CAZOMBO - 10 de Outubro de 1973
Já passava das 06:30h da manhã, estava no duche e a preparar-me para mais um dia de trabalho,
uma vez que desde que tínhamos chegado ao CAZOMBO voávamos todos os dias.
Senti a água fria a escorrer pelo meu corpo, ainda a pensar naquele corpo esguio, com a pele parecida com a do bicho da seda, os
seus seios pequenos (mas firmes), com mamilos espetados no meu peito, e com todo o seu corpo colado ao meu. Por norma ia todas as noites dormir ao Qimbo.
- ROSADO!!! ROSADO!!!
Oiço a voz de alguém que me era conhecida.
- ALERTA! ALERTA! Temos um TEVS (evacuação).
Um Berliet que vinha de LUMBALA para o CHILOMBO tinha accionado uma mina e havia feridos. Fomos a correr até ao hangar, onde estava estacionado o DO-27. Subo para o avião e ocupo o meu lugar ao lado do “Tack” que iniciou a marcha com leve aquecimento e começamos a rolar em direção à pista. Alinhamos, descolamos e subimos quinhentos pés com o rio ZAMBEZE sempre à vista. Cerca de 20 minutos depois sobrevoamos CHILOMBO. Aterramos e desligamos o motor. Quando abrimos as portas já vinha em nossa direção o oficial dos fusos, Luís Queiroz.
De repente ouvimos um grande estrondo (mais um rebentamento), e avistamos um fuso a correr enquanto gritava
que que mais um Berliet tinha acionado outra mina quando tinha saído de CHILOMBO em auxílio. O Luís Queiroz solicitou-nos que verificássemos a situação a partir do ar, por isso, descolamos
novamente. Passados poucos minutos de voo, avistámos o fumegar característico do resultado da rebentamento de minas. Avistavam-se alguns corpos no chão, catapultados pela força da explosão.
Mais à frente avistamos uma viatura parada com a frente arrancada pela explosão que nos antecedera, enquanto outro seguia já a caminho de CHILOMBO com os feridos. Regressamos de imediato, pois ai já
não havia mais nada a fazer ali.
De regresso ao avião, abri a porta traseira, retirei a maca e verifiquei se tudo no compartimento
estava em ordem. Entretanto chegava o ferido, acompanhado pelo enfermeiro, com as pernas das calças ensanguentadas e já com o soro aplicado. Rapidamente o ferido foi transportado para a nossa maca, e colocado
dentro do DO-27. Certifiquei-me que amarrava bem a maca, enquanto o enfermeiro se acomodava ao lado do ferido, a controlar o frasco do soro. Tarefa concluída, fecho a porta do avião e ocupo o meu lugar. O “Tack”
já estava preparado e começa o procedimento para colocar o avião em marcha. Averiguou de que lado estava o vento, alinhou-o e descolámos. Subimos para os 8 000 pés. Passados uns minutos passamos
os morros de CAZOMBO e começamos a avistar o espelho de água imenso que era o lago DILOLO. Estávamos a fazer a rota mais rápida em direção ao LUSO mas a mais perigosa pois estávamos
a voar sobre a CAMEIA – zona de atividade do inimigo do grupo do VOINA. Continuamos a voar com 75% de potência, numa tentativa de chegar mais rápido ao LUSO para entregar o ferido, que se encontrava em estado
gravíssimo devido ao traumatismo e perda de sangue. Os médicos e enfermeiros já se encontravam a postos para nos receber.
Após 1 hora e 40 minutos de voo, recebemos instruções da torre de controlo do AR LUSO para aterrar. Olhei para o enfermeiro e ele fez-me sinal com o dedo para baixo. O “Tack” tinha acabado de parar o motor do DO-27, quando o enfermeiro confirmou que o alferes médico Carlos Borges Lopes, do batalhão de caçadores 4212/73, tinha acabado de falecer. O acidente resultou do rebentamento de duas minas anti-carro, e deu-se na picada a 200 metros da primeira ponte das quatro sobre o rio LUANDO. Um momento de grande tristeza para todos nós.
Já perto do CAZOMBO, contactámos o OPC de serviço, para preparar a aterragem. Foi providenciada uma viatura, com as luzes acesas para indicar o início da pista de aterragem e as laterais da pista com lamparinas. Os faróis de aterragem do DO-27 pouco iluminavam. Um pouco a tacto, lá foi feita a aterragem.
Já com o avião parado, era necessário abastecer, para que estivesse pronto para o dia seguinte. Com tudo terminado, suspirei de alívio, naquele que foi um dia de muito trabalho e tristeza. Finalmente como alguma coisa e descanso. Há que estar preparado para o próximo dia.
Por: Fermelindo Rosado






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