sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O CROCODILO

Cena de a vida é bela
Em 12-02-1982, estreou o filme Português "A VIDA É BELA" comédia burlesca, baseada no romance "HIPÓLITO DO Ó" de João Verdades/Tito Martins; Realizada por Luís Galvão Telles, tinha cerca de trinta actores, tendo nos papéis principais, Nicolau Breyner, Fernanda Borsatti, Henrique Viana, Margarida Carpinteiro, Io Apolóni e Victor Norte, tendo após a estreia sido visto por mais de 140.000 espectadores. Grande produção Portuguesa a cargo da Cooperativa FILMFORM, situada no início Norte da Rua da Rosa ao Bairro Alto, perto do cabeleireiro onde trabalhava o António Variações, mais tarde cantor; tendo como Director de Produção, João Franco, e como Assistentes, António Gonçalves, António Bastos, José Asseiceiro e um tal de Hermenegildo Santana Lavadinho Ferreira (GIDO). 
Gido Ferreira
Esse mesmo, o Furriel Piloto, que entre 1970/1973, passou por Henrique Carvalho e Luso, e que foi primeiro especialista e só depois piloto. 
No primeiro dia em que me apresentei ao Director de Produção, nem me passava pela cabeça que entre mais de 60 Actores e Técnicos, estaria alguém que andara comigo na tropa e até nos mesmos buracos por onde passei no Leste de Angola. Quando nos vimos pela primeira vez, foi com uma radiante alegria incompreensível para os presentes, que desatámos a relembrar histórias da "tropa" quais pescadores, caçadores ou outros mentirosos compulsivos que enxameiam o pitoresco quotidiano do português marialva, herói anónimo e fura vidas, de que todos nós temos um pouco. 
Gido Ferreira voando o T6 1685, algures no leste de Angola
Comparámos currículos, e chegámos rapidamente à conclusão que tínhamos os mesmos amigos no meio, e que só não nos encontrara-mos ainda por um mero acaso. 
Na altura saía mais barato comprar frotas de carros em segunda mão, para voltar a vender no final da produção, do que alugar, e o nosso primeiro "milagre" foi o de arrematar um lote de 12 carros num stand de borda de estrada. O Gido escolheu um Volkswagen modelo Brasília, amarelo torrado, que se mostrava um pouco "nervoso" de frente, problema que resolvemos posteriormente enchendo uma saca de areia que ele transportava no espaço para bagagens sob o capô. A mim coube-me um Fiat 127, a que uma noite saltou uma roda dianteira no regresso a casa, todas as viaturas foram posteriormente decoradas com o título e frases alusivas ao filme, o que nos dava um ar de idiotas, demonstrado pelos sorrisos de quem connosco se cruzava. 
O Gido tinha como 1ª. tarefa do dia transportar o Nicolau Breyner logo de manhã para ser maquiado, o que por vezes era uma missão impossível, o "Nico" tinha na altura um amigo americano do Texas, que era herdeiro de uma abastada família ligada à exploração de petróleo, tinha sido convencido a vir conhecer a Europa pelos familiares, porque saía mais barato mante-lo aqui que constituindo um péssimo exemplo junto dos operários da empresa. Deslocava-se numa Harley-Davison FLH com matrícula americana, para-brisas, e bagageiras de cabedal sempre repletas de garrafas do melhor whisky da marca "Texas Crown" que ele bebia como qualquer mortal bebe água. 
Palácio do Conde Castro
Guimarães
Como filmávamos em dois cenários ao mesmo tempo, no palácio do Conde Castro Guimarães (Museu de Cascais, na Guia) e no Casino do Estoril, e na altura havia uma companhia de bailarinas Americanas, a actuar à noite no Salão Preto e Prata, que o Texano seguira desde a terra natal; quando elas entravam nas filmagens, era preciso andar de olho nos actores que actuavam primeiro no dia seguinte se queríamos dar com eles de manhã pois invariavelmente o Texano e as pequenas tinham pedalada para toda a gente.
O pessoal andava como era hábito sempre a fazer partidas uns aos outros, haviam os clássicos, como engraxar o visor de borracha da câmara e convidar alguém para espreitar os enquadramentos, ficando o enganado/a com o olho todo sujo durante o dia ou até se ver ao espelho, ou o trocar dos cremes das caixas da caracterização, até às mais elaboradas. Uma das cenas metia o simulador de voo azul em madeira, que pertence e está exposto no museu do ar em Sintra, em que o "Nico" supostamente dono de uma empresa de aviação voava para África, na secretária tinha um crocodilo e nas paredes cabeças de animais embalsamados com que ameaçava toda a gente. 
Um dia resolveu lançar o desafio à produção para arranjar um crocodilo verdadeiro que teria muito mais graça... Em segredo lá fomos pedir um "emprestado" ao Zoo, deram-nos o animal numa caixa de cartão com a recomendação de lhe pegarmos com luvas grossas pois com o tamanho dos dentes que já tinha tornar-se-ia perigoso, e de o encher de comida antes da filmagem, que ele nem se mexeria. A cena foi adiada, e como não havia a certeza da data da sua filmagem, andei com o crocodilo vários dias comigo para todo o lado na mala do carro. Á noite íamos ao Jamaica, Fontória ou 2001, e o crocodilo era a nossa mascote, quando chegava a casa levava-o comigo metia-o debaixo da cama no quarto, às tantas da noite, quando estava mais activo, acordava com ele aos encontrões à caixa para ver se conseguia sair. Quando fui a um talho para comprar frango que constituía a sua dieta, e abri a caixa para lho enfiar lá dentro, o empregado ironicamente disse-me não era permitido alimentar ali os animais de estimação, eu respondi-lhe e crocodilos? Você é um brincalhão, quando saquei do bicho com um pedaço de frango a sair-lhe da boca, ficámos sozinhos no talho... 
Uma das nossas tarefas era transportar umas coristas do teatro do Martin Moniz, eram todas muito novas, e quando se tem que filmar em locais como o Bairro Alto, Intendente ou Cais do Sodré, à sempre confusão, uma das cenas era num bar americano no cimo da Rua da Glória, tivemos que "indemnizar" as "profissionais" pela perca de local de "trabalho" enquanto foram trocadas pelas figurantes. Ao fim do dia apresentámos os justificativos da despesa à produção, mais tarde recebemos do IPC (tradução) Instituto Português de Cinema, a resposta que não podiam aceitar aquela justificação ainda que fosse a verdadeira, até hoje nunca apresentei outra, e nem me passa pela cabeça o que terão inventado para justificar a despesa... 
Cadillac El Dorado 
Nesse filme entravam vários carros antigos, um deles um Cadillac El Dorado convertible de 1955, Azul com capota branca, tinha um motor V-8, que necessitava de tanta gasolina, que tínhamos de andar com um bidão de 200 litros numa carrinha Volkswagen "Pão de forma" e atestar cada vez que ele parava para repetir a cena que se desenrolava na Marginal entre a Parede e o Casino Estoril, cena que nunca figurou na versão final do filme. 
Gido Ferreira
Depois do mesmo terminado ficámos com os contactos um do outro, mas nunca mais vi o Gido, ainda falámos ao telefone, soube posteriormente que ele tinha falecido, mas recordo com bonomia as peripécias das noites de loucura durante a rodagem do filme.



OPC ACO

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