sexta-feira, 29 de abril de 2016

REPELENTE DE CROCODILO

ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992

Cartoon do Autor
A situação de segurança em Luena estava complicada. Explicaram-me que havia um aquartelamento da UNITA e outro das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) pertencentes ao MPLA fora da cidade. Cada força opositora tinha cerca de 8.000 homens, devidamente armados e municiados, o que incluía armamento pesado. As feridas da guerra civil estavam longe de terem cicatrizado em Luena e as escaramuças eram constantes. No dia em que cheguei, morreram 15 civis em Luena, vítimas colaterais destes incidentes que, em certas alturas, tinham dimensão de confronto aberto.
Pista de Luena ex AM44 Luso

No antigo AM 44 esperava-me uma pequena frota de aeronaves, constituída por três helicópteros russos modelo MI 17 e um Cessna Caravan (namibiano). Dois dos helicópteros estavam caracterizados como UN mas eram alugados à Aeroflot, o terceiro era militar e mantinha a camuflagem original do Exército Vermelho. Contava ainda com apoio pontual – a pedido – de um C-130 alugado à TransAfrik. No chão, aguardavam-me 11 tripulantes de aeronaves (10 russos e um namibiano) e 5 funcionários do PNUD (dois internacionais e três angolanos). Um dos MI 17 haveria
Cazombo AM43 em 1973,
foto de Ribeiro da Silva
depois de destacar para o Cazombo, no extremo Este de Angola (anteriormente conhecido pela tropa portuguesa como o “Quadrado da Morte”) com um oficial controlador da FA, para cobrir as necessidades eleitorais daquela remota região.
Normalmente, as tarefas de um operacional da ONU vão muito para além da descrição de funções (job description), se quiser sobreviver com o mínimo de qualidade. Os títulos pomposos que me atribuíam não me dispensavam de executar funções de apoio básico à missão. Na delegação do PNUD de Luena todos nós tínhamos uma segunda tarefa que executar para o bem comum. Enquanto uns cozinhavam e outros faziam a manutenção das instalações e aeronaves, e quem não estava a fazer nada disso tinha a nobre tarefa de buscar água para a higiene do pessoal.
Recordo a primeira vez que o fizemos. Dirigimo-nos a uma zona na margem do Rio Luena que permitia o acesso a carros. Previamente, tínhamos instalado um depósito para recolher a água na nossa carrinha de caixa aberta. Com o recurso a uma pequena bomba de extração, abastecemos o depósito. Depois dirigimo-nos a uma área mais frequentada pela população local, e decidimos dar um mergulho no rio. Fui logo avisado:
- “Comandante, isto é tudo gente boa. Se você deixar a carteira na margem do rio provavelmente não vai acontecer nada. Mas se deixar o sabão, de certeza que não vai lá estar, quando você sair da água.”
Rio Luena - foto de Armando Monteiro
A longa guerra civil tinha dificultado abastecimento de mercadorias para o interior do país, dando-se prioridade aos produtos considerados essenciais. Os artigos não essenciais pagavam-se a preços elevadíssimos Incompreensivelmente, os artigos de higiene não eram considerados de primeira necessidade, pelo que um bom sabonete era particularmente cobiçado na região. Escondi o sabonete numas ervas da margem e tomei banho de olho posto no capim. Foi um sucesso.
Meses mais tarde, já em Portugal, soube que num dos locais onde havíamos tomado banho, tinha ocorrido um incidente envolvendo um elemento ao serviço da ONU e um crocodilo. Alegadamente, durante a estação das chuvas, que estava prestes a começar em Outubro, o nível das águas aumenta bastante e entra dentro das tocas onde os crocodilos estão a hibernar, nas margens dos rios, despertando-os. Nós tínhamos estado a banhar-nos no limite entre as duas épocas, seguindo o exemplo das crianças e adultos locais. O outro indivíduo atuou isoladamente e não terá tido a mesma sorte.


(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)




Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração.Bem Haja.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

ANTES DE FAZERES O QUE QUER QUE SEJA, PERGUNTA !

ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992
Cartoon original do autor


Era ainda madrugada quando chegámos à parte militar do aeroporto de Luanda, na parte da antiga Base Aérea 9 (BA-9) da FAP. O voo da ONU seria longo, de modo a distribuir seis ALO portugueses pelos diferentes aeródromos
Para além dos militares portugueses, seguiam a bordo do bimotor King Air outras personalidades importantes para o processo eleitoral.
A primeira aterragem foi em Lubango ex Sá da Bandeira, onde saiu o tenente Santos. Deixámos o homem literalmente no meio da placa sem ninguém à vista.
-”Não se preocupe “mate” [companheiro].” - Disse-lhe o piloto num Inglês com forte sotaque australiano. - “Em breve irá aparecer alguém do PNUD para o recolher. É o procedimento normal, você só tem de estar aqui sossegadinho e não ir a lado nenhum!”
O aeródromo de Lubango era uma base militar, com vários abrigos protetores para aeronaves de combate. Alguns abrigos tinham as portas semiabertas, denunciando as silhuetas dos MIG-21 no seu interior. Tal como em Luanda, as áreas entre as pistas e os caminhos de rolagem de aeronaves, tinham fortificações toscas, num formato de espiral, feitas por altas paredes de terra batida. No centro desses recintos, havia antenas radar com vários formatos, montados em viaturas. Quase todos os sistemas, bem como a generalidade das aeronaves, tinham aspeto de estarem fora de serviço.
Menongue - foto de Revista Militar
De Lubango voámos para Xangongo, onde saiu o capitão Selmo. De Xangongo voámos para Menongue ex-Serpa Pinto, onde saíram o capitão Silva e um Juiz angolano.
De Menongue voámos para Luena, onde eu deveria sair com o capitão Salvares.
Luena fica a cerca de 1 250 quilómetros de Luanda.
Devido às paragens intermédias, o voo já durava há mais de cinco horas. O piloto cumpriu o procedimento normal, fazendo uma passagem baixa sobre a pista antes de aterrar. Embora o aeródromo fosse controlado, os aviadores gostavam sempre de se certificar das condições da pista, antes de aterrar. Aquele procedimento permitiu-me estudar o meu novo local de trabalho. A paisagem que nos rodeava era plana e verdejante, de um verde muito aberto, quase alface. As zonas de mata não eram particularmente densas, com lençol de árvores pouco mais altas do que grandes arbustos, ocasionalmente interrompido por grandes imbondeiros – uma árvore típica de Angola. Entre as árvores havia muita erva alta – capim. Pontualmente via-se um rio, por vezes de dimensões generosas, com as margens invadidas de juncos e ervas altas. Onde a vegetação era mais escassa via-se a terra avermelhada, numa cor muito característica daquela região.

A cidade do Luso e o AM 44 em 1969 , foto de Gonçalo de Carvalho
O aeroporto de Luena era a herança do antigo Aeródromo de Manobra 44 – AM 44 - construído pela Força Aérea Portuguesa no tempo colonial.
A infraestrutura aeronáutica ficava a cerca de três quilómetros a Sul da Cidade. Tinha uma pista era pavimentada; com uns generosos 2800 metros de comprimento por 50 metros de largura; a orientação magnética 290° ou 110°; e estava dotada de iluminação para voo noturno.
Embora não estivesse em bom estado de conservação, era aceitável para o tipo de aeronaves que iríamos operar. Seguindo o exemplo do aeródromo do Lubango, a sul da pista de Luena havia trincheiras elevadas, em espiral, com o objetivo de proteger equipamentos de radar e ajudas rádio à navegação aérea. Contudo, os equipamentos tinham sido abandonados há muito tempo, não restando dúvidas quanto à sua total ruina.
Na altura, Luena não tinha qualquer tipo de ajuda rádio que indicasse aos pilotos a localização do aeródromo. Para além da placa principal, havia também algumas placas individuais de dispersão para aviões de combate, em forma de raquete. No entanto, as placas de dispersão tinham o pavimento muito degradado, com pedras soltas que podiam ser aspiradas pelas turbinas dos aviões, não podendo ser utilizadas. Saindo da pista, havia dois caminhos de rolagem para as aeronaves terem acesso à placa principal. Do lado Norte da placa estava o pequeno edifício da torre de controlo, o qual também servia de terminal de passageiros. À direita da torre existiam dois hangares cujo conteúdo era desconhecido e que permaneciam fechados.
A pista de Luena


Em suma, para o efeito pretendido, era um bom aeródromo.
Saímos do avião, com a nossa bagagem, e o piloto repetiu a mesma mensagem:
- “Aguardem tranquilos que já vos virão recolher.”
Ato contínuo fechou a porta do King Air, rolou para a pista e descolou. O capitão Moita seguiria para Saurimo e o capitão Morgado para o Cafunfo.
Enquanto esperávamos na placa por alguém da ONU, foram aparecendo algumas crianças que deambulavam por ali. O Salvares decidiu ir até ao edifício do terminal, para ver se estava lá alguém à nossa espera. Eu aguardei na placa para não nos desencontrarmos. Resolvi aliviar a pressão na bexiga.
Cumprindo o procedimento aeronáutico mundialmente conhecido, voltei as costas á zona dos edifícios; afastei-me das pessoas e da área pavimentada da placa; entrei nas bermas, bem para dentro da zona de terra; abri o fecho do fato de voo e urinei.
Foi nessa altura que tive a minha primeira experiência de zona de guerra. Um miúdo, que por ali andava, veio até à berma da zona pavimentada e gritou, gesticulando muito aflito:
- “Sôr, sôr sai daí, mas vem sempre em cima das ervas”.
Eu estaria a pouco menos de 20 metros da criança. Compus-me, voltei-me e, sorrindo, perguntei-lhe:
- “Então porquê é que eu tenho de ir sempre por cima das ervas?”
- “Tché?! Porque essas ervas não crescem em cima das minas!” – Respondeu o garoto, estupefacto com a minha ignorância.
Nessa altura caiu-me o sorriso, idiota, ao chão e tive outra vez muita vontade de urinar. Eu estava na zona minada de proteção ao aeródromo, a 20 metros da zona pavimentada. De repente, regressar aqueles 20 metros tinha ficado mais distante do que à vinda. Parecia que os tufos de ervas se tinham afastado entre si no meio da terra avermelhada. Senti um suor frio escorrer pela coluna vertebral e um nó na boca do estomago. Respirei fundo, olhei em redor e reconheci umas pegadas com o desenho das solas das minhas botas. Regressei à placa saltando entre tufos e pegadas. Quando, finalmente, pulei para cima do betão, ganhei nova vida. O coração batia descompassadamente e tinha a respiração muito acelerada. Estava a agradecer ao rapaz quando apareceu o Salvares. Vinha acompanhado por um brasileiro muito simpático, chamado Jorge, que funcionava como o “faz-tudo” do PNUD em Luena. Jorge era a nossa boleia para a cidade.
Tentei explicar aos recém-chegados o que me acabara de acontecer, mas o brasileiro não se mostrou particularmente impressionado e limitou-se a comentar:
-“Pois é “cara” … devia ter umas placas, informando essas coisas, por aí.”
Lição número um, em ambiente de conflito – “Antes de fazeres o que quer que seja, pergunta !


(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)




Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração.Bem Haja.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

PRIMEIRAS ELEIÇÕES LIVRES ANGOLANAS

ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992
Mapa do autor, com a localização onde operavam todos os oficiais da FAP

O diálogo político entre os dois maiores partidos políticos angolanos sempre foi difícil. O partido que detém o poder desde a independência – Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) – e o maior partido da oposição – União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) - recorreram à confrontação armada, envolvendo-se numa guerra civil que durou cerca de 27 anos.
A UNITA, liderada por Jonas Savimbi, alegava que o MPLA, liderado por Eduardo dos Santos, tinha recebido o poder directamente da potência colonial (Portugal) e não por sufrágio livre e universal do povo Angolano. Desta forma, para a UNITA, o MPLA estava a usurpar o poder. Por seu turno, Eduardo dos Santos afirmava que a UNITA nunca tinha evoluído de uma força insurgente anticolonialista, com métodos terroristas, pelo que não era um interlocutor político credível.
Contudo, em 1992 houve um entendimento entre os dois partidos, que tentou transferir esta confrontação do campo de batalha militar para a arena do debate político. Para o efeito, as Nações Unidas (ONU) ficaram encarregues de liderar e apoiar um processo eleitoral, que colocasse no poder um Governo eleito pela vontade popular. Este processo recebeu o nome de “Primeiras Eleições Livres Angolanas”.
Em Angola, as Nações Unidas estavam representadas pela missão United Nations Angola Verification Mission (UNAVEM II). Esta missão tinha a liderança política dos assuntos angolanos na comunidade internacional. Contudo, como acontece noutras partes do mundo, as questões técnicas eleitorais são conduzidas pelo Programa da Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Ciente da dimensão territorial de Angola e de o país constava na lista dos territórios mais minados do mundo, o PNUD iniciou a maior campanha aérea que a ONU alguma vez havia lançado, para um ato eleitoral.
Sob a tutela da UNAVEM II, o PNUD contratou 40 helicópteros M-17 e 10 aviões (Antonov-26, Hércules C-130, Beechcraft e King Air), maioritariamente operados por tripulações russas. Os custos, rondando os 40 milhões de dólares (preços de 1992), foram suportados por doadores internacionais. Tudo isto a somar aos já existentes 14 helicópteros e dos 2 aviões que a UNAVEM II operava normalmente em Angola.
Contudo, o planeamento e gestão da actividade de todos estes meios aéreos era um sério desafio, pelo que o PNUD solicitou a Portugal o envio de uma equipa de 10 gestores de operações aéreas para Angola.
É aqui que começa esta estória de missão, que levou dez oficiais da Força Aérea Portuguesa, ao serviço da ONU, a participar no apoio ao ato eleitoral angolano.
Às 18H20 do dia 16 de Setembro de 1992, um C-130 da Força Aérea descolou do aeroporto militar de Figo Maduro (Aeródromo de Trânsito N.º1), com destino a Luanda. Levava como passageiros um grupo de 5 Pilotos Aviadores e 5 Controladores de Tráfego Aéreo, com a finalidade de apoiar o PNUD na organização da campanha aérea para as eleições angolanas. A viagem irá durar 21 horas, com duas paragens, de uma hora cada, para reabastecimento, em Cabo Verde e em São Tome e Príncipe.
Aeroporto de Luanda

Quando chegámos a Luanda, o C-130 manobrou sobre a Cidade, a fim de se posicionar melhor para a aterragem, permitindo-nos observar a verdadeira dimensão da urbe. Para além da zona da baía e do centro da Cidade, com os seus edifícios altos, avenidas amplas e bairros de bonitas vivendas coloniais, a grande Luanda estendia-se a perder de vista num enorme musseque.
Era naquele caos, constituído por trilhos sinuosos de construções térreas feitas de barro, que viviam mais de 70% dos 2 milhões de habitantes de Luanda. Sob a nossa asa esquerda apareceram os restos queimados de uma refinaria, testemunhos da recente guerra civil. 
Cartoon do autor
Durante a aterragem conseguiu-se observar que o aeroporto estava militarizado, com muitas antenas de radar, e outros equipamentos com aspecto bélico distribuídos entre as placas e as pistas. Contudo, aquilo que mais atraiu a atenção, foi um conjunto de três veículos enferrujados que jaziam para além da soleira da pista. Eu reconhecia aquelas máquinas, mas não conseguia ligar o objecto com o local ou a função.
Quando desembarcámos, éramos gentilmente aguardados por uma delegação da Embaixada Portuguesa em Luanda. Perguntei-lhes o que eram aqueles equipamentos estranhos no final da faixa. Foi-me respondido que eram “limpa-neves”, oferecidos pela ajuda Soviética.
-“Limpa neves? Em Luanda?” - Perguntei contendo o riso, para não ofender os presentes.
Alegadamente, para os Soviéticos, qualquer aeroporto que se preze teria de estar dotado com limpa-neves. A localização geográfica era um mero detalhe.
Claro que aquelas máquinas nunca foram usadas e apodreceram no local onde tinham sido descarregadas.
Durante uma curta, estadia em Luanda, recebemos a explicação um pouco mais detalhada sobre o que nos era solicitado. Iríamos operar isolados uns dos outros, cobrindo a maior quantidade de território angolano possível.
Calhou-me em sortes a (enorme) Província do Moxico, no extremo Leste do País, com sede em Luena (a antiga cidade do Luso).
No dia seguinte, fomos enviados aos nossos destinos. 




(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)




Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração.
Bem Haja.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

"COMBATENDO" A MONOTONIA!



O dia-a-dia numa base como o AB4, para lá da missão que cada um na sua especialidade tinha atribuída, nomeadamente na Esquadrilha de Abastecimento a que pertencia, nem sempre era fácil de ocupar. 
 Mercedes, foto de e com
José Fernandes Ferreira
A rotina instalava-se, a monotonia apoderava-se da nossa vivência. As “ocupações”, quer na Base, quer na cidade tornavam-se insuficientes e comecei a sentir necessidade de diversificar as formas de cumprir os dois anos a que estava destinado viver na Lunda. Poder-se-á dizer e com razão, principalmente por aqueles, que no "mato" arrostavam com todo o tipo de problemas e privações - grande preocupação a desta "tropa" - combater a monotonia !!! 
Mas, era a realidade, pelo menos para mim. 
Ora bem, determinado tipo de equipamento destinado á Base e seus destacamentos, vinha pelo CFB-Caminho de Ferro de Benguela até á estação do Luso e quando pelas suas dimensões ou, não justificada urgência no transporte por avião, o mesmo era transportado por camião até Henrique de Carvalho. Portanto, quando tal se justificava era efectuada esta missão. Tal transporte não exigia a obrigatoriedade de ser acompanhado por um especialista de Abastecimento.
Mapa da estrada HC - Luso
Mas, foi esta a maneira que vislumbrei de poder “arejar”. O fazer cerca de 280kms por terra afigurava-se interessante e era a possibilidade de conhecer algo mais do leste. A estrada era boa, totalmente alcatroada, como vim a constatar, o único perigo possível existia no troço Dala/Buçaco - Luso, onde de vez em quando havia "fogachada" á coluna. Assim, conhecidas as condicionantes, um dia dirigi-me ao meu chefe, o Cap. Maia, e voluntariei-me para o “serviço”, imediatamente aprovado. 
Condutor e eu, a bordo da “Mercedes”, saíamos bem cedo por forma a estar no Dala ás 7:00, hora a que era constituída a coluna e que assim fazia o restante percurso até ao Luso. O mesmo método era utilizado no regresso.
Convém salientar, que de HC a Dala era rodar livremente, cada um por si, dado não haver qualquer perigo de ataque do IN. Do Dala para o Luso era diferente, de vez em quando aconteciam ataques e daí o percurso ser feito com a protecção de escolta e em coluna, salvo erro da responsabilidade do pessoal de cavalaria sediada no Luso.
As belas quedas do rio Chiumbe - foto de Gonçalo de Carvalho
A estadia no Luso como é lógico nunca era longa, embora sempre a procurássemos “estender” por razões óbvias!
Julgo, que fiz umas 3 a 4 colunas, já não estou certo. Nessa, que viria a ser a última, a coluna foi atacada no sentido Dala-Luso. Tiros no princípio da coluna, todos fora das viaturas procurando o melhor abrigo e pouco tempo depois, o sossego normal e o retomar da marcha. O ataque tinha sido rápido, felizmente sem estragos, provável forma do IN apenas mostrar que se mantinha activo na zona. Facto engraçado foi o constatar após este acontecimento, que tanto eu como o condutor…não tínhamos qualquer arma, um empecilho desnecessário!
Coluna a caminho do Luso - foto de Gonçalo de Carvalho
Bom, neste “ataque” foi a ocasião em que estive mais perto da guerra. Felizmente sem problemas, mas, que me levou a ponderar a minha situação de voluntariado para este tipo de missões.
Para voluntário já chegava quando fui para a FAP. A partir daqui estava pouco interessado nas mesmas, muito menos a minha disponibilidade para tal ser retribuída com algum tiro, numa guerra que já pouco me dizia em termos patrióticos.
Como tal, chegado ao AB4 dirigi-me ao Cap. Maia e pura e simplesmente disse-lhe:- “Chefe”, arranje outro para fazer as próximas viagens ao Luso…eu desisto!
Desta forma e enquanto não encontrei forma de diversificar o tempo, voltei ao “rame-rame” do dia-a-dia na Base e na Cidade.

A. Neves
HC 1971

quinta-feira, 24 de março de 2016

VIAGEM À MACARONÉSIA*

(ficção sobre factos reais)
AB4 Esquadra operacional
Henrique de Carvalho, manhã de Sexta-Feira, Dezembro de 1971, andava no ar um cheiro a Natal, levantara-me cedo, entrava de serviço na cifra às 08H00 Zulo, num turno de 8 horas que acabaria pelas 16H00, imbuído do espírito mercantil da coisa, assobiava uma canção de época quando entrei na sala de despacho e cumprimentei os presentes a caminho do "cofre", nome porque era conhecido o espaço onde se processava todo o trabalho e arquivo de mensagens originadas e recebidas nos vários sistemas de cifra operados pela FAP. 
O operador que ia sair de turno passou-me o serviço e comecei imediatamente a trabalhar. Pelas 10H00 da manhã, veio uma mensagem do CEMGFA, (traduzindo) "Chefe do Estado Maior General da Força Aérea" com prioridade "Zulo", como estava sozinho deixei o que estava a fazer e imediatamente comecei a decifrá-la; à medida que ia introduzindo os grupos de cinco letras aleatórias, a máquina ia processando a descodificação e imprimindo numa fita de papel a respectiva classificação, "Muito Secreto" e o texto, como era regra ia deitando um olho à fita para verificar se saía tudo limpo de erros e compreensível, quando surgiu o meu nome, parei para ler tudo que tinha saído até ao momento e fiquei de olhos colados no texto, lendo e voltando a ler "ordeno a apresentação imediata do 1º CB OPC 507/EP, no Comando da 2ª Região Aér..." introduzi o resto dos grupos da mensagem e não fiquei esclarecido, só me ordenavam a apresentação, não diziam (para, nem porquê?) grande caldinho me tinham arranjado, era com certeza o efeito dos registos que efectuara no "LRO" (traduzindo) Livro de Registo de Ocorrências, que como o próprio nome indicava servia para registar tudo o que de anormal se passasse durante os turnos, quer do posto de rádio, quer da sala de despacho, quer da cifra. 
E que sempre que era utilizado para registar outra coisa que não fosse o protocolar "nada a declarar" tinha que ir ao Comandante da Base, para ele tomar conhecimento. Agora era tarde para medos e lamurias, escrevera vários registos, tinha de assumir por inteiro a responsabilidade sobre os mesmos. 
Como o sargento não estava presente, telefonei para o Gabinete do Comandante, avisando que tinha serviço "Muito Urgente" para entregar, como o mesmo não estava, pedi ao Oficial de Dia que o localizasse e me avisasse para assim que ele estivesse presente, lhe fosse levar o serviço... 
Quando entrei no Gabinete, e lhe entreguei a mensagem aguardando que a lesse para saber se haveria resposta, fui vendo a sua reacção, até que ele me disse: tem consciência do que se passou para o mandarem apresentar-se imediatamente? 
Respondi convicto: não Meu Comandante. 
Ele adiantou: tenho assuntos a resolver em Luanda, eu mesmo o levo, esteja na placa às 14H00, está dispensado do serviço. 
Rumei à camarata, meti várias mudas de roupa, umas latas de atum, um rolo de papel higiénico, o estojo da barba, o "aftershave" e o desodorizante, todo o dinheiro que tinha e a máquina fotográfica na mochila, e zarpei para o bar para almoçar e aguardar o transporte.
Beechcraft 2521 - foto de Alfredo Anacleto Santos
Às 13H50, já estava junto ao 2521, para espanto do MMA, que preparava o avião, ainda antes da hora, comecei a ver três oficiais a vir na nossa direcção, um deles era o Adjunto do Comando e nosso Capitão, estava mesmo feito num oito. No bar todos os meus companheiros me perguntaram porque é que eu tinha ido entregar serviço e não voltara, o Capitão anunciara em alto e bom som, que desta vez eu não escapava ao máximo da sua competência, mas como eu não dei qualquer explicação, todos foram unânimes em dizer-me: tu é que sabes, vais ver na volta o que te espera... aguardei sereno com o coração apertado.
Cumprimentei-os fazendo a continência, o Comandante, mandou-me pôr à vontade e que entrasse depois deles, aguardei que o Capitão também entrasse e ele desabridamente, mandou-me entrar, e voltou costas ao avião, peguei na mochila perante o espanto do cabo MMA e acomodei-me no interior do avião... Acomodei-me num dos acentos e adormeci ao som do ronronar dos motores, dormir era a melhor forma de deixar correr o tempo, acordei por diversas vezes e a última com o baixar do trem de aterragem, à vista a cidade de Luanda banhada por um Sol tropical saudava-nos. 
P2V5 na BA9 - foto de Amável Silva
Quando a porta se abriu, saí para a placa, e aguardei na expectativa de ver se alguém me dizia o que fazer... o Comandante saiu e ordenou-me que me dirigisse ao P2-V5 que estava estacionado na placa em frente do Hangar, peguei na mochila fiz a continência e lá segui pouco convencido se aquilo seria boa ou má ideia. Quando me aproximava do avião, um 1º. Sargento gritou-me de longe, ó nosso cabo, mexa-me essas pernas que já estamos atrasados... 
Entrei no avião e perguntei para onde é que íamos? E ele de passagem atirou-me: para casa, arranje lá atrás um sítio onde se aboletar e não mexa em nada. Olhei em volta, do escuro da cauda alguém me fez sinal que avançasse, quando cheguei mais perto reconheci um dos OPC'S que fizera o curso de cifra comigo, depois dos cumprimentos, disse-me que vinha da Beira, mas desconhecia o porquê da viagem, já éramos dois... 
Com a mochila como travesseiro, e o sol e mergulhar no mar à nossa esquerda, estávamos a voar para Norte, portanto o que o Sargento dissera fazia sentido. Dormi intermitentemente durante horas e voltei a acordar com o trem de aterragem a descer e pela clarabóia confirmei que lá fora era tudo escuro como breu. 
BA12 - Bissalanca  - foto de Antonio Correia 
Aterrámos, reconheci a silhueta do aeroporto mesmo às escuras, estávamos na Guiné, só deu para esticar as pernas e voltámos a descolar rumo ao desconhecido, com mais um OPC do curso de cifra, o motivo e destino da nossa viagem continuavam a ser desconhecidos mas tinham com certeza a ver com a nossa credenciação, único elo que nos ligava. 
O rumo continuava a ser Norte/Noroeste como indicava a pequena bússola que sempre me acompanhava mas o destino era tão negro como a noite, acordei várias vezes e só os companheiros de dormida é que se iam alternando, o dia já clareava quando aterrámos novamente. Ao abrir da porta um cheiro a brisa do mar, chegou-me às narinas, meti a cabeça de fora e não sabia onde estava até olhar para o lado oposto da placa e ver a silhueta de vários aviões militares americanos, estávamos nas Lajes nos Açores. 
BA4 Lajes - foto de Afonso Palma
Uma viatura aproximou-se e dela saiu um alferes PA, que nos perguntou os nomes, e nos mandou segui-lo, fomos directamente levados ao Oficial de Dia, que nos arranjou de comer e nos mandou regressar ali novamente, estávamos proibidos de falar com outros militares e de dizer-mos onde estávamos colocados. Voltámos mais reconfortados e finalmente tudo se esclareceu, presentes estavam o militar Israelita que nos dera o curso de cifra, e o oficial e o sargento que também tinham participado no mesmo, no Domingo 12 Dezembro, realizar-se-ia uma cimeira entre o presidente Americano, Richard Nixon e o homólogo Francês George Pompidou, para discutirem o sistema monetário internacional, sob o beneplácito de Marcelo Caetano na qualidade de anfitrião. 
A chegada de Richard Nixon, ao fundo o Concorde de Pompidou - foto DN
A França na altura a "locomotiva" Europeia, não deixou de o vincar, levando o seu presidente até aos Açores no moderno Concorde (ainda em voos experimentais), obrigando o presidente Americano a retardar a sua chegada para efectuar a aterragem já de noite, evitando que os jornalistas presentes filmassem e fizessem comparações entre os dois meios de transporte. 
E porque é que nos trouxeram de tão longe? Os três países eram membros fundadores da NATO, existiam sistemas de comunicações comuns para além dos criados especificamente para serem usados entre os exércitos da também designada Aliança Atlântica, de que nós éramos os únicos credenciados presencialmente na Força Aérea, e a situação particular da Base das Lajes a meio caminho dos dois Continentes, permitiam o isolamento e criação de condições de segurança para a realização do encontro. 
Passámos três dias fechados na Base, em alerta máximo, não vi nenhum dos Presidentes, nem efectuei nenhum serviço, e no Domingo, voltei a fazer o percurso inverso, Lajes, Guiné, Luanda. Na ida tive transporte VIP, na vinda cheguei aos TAM da BA9 e foram peremptórios comigo, sem guia de marcha ninguém embarcava.
Acabei por ter de ir ao posto de rádio pedir para falar com o operador de serviço em Carvalho, para que me autorizassem o regresso, e só uma semana depois e mais por já não me poderem ouvir, é que me deixaram embarcar no Nordatlas semanal. 
Quando finalmente me apresentei no posto de rádio, tive honras de entrevista cerrada dentro da cifra pelo Capitão e Sargentos, a todas as perguntas respondi da mesma maneira, não me era permitido partilhar nada do que presenciara durante os dias que estivera ausente, a única coisa que lhes podia dizer, é que estivera em Luanda, na Guiné e nos Açores. Acabando todos os presentes por me dizerem que tudo o que eu dizia não passava de mais uma das minhas embrulhadas, talvez mais por essa que outra razão qualquer, na escala dos destacamentos, que indicava a sequência das partidas de Henrique de Carvalho, o meu nome surgiu sem qualquer justificação na substituição do operador de Neriquinha. 
Neriquinha - 1972 - foto de C.Caç. 3441
Nunca ninguém tinha sido mandado para um primeiro destacamento para um local onde só havia um OPC e um MELEC, e nos "mentideros" do bar de especialistas, já toda a gente sabia que o MELEC que iria para Neriquinha, era um que viera comigo no mesmo avião, e que também não era muito estimado pelas chefias... 
E numa segunda-feira de uma vez, lá partiram os dois problemas que infernizavam as chefias das duas Esquadras, e que podiam com o seu comportamento, dar aos recém chegados e aos que lhes se seguiriam, argumentos para sobressaírem da massa "uniforme" dos que como nós compunham a guarnição da unidade...


*Macaronésia, nome porque são conhecidas as ilhas Atlânticas do Noroeste e da Costa Africana: Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde.

Henrique de Carvalho
OPC (ACO) 1971

sexta-feira, 18 de março de 2016

A MINHA "IDA" A ANGOLA

O Boeing 8801
Um mês e pouco após a chegada ao CCIVM (Centro de Controle e Informação de Voo Militar) na Portela AB1 – Figo Maduro, mobilização para Angola. 
Agora que estava a ter uma vidinha de Zé Especialista e com todos os matadores, é que me estragam os planos, e os engates. 
Enfim, a noticia chega a casa e aos amigos, muita comoção em casa, mas grande oportunidade para os amigos, recordo a noite anterior ao embarque, a mesa do café onde estivemos após o jantar tinha 4 ou 5 pilhas de copos de brandy/bagaço e a famosa 1920 juntamente com o Constantino. 
Não foi possível dormir essa noite, às 10h00 da manhã estava à porta do AB1. 
O embarque fez-se às 23h desse mesmo dia. Um dia que passou pela minha vida sem dar por ele, digamos que foi um incógnito, ainda hoje por identificar. 23h00 – E a malta em fila indiana, sob uma chuvinha de inverno e temperatura senão negativa estava perto, lá vamos embarcando e mirando o terminal com os familiares e amigos acenando, e lacrimejando, lá vamos entrando no autocarro que nos leva à placa onde o Boieng 01 (zero um - também só havia dois) nos espera de portas abertas. 
A viagem foi boa. Um MMA, de quem não me recordo o nome, e amigo de café (a Nilo, em Benfica), chega perto e desafia-me para beber umas garrafinhas miniaturas que havia no avião, e lá vou eu para a parte traseira sentamo-nos nos bancos individuais da tripulação, e bota abaixo, não cheguei a ressacar da noite anterior, aliás dizem que a ressaca é o pior da bebedeira, pois confirmo que continuando a beber não se apanha ressaca. 
BA9 - Luanda
07h00 da manhã – chegada a Luanda, um calor do caraças, deviam estar a esta hora uns 23 / 24 graus, quem chega de Lisboa com 2 ou 3 graus e apanha esta chapada de ar quente, então é que a ressaca apareceu, e de que maneira... após as formalidades de desembarque o pequeno almoço no espectacular clube de especialistas da B.A. 9, digo espectacular e quem tenha por lá passado deve certamente confirmar. Surpresa para mim, e ainda hoje me questiono porque não fui praxado em Luanda. Bom não fui em Luanda, mas em Henrique Carvalho desforraram-se. 
Aguardando uns dias para obter colocação, e dando umas voltas por Luanda, não podia deixar de ser guiado pela malta a fazer a ronda dos bares americanos. Quem chega da metrópole e só conhece os bares do Cais do Soda, que era o meu caso, fica de boca aberta com tantas e tão boas – louras e morenas, mulatas ou mais escurinhas, enfim um deleite para as vistinhas. Se tinha guardado alguns trocos para as primeiras impressões, evaporaram-se, e tive de ir jogar umas lerpas para poder sustentar-me até vir a colocação. Não fui muito feliz na lerpa, mas safei-me no King e no Poker ainda deu para uma semanita de cerveja e gajas. 
Finalmente lá fui informado que ia para o Leste, assim à
"Barriga de ginguba"
primeira vista, não foi muito agra
do do cá do rapaz, mas que havia de fazer? Numa manhã de verão abrasador lá me enfiaram no Barriga de Ginguba, e digo foi uma viagem que nem turista estrangeiro, primeira escala Lumbala, e depois todas as paragens até ao AB4, parecia o comboio correio, com paragens em todas as estações e apeadeiros. 
Na chegada ao AB4, se tinha antes ficado espantado com o clube de especialista de Luanda, agora é que fiquei mesmo de queixo caído, o nosso clube era de facto uma maravilha, um jantar servido com o maior requinte, os funcionários civis de camisa branca e laço – onde estamos? 
A messe
E o Clube de Especialistas - fotos de Azuil Jacinto
Num restaurante cá da terra? Nah....Nah era mesmo o nosso clube, aqui quero deixar os maiores e muito sinceros cumprimentos a toda a malta que mantinha aquele clube a funcionar, as recordações desse clube tanto à chegada como no regresso são inesquecíveis, (praxe incluída), e toda a malta era do melhor que a Nação produziu, jovens com todos os defeitos e virtudes da idade – estamos a falar de malta com 19 – 20 – 21 anos, e que lições que alguns me deram de maturidade, responsabilidade e também de como se apanham grandes besanas. 
Tudo isto me parece característico de uma juventude que iniciou a sua fase adulta combatendo. 
Em Henrique de Carvalho pelo pouco tempo que lá estive pareceu-me que se exigia responsabilidades, mas também existia liberdade adequada à juventude deste pessoal. Quero referir o meu grande amigo Morais OPC, como eu, e da mesma recruta, que me fez as apresentações tanto no posto de rádio, como pela cidade. 
Inesquecíveis momentos. Aqui fica um abraço de amigo dedicado para o Morais. 
Após uns dias (talvez uma semana) a partida para o ARLuso (AM44). Alguns companheiros não sei se a sério, ou a picar o maçarico diziam-me: eh pá tás lixado – no Luso o cmdt., é f*dido, vais de certeza apanhar umas porradas – referiam-se ao Ten. Cor. Sachetti, com quem nunca tive o menor desentendimento, excepto claro umas quantas chamadas de atenção para o cabelo, dizia ele : - tá na hora de passar pela barbearia. 
República dos Táriráris
Agora uma menção muito especial para todos os que passaram na “República dos Táriráris”. Não posso nomear todos, nem sequer a maior parte, mas vejamos de quem me lembro...Zé Galo (alentejano), Dylan, Neves (a quem fui substituir), Garção (tripulação Dakota - Portalegre), Moutinho, Shorty (tripulação Dakota, Porto), Ribeiro (Guiné), Mango(Guiné), Brazão(Madeirense), Roque ( Voltou ao “puto” para frequentar curso Pil.), Sousa (Maçorra), Zé Almeida (natural do Luso e grande amigo), Soares (Porto), Aguiar (jogador de baskett do FCP, Porto), e naturalmente as chefias 1º. Sarg. Sereno, 1º. Sarg. Martins (cripto) e o grande chefe Ten. Manique, pessoa de grande carácter, e provadas qualidades de comando. 
O primeiro jantar no Luso, foi “à pála” do maçarico, na hora aprazada e depois de terem sido enviadas msgs. para todos os “táriráris”, disseram-me que iam mostrar-me o pitoresco da cidade, ao sair da república nem 50mts andei, e logo me disseram que um dos sítios mais pitorescos era mesmo ali, o restaurante Noite e Dia, pertença dum Famalicense, de quem ainda hoje relembro com nostalgia – o Martins. Pois e lá fomos entrando e o amigo Martins de pronto vai de juntar umas mesas para o pessoal que parecia que não comia desde que embarcou para o ultramar. Bifes de caça (pacaça ou palanca ou javali, ou em alternativa também podiam ser de vaca....), bons e memoráveis momentos. 
Cuito Cuanavale
Depois vem a verdadeira comissão, destacamentos no Cuito Cuanavale, foi o 1º. para não lesionar logo à chegada, depois Gago Coutinho, para me ambientar, e finalmente N´Riquinha. 
Se bem me recordo, dois destacamentos no Cuito, onde tive o prazer de privar com o Cap. Gamboa, excelente piloto, que devido a lesão na coluna não estava apto para voar, e que ao “sobe e desce” me levou mais de 50 paus, não tem mal, porque talvez por sentimento de culpa me emprestava o jipe, para irmos á vila, fazer as nossas jantaradas de caça. 
Recordo igualmente as viagens ao Runtu, base dos primos, de onde vinham os operacionais para destacamento. 
Eduardo Pita-Groz 
Dois em Gago Coutinho, onde encontrei a figura mais castiça que conheço o Sr. Pita-Groz, responsável pelas infraestruturas da FAP. Prato especial confeccionado por ele – mioleira de cão. Sorte a minha não gostar de mioleira senão tinha marchado, tal como aconteceu com outros. Saudações ao cúmplice Luciano, do exército que nos apresentava após o jantar uma dádiva caída dos céus, o Néscafé, cafézinho em destacamento era luxo. Três em N´Riquinha. Saudações ao Fur. Cunha da “pacaça”, exímio fotografo com sala de revelação e muito talento. 
As operações com os primos (sul-africanos), eram sempre de caixão à cova, whisky, aguardente de cana, bagaço de batata ou arroz, de tudo um pouco, no final o Norte era Sul e o Oeste passava para Este. Eles tinham uns comprimiditos que eram miraculosos, ao deitar tomar um, segundo a prescrição, e de manhã nada se tinha passado. 
João Cavaleiro
Aqui deixo também a meu respeito e apreço ao Alferes Cavaleiro, oficial da Academia julgo eu, a sua postura e liderança, eram a de um verdadeiro militar de carreira. 
E assim, nesta cadência chega o 25 de Abril.
Noite de 26 para 27 eu e o amigo Lourenço (da Arábia), meu vizinho em Benfica, estamos sentados no posto de rádio aí pelas 2/3h da manhã, com o nosso Cmdt. Ten Cor. Sachetti sentado na secretária da recepção, recebendo os comunicados do MFA. Ambos mirando as suas reacções. O Homem estava calmissimo, apenas ordenava que não se distribuísse, nem se falasse, nestes comunicados sem autorização superior, que isto seria como o avanço das Caldas, não ia dar nada. Aí pelas 06h30 da matina já toda a malta andava a perguntar o que se passava, pouco depois aí pelas 7h30 durante o pequeno almoço, já se discutia a democracia, a liberdade, as benesses do socialismo e os malefícios do capitalismo...sem saber, nem sonhar no que viria a dar... 
Em Fevereiro ou Março de 75 o acontecimento mais marcante da minha estada, a batalha do Luso. 
Mortos devem ter sido qualquer coisa a rondar os 200,(milícias dos partidos, de brancos não tenho conhecimento, mas talvez tivesse havido algumas baixas) comentou-se que seriam para cima de 400, mas pelo que vi ao serem baixados à terra numa vala comum perto de Sacassange, por uma maquina de terraplanagem, o meu numero não deve estar muito longe da verdade. 
B26
Safou-nos um B26 enviado de Luanda, que amedrontou, ao que parece, os combatentes dos partidos, durou este combate umas boas 16 / 18 horas. 
E assim chegámos a 75 ano da minha retirada do Leste, regresso ao AB4, onde durante a comissão fui por duas ou três vezes sempre recebido de forma muito cordial e com grande amizade pelo velho e sempre amigo Morais, visitei a sua casa na cidade, que julgo compartilhava com outros companheiros. 
Toda a gente estava a preparar-se para a partida, muita actividade para desactivar a nossa base, muita ansiedade para o regresso a casa. 
Luanda de novo, onde fui uma única vez durante toda a comissão, é claro de boleia do Dakota. A imponente BA9 com toda a azafama duma grande base. Muito diferente do Luso, onde as coisas caminhavam ao seu próprio ritmo, sem stress...e umas cervejitas ao fim da tarde, para aperitivo. 
Por fim e depois de uns dias em Luanda, com os amigos Brazão e Freitas ambos madeirenses, fizemos as nossas despedidas aos conhecidos bares americanos. Nesses dias pouco dormimos, eram tempos de comemoração. Finalmente a partida, 03h00 da manhã do último dia em Angola, chegada a Lisboa para almoçar. 
O resto é história, colocação no EMFA, por pouco tempo, onde estava aquando do 25 de Novembro, e a tentativa de ocupação do edificio pelas “Páras”, saudações ao Abilio companheiro com quem contactei recentemente, e finalmente o Iberlant. 
A peluda chegou no AB1. Recordação do Sarg. Aj. Bicudo, açoreano e militar de outros tempos, proveniente da marinha, o 1º. Sarg. Mesquita que dormia de vez em quando na relva de regresso dos Bombeiros, e por fim as memoráveis “lerpas”, no canil dos Páras (cinotecnia como agora se chama), e o cão que de vez em quando ficava sem pequeno almoço, porque durante a noite a jogar “lerpa” a fomeca apertava e não havia nada, a não ser os cinotecnicos bifes. Um óptimo final, quase como no inicio, passeios pelo aeroporto, “galanços” nas hospedeiras, mas tudo muito diferente, o edifício, as estruturas, já não existia o 115, a modernidade instalou-se, tal como as amplas liberdades. 

Em rodapé deixo o muito respeito que mantenho por todos os especialistas, que como eu, serviram a Nação, e que nunca por vencidos se conheceram. 
Igualmente as mais sinceras desculpas, a todos que não mencionei, não por falta de consideração nem por detrimento, mas apenas por falhas de memória, em que a idade e a própria vida são contribuintes.

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