sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

EVACUAÇÃO NO CHILOMBO


CAZOMBO - 10 de Outubro de 1973

Já passava das 06:30h da manhã, estava no duche e a preparar-me para mais um dia de trabalho, uma vez que desde que tínhamos chegado ao CAZOMBO voávamos todos os dias.
Senti a água fria a escorrer pelo meu corpo, ainda a pensar naquele corpo esguio, com a pele parecida com a do bicho da seda, os seus seios pequenos (mas firmes), com mamilos espetados no meu peito, e com todo o seu corpo colado ao meu. Por norma ia todas as noites dormir ao Qimbo.

- ROSADO!!! ROSADO!!!
Oiço a voz de alguém que me era conhecida.
- ALERTA! ALERTA! Temos um TEVS (evacuação).

Saio do banho a correr e visto-me à pressa (meias, boxers, fato de voo, botas...). Olho para o relógio. Recordo-me que passava um minuto das 07:00h. Saí da camarata e logo me encontrei com o Jaime Anastácio, piloto indicativo “Tack”. Saudamo-nos e ele colocou-me a par da situação rapidamente.

Um Berliet que vinha de LUMBALA para o CHILOMBO tinha accionado uma mina e havia feridos. Fomos a correr até ao hangar, onde estava estacionado o DO-27. Subo para o avião e ocupo o meu lugar ao lado do “Tack” que iniciou a marcha com leve aquecimento e começamos a rolar em direção à pista. Alinhamos, descolamos e subimos quinhentos pés com o rio ZAMBEZE sempre à vista. Cerca de 20 minutos depois sobrevoamos CHILOMBO. Aterramos e desligamos o motor. Quando abrimos as portas já vinha em nossa direção o oficial dos fusos, Luís Queiroz.

De repente ouvimos um grande estrondo (mais um rebentamento), e avistamos um fuso a correr enquanto gritava que que mais um Berliet tinha acionado outra mina quando tinha saído de CHILOMBO em auxílio. O Luís Queiroz solicitou-nos que verificássemos a situação a partir do ar, por isso, descolamos novamente. Passados poucos minutos de voo, avistámos o fumegar característico do resultado da rebentamento de minas. Avistavam-se alguns corpos no chão, catapultados pela força da explosão. Mais à frente avistamos uma viatura parada com a frente arrancada pela explosão que nos antecedera, enquanto outro seguia já a caminho de CHILOMBO com os feridos. Regressamos de imediato, pois ai já não havia mais nada a fazer ali.


De regresso ao avião, abri a porta traseira, retirei a maca e verifiquei se tudo no compartimento estava em ordem. Entretanto chegava o ferido, acompanhado pelo enfermeiro, com as pernas das calças ensanguentadas e já com o soro aplicado. Rapidamente o ferido foi transportado para a nossa maca, e colocado dentro do DO-27. Certifiquei-me que amarrava bem a maca, enquanto o enfermeiro se acomodava ao lado do ferido, a controlar o frasco do soro. Tarefa concluída, fecho a porta do avião e ocupo o meu lugar. O “Tack” já estava preparado e começa o procedimento para colocar o avião em marcha. Averiguou de que lado estava o vento, alinhou-o e descolámos. Subimos para os 8 000 pés. Passados uns minutos passamos os morros de CAZOMBO e começamos a avistar o espelho de água imenso que era o lago DILOLO. Estávamos a fazer a rota mais rápida em direção ao LUSO mas a mais perigosa pois estávamos a voar sobre a CAMEIA – zona de atividade do inimigo do grupo do VOINA. Continuamos a voar com 75% de potência, numa tentativa de chegar mais rápido ao LUSO para entregar o ferido, que se encontrava em estado gravíssimo devido ao traumatismo e perda de sangue. Os médicos e enfermeiros já se encontravam a postos para nos receber.


Após 1 hora e 40 minutos de voo, recebemos instruções da torre de controlo do AR LUSO para aterrar. Olhei para o enfermeiro e ele fez-me sinal com o dedo para baixo. O “Tack” tinha acabado de parar o motor do DO-27, quando o enfermeiro confirmou que o alferes médico Carlos Borges Lopes, do batalhão de caçadores 4212/73, tinha acabado de falecer. O acidente resultou do rebentamento de duas minas anti-carro, e deu-se na picada a 200 metros da primeira ponte das quatro sobre o rio LUANDO. Um momento de grande tristeza para todos nós.

Após a entrega do ferido, o “Tack” preencheu o livro de voo e eu dei instruções aos bombeiros para lavar a maca e o avião por dentro, devido ao excesso de sangue. Peço, também, ao meu camarada de alerta para abastecer o avião de combustível e verificar o nível de óleo. A ambulância já se afastava para o hospital enquanto eu e o “Tack”, cabisbaixos, fomos diretos à messe para nos servirem alguma coisa, uma vez que o almoço já tinha terminado. Tentámos comer, mas nada passava pela garganta. 

Ouvimos a sirene de alarme a tocar, mas pensamos que não era nada connosco. Enganamo-nos! Naquele momento entrava o Pedro Dinis (Mike Delta), a gritar que tínhamos de voltar para o CAZOMBO, uma vez que existiam mais feridos e era necessário efetuar as respetivas evacuações.
Ingenuamente pensei que depois de comer podia esperar por transporte para a cidade, que me podia refrescar debaixo do duche na república, dar uma volta pelo LUSO, rever camaradas e descansar na minha cama, no meu quarto. Rapidamente acordei deste sonho. Peguei no tabuleiro da comida, saudei os cozinheiros, arrumei as minhas coisas e saímos a correr para o  avião para voar para CHILOMBO. 
Descolamos e iniciamos a subida até aos 7000 pés, rumo ao CHILOMBO. Após cerca de duas horas de voo, aterramos. Embarcámos os feridos no avião, já com o sol a desaparecer no horizonte. Na viagem de regresso, estabilizamos nos 6000 pés, rumo ao CAZOMBO. Subitamente o “Tack” informa-me que vai desligar as luzes do avião, porque vê no horizonte dezenas de pequenas fogueiras , que suspeita que poderem pertencer ao inimigo e atacar-nos se nos identificarem A partir daí, efetuamos o resto do voo com os parcos instrumentos de voo do DO-27.

Já perto do CAZOMBO, contactámos o OPC de serviço, para preparar a aterragem. Foi providenciada uma viatura, com as luzes acesas para indicar o início da pista de aterragem e as laterais da pista com lamparinas. Os faróis de aterragem do DO-27 pouco iluminavam. Um pouco a tacto, lá foi feita a aterragem.

Já com o avião parado, era necessário abastecer, para que estivesse pronto para o dia seguinte. Com tudo terminado, suspirei de alívio, naquele que foi um dia de muito trabalho e tristeza. Finalmente como alguma coisa e descanso. Há que estar preparado para o próximo dia.

 Por: Fermelindo Rosado



 

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