sexta-feira, 1 de abril de 2016

"COMBATENDO" A MONOTONIA!

O dia-a-dia numa base como o AB4, para lá da missão que cada um na sua especialidade tinha atribuída, nomeadamente na Esquadrilha de Abastecimento a que pertencia, nem sempre era fácil de ocupar. 
 Mercedes, foto de e com José Fernandes Ferreira
A rotina instalava-se, a monotonia apoderava-se da nossa vivência. As “ocupações”, quer na Base, quer na cidade tornavam-se insuficientes e comecei a sentir necessidade de diversificar as formas de cumprir os dois anos a que estava destinado viver na Lunda. Poder-se-á dizer e com razão, principalmente por aqueles, que no "mato" arrostavam com todo o tipo de problemas e  privações - grande preocupação a desta "tropa" - combater a monotonia !!! 
Mas, era a realidade, pelo menos para mim.
Ora bem, determinado tipo de equipamento destinado á Base e seus destacamentos, vinha pelo CFB-Caminho de Ferro de Benguela até á estação do Luso e quando pelas suas dimensões ou, não justificada urgência no transporte por avião, o mesmo era transportado por camião até Henrique de Carvalho. Portanto, quando tal se justificava era efectuada esta missão.
Tal transporte não exigia a obrigatoriedade de ser acompanhado por um especialista de Abastecimento.
Mapa da estrada HC - Luso

Mas, foi esta a maneira que vislumbrei de poder “arejar”. O fazer cerca de 280kms por terra afigurava-se interessante e era a possibilidade de conhecer algo mais do leste. A estrada era boa, totalmente alcatroada, como vim a constatar, o único perigo possível existia no troço Dala/Buçaco - Luso, onde de vez em quando havia "fogachada" á coluna.Assim, conhecidas as condicionantes, um dia dirigi-me ao meu chefe o Cap. Maia e voluntariei-me para o “serviço”, imediatamente aprovado.
Condutor e eu, a bordo da “Mercedes”, saíamos bem cedo por forma a estar no Dala ás 7:00, hora a que era constituída a coluna e que assim fazia o restante percurso até ao Luso. O mesmo método era utilizado no regresso.
Convém salientar, que de HC a Dala era rodar livremente, cada um por si, dado não haver qualquer perigo de ataque do IN. Do Dala para o Luso era diferente, de vez em quando aconteciam ataques e daí o percurso ser feito com a protecção de escolta e em coluna, salvo erro da responsabilidade do pessoal de cavalaria sediada no Luso.

As belas quedas do rio Chiumbe - foto de Gonçalo de Carvalho
A estadia no Luso como é lógico nunca era longa, embora por vezes a procurássemos “estender” por razões óbvias!
Julgo, que fiz umas 3 a 4 colunas, já não estou certo. Nessa, que viria a ser a última, a coluna foi atacada no sentido Dala-Luso. Tiros no princípio da coluna, todos fora das viaturas procurando o melhor abrigo e pouco tempo depois, o sossego normal e o retomar da marcha. O ataque tinha sido rápido, felizmente sem estragos, provável forma do IN apenas mostrar que se mantinha activo na zona.Facto engraçado foi o constatar após este acontecimento, que tanto eu como o condutor…não tínhamos qualquer arma, um impecilho desnecessário!
Coluna a caminho do Luso - foto de Gonçalo de Carvalho
Bom, neste “ataque” foi a ocasião em que estive mais perto da guerra. Felizmente sem problemas, mas, que me levou a ponderar a minha situação de voluntariado para este tipo de missões. Para voluntário já chegava quando fui para a FAP. A partir daqui estava pouco interessado nas mesmas, muito menos a minha disponibilidade para tal ser retribuída com algum tiro, numa guerra que já pouco me dizia em termos patrióticos.
Como tal, chegado ao AB4 dirigi-me ao Cap. Maia e pura e simplesmente disse-lhe:- “Chefe”, arranje outro para fazer as próximas viagens ao Luso…eu desisto!Desta forma e enquanto não encontrei forma de diversificar o tempo, voltei ao “rame-rame” do dia-a-dia na Base e na Cidade.

A. Neves
HC 1971

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