sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

QUANDO "ANDEI" NA OTA

Após algumas viagens por Londres e Paris nos igualmente, saudosos e inesquecíveis anos de 70/71, onde muito aprendi sobre emigração, emigrantes e algumas filosofias politicas, e políticos filósofos, regresso a Portugal nos finais de 71, inícios de 72. 
Logo após o regresso, os amigos e ex-colegas de escola, muitos tal como eu, que ingressaram na Mocidade Portuguesa, ainda de calções, no ciclo preparatório (Escola Preparatória Manuel da Maia, em Campo de Ourique, perto dos Prazeres) e depois na escola secundária (Escola Comercial Veiga Beirão, no Largo do Carmo), dizia eu, precisava de acalmar os seus ânimos patrióticos, visto que eu não estava, por esta altura, a agir – A Bem da Nação.
Mas muito mais do que isso, para descansar a família que não estava pelos ajustes, de manter em casa um “folgado”, decidi que deveria mudar o rumo de vida, e apresentei a minha candidatura para a FAP, em Fevereiro/Março do auspicioso ano de 1972, na Rua Palmira ali para os lados da Almirante Reis.
Recrutas da 2ª. de 1972
Em Junho desse ano, iniciou-se a incorporação da 2ª. recruta de 72, onde me perfilei pronto a cumprir o meu dever. 
Em meados de Junho, lá estávamos nós em fila para o barbeiro, mesmo ao lado do bar, que vendia umas espectaculares sandes de pão escuro, que me mantiveram nutrido durante toda a recruta. 
Na 2ª. Secção da 2ª. Esquadrilha, iniciaram-se as hostilidades, Comandante da Secção – Alferes Afonso, coadjuvado pelo Cb/Mil. Franco (também ex-Veiga Beirão), e outro miliciano que esqueci o nome. Crosses até ao Bico do Pardal, marchas nocturnas, e formações na parada aí pelas 3 da manhã, de cuecas, pijamas ou o que se vestisse para a solenidade do momento.
Uma secção da 2ª. de 1972
E lá foram passando os dias, com cinema ao fim de semana, ou então a verdinha dispensa do toque de ordem, que garantia dois dias sem farda, e alguns momentos inolvidáveis com as namoradas, pois que, havia quem permutasse fins de semana com os amigos de outras localidades, uma vez em casa deles, na próxima em nossa casa, e foi assim que durante algum tempo pequei por adultério, relativamente às namoradas, não aos amigos.
No fim do verão, que foi quente, foram distribuídos os
impressos para a escolha da especialidade.
Um grande bem-haja ao companheiro Manuel da Costa, (Ex-aluno da referida Escola Comercial Veiga Beirão, e responsável pela secção de basquetebol da escola), também OPC, e mais tarde jornalista da RTP, que me encaminhou para a sua especialidade.
O juramento de bandeira chegou sem grandes incidentes, nem acidentes, no final de Setembro. Nesse dia alguns companheiros, não sei se pela emoção, ou por fadiga, caíram em plena cerimónia que se efectuava na placa mesmo em frente aos hangares do G.I.T.E., é claro, que a virilidade ostentada pelos superiores, não permitia o socorro urgente dos caídos, e só algum tempo depois se aproximavam os maqueiros para a evacuação dos mais débeis.
Juramento de Bandeira da 2ª. de 1972
Em Outubro do mesmo ano, o inicio da especialidade, após a semana de campo na serra de Montejunto. 
Foi nesta altura, no inicio da especialidade, que um suspeito VW carocha, começou a aparecer pontualmente às 8h da manhã parado em frente das camaratas. Só mais tarde, quando as porradas começaram a doer, é que ficou gravado o nome do nosso Comandante do G.I.T.E – Ten. Cor. Tomaz. (Anda cá aluno, não fujas que eu conheço-te!) Aqui, quero recordar alguns instrutores, tais como o famoso BT,(Tele-impressoras) e o Sarg. Silva (Morse). O carácter de ambos, apesar de não ser muito apreciado na altura, hoje em contrição e passados todos estes anos confirmo, o que nos diziam na altura: ou saem daqui uns falhados, ou serão homens de quem nos podemos orgulhar.
Alunos a caminho do GITE
Não sei se existirão muitos falhados, mas conheço alguns que, hoje e fazendo justiça às inestimáveis provações porque alguns de nós passamos, são efectivamente homens de sucesso. 
Durante a especialidade e em especial da turma onde fui colocado, quero recordar o chefe de turma o Nuno Marçal, amigo de Lisboa (minha cidade natal) e das grandes coboiadas nos fins de semana, tanto em Lisboa, como em outras cidades onde existiam amigos, especialmente nas Caldas, no Ferro Velho...em Peniche, na Foz do Arelho...Figueira...enfim. O sub-chefe Mendes, alentejano e ainda o Santos e Santos, algarvio de sol e mar. 
Assim, se inicia outro capítulo, final da especialidade e diplomas para os bem sucedidos. Alguns anseiam pela colocação longe da Ota, e perto de casa, outros como eu, ficamos como Monitores em salas de aula, por onde passámos os anteriores 11 (Onze) meses da especialidade. Calhou-me uma sala de maçaricada que acabava a recruta, e onde, por 2 meses observei as figurinhas que se faziam, e que por certo nós também as fizemos. 
Pois bem, por fim lá chega a minha colocação no C.C.I.V.M. (Centro de Controle e Informação de Voo Militar) na Portela, AB1 – Figo Maduro. 
Pouca história por aqui, a não ser que o pessoal do CCIVM, frequentava o 115, assim chamavam um restaurante que ficava aberto toda a noite, e onde se podia ver hospedeiras e tripulações das companhias que passavam por Lisboa.
Seguia-se...Angola !

Por:

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O CROCODILO

Cena de a vida é bela
Em 12-02-1982, estreou o filme Português "A VIDA É BELA" comédia burlesca, baseada no romance "HIPÓLITO DO Ó" de João Verdades/Tito Martins; Realizada por Luís Galvão Telles, tinha cerca de trinta actores, tendo nos papéis principais, Nicolau Breyner, Fernanda Borsatti, Henrique Viana, Margarida Carpinteiro, Io Apolóni e Victor Norte, tendo após a estreia sido visto por mais de 140.000 espectadores. Grande produção Portuguesa a cargo da Cooperativa FILMFORM, situada no início Norte da Rua da Rosa ao Bairro Alto, perto do cabeleireiro onde trabalhava o António Variações, mais tarde cantor; tendo como Director de Produção, João Franco, e como Assistentes, António Gonçalves, António Bastos, José Asseiceiro e um tal de Hermenegildo Santana Lavadinho Ferreira (GIDO). 
Gido Ferreira
Esse mesmo, o Furriel Piloto, que entre 1970/1972, passou por Henrique Carvalho e Luso, e que foi primeiro especialista e só depois piloto. 
No primeiro dia em que me apresentei ao Director de Produção, nem me passava pela cabeça que entre mais de 60 Actores e Técnicos, estaria alguém que andara comigo na tropa e até nos mesmos buracos por onde passei no Leste de Angola. Quando nos vimos pela primeira vez, foi com uma radiante alegria incompreensível para os presentes, que desatámos a relembrar histórias da "tropa" quais pescadores, caçadores ou outros mentirosos compulsivos que enxameiam o pitoresco quotidiano do português marialva, herói anónimo e fura vidas, de que todos nós temos um pouco. 
Gido Ferreira voando o T6 1685, algures no leste de Angola
Comparámos currículos, e chegámos rapidamente à conclusão que tínhamos os mesmos amigos no meio, e que só não nos encontrara-mos ainda por um mero acaso. 
Na altura saía mais barato comprar frotas de carros em segunda mão, para voltar a vender no final da produção, do que alugar, e o nosso primeiro "milagre" foi o de arrematar um lote de 12 carros num stand de borda de estrada. O Gido escolheu um Volkswagen modelo Brasília, amarelo torrado, que se mostrava um pouco "nervoso" de frente, problema que resolvemos posteriormente enchendo uma saca de areia que ele transportava no espaço para bagagens sob o capô. A mim coube-me um Fiat 127, a que uma noite saltou uma roda dianteira no regresso a casa, todas as viaturas foram posteriormente decoradas com o título e frases alusivas ao filme, o que nos dava um ar de idiotas, demonstrado pelos sorrisos de quem connosco se cruzava. 
O Gido tinha como 1ª. tarefa do dia transportar o Nicolau Breyner logo de manhã para ser maquiado, o que por vezes era uma missão impossível, o "Nico" tinha na altura um amigo americano do Texas, que era herdeiro de uma abastada família ligada à exploração de petróleo, tinha sido convencido a vir conhecer a Europa pelos familiares, porque saía mais barato mante-lo aqui que constituindo um péssimo exemplo junto dos operários da empresa. Deslocava-se numa Harley-Davison FLH com matrícula americana, para-brisas, e bagageiras de cabedal sempre repletas de garrafas do melhor whisky da marca "Texas Crown" que ele bebia como qualquer mortal bebe água. 
Palácio do Conde Castro
Guimarães
Como filmávamos em dois cenários ao mesmo tempo, no palácio do Conde Castro Guimarães (Museu de Cascais, na Guia) e no Casino do Estoril, e na altura havia uma companhia de bailarinas Americanas, a actuar à noite no Salão Preto e Prata, que o Texano seguira desde a terra natal; quando elas entravam nas filmagens, era preciso andar de olho nos actores que actuavam primeiro no dia seguinte se queríamos dar com eles de manhã pois invariavelmente o Texano e as pequenas tinham pedalada para toda a gente.
O pessoal andava como era hábito sempre a fazer partidas uns aos outros, haviam os clássicos, como engraxar o visor de borracha da câmara e convidar alguém para espreitar os enquadramentos, ficando o enganado/a com o olho todo sujo durante o dia ou até se ver ao espelho, ou o trocar dos cremes das caixas da caracterização, até às mais elaboradas.

Uma das cenas metia o simulador de voo azul em madeira, que pertence e está exposto no museu do ar em Sintra, em que o "Nico" supostamente dono de uma empresa de aviação voava para África, na secretária tinha um crocodilo e nas paredes cabeças de animais embalsamados com que ameaçava toda a gente.
Um dia resolveu lançar o desafio à produção para arranjar um crocodilo verdadeiro que teria muito mais graça... Em segredo lá fomos pedir um "emprestado" ao Zoo, deram-nos o animal numa caixa de cartão com a recomendação de lhe pegarmos com luvas grossas pois com o tamanho dos dentes que já tinha tornar-se-ia perigoso, e de o encher de comida antes da filmagem, que ele nem se mexeria. A cena foi adiada, e como não havia a certeza da data da sua filmagem, andei com o crocodilo vários dias comigo para todo o lado na mala do carro. Á noite íamos ao Jamaica, Fontória ou 2001, e o crocodilo era a nossa mascote, quando chegava a casa levava-o comigo metia-o debaixo da cama no quarto, às tantas da noite, quando estava mais activo, acordava com ele aos encontrões à caixa para ver se conseguia sair. Quando fui a um talho para comprar frango que constituía a sua dieta, e abri a caixa para lho enfiar lá dentro, o empregado ironicamente disse-me não era permitido alimentar ali os animais de estimação, eu respondi-lhe e crocodilos? Você é um brincalhão, quando saquei do bicho com um pedaço de frango a sair-lhe da boca, ficámos sozinhos no talho... 
Uma das nossas tarefas era transportar umas coristas do teatro do Martin Moniz, eram todas muito novas, e quando se tem que filmar em locais como o Bairro Alto, Intendente ou Cais do Sodré, à sempre confusão, uma das cenas era num bar americano no cimo da Rua da Glória, tivemos que "indemnizar" as "profissionais" pela perca de local de "trabalho" enquanto foram trocadas pelas figurantes. Ao fim do dia apresentámos os justificativos da despesa à produção, mais tarde recebemos do IPC (tradução) Instituto Português de Cinema, a resposta que não podiam aceitar aquela justificação ainda que fosse a verdadeira, até hoje nunca apresentei outra, e nem me passa pela cabeça o que terão inventado para justificar a despesa... 
Cadillac El Dorado 
Nesse filme entravam vários carros antigos, um deles um Cadillac El Dorado convertible de 1955, Azul com capota branca, tinha um motor V-8, que necessitava de tanta gasolina, que tínhamos de andar com um bidão de 200 litros numa carrinha Volkswagen "Pão de forma" e atestar cada vez que ele parava para repetir a cena que se desenrolava na Marginal entre a Parede e o Casino Estoril, cena que nunca figurou na versão final do filme. 
Gido Ferreira
Depois do mesmo terminado ficámos com os contactos um do outro, mas nunca mais vi o Gido, ainda falámos ao telefone, soube posteriormente que ele tinha falecido, mas recordo com bonomia as peripécias das noites de loucura durante a rodagem do filme.



OPC ACO

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A SAGA MILITAR DA FAMÍLIA MAGRO

Carlos Magro o primeiro em pé á esquerda, algures no leste de Angola
Carlos Alberto Valente Lamares Magro, ex-Cabo Especialista MMA da FAP, foi nosso companheiro no AB4.
Pertenceu à gesta de uma família Magro que viu todos os seus seis filhos partirem para a guerra do então chamado Ultramar Português, chegando a encontrar-se, em simultâneo, cinco irmãos nas fileiras – quatro dos quais, nos três teatros de operações – Angola, Moçambique e Guiné.
Carlos Magro, na savana, como bom “Saltimbanco”, descreve-nos algumas crónicas de então. Acomodem-se em redor da fogueira, sob o luar manhoso do planeta menor, e escutem as histórias angolanas do passado. Peripécias vividas em terras do “Outro Mundo”: Lumeje, Cazage, Luacano, Ninda, Cuito Canavale, Gago Coutinho, Léua, Chiume, Chilombo, Chafinda, Cazombo, Cassai, Mutumbo, Cancumbe, e outras…onde as cheetas viviam!...São várias as linhagens de Magros. Os Magros de Malpica, os Magros de Mondim de Basto, e os Magros de Montalegre. Mas os mais importantes…são os Lamares Magro, que descendem de D. Egas Moniz.

OPERAÇÃO SIROCO
A Operação Siroco foi uma operação militar que se realizou, por sucessivos anos, no Leste Angolano, e em que nela operavam tropas "especiais" – Comandos, Fuzileiros e Para-quedistas, para além das ditas "normais". 
A FAP, como Unidade militar, prestava a sua valiosa colaboração no transporte de militares das três Forças Armadas, colocava as mesmas no terreno operacional, prestava apoio aéreo, transportava os feridos, fazia ataques com balas explosivas e incendiárias com o  Héli-Canhão, bombardeava com bombas napalm lançadas pelos T-6 e PV2 e dirigidas para os acampamentos das forças inimigas, transportava  prisioneiros e armas capturadas, entre outros serviços de porte guerreiro.






O HELI-CANHÃO
Quando fui para o destacamento do Cuito Canavale no Héli-Canhão, tive que aprender a disparar com o canhão. Na altura, pensei, e pensei bem!…Pensei que já estava tramado!...
Não só tinha que prestar serviço como mecânico, como servir frequentemente como atirador, enfermeiro, caçador, e dar apoio aéreo às tropas no terreno quando o solicitassem. Sempre em situação de perigo!
Lembro-me que no primeiro pedido de apoio aéreo, feito pelas tropas no terreno e em confronto com uma coluna de guerrilheiros do MPLA ou, FNLA, o piloto, com os pneus do helicóptero a roçarem a copa das árvores, entrou em contacto comigo, de transmissor para auscultador: “Magro, quando chegarmos ao local, vou subir e descer rapidamente aos “SS”, e tens que te aguentar agarrado ao canhão, de pé, e atento à mira telescópica porque, não sabemos quantos guerrilheiros poderão disparar para o helicóptero e, podem ser muitos”.
Assim, quando chegámos ao local, as tropas deram ao piloto o rumo que os “gajos” tomaram a fuga. Ainda percorremos uma vasta área, mas sem avistamento possível do inimigo. Evacuámos alguns feridos e regressámos ao Cuito.
No Cuito, informaram-nos que também tinha havido grande tiroteio no que resultou nalgumas baixas do lado dos “Flechas” – soldados negros recuperados ao inimigo.Juntámos um Héli dos “Saltimbancos” a mais quatro dos nossos “primos” da África do Sul, que nos ajudavam em algumas operações, e fomos verificar os estragos. 
Havia muitos mortos, coisa impressionante, e um ferido que foi de imediato evacuado. Mas antes da sua evacuação, contou-nos que alguns dos nossos combatentes não tinham sido mortos, mas que as tropas inimigas lhes esfaquearam as pernas e, se reagissem, então, é que procediam à matança. O nosso sobrevivente, escapou, contando que teria ouvido: “Este está morto”. Foi a sua sorte!

O CAÇADOR
Em todos os destacamentos do Exército por onde andámos, fomos sempre muito bem recebidos. 
Todas as “cervejolas” que bebíamos eram “à borla”! A gratidão justificava-se por lhes levarmos o correio, materiais diversos, e ajudá-los na caça porque, a sua alimentação era muito escassa. Era um prazer trazer os animais caçados nos estribos dos Hélis pois, sentíamos que a refeição seria de rei, naquele dia. Na despedida, havia sempre a solicitação para novos regressos pois, a solidão por lugares onde nem “Cristo” tinha passado, impunha desesperadamente esse desejo.
Cacei duas cheetas, mas a carne foi oferecida para os naturais. Eles comiam a carne e, para nós, entregavam-nos as peles. Coloquei-as a secar num telhado e, num dia de ventania, foram-se!...Cacei javalis, palancas e outros bichos. Mas havia pessoal que matava elefantes para lhes tirar os dentes e o rabo. Guardo religiosamente comigo um dente de um javali que abati, recordação dessas savanas longínquas. Amuleto para a vida!...
Como caçador, vivi um episódio aborrecido quando, num dia em que fomos à caça e matei uma fêmea. Quando aterrámos, ao procedermos ao seu arrastamento, verificámos que estava prenha e com o feto no chão, já fora da barriga. Deixámo-la ficar!... Permanecem os remorsos!...

AS EVACUAÇÕES
Numa evacuação, o helicóptero transportava feridos a abarrotar e, durante duas horas de trajeto, tive que vir de cócoras a segurar a perna de um soldado. Nos poucos ensinamentos de enfermagem, algo me indicava que deveria manter a perna do companheiro numa posição cimeira, dado que o mesmo tinha ficado sem pé devido ao rebentamento duma mina.



Noutra evacuação, os feridos jaziam sob a copa de árvores frondosas e altas. As manobras para o helicóptero eram arriscadas tratando-se de voo vertical e com pouca margem de manobra. Por isso, os soldados resistentes tiveram que cortar árvores e ramadas para facilitar a operação, imensidade de tempo perdido…impossibilitando melhor tratamento. As pás do Héli lambiam as folhas, mas a experiência dos bravos pilotos improvisava com êxito a operação.

Angola, Angola e…Angola, no Leste Selvagem!...

Em Angola na aviação
No Luso e Henrique de Carvalho
O Carlos com o Heli-canhão
Manda tudo p´ra São Crincalho!

Integrou os Saltimbancos
Na Operação Siroco entrou
Evacuou pretos e brancos
E com o Heli-canhão caçou.

Nos Alouettes, os noviços
Sabiam pouco da matéria
E ele, pelos bons serviços
Gramou seis anos na Força Aérea!

A mulher foi lá ter
Foi amor e uma cabana
Voltou com a barriga a crescer
Oh Marta, és Angolana!

In Blog Os Magros do Capim
http://magrosdocapim.blogspot.pt/p/pagina-inicial.html


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O CÃO "RAIVOSO"

Sanzala do Macondo - foto de Armando Monteiro
Estava no Macondo e vieram da sanzala a informar-me que um cão maluco tinha mordido uma mulher. O termo cão maluco fez soar o alarme, na memória um filme visto há muito em que um homem morria de raiva, no meio de um “desespero de raiva”.
Fiz perguntas, onde está o animal? – Fugiu! 

Perguntei se ele deitava espuma pela boca: -Sim muita espuma! 
Suspeitei estar perante um caso de raiva, sabia que a raiva era uma coisa muito perigosa e lancei um pré-aviso para uma possível evacuação, mas que ficava suspenso até confirmação final.
Entretanto informei, que a mulher ia ser evacuada para o Cazombo, vinha aí um avião.

Veio uma embaixada solene a pedir para não fazer isso, a mulher não queria ir para o Cazombo.
Cães da sanzala - foto de José Prates
Lá expliquei que a evacuação era para salvar a vida da mulher, se não fosse tratada morria.
A mulher era a irmã do soba, a mulher mais importante da sanzala, será o filho dela e não o filho da mulher do soba que será o futuro soba.
Recordo aqui, que estas evacuações funcionavam com militares, mas também com civis em casos de justificada necessidade, fazia parte da guerra psicológica, a tropa estava ali para ajudar, mais depressa chegava lá um meio aéreo, que hoje por aqui se pede um heli do INEM.
Cerca de duas horas depois sou chamado à sanzala, tinham conseguido capturar o cão maluco. 

Cheguei, olhei para o animal que me pareceu assustado, como é que se vê se tem raiva? Pedi uma lata com água e espalhei em frente ao animal, o animal sedento depois de todas as perseguições começou a beber água…a raiva é também conhecida como HIDROFOBIA, ou seja medo da água, recordava uma cena do filme em que o homem ia para lavar as mãos e estremeceu de horror.
Anulei o pedido de evacuação. 

Hoje sei que não era urgente, entre a mordedura ou contaminação há um prazo de cerca de 10 dias, então em caso de suspeita, mantém-se o animal em observação, se ele começar a ficar fraco das pernas e a cambalear, é sinal que tem raiva e só aí a pessoa é vacinada.
As coisas que aprendemos por lá, as coisas que tivemos de improvisar. Também aprendi, que qualquer cão a ser perseguido por meia sanzala, fica raivoso e deita espuma pela boca…










Armando Monteiro
Alf.Mil.Transmissões BCaç 3831

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O QUISSANGE


O Quissange é um instrumento rudimentar que se encontra em quase todo o continente africano e que pode tomar várias formas. Compõe-se de uma tábua e de uma série de “teclas” sob a forma de lamelas metálicas com alguma flexibilidade para que possam ser dedilhadas. As lamelas são montadas sobre um suporte rectangular, de ferro, e o conjunto das teclas é mantido em posição por uma travessa que é amarrada à tábua por arames. O comprimento e a espessura de cada palheta metálica define o som que produz. O número de palhetas é muito variável. Pode ter ainda uma “caixa de ressonância” que amplifica o som. Dependendo da região, o Quissange pode ter vários nomes como, por exemplo, Kissange, Kalimba, Karimba e muitos outros nomes. Pode ainda ser chamado, mais tecnicamente, lamelofone.
Alguns modelos de Quissange

--- o O o ---


Eu não era o único que, de vez em quando, “explorava” as zonas envolventes dos destacamentos assim como dos acampamentos que serviam de base a operações militares. A sós ou em pequenos grupos lá íamos num passeio a pé para matar o tempo e “fazer turismo”.
Numa dessas saídas entrei num quimbo e a dada altura ouvi uma toada que me chamou a atenção. Procurei a origem do som e, à sombra de uma palhota baixa, encontrei um velhote que cantava numa língua local.
Tocadores Quiocos
Pelo ritmo, acho que a canção não seria muito triste. Sentado no chão, de calções desajeitados e corpo mirrado, o velhote acompanhava a sua canção tocando um Quissange. Sem nunca deixar de cantar e sem se preocupar com a minha presença, sorriu um pouco quando me aproximei dele.
Penso que o velhote tinha feito o seu próprio Quissange o qual era particularmente simples e pequeno. Mas o som era agradável e fazia um conjunto harmonioso com a sua voz. As palhetas eram feitas de pregos achatados a martelo. A caixa de ressonância era meia cabaça. Um cordel atava a tábua à cabaça para que não se separassem uma da outra. O velhote, enquanto cantava segurava o Quissange entre as duas mãos e, com ambos os polegares, dedilhava as teclas produzindo o som que me guiou até ele.
Fiquei ali, de cócoras, junto ao artista, a ouvir aquilo que achei ser uma verdadeira maravilha. Mas fui o único. Mais ninguém no quimbo parecia notá-lo. O “concerto” já devia ser bem conhecido de todos.
Quando acabou a canção o velhote pousou o Quissange e voltou a sorrir. Devia estar surpreendido com o meu interesse pela sua actuação.
“Quero comprá-lo.” – disse-lhe eu, apontando para o Quissange. Mas ele não se convenceu e disse-me que não o vendia porque não tinha outro. Seguiu-se uma negociação amigável e divertida em que ele usou vários argumentos para me dissuadir do desejo de comprar o Quissange mas, perante a minha insistência, ele começou a ceder e eu avancei com a proposta irrecusável: “Pede o que quiseres que eu pago!” Foi aí que ele viu a oportunidade de me fazer desistir. Endireitou um pouco as costas, olhou-me nos olhos e, com um sorriso matreiro, pediu-me um preço que me iria deixar quase sem resposta: “Quero… dois e quinhento!”
Tive de fazer uma pausa e pensar um pouco antes de continuar. Na sua simplicidade e inocência ele tinha-me posto numa situação que eu não esperava. Num mundo que eu não conhecia, onde os valores materiais tinham outra dimensão. Tinha-me posto no seu Mundo. O que me estava a pedir era uma pequena fracção do que eu poderia e gostaria de lhe dar. Dei-lhe os 2$50. A sua expressão passou a ser uma mistura de surpresa, mas também de
vitória na negociação. Passei a ser o novo proprietário do Quissange e ele riu com vontade quando eu, sem sucesso, tentei tirar algum tipo de “música” do instrumento. Conversámos mais um pouco e depois dei-lhe mais 2$50. Ele agradeceu muito e eu parti com o Quissange. Imagino que o quimbo ficou sem música ambiente durante uns dias. O tempo de fazer um novo Quissange.
Já não me lembro onde isto aconteceu exactamente mas sei que foi na zona de Gago Coutinho.
Agora, quarenta e tal anos depois, eu ainda não aprendi a tocar Quissange e o “instrumento” deve estar agora guardado nalguma caixa junto com outras recordações dos tempos de Angola. Deveria tê-lo deixado ficar com o músico que o construiu pois teria sido muito mais útil para ele do que para mim.
Na nossa gíria de então nós chamávamos Quissange aos aparelhos de rádio (que davam a música). 

Por:

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A "CLEÓPATRA"

Sempre tive o bom senso e a educação caseira, de me relacionar com toda a gente urbanamente, até ao momento em que reciprocamente houvesse respeito e proporcionalidade no trato, independentemente de se tratar a nível militar de superiores ou inferiores, e a nível civil de conhecidos ou desconhecidos, da raça, religião ou partido, serve este introito para situar o que vos vou contar a seguir. 
República dos Tá-ri-rá-ris - foto de Aco

Do outro lado da avenida em que se situava a República dos Tá-Ri-Rá-Ris no Luso, existiam diversas vivendas de gente abastada para o nível de vida da generalidade da população. Numa delas viviam diversas jovens que estudavam no liceu, mais novas que nós, filhas de brancos que viviam noutras povoações e que alugavam quartos ou viviam com pessoas de família ou conhecidos dos pais, eram jovens com uma visão do mundo totalmente diferente das nossas, nós estávamos ali de passagem por causa de uma guerra que nos era imposta, mas que passado o tempo de serviço obrigatório, era uma realidade rapidamente esquecida a milhares de quilómetros do outro lado do mundo.
Para elas aquela era a sua terra, independentemente de nela terem nascido, e na generalidade dos casos, iriam casar com naturais da Província, constituir família e suceder aos pais nos negócios, mas na tal vivenda existia uma honrosa excepção.
O chefe dessa família, era um homem grande, gordo, bonacheirão e sincero de uma forma desarmante, suava muito, e quando queria alguma coisa de nós ainda suava mais copiosamente, talvez por isso era fácil depena-lo à lerpa, ou a outro qualquer jogo de cartas, tinha negócios de construção civil e de madeiras entre outros, e um grande problema que ele desejava resolver rapidamente, e a que voltava recorrentemente nas conversas, (quatro lindas filhas em idade de casar). 
Segundo ele, já estava muito gasto, não duraria muito mais, e tinha a obrigação de arranjar bons partidos para as suas princesas, bons genros que fossem de preferência brancos, inteligentes e trabalhadores para continuarem os negócios da família. 
Quando tivemos esta conversa pela primeira vez, às tantas eu já não sabia o que lhe dizer, gostava de conversar com ele sobre África, as suas riquezas, e o quanto aquela terra tinha para dar a todos, brancos e negros sem excepção se se conseguissem entender... mas a conversa descambou quando ele me perguntou directamente se eu gostava de alguma das suas filhas. Fiquei desarmado, eu nem sabia quais eram de facto as suas filhas e as que morando em sua casa, não tinham nada a ver com o que o afligia. 
Fui o mais sincero possível, tinha 21 anos, uma comissão pela frente, era ainda muito cedo para pensar em casar e constituir família, ele que não me levasse a mal, achava as suas filhas lindas, mas eram ainda muito novas para já as querer casadas e ele estava ali para durar e ainda tinha uma vida inteira pela frente. Estávamos na varanda da sala e olhei na direcção da sua casa, como era hábito na varanda do edifício estavam elas todas, as quatro filhas mais as outras que constituíam o "harém da casa amarela" como nós lhes chamávamos, e percebi que elas estavam atentas ao que se passaria ali. 
Mas afinal qual era a excepção, que o deixava fora do sério, a mais nova das irmãs, era uma jovem com uns dezasseis anos precocemente desenvolvidos fisicamente, era de facto linda, uma boneca de porcelana, de uma tez de marfim, um sorriso desarmante e completamente consciente do efeito que provocava nos homens, de seios fartos, olhos esverdeados e cabelos negros rebeldes, tinha o dom de amuar fingidamente quando sabia que tinha enredado na sua teia qualquer rapaz que borboletasse à sua volta, passava o tempo a levar os namorados do liceu lá a casa, talvez para nos fazer ciúmes, mas o alvo dela era de certeza um dos Continentais que a levasse dali para fora, pois o Luso era pequeno demais para tamanha ambição, e era isso que ele queria evitar a todo o custo. 
Depois de ter a conversa com o pai, fui avisando o pessoal para lidar com pinças com a "Cleópatra" era assim que lhe chamávamos carinhosamente, comparando-a com a outra que só com um mero olhar governava um império e escravizava qualquer homem que lhe interessasse. Uma distracção e um pequeno "pecado" levariam a um casamento forçado tanto pela parte paternal, como pela FAP, que o "Secarleste", não era para graças, no que tocava a "voos com acrobacias diurnas ou nocturnas não autorizadas". 
Passou o tempo fui para destacamento e esqueci o assunto, quando voltei, a primeira notícia que me deram ainda na placa, mal descera do avião, era que a "Cleópatra" tinha fugido com um furriel do exército. Passou o tempo e semanas depois voltou, o furriel tinha sido dado como desertor e foram ambos presos ao tentar embarcar para a Metrópole, ele por ser desertor com a agravante de raptar uma menor e ela por ser menor, pelo duplo crime, quando ele saísse da cadeia ela já teria cabelos brancos e rugas que chegassem para lhe esfriar a paixão. Ela voltou à sua cruzada, agora já podia fazer o que lhe apetecesse, para isso já dera o primeiro e decisivo passo, tornando-se ainda mais desejada e perigosa...

Luso 1971
OPC ACO 71/73

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O DIA EM QUE O LUSO FOI BOMBARDEADO !

Luso hotel
Bom não foi, mas numa guerra há sempre uma primeira vez! 
Às cinco da manhã ninguém se atreveu a acordar o general, só porque apareciam muitos pontinhos no radar, alguma interferência...pouco depois Pearl Harbour estava sob um imenso ataque aéreo...vem isto a propósito, que um dia em meados de 1972, pela uma da manhã é recebida no posto de rádio do batalhão um AVIREP, um relatório de avistamento aéreo, vindo de Teixeira de Sousa, informando que tinha sido avistado uma aeronave desconhecida a voar em direcção ao Luso. 
Era uma mensagem ZULU o grau máximo de prioridade, o operador tinha 10 minutos para a entregar a um oficial superior. Não conseguiu localizar nenhum. Então entra no Luso Hotel e diz: "L" acorda o nosso general, (comandante da Zona Militar Leste), assim foi feito e o cabo de transmissões cumpriu a sua missão, apresentando a mensagem.
O General mandou-o lixar e foi dormir.
No dia seguinte pela manhã, o meu pessoal pôs-me ao corrente do que se tinha passado, com a informação que o comandante tinha pedido a minha comparência logo que chegasse...lá fui eu. O comandante deitava fumo pelos olhos...e disse-me: quero saber quem foi o soldado que se atreveu a ir incomodar o nosso general à uma da manhã, para lhe dar uma porrada! 
Quartel do Batalhão Caçadores 3831 - foto de Armando Monteiro

Meu comandante, o soldado cumpriu as minhas instruções e está de acordo com as NEP (Normas de Execução Permanentes) que determinam que uma mensagem Zulu tem de ser entregue a um oficial superior em 10 minutos, o soldado cumpriu com o que está determinado, só lamento que o nosso general tenha tido a atitude que teve, já que estava em causa uma situação de risco, com a possibilidade de um ataque aéreo ao Luso. 

Haveria que dar o alarme, ligar os radares para prevenção e nada foi feito; quer dizer que o senhor é que é o responsável?
Sim meu comandante ! Como responsável pela formação e instrução sou eu o responsável, punir este soldado agora pode fazer com que futuramente mensagens importantes sejam atrasadas com grave perigo para a segurança. 

O homem resmungou e disse que me podia retirar. Retirei-me do gabinete e ao sair da porta reparei que quatro soldados do centro mensagens e centro cripto estavam no corredor a ouvir a conversa...ainda hoje se bebem uns copos e se repete esta história.
O Luso escapou...!







Armando Monteiro.
Alf.Mil.Transmissões BCaç 3831