sexta-feira, 22 de abril de 2016

ANTES DE FAZERES O QUE QUER QUE SEJA, PERGUNTA !

ESTÓRIAS DE MISSÃO DE UM OFICIAL DA FORÇA AÉREA: ANGOLA – 1992


Era ainda madrugada quando chegámos à parte militar do aeroporto de Luanda, na parte da antiga Base Aérea 9 (BA-9) da FAP. O voo da ONU seria longo, de modo a distribuir seis ALO portugueses pelos diferentes aeródromos
Para além dos militares portugueses, seguiam a bordo do bimotor King Air outras personalidades importantes para o processo eleitoral.A primeira aterragem foi em Lubango ex Sá da Bandeira, onde saiu o tenente Santos. Deixámos o homem literalmente no meio da placa sem ninguém à vista.
-”Não se preocupe “mate” [companheiro].” - Disse-lhe o piloto num Inglês com forte sotaque australiano. - “Em breve irá aparecer alguém do PNUD para o recolher. É o procedimento normal, você só tem de estar aqui sossegadinho e não ir a lado nenhum!”
O aeródromo de Lubango era uma base militar, com vários abrigos protetores para aeronaves de combate. Alguns abrigos tinham as portas semiabertas, denunciando as silhuetas dos MIG-21 no seu interior. Tal como em Luanda, as áreas entre as pistas e os caminhos de rolagem de aeronaves, tinham fortificações toscas, num formato de espiral, feitas por altas paredes de terra batida. No centro desses recintos, havia antenas radar com vários formatos, montados em viaturas. Quase todos os sistemas, bem como a generalidade das aeronaves, tinham aspeto de estarem fora de serviço.
Menongue ; foto de Revista Militar
De Lubango voámos para Xangongo, onde saiu o capitão Selmo. De Xangongo voámos para Menongue ex Serpa Pinto, onde saíram o capitão Silva e um Juiz angolano.
De Menongue voámos para Luena, onde eu deveria sair com o capitão Salvares.
Luena fica a cerca de 1 250 quilómetros de Luanda. Devido às paragens intermédias, o voo já durava há mais de cinco horas. O piloto cumpriu o procedimento normal, fazendo uma passagem baixa sobre a pista antes de aterrar. Embora o aeródromo fosse controlado, os aviadores gostavam sempre de se certificar das condições da pista, antes de aterrar. Aquele procedimento permitiu-me estudar o meu novo local de trabalho. A paisagem que nos rodeava era plana e verdejante, de um verde muito aberto, quase alface. As zonas de mata não eram particularmente densas, com lençol de árvores pouco mais altas do que grandes arbustos, ocasionalmente interrompido por grandes imbondeiros – uma árvore típica de Angola. Entre as árvores havia muita erva alta – capim. Pontualmente via-se um rio, por vezes de dimensões generosas, com as margens invadidas de juncos e ervas altas. Onde a vegetação era mais escassa via-se a terra avermelhada, numa cor muito característica daquela região.
A cidade do Luso e o AM 44 em 1969 , foto de Gonçalo de Carvalho
O aeroporto de Luena era a herança do antigo Aeródromo de Manobra 44 – AM 44 - construído pela Força Aérea Portuguesa no tempo colonial. A infraestrutura aeronáutica ficava a cerca de três quilómetros a Sul da Cidade. Tinha uma pista era pavimentada; com uns generosos 2800 metros de comprimento por 50 metros de largura; a orientação magnética 290° ou 110°; e estava dotada de iluminação para voo noturno. Embora não estivesse em bom estado de conservação, era aceitável para o tipo de aeronaves que iriamos operar. Seguindo o exemplo do aeródromo do Lubango, a sul da pista de Luena havia trincheiras elevadas, em espiral, com o objetivo de proteger equipamentos de radar e ajudas rádio à navegação aérea. Contudo, os equipamentos tinham sido abandonados há muito tempo, não restando dúvidas quanto à sua total ruina. Na altura, Luena não tinha qualquer tipo de ajuda rádio que indicasse aos pilotos a localização do aeródromo. Para além da placa principal, havia também algumas placas individuais de dispersão para aviões de combate, em forma de raquete. No entanto, as placas de dispersão tinham o pavimento muito degradado, com pedras soltas que podiam ser aspiradas pelas turbinas dos aviões, não podendo ser utilizadas. Saindo da pista, havia dois caminhos de rolagem para as aeronaves terem acesso à placa principal. Do lado Norte da placa estava o pequeno edifício da torre de controlo, o qual também servia de terminal de passageiros. À direita da torre existiam dois hangares cujo conteúdo era desconhecido e que permaneciam fechados.
Em suma, para o efeito pretendido, era um bom aeródromo.
Saímos do avião, com a nossa bagagem, e o piloto repetiu a mesma mensagem:
- “Aguardem tranquilos que já vos virão recolher.”
Ato contínuo fechou a porta do King Air, rolou para a pista e descolou. O capitão Moita seguiria para Saurimo e o capitão Morgado para o Cafunfo.
Cartoon do autor
Enquanto esperávamos na placa por alguém da ONU, foram aparecendo algumas crianças que deambulavam por ali. O Salvares decidiu ir até ao edifício do terminal, para ver se estava lá alguém à nossa espera. Eu aguardei na placa para não nos desencontrarmos. Resolvi aliviar a pressão na bexiga. Cumprindo o procedimento aeronáutico mundialmente conhecido, voltei as costas á zona dos edifícios; afastei-me das pessoas e da área pavimentada da placa; entrei nas bermas, bem para dentro da zona de terra; abri o fecho do fato de voo e urinei. Foi nessa altura que tive a minha primeira experiência de zona de guerra. Um miúdo, que por ali andava, veio até à berma da zona pavimentada e gritou, gesticulando muito aflito:
- “Sôr, sôr sai daí, mas vem sempre em cima das ervas”.
Eu estaria a pouco menos de 20 metros da criança. Compus-me, voltei-me e, sorrindo, perguntei-lhe:
- “Então porquê é que eu tenho de ir sempre por cima das ervas?”
- “Tché?! Porque essas ervas não crescem em cima das minas!” – Respondeu o garoto, estupefacto com a minha ignorância.
Nessa altura caiu-me o sorriso, idiota, ao chão e tive outra vez muita vontade de urinar. Eu estava na zona minada de proteção ao aeródromo, a 20 metros da zona pavimentada. De repente, regressar aqueles 20 metros tinha ficado mais distante do que à vinda. Parecia que os tufos de ervas se tinham afastado entre si no meio da terra avermelhada. Senti um suor frio escorrer pela coluna vertebral e um nó na boca do estomago. Respirei fundo, olhei em redor e reconheci umas pegadas com o desenho das solas das minhas botas. Regressei à placa saltando entre tufos e pegadas. Quando, finalmente, pulei para cima do betão, ganhei nova vida. O coração batia descompassadamente e tinha a respiração muito acelerada. Estava a agradecer ao rapaz quando apareceu o Salvares. Vinha acompanhado por um brasileiro muito simpático, chamado Jorge, que funcionava como o “faz-tudo” do PNUD em Luena. Jorge era a nossa boleia para a cidade.
Tentei explicar aos recém-chegados o que me acabara de acontecer, mas o brasileiro não se mostrou particularmente impressionado e limitou-se a comentar:
-“Pois é “cara” … devia ter umas placas, informando essas coisas, por aí.”
Lição número um, em ambiente de conflito – “Antes de fazeres o que quer que seja, pergunta !


(O texto e os desenhos são extratos de um projeto de livro, da autoria de Paulo Gonçalves – Tenente-Coronel TOCART – sobre “Estórias de missão ao serviço da ONU”)




Os editores do Blog agradecem ao Sr.Ten.Coronel Paulo Gonçalves, a cedência das suas estórias vividas em terras do Moxico. Vinte e poucos anos após, representando uma nova geração da FAP, os seus relatos fazem-nos retroceder no tempo e recordar algumas das vivências, que marcaram a nossa geração.Bem Haja.


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