sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

CHAMUANZA (NETO PORTUGAL) NÃO MORREU !


ENTARDECERA muito. 
Apenas a mancha clara da pista sobressaí a da escuridão. 
O ruído dos motores abafava as vozes dos vultos que se recortavam em movimentos velozes. Dois T-6 da Força Aérea preparavam-se para levantar. Os pilotos, tenente Neto Portugal e o sargento Morais ocuparam os seus lugares. Pouco depois o primeiro rolava em direcção ao extremo da pista. Um piscar de luzes e ei-lo que descola. Não chegou porém, a tomar grande altura. Percebeu-se que o aparelho estava em dificuldade. 
O T6 acidentado
Efectivamente o T-6 despenhou-se no solo, já em pleno matagal.
Fora tudo muito rápido! A estupefacção que se apodera de todos era tão profunda que durante alguns momentos nenhum daqueles homens empalidecidos se moveu. 
O ronronar brusco de um motor e jeep provocou sobressalto. Um veículo afastava-se ao encontro do local do sinistro antes de alguém ter tido tempo de proferir palavra. No meio do nervosismo geral ouviu-se uma voz:
«- Foi o Manel das Pedras…»
Fora realmente o Manuel Carlos da Silva o primeiro a recuperar-se da emoção. Num salto ganhou o jeep e arrancou. Guiou-o o instinto nato que lhe permitiu orientar-se naquele labirinto de capim alto. Mas, se um homem pode crer ser capaz de enfrentar o risco de aventurar-se sozinho naquelas paragens, o ir ao encontro do avião em chamas representa já um completo desprezo pela própria vida ou um extraordinário sentido de solidariedade. Seja o que for, Manuel Carlos da Silva enfrentou as chamas e retirou o piloto da crítica situação em que se encontrava.
Momentos depois, elementos das Forças Armadas
Visitando o Chamuanza
no hospital

chegavam ao local e o capitão médico Freitas de Oliveira assistia ao ferido, comunicando, posteriormente, que o ferido se encontrava livre de perigo, embora com fortes queimaduras e contusões várias.


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Agora, para salientar a bravura e o sangue-frio dum homem simples que soube revelar a sua força de carácter quando lhe perguntaram: «Mas, Manel, tu não pensaste que um avião militar podia transportar explosivos?» respondendo:
«Pensei, sim…Mas…Mas o nosso tenente Neto é um... chamuanza (bom, em dialecto luena)…Tinha que lá ir... Depois é que as pernas me tremeram…»
Como todos os homens que chegam ao heroísmo, o Manuel Carlos da Silva encontrou na singeleza e na humildade a explicação dos seus actos.
Na sua oficina
Ao lado, na sua modesta oficina Manel continua a trabalhar indiferente à admiração que lhe testemunha todos os que tiveram conhecimento do seu acto heróico. Mas foi graças ao seu sangue-frio e abnegação que o “chamuanza” Neto Portugal continua a viver
No Cazombo, Manuel Carlos da Silva é uma figura popularizada. Homem de engenho, soube engendrar uma oficina para trabalhar a pedra do Cazombo. Com uma caixa de velocidades improvisou um torno rudimentar e com ela consegue desbastar a pedra e criar objectos, fazer arte popular. 
Esta é a segunda vez que NOTICIA se refere ao Manel das Pedras. Da primeira quando uma equipa de reportagem do nosso jornal se deslocou ao Leste e foi ver a sua oficina.


Créditos:Revista "Noticia" Junho 1969
Formatação e tratamento de :Aníbal de Oliveira

1 comentário:

  1. Tive o prazer de conhecer ambos. No Cazombo estive com o Manel e em Maio de 1969 na Feira Popular em Lisboa encontrei-o no gozo de um mês de férias que o governo de então lhe ofereceu. Em Gago Coutinho tive o prazer de conviver e viar com o nosso Capitão que quando chegava, agradecia o convite do Comandante do Batalhão do Exército mas não aceitava porque dizia querer estar com os seus homens, ou seja junto à enfermaria. Comia e dormia na messe de sargentos com os especialistas. Grande Homem. Entretanto soube que o nosso amigo Manel já faleceu. Paz à sua alma e que Deus o guarde.

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