sexta-feira, 26 de setembro de 2014

OS TRÊS DE KATMHANDU *



Fizemos a recruta juntos (1ª de 70) e após a especialidade, cada um foi para o seu destino, encontrámo-nos em Henrique de Carvalho, durante o ano de 1971, eu fui o primeiro a chegar do meu ano de incorporação e fui dando as boas vindas ao restante pessoal, que a partir de 1972 era maioritário na Esquadra de Comunicações. 
Embora fosse amigo de todos eles tinha especial empatia com dois improváveis amigos, o “Dylan” Gomes , e o "Alentejano" Costa, o primeiro porque era um Lisboeta como eu e um “pinta marada”, o segundo Alentejano de gema pelas suas qualidades humanas e de camaradagem.  
República dos OPCs-
foto AfonsoPalma
Fizemos vários destacamentos juntos e com a criação do Secarleste, fez-se a divisão natural, quem gostava de Henrique de Carvalho, ficou por lá, quem como nós os três, não morria de amores pelas chefias, e preferia a cidade do Luso, ofereceu-se para integrar o quadro do Secarleste, passando a fazer os destacamentos do Luso, Cuito, Neriquinha e Cazombo. O Gomes gostava mais do Luso, o Costa gostava mais do Cuito, eu de Gago Coutinho, por isso sempre que nos encontrávamos no Luso era farra pela certa e loucura atrás de loucura. 

Numa nessas noites de “cadela”, já bastante bebidos, resolvemos desafiar o resto do pessoal da República a fazer a volta dos tristes, que consistia em ir rondando todos os restaurantes, bares, botecos, bebendo em cada um uma bebida diferente, quem quis vir veio, quem não quis ficou em casa. 
Havia um restaurante chamado “candimba” ou coisa semelhante que julgo queria dizer “coelho”, onde nunca íamos, mas sempre que por lá passávamos metíamos a cabeça nas portas de vai vem tipo “saloon” e miávamos desalmadamente até que alguém nos perseguisse. Nessa noite porque as pernas nos pesassem íamos sendo apanhados, quando chegámos a casa, a sede era mais que muita, e continuámos a beber cerveja a fumar uns “cigarritos” e porque era uma noite especial fizemos mais algumas “misturas” noite alta da varanda da sala, uns cantavam os Vampiros a plenos pulmões, enquanto outros caminhavam pelo rebordo da varanda a mais de três metros do passeio. 
A vizinhança, que a princípio deve ter achado graça, resolveu chamar a polícia. Quando eles chegaram, o Zé Galo, tinha subido a uma árvore que estendia uma das pernadas para perto da varanda e uivava à lua cheia que banhava a rua com um luar de prata, os mais atinados, rodeavam o tronco, pedindo-lhe que descesse. Na confusão, o Zé Galo ia fugindo cada vez mais para a ponta do ramo onde se encarrapitara, continuando a uivar, com a previsível quebra do ramo que já vergava com o seu peso, eu o Costa e o Dylan, estávamos numa mística a ouvir o Ravi Shankar e o seu "Sitar" e solenemente a fazer uma jura, quando, e se saíssemos dali inteiros, iríamos os três à boleia até Katmandu, onde curtiríamos uma verdadeira cena .
Eram tempos de rebeldia, que nos era perdoada por quem de nós dependia para ter uma vida aparentemente normal, mas que rapidamente esquecia o quanto passámos quando estávamos ausentes da casa que era simultaneamente, para eles motivo de curiosidade e desassossego, mas o nosso porto de abrigo. 

Previsivelmente, quando voltei escrevi a dar o endereço da base onde estava e aguardei que eles me contactassem, o Costa nunca deu sinal de vida, o “Dylan” morreu de “acidente” em 12/05/1974 em Henrique de Carvalho. 
Katmandu, foi mais uma das promessas adiadas, mas não esquecidas.


Luso, 1973
Escrito por:
JFMA OPC


* Dedicado ao DYLAN, haveremos de nos encontrar em Katmandu.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O SHELLTOX PARA O CABELO !

Como muitos se devem lembrar, o serviço de saúde de Henrique de Carvalho enviava regularmente para os destacamentos, tudo o que era necessário para a sobrevivência "sanitária" do pessoal destacado. 
Em embalagens de cartão castanho, semelhantes às que acondicionavam as rações de combate, eram criteriosamente arrumados os famosos comprimidos “LM” (tradução) Laboratório Militar, para a prevenção do Paludismo, Cólera, Febre tifóide, Diarreias, pomadas para Micoses e Infecções de transmissão Sexual, para além de Preservativos, haviam ainda os spray para os insectos, rastejantes ou voadores, entre eles o famoso Shelltox. Alguns dos comprimidos eram para tomar via oral, ou desinfectar a água a ingerir, as pomadas para aplicar directamente sobre as partes a tratar, no caso das infecções cutâneas, ou para aplicar directamente no “instrumento”, como prevenção para “matar a bicharada”, quando os machões , ou ignorantes, não usavam protecção, evitando a gonorreia ou sífilis. 
Devo dizer que em alguns destacamentos existiam armários próprios que faziam de farmácia com dezenas de embalagens aparentemente nunca usadas.
Pela minha parte, quando cheguei ao fim da comissão tinha um saco de plástico cheio de comprimidos, nunca bebi água em Angola, muita cerveja e whisky, seven Up para fazer a barba quando não havia água, ou de ressaca como auto flagelação. 
Quando estive no Cazombo, pela primeira vez, recebi do meu antecessor a cama e a lavadeira de nome Isabel, que pouco falava muito menos em Português, regularmente após as entregas da roupa, dava pelo desaparecimento do armário onde tinha os medicamentos e “afins” das embalagens de spray especialmente do Shelltox, nunca percebi o porquê, até um dia que ela chegou com a roupa lavada e passada a ferro; toda produzida, mini-saia, penteado Afro em balão e toda“perfumada com Shelltox”. 
E, por mais que eu lhe dissesse que aquilo não era laca para o cabelo, nem desodorizante, que ela corria o sério risco de envenenamento pela absorção do produto através da pele e de que podia até morrer, ou cegar, ela não desarmou: “o minino não sabe nada! eu é que sei! Isto faz brilhar o cabelo, é cheiroso e não faz mal à mosca, nem ao mosquito, nem a nada! 
Fiquei desarmado com a quantidade de palavras e do teor do próprio discurso e sobretudo com o sorriso dengoso de satisfação dela. 
Calei-me, afinal quem era eu para contrariar aqueles argumentos; mas agora já vislumbrava porque é que não haviam mosquitos na casa dela na Sanzala, e o Shelltox desaparecia contínua e misteriosamente do armário...


Cazombo, 1971
Artigo escrito por:
OPC ACO

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

CASOS VIVIDOS. POR ÁLVARO BARROSO

O AB4 - Aeródromo Base nº. 4 tinha mais alguns destacamentos, como o Camaxilo, Gago Coutinho, Luso e o Cazombo ( Aeródromo de Manobras nº. 43  -  AM43 ), local onde se passaram estes dois casos em datas diferentes, mas não muito distantes, um do outro.
Cazombo - foto de Luis Tomóteo
Como destacamentos que eram e embora fosse cumprida a disciplina militar, ela não era tão rígida como na Base principal (AB4), daí a rapaziada deixar crescer o cabelo, a barba, não se fardar a rigor, etc..
Em ambas as situações a razão é a mesma e tem como primeira figura o Comandante do AB4 na época, que fazia visitas periódicas aos destacamentos, mas de surpresa e voava sempre, sem revelar o destino. Quer isto dizer, que só se sabia quando ele lá ia, quando já lá chegava.

Primeiro caso:
Aproveitando a tal liberdade de barbas e cabelos, um especialista que desde criança tinha uma cabelo muito fraco ( e que por essa razão os pais, chegaram a levá-lo a Espanha a consultas da especialidade ) resolveu rapar o cabelo, na tentativa de que ele quando voltasse a crescer, viesse com mais força.
E ao mesmo tempo que cortou o cabelo, deixou crescer a barba. A barba ia crescendo o cabelo também, mas ele a barba deixava e o cabelo, ia sempre cortando rente.
Passado algum tempo, já tinha uma bela barba mas sempre com o cabelo rapado.
É nesta figura, que o Comandante faz uma das suas visitas surpresa ao destacamento e ao encarar com o especialista, vira-se para o comandante do destacamento e pergunta:
- Quem é aquele “ gajo “  que está ali, com a cabeça virada ao contrário ?
Seguiram-se as explicações e razões, mas não sem a ordem imediata de ir cortar a barba.

Segundo caso:
Numa dada tarde e sem nada para fazer, pois que tudo estava operacional, o que é que a rapaziada se lembrou: Ir fazer tiro ao alvo, para um morro que havia perto do AM. Levámos as latas do óleo de abastecer os aviões e o helicóptero, para servirem de alvo e lá fomos.
Quando tudo decorria normalmente eis que surge no ar um T6 sozinho (caso raro, pois que voavam sempre em parelha) e logo pensamos: É o Comandante !?!? ...E não nos enganámos !
Mas assim que tínhamos avistado o avião, logo arrumamos tudo e quando já vínhamos de regresso, ia ao nosso encontro o jeep do AM, que nos confirmaram ser mesmo o Comandante e que estava “bravo“, pois que tinha uma avaria no avião e já tinha perguntado por mim (que era o electricista dos aviões e da central eléctrica) e claro, não estava presente.
Passei rapidamente pela camarata para me compor (fardamento), e lá fui direito ao avião
para saber da avaria. Os mecânicos que tinham recebido o avião puseram-me ao corrente, reportando as palavras do Comandante (que era quem pilotava) embora viesse acompanhado de outro oficial piloto.
- Aterrei com o trem desbloqueado, podia ter tido um grave acidente! Vejam isso rapidamente e façam ensaios de trem.
- Senhor Comandante, mas nós aqui não temos macacos para pôr o avião no ar e fazer testes, além de que o trem está bloqueado e o problema deve ser só, falta de indicação luminosa (parte eléctrica).
- Se não têm macacos, vão pedir à JAEA (Junta Autónoma das Estradas de Angola) os macacos das camionetas “como se tudo, fosse a mesma coisa “ e vejam isso.
Após esta conversa saiu de junto do avião e foi-se reunir com o comandante do exército, que tinham o aquartelamento anexo ao AM, separado por uma vedação de arame farpado.
Após estar a par dos acontecimentos, fui ver o que estava a acontecer: Verifiquei que na realidade a luz avisadora de trem bloqueado estava apagada e que a lâmpada estava boa, só poderia ser do micro interruptor. E era mesmo, pois que o tive que regular e afinar. ( Para quem não sabe, a luz avisadora situa-se no painel frontal do piloto e o micro interruptor, fica na estrutura do avião, junto à perna do trem ).
Quando o Comandante regressou, foi-lhe dito o que tinha acontecido e o que tinha sido feito, e que o avião estava operacional.

Meteram-se no avião o Comandante e o oficial piloto, motor em marcha, e lá se foram.
Ainda nem tinham passado cinco minutos, eis que o começamos a vêr de volta, e a preparar -se para aterrar.
Primeiro pensamento e troca de impressões: Lembrou-se de que o pessoal não estava cá, quando da chegada e vai distribuir “porrada“ …..
Nada disso, pára o motor abre a carlinga, começa a esbracejar sem sair do avião e grita para o mecânico, que sobe pela asa: - Vi saltar faíscas aqui, o que estiveram a fazer?!
Acto imediato, o mecânico vendo pela indicação que ali era a parte de rádio, chama o mecânico de rádio. Este logo diz, que não mexeu em nada, que quem esteve a mexer, foi o electricista.
Lá vou eu e é-me dito a mesma coisa, que tinha visto faíscas a saltar.
- Senhor Comandante, aí é da parte de rádio, onde eu estive a mexer, foi lá em baixo no trem, e está tudo em ordem.
- Tá bem, ok, SOU EU QUE ESTOU MALUCO. Hó Terminado (nome fictício para o oficial piloto) vamos mas é embora.
E lá foram, chegaram bem ao AB4 e felizmente para todos, não houve “porradas“.

Por:

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O AJAX * - PERCY SLEDGE

O ruído, foi-se instalando espraiando-se em círculos concêntricos ocupando primeiro a placa civil, depois a aerogare, por fim a placa militar e os hangares, penetrando em todos os espaços.
Aerogare do aeródromo do Luso
Não era um ruído normal num destacamento militar, não era o tom, nem o timbre, nem o volume que mais destoavam, era o seu conteúdo, composto pelos risos e gritos nervosos de gargantas muito jovens maioritariamente femininas, o espanto do insólito da situação foi tomando de assalto todos os departamentos da Unidade e finalmente chegou ao interior do posto de rádio.
Passados quarenta anos não consigo precisar o mês e o dia, foi no início de 1973, estava de serviço e encaminhava-me para a placa para apanhar sol e desanuviar a cabeça, depois de mais de quatro horas fechado no espaço limitado do “cofre” assim chamávamos à zona restrita onde se processava o arquivo, registo e tratamento de todo o tráfego de mensagens cifradas, a tentar decifrar uma mensagem que dava sistematicamente um erro indecifrável. 
Era uma situação comum e até desafiante, que por vezes não obrigava à repetição de toda mensagem grupo a grupo, letra a letra, mas existiam excepções como era o caso e desisti de resolver o problema, e enquanto Carvalho não voltasse a transmitir tudo a partir do grupo que dava erro, estava por minha conta.
Assim que saí do interior do “cofre” comecei a ouvir a algazarra, enquanto percorria o estreito corredor até ao hangar, o volume aumentava desmesuradamente, proveniente da zona civil da placa, fui espreitar e para meu espanto dezenas de miúdas do liceu enchiam o espaço em frente do edifício da aerogare numa agitação frenética, perguntei ao pessoal que entretanto se juntara e ninguém sabia o porquê do mulherio e da animação.

Voltei ao posto de rádio e perguntei ao Vieira que era o nosso controlador, se sabia de alguma chegada de algum avião civil fora do normal, ele resolveu perguntar ao controle civil e eles informaram que esperavam um voo particular vindo da Zâmbia para uma escala técnica por avaria.
Era no mínimo estranho, mas desliguei do assunto, mais tarde entrou um dos operadores dizendo que estava um jacto particular na placa com as miúdas todas aos gritos e a desmaiar num ataque geral de histeria que não dava para acreditar, voltei ao hangar e à placa e as coisas não estavam fáceis para os responsáveis pela segurança da placa. 
 

Percy Sledge, em foto
promocional da sua
digressão Africana
Pela instalação sonora começaram entretanto a transmitir uma música bastante conhecida “WHEN A MAN LOVES A WOMAN” quando a porta do avião se abriu e surgiu um sujeito todo vestido de negro, com um chapéu-de-sol branco, cobrindo um outro negro, vestido todo de branco, bota de tacão altíssimo, calça, camisa, colete e gibão e um chapéu de aba larga de feltro “adivinhem a cor”... branco!
As miúdas que não desmaiaram correram em direcção às escadas do avião, dando-se um movimento contrário dos passageiros; pela instalação, cortada a música, avisaram que se não recuassem para os limites de segurança, evacuavam a placa, e o “Sr. PERCY SLEDGE” não saía do avião... Instalado o impasse, perguntei ao Vilhete, que era Guineense se sabia quem era o “AJAX”, mas ele desconhecia a personagem, a minha cultura musical dava para reconhecer os nomes



Capa do Disco igual 
para toda a digressão.
de “OTIS REDING, WILSON PICKETT, JAMES BROWN, RAY CHARLES, AREHTA FRANKLIN” mas deste nunca tinha ouvido falar, e não percebi o porquê do desatino, afinal o homem media para aí um metro e sessenta, era feio como uma noite de trovoada, e devia estar tão pedrado que tinham que o apoiar para andar e nem conseguiria certamente ouvir o mulherio.
Após quarenta minutos, o avião descolou rumo a Luanda, onde o cantor iria actuar, enquanto as miúdas continuavam a gritar e a desmaiar na placa, depois de o avião descolar, cada um voltou ao seu serviço e rapidamente a fugaz passagem do AJAX, qual cometa, passou a fazer parte das histórias pitorescas do aeródromo, só anos mais tarde vim efectivamente a perceber quem era e a importância da distinta personagem, daí ter vários discos dele incluindo o da "tal" digressão Africana.


(* AJAX, personagem da Mitologia Grega e neste caso de um anúncio televisivo dos anos 60, simbolizando um cavaleiro medieval todo de branco montado num cavalo branco, com uma banda sonora que passava a mensagem "o mais poderoso! " como promoção de um detergente com a marca AJAX...)

Luso, 1973
Por:
OPC ACO


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

REPÓRTER FOTOGRÁFICO

E mais uma vez na procura de temas relacionados com a FAP por este pequeno Portugal.
As fotos são o nosso cartão de visita para quem vê um Blog de recordações e, veio ter ás nossas mãos mais uma foto muito interessante que, para alguns, será uma recordação e para outros o orgulho de terem pertencido a um grupo tão grande, a FAP.
GDACI Esquadra 13 - Seia Edifício do Comando
Enviado por João Saraiva

Assim espero que os nossos companheiros continuem à procura de monumentos, placas, azulejos, e outros relacionados com a FAP.
Desejamos que tenham um bom fim-de-semana na companhia do vossos familiares.
Recebam um especial abraço dos editores e especialistas do AB4.
P´los Editores
Rui Neves

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

CHEGADA A LUANDA

Luanda, 23 de Março de 1970, pelas 06h00.
Aquele avião de carga ( DC6 ) de que não me recordo a matricula, tinha acabado de aterrar em terra africana, Angola.
Ao abrirem a porta, uma lufada de ar quente fez-me quase de imediato transpirar.
Quando saímos de Portugal (puto) fazia frio, por isso vínhamos, penso que todos, mais ou menos agasalhados por isso, lá estávamos eu de farda amarela, todo bem-parecido com camisa de manga comprida, gravata e dólmen a condizer. Até parecíamos todos, (os Especialistas) gente importante. Realmente a nossa farda era bonita, chamava a atenção e isso enchia-nos de orgulho e vaidade poder usá-la, mas aquele momento preferia ter apenas uma camisa de manga curta, sem mais nada por cima...teria sido agradável.Tal como todos, desci a escada, e pisei solo de Angola (já pela 2ª.vez), já lá tinha estado muitos anos atrás, com os meus pais, vindos de Moçambique. Era ainda um miúdo com apenas dez anos, na minha primeira passagem, mas o cheiro, aquele cheiro característico da terra africana, senti quase de imediato, como se nunca de África tivesse saído. Esta coisa de sentir o cheiro da terra, que contamos tanta vez, a tantos que nunca lá estiveram e não acreditam, é verdade, sente-se mesmo os cheiros, os sons, os sentidos ficam mais apurados.
Entretanto lá nos meteram no autocarro da Base, e fomos para aquela que seria a minha 1ª. experiência de homem livre e preso ao mesmo tempo, aquela que seria a minha casa durante alguns dias, BA9.
Chegado à Base fui apresentar-me à Esquadra de Pessoal. Lá disseram-me que o processo de colocação levava pelo menos uma semana, pelo que estaria livre, mas tendo de apresentar-me sempre na Base (E.P.) todos os dias, para quaisquer notícias sobre a minha colocação.
Depois de me ter sido dado local de alojamento, a primeira coisa que fiz foi tomar banho.
Ainda não tinha chegado ao quarto e já estava outra vez, com o corpo pegajoso tal era o grau de humidade. Cheguei a deitar-me em lençóis molhados, tal era o desconforto do corpo naquele ambiente. Apenas se estava bem num ambiente com ar condicionado caso do nosso clube.
Logo nesse primeiro dia, fui abordado por vários camaradas da especialidade, tentando convencer-me que o “bom” era ficar Luanda. Houve alguns “especiais “que me tentavam com a Esquadra 94. Que era a melhor de Angola, blá.. blá ..blá.. e eu sem ter qualquer  voto na matéria, (lá os ia ouvindo ) e bem que  gostaria, pois parecia-me que seria bom ficar por ali.
Cidade bonita com uma bela baía, muitas esplanadas, sol, praia e muitas miúdas giras, pretas, mulatas, brancas. Claro que logo por isso, era suficiente para ficar apaixonado e acreditar que ali é que eu estaria bem.

Neste entretantos de boa vida vi algumas coisas que me chamaram a atenção de forma muito particular e ao mesmo tempo intrigante. Há imagens que não nos saem da memória e estas são algumas delas.
Certo dia vejo um Especialista dirigir-se para a Porta d Armas, com o “ar" mais desmazelado que já vira, pelo que fiquei na expectativa do que se iria passar quando a sentinela o visse.
Já tinha visto por várias vezes que todos os que saiam da base, quase se apresentavam à sentinela de serviço, este cumprimenta-os, e depois saíam. Até o Comandante, quando fardado, vi sair do carro, o que me surpreendeu muito tal atitude, pois para mim tal era impensável nas outras bases por onde andei.
Voltando ao Especialista, tomei atenção ao seu porte “aéreo” e não queria acreditar no estava a ver. Boné com a pala quase a meio da cabeça, (à reguila), os sapatos a fazerem flap,..flap,..flap,.. ou seja, as solas estavam partidas ou descoladas e um deles, na biqueira tinha um arame de frenar a segurar a sola.
Na maior das calmas aproxima-se da Porta d’Armas passa pela mesma sem que alguém, o sentinela PA o tivesse “visto”.
Não dava para acreditar!
Claro que fiz conversa disto com uns tantos camaradas, mostrando-lhes o quanto incrédulo estava e sem perceber o porquê daquele procedimento.
A resposta veio curta e seca;  ó pá, era um “gajo” do AB4 de certeza. É tudo pessoal “cacimbado”, não ligam nenhum a isto, é pessoal que não “bate “certo....
Depois desta informação fiz tudo para ficar na BA9.
No dia 27 de Março apenas quatro dias de estar em Luanda, tive guia de marcha......
AB4 em Henrique de Carvalho.

Por:






sexta-feira, 25 de julho de 2014

O BAR AMERICANO DE GAGO COUTINHO.

Tirar fotografias “para mais tarde recordar”, era um dos clássicos passatempos a que nos entregávamos apaixonadamente, o reverso é que nos destacamentos mais isolados não havia nenhuma possibilidade de revelar e imprimir as tão desejadas fotos, e na maior parte dos casos os negativos perdiam qualidade.
Em Gago Coutinho, existia um fotógrafo que supria essa falta, mas a qualidade dos banhos “revelador e fixador”, para não falar mal do “fotógrafo”, deveriam ser muito deficientes pois passado pouco tempo as fotos desapareciam ou ficavam sem qualquer qualidade. 
Numa dessas idas à vila para fazer algumas compras e ver se revelava um rolo, fomos no camião das obras aproveitando a ida do mesmo ao rio Nhengo, para carregar areia. 
Na volta, resolvemos ir beber umas cervejas e o condutor, o 1º. cabo Lamares, levou-nos directos ao “Bar Americano”. Não me perguntem o porquê do nome pomposo para uma construção com quatro pilares, um telhado de chapas de zinco, e paredes formadas por grades de cerveja, sem porta ou cadeiras, mas com muitas “mininas” muita confusão e música “autóctone” acima dos decibéis recomendados por um qualquer otorrinolaringologista. 
Entrámos animados, sob o olhar guloso das presentes, e da luz esfuziante do exterior, passámos a uma penumbra amarelada e poeirenta, coada pelas garrafas vazias das grades das paredes, e provocada pelo bater dos pés descalços na terra batida do interior. Num dos cantos um balcão com um branco entroncado, a atirar para o barrigudo, careca, com uma camisola interior de alças outrora branca, que nos perguntou o que queríamos beber. 
Pedimos Nocais, e ele virou-se para uma arca que tinha por detrás, retirou as cervejas e uma a uma foi retirando as caricas não de qualquer forma conhecida, mas apanhando o rebordo rugoso com as falanges das articulações dos dedos médio e anelar da mão direita, depois de tirar as caricas, voltou a colocá-las entre os mesmos dedos e dobrou-as ao meio e ainda não satisfeito voltou a repetir a operação e a dobrá-las novamente, atirando-as por cima do ombro direito para uma pilha existente ao lado da arca no chão de terra batida. 
Tudo sem aparentar o mínimo esforço ou desconforto, olhando-nos nos olhos e atirando num tom neutro, “mais alguma coisa”? Os nossos olhos estavam pregados naqueles dois trambolhos, calosamente deformados por anos de maus tratos, só me ocorreu perguntar-lhe onde poderia comprar tabaco, sem me responder, apontou uma porta interior que dava para uma “quitanda” comum em todas as povoações do leste de Angola onde se vendia de tudo. 
Levei a Nocal comigo, não ia meter a boca no gargalo de uma garrafa afagado por uma mão daquelas, e de caminho entornei alguma da cerveja e limpei o gargalo na fralda da camisa, cruzei a porta e o cheiro mudou do perfume barato das "mininas", para o de peixe seco e outras iguarias, olhei em volta deslumbrado, do chão até ao tecto, pilhas de alguidares de plástico, peças de fazenda, ferramentas e sacas com os mais variados cereais e leguminosas enchiam todo o espaço visível, passei os olhos pelas prateleiras mais altas, e num canto mais escuro e distante, dois vultos chamaram-me a atenção, o meu coração disparou e aproximei-me curioso, aquelas latas vermelhas com desenhos e letras douradas, eram exactamente iguais às da fábrica “Dominguez & Dominguez”, da minha terra adoptiva, a Golegã. 
Agarrei num escadote e com o coração aos pulos trepei na ânsia de não me ter enganado, como é que era possível, duas latas de cinco quilos cada, do melhor pimentão que se fabricava no Ribatejo, estarem ali, no “cu de judas” à minha espera, desci com os olhos marejados de lágrimas, mais carregado que subira, e perguntei ao espantado moleque que estava atrás do balcão quanto era pelas duas latas, ele não sabia e berrei-lhe “vai perguntar ao patrão, molenga!” como ele demorasse, atravessei novamente a porta de ligação com uma lata debaixo de cada braço, na certeza que dali já não sairiam. O careca, olhou-me com o mesmo ar de espanto com que eu assistira ao retirar das caricas das Nocais, e atirei-lhe por cima da música, quanto custam as duas latas? 
Ele balbuciou, não sei! Tenho de procurar a lista dos preços que o antigo dono tinha quando lhe comprei o negócio, e não sei se a vou encontrar. Não desisti, aproximei-me ainda mais do balcão e disse-lhe: olhe amigo, a fábrica que faz esta preciosidade é ao fim da minha rua lá na terrinha, se verificar no fundo da lata, terá a data de validade e o preço recomendado, e enquanto falava, virei uma das latas em cima do balcão e terminei, dou-lhe o dobro do que lá estiver escrito. 
Ele olhou-me nos olhos e retorquiu, são suas, quando fizerem um churrasco, convidem-me e ficamos pagos, demos um aperto de mãos e viemos embora rapidamente, esquecendo a música e as “mininas”, não fosse o fulano mudar de ideias e eu ter de devolver as minhas queridas latas de pimentão, que iriam fazer as delícias do meu amigo civil, Eduardo Pita-Groz. 
Dali em diante tudo o que fosse comida, levaria pimentão, da sopa à sobremesa...


Gago Coutinho 1973
OPC ACO

sexta-feira, 18 de julho de 2014

ÁLVARO BARROSO - A CAMINHO DO AB4


Depois de dezanove meses de serviço militar, e quando nada o fazia esperar (há explicação para tal, mas não vem agora ao caso), eis que na Ordem de Serviço da BA 1 – Sintra, sai a minha nomeação para o AB 4 – Henrique de Carvalho – Angola.
As datas eram bem definidas e tinha duas semanas para tratar de tudo, desde a despedida da família (que estava a mais de 400 Km, entre ida e volta) até ao desquite, na unidade e o recebimento do fardamento para o Ultramar.
Na BA 1, não tinha recebido qualquer tipo de fardamento, mas sim na recruta na BA 2 –Ota, e nem todo ele novo (a estrear), mas quando do “famigerado” desquite, toca a pagar pelo uso que não tinha dado, desde as botas que eram para 26 meses (mas que agora o Sarg. Avaliador) dizia que nem para um mês davam, até aos lenços que não me assoei, tive que pagar. Como isto fosse pouco, ainda havia que passar por todas as Secções, Serviços, Secretarias e Bares (de Praças, Sargentos e Oficias, como se lá tivéssemos entrada, pois que era Cabo Especialista/praça), em como não tínhamos dividas.         
Posto estas primeiras “aventuras“ e para encurtar, pois que mais haveria para dizer, estava pronto para embarcar, mas não de avião como seria suposto uma vez que servia a Força Aérea, mas sim de barco, no Vera Cruz.

Maio de 1967, Cais de Rocha de Conde de Óbidos, sozinho e sem ninguém para dizer um adeus (mas com algumas centenas de homens do Exército que formavam Companhias/Batalhões ) e alguns poucos companheiros da Força Aérea, em que só conhecia UM.
Este (UM) tinha feito os Cursos comigo e tinha vindo de Angola (onde tinha toda a família ) fazer o serviço militar na F.A.. Grande AMIGO e COMPANHEIRO que foi quem me deu grande apoio e ânimo para aquela viagem até África, que ele tão bem conhecia.
A viagem no que respeita a termos meteorológicos, até decorreu bem com mar calmo e céu limpo, mas já o mesmo não aconteceu no que diz respeito a alojamentos e alimentação. Como Praças que éramos, lá fomos instalados num beliche lá bem no fundo do navio, que tinha todos os espaços (corredores) ocupados com camas duplas de r/c e 1º andar, tal como no beliche, pois que quantos mais coubessem, melhor seria.
Com tanta gente a bordo, para o qual o navio não tinha sido construído é de prever o que acontecia com as casas de banho, com uma piscina (tanque em madeira) forrado com uma tela impermeável, colocada na popa (ré) do navio. Pois bem, no meio de todo aquele pessoal encontravam-se militares que da semana de campo (treino que faziam para embarcar para África) seguiram para bordo, e ainda traziam lama nos calções da preparação física, e que seriam os mesmos que iriam servir de fato de banho para irem para a piscina. 
Escusado será dizer, que passados poucos minutos de a piscina ser lavada, e cheia de água limpa, estava toda turva e imprópria. Nunca lá me meti, mas numa noite (de dia não era possível) e quando o calor já era muito a anunciar a proximidade de África, fui para a piscina dos oficiais, pois que viajavam em 1ª classe e os sargentos em 2ª . Na 3ª classe, a das praças, via-se de tudo, desde o urinar para o chão até obrar para a bacia das limpezas da referida zona.     E assim se foram passando os 11 onze dias de viagem, mas quando na noite de véspera da entrada do navio na baía de Luanda, este desliga uma das hélices e adorna para um dos lados, nem vos passa pela cabeça, o que eram aqueles corredores, cheios de líquidos…

Finalmente Luanda, cidade lindíssima e com uma baía, uma ilha e uma marginal espectaculares, mas muito, muito quente.

Ainda não bem refeito de todas as peripécias da viagem (porque foram mais que as anteriormente descritas), eis outro problema pela frente o calor, com a sede que ele provoca, a transpiração e a necessidade de roupa leve.
Qual quê, nada disso: ainda dentro do navio, tínhamos sido avisados de que tínhamos que sair fardados com o uniforme de 1ª ; “ Dólmen, Camisa e Gravata, etc. “ para apresentação na Região Aérea.
Apresentação feita e envio para a BA 9 - Luanda, para camarata pré-fabricada em metal, em que o calor ainda era superior ao do exterior. Tomávamos banho e em seguida, a transpiração era superior à anterior ao banho, e sem ser necessário enxugar a água- Vou-me desfazer com “em suor”, e vou desaparecer para sempre……- Calma “ irmão “ , dizia-me o UM – para onde vamos, Henrique de Carvalho – AB 4, tem um clima muito idêntico ao da Metrópole.Por ali ficámos mais uns dias, aguardando o NordAtlas que nos levaria ao destino.O dia chegou e o destino também, e uma Família desconhecida nos esperava.FAMÍLIA essa, que ainda hoje se reúne e que com SAUDADE, AMIZADE e que com um ESPIRITO FRATERNO, recorda essas histórias...“ os CHAMUANZAS “
Por:




quinta-feira, 10 de julho de 2014

O DOVE CR-LKE

 Posição do CR-LKE após aterragem de barriga
De todos os aviões civis e militares que controlei, o CR-LKE, foi o que mais recordações me deixou, quer no Cazombo, em Neriquinha , ou em Gago Coutinho.
Era um De Haviland DH-108 modelo Dove, “Pombo/a” com dois motores gipsy queen 70-2 de seis cilindros em linha com 400 cavalos cada, com um curioso cokpit em bolha destacada da fuselagem, transportava dois tripulantes e até oito passageiros, pertencente à AERANGOL, Transportes Aéreos de Angola, operava a partir de Moçâmedes, cruzando todo o Sul de Angola, passando por Sá da Bandeira, Vila Artur Paiva, Serpa Pinto, Cuito Cuanaval, Neriquinha, Gago Coutinho, Luso,  Vila Teixeira de Sousa e Cazombo, a rota era delineada conforme os passageiros ou a mercadoria mas muitas vezes também o correio. 
O início da produção deste modelo deu-se em 1945, para substituir o De Havilande modelo Dragon Rapid, de que existe um belo exemplar no Museu do Ar. Desconheço o ano de fabrico do LKE, mas já aparentava bastante uso, e nalguns instrumentos que guardo como recordação está inscrito o ano de 1965.
Vem tudo isto a propósito do acidente que presenciei em directo em Gago Coutinho. Efectuava um voo à vertical com o Corredeira, já tínhamos conhecimento do movimento do LKE, e o Corredeira já tinha entrado em contacto directo com o piloto, depois de verificar-mos a sua posição, acompanhámos a aproximação a Gago Coutinho voando na sua asa, retribuindo os acenos dos passageiros, no início da perna-base, a aproximação fizera-se de Oeste para Leste, comentei com o Corredeira se eles não estariam demasiado baixo, e ele respondeu-me que eles deveriam saber o que estavam a fazer, o avião voava cada vez mais devagar e mais baixo, e dei comigo a pensar que eles não iam chegar à cabeceira da pista sem bater na vegetação que ficava no seu enfiamento.
Acompanhávamos a aterragem e o afundamento do avião, quando o piloto se apercebeu finalmente que não chegava à pista, tentou em desespero elevar o avião, mas devido à pouca asa, praticamente não havia metido flaps e à pouca velocidade o pior aconteceu, a asa direita bateu numa árvore e o avião começou a rodar pela direita e afundou subitamente, envolto numa núvem de pó vermelho, soltando peças das asas e num bailado em câmara lenta, foi dando voltas arrastando-se pelo chão, levantando ainda mais pó até se imobilizar de nariz, perpendicularmente à pista mas ligeiramente fora dela. 
Enquanto eu assistia a este bailado macabro o Corredeira avisou o posto de rádio, para que mobilizassem o hospital e toda a gente que pudesse vir dar uma ajuda aos passageiros e tripulação. Passámos entretanto a rapar sobre o destacamento a abanar as asas, tentando chamar a atenção do pessoal que estava na placa.
Aterrámos contra o vento e parámos ainda longe do avião, corríamos na sua direcção quando a porta lateral se abriu e saiu um homem com sangue na cabeça, a esposa grávida em final de tempo, ia para o Luso onde teria a criança, e ele estava completamente alterado, tentando a todo o custo retirá-la pela pequena porta onde ela mal cabia. Um a um todos os passageiros e tripulação acabaram por sair pelo seu pé, ninguém para além do marido nervoso se feriu, e a mulher grávida aparentava ser a única calma do grupo.
O facto da pista ser de terra batida evitara o pior, uma das asas vertia combustível, a roda de nariz do trem de aterragem em triciclo estava dobrada, do mesmo modo que a esquerda, a direita fora simplesmente arrancada, os hélices, estavam dobrados, como o trem colapsara a aterragem fizera-se de barriga, toda a parte de baixo da fuselagem estava amolgada, as asas a mesma coisa, possivelmente teria sido a última aterragem do CR-LKE. 
 Retirada do CR-LKE da pista para zona da placa. 
Agora levantava-se outra questão, o que fazer àquele monte de sucata, ali não poderia ficar. Com tudo mais calmo, fui a corta-mato para o posto de rádio confirmar com o Costa como se passaram os contactos na aproximação, não queria que ainda sobrasse para nós qualquer dúvida sobre o porquê da queda do avião, restavam os passageiros e a carga. Após conversa com o piloto, enviei uma mensagem para Luanda para a companhia, para que enviassem um transporte que levasse os passageiros e a carga, e para que nos informassem de como iriam proceder para retirar o avião da posição em que ficara, uma vez que obrigava à utilização bastante limitada da pista.
Feitos os avisos para a ICAO,  Secarleste, a pedido do piloto recolhemos a carga, e “sequestrámos” uma das caixas de caranguejo de Moçâmedes, que “inexplicavelmente” ficara inutilizada e que constituiu o nosso jantar. 
Quanto ao LKE, foi desmontado e transportado via terrestre para Luanda, julgo para ser canibalizado para outros aviões do mesmo modelo.
Ainda hoje passados quarenta anos, conservo alguns dos seus instrumentos.
Conta e Indicador de Rumo de Rádio Farol (ADF)

Gago Coutinho, 1973
Por:
OPC ACO

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O BEECHCRAFT 2519, DA MINHA EVACUAÇÃO.


No interior deste avião, não sei se o silêncio era absoluto. O barulho dos dois motores em estrela ficava fora, na madrugada que clareava a cor prata do 2519. Os meus colegas pesavam o silêncio, a viagem não era um passeio agradável.

No interior desse avião, eu estava a acabar. O meu corpo extinguia-se por dentro, as hemorragias eram fatais, a perna esquerda e algumas costelas fracturadas eram o menos, o meu cérebro adormecido – sonharia com palmeiras? – acordou uma vez durante a viagem – lembro-me de rostos indecifráveis que me olhavam de cima.

O dia amanheceu cedo, no Leste de Angola, do ar do AB 4 para o ar da vila do Luso, o rumo era o hospital militar. O dia 9 de Maio de 1970.
O Beech deve ter-se feito à pista conforme os procedimentos, no interior da minha mente, como no interior do avião, nada, silêncio.
Recobrei os sentidos na mesa de operações, para voltar a entrar num túnel.

Voltei da anestesia geral horas depois, regressei das mãos de Deus e do cirurgião militar, há quarenta e quatro anos.

Aquele Beech (na foto estacionado na placa do AB4, Henrique de Carvalho), não sei hoje onde está, talvez sucata apaixonada, não sei que voos fará, de certeza só nas nossas memórias, dos que ainda vivem.

© João Tomaz Parreira