando ae­ró­dromos de escala, ao lon­go da rota oceânica. Em Angola, so­bre­vo­­aram Carmona, Santo António do Zaire, Cabinda, Malange, Henri­que de Carvalho e Lobito; foi realizado um grande festival aéreo em Luanda com desfile aéreo e terrestre, lançamento de tropas pára-que­dis­tas, e exercício de tiro ar-solo real, com a assistência de uma multidão entusiasta e orgulhosa da sua For­ça Aérea. Outros desfiles se realizaram em Sá da Ban­deira e Nova Lisboa. Esta acção teve uma impor­tância fundamen­tal do ponto de vista psicológico, junto da popu­la­ção, para além do teste operacio­nal a que se propun­ha. O exercício deixou no entanto uma marca negativa: um dos C-47 des­penhou-se à saída de Lisboa, na foz do Tejo, tendo falecido os 5 tripulantes e os 6 oficiais que nele seguiam em serviço, constituindo as primeiras bai­­xas da Força Aérea nestas novas campanhas africanas - as causas do acidente nun­ca foram determina­das, estando totalmente fora de hipótese qualquer acção intencional provinda do exte­rior.
A Força Aérea construiu em Angola quinze pistas principais, em Moçambique catorze, na Guiné cinco, para além de grandes ampliações e melhorias nas existentes naquela data e que eram em número reduzido.
As 3 frentes, Angola, Moçambique, Guiné
Para além da estrutura orgânica e da construção das infra-estruturas mínimas que permitiriam a dotação subsequente dos meios, haveria que estudar ou avaliar que tipo de guerra se iria enfrentar e qual deveria ser o sistema de for­­­ças aé­reas mais adequado, dentro das limitações existentes a vá­rios níveis.
Foi assu­mi­do que se iria operar num cenário de supremacia aé­rea, pelo que não foi considerada a questão da defesa aérea e do combate aé­reo. Não foi inicialmente considerada a possibilidade de utilização de armas anti-aéreas pelo inimigo, previsão que não veio a materializar-se, pois é sabi­do que nos três teatros o inimigo desenvolveu uma capacidade significativa nesta área, como iremos referir.
Em todo o caso, foram ainda instalados alguns radares de campanha, na Guiné e em Ango­la, para vigilância meteorológica e para apoio de tráfego, mas relativamente obsoletos e com baixa prontidão. E­xis­tiam ainda radares de artilharia que no caso da Guiné faziam a vigilân­cia do espaço aéreo e transmi­tiam a informação para o centro de operações aéreas.
Um outro prin­cípio adoptado foi de que se tra­ta­va de uma questão interna, não se prevendo operações fora do ter­ritório nacional, nem meios especificamen­te adequados a esse tipo de missão.
À partida esteve fora de questão a aquisição de meios altamen­te sofisticados, devido principalmente às restrições de natureza económica, embora a natureza dos meios não tivesse sido muito diferente da utilizada por outros países ricos em experiências do mesmo tipo.
O sistema de forças planeado no inicio da década de cinquenta no âmbito da aju­da mútua, aprovado pelo Ministro da Defesa, não seria de considerar, justa­mente porque a ajuda para este e­fei­to não seria possível, por razões políticas. Aliàs, esse plano foi abandonado ou reorientado para as necessidades de missão em África.
F-84 na BA9
Por outro lado, foi reconhecido que seria necessária uma força de dissu­a­são credível, com a dimensão apropriada: foi este princípio que levou ao destaca­mento de avi­ões de combate, como foi o caso do avião F-84G para Angola, e poste­riormente para Moçambique, do avião F-86F para a Guiné, entretanto regressado por imposição americana e substituido pelo avião FIAT G-91, também destacado para Moçambi­que, e de aviões de patrulhamento marítimo, como foi o caso do avi­ão P2V5 para Angola e Guiné e do avião PV2 para Angola e posterior­mente para Moçambique. Uma compo­nente muito importante nes­te cenário estratégico era a componente de trans­porte, não só da ligação da Metrópole com os teatros ultramarinos, mas tam­bém da ligação dentro de cada teatro - de início a frota existente de C-54 e DC-6 satisfazia as ne­cessidades para a ligação inter teatros (os C-54 estavam ao serviço desde 1947, fornecidos ao abrigo da ajuda mútua, e que atingiram um total de 16 aeronaves colo­cados na Base Aérea nº 4 nos Açores; os DC-6 foram adquiridos à PANAM em 1961 num total de 10, tendo ficado baseados em Lisboa; tanto os C-54 como os DC-6 viriam a ser abatidos em 1978); depois esta capacidade foi acresci­da com a aquisição de 2 Boeing 707 em 1969 (alienados em 1976) que tiveram uma ex­ploração e­xem­plar re­conhecida a nível internacional; pa­ra as ligações in­trateatro e para o transporte médio foram utiliza­dos os avi­ões Dakota existentes no inventário e foram adquiridos avi­ões Nord­Atlas a França.
Boeing 707 dos TAM
O avião conven­cional de ata­que e de apoio de fogo que teve maior a­pli­cação em todos os teatros foi o avião T-6 armado, adquirido a Fran­ça, a partir da Argélia, e à Alemanha. Para o transporte ligeiro e posto de co­man­do vo­lante foi ini­cialmente utilizado o avião AUSTER, fabricado em Por­tugal, nas OGMA, e posteriormente o DO-27 adquirido na Alemanha. Já na fase final da guerra entraram ao serviço aviões B-26 em Angola. Outros tipos de meios aéreos foram ainda utilizados sem expressão significativa. O meio aéreo mais utili­zado e com maiores sucessos em termos de apoio às opera­ções terrestres foi o helicópetro, em especial o Allouette III (O Allouette 2 teve uma explo­ra­ção operacional pouco significativa, e o SA330 só tardiamente foi adquirido).
Na fase final da guerra foram adquiridos 32 aviões Cesna FTB 337, Super­Sky­master, na versão armada, mas os aviões só foram recebidos em Dezem­bro de 1974. Foram igualmente adquiridos nesse período 24 AVIOCAR CASA 212 para transporte médio e também recebidos já depois da guerra em finais de 1974, princípios de 1975.
Não existia, antes do início da guerra, doutrina aérea específica para este tipo de operações, aplicando-se a doutrina aérea geral em vigor, que foi sendo sucessivamente aditada com especificações pró­prias do emprego do poder aé­­reo nos vários contextos, através de normas de exe­cu­ção permanente pro­mul­ga­­das em cada Teatro, e que, curiosamente, foram convergindo para uma certa uniformidade.
A fonte inicial de recolha de experiências foi a Força Aérea Francesa, em particular os ensinamentos colhidos na guerra da Argélia e também na In­doc­hi­na. Pierre Closterman foi convidado a vir a Portugal em 1960 tendo ti­do vários contactos e profe­ri­do uma conferência na Academia Militar sobre o emprego do Poder Aéreo em guerra subver­siva. A experiência britânica, em particular o conflito na Ma­lá­­sia, considera­do como um caso de sucesso das forças clássicas em guer­ra de guerrilha, foi igualmente estudada e tida em consideração. A fonte tradicional, a Força Aérea Americana, não dispunha à altura nem de experiência específica sobre guerra subversiva nem de doutrina particular sobre esta matéria, como é sabido.
Auster
A primeira acção de subvelação teve lugar em Angola, na Baixa do Cassange em Janeiro de 1961. Tratou-se de uma acção tumultuosa, de afrontamento às autoridades civis e militares, de ameaças à integridade de pessoas e bens. Esta acção foi neutralizada por uma força militar, a 4ª Companhia, e pelos meios aéreos, designadamente aviões Auster e PV2, em cerca de duas sema­nas.
Em Fevereiro dá-se um ataque concertado a vários pontos em Luanda, entre os quais as tentativas de assalto às prisões, à emissora de rádio, ao comando da polícia mó­vel, o as­sa­ssínio de po­lí­cias, e a partir de 15 de Março dá-se o genocídio em várias sanzalas do Nor­deste angolano, onde perderam a vida cerca de se­te mil pessoas, sendo mil de origem europeia.
Se dúvidas existissem quanto à intervenção militar nos territórios ultramarinos, este facto hediondo não deixou margem para a passividade ou para a negociação pacífica. É assim que começam as operações militares que iriam durar até 1975. Com estes actos, toda a hipotéctica negociação pelo diálogo tornou-se cada vez mais longínqua.
A estraté­gia militar orientou-se segundo as seguintes vertentes: des­tru­ir a ca­paci­da­de mi­litar inimiga, isolar o inimigo das populações aliciando-as para a causa por­tuguesa, penalizar ou desestabilizar aquelas que apoiavam o inimi­go, criar condições para o desenvolvimento económico, social e político.

As operações aéreas em Angola

Nordatlas no AB3
Por altura dos acontecimentos na Baixa do Cassange, o único aeródromo mi­litar em Angola era o de Luanda, a Base Aérea nº 9. Os meios aéreos aí estacionados eram 11 PV2, 7 aviões de transporte NORDATLAS, 4 aviões ligeiros DO-27, 4 BROUS­SARD e alguns T-6G (des­ti­na­dos ao AB3, como adiante veremos). Nesse mês de Ja­nei­ro de 1961, os aviões PV2 fizeram 38 mis­sões operacio­nais, e idênti­co número em Fe­vereiro, repartidas por acções de ataque inde­pen­dente, ata­que em apoio próxi­mo de forças terrestres e de populações, re­con­he­cimento aéreo e eva­cuação sanitária. Naturalmente, a área de operações era a Baixa do Cassange. Os NORDATLAS efectuaram 19 missões em Janeiro e 34 missões em Fevereiro, em transpor­te de pessoal e de carga.
No final do ano de 1960 tinham sido destacados para Carmona, 4 aviões ligei­ros Auster, utilizados em acções de re­con­hecimen­to visual, posto de con­trolo volante, transporte de carga, eva­­cua­ção sanitária, aterrando em pistas im­pro­visadas. Du­ran­te os aconteci­mentos na baixa do Cassange estas 4 aero­na­ves voaram cer­ca de 200 horas de voo, o que significa que a zona foi so­bre­vo­a­da durante quase todo o perí­odo diurno, detectando movimentos de gru­pos sublevados, orientando as for­ças no terreno de forma muito primária, dada a inexistência de comunica­ções ar/terra, fornecendo ví­ve­res, munições às forças e aos elemen­tos ci­vis si­tia­dos, fazendo as ligações possíveis. Em 6 de Fe­ve­reiro duas destas aero­na­ves são destacadas para Malange em realiza­ção do mesmo tipo de activi­da­de aérea.
AB3 Negage

Desde meados de 1960 que vinha sendo construido o aeródromo do Negage, situado a cerca de 150 milhas a Nordeste de Luanda. Em 7 de Fe­vereiro de 1961 tem aqui lugar a primeira aterragem de um Auster e de um NORD, embora as instalações do aeródromo, particularmente o quartel, só tivessem ficado conclui­das em Se­tem­bro desse ano. Este aeródromo militar, já legal­men­te constitui­do do an­terior, tinha recebido a designação de AB3.
Como já referimos, em 15 de Março de 1961 tem início uma ofensiva brutal, por parte de vagas hu­manas armadas de catanas e canhangulos, contra povoa­ções e fazendas de agricultores, nos distritos do Zaire, Uige e Cuanza Nor­te, em especial Quiba­xe, Vista Alegre, Aldeia Viçosa, Quitexe, Quicabo, No­va Caipemba, Nam­bu­an­gon­go, Zalala, Quibala, Bessa Monteiro, Madimba, Canda, M’bridge, Bu­e­la e outras. Os rebeldes mataram milhares de pessoas, todas civis, inclu­in­do mais de um milhar de brancos. Muitos destes locais foram ocupados pe­los atacantes, com fuga da população residente. Noutros locais a popula­ção­ conseguiu re­sis­tir e ficar, constituindo autênticos redutos permanente­men­te ameaçados, sem possibilidade de fuga e tentando so­bre­vi­ver. Esta ac­ção cri­ou pânico em toda a região, o que originou um ê­xo­do qua­­se com­pleto dos re­si­dentes, mes­mo daqueles que ainda não tinham sido ameaçados.
Aviões ligeiros, civis e militares, procederam ao transporte das pessoas apavoradas em fuga, concentrando-as no aeródromo do Negage, donde se procedeu a uma ponte aérea para Luanda de cerca de 3.500 pessoas, essencialmente com aviões NordAtlas.
Em 16 de Março chega a Luanda, via aérea, a primeira companhia de pára-que­­distas. O dispo­si­ti­vo terrestre é reforçado com forças provindas da Metró­po­le e são lança­das operações de grande envergadura nas zonas afectadas.
Nestas operações de cerco e recuperação de posi­ções, como foi o caso da ope­­­ra­ção Pedra Verde, da operação de assalto a Nam­­buan­­gon­go, e das opera­ções na serra da Canda e em Sacandica partici­pa­ram as unidades aéreas da Base Aérea nº 9 em Lu­anda, e do Aeródromo Base nº 3 no Negage.
PV2 Harpon
A Esquadra de PV2 (ESQ 91) efectuou 56 missões operacionais em Março e 88 em Abril, com uma média mensal de 60 horas de voo por piloto atribuído. A Esquadra de NORD (ESQ 92) executou 92 missões em Março e 103 mis­sões em Abril, com uma média mensal de 45 horas por piloto atribuido.
Este esforço de voo iria au­mentar num crescendo até Novembro de 1961 - os PV2 vo­aram cerca de 3.000 horas nesse ano, e o número mensal de mis­sões foi-se aproxi­mando da centena (em Julho); os NORD voaram no mes­mo período 2.600 horas (até ao final do ano trans­portaram cerca de 29.000 passageiros e cerca de três mil e quinhentas toneladas de carga).
Na última quinzena de Março chegaram ao aeródromo do Negage, voando de Luanda, 4 aviões T-6G armados, que já dis­pun­­ham de equipamento rádio para o con­tacto com as forças de superfície, em frequência modulada.
DO 27 e T6
Estes números foram aumentando progressivamente e no final do ano já se en­­contravam neste aeródomo base 15 T-6G e 9 DO-27. No mês de Março os a­vi­ões T-6 executaram 22 missões operacionais, 72 em Abril e 103 em Maio (valor mais elevado do ano) sendo a maior parte em acções de reconhecimento armado. Foram executa­das 11 acções de apoio aéreo próximo em A­bril e 25 em Maio. Os aviões DO-27, que em Abril e Maio eram apenas 4, efectua­ram 96 missões em Abril e 161 em Maio, com uma média de cerca de 50 ho­ras/piloto atribuido/mês; em Abril os pilotos de DO-27 eram 13, em Julho 18 e em Novembro 22. A frota de T-6G efectuou até final do ano de 1961, 1.867 horas de voo, e a frota de DO 27 efectuou 3.254 horas de voo no to­­tal desse ano. Todos os pilotos colocados no Aeródromo Base esta­vam qua­li­ficados em mais do que uma aeronave, para suportar este esforço de voo a que a Unidade era solicitada, em situação de emergência. Estes núme­ros dão-nos uma ideia do progresso da dotação de meios neste Aeródromo Base; naturalmente que, ao mesmo tempo que estes meios aéreos e respecti­vo pessoal de operação e manutenção iam che­gan­do à Unidade, iam-se esta­be­­le­cen­do os fluxos logísticos necessários à sua sustentação.
Em Agosto de 1961 entram em cena dois outros tipos de meios aéreos: o F-84G in­te­grado na ES­QU­ADRA 93 e o helicóptero AL II na Esquadrilha de Trans­por­te e Reconhecimento, constituindo-se depois a ESQUADRA 94, am­­bas da Base Aérea nº 9.
Municiamento de F-84 na BA9
O avião F-84G, cedido ao abrigo da ajuda mú­tua, que tin­ha sido abatido ao in­­ven­tá­rio da Força Aérea, na Metrópole, em 1961, iria ser apro­veitado para missões de reconhecimento na fronteira Norte, para in­ter­cepção de eventuais reabastecimentos das forças rebeldes, e detecção de corredores de infiltração, para missões de interdição ou ataque in­dependente, para apoio de fogo às forças de superfície. Para além das me­­­­tral­hadoras de .50 polega­das, internas, dis­punha de esta­ções externas on­de po­de­riam ser suspensos di­ver­­sos tipos de ar­mamento, co­mo foguetes de 2.75 e de 5 polegadas, bombas de 50 e de 200 quilos e de 250, 500 e 750 libras. No final de Agosto já esta­vam pron­­tos 5 aviões (transportados via marítima de Lis­boa, com mon­ta­gem em Lu­anda), com 7 pilotos atribuídos que exe­cu­taram no total 44 acções nes­­se mês; no mês seguinte este va­­lor passou para 139 acções, sen­do 66 de a­poio próximo, 14 de reconhe­cimento, 8 de patrulhamento da fron­teira Nor­te, 29 de ataque independente e 22 de outra natureza, como por exemplo, voos de teste, de demons­tra­ção, de treino ou de pre­sen­ça. A partir de Outubro ficaram pron­tos 11 aviões. De sublinhar que a taxa de prontidão da frota foi de 80% em Agosto, 77% em Setembro, 66% em Outubro, 82% em No­vembro e 90% em Dezembro de 1961, números que impressionam para uma frota previa­mente “extinta” por ter atingido o fim do seu ciclo normal de vida.
Fundamental­mente, a ES­QUA­DRA 93 constituia-se como elemento dissua­sor importante, não só no plano interno como no plano internacional, para além da acção directa rele­vante, dado o seu poder de fogo. Quando estalou a guer­ra em Angola surgiu a notícia de que estariam disponíveis para oferecerem os seus serviços à guerrilha, aviadores estrangeiros que, com pequenas aeronaves po­de­riam atacar objectivos de grande importância, escapando-se incólumes pa­ra santuários próximos, em países vizinhos - como não exis­tiam meios de de­fe­sa aérea, designadamente meios de cobertura radar e in­ter­cep­­to­­res, e como tais aviões não necessitariam de grandes infraestruturas para ope­rar, pode­riam constituir-se como armas poderosas, em especial con­tra o Poder Aéreo. Es­ta notícia não se veio a confirmar em Angola, mas o a­vi­ão F-84 pode­ria ter sido o meio mais adequado para se opôr, em certa medi­da, a esta ame­a­ça.
Uma das primeiras preocupações da Força Aérea foi a de estabele­cer um pla­­­­no de comunicações. Estabeleceu-se um serviço fixo em grafia, SSB, que ligava o Comando da Região Aérea com NEGAGE, MAQUELA, CABIN­DA e TOTO, e um serviço móvel de Aeronáutica em HF que ligava os pos­tos acima referidos com algumas aeronaves que dispunham deste tipo de re­­ceptores; nos aeródromos foram mon­­ta­das as torres de controlo a operar na banda do VHF. Todas as aerona­ves, à ex­cepção do F-84, do NORD e do C-54, foram equipadas com VHF/FM para con­tacto com as forças de superfície. As únicas ajudas rádio à navegação eram radio faróis instalados nas bases principais. Foi instalado um radar em Negage, relativamente obsoleto.
A actividade aérea neste período continuou no ritmo já referido, não só na participação nestas operações mas também em acções de presença e de apoio logístico a militares e civis noutras áreas de Angola. Fora das zonas onde ain­da não existia presença de forças militares portuguesas, a Força Aérea actuava de forma independente, sem necessidade de coordenar a sua acção, dentro da estratégia definida a nível superior, quer através do reconhecimen­to e patrulhamento, quer por acções de ataque quando os objectivos se consi­de­ra­vam importantes.
A declaração de estabilidade em finais de Setembro de 1961 não significou obviamente o fim das operações militares. O regime político classificou a par­­­tir de então as operações como operações de polícia, por razões de estratégia política internacional, mas na realidade elas foram operações de guerra, na forma de guerrilha. Como se referiu, só o Norte da Província foi atingido por esta onda de violência, que era dirigida a partir do Congo.
A diferença fundamental na situação militar foi na forma de actuação das for­­­­ças rebeldes: na primeira fase, entre Março e Setembro, traduziu-se por mas­­­sa­­­cres de civis, com ar­mas brancas e canhangulos, em que as forças re­bel­des se movi­men­ta­vam em terreno descoberto contra as populações e forças militares, em grandes massas humanas fanatizadas. Era relativamente fá­cil detectar as movimentações destas hordas pelo reconhecimento aéreo, ou detectar sinais suspeitos de ataque iminente, as­sim como era possível con­ter o seu avanço com acções aéreas de fogo, inti­mi­datórias. Na fase que se se­guiu o inimigo dissimula-se na mata e actua por emboscada às colunas mi­li­tares, por acções de flagelação contra os quartéis, sendo muito mais difícil a sua detecção; as forças inimigas em presença passam a ter um carácter mili­tar, com preparação política e técnica, e começam a utilizar arma­mento ter­res­tre mais sofisticado - em vez das catanas e canhangulos, passsaram a ter armas automáticas, minas e morteiros, deixando de atacar as populações pa­ra atacarem as nossas forças, segundo a técnica do bate e foge, infiltrando-se na mata, difícil de penetrar pelas forças militares convencionais. Contudo, têm ou­tro tipo de difi­culdades: a aderência da população, muito alheada da motiva­ção ideo­ló­gica ou política, que na sua maioria quer paz, e a necessi­da­de de se rea­bas­tecerem do outro lado da fronteira criando corredores de infiltração com um mínimo de pontos fi­xos ou rotas determinadas indispen­sá­veis, mas detectáveis.
Conforme se referiu, as acções aéreas eram muito orientadas para o reconheci­mento visual, para o reconhecimento armado, para o ataque contra peque­nos alvos muito bem localizados e acerca dos quais se dispunha de informa­ção quanto à existência de guerrilheiros, para o apoio fogo directo às forças ter­res­tres, para além das acções de apoio logístico em benefício das forças militares e de civis. De realçar as missões de assalto com helicópteros, a partir da chegada dos ALIII, e tropas especi­ais, com apoio de fogo dado pelo T-6, pelo PV2, pelo F-84, e pelo heli­can­hão (tiro lateral com canhão de 20 mm). A acção de pistagem foi tam­bém executada com helicópteros e pára-quedistas, que consistia na descober­ta e seguimento de trilhos ao longo das infiltrantes do Norte, e que conduzia à detecção, aprisionamento ou ata­que de grupos guerrilheiros em acções de reabastecimento.
BA9 - Luanda
Em Angola existiu apenas uma base aérea, a BA nº 9, durante todo o período da guerra até 1975. Existiam dois aeródromos-base, um em Negage, o AB nº 3, constituido logo em 1961, como vimos, outro em Henrique de Car­valho, o AB nº 4, guarnecido mais tarde. Foi legalmente constituído um ter­cei­ro, o AB nº 10 em Ser­pa Pin­to, mas que nunca teve actividade significativa. Para além destas infraestruturas principais existiam ainda aeródromos de manobra (AM) e aeródromos de re­curso. Dependente da BA 9 existia o AM 95 em Cabinda; do AB 3 dependiam os AM 31 em Ma­­­que­la do Zombo, AM 32 no Toto, AM 33 em Malange; do AB 4 de­pendiam o AM 41 em Por­tu­gália, o AM 42 no Ca­­maxilo, o AM 43 no Ca­zom­bo e o AM 44 no Luso. Os aeródro­mos de re­curso eram os da N’Riquin­ha, do Cui­to Canavale, de Gago Coutinho, Cacolo e Tei­xeira de Sousa, entre outros.
AB4 - Henrique de Carvalho
A partir dos tempos tumultuosos do ano de 1961, as operações militares em Angola entraram numa fase de rotina, na Zona de Intervenção Norte, no sentido em que assumiram uma caracterização própria da guerrilha, com controlo do território por parte das nossas forças.
Surgiram entretanto outros movimentos, o MPLA e a UNITA, e o movimento inicial UPA evo­luiu para FNLA. Por razões de natureza política, as forças destes movi­mentos deslocaram-se para leste, cerca de cinco anos de­pois das operações iniciais no Norte, o que forçou à criação da Zona de Inter­­ven­ção Les­te (ZIL) que abrangia os distritos da Lunda e do Moxico. A partir de 1966 as forças portuguesas passaram a confrontar os três movimentos nesta ZIL, o que obrigou a um redirecionamento do esforço. O AB 4 foi reforçado com 6 PV2, dos quais 2 estavam destacados em permanência no Luso, e em 1968 já dispõe de 1 avião Bechcraft 45, de 11 T-6G e 11 DO27 que voavam cerca de 300 horas por mês, no total.
Alouette III estacionados no Luso

A frota de helicópetros Allouette III, que havia chegado em 1963, atingiu em 1972 o seu valor máximo de 29 unidades que efectuavam cerca de 4.500 horas de voo por ano, sempre organicamente atribuida à BA9, mas com desta­ca­men­tos por várias bases do teatro de operações, em acções de transporte de assalto, de apoio de fogo e de evacuação sanitária.
Em 1970 chegam ao teatro de operações 5 helicópteros SA-330, PUMA, in­te­grados na ESQUADRA 94 mas a operar no Leste; no ano seguinte a frota é reforçada com mais 1 helicópetro deste tipo. Até fins de 1973 efectu­aram em média cerca de 1.200 horas de voo por ano. Estes helicópetros esti­ve­ram des­ta­cados em Moçambique, no AB 7, num total de 3 em 1973 e de 5 em 1974.
Puma SA-330

Entre 1963 e 1966 esteve destacado na BA 9 para patrulhamento, um avião P2V5 que efectuou 1.064 ho­­ras de voo em 508 missões no primeiro ano, 1.083 horas de voo em 162 missões no ano seguinte, e 200 horas de voo e 39 missões no último ano de destacamento.
No início das operações aéreas esteve destacado em Angola um avião Skymas­ter com a missão primária de lançamento de pára-quedistas e transporte geral dentro do teatro. Para além destas missões executou voos de reconheci­men­to na fronteira norte para detecção de infiltrações, ao longo dos rios Zai­re e Cuando. Ao final de poucos meses regressou à Metrópole para a execu­ção das missões de transporte inter-teatros.
Para além da reorientação do esforço com o surgimento da guerra a Leste, o dis­positivo altera-se ligeiramente, com maior activação dos aeródromos já men­cionados, com a introdução da frota de B-26, em número de 4 aeronaves, em Outubro de 1972, e com o abate dos aviões F-84 em Novembro seguinte.
AM 44 - Luso

O Aerodromo de Manobra do Luso passa a ser o centro das operações aéreas, com PV2, T-6, DO27 e ALL III, ali estacionados ou baseados no AB 4.
As operações assumiram um carácter de rotina e as forças armadas portuguesas procuravam desarticular o dispositivo inimigo, que sofria muitas dificul­da­des no terreno, de vária ordem - a primeira das quais terá sido a falta de união entre os três movimentos. A batalha pelo desenvolvimento continuava em toda a Província, agora que estavam atingidas as condições de segurança ne­ces­sá­rias.

Tenente-general PilAv António de Jesus Bispo
Revista Militar
Fotos do Clube de Especialistas do AB4

sexta-feira, 25 de abril de 2014

NA MADRUGADA DO DIA DE HOJE


Na madrugada do dia de hoje, há 40 anos, começou o fim de um regime político.

Na madrugada do dia de hoje, há 40 anos, começou o fim de uma guerra, que consumiu gerações de jovens.

Na madrugada do dia de hoje, há 40 anos, começou o fim de uma guerra, que consumiu gerações, de pais, esposas, filhos, que viram partir, os seus meninos, maridos, pais. Uns milhares, para todo o sempre.

De alguns desses jovens, apenas regressou o nome, que jaz inscrito, numa fria lápide, junto ao rio, de onde um dia partiram, para sempre.


Recordo, ainda hoje, jovens a quem vi a vida a extinguir-se, ou já extinta, em nome de uma “Pátria, una, indivisível, do Minho a Timor”.

Em nome de uma Pátria, cujos dirigentes, não souberam ou não quiseram, interpretar os “ventos da História”.

Um dia, hoje já não muito distante, este episódio da História Portuguesa, à semelhança de outros, mais não será, que uma nota de rodapé.

Que, pelo menos, até ao desaparecimento do último sobrevivente, não sejam esquecidos, os jovens, que naquela guerra perderam, a inocência, a juventude, o sorriso, a alma, o sangue, o corpo, a vida.








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quinta-feira, 17 de abril de 2014

A PANELA DE PRESSÃO


Uma recruta
Estávamos na penúltima semana da recruta, a minha secção foi punida com uma carecada geral, e um fim de semana de serviço, por ser apanhado desenfiado numa noite de instrução nocturna. Cada um foi destacado para cumprir o castigo nos diversos serviços da base que funcionavam aos fins-de-semana. A mim coube-me o serviço de faxina nas cozinhas dos refeitórios, deram-me uma faca uma palete de sacas de batatas e vários contentores de plástico semelhantes aos usados para a recolha do lixo, e eu mais três felizardos passámos todo o dia a descascar batatas para dentro dos contentores, no fim da tarde tínhamos descascado a totalidade da palete, e fomos dispensados.
No Domingo, achei que aquilo já eram batatas a mais e comecei a pensar como é que
Messes
seria possível safarmo-nos a tamanha catrefa de batatas, no dia anterior tínhamos colocado todas as batatas,
 nos contentores de plástico com água a cobrí-las para que não se estragassem. Teria que ser por aí que teríamos que fazer a falcatrua... paletes de sacas de batata não faltavam, contentores também não, água a mesma coisa, resolvi dar uma volta pelo armazém da cozinha, uma pilha de tabuleiros de plástico atraiu-me a atenção, peguei num virei-o ao contrário e enfiei-o no fundo do contentor, com os seus vinte e cinco centímetros de altura, comia para aí uns bons quilos de batatas no final só tínhamos que distribuir as sacas que sobrassem pelas restantes paletes. 
Era Domingo de manhã, não havia ninguém à vista que pudessem interferir na “tramóia”, quando acabassem por descobrir os tabuleiros no fundo dos contentores, já nós estaríamos de férias, e ninguém se ralaria com isso, pois de certeza que os soldados que descobrissem a coisa não iriam fazer queixa sem saber quem iriam tramar, podendo até sobrar para eles.
As "panelas de pressão"
Estávamos a discutir se avançávamos ou não, quando começámos a ouvir alguém a cantar desafinadamente como se estivesse no banho, olhámos uns para os outros pela surpresa de não estarmos sozinhos e fomos trazendo tabuleiros até termos contentores para os enfiar, depois sentámo-nos calmamente a descascar o resto das batatas. Passaram uns minutos e entrou o Oficial de dia com o responsável pelas cozinhas, e em fundo continuava a cantoria. Depois de passarem por nós, o Oficial de dia resolveu ir espreitar o contentor que estávamos a usar, levantou a tampa e ficámos na expectativa, depois dele fechar a tampa e de seguirem em direcção á sala que tinha as panelas de pressão, atenção que não eram panelas como temos em casa, eram uns recipientes em forma de taça, com cerca de um metro e meio de diâmetro em material inox, com tampa hidráulica que fechava hermeticamente (autoclaves). 
Todos os dias tinham de ser lavadas por dentro, como as normais, para retirar os restos de comida, de modo a não adulterar o sabor e a qualidade dos alimentos nelas cozinhados, teriam um metro e sessenta de altura do nível do chão, e quando o oficial de dia e a restante comitiva entraram na sala, depararam-se com um espectáculo impensável, um dos soldados que tinha sido incumbido de lavar as panelas resolvera tomar banho dentro duma delas usando o vapor para aquecer a água, e o detergente industrial para se ensaboar. Era ele que cantava desafinadamente no “Jacuzi” para espanto dos presentes, não restando ao Oficial de dia outra atitude que não fosse dar-lhe ordem de prisão imediata, obrigando-o a marchar nu na sua frente para a prisão.
E quem era o banhista afinal, era o famoso “Zé do burro”, o mesmo que andava com o carro de recolha do lixo pela unidade, e que dizia a voz da caserna “ser o burro mais inteligente que ele”, mas ninguém tinha melhor vida que aquele “bacano” o burro já fazia hà tantos anos o serviço, que sozinho dava a volta à Unidade, e quando não vinham despejar o lixo no carro, zurrava até que alguém aparecesse e o mandasse embora do início ao final do percurso, e o Zé esse estava sempre desenfiado nalgum lado...
No dia seguinte, pensávamos nós que não haveria recolha do lixo, mas para espanto de todos, lá vinha o burro à frente com o carro, e o Zé “careca” e “murcho”, com um PA ao lado sob prisão, atrás.

Ota Abril de 1970.

OPC ACO

sexta-feira, 11 de abril de 2014

A ORIGEM DA CONTINÊNCIA MILITAR

A continência militar tem uma origem comum com o nosso hábito de apertar a mão, e ambos datam dos tempos em que, geralmente todos os homens andavam armados.
Quando dois homens se encontravam, em boa paz, cada um deles levantava a mão direita para mostrar que não trazia qualquer arma e que se podiam aproximar em segurança. Quando os civis deixaram de trazer armas, continuou o hábito de levantar a mão direita, em forma de saudação. Tornou-se, depois, o costume de tocar as mãos e finalmente, passou-se ao aperto de mão, tal como hoje o conhecemos. Algumas pesquisas indicam que a continência foi criada na época medieval, onde os cavaleiros, para identificarem-se aos seus superiores abriam a parte frontal de seu elmo, com um movimento similar ao de prestar continência.
Diante do rei, os cavaleiros, que se protegiam com enormes armaduras, eram obrigados a se identificar. Para isso, tinham de erguer a viseira do elmo, o capacete medieval, com a ponta dos dedos da mão direita. O gesto era também um sinal de paz, porque com a mão no elmo o cavaleiro não poderia sacar a espada – e assim evitava reacções hostis e era um sinal de respeito na presença dos soberanos.
Com o tempo esse costume espalhou-se também entre os membros de um exército: a mão levada a testa era o início de um aceno amigável; servia também como uma espécie de senha, pois tinha muitas variações para confundir os inimigos.
No caso daqueles que continuaram a usar armas – os militares- o levantar a mão tornou-se uma questão mais grave, resultando daí a actual continência ser cerimoniosa. Continência é a saudação militar e uma das maneiras de manifestar respeito e apreço aos seus superiores, pares, subordinados e símbolos.
A iniciativa de prestar continência deve vir sempre da patente inferior e obrigatoriamente respondida pelo superior hierárquico. Talvez por isso – como em tudo na humanidade – algumas pessoas confundam esse nobre gesto com afirmação de superioridade ou mesmo para ratificar a condição “inferior” de seus comandados, originando inclusive, casos de abuso de “superioridade” de alguns militares de patente mais elevada, que muitas vezes não correspondem ao cumprimento.
A saudação militar conhecida como "bater continência".
Nem em todas as Forças Armadas têm o mesmo modo de cumprimentar.

Nos vários Ramos das Forças Armadas dos vários países, há formas diferentes de fazer continência: as palmas da mão nem sempre são posicionadas da mesma forma, dando origem a que por exemplo sejam feitas com a palma virada para fora
Histórias curiosas e ao mesmo tempo verdadeiras.
1º.
Um soldado desatento passou pelo capitão e não o cumprimentou da maneira correcta. Imediatamente o oficial chamou a atenção do soldado, aos berros e exigiu que ele lhe prestasse continência 50 vezes seguidas. Dessa maneira – acreditava o capitão – ele aprenderia a lição e não cometeria novamente esse ato de insubordinação.
E assim fez o soldado, seguidamente movimentando seu braço direito enquanto o capitão realizava a contagem.
Um pouco mais afastado, um coronel observava tranquilamente o desfecho da cena. Ao final das 50 continências, é o coronel quem intervém:
Capitão, vi que o soldado prestou 50 continências para o senhor. Pois bem, é seu dever retribuí-las.
2ª.
Um soldado, também desatento, passando por um general esqueceu~se de lhe fazer a continência e quando se apercebe do erro ficou sem saber o que fazer.Enchendo-se de coragem pediu para falar com o general, o que lhe foi concedido.Na sua presença desfaz-se em desculpas.O general depois de ouvir o soldado manda-o em paz, alertando no entanto que nunca se esqueça de cumprimentar o sargento...

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sexta-feira, 4 de abril de 2014

CHISSOIA



– «Quando a luz difusa que anuncia o amanhecer tropical começou a dar cor ao casario da cidade [de Luanda], havia já na marginal um movimento desusado. Ao fundo da avenida, frente ao porto, a praça fora engalanada com bandeiras e a tribuna erguida na véspera, recheada de cadeirões forrados a veludo vermelho, aguardava, imponente, a chegada das individualidades. Comemorava-se o Dez de Junho e Portugal, de Camões e da Raça, e os heróis iam ser solenemente exaltados.
Do alto do pedestal a estátua do navegador, erguida no centro do largo, olhava a baía a que os raios do sol nascente douravam já as águas tranquilas, como se aguardasse ainda a chegada das naus, deslizando suaves e silenciosas, como cisnes negros de asas brancas.
Nesse tempo, a população descia dos morros e barrocas sobranceiras à zona ribeirinha, esperando que os nautas varassem os botes na praia para o encontro dos mundos que "o mar já unia". Agora, a baía, que se recorta como um sensual dorso de mulher, foi pudicamente coberta com o manto verde das palmeiras da marginal, e na comunhão dos mundos só as naus estão ausentes. Portugal e o mar ali estavam, marcando presença perante uma população que, a pouco e pouco, tomou a côr da mestiçagem de sangue e vivência, deixando perplexo, quem se interrogasse, de que raça se iriam enaltecer as virtudes naquele dia!
A praça fora enchendo. As cadeiras da tribuna tinham sido ocupadas e um general, em voz monocórdica e enrouquecida, lia o discurso onde salientava que quinhentos anos de esforço, e querer, uniam o herói que, ali imortalizado em pedra, olhava absorto o oceano sem fim, aos heróis de hoje que, frente à tribuna, aguardavam o agradecimento da Pátria reconhecida.
Perfilado, com a dignidade de um bem-nascido, altivo no camuflado verde, o Chissoia aguardou o chamamento e a leitura do louvor em que era descrito o seu acto de bravura. Subiu os degraus da tribuna e, como se fosse talhado em ébano, sem mover um músculo, abriu o peito largo onde o general, quase em bicos dos pés, lhe colocou uma Cruz de Guerra, dizendo-lhe em voz baixa que Portugal sentia orgulho por ter filhos como ele. Regressou ao lugar na fila dos heróis e, erecto, assistiu ao desfile de estandartes dos batalhões espalhados pelos confins do território, à passagem do corpo de fuzileiros, do regimento [CI] de comandos, dos flechas e dos leões de Cabinda, que em marcha acelerada entoavam canções guerreiras. A cavalaria fechou o desfile a galope curto, com garbo e tradição.
Era impressionante a portugalidade que se respirava e as gentes, de todas as cores, que tinham emoldurado a praça, ao dispersar derramavam na cidade a confiança inabalável no Portugal granítico e multirracial que, naquela manhã, tinha estado presente naquele largo, frente ao porto.
Quando conheci o Chissoia era ele já um veterano de guerra, não que fosse velho, pelo contrário, apenas começara cedo e aprendera depressa. Parece que desde pequeno acompanhava o pai como pisteiro de elefantes. O Lucusse, onde nascera, era uma zona de passagem dos paquidermes que, nos seus itinerários até ao rio Lungué-Bungo, muitas vezes destruíam o trabalho de meses no arranjo das lavras. Entre os animais e os aldeões travava-se uma luta pela sobrevivência, em que nem sempre eram os humanos os vencedores. Era assim natural que os caçadores, convidados pelo governador do distrito [do Moxico] ou pelos homens importantes da província, fossem vistos com agrado pelas populações, pois além de abater alguns animais, afugentando por algum tempo as manadas, deixavam toneladas de carne que, mesmo dura e fibrosa, o soba e o velho Chissoia ficavam encarregados de distribuir. Aos brancos só os dentes interessavam, e o velho pisteiro aguardava que os crânios enterrados apodrecessem para lhes retirar as presas que, numa próxima visita, entregava já limpas de medula.
Foi nessa época que os Chissoias, pai e filho, se tornaram amigos de gente importante. O profundo conhecimento das matas e a perícia em seguir e interpretar trilhos como quem lê um livro, aliados à camaradagem que a aventura comum proporciona, permitiu-lhes sentar-se, conversar e comer lado a lado com os grandes da terra que, amiúde, os presenteavam como prova de reconhecimento. O prestígio do velho Chissoia era grande perante as populações, não só dos povoados próximos, como de toda a região.
Corriam tranquilos os primeiros anos da década de sessenta. A luta que se ateara no Norte do território não tinha chegado ainda às planícies sem fim do Leste. As matas eram seguras e, logo pela manhã, as mulheres seguiam em fila e sem receios, para as lavras onde recolhiam lenha e mandioca para o sustento da prole.
1971 - Com. Chissóia dos
Flechas
Uma madrugada apareceu no Lucusse um grupo de gente estranha à região. Vinha armada e queria falar com o soba. Depois de uma longa conversa, e perante a atitude de incompreensão e até de alguma hostilidade, o chefe do grupo resolveu utilizar um meio de persuasão mais eficaz e, perante a população aterrorizada, fuzilou o soba por ser um chefe corrupto e o velho Chissoia por ser lacaio dos colonialistas. O filho fugiu para a mata e, passados dias, chegou à capital do distrito, onde contou o sucedido. Acompanhou depois a força militar que foi enviada para a zona e seguiu, até ao fim, a pista de rastos humanos como o pai lhe ensinara a seguir a dos elefantes.
A partir dessa época ficou ligado ao destacamento militar que foi aquartelado na povoação. O seu conselho e actuação foram sendo cada vez mais imprescindíveis, acabando por ser integrado nas forças irregulares, chefiando um grupo de homens escolhidos por si e com relativa autonomia.
Quando a luta de defesa do território foi alargada ao Leste para suster a tentativa do inimigo de alcançar o planalto central por essa via, a táctica das nossas forças teve que se adaptar ao terreno plano e com grandes extensões pouco povoadas. A Força Aérea iniciou então uma colaboração íntima nas operações terrestres, proporcionando uma maior mobilidade através de helicópteros e aviões ligeiros. Foi nessa época que conheci o Chissoia, e muitas horas passadas em amena conversa, junto das fogueiras que aqueciam as noites frias das savanas de leste, caldearam a amizade e a admiração que desde então sentia por ele.
Uma tarde, quando o crepúsculo já anunciava a noite que cairia breve, perto do Lago Dilolo, quando o seu grupo dava protecção a um movimento das nossas tropas, houve uma emboscada e dois soldados feridos jaziam no chão dentro do campo de tiro do inimigo, que continuava a alvejá-los.
Passado o primeiro momento de surpresa, o Chissoia levantou-se e, a descoberto, com a arma ao quadril, fazendo fogo para se proteger, foi buscar um e, depois, o outro, arrastando-os para lugar mais seguro.
Foi por esse acto de bravura que o Chissoia esteve presente naquele Dez de Junho, em que o general se esticou para lhe pendurar a condecoração na farda honrada e que, passados tantos anos, algures num recanto de Portugal, dois homens de meia idade podem recordar, em reuniões de família, como uma vez, quando estavam no Ultramar, um preto lhes salvou a vida.
O ano de setenta e quatro decorreu convulso! A esperança inicial, transmitida pelos novos políticos no poder, em vez de tranquilizadora e bem colocada, parecendo ter a percepção da complexidade dos problemas a enfrentar, fora substituída por dúvidas cada vez mais angustiantes. As cidades tinham acolhido com palmas os guerrilheiros vindos das matas, aplaudindo-os como actores inesperados, num final de acto antecipado e improvisado, mas antes do fim do ano muitas das mais importantes povoações eram já palco de lutas entre os diversos movimentos, com recurso a armas pesadas, que destruíam tudo o que fora construído com sacrifício e amor.
As Forças Armadas portuguesas, desviadas dos seus objectivos e da sua missão, assistiam a tudo como espectadoras, ocupando, salvo raras excepções, um lugar pouco digno.
A partir do meio do ano setenta e quatro, começaram a chegar a Lisboa os soldados do fim da era imperial. Traziam estampada no rosto, na farda e na mente, a parte negativa da revolução.
A população civil começara há muito a sair face à insegurança em que se passou a viver, e muitos de nós, militares, habitávamos as casas vazias onde tínhamos vivido com as famílias, aguardando o fim da missão.
Uma noite ouvi um bater tímido de palmas no quintal da casa que ainda ocupava. Quando abri a porta, o Chissoia e a família estavam à minha frente.
"Preciso de ajuda!" atirou, quase envergonhado.
"Entrem e sentem-se por aí", disse, apontando os caixotes onde embalava o que queria levar de regresso a Lisboa. "Cadeiras já não há!", concluí.
 A mulher e os filhos acocoraram-se, silenciosos, junto à parede da sala. Eu e ele sentámo-nos frente a frente, como sempre tínhamos feito, cada um em seu caixote.
 "Estamos abandonados!", começou. "Três dos meus homens foram detidos por um dos
movimentos de libertação, e foram mortos...".
"Não pode ser", interrompi. "Vocês terão que ser protegidos nos acordos que se fizeram", afirmei, procurando eu próprio dar convicção ao que dizia.
 "As patrulhas deles procuram-nos sem que alguém nos dê protecção!...".
"Isso não faz sentido! A responsabilidade aqui ainda é nossa... o comandante do batalhão é a autoridade!", exclamei indignado.
 "Fui ao comando militar hoje à tarde. Um tenente de barbas, que parece ter chegado há pouco tempo, disse-me uma coisa que me deixou sem dúvidas...".
"O que foi?", perguntei.
"Quando soube o meu nome, perguntou o que é que eu esperava que acontecesse aos lacaios e traidores do povo...". As lágrimas dançavam-lhe nos olhos sem cair, como se a raiva e o orgulho as segurassem. "Isso foi o que disseram ao meu pai em Lucusse antes de o fuzilar...", e num desabafo murmurou: "Só que esses eram negros... um tenente branco não me pode dizer isso... porque aqui o traidor é ele... eu fui condecorado, o general disse-me que tinha orgulho de mim, de um português como eu... quando esse homem souber o que me disseram...".
Olhei-o cheio de amargura, sem ter a coragem de lhe dizer que esse general assumira agora outras funções e que ele, Chissoia, era uma ligeira sombra na sua memória, nas suas preocupações...talvez na sua consciência.
Desceu sobre nós um silêncio pesado e trágico. Olhávamo-nos mudos. Os caixotes em que nos sentávamos e a casa vazia que nos albergava, pareciam ser tudo o que restava do mundo em que até aí tínhamos vivido.
Subitamente, a filha mais nova, com os cinco anos a reluzir-lhe na face risonha, levantou-se e, sem quebrar o silêncio, foi apanhar do chão uma boneca de cabelos loiros que uma das minhas filhas tinha deixado para ser enviada nos caixotes. Voltou a acocorar-se junto à mãe com a boneca nos braços, cantando-lhe baixinho uma canção de embalar, que certamente aprendera com as mães negras do bairro onde vivia.
A pouco e pouco a força telúrica da melodia, quase murmurada, foi aquecendo o silêncio,enchendo-o da energia profunda da África eterna, renascida das cinzas, verdejante depois das queimadas. A alma foi-se-nos erguendo como se a canção fosse um hino que nos devolvia o ânimo e, em silêncio, ambos procurávamos já a solução que todos os problemas têm.
"Eu posso arranjar passagens para Luanda no avião de amanhã", alvitrei, buscando saída.
"Luanda não é o meu povo. Só lá fui uma vez...", referia-se à data da condecoração. "Lá ficamos ainda mais desprotegidos".
"Posso tentar que vão para Portugal, mas, pelo que sei, não vai ser fácil nem rápido", disse,recordando as notícias que nos chegavam pelas tripulações.
"O mais difícil é sair daqui com a família. Com eles não consigo passar sem ser visto".
"Mas sair para onde?", perguntei, sem vislumbrar a solução.
"Tenho gente na mata, que me mandou recado. Há movimentos que não se importam de nos aceitar.
Precisam de homens com experiência para as guerras que vão chegar."
"Que posso fazer?", interroguei com desalento, pensando no papel que teríamos ainda de representar na tragédia que se vislumbrava já no horizonte.
"Aquela pista que uma vez abrimos para utilizar só em operações especiais, continua boa e abandonada...", sugeriu a medo, consciente do que pedia. "Podemos ser postos lá?...".
Eu tinha presente a localização da pista. Fora aberta na orla de uma mata, longe de povoações,apenas para ser utilizada em operações que se desenrolassem perto da fronteira.
"Já mandei os meus homens sair da cidade, só ficaram duas mulheres, eu e a minha família; se nos puder ajudar...".
Sabia o risco que corria ao dizer-lhe que sim. A zona já fora evacuada pela nossa tropa e, ainda que isolada, poderia andar perto algum grupo que não hesitaria em abrir fogo se nos visse aterrar.
Pela minha memória passou aquela madrugada em que tinham chegado ao acampamento os dois soldados feridos, mas salvos pelo Chissoia.
O Portugal que eu era devia um sacrifício, um acto de gratidão, ao Portugal que ele, Chissoia,deixara já de ser.
Dormiram essa noite na minha casa depois de ter ido buscar, furtivamente, as duas mulheres e mais duas crianças, evitando as patrulhas que circulavam pelas ruas desertas da cidade. De manhã, muito cedo, meti-os no jipe que ainda me estava distribuído, e dirigi-me à base onde tinha o avião para regressar a Luanda logo que a minha missão ali estivesse cumprida.
Descolei e tomei o rumo da pista que nos aguardava na mata. Daí ao Lucusse seriam uns dias de caminho árduo, mas era preferível percorrê-lo a serem abatidos como traidores.
Lucusse (foto de Gonçalo Carvalho)
A faixa deserta estava mergulhada no silêncio hostil das coisas abandonadas. Tudo estava agora vazio, dominado pela mata que parecia querer recuperar para si a pista, como cicatrizando umaferida aberta. Aterrei e, para não parar o motor, mantinha-o a baixas rotações. O hélice provocava um som triste de chicotadas que, repercutindo-se de árvore em árvore, ia morrer nos confins da floresta.
O Chissoia ajudou a família a descer rapidamente do avião, conhecendo perfeitamente o perigo que todos corríamos se, por acaso, um grupo dos novos senhores da guerra nos surpreendesse. Ao sair colocou-me, num gesto mudo, a mão sobre o ombro, dizendo assim tudo o que nem eu nem ele tínhamos coragem para dizer. Depois, caminhou apressado à frente do seu pessoal em direcção à mata. As mulheres e os filhos seguiam-no em fila indiana. Não teve mais um olhar, mantinha o porte altivo e digno que sempre lhe conheci. Um a um, vi-os desaparecer entre as árvores, como se a floresta os engolisse. Só a mais pequena, a última da fila, se deteve um instante e, voltando-se, com a boneca de cabelos loiros na mão, fez-me adeus e sorriu, num gesto puro de quem não sabe que se despede para sempre.
Fiquei a olhar o sítio onde desapareceram, aguentando a solidão imensa que me gelava a alma.
Quantas traições, quantos abandonos e deslealdades serão necessários para erguer e desfazer um Império?
Em quantas praias desertas teremos deixado companheiros? Em quantas matas teremos abandonado gente que em nós confiou? Quantas vezes desertámos das responsabilidades que assumimos?
Quantas vezes traímos?
Descolei e, já no ar, dei por mim a pedir a Deus protecção para o camarada perdido.
No dia seguinte, o mecânico que passou inspecção ao avião, entregou-me uma medalha da Cruz de Guerra que encontrou caída no chão, junto ao banco em que o Chissoia se sentara.»

(Carlos Acabado, in “Kinda e outras histórias de uma guerra esquecida")

sexta-feira, 28 de março de 2014

OS GALINÁCIOS


Quando ia destacado para Gago Coutinho, levava normalmente um “suplemento alimentar”, à base de muitas latas de conservas e fruta enlatada, e a razão era bem simples, a comida para a arraia miúda era “confeccionada” pelo Batalhão do Exército, numa cozinha igual à de todos os outros quartéis espalhados pelo Leste de Angola, um telheiro negro do fumo, com um buraco no chão onde introduziam a lenha, por baixo da “baixela” onde inventavam todos os dias as receitas que aniquilavam qualquer tentativa de dar aos alimentos a simples função de  alimentar o pessoal.
O refeitório
De salientar que mesmo não havendo condições para comermos nas nossas instalações, (os pilotos comiam na messe de Oficiais do Batalhão), os especialistas, improvisaram mesa e cadeiras e comiam no hangar só para não passarem por mais essa humilhação de terem que ir comer ao outro lado, com: hora marcada, formatura, cornetada, e outras regalias proporcionadas aos praças do Exército. Não que não comêssemos a mesma sopa desenxabida, e o prato principal que muitas vezes nem conseguíamos identificar, a mesma fruta de terceira ou quarta escolha, para não falar do célebre vinho de pipa, que se fosse analisado, denunciaria todas as adulterações sofridas desde as berças Continentais onde o envasilharam, sem saber qual seria o destinatário, passando por todos os intermediários, até chegar aos confins da savana.
Vem tudo isto a propósito, da fominha que se passava nos destacamentos, por vezes tão intensa, que não nos deixava pensar noutra coisa que não fosse em comida, a sério, daquela que as nossas mães faziam e a que a gente nem ligava, fartos, de barriga cheia, mas que aqui até quase morríamos de saudade.
Num desses períodos de “avareza” em que a comida andava tão má que até slides merecia, não morresse-mos todos envenenados e ninguém adivinhasse o porquê, resolvi “instigar” os MMA’s e os Pilotos uma vez que eram eles que faziam o abastecimento de frescos aos destacamentos dependentes do Batalhão de Gago Coutinho, para que confiscássemos alguma coisa decente e tenra, onde pudesse-mos ferrar o dente. 
DO 27 preparando a saída
Numa terça-feira, depois do Nord ter descarregado tudo e descolado, o nosso DO, começou a efectuar os abastecimentos de frescos e correio. 
Como combinado com eles, escondi-me no compartimento junto com a carga, e assim que descolámos, saquei da faca de mato, e abri o enorme saco de plástico cheio de frangos, que a viagem era curta, e peguei um frango pelas patas, para o transferir para o nosso saco, o frango estava prezo com os outros e eu fui exercendo cada vez mais força para o separar e retirar do interior do saco, eis senão quando dou comigo com as patas do frango na mão, concluindo para meu espanto, que os frangos estavam “tão frescos” que mesmo crus os ossos das coxas se separaram da carne, estavam roxos assim como os orifícios deixados pelo esforço que exercera. Voltei a enfiar os ossos nos orifícios, atei os sacos, e “confisquei” uma data de caixas de rações de combate, que escondi por diversos sítios do compartimento de carga, essas pelo menos, podiam ser ingeridas sem mais acidentes.
Na volta quando toda a gente já afiava o dente paro o churrasco, fizemos um refeição de “carnes (latas) frias” e guardámos a vontade de comer para melhores tempos, ou quando nos fosse permitido ir à caça.

Gago Coutinho, 12/1972
OPC ACO

quinta-feira, 20 de março de 2014

BASE AÉREA DA OTA

O QUE SE ESCREVEU EM 1940


Inaugurou-se no dia 14 de Abril do corrente ano de 1940, a Base Aérea nº2, magnificamente instalada em vastos terrenos a Ota, cerca de Alenquer. É uma obra grandiosa e única no seu género em Portugal, sobretudo no que diz respeito ao aquartelamento. Constitui com os seus edifícios e as suas oficinas, um estabelecimento militar de primeira categoria, amplo, limpo, banhado de luz e possuindo acomodações para 150 homens e 60 aviões.   
Na nova unidade da aviação distinguem-se a parte de comando e aquartelamentos e a de aeronáutica propriamente dita. Na primeira, ficam quatro alas distintas mas edificadas de modo igual. Passada a porta de armas que tem anexas duas pequenas casas -uma para a guarda e outra servindo de prisão- vê-se `esquerda a primeira construção que é a “messe” de oficiais. Consta de: um “hall” de boas dimensões+, adaptado a sala de estar; balneários de sistema moderno; uma cozinha forrada a mármore e com o respectivo fogão; uma esplêndida sala de jantar, um bar pequenino; uma sala de leitura e outra de visitas. Para os oficiais solteiros há vinte e um quartos, dispostos ao longo do corredor.
No corpo do edifício fronteiro estão instalados o comando, a secretaria, o gabinete do oficial de serviço, a biblioteca, uma de conferências, onde se encontra um valioso friso fotográfico que foca as diversas fases do desenvolvimento da aviação militar em Portugal. À entrada, dois belos azulejos fixam uma parede gloriosa da viagem ao Brasil, de Gago Coutinho e Sacadura Cabral e a chegada do primeiro avião português, há anos a uma das nossas colónias do Ultramar.
As acomodações para os soldados, na ala que lhe é destinada, são esplêndidas e modernas. Amplos dormitórios, correspondendo a cada cama um belo armário com cabides. Balneário, também servido por água quente fria. Uma boa sala de jantar com mesas de ferro e tampos de mármore branco, tendo cada praça a sua cadeira de ferro.
Uma sala enorme com inúmeras janelas é exclusivamente destinada ao curso de instrução primária.Temos, depois o edifício dos sargentos, igual aos anteriores, onde também ficam a cozinha privativa, a sala de jantar, os balneários e os refeitórios.
A Sul e Norte do aquartelamento e, consequentemente, fora dele, estendem-se dois bairros, tudo casas alegres, cheias de sol. Destinam-se estes bairros aos oficiais e sargentos casados. O dos primeiros é o do Sul. Dezanove edifícios com dois andares, espaçosos, de linhas elegantes.
O bairro dos sargentos fica ao Norte e constituem-no vinte e oito construções, compostas de rés-do-chão e um andar.

Afastados algumas centenas de metros dos edifícios de aquartelamento e comando, encontra-se o conjunto de “hangares” e oficinas. Logo em frente, estende-se a pista, que é um grande quadrilátero alongado no sentido Norte-Sul.
Os gigantescos “hangares”, cuja grandiosidade só se pode avaliar bem quando neles se penetra, estão repletos de material aeronáutico, desde grandes aviões de bombardeamento até às mínimas peças acessórias, incluindo os “caças” e os aparelhos de treino.
Não faltam, também, as patrulhas de “caças” de protecção não só da própria unidade como dos bombardeiros trimotores e bimotores com que o nosso Exercito do Ar foi recentemente enriquecido.
São três grupos de “hangares” de que a nova base dispõe: um de Montagem e esquadrilha de caça e dois para bombardeiros completamente metálicos. Ao lado do primeiro ficam os armazéns com material de substituição e, em edifícios anexos, as oficinas apetrechadas com a mais variada maquinaria para reparações.

Numa dependência reparam-se e ensaiam-se motores; noutra regulam-se aparelhos de precisão. Em várias secções trabalha-se nas diversas matérias-primas que compõem a complicada estrutura de um aeroplano.
O pessoal goza também de todas as comodidades. O director das oficinas tem o seu gabinete e uma secretaria para os serviços respectivos. Os artífices dispõem de vestuário higiénico e dum refeitório amplo.
Em arrecadações devidamente protegidas está armazenado o material destinado à actividade bélica dos aviões de bombardeamento.
O serviço de abastecimento dos aparelhos é feito por tanques gigantescos, com a capacidade para 50.000 litros cada, enterrados e protegidos contra ataques aéreos.Para a limpeza está instalado um motor de ar comprimido, ligado por uma rede de tubos que pode chegar onde se encontre o material.
Viaturas automóveis, pesadas e ligeiras, asseguram os serviços de transporte e sanitário, prontos à primeira chamada, nas espaçosas garagens edificadas ao cimo do recinto dos aquartelamentos.
Esta magnifica obra do Estado Novo que, como já dissemos, é no seu género, a melhor e Portugal, e importou em cerca de dezoito mil contos.

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