sexta-feira, 2 de agosto de 2013

CACIMBADOS DO CAZOMBO


Eram dois bons companheiros do Norte, tripeiros de gema: sei que trazer esta história a público, identificando-os pelos próprios nomes, não os molesto em nada. Conhecedor que sou, dos seus humildes, mas nobres sentimentos, nunca me levariam a mal. Prefiro no entanto tratá-los por Zé Tó e Tó Zé, pois espicaço a vossa curiosidade para tentar identificá-los. Não andam por estes lados do FB, mas o Antonino já me deu os seus contactos. Quero um dia abraçá-los com aquele abraço que só os cazombeiros sabem dar. Cazombo, Julho de 72.

Depois do almoço e não tendo qualquer voo previsto, resolvi fazer uma “siesta” no alojamento reservado aos pilotos. Quem conheceu, deve lembrar-se que havia umas pequenas janelas altas, protegidas com rede anti-melga. Nas traseiras havia três , quatro cadeiras de esplanada, onde a malta se sentava a beber uma“cervejolas” e cavaquear um pouco. Enquanto passava pelas brasas, ia escutando a conversa entre os dois companheiros que referi.
Tó Zé:- tens umas botas porreiras pá!
Zé Tó;- pois tenho…
Tó Zé:- era gajo para “tas” comprar! Queres vender?
Zé Tó:-baah! Querias!!!
Tó Zé:-são porreiras vendes?
Zé Tó:-baah! Querias!!!
Tó Zé:-mas vendes ou não?
Zé Tó:-baah! Querias!!!

Acabei por adormecer: acordei cerca de uma hora depois. Enquanto passava um pouco de água pela cara ouvi:
Zé Tó:- querias!!!
Tó Zé:- anda lá pá, vende-me lá essa merda!
Zé Tó:- querias!!!
Sorri, vesti os calções e circundei o edifício para me juntar aos “bacanos”.
Boas, pessoal!
Oi, responderam em uníssono.
Tó Zé:- já viste que botas porreiras tem o Zé Tó?
Eu:- já! Se ele quisesse eu comprava!
Zé Tó:- também tu com a mesma conversa deste azeiteiro?
Querias!!!
Eu:- bom, vou lá dentro buscar uma cervejinha…
Zé Tó:- traz uma “pra” mim…
Eu:- Querias!!!
                     
Cinco e meia da tarde: O Sol já de tom alaranjado beijava o horizonte para lá do Cavungo, envergonhado e confundido com o cacimbo. O Zambeze na sua mansidão preparava-se para adormecer nos meandros, para lá da pista.
Nas mesas “jaziam” dezasseis garrafas de nocal prontas para ajudar o Natálio Parola a repor o vasilhame extraviado.
Á noite, depois do jantar, continuou o baile da cerveja no bar do meu amigo e conterrâneo Nogueira.
Caros Tó Zé e Zé Tó: sei que me perdoam esta “inconfidência”. Um dia destes, numa qualquer esplanada da Foz, havemos de nos rir um pouco. ABRAÇO



quarta-feira, 31 de julho de 2013

COSMONAUTICA 1

                                     HERÓIS DO ESPAÇO

O primeiro homem a viajar pelo espaço

Yuri Aleksevitch Gagarin 


O primeiro cosmonauta do Mundo a voar em voo orbital foi o russo Yuri  Gagarin, como nos recordamos.Era então um Major de 27 anos, quando no dia 12 de Abril de 1961, tripulando a cosmonave “Vostok 1”, impelida por um poderoso foguete RD 107 (de 5.200kg) que circulou o globo terrestre em 1 hora e 48 minutos.

John Herschel Glenn
John Glenn aos 77 anos, quando foi pela segunda vez ao espaço, como tripulante do ônibus espacial Discovery.
Foi o tenente- coronel John Glenn, que no dia 20 de Fevereiro de 1962, tripulando uma nava “Mercury” – baptizada de “Friendship 7” (Amizade 7), realizou um voo orbital, efectuando três voltas em torno da Terra, acabando por pousar 250 quilómetros da ilhMalcolma do Grande Turco, nas Bahamas.
John Glenn esteve no espaço 9 dias2 horas e 39 minutos
Malcolm Scott Carpenter

O Comandante Scott Carpenter no dia 24 de Maio de 1962, também efectuou um voo orbital de três voltas em torno da Terra.
Scott Carpenter permaneceu no espaço 4horas e 56 minutos

Walter 'Wally' Marty Schirra Jr
No mesmo ano ainda, no dia 3 de Outubro 1962 O comandante ‘Wally’ Schirra foi ao espaço pela primeira vez na nave Sigma 7, para uma missão de seis órbitas em volta de Terra
Walter Schirra esteve no espaço 9 horas e 13 minutos

Alan Barlett Shepard, Jr

Já anteriormente os americanos haviam realizado dois voos sub -orbitais: um a 5 de Maio de 1961, na cosmonave “Mercury”, a- “Freedom 7”( Liberdade 7),tripuladada pelo comandante, Alan Shepard.
Alan Shepard esteve no espaço 216 horas e 57 minutos


Virgil Ivan Grissom

O outro voo foi efectuado pelo capitão Virgil Grisson no dia 21 de Julho do mesmo ano, numa cosmonave também “Mercury”, o “Liberty Bell 7 (Sino da Liberdade)
Virgil Grisson esteve no espaço 5 horas e 7 minuto Note-se todavia, que o voo suborbital não é, propriamente, um voo cosmonáutico. O voo suborbital assemelha-se a trajectória balística clássica. O satélite é lançado a grande altura por um foguete, e volta a cair sem chegar a completar uma volta em torno da Terra. A NASA serviu-se deste tipo de experiencia para adquirir o domínio necessário para a seguir, lançar cosmonautas em voo orbital.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

ALOUETTE III, COMBATENTE INCANSÁVEL


Alouette III, transportador incansável, digo isto por, no ano de 1972, um camarada piloto de helicópteros, por muito que rebusque não dou com o rosto, e, confesso, muito me agradaria lembrar-me, mas recordo a situação que era de fome futura no AM 44 - Cazombo.
A urgência aconselhou-me o pedido de socorro. 
Saímos, dinheiro no bolso, um grande saco de sal, vinho branco, e G3 na mão.
Encontrámos umas vacas e o respectivo vaqueiro e o negócio fez-se, financeiramente não correu mal, o sal e o vinho bastaram, um tiro acalmou a transportada e tornou o transporte mais seguro. Pendurada no patim, embora sem certificação sanitária, acabou no nosso prato, graças à disponibilidade de um camarada piloto e da sua máquina.
Não me lembro, talvez este tenha sido o último helicóptero sediado no Cazombo em regime de destacamento. 
Tenho alguns amigos entre o pessoal dos helicópteros, do P2 de 69, foram muitos os escolhidos para esta aeronave, daí a inserção desta recordação nada heróica, porém meritória - HELI não era só transporte de guerreiros, evacuação de feridos, transporte de VIPs, apoio de Heli canhão às tropas em terra, foi também transporte de viandas. 

Abraço a todos.




         

sexta-feira, 19 de julho de 2013

O ACIDENTE DOS HELIS 9255 e 9361, DE 28 DE MARÇO DE 1974

Hermínio Baptista, Comandante dos Saltimbancos, amigo do Restelo desde 1955, vivíamos a cerca de 50 metros, janelas com janelas.
 Foto de Benjamim Almeida da C.Art. 6551
Desse dia, 28 de Março de 1974, fica esta dor maior, mais profunda por ter aterrado no meio da mata para recuperar os dois corpos e levá-los para o Hospital do Luso.
Depois, e porque o Passos Cruz ficou abalado e incapaz de voar, foi preciso que o Vasco Torre do Vale, que já tinha mais de 50 horas nesse mês - dia 28 - e o Zé Ramos, com as malas de fim de comissão já feitas, pegassem em duas máquinas e se juntassem ao João Cavaleiro, ao Flávio Llorent e a mim, com apoio dos T6, e fôssemos tirar da mata a companhia de comandos que já não tinha comida e andava às voltas com a UNITA.
Tudo começou 2 ou 3 dias antes, quando, em operação, e com uma formação semelhante, se acendeu a luz de temperatura da BTP. Aterrei, o MMA viu que não havia fuga de óleo e prossegui até ao Luso.
Num dos dois dias seguintes a máquina foi dada como pronta e fui fazer o voo de experiência, puxei até não poder mais e a luz não acendeu novamente.
No dia 28 descolámos à 06:00h e às 06:20h a luz acendeu novamente, o Hermínio Baptista disse, "já estava a espera"; aterrei para fazer a verificação. Eu ia a 1 por ser o mais antigo na zona e o Moutinho, que ia a 2, ficou a 1, o Hermínio Baptista, na "fisga"(canhão), deu instruções para 360º. pela esquerda.

Ouvi um "atenção!" e depois silêncio geral.
Um dos outros reportou que parecia que tinha havido um acidente, descolei do buraco e não vi ninguém, só depois percebi que os três - Cavaleiro, Llorent e Passos Cruz - iam em direcção ao caminho de ferro, tendo aterrado.
Juntei-me a eles, que ficaram no solo a comunicar o sucedido e fui, com o MMA, recuperar os corpos do Baptista e julgo que do Martinez, pois os outros três estavam em local inacessível. Levei-os directamente para o hospital.
Àquela hora o sol estava baixo, e voávamos de Leste para Oeste, quando fizeram os 360º, o Moutinho ficou com o sol de frente e não viu o Baptista, que ainda não tinha iniciado a volta, pois vinha a fechar a formação.

Por:



 




Nota dos editores, neste acidente faleceram os seguintes companheiros: 


Descansem em paz !

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O FESTIVAL ÁEREO DE BRAGA


Uns dias antes, fui designado para fazer acrobacia "solo", pelo então Ten.Pil.Nav. António José Alves Pereira(O thef). 
Fui de S.Jacinto a Palmeira no 1375, novinho, (a quem eu tinha "tirado a virgindade"), para "reconhecer" o Aeródromo...hihihihihihi eu estava fartinho, mais o Manelito Caridade, de ir lá, "comer os malmequeres e partir os penicos de barro"...o Caridade ficava em Vila Verde e eu ia uns 3Kms mais a norte - ao Pico de Regalados - "voar debaixo das árvores"...depois regressávamos à BA7. 
No "reconhecimento" a Palmeira, conheci lá o Maj. Pil. Nav. Canavilhas, um "bom garfo e melhor copo" (pai da Canavilhas pianista, ex-ministra da educação), que me aconselhou a não "entornar muito verdasco", porque fazia mal...diz o roto ao nu...eu fui criado a mamar tintol verdasco das tetas da minha velhota (que Deus a tenha lá, à minha espera até um dia destes...) e tive logo um "professor a dar lições"...hihihihihihi.*


No dia 23Jun1960 (Chipça, como isso já vai tão longe!!!), 5 "chikapuns" da BA7 arribam ao Aeródromo de Palmeira, fazem várias passagens, saio da formação e começa a "cena"...estava um calor do caneco, fiz as figuras com mais "pastilha" (à cause des mouches...) do que o normal mas, num dado momento, ao querer enrolar um "tonneau" baixo prà direita, o passarinho não quis e eu não tive outro remédio senão reenrolá-lo prà "escanherda" e o bicho lá obedeceu; voltei a subir, fiz mais umas piruetas e aterrei.
O pior estava para vir: o Cor.Pil.Av. Magro, comandante da BA7, chamou-me e mandou-me agradecer os aplausos (eu que não tinha ouvido nada...nem tinha jeito para papagaio, lá consegui dizer meia dúzia de "pópós seguidos") mas, confesso, a coisa não saiu lá muito janota...enfim, entre mortos e feridos, lá escapei...
A seguir, fomos todos para a farra em Braga: foi de tal ordem que ficámos todos com as velas encharcadas, a malta na cidade não nos largava e só sei que fomos dormir, bem "entornados"(?), num lar, na Rua dos Capelistas, até à saída para S. Jacinto; estava toda a malta com os "olhos cheios de teias de aranha" e não dava com o rumo para a Base...valeu-nos a Zanaga de Paços de Ferreira !!! O pessoal da "Bracara Augusta"(Gente Fina, claro!!!) não teve mais o que nos fazer!!! Nunca mais esquecerei essa façanha!!!
Eis aqui, ao fim de 50 anos, o relato das façanhas deste jovem de quase 73 primaveras...éramos todos novos, cheios de sangue na guelra, mas com uma carola do caneco, própria de quem no inverno, com 4 "Chips" em coluna, se metia, voando abaixo das copas dos amieiros, no Rio Novo do Príncipe, a tocar com as rodas na água (eu era sempre o nº.4, a levar com o óleo do nº.3 no focinho...), só para pregar um valente cagaço às mulheres que estavam a lavar, com a água pelos joelhos, no açude (pesqueira) mais adiante...já alguém imaginou estar a lavar e, de repente, aparecem 4 malucos, às 8:30 da manhã, a rapar-lhes a cabeça? E as molhas que elas apanhavam ao cair à água gelada?...coitadas das nossas mãezinhas, foram tão insultadas...enfim, eu hoje NUNCA faria isso, claro!!!
Abraços deste "aeronauta malfeitor" que um dia se "curou" destas maldades... 
Se a minha memória não falha, os "abuadores" eram: Pinho, Hélio Moura, Malheiros e Lima (Ten. Acabado e Ten. Alves Pereira não entraram nas "figurinhas", mas o "Thef" esteve em contacto-rádio comigo durante as mesmas) 
Fomos até à cidade e depois foi uma "desgraça"...hihihihihihihihihi
Bons velhos tempos !!!

A BA7 deu-nos muita experiência; serviu-nos muito para, em 1964, andarmos a "guerrear" nas matas de Angola...mas, isso é outra história!!!

Abraços do Anibal Pinho
Piloto 60/70, na FAP; de 71 a 2000 na TAP(em 97 reintegrado na FAP)
 

sexta-feira, 28 de junho de 2013

FOI HÁ QUASE 38 ANOS - O FIM DO AB4 I


O AB4 fecharia as suas "portas portuguesas" daí a dias/semanas: esta fotografia foi tirada exactamente em fins de Julho75, já a Base/arredores era um imenso acampamento civil-militar, com problemas mil e uma confusão que só Deus sabe.
Quem se lembra deste "mercedes": o do comando, dos comandantes, Pereira, Sachetti, Negrão, Sampaio, Oliveira…!
Coube-me em ‘sortes’ nas últimas semanas de AB4.
Um luxo ao lado das desgraças. 
O "take" foi feito dentro da Base a nascente do Comd/CA/Secretaria e lá atrás está o Cap. SG….. não consigo recordar e que coordenou a secretaria nos últimos dias-AB4.
O Maj. Fermeiro preferia o "seu" Jeep e, daí, depois de me ter desfeito do meu carocha VW, branco-irrepreensível, ter direito a esta "preciosidade" alemã.
O Fermeiro Pilav, foi o último "comandante". Tenho algures uma fotografia com ele .Virá a seguir.
Os dias e noites eram de instabilidade permanente e as "directas" eram normais, apesar de prolongados serões com cerveja e algumas iguarias restantes..
O princípio-do-fim do AB4 foi exactamente em 12 de Junho noite de Santo António. 28 horas ininterruptas de "fogo" que de artifício nada tinham. 
Foram horas, semanas, por vezes dramáticas e assustadoras; não mais a malta se pôde "ir à cidade" de Henrique Carvalho…Só pontualmente mas em coluna militar com pré–aviso aos senhores da Fnla, Mpla e Unita.
Até breve.



quinta-feira, 30 de maio de 2013

NOMES QUE FIZERAM A HISTÓRIA DA AERONÁUTICA PORTUGUESA



Manuel Gouveia

Natural da cidade do Porto, cidade onde nasceu a 4 de Fevereiro de 1890, entrou para o Exercito em 1912, integrando os Sapadores de Caminho-de-ferro. Cinco anos depois, emigrou para França integrado no Corpo Expedicionário Português. Por lá ingressou nos Serviços de Aviação e frequentou a Escola de Mecânicos de Saint Cyr, local onde se especializou em motores Gnome-Rhone e Hispano-Suisse.
Durante a guerra trabalhou como mecânico na esquadrilha francesa 124, onde figuravam alguns pilotos de origem portuguesa.Com Sarmento Beires e Brito Paes viajou até Macau, em 1924. Dois anos volvidos, finalizou o curso de pilotagem na Escola de Aviação Militar, em Sintra, e posteriormente participou na travessia nocturna do Atlântico Sul.Fez ainda parte do Cruzeiro Aereo às Colónias entre 1935 e 1936.
Morreu a 10 de Dezembro de 1966 em Lisboa.


BRITO  PAES

António Jacinto da Silva Brito Paes nasceu em Colos, Vila Nova de Milfontes, a 15 de Julho de 1884.
Em 1907, ingressou na Escola do Exército, onde estudou Infantaria. Serviu de Caçadores 5 no Batalhão e na Companhia do Niassa, da qual regressou por doença em 1912.
Obteve o brevet de piloto na Escola de Avord em 1917.
Antes disso, tinha combatido com a infantaria 15 do CEP, tendo sido condecorado com a Cruz de Guerra, Ordem de Torre e Espada e a Legião de Honra francesa.
Com o fim da Primeira Grande Guerra, foi colocado no comando da Esquadrilha de Bombardeiros e Observação do Grupo de Esquadrilhas de Aviação da República, o que coincidiu com a sua tentativa na companhia de Sarmento Beires, de cumprir a ligação aérea à Madeira em 1920,com o Cavaleiro Negro.
Em 1924 realizou o raid a Macau, também com Sarmento Beires e também na companhia de Manuel Gouveia. 
Comandou ainda o Grupo Aviação da Amadora, tendo vindo a falecer tragicamente, a 22 de Fevereiro de 1934 num choque em pleno voo de dois aviões Morane, em Sintra. Era tenente-coronel e não tinha ainda completado 50 anos.

Crédito: Euro Impala/Força Aérea Portuguesa

quinta-feira, 9 de maio de 2013

CONVERSAS NA CIDADE Nº.5



Nota Introdutória
     No périplo acostumado dos “azulinhos” e depois de terem colocado os “trens” no asfalto, sucediam-se sempre as mesmas passadas. Repetiam-se vezes sem número pelos vinte e tantos meses de comissão. Do Hotel Pereira Rodrigues, farejavam os diversos bares espalhados pela grandiosa “urbe”: Cubata, Estrela D´Alva, Mobil, Lux, Quioco, Clube de Saurimo, Cinema Chikapa, etc.
     Faziam-se tangentes à Igreja, Palácio do Governo, Correio, campos da bola, piscina, cinema – tudo à caça das pombinhas. E, de tiradas duvidosas … rumavam para as sanzalas, projectados para missões humanitárias!...
     Mas, deixem o “marrador” situar melhor a rota infinda dos más-línguas.
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Marrador – Saudosos, naquela noite quente como a febre do doente, lá estavam os nossos “magalas aéreos” a curtirem no Bar Quiouco. Porém, lembraram-se das mulatas deitadas nas cubatas sem janelas, e eis que se impulsionam para outras paragens da cidade.
 VITO – Vamos à vida?
JOCA – “Let´s e kamón”.
VITO – Estás armado em “bife”?
JOCA – Bruxito. “Kultura” meu…
VITO – Vamos em frente, passamos pelo Cubata, mas sem parar. Só miramos o pessoal por via aérea e desandamos como uma “bufa”.
JOCA – Perto do Cubata vive a família magnata da cidade!...
VITO – Eu sei. O OLIV namora a filha.
JOCA – Porra!... Sabes tudo!...
VITO – Então, ele anda no Liceu com ela. Até soube que levou a balança de pesar “kamangas” para uma aula de química.
JOCA – Ehhhh….pá! Essa, é forte! Experiências!...
VITO – Aqui em frente do Hotel mora a família Soeiro. Pessoal meu conterrâneo. Já se encontram aqui desde os primórdios e têm muitas histórias interessantes.
JOCA – Sabes alguma?
VITO – Há dias atrás não viste um leão morto num jipe?
JOCA – Vi. Foram caçadores que o mataram.
VITO – Pois bem. O Soeiro contou-me que no final da década cinquenta não existia matadouro na cidade. Os animais eram colocados numa cerca de madeira e abatidos a tiro de caçadeira por um dos cidadãos. Essa acção até servia de espectáculo à população. Um dia, o caçador apontou a espingarda para a vaca a abater porém, desviou a mira sem se saber o porquê… E a multidão logo se interrogou com o gesto do mata rezes.
JOCA – Estava louco?
VITO – Louco? Apontou a arma para além da cerca e abateu um leão que se preparava para comer a vaca!...
JOCA – Leões na cidade?
VITO – Aprende… o leão da Lunda foi muito afamado e circundava a cidade há meia dúzia de anos atrás. Frequentemente eram avistados junto ao Clube de Saurimo.
JOCA – Já não vou à Barragem do capelão!...
VITO – Podes ir… os leões não andam de carrocel!... Tens “miúfa”?
JOCA – Olha, enveredemos pela Avenida do cinema. Por aqui não há leões. Só… leoas.
MARRADOR – A cidade era pequena e fazia-se bem à pata. Do Hotel Pereira Rodrigues, tomam o rumo Oeste na direcção do cinema Chikapa. Eles lá sabem o porquê!...
VITO – Queres ver o filme “A Dama das Camélias” da Sara Montiel?
JOCA – Sabes tudo. Até as fitas que correm?!...
VITO – O OLIV informou-me pois, estará lá com a filha do magnate, proprietário do cinema.
JOCA – O sortudo!... Estes ases do Leste namoram tudo o que é rico!... É a filha do Governador, é a filha do Secretário, é a filha do pedreiro…
VITO – Essa última, não.
JOCA – Foi a que te gozou?
VITO – Amélia…trá…la…rá…la…rá…
JOCA – Canta, canta, que o teu mal espanta. Depois do filme preciso de comprar umas coisas no “fardex”.
VITO – “No problem”. Temos o tempo todo por nossa conta. Vamos visitar o Jesus na estalagem do cripto, e o Sargento Baptista que vive num apartamento alugado. Depois, vamos ao “fardex”. Seremos os primeiros a desfazer o fardo para escolhermos a roupa. O filho do proprietário já combinou com o pai a fim de sermos os primeiros a escolher as peças…antes do pessoal da sanzala.
 JOCA – Tudo por tua conta. És o “BIG”!
VITO – “BIG BEN” !...
MARRADOR – Gozões… Sempre na “carneirice” do costume. Viram a “fita” como dois adolescentes, miraram o namoro do OLIV e a sua TER – lá para os confins dos balcões, e foram visitar o Jesus e o Baptista. Depois, seguiram para os lados da Junta Autónoma de Estradas, começos da estrada para o Luso.
JOCA – O Jesus estava todo entrapado!
VITO – Não soubeste que ele deu cabo da ponte do Chikapa?
JOCA – Como, se ela é de ferro?!...
VITO – Pois, por isso mesmo é que ele esteve em coma e quase partiu deste mundo para visitar o S. Pedro…
JOCA – Já estou a ver que ele ia de mota!
VITO – Parece que foi atacado. A coisa esteve mal!...
JOCA – E o Baptista? Alugou apartamento na cidade mas… ele é solteiro?!
VITO – “Atão”… Lá tem os seus esquemas e ideias. Olha, de vez em quando vou beber umas cucas com a malta conhecida e, por vezes, temos lá umas “coelhinhas”. Tudo boa gente.
JOCA – Estou a vê-las!...
VITO – Vês…vês aquela placa a sinalizar a entrada para H. de Carvalho?
JOCA – Sim, e depois?
VITO – Foi nas proximidades dela que se deu o ataque ao Sargento Carvalho aquando do negócio das “Kamangas”.
JOCA – Tive pena pela morte desse companheiro!... Tanta gente no negócio e foi aquele o mártir!...
VITO – Segundo reza a história, antes da nossa comissão houve um soldado que conseguiu “exportar” umas boas “Kamangas” para o “puto”.
JOCA – Como?
VITO – Pagas para saberes?
JOCA – Pago. Até posso ter conveniência nisso.
VITO – Colocou as “Kamangas” num tubo da pasta de barbear, e ala que se faz a mala.
JOCA – E não acusou nada?
JOCA – O invólucro tem chumbo… aprende.
JOCA – Ahhh!... Há pouco tempo soube que o PIN e mais três, foram às compras desse “material” lá para as sanzalas  do Oeste.
VITO – Fizeram negócio?
JOCA - Ora, montados em duas motas, palmilharam alguns quilómetros. A sanzala estava em festa com os “canhicas” ou, “cilongos”, na “wino” com saias de palha e a pedirem umas “falangas” à malta. Os “gomas tchinguvos” arrufavam juntamente com a melodia dos “quissanjes”. Tratava-se da “tchisela”, uma dança muito conhecida pelos autóctones. Foi difícil encontrar o negociador. Depois de algumas incertezas… compraram-se umas pedritas que ficaram na posse do SOI.
VITO – Deu alguma coisa?
JOCA – Segundo informações… bem, as pedritas tinham carvão e foram vendidas por pouca coisa. Quem lucrou foi o SOI pois, como era o mais teso ficou com a “falanga  toda para tirar a carta de condução. Os restantes três concordaram…
VITO – Muita gente anda metida nisto!...
JOCA – A “rusga” já anda a investigar professores, polícias, e que mais?!...
VITO – Cautela, meu!
JOCA - Nesta estrada para o Luso, contou o OLIV que em viagem num T-6 com o PIN meteram um “cagaço” a um negro que vinha de “kinga” na recta.
VITO – Como assim?
JOCA – Meteram o avião a pique direitinho ao “carvão” e só tiveram a ocasião de ver a “kinga” deitada no asfalto e o sujeito a fugir pela “nhara” fora!... Disse que lá de cima…foi um espectáculo!...
VITO – “Malandrecos” esses “pilotaços”. Parecem o “Major Alvega”… da banda desenhada!
JOCA – Então, e o “fardex”? Preciso de roupa e o “tangwa” já vai alto.
VITO – Vamos lá ter com o meu amigo para saber se o pai já desatou o fardo.
MARRADOR – Volteando os fardos, lá escolhiam as calças e camisas enrugadas, provenientes da África do Sul. Eram “magotes” de roupa cedida gratuitamente para os candongueiros do comércio local. Ainda se conseguiam umas peças chiques e baratas que até faziam figura. Lembravam a roupa vendida em segunda mão, nos “Américas” nas Lajes.
…,…    …,…
     Aqui, na tasca do comerciante, desenhava-se o convívio para o jantar. Já se falava na “muamba” de galinha regada com “marufo” ou, “malufo”… da “tapioca” como sobremesa, e no célebre digestivo da “catchipembe”. Para finalizar… umas “liambadas” ou, umas baforadas na “mutopa”… se o nosso “Nzambi” deixar!...
     Maravilha… das maravilhas, esta África enfeitiçada!...            Enfim!...


Língua Quioca
Kamanga – diamante
Canhica / cilongo – jovens
Wino – dança
Falanga – dinheiro
Goma tchinguvo – tambor
Quissange – instrumento musical de palhetas
Tchisela – dança da circuncisão
Kinga – bicicleta
Nhara – savana
Tangwa – sol
Muamba – pirão ou funge com dendén
Quiouco – O pensador
Marufo – vinho feito da fermentação da seiva da palmeira
Malufo – vinho
Tapioca – papa de farinha de mandioca granulada e doce
Catchipembe – aguardente
Liamba – tabaco
Mutopa – cachimbo de água
Nzambi – Deus
Anotações:
Oliv, Ter, Pin, Soi – Nomes fictícios – mas com factos reais
Soeiro, Baptista, Jesus, Carvalho – Factos reais
Fotografias:
Recolha no “nosso” Blogue
Versos:
Hino dos Saltimbancos – Letra de Franklin Santos (uma quadra)

 Até Breve