sexta-feira, 27 de novembro de 2015

A CASA DA SANZALA

A cidade do Luso em 1970 - foto de Gonçalo de Carvalho
Já tinha meses de comissão, quando fui colocado no Secarleste no Luso, chegado ao destacamento, fiquei deveras preocupado quando o (Sousa) meu antecessor me mostrou uma chave de porta e me informou que caso eu quisesse ir viver para a casa que eles ocupavam na sanzala, era só pedir ao condutor que me levasse e ele me deixaria no local. 
Nas passagens anteriores pelo Luso a caminho dos "hotéis" de Neriquinha e do Cazombo, dormira num cubículo nas traseiras do Luso Hotel, sem luz, sanitários, janelas, mas era central e seguro, por isso perguntei o porquê da casa na sanzala e ele informou-me que não haviam casernas, nem refeitório nem quartel no Luso, e como o quarto na cidade estava ocupado era cada um por si, podia dormir no posto de rádio, no hangar ou mesmo dentro de algum avião, era comigo, ou então podia ir para a casa na sanzala e ter "tudo num só sítio" (cama, mesa, roupa lavada e o resto) com o aumento de pessoal, teriam de construir casernas, cozinhas refeitório e tudo o que era normal numa Base, até lá cada um desenrascava-se como podia, mas a decisão era minha. 
Posto de rádio - foto de Rui Pires
Antes da criação do Secarleste, o posto de rádio tinha uma guarnição para cumprir um horário de 12 horas comum aos destacamentos, das 06:00 às 18:00 Zulo, com o horário a passar para 24:00 horas, era inevitável o aumento de pessoal. Até ali os OPC'S, dormiam num cubículo nas traseiras do Luso Hotel, agora era fisicamente impossível albergar mais operadores num espaço tão pequeno. 
O Luso era uma cidade arejada, onde a guerra era mitigada por uma população civil branca em número suficiente para lhe dar o ar de paz e progresso, tão ao gosto do "regime" mas sobretudo de normalidade que se sobrepunha ao que se passava para além dos chamados "limites urbanos de segurança" , pela concentração de quartéis dos três ramos das Forças Armadas, mesmo as sanzalas limítrofes eram relativamente seguras para albergarem os malucos dos OPC'S que resolveram ir viver no seu interior. 
Aceitei a chave com o mesmo sentimento de inevitabilidade que um condenado aceita a farda de riscas o cobertor e os lençóis para a enxerga, e no fim do dia lá segui pouco convencido no jeep com os outros dois habitantes da casa situada relativamente perto do aeroporto, numa das primeiras ruas de terra batida à esquerda de quem seguia para a cidade e em frente de um dos quartéis do exército.
Habitações típicas da sanzala 
- foto de Rui Neves
Era uma casa de adobe rebocado e pintada com um branco desbotado pelo sol e pó inclementes, o telhado de chapas de zinco ferrugentas, deixava passar o calor de dia e o frio à noite, vários buracos de pregos de utilizações anteriores, deixavam atravessar os raios de luz que desenhavam no pó sempre presente, riscos e formas luminosas, contrastando com o escuro da única divisão, os três colchões assentes em tijolos, eram os únicos vestígios de mobília e ocupavam praticamente todo o espaço, não existiam janelas, e a porta era o único adorno que descontinuava as paredes irregulares, o tecto baixo, aumentava a sensação claustrofóbica provocada pela ausência de espaço e aumentava o calor infernal, devido aos cães e outros bichos mais ou menos autóctones, de quatro ou duas patas, era desaconselhável mante-la aberta. 
Se já tinha dúvidas antes de ali chegar, imediatamente me arrependi de para ali ter ido, era um tecto para dormir e pouco mais, não havia luz, água, sanitários, nem segurança para deixar ali qualquer coisa de valor monetário ou sentimental, antes dormir no chão da cifra ou do posto de rádio. 
Mas foi ali que passei os meus primeiros tempos, quando estava de folga, corria para a cidade na busca de um outro sítio onde me aboletar, que fosse pelo menos seguro o suficiente para não andar continuamente com a mochila às costas com os parcos haveres de que me não separava na certeza que se os deixasse ao acaso nunca mais os veria. 
A renda era paga ao "Soba" e a roupa lavada pelas suas mulheres, e era ele que mantinha a "segurança" do local e o respeito que nos era devido na nossa ausência. Aos domingos éramos convidados para o almoço, debaixo de uma latada, mas nunca me senti tentado a comer o peixe seco ou o funje de frango do cardápio, o máximo que me fazia socializar com eles eram uns copos de hidromel ao pôr-do-sol e dois dedos de conversa de "conveniência" com as jovens "filhas" do soba pela noite dentro. 
Às horas do transporte para a cidade, ou para as refeições, eram sintomáticos os olhares de reprovação dos que nos viam sair no meio da sanzala para irmos dormir ou a apanhar o transporte para o aeródromo de manhã para irmos trabalhar. 
O Adjunto do Comando tentou por várias vezes junto do nosso Sargento, fazer pressão para que fôssemos viver para outro sítio mais digno, ao que sempre contrapusemos o argumento de que a FAP, tinha a obrigação de nos dar cama roupa e comida, e sempre nos recusámos a ir viver para uma camarata de um qualquer quartel do Exército.
Na República dos Saltimbancos,
eu, Soares, Mósca e Martins
O tempo passou e vim a saber da existência da República dos Saltimbancos e a convite do MMA Mósca, eu e o OPC Martins, visitámos as instalações, a evidência do que fomos encontrar mais nos mobilizaram para convencer os restantes OPC'S a alugar-mos uma casa ou vivenda para concretizarmos o que nos parecia mais lógico, termos um local digno, e com condições para podermos deixar os haveres, não só quando íamos para o serviço, mas sobretudo quando íamos para destacamento. 
Hoje passados 44 anos, ainda me espanto como nestas condições miseráveis, o serviço era mantido 24 horas por dia, com o máximo da eficiência, sem que os sucessivos "recados" mandados para Henrique de Carvalho alertando para a ausência de condições mínimas de alojamento e de segurança dos operadores de comunicações, surtissem qualquer efeito ou tivessem eco nas chefias da estação directora da rede de comunicações do Leste de Angola, e só quando da chegada do T.C. Sachetti, que exigiu que cada militar tivesse um local certo onde pudesse ser localizado quando necessário, até que as futuras instalações militares estivessem construídas, é que pela primeira vez alguém nos ouviu, nos deu razão e resolveu a situação, atribuindo-nos um subsídio provisório para a renda e garantindo o pagamento de forma a que pudéssemos assinar um contrato legal com o senhorio do moderno andar que viria a ser a sede da República dos Tá-Ri-Rá-Ris no Luso.
A República dos TA-Ri-Ra-Ris - foto de JFMA
LUSO 1971

OPC ACO

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

BA2 OTA - JURAMENTO DE BANDEIRA DA ER 1ª./70

Tribuna de honra com as individualidades presentes

JURARAM BANDEIRA 469 SOLDADOS RECRUTAS
B.A. Nº. 2 – OTA – 24/ABRIL/1970
Juramento de Bandeira da Escola de Recrutas 1/70


SEA entrega diplomas
“Na Base Aérea nº.2 (OTA) realizou-se no dia 24 de Abril (1970) o juramento de bandeira dos soldados cadetes do curso de oficiais milicianos pilotos aviadores 1/70, dos soldados do curso de sargentos milicianos 1/70 e dos soldados alunos recrutas especialistas 1/70.
Presidiu à cerimónia o Secretário de Estado da Aeronáutica, brigadeiro Pereira do Nascimento, com a presença do Director do Serviço de Instrução, brigadeiro Krus Abecassis, do Director do Serviço de Pessoal, brigadeiro Braz de Oliveira, do Director de Serviço de Saúde, brigadeiro Lemos de Meneses, e outros oficiais.
Depois de ter passado revista à guarda de honra, comandada pelo capitão Sengo, o Secretário de Estado da Aeronáutica, acompanhado pelas individualidades presentes, dirigiu-se para a tribuna de honra.
A iniciar as cerimónias, usou da palavra o comandante da Unidade, coronel piloto aviador Brochado de Miranda que pronunciou o discurso que adiante publicamos.
Em seguida, o aspirante miliciano Elídio Martinez Paramés Fortes dirigiu uma exortação aos soldados alunos recrutas.
Procedeu-se depois ao acto solene do juramento perante a bandeira. A fórmula do juramento foi lida pelo 2º. Comandante da Unidade, tenente-coronel piloto aviador Vargas de Matos, que comandava as forças em parada.
JURO !
Em seguida, o Secretário de Estado da Aeronáutica e os Directores dos Serviços de Instrução e de Pessoal procederam à entrega de diplomas e prémios aos soldados alunos que mais se distinguiram, após o que as forças em parada desfilaram em continência.
Seguiu-se a demonstração de manejo de arma a pé firme e em marcha dos soldados dos cursos de oficiais e sargentos milicianos sob as ordens do tenente Máximo, tendo, logo após, feito a mesma demonstração os soldados alunos recrutas, sob a orientação do major para-quedista Calheiros.
A terminar, os soldados alunos recrutas fizeram demonstrações de treino físico militar e de luta individual, e disputaram jogos de voleibol e basquetebol. 
O comandante da B.A.2, coronel Brochado de Miranda, pronunciando o seu discurso.
Realiza-se hoje mais uma cerimónia de Juramento de Bandeira, facto que, com ligeiras alterações, se vem a repetir de quatro em quatro meses.
Poderá pensar-se que por este motivo havemos caído em formalidades de rotina. Tal não acontece, porém. É nossa constante preocupação que cada uma se desenrole com a maior perfeição, dignidade e solenidade, de forma a criar o ambiente próprio para que os graves termos do Juramento sejam pronunciados e ouvidos com a necessária seriedade.
Senhor Secretário de Estado – A presença de Vª. Exª, que mais uma vez se digna presidir a uma cerimónia como esta, é para nós motivo de muita satisfação pois que, além de exaltar a sua mais solene expressão, mostra-nos um estimulante interesse pelas nossas actividades. Em meu nome e no de todo o pessoal desta Base Aérea eu dirijo a Vª. Exª. as mais efusivas saudações.
Saúdo igualmente os Exmos. Senhores Directores de Serviços e Comandantes de Unidades cuja presença interpretamos também como uma manifestação de apreço pelo trabalho aqui produzido, o que nos revigora a vontade de prosseguir contra todas as dificuldades e contrariedades, que não são poucas, nem pequenas.
Perante V. Exª., estão 1517 homens, 469 dos quais são soldados recrutas. Destes, 60 destinam-se a pilotos de aviões e helicópteros e os restantes às diversas especialidades de operadores e mecânicos.
Banda da FAP - Maestro Silvério de Campos
O dia de hoje é para eles uma confirmação de liberdade e de responsabilidade. Quando se alistaram voluntariamente, com o assentimento paterno, passaram a ser inteiramente responsáveis pelos seus actos. Em plena função dessa responsabilidade, vão, dentro de breves momentos, perante a Bandeira Nacional e de todos nós aqui presentes, comprometer-se a cumprir obrigações que os ligam à Pátria e às Instituições Militares.
Compete à Base Aérea nº. 2 a ingente tarefa de instruir, através de cursos de formação ou de promoção, a quase totalidade do pessoal técnico da FA, dos quadros permanente e não permanente, bem como a preparação final dos pilotos que se destinam às Bases equipadas com aviões de caça de reacção.
Como é sabido, e sempre oportuno repetir, uma boa instrução infere a presença de instrutores bem qualificados – sabedores, entusiastas e sinceros – bem como de instalações e equipamentos adequados.
Uma boa instrução significa maior rendimento do trabalho, maior segurança, maios eficiência operacional.
Uma má instrução é causa de erros, insegurança, perda de vidas, destruição de material, desperdício, baixo rendimento.
Exibição de voleibol e demonstração de boxe
 A situação neste sector é bem conhecida pelo que me dispenso de quaisquer considerações. Quero simplesmente afirmar o interesse e o esforço desenvolvido pelas Sub-Unidades directamente responsáveis pela instrução, de cuja obra esta cerimónia é um ténue reflexo, que se tem aplicado com total dedicação e até sacrifício, a tirar o melhor rendimento dos meios humanos e materiais postos à sua disposição para cumprir programas superiormente determinados.
Familiares dos mancebos assistindo á cerimónia
Vão receber o diploma de fim de curso 282 soldados-alunos que terminaram cursos de formação de várias especialidades. Brevemente serão distribuídos pelas unidades da FA, na Metrópole e no Ultramar. Após 11 meses de instrução irão pôr em prática alguma coisa do que aprenderam e que é a base do muito que ainda terão de aprender.
De facto, aos militares exigem-se aptidões para o desempenho das tarefas mais variadas: pede-se-lhes que empunhem armas, que sacrifiquem a sua vida se necessário, que defendam a autoridade constituída, que sejam um modelo de virtudes, que cultivem o espírito, o intelecto e o vigor físico.
Só será pois verdadeiramente um militar aquele que assumir uma atitude mental permanentemente orientada no sentido do aperfeiçoamento.
Por outro lado, mesmo o mais individualista não pode esquecer que agora faz parte de um todo.
À palavra “Unidade” que frequentemente se usa para designar o estabelecimento onde o militar presta serviço, não perdeu a sua verdadeira significação etimológica. Unidade é coesão, sinónimo de força. Sá há coesão, onde houver disciplina. 
Os assistentes mais novos.
É esta uma das virtudes fundamentais que o militar deve cultivar e a que, por vezes, por ignorância ou má intenção se atribui o significado menos dignificante de obediência cega e despersonalizante.
Ora disciplina não é tal.
“É aceitação da hierarquia e da autoridade sem ideia de submissão ou humilhação”.
“É reconhecimento espontâneo e consciente da autoridade dos chefes sem excluir a mútua união, estima, compreensão e respeito”.
“É obediência a uma regra de comportamento, comum aos que fazem parte de uma corporação”.
A disciplina não mata a personalidade mas harmoniza os homens coordenando-lhes os esforços. Um militar disciplinado cumpre as ordens e os deveres que lhes impõe os regulamentos, ou as circunstâncias de ocasião, por ponto de honra, não com receio de castigo.
Sobre a juventude presente nesta parada irá recair, na altura própria, parte do esforço que se desenvolve no Ultramar.
Devo salientar-lhe, todavia, que não é verdadeiramente militar só porque fez um juramento, por mais solene, ou veste uma farda, por mais esplendorosa.
É necessário que cumpra o Juramento, em qualquer circunstância.
É necessário que dentro de cada uniforme esteja um homem que o saiba dignificar: pelo saber, pelas atitudes e pelos sacrifícios.

Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 133 – Maio 1970

Por:



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

HERÓI POR UM DIA

(ficção sobre factos reais)

Nunca em meses de comissão vacilara sobre o que me aconteceria se tivesse ido para outra especialidade ou ramo militar, se a minha passagem por África seria diferente, ou se me arrependeria de alguma coisa que tivesse feito, até àquele dia.
OPCs Costa e Aco - foto de JFMA
Estava novamente em Gago Coutinho com o Costa, a actividade militar atingia o zénite de um lado e outro da barricada os contendores procuravam infligir os maiores danos possíveis, e a guerra travava-se cada vez mais nas Lundas, Moxico e Cuando Cubango. Tinham-me pedido para tentar saber quando chegava a coluna do Luso, onde vinha um camião da FAP, com materiais para as obras do novo hangar para os Pumas.
Levantara-me às 05h30 zulo, mas a nossa rede estava "morta" (traduzindo) ainda ninguém respondia nas frequências.Na coluna vinha também pessoal do Exército para efectuar a rotação do Batalhão, ligara o emissor/receptor Racal TR-28, de origem Sul Africana que tinha as frequências do exército e as comuns aos três ramos militares, e fui fazendo buscas sucessivas até sintonizar o posto de rádio dos vizinhos do lado, a "diarreia verbal" do operador de serviço levou-me a baixar o volume e a ir pôr a frigideira ao lume para preparar o mata bicho composto de bife de songo com pão de véspera e Nocais frescas, lá pelo meio da manhã chegaria o "regulamentar" café aguado com leite em pó e uma carcaça com manteiga mais ou menos rançosa, trazidos pelo "Zé Manel", o nosso assalariado.
Passou o tempo ouvi alguém a chamar repetidamente por Coutinho no TR-28, resolvi responder mesmo sabendo que não era comigo, uma vez que aquela era uma frequência só utilizada pelo Exército, e confirmaram-se as minhas suspeitas, era a coluna. Informei-os , que se necessitassem de ajuda estaria à escuta e de que iria passar a informação ao Batalhão, assentei o indicativo fiz o telefonema e esqueci a coluna.
Saí do P.R.(posto de rádio) e fui espreitar a placa, a actividade àquela hora já era frenética,
Posto de rádio - foto de Rui Pires
os "metralhas" havia pessoal a dobrar para um "Siroco" que estava marcado para daí a dois dias, municiavam os quatro T-6, que iriam efectuar RVIS na área do destacamento, os mecânicos abasteciam e inspecionavam tudo. Chamei-lhes a atenção e manifestei a disponibilidade para testar os rádios e voltei para o meu "ninho". 

Passados minutos respondi aos vários contactos dos mecânicos para testar as frequências de aproximação dos aviões e héli, já se ouvia entretanto a betoneira a trabalhar no estaleiro da obra e resolvi ir avisar o Pita Grós do contacto, quando voltei subi os níveis das escutas e subitamente, o TR-28 começou a fervilhar com múltiplas entradas de emissores no ar, gente aos berros e a pedir socorro, num caos total, apercebi-me imediatamente de que a coluna estava debaixo de fogo, chamei pelo indicativo que obtivera e confirmava-se a minha suspeita, (estavam debaixo de fogo de morteiros e armas ligeiras, havia já dezenas de feridos e possivelmente mortos, a coluna progredia espalhada por quilómetros de extensão e quando uma das viaturas saiu da estrada para passarem a vau um pequeno rio, talvez por ser mais radical, e foi seguida por outras, uma delas atascou obrigando à imobilização das restantes, tinha sido por essas que começaram a cair os morteiros). 
Avisei o posto de rádio do Batalhão, e fui acordar os pilotos, aquilo ia sobrar para nós de certeza, imediatamente foi pedida autorização ao Secarleste, para descolarem dois T-6, que pudessem dar cobertura à vertical da coluna e obterem mais informações, quer sobre a necessidade de outros meios aéreos para eventuais evacuações que fossem necessárias, quer sobre o nosso transporte.
Picada Gago Cotinho/Ninda
- foto Armando Carvalho
Do Luso ZML (Zona Militar Leste) informaram que desconheciam qualquer ataque à coluna, do Secarleste e após confirmação nossa foi autorizada a descolagem dos T-6, que entretanto já estavam abastecidos e municiados, e do Héli, para a primeira das várias evacuações. 
Agora só quando eles estivessem à vertical é que perceberíamos a verdadeira dimensão do ataque e dos meios necessários. Liguei novamente para o Batalhão, para me porem em contacto com um dos médicos, para que me dissessem do que precisavam numa situação de excepção como aquela e fui aguardando o reporte dos T-6.
Entretanto, toda a gente se juntara no hangar a ouvir o desenrolar dos acontecimentos, através da instalação normalmente usada para ouvir música, quando chegou um dos médicos, para saber se já sabíamos alguma coisa, chamaram por mim, fui directo e conciso, havia um grande número de feridos e possivelmente mortos, o que é que eles precisavam que não tivessem no hospital, uma vez que viriam de certeza do Luso mais meios aéreos para as evacuações. 

Ele olhou-me com cara de espanto e respondeu: e como é que eu vou pedir seja o que for se ninguém sabe qual a situação real, e mesmo sabendo do que preciso, leva semanas a chegar cá! 
Respondi-lhe: estamos a perder tempo, escreva-me em maiúsculas num papel o que precisa de forma que eu consiga ler, e em cinco minutos no máximo, a lista está a caminho da ZML. Ele nem hesitou, sentou-se à mesa e passados minutos tinha uma lista de material que enviei "sob reserva" para a ZML, com informação ao Secarleste.
Finalmente dos T-6 à vertical da coluna, veio a confirmação do que menos queríamos
T6 á vertical de coluna
-foto de Gonçalo Carvalho
ouvir, (os soldados que vinham efectuar a rendição, com pouco mais de uma 
semana de comissão, vinham em tronco nu em cima dos transportes a apanhar sol, não vinham de armas em prontidão, e alguns nem sequer saltaram das viaturas, morreram sentados como vinham, existiam várias viaturas a arder junto duma ponte, tinha sido a cabeça da coluna que tinha sido atingida, como andava mais depressa, os veículos mais pesados tinham ficado para trás, como era o caso do nosso camião que nada sofrera, limitaram-se a sair da estrada e a procurarem abrigo na mata), nenhum dos pilotos conseguia contacto com o chão, nem se via qualquer actividade que indicasse para onde fugiram os atacantes, mas uma coisa era certa havia uma quantidade anormal de feridos sendo necessário outro héli, e um PV-2 ou mesmo um DC-3 para transportar os mais graves para o Luso.
Voltei a chamar a coluna indiquei-lhes o canal com que poderiam falar com os "milhafres" que tinham à vertical, e transmiti nova mensagem ZULO para o Secarleste, dando a localização exacta do ataque e confirmando o reforço de meios para evacuação dos feridos, primeiro para Coutinho e depois para o Luso, o héli de alerta ia descolar directamente para o local e um PV-2 com parte do material pedido iria descolar também, assim que fosse reunido o restante, um DC-3 viria fazer a evacuação final.
Com a chegada dos feridos, todos nós nos mobilizáramos para dispor combustível na placa, e para apoiar os mecânicos no que fosse necessário, a adrenalina estava no seu pico máximo, acabei por dar por mim, como toda a gente, a meter os braços por baixo de corpos mutilados, a apoiar membros quase decepados, a conter as entranhas de corpos que não faziam sentido, tudo sem me importar com o sangue e outros fluidos e sem perceber o porquê daquela barbárie, a maior parte deles nem barba tinha, recém desembarcados, nem ao destino tinham chegado e já tinham infelizmente muito que contar. 
Eram miúdos como eu, e os seus olhares de medo e espanto pelo que lhes tinha acontecido dizia tudo e não explicava nada; a triagem era feita na placa, os que tinham tratamento, seguiam em macas improvisadas para o hospital, os outros eram encharcados em morfina e ficavam logo ali, num canto da placa, gemendo e implorando que os salvassem. 
Ao passar junto de um deles, ouvi chamar pelo meu nome, olhei e vi um Furriel chamado Henriques, que tinha andado comigo a estudar, cheguei-me a ele e ouvi o seu lamento, (não me deixem morrer, eu prometi à minha mãe que voltava), enchi-me de coragem e confirmei-lhe tem calma pá ainda não é desta que vais morrer, isso são só uns arranhões, segurei-lhe as mãos e senti que os seus dedos pouco a pouco faziam cada vez menos força nos meus, chamei um dos maqueiros e ele de passagem confirmou-me o que suspeitava, mas recusava aceitar, não posso perder tempo com esses, há outros que ainda se podem salvar, fiquei ali, com as mãos dele nas minhas, até chegarem os menos sortudos, transportados em sacos pretos.
Uma raiva incontida toldou-me a visão, e um véu colérico, vermelho da cor do pó e do sangue já seco nas poças dos que tombaram, cobriu-me os olhos e passei-me completamente, cruzei-lhe os braços sobre o tronco e de forma solene mas inconsciente prometi que vingaria a sua morte. 
Fora de mim corri à camarata com as lágrimas a sulcarem-me o rosto, quando voltei, de camuflado e armado até aos dentes, toda a gente me olhou espantada, eu que era o menos guerreiro do destacamento, exigi que me deixassem ir no primeiro héli com os militares que fariam o corte de retirada aos cabrões, que tinham cobardemente efectuado o ataque à coluna. 
Felizmente que me chamaram à razão e ninguém me deixou ir, naquele dia teria tomado com certeza as piores decisões de que me arrependeria possivelmente para o resto da minha vida.
No final do alvoroço, o Secarleste, entretanto chegado, mandou reunir o pessoal no hangar, e dirigindo-se ao Alferes Piloto que comandava o destacamento perguntou: como é que nós tínhamos conseguido o milagre de ter pedido os apoios e meios praticamente na hora que o ataque aconteceu, evitando a morte de muitos dos feridos? O Alferes, que entre nós era carinhosamente conhecido como o mais sorna de todos, mas um piloto e sobretudo um homem excepcional, retorquiu, é para que eles saibam que enquanto eu estiver no comando do aeródromo a guerra é para ser levada a sério. 
Toda a gente se riu com a saída dele, mas respondendo directamente ao Secarleste, apontando para os dois OPC'S informou: o mérito é deles, foram eles que avisaram até o Exército, como o conseguiram, não sei mas eles foram os heróis. O Costa, respondeu, eu não fiz nada nem era eu que estava de serviço, o herói é ele. Meti-me na conversa para dizer: que o dia de hoje nos sirva a todos de lição, quando acham que eu sou arrogante a correr com os que invadem um espaço que tem de ser de trabalho e atenção constante e não de conversa e distração, faço-o para que quando alguém, no ar ou em terra, peça ajuda, tenha a certeza que é ouvido e serão tomadas as decisões necessárias à resolução de qualquer situação.
Grande actividade no AR 
- foto de Afonso Palma
No dia seguinte, antecipado o Siroco, chegaram um Nordatlas com os Paras, os Alouette III, e os Pumas, nossos e dos "Primos", que em cooperação com os Flechas e Exército, levaram a cabo a maior e mais bem sucedida operação a que se assistiu na zona de Gago Coutinho, com a destruição de um vasto complexo de apoios, paióis, um hospital de campanha, vários abrigos, a libertação de elementos da população civil utilizados como transportadores e pisteiros, entre os detidos um alto cargo referenciado como dissidente do MPLA e que posteriormente foi utilizado na contra propaganda, numa Rádio que transmitia para o interior e exterior do território, diverso armamento, incluindo uma curiosa mini antiaérea, a destruição de diversas lavras e pirogas, mas sobretudo com esta operação começou o declínio da capacidade do MPLA, de agir como até ali, tomando a iniciativa.
Acabado o destacamento voltei ao Luso, ao regressar ao posto de rádio, mostraram-me uma mensagem originada conjuntamente pela ZML e Secarleste, propondo ao Comandante Militar da Província o louvor da guarnição do AR de Gago Coutinho, pela determinação atempada na resposta ao ataque à coluna Luso-Gago Coutinho, e no exemplar desempenho na coordenação das posteriores operações de evacuação de todos os feridos, de retaliação, limpeza e desactivação dos meios de apoio na zona de acção do destacamento.

Gago Coutinho, 1972.

OPC ACO 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

40º. ENCONTRO DE ESPECIALISTAS DO AB4


Sábado, 14 de Novembro, das 11:30 ás 18:30 h 
No Espaço Leça Marina - Av. da Liberdade - Leça da Palmeira
GPS: Latitude (41.11' 18'' N) Longitude (8.42' 12'' W

Amigos, cá estamos para mais um Encontro!

Este ano é no Norte, mais concretamente no Concelho de Matosinhos, junto ao porto de Leixões, no Espaço Leça Marina (ELM), situado à entrada da Marina de Leixões, na Av. da Liberdade (GPS Latitude 41.11’18’’N Longitude 8.42’12’’W), em Leça da Palmeira, Porto, Portugal.
Como sempre, esperamos contar com a vossa presença, bem como das “avionetas” e de quem mais quiserem trazer. Serão todos bem-vindos, só têm que confirmar até 31 de Outubro, para

Fernando Chanana 917631596 fernandochanana@hotmail.com

PROGRAMA:
Recepção dos companheiros
11.30 – Buffet de entradas variadas
13.00 – Almoço : 
- Filetes de pescada com salada russa
- Corta-sabores de limão
- Miminhos com bacon, batata de forno, arroz, legumes e feijão preto
Sobremesa: - Rabanadas
- Mousse de chocolate
- Leite-creme
- Salada de fruta
Café e digestivos
16.00 – Animação musical
18.00 – Praxes e distribuição de lembrança alusiva 
18.30 – Mesa regional para lanche 
(Durante o Evento serão servidos: água, refrigerantes, sangria, vinhos tintos e brancos)
Encerramento
- Corte de bolo
- Elaboração de Acta, leitura e assinatura da mesma
- Eleição de responsáveis para o Encontro de 2016 (41º)

Valor por pessoa: 30€

Ao chegares a este local, devidamente identificado na foto, lado norte do porto de Leixões, vira à esquerda para o parque.
Junto à barreira, encontra-se um elemento, a quem deves mostrar esta folha, que deverás imprimir, e que te vai permitir a abertura da cancela.
Caso haja alguma dúvida, ligas ao Chanana (91 763 15 96)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A ENFERMARIA

Hospital do Luso, chegada de mais uma evacuação - foto de Armando Monteiro
A enfermaria era comprida, arejada, podíamos ver das janelas árvores.
O renque de camas numa das quais eu estava, virado para outra fileira, deixava livre um espaçoso corredor.
Havia militares feridos em combate, sobretudo minas, outros como eu feridos em acidentes. Na parede em frente, por cima da fileira de camas para a qual estava voltado, havia um nicho com um senhora de Fátima. Esta apelava à religiosidade de um oficial catanguês, dos que faziam a guerra ao nosso lado em Angola, ferido também, mais na mente que no corpo. Corria pelo corredor, uma vez por outra, a emitar o som de metralhadora trrá - tátá- tá e parava em frente do ícone e avisava-nos: "La Vierge Marie".
Durante os seis longos dias, há quarenta e cinco anos o tempo corria devagar, que estive na enfermaria do hospital militar no Leste de Angola, depois de sair de outros seis dias próximo da Morte, da sala de recobro e das máquinas, ninguém morreu nas fileiras de camas. Não houve necessidade de abrir biombos para não vermos a morte do outro.
Pensar sobre a morte, falar dela ou usar prodigamente o substantivo feminino em poesia, parece ser hoje um tópico de uma qualquer filosofia pós-moderna, mas quem já esteve com a Morte como vizinha e a dois fôlegos ou três de A encontrar, sabe que não há filosofia, nem poema, nem ensaio, que resista à experiência física. Porque a Morte é a única coisa da eternidade que se pode ver neste mundo.
Mas nem sempre com o pensamento na Morte, nem negando-A.
André Malraux no final do romance "A Estrada Real", negando-a de uma forma existencilaista, faz dizer a Perken, um dos personagens: "Não há... morte... Só existo... eu... eu que vou morrer."
Estas palavras moribundas e entrecortadas, não são, infelizmente, reais.

31-08-2015

© João Tomaz Parreira  



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

BA2 - OTA, 30º.ANIVERSÁRIO

14/4/1940 Foi inaugurada oficialmente pelo PR Óscar Carmona

BASE AÉREA Nº. 2 – DIA DA UNIDADE
30º. ANIVERSÁRIO – 14/ABRIL/1970

“Com a presença do Director do Serviço de Instrução da Força Aérea, comemorou-se a 14 de Abril, na Ota, o 30º. Aniversário da sua inauguração.
O programa das cerimónias constou de missa na capela da Unidade em memória do pessoal militar e civil da Unidade, já falecido, de formatura geral da Base, alocução relativa ao significado do dia, transmissão das funções de Porta-Bandeira, escolta e Porta-Guião e empossamento do pessoal escolhido, imposição de condecorações a oficiais, sargentos e praças galardoados no período decorrido entre 1969-1970, e desfile das Forças em Parad
a.
O brigadeiro piloto-aviador Krus Abecassis, depois de ter sido recebido à entrada da Base pelo coronel piloto-aviador Brochado de Miranda, Comandante da Base, passou revista à guarda de honra constituída por uma Esquadrilha de alunos com Guião e Fanfarra, comandada pelo capitão Sengo, dirigindo-se em seguida para o local onde se procedeu às cerimónias militares acima referidas.
Usou em primeiro lugar da palavra o Comandante da Unidade que começou por saudar o brigadeiro Director do Serviço de Instrução, dirigindo-se depois aos militares que assumiram as funções de porta-bandeira e sua escolta, a quem exortou a honrarem sempre a missão para que tinham sido escolhidos, ilustrando as suas palavras com exemplos colhidos nas páginas da nossa História, demonstrativos do valor da Bandeira como símbolo da Pátria. Seguidamente o Director do Serviço de Instrução procedeu à imposição de condecorações actualmente a prestar serviço na B.A.2 e a quem, desde o mesmo dia do ano passado, foi concedida tal distinção.” 

PALESTRA “30 anos ao serviço da Pátria” lida pelo capitão piloto navegador
Vítor Manuel Dias dos Santos

Cap.Vitor Santos




 “Há trinta anos que esta Base foi inaugurada".
Debruçando-nos um pouco sobre o seu passado, verificamos que as linhas mestras da sua história não se desfazem em cinzas, antes nos ajudam a compreender a razão que identificou o pessoal que tem servido a Pátria, nesta Base, com a divisa que alicerceia o seu brasão de armas: CUMPRIR ALÉM DO DEVER.
Este é o grito que continua a glorificar os que tombaram aqui! É ainda a ideia força que nos congrega para que a MISSÃO DA UNIDADE possa ser levada a cabo dentro da MISSÃO GERAL DA FORÇA AÉREA, intimamente orgulhosa em viver um dinâmico PRESENTE, alicerce para um melhor FUTURO, onde a nossa consciência possa encontrar a marca da nossa contribuição.  
A Base Aérea nº. 2 foi criada por Decreto em 31 de Dezembro de 1937 e oficialmente constituída em Unidade, com sede em Alverca em 17 de Dezembro de 1938.
Graves inquietações percorriam a Europa de então.
De Outubro de 1935 a Maio de 1936, decorre a guerra da Abissínia, fruto dos sonhos expansionistas da Itália fascista.
De Junho de 1936 a Maio de 1939, o território espanhol é devastado pelas competições ideológicas, no decorrer de uma cruel guerra civil, muito subsidiada pelos interesses das principais potências.
Inauguração oficial da BA2, 14/4/1940
Estas guerras isoladas, com características completamente diferentes, eram como que um negro pronúncio de acontecimentos trágicos em maior escala.
A Europa (e o mundo) vivia em ambiente dramático debaixo do peso da agenda de reivindicações alemãs.
A ocupação da Áustria e o desmembramento da Checoslováquia não deixa muitas ilusões aos mais optimistas.
Em Portugal, os governantes seguem atentamente a deterioração da situação política no continente fratricida.
Não foi pois que acaso que, a 26 de Março de 1940, o Comando e Serviços da Base Aérea nº.2 se instala no novo, amplo e bem concebido aquartelamento, acabado de construir sobre os terrenos que pisamos.
Qualquer observador desprevenido poderia observar o alto entusiasmo em que decorreu o acto de inauguração em 14 de Abril desse mesmo ano.
Nesse dia já se admitia que havia algo de mais profundo do que uma simples festa de nascimento de uma infraestrutura militar.
Estava marcada, e bem demarcada, uma chamada à realidade da II Grande Guerra que estendia os seus tentáculos destruidores.
                       1955-F84G na linha da frente-20ª. Esquadra de Caça
Tratava-se pois de um acontecimento de assinalada importância na vida Nacional, no aspecto da Defesa; e a alta temperatura do termómetro era-nos indicada pela presença dos mais destacados responsáveis pelo Governo da Nação: o venerando Chefe do Estado, general Óscar Fragoso Carmona; o Presidente do Conselho de Ministros da Guerra, Doutor Oliveira Salazar; o Ministro da Marinha, Comandante, Ortiz de Bettencourt; o Subsecretário da Guerra, capitão Santos Costa; o Comandante da Aeronáutica, brigadeiro Ribeiro da Fonseca, entre outras individualidades.
Foi neste pulsar que nasceu a Base Aérea nº. 2.
Ninguém se pode admirar que o seu pessoal tenha pressentido, desde o início, as
1959-Visita do Imperador
Selassié da Etiópia
graves responsabilidades que lhe cabiam.
O povo das cercanias depressa se familiariza com os ruídos e evoluções, tão curiosas como arriscadas, dos aviões que constituem as primeiras unidades operacionais: 15 aviões “Gladiador”, famoso biplano dotado de uma manobrabilidade espantosa, equipam uma Esquadrilha de caça que, pela primeira vez em Portugal, executa acrobacia em conjunto, de muito mérito; 10 aviões bimotores “Junker 86” formam um grupo de bombardeamento diurno a 2 esquadrilhas; 10 aviões trimotores “Junker 52” constituem-se um grupo a 2 esquadrilhas de bombardeamento nocturno.
Pode afirmar-se que a parte visível da grande infra-estrutura era o menor bem que se adquirira.
1961-A primeira recruta na Ota
Invisível, para muitos, estava uma nova orientação no sentido de remodelações nos aspectos de conduta técnica e mentalização do homem, que colocasse a nossa aviação militar a par das suas congéneres estrangeiras.
Oficiais de nova vaga sentiam a ingente necessidade de serem dominadas novas técnicas de administração e de voo, estas últimas a serem descobertas e utilizadas nos combates entre aviadores aliados e do Eixo.
A neutralidade que Portugal proclama podia ser quebrada a despeito da pertinácia e habilidade diplomática com que os nossos governantes a defendiam.
A batalha do Atlântico confere às ilhas dos Açores uma importância vital. E em 1941 para ali é destacada uma esquadrilha expedicionária equipada com aviões “Gladiador” seguindo-se-lhe, mais tarde, aviões “Junker 52” e “Mohawk” com as suas tripulações e outro pessoal.
1968-A torre de controlo
É durante a fase crucial do conflito 1943-1944 que a BA 2 recebe além de 18 avões “Aircobra”, rápidos e aerodinâmicos caças de fabrico americano, alguns bombardeiros médios “Dlenheim” e cerca de uma centena de aviões de caça da mais feliz concepção, “Hurricanes” e “Spitfires” que vieram transformar completamente o cenário da actividade aérea militar do nosso país.
Com efeito, a nossa aviação militar, em particular a Base Aérea nº. 2, estava equipada não só em quantidade como em qualidade.
Nestes céus que nos servem de cúpula os pilotos, a despeito das dificuldades existentes com o abastecimento de combustíveis ao País, queimaram a diminuta dotação que lhes cabia num treino porfiado, intencional e cada vez mais qualificado.
Quer nas messes, quer no hangar vivia-se um clima eufórico de alegre desafio; no ar esse desafio era diário; a emoção controlada um facto; o espírito de corpo um pacto da razão com o sentimento; a frivolidade nos hábitos e a rotina no serviço não tinham lugar.
Anos: 1967 - 1968 - 1969
Os “Hurricanes” tinham sido distribuídos por outras unidades (Tancos, Espinho, Sintra e Portela) e ficavam na Ota 3 esquadrilhas de “Spitfires”, 1 esquadrilha de “Aircobra”, além dos grupos diurno e nocturno de bombardeamento já enunciados.
1952 marca uma nova etapa na história das realizações.
É activada a Subsecretaria de Estado da Aeronáutica, e fundidos os ramos da aviação do Exército e da Marinha.
A união faz a força!
Recebem-se novos e mais evoluídos aviões, os caças  “F-47 Thunderbolt”, para operarem na Base Aérea nº. 2 que, segundo a nova reorganização, dispõe de um grupo de caça diurna constituído por 4 esquadras formadas, cada uma, por 4 esquadrilhas, a 25 aparelhos e 25 pilotos por esquadra.   
1970 - turma de Melecs
As exigências da BA 2 forçam a que outras unidades lhe cedam parte do seu pessoal.
Estas esquadras não são propriamente um fim. São um meio avançado de treino que procura enquadrar o pessoal da Força Aérea num ambiente técnico propício a novo salto em frente na senda do progresso: a utilização dos aviões de reacção que começam a chegar em fins de 1952.
Reacende-se o arrebatamento dos tempos da guerra.
Jovens oficiais treinados na América e na Alemanha neste tipo de aviões vêm verter na Ota o entusiasmo de pioneiros enamorados da missão que o destino lhes reservara.
Cursos magnificamente conduzidos preparam, no chão,
1971-Maj.Catroga, T.Cor.Tomaz
e Maj. Noronha
gente do ar e de manutenção. A Esquadra “T-33” formada em 1953 forja ininterruptamente pilotos de reacção que são imediatamente lançados no terreno operacional programado nas esquadras de “F-84 Thunderjet”.
Observa-se o tipo impecável das aterragens deste ou daquele; olha-se com admiração e discute-se a fineza da figura acrobática singular ou de conjunto.
Vive-se no ar e no solo, mesmo entre pessoal terrestre, o gosto pelas comparações, a necessidade de fazer mais e melhor, entre as esquadras, entre as esquadrilhas da mesma esquadra, entre os comandantes, diálogo determinante de um sentimento de emulação que obriga a um máximo nos empenhamentos pessoais, sem comprometer a sagrada lei da camaradagem e subverter a disciplina.
1978- Cerimónia de despedida do T6
Os elementos da manutenção e outros serviços dão um rendimento, com sempre, muito acima das expectativas. Num organismo de múltiplas facetas sem a harmonia das partes que se interpenetram e se completam. Ninguém, em particular, merece relevâncias. O todo é a única unidade válida de medida.
1969 - Alunos em marcha  e 1991 - 1ª. Recruta feminina. Contrastes !
Em 1956, 2 esquadrilhas de F-84 (oito aviões) saltam metade do Atlântico, em direcção do ocidente, aterrando nos Açores, provando a possibilidade de, em caso de emergência, serem para aí transferidos meios de combate em poucas horas dentro da mais perfeita semelhança da actividade real de guerra que merecem os mais altos elogios de personalidades ligadas ao Pacto do Atlântico Norte.
1957 transfere para Tancos a Esquadra de Instrução equipada com T-33.
1958 vê chegar à Ota os novos aviões “F-86” que formarão a Esquadra 51 com destino a Monte Real.
A vinda deste tipo de avião mantém o ritmo de rejuvenescimento: mais velocidade mais poder de fogo. Os pilotos portugueses vencem a barreira de som…
2015 - 75º. aniversário da BA2

Até que em 1960 se dá um verdadeiro golpe de teatro:
-É extinto o grupo de caça.
-Criado um grupo de instrução a 2 esquadras, transporte e reacção, esta regressada da BA 3 e aquela, dotada com aviões bimotores “C-45” e “C-47”, que segue em 1964 para os Açores.
-É criado o Grupo de Instrução de Técnicos e Especialistas (GITE).
A missão da BA 2 mudou radicalmente.
Mudou no aspecto, não na importância.
Na década dos anos 60 Portugal de novo espanta o mundo combatendo a alegada mudança dos ventos da história.
Conhecemos outros ventos:
    - Os ventos mouros dos tempos da reconquista cristã, início da nacionalidade.
     -Os ventos castelhanos das lutas pela independência, do Mestre de Avis e em 1640.
     - Os ventos desencadeados pelos mostrengos do mar oceano na época de 500.
Tal com outrora jogamos uma cartada de vida ou de morte.
E é neste jogo que a BA 2 toma lugar cimeiro, preparando pessoal da Força Aérea para servir em todo o espaço Português.
Todos os anos esta Unidade se enche e esvazia diversas vezes em partos laboriosos de mocidade que entrou menina e sai adulta a integrar-se na defesa dos nossos sagrados interesses acobertados pelo Direito.
Isto de ser Português, isto de se ter a sorte de contribuir para o Bem Público pela via da Base Aérea nº. 2, é fenómeno que:

MAIS VALE EXPERIMENTÁ-LO QUE JULGÁ-LO MAS JULGUE-O QUEM NÃO POSSA EXPERIMENTÁ-LO.

Fotos: 
1 – Brig. Krus Abecassis a fazer a imposição da medalha de prata de serviços distintos ao TC piloto-aviador Febo Vargas de Matos
2- O Director de Serviço de Instrução, Brig. Krus Abecassis, condecorando com a medalha de ouro de comportamento exemplar o cap. De serviço geral Adriano Vaz Garção
3 – O cap. Piloto navegador Vítor Manuel Dias dos Santos lendo a palestra “30 anos ao serviço da Pátria”
4 a 18 – Fotos extraídas do Blogue http://ab4especialistas.blogspot.pt/ - Álbum da OTA
          
           
Notas: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 133 – Maio 1970

Até breve                                                                                   
O amigo 









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