quinta-feira, 26 de junho de 2014

CAMARADAGEM - A ANTENA DO CAZOMBO

Instalações do AM, vendo-se a torre acidentada
Depois do almoço, numa tarde tranquila em que o não haver nada para fazer era o habitual, tirando o OPC, que tinha de estar atento a qualquer ccomunicação, eis que uma ambulância do Batalhão do Exército, que estava mesmo ao lado do AM 43 no Cazombo, entra na unidade e cujo condutor da mesma era um Furriel enfermeiro, posiciona a dita ambulância perto do táxiway. 
A finalidade, era recolher um ferido que vinha evacuado de heli. Não me recordo, mas presumo que era um fuzileiro naval. Bom, toda a gente a postos e afluímos ao posto de rádio para obter mais informações através do piloto do heli. 
De repente, um estrondo ao lado do posto de rádio e o silêncio foi total. Saímos a correr para ver o que se passava e qual não foi o nosso espanto, uma das torres que segurava a ponta da única antena dipolo de onda curta e que nos punha em contacto com Henrique de Carvalho e as outras unidades da FAP, tinha caído. O Fur. Enfermeiro., tinha feito mais uma manobra com a viatura, e com o para choques traseiro da ambulância, tinha esticado os cabos de sustentação da torre e claro, o resultado foi a queda da mesma.
O Dakota no Cazombo
Sabíamos que o Cap. PilAv. Oliveira, vinha no dia seguinte num Dakota para fazer o reabastecimento. Era um homem que não merecia muito a nossa simpatia, mas a coisa era reciproca e sem comunicações, as coisas seriam feias quando ele aterrasse. 
Virei-me para a rapaziada e disse: camaradas, calma que tudo se arranja e a torre vai para o ar. Houve gente que duvidou e com razão, até eu, não tinha a certeza de conseguir colocar a dita cuja no ar e numa noite. A torre estava toda retorcida. 
Instalações do PAD
Saí do AM e fui ao PAD (Pelotão de Apoio Directo), falei com o Comandante que era um Tenente e logo de imediato se disponibilizou a enviar os seus homens e uma viatura oficina, com todo o equipamento necessário para a recuperação da torre. 
Corta de uma lado, solda do outro, martelo em outro lugar, a torre foi começando a compor-se.
A noite já ia longa e já pelas 3 hora da madrugada, faz-se a primeira tentativa de colocar a torre no sítio e ao alto, mas como era feita com um material que não oferecia grande segurança e os seus lados eram estreitos, a resistência do material era fraca, ficando ainda mais fragilizada com os remendos feitos, acreditem que não tinha a certeza da operação ser bem sucedida.
Era uma torre com +/- 30 metros e de certeza que quando foi montada pela primeira vez, foi lanço a lanço e logo sendo espiada. Naquela situação, não podia operar dessa forma e tinha de a levantar de uma só vez. Amarrei os cabos de aço à torre e a diferentes alturas, com a ajuda do guincho da viatura do P.A.D., quando se começasse a puxar, as forças estavam equilibradas e a torre, teoricamente deveria erguer-se. Como não ia apoiada dos outros lados, começou a balouçar e voltou a dobrar, mas desta vez só a meio, o que foi bom. 
Feita a reparação, amarrei uns paus aos tubos da torre para lhes dar mais resistência mecânica e eis que a torre se ergueu cerca das 5 horas da manhã. 
O resto foi simples, foi espiar e a destreza da juventude. Faltava amarrar a antena dipolo no topo. Este rapaz subiu à torre e colocou não no topo, mas quase, a antena. 
No dia seguinte, havia comunicações e quando o Capitão aterrou, não se passou nada. Era um dia igual aos outros. 
Quero publicamente, deixar um abraço e o meu muito obrigado ao Tenente, cujo nome não me recordo e a toda a sua equipe que trabalhou arduamente durante uma noite inteira, para que fosse possível erguer uma torre que à partida parecia impossível. 
Escusado será dizer que se meteram umas cervejinhas pelo meio da noite. 

Por:




sexta-feira, 20 de junho de 2014

O CIVIL EDUARDO PITTA-GROZ

De todas as personagens que conheci em mais de 28 meses de comissão em Angola, sobressai um civil de nome Eduardo Pitta-Groz. 
Encontrámo-nos primeiro no Cazombo em 1971, e posteriormente em Gago Coutinho em 1973, quando ele andou a construir novas placas e um hangar para os Pumas, que julgo, nunca chegaram a ficar totalmente construídos. 
O inicio das obras do Hangar - foto JFMA
Em 1973, começaram a ser feitas as cofragens e armações de ferro para erguer as paredes que haveriam de ser encimadas pelas asnas de vigas de aço que, por sua vez suportariam o telhado. Nessa obra em que ele era o encarregado trabalhavam vários locais, e de Henrique de Carvalho veio um camião báscula, com o cabo condutor de nome Lamar, para transportar as máquinas e os materiais inertes que serviam para levantar as paredes. Mas não era o lado laboral da coisa que nele mais me despertou a curiosidade, o bom do Pitta-Groz era um “filósofo” um auto-didata, um contador de histórias nato, ex-camionista de profissão, como qualquer sertanejo, onde chegava semeava amizades e colhia amigos.
O aquário da patada - foto de e com JFMA
Chegou no Noratlas semanal, e a primeira coisa que fez, foi instalar uma pequena “cidade” de colmo dentro da cerca de arame, onde viveu enquanto duraram as obras, pelas fotos anexas, podemos ver que nada faltava, do chuveiro ao lago para os patos, do galinheiro à casota do Bambi, uma cria cuja mãe foi morta por engano e que foi trazida para que ele dela cuidasse.
A creche dos pintos - foto de JFMA
Eu e o Tomás, gostávamos particularmente do Pitta-Groz, e dos petiscos que ele nos ensinava a preparar, como os lombos de um songo que ele uma vez nos pediu, para fazer um petisco, e depois pendurou ao sol, o que me levou a pensar, desta vez vou levar na cabeça por ter insistido que lhos entregassem, as moscas vão enchê-los de larvas, mas ele sabia o que estava a fazer, a carne foi untada com uma pasta de óleo e pimentão e muito jindungo, e as moscas nem chegavam perto, queimada pelo sol inclemente ganhou rapidamente uma crosta dura por fora, mantendo-se tenra e sucolenta por dentro, com uma consistência semelhante à de presunto, era uma delícia com Nocal, essencial para cortar o picante do jindungo, ou as mioleiras de tudo o que era bicho e que ele preparava na perfeição. Quando as galinhas e a patas puseram ovos, tínhamos omeletas e bolos, iguarias só possíveis nas grandes cidades, quando os ovos deram pintos e, fazíamos churrascos, e nunca o Pitta-Groz reclamou o pagamento dos mesmos, por isso ele era nosso convidado sempre que nos reuníamos de volta do assador para comer um petisco, que a nossa guerra não era só trabalho, nem as nossas conversas eram só sobre o tempo que faltava para nos virmos embora... e tempo para ouvir histórias de caçadas e viagens pelos confins do Leste de Angola e comer os petiscos do Pitta-Groz, era do que nunca nos cansávamos.
Churrasco, nome pomposo para fintar a fomeca, com o Pitta Grós em primeiro plano

Gago Coutinho 1973
OPC ACO



sexta-feira, 13 de junho de 2014

UMA AVENTURA NO CUITO CUANAVALE




Vou tentar puxar pelos neurónios para fazer um relato o mais verdadeiro possível do famoso acidente ocorrido, creio que em Março de 1970, em que estive envolvido conjuntamente com o Gonçalo Carvalho. O acontecimento tem o seu quê de pitoresco.
No dia da chegada do Nord-Atlas, sem que tivéssemos sido informados, fomos surpreendidos pela imagem de quatro elementos do Movimento Nacional Feminino na porta do Nord, todas vestidas de branco e saia pelo joelho, qual aparecimento de Fátima aos pastorinhos. Três delas jeitosas e uma mais entradota estilo madre superiora do convento (se calhar era a Supico Pinto). Foi quanto bastou para o pessoal ficar em pé de guerra! 
A que veio falar comigo, com um ar angélico, disse-me que cada um ia receber uma oferta. A mim calhou-me um isqueiro da cruz vermelha estilo zippo, duas latas de leite condensado Cruz Azul e um maço de cigarros Porto (eu que era do Sporting!). A do leite condensado, deixou-me vidrado, mas valeu o sorriso da doadora.
As pequenas depois de entregarem as ofertas, mandaram-nos às urtigas e foram  para a residência do administrador do burgo beber uns “drinks” na frescura da varanda. 
Logo nos mobilizámos e todos aperaltados, estilo Rambo, saltámos para cima do jeep e fomos fazer uma “rapada” frente à dita varanda. Para disfarçar, na passagem demos uma aceleradela e começámos a descer a picada que ia dar ao rio Cuito. Azar dos azares ainda não refeitos de ver o MNF de perna traçada, a barra de direcção do jeep partiu-se e fomos embater numa árvore à beira da estrada. Fomos projectados borda fora e creio que ficámos todos feridos, uns mais que outros.
O jeep e Angelo Santos,antes e após o acidente
Um unimog do exército que vinha do rio – tinha ido buscar água – fez a evacuação para o destacamento do exército e deve ter sido caricato o MNF ver passar à sua frente tão garbosos guerreiros, a gemer e a pedir às alminhas. 
Na enfermaria, se é que aquilo era uma enfermaria, fomos socorridos pelo ajudante do enfermeiro, que cheio de boas intenções desatou a dar-nos injecções contra o tétano, a torto e a direito. O que sei é que o homem perdeu a noção em quem tinha sido o primeiro e levei segunda dose. Caí para o lado e só acordei no dia seguinte e  foi quando soube que o Gonçalo tinha sido evacuado, creio que juntamente com o MMA.
Angelo Santos e Gonçalo de Carvalho em confraternização com os "primos"

Se falarem com o Gonçalo um abraço da minha parte, o OPC que punha música durante a descolagem...

Um abraço


sexta-feira, 6 de junho de 2014

FOI HÁ 39 ANOS - O "FECHO" DO AB4

AB4 - foto de Gonçalo de Carvalho
Foi há 39 anos.


O AB4 fecharia as suas "portas portuguesas" daí a dias/semanas: esta fotografia foi tirada exactamente em fins de Julho de 1975, já a Base/arredores era um imenso acampamento civil-militar, com problemas mil e uma confusão que só Deus sabe.
Quem se lembra deste "mercedes’": o do comando, dos comandantes, Pereira, Sachetti, Negrão, Sampaio, Oliveira…! Coube-me em "sortes" nas últimas semanas de AB4. 

Um luxo ao lado das desgraças! O "take" foi feito dentro da Base, a nascente do Comando/CA/Secretaria e lá atrás está o Cap. SG…não consigo recordar, que coordenou a secretaria nos últimos dias do AB4.
O Maj. Fermeiro preferia o "seu" Jeep e, daí, depois de me ter desfeito do meu carocha VW branco-irrepreensível, ter direito a esta "preciosidade" alemã. O Maj. Fermeiro, foi o último "comandante’".
Os dias e noites eram de instabilidade permanente e as "directas" eram normais, apesar de prolongados serões com cerveja e algumas iguarias restantes.
Efeitos da "guerra" em HC 
Moradia de oficiais em HC e o WV 
de V. Nunes
O princípio-do-fim do AB4 foi exactamente em 12 de Junho. noite de S.António. 28 horas ininterruptas de "fogo" que de artifício nada tinham. Foram horas, semanas, por vezes dramáticas e assustadoras; não mais a malta se pôde "ir à cidade" de Henrique de Carvalho…Só pontualmente, mas em coluna militar com pré-aviso aos srs. da FNLA, MPLA e UNITA.
O fechar de portas no AB4 foi antecedido na realidade de inúmeros "factos" que à distância nos arrepiam
 ainda. Não serei propriamente um traumatizado de guerra, mas ficaram "slides" a preto&branco que, embora incómodos, podem ser revelados.
Em 12 de Junho de 1975 foi de facto o despertar para um "fim" que se sabia calendarizado, mas não tão rápido e violento.
A cidade foi varrida programadamente por quase 30 horas de "guerra civil’" e nos dias/semanas seguintes as noites eram escuras - fora da Base - e tracejadas por morteiros e projecteis que vistos de longe assustavam.
Descolar e aterrar eram contudo rotinas sem grandes condicionantes.

Pessoalmente a minha noite de 12/13 de Junho e todo o resto do dia, foi passado deitado no interior de uma banheira de casa de banho, pois "fui apanhado" em plena cidade e pude refugiar-me numa das casas que a Força Aérea ali tinha (Bairro). Horríveis 30 horas, pois não se adivinhava o que estaria a acontecer em redor. Só uma operação feita por Comandos nos evacuou para o AB 4.

População refugiada junto do AB4
A destruição, com mortos à mistura (a maioria dos 3 movimentos envolvidos), era imensa e foi aí a debandada dos civis para perto dos "aviões" na ânsia de sair e de ter mais (aparente) protecção.
A enfermaria da Base parecia um bloco operatório, - porque não uma morgue - aonde chegavam também feridos de outras localidades. Era um caos absoluto. Talvez dos locais mais assustadores, quando se olha para trás. Um comandante da FNLA, recordo, apareceu em maca, consciente, com um grande "buraco" num dos ombros, tapado com uma rolha de papel…imagens que não saem.
As oficinas da Base tinham como única missão fazer caixotes em madeira, em primeiro lugar para envio de haveres dos civis e militares da Base, para Luanda e depois via marítima da Portugal. Depois outros foram feitos para amigos e fornecedores do AB4. Eu próprio acompanhei a feitura de alguns. 
Também devo "confessar", neste contexto, que consegui que alguns amigos da Base "transferissem" legalmente algum dinheiro via Agência Militar para Lisboa. Como? Utilizando autorizações do COMRA2 de militares e civis que não possuíam o "total" que lhes era autorizado. (Em Lisboa, em Setembro , andaria em contactos e viagens fazendo a distribuição, cá ; dias depois e por essa altura a Agência Militar "falirá", é o termo. Houve ruptura absoluta, que só foi reposta suponho que em Dezembro/Janeiro desse ano. Os valores médios transferidos eram de 30/50 contos à época).
E no interior da Base - foto de Paul Dubois
Em Henrique de Carvalho, entretanto, para quem tinha assuntos administrativos, bancários ou escolares…foi muito complicado. Recordo ter ido em princípios de Agosto, ao Banco de Angola, junto do Pinto & Irmão visar um cheque de 130 mil contos, do AB4, (saldo apurado na conta corrente-liquidação para entregar em Luanda) em 2 jeeps e havia "gente armada" e tiros avulsos em sítios diversos. 
O comércio estava fechado, quase literalmente. Um susto perfeito, que nem nos filmes.
A cozinha da Base era grande…mas pequena para tentar alguma ajuda aos civis acampados nas redondezas. O total de militares FAP em Agosto não andaria pelos 50. Não registei nomes nem números, porque na realidade "todo o mundo queria cavar" e do outro lado da linha havia uma mensagem no ar: “nem mais um militar para as colónias”.

Agora a sinopse desta foto.
Vitor Nunes e Maj.Fermeiro
Nas noites, um pouco frescas de Agosto, reuníamos e petiscávamos noite dentro à volta da "fogueira". Gin, Whisky, Casal Garcia e cerveja havia em quantidade e cozinhávamos na cozinha da Base. A fotografia foi feita junto dos alojamentos dos oficiais e lá está o Maj. Fermeiro, eu próprio, todos sempre à civil o que não deixava de ser um hábito.
Lembro ainda que a luz mesmo dentro do AB4 faltava muitas vezes, assim como a água…
Pena não haver – penso que ninguém teve essa preocupação – uma fotografia de "família".

No verso desta ‘dita’ escrevi à mão “ Um final feliz…” ! Talvez.
A entrega da Base

Por:


sexta-feira, 30 de maio de 2014

SAURIMO CELEBRA ANIVERSÁRIO COM O VERDE DA ESPERANÇA

Entre os muitos progressos que a antiga cidade Henrique de Carvalho hoje Saurimo regista encontra-se a construção e modernização do seu novo aeroporto dando uma nova imagem à capital

Saurimo celebra o 58º aniversário da sua ascensão à categoria de cidade, a 28 de Maio de 1956. Nessa época chamava-se Henrique de Carvalho. A capital da Lunda Sul oferece hoje uma imagem de ordem e arrumação, com as ruas asfaltadas e sinalizadas, iluminação pública, água corrente, escolas e hospitais novos ou reabilitados.
Calumbi Mahuli dos Serviços Comunitários
Calumbi Mahuli, dos Serviços Comunitários, pinta de branco o lancil do passeio que contrasta com o verde dos jardins, as duas cores da  “Cidade Diamante”.
O empenho de Mahuli em manter a cidade limpa e bonita confere-lhe o direito de criticar aqueles que, por desleixo ou mesmo por desaforo, pisam a relva e o pavimento acabado de pintar. Fica triste quando verifica que ainda existem pessoas a deitar o lixo para o chão quanto têm locais próprios para o fazer.
Para ele, os principais ganhos alcançados na cidade e na província são as escolas, que vieram retirar centenas de alunos das precárias condições em que estudavam, em muitos casos à sombra de árvores, para colocá-los em salas confortáveis e com direito a merenda escolar.
Mufuca Mimi, que regressava a casa ao fim de mais uma jornada de trabalho, reclama da “agitação” provocada pelos motociclistas. Para ela, o aumento de motorizadas na cidade levanta preocupações em relação à segurança no trânsito.
Em poucos minutos de conversa, repete várias vezes a expressão “cidade bonita” quando se refere a Saurimo, para cuja limpeza contribui todos os dias, num emprego que lhe permite ajudar o marido taxista, no sustento da casa e na criação dos cinco filhos.
Antes de retomar a caminhada, num passo apressado, pois já é hora de preparar o jantar, realça o asfaltamento das ruas do bairro Txizaínga, onde vive, e o facto de já não ter de ir acarretar água longe de casa, porque já corre nas torneiras.
As jovens Silvana Pina e Augusta Rosa, que fazem venda ambulante de cremes, desodorizantes e produtos de desinfestação, reconhecem a mudança trazida pela expansão das redes de abastecimento de água e electricidade, construção e reabilitação de escolas e centros de saúde nos bairros de Candembe e Passa Bem, onde residem.
Augusta Rosa enaltece as mudanças
Crescimento populacional
Nestes dias que antecedem os festejos da data em que a então vila Henrique de Carvalho foi elevada à categoria de cidade, Saurimo vive um verdadeiro frenesim. Os Serviços Comunitários procedem à poda das árvores e à colocação de placas e letreiros luminosos.
A cidade, que foi a capital da extensa província da Lunda até 1978, quando se procedeu à divisão administrativa que criou as duas Lundas, Norte e Sul, regista um grande crescimento desde a conquista da Paz, em 2002.
Com o fim da guerra também acabou o  isolamento a que Saurimo esteve submetida. Hoje é a porta de entrada para a região leste do país, através da Estrada Nacional 230, e ponto de passagem para o Dundo, Luena e ponto de passagem para a fronteira com a República Democrática do Congo, a partir do município do Luau. Essa condição de placa giratória da região e a retoma das atividades económicas, com destaque para a indústria mineira, a capital da Lunda Sul registou um rápido crescimento populacional. Projectada para 18 mil habitantes, Saurimo tem hoje 200 mil.
Esse aumento da população obrigou o Governo a gizar estratégias para atender às necessidades básicas dos seus habitantes, como a construção de uma barragem, uma nova central térmica e outra de captação e tratamento de água. Foi também necessário aumentar a oferta em termos habitacionais, pelo que as autoridades locais fizeram arruamentos e outras infra-estruturas  nas reservas fundiárias. Também foram estabelecidas normas de construção, de modo a permitir a instalação de infra-estruturas de base.
O Bairro da Juventude, a escassos quatro quilómetros do centro da cidade, tem cem casas habitadas e dezenas de outras em construção, por iniciativa de instituições públicas ou de pessoas singulares. As habitações estão ligadas às redes de saneamento básico, água e electricidade. Todas as ruas estão alfaltadas. Ainda em construção, estão dezenas de habitações no bairro Cawazanga, onde também se construíram os arruamentos. Os proprietários foram informados sobre as normas a seguir para erguerem as suas casas. O grande projecto habitacional é a nova centralidade, localizada junto à Estrada Nacional 180 (Saurimo-Luena) a quatro quilómetros da cidade, cujas obras devem arrancar em breve.
Na zona decorre a construção dos Pavilhões Pró Trabalho, suportados pelo Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, e a Sonangol marca presença com a instalação de bombas de combustíveis.

Ordem no trânsito
A expansão da cidade e o crescimento demográfico aumentaram as necessidades em meios de transporte, pois as distâncias outrora curtas, que podiam ser percorridas a pé, tornaram-se longas. Saurimo viu crescer o número de viaturas e as ruas, antes quase sempre desertas, registam hoje um fluxo de trânsito considerável.
Com a expansão e o crescimento demográfico aumentou a necessidade de meios de transporte a construção e reabilitação de estradas
Com isso, abriu-se um mercado para o serviço de moto-táxis, nem sempre desempenhado por pessoas habilitadas para conduzir uma motorizada. Os moto-taxistas, na sua maioria jovens, são os principais protagonistas dos acidentes de trânsito na cidade.
Na corrida pelo lucro, ignoram as regras de trânsito, pondo em risco a sua vida, a de quem transportam  e dos peões, também estes ainda pouco habituados ao actual frenesim nas artérias da capital da Lunda Sul.
O aumento dos acidentes preocupa as autoridades da província e a governadora Cândida Narcisa entregou ao Comando Provincial da Polícia Nacional, equipamento para a fiscalização e controlo do trânsito na cidade de Saurimo e vias circundantes.
Por estes dias, a movimentação de pessoas é maior devido aos preparativos para as festas do aniversário da cidade e à realização do Censo Geral da População e Habitação, que decorre em todo o país.
Campanhas de limpeza, actividades desportivas, entrega de donativos a instituições de saúde e assistência social e dois espectáculos públicos constam do programa comemorativo, aprovado pela Administração Municipal de Saurimo.
Os festejos mobilizam, além das autoridades provinciais e municipais, outras instituições da sociedade, entre as quais a Igreja.
O arcebispo da arquidiocese da Lunda Sul, D.José Manuel Imbamba, exortou esta semana os munícipes de Saurimo a contribuírem “de forma valiosa e pronta” para o desenvolvimento da cidade. 
“Cada cidadão deve trabalhar de forma honesta, comparticipando no processo de reconstrução, construção, unidade e reconciliação nacional para o bem-estar de todos os munícipes”, afirmou o arcebispo.
D. Manuel Imbamba convidou os habitantes de Saurimo a lançarem iniciativas que ajudem o Governo  a reduzir as taxas de desemprego, erradicação da pobreza e no combate à pobreza nas comunidades.
Além da sede municipal, Saurimo tem duas comunas, Sombo e Mona Quimbundo, que se associam à festa dos 58 anos da “Cidade Diamante”, engalanada com o branco da paz e o verde da esperança num futuro melhor.

Adão Diogo | Saurimo
Fotografia: Joaquina Munji | Saurimo

sexta-feira, 23 de maio de 2014

“O PROFESSOR de POSTO” ZÉ MANEL

Gago Coutinho
O Zé Manel, era um miúdo de etnia Mambunda, nado e criado em Gago Coutinho, assalariado da Força Aérea desde pequeno, com bilhete de identificação que incluía fotografia, era o responsável pela limpeza dos utensílios e do espaço, que permitiam que comêssemos no hangar em vez de termos que nos sujeitar ao refeitório do Batalhão, era também ele que nos tratava das camas e da roupa.
Era um miúdo calado, bastante educado tendo em atenção o meio em que diariamente trabalhava, e particularmente calmo e paciente com os faxinas do Exército, que na maior parte dos dias resolviam descarregar nele as frustrações, maltratando-o e nalguns casos levando a que a nossa comida sofresse um tratamento nem sempre condigno.
Depois de ter tratado dos seus afazeres, o bom do Zé Manel, pegava na sacola e na mesa onde comíamos fazia os trabalhos de casa que as freiras da missão lhe indicavam, uns dias eram contas, outros um ditado, numa tarde de calmaria, cheguei-me à mesa e curiosamente espreitei o que ele escrevia, era uma redacção em que ele contava que queria ser “professor de posto” como não sabia o que seria tal profissão com nome tão pomposo resolvi perguntar-lhe o que raio de coisa era aquela de “professor de posto”.
Aparentemente, qualquer pessoa com a quarta classe podia ser professor, bastava que frequentasse um curso específico, com duração de um semestre, fizesse um exame com bom aproveitamento, e era-lhe passado um diploma que lhe permitia dar aulas nos locais mais isolados em que existiam crianças suficientes para se formar uma ou mais turmas para aprenderem os rudimentos da escrita e da leitura, e se fosse o caso tirarem a quarta classe e prosseguir os estudos. Segundo ele, era muito difícil tirar a quarta classe e ainda mais o curso de professor, mas era esse o seu sonho. 
No dia seguinte, sem que ele soubesse, desloquei-me à Missão, falei com a Irmã responsável pela escola e ela confirmou o que eu já sabia, o Zé Manel era um miúdo muito esperto, que com um pequeno apoio, poderia chegar a “professor de posto”, manifestei a nossa disponibilidade para o ajudar nos trabalhos e ela garantiu que o propunha ao próximo curso, falei com o pessoal e toda a gente manifestou disponibilidade para o ajudar nas contas e letras, sempre que ele necessitasse.
A Missão
O curso começou, e entre todos fizemos um óptimo trabalho, pois vários destacamentos depois, o Zé Manel apareceu todo contente com a nota do exame final e a aprovação, fizemos uma vaquinha entre todos, comprámos um fato, com camisa e gravata, meias e cuecas, não havia era sapatos para os pés dele, tivemos que pedir ao Secarleste, que intercedesse junto da secção de fardamento de Henrique de Carvalho para que fornecesse umas sapatilhas de tamanho 46, que foram as únicas que conseguimos arranjar para ele não ir descalço, e no dia da entrega dos diplomas lá fomos todos sem excepção, ver a entrega do diploma ao “ Senhor Professor de Posto José Manuel”, depois de passarmos pela DGS, para assinarmos o termo de responsabilidade pelo salvo-conduto, que lhe permitiria viajar entre Gago Coutinho e o futuro posto onde fosse tomar posse como Professor.
A maior dificuldade foi depois escolher o novo assalariado, pois apareceram todos os candengues da sanzala como candidatos ao lugar.

Gago Coutinho 1973
OPC ACO

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A PISTA DO DONDO

AM 32 - Toto, foto de João Sousa 

Fazia a minha primeira comissão em Angola nos PV2. 
Como os DO-27 andavam a ter muitos acidentes, o comandante resolveu colocar alguns pilotos de PV2 a voar também os DO-27. Foi assim que eu, o Pessanha, o Eiró Gomes, o Ferreira Pinto etc, começámos a voar as duas máquinas.
Um dia, estava eu a fazer um destacamento no Toto com o cabo mecânico Palhais quando, por volta das 5 horas da tarde, chegou um pedido de evacuação no Vale do Loge.
A mensagem que o R/T me entregou tinha prioridade zulu, ou seja; tinha que executar a missão ainda que chovessem picaretas. Mas não era o caso. Havia nuvens baixas, mas nada que dificultasse a missão.
Vale do Loge
O Palhais estava a capotar o avião quando eu lhe disse que tínhamos uma evacuação. Tirou a capota que já tinha colocado no motor e lá fomos em direcção ao Vale do Loge. Já previa que parte da viagem seria em vôo nocturno. Não tinha problemas, eu gostava de fazer instrumentos. Até ao Vale do Loge a viagem era curta e fi-la a baixa altitude.
Quando lá cheguei não vi ninguém na pista, o que achei estranho. Fiz duas ou três passagens sobre o quartel e aterrei. Fumei vários cigarros antes que aparecesse alguém. Depois lá vi um jeep vindo na nossa direcção. Lá dentro vi dois militares, mas nenhum deles me pareceu ferido ou doente. Então perguntei:
- Onde é que estão os feridos?
O condutor olhou para mim e disse:
- Não são feridos. É a esposa do nosso capitão que vai ter bebé a Luanda.
Boa, pensei.
Ficámos a aguardar e já a noite caía quando chegou outro jeep com o snr. Capitão, a esposa e um filho pequeno. Cumprimentámo-nos e logo subiram para o avião. Um dos que chegou no primeiro jeep pediu se o podia levar, pois ia para consulta externa em Luanda.
Descolei e subi para seis mil e quinhentos pés. Quando atingi a altitude já a noite era bem escura até porque estava a voar dentro de nuvens. A certa altura principiou a chover e a turbulência ficou moderada. Quando liguei a rádio-bússula a agulha tinha oscilações enormes. Deixei que o tempo passasse, mas não melhorou. A certa altura o Palhais virou-se para mim e disse que lhe cheirava a maresia. Fiquei preocupado. Será que já estava a voar em cima do mar? Pelo tempo de vôo, devia estar a chegar a Quicabo. Mesmo assim, desviei um pouco para a esquerda. Chamei a torre de Luanda e eles responderam. Quando pedi assistência, disseram-me que a radial que estava a aparecer só podia estar errada. Nem falaram qual era a radial. Passado uns minutos deixei de ter contacto com eles. Quando já tinha a certeza de ter passado a zona montanhosa, comecei a descer. Reduzi o motor, a velocidade, meti 15° de flaps e acendi o farol de aterragem. À minha frente via a projeção da luz nas nuvens. A certa altura a luz sumiu e assustei-me. Só depois é que percebi que tinha saído das nuvens. Voltei à linha de vôo. Olhei para a frente e para a direita na esperança de ver as luzes de Luanda ou outras que me pudessem orientar. Nada! Tudo era escuridão completa. 
-Devemos estar em cima do mar. – falou o Palhais.
- Se estivéssemos no mar via a fosforescência dos carneiros lá em baixo.

Olhei para a esquerda e, lá bem longe, avistei luzes elétricas. Nem pensei mais. Voltei o avião naquela direção. À medida que me aproximava, o número de luzes aumentava. Só podia ser uma cidade grande. Já mais próximo, vejo o reflexo das luzes na água. O meu cérebro trabalhava a mil, tentando saber que cidade era aquela. Já mais perto, percebi que aquela água só podia ser de um lago. Cada vez mais intrigado, tentei pensar com calma, que era o que me ia faltando. Muitas luzes, um lago perto de Luanda, era o quê? Nada! Não valia a pena dar mais voltas à cabeça. Tinha bastante combustível e pensei que, sobrevoando a cidade alguém poderia ter a idéia de me indicar uma pista. Dei voltas e mais voltas e fui acendendo e apagando o farol de aterragem para chamar a atenção. Tinham passado mais de vinte minutos, quando vejo alguns carros a reunirem-se. 
Disse para o Palhais:
- Estamos safos! Eles vão iluminar-nos a pista.
Barragem de Cambambe
Mais carros se juntaram e começaram a andar. Andaram, andaram e andaram. O tempo ia passando e maus pensamentos começaram a apoderar-se de mim. Sei lá para onde é que eles iam! Podiam até, ir para alguma festa ou outra coisa qualquer. Mas uns minutos depois, os carros começaram a tomar posições de um lado e do outro daquilo que era, concerteza, uma pista. Colocaram-se em diagonal de modo que me permitia ver a pista. Quem os colocou assim sabia o que fazia. Fiz uma passagem baixa para fazer o reconhecimento da pista e voltei a subir para aterrar. Percebi que a pista era de terra e bastante curta. Pedi ao Palhais para avisar os passageiros que íamos aterrar numa pista alternativa, que apertassem bem os cintos e que o snr. Capitão segurasse o filho no colo. Quando já estava em aproximação, vi que, lá em baixo, estavam a acender fogueiras junto à pista. Pior, pensei. Se houvesse um despiste podia ir parar a uma fogueira. Mas não, fiz uma aterragem curta, perfeita. Uma ambulância aproximou-se do avião já parado. Várias civis e alguns militares também se aproximaram. Descemos do avião, fui cumprimentado por várias pessoas e logo que me foi possível perguntei discretamente a um militar:
- Que pista é esta?
- É a pista do Dondo.
Logo todas as minhas dúvidas se desvaneceram! Claro, se ali era a pista do Dondo, o lago que eu sobrevoei durante tanto tempo era a barragem de Cambambe. Foi para lá que nos levaram num dos jeeps.
Um capitão disse-me que o meu comandante queria falar comigo logo que possível e foi a primeira coisa que fiz logo que cheguei às instalações da barragem. Quem me atendeu foi o oficial de dia às operações.
- Oh pá está tudo bem? Tu nem sabes do que te livraste! Está aqui o General Moura dos Santos, que é pai da senhora que evacuaste, e está farto de gritar aqui dentro. Dizia que se lhe matasses a filha, ele te matava a ti. Espera que vou chamar o comandante que está aqui ao lado com o general.
Dava-me vontade de rir! Parece que o snr. General não sabia que, se a filha morresse, eu também estava morto. Falei com o comandante que foi extremamente simpático e pedi para que outro avião fosse ao Dondo no dia seguinte e levasse combustível. Dali fui comer alguma coisa e beber uns whiskys. Dormi que nem um santo naquela noite. No dia seguinte apareceu o Eiró Gomes, infelizmente já falecido num acidente de Nord em Tancos, que deixou o combustível e levou os passageiros.

Com este incidente, ganhei vários amigos: Os dois irmãos Generais Moura dos Santos, a filha de um deles D. Graça Leandro e seu marido cap. Garcia Leandro que encontrei em Timor na minha 1ª.comissão.

Por:





sexta-feira, 9 de maio de 2014

A PACHANCHO (1961)


Na formatura para o almoço de segunda-feira, o oficial de dia anunciou em voz alta:- O presidente da junta de freguesia da Ota, pede-me para vos informar, que está uma bicicleta motorizada no leito do rio Ota, junto à ponte, à entrada da aldeia. Se pertencer a algum de vocês o melhor é ir lá retirá-la. 
- É minha mas podem ficar com ela! – Respondeu peremptório o Manel Bento, algarvio de Tavira e especialista de abastecimento na esquadrilha dos electrónicos.
Durante o almoço Alfredo procurou inteirar-se do que se havia passado com o colega de esquadrilha, para que a motorizada dele tivesse aparecido no rio. Ficou a saber pela voz do próprio Bento, que não fora só em Cheganças que tinha havido confusão entre militares e civis durante o fim-de-semana. Também na aldeia da Ota os ânimos se exaltaram, quando um grupo que integrava o Manel Bento, tentou entrar no baile da paróquia sem pagar. Como já estava toldado pelo vinho, o que não era raro, as coisas deram para o torto e houve mesmo troca de sopapos entre os contendores. Goradas as intenções de entrar no baile, Manel Bento, furioso, montou a velha motoreta com a intenção de regressar à base. Era tal a piela que entre o salão de festas e a ponte, numa distância de pouco mais de duzentos metros, caiu da motorizada por cinco vezes. Como a última foi precisamente em cima da ponte, não esteve com meias medidas e atirou com o chaço ao rio fazendo o resto do percurso a pé.
- Ó Bento, então depois da trabalheira que nos deu ir buscá-la a Vila Franca, atiraste com ela ao rio? – Admirou-se Alfredo.
- Estava bêbado. Mas também não se perdeu grande coisa. – Completou Manel Bento.
A vinda da motorizada do Algarve para a Ota fora mais uma das muitas aventuras em que Alfredo, involuntariamente, participou. Numa sexta-feira, à saída do trabalho nos electrónicos, Bento perguntou ao amigo:
- Alfredo, queres ir amanhã comigo a Vila Franca buscar a minha “Pachancho” que veio de comboio de Tavira?
- Pachancho?! Que raio é isso? – Perguntou Alfredo.
- É uma motorizada.
- Não conheço. É alguma marca nova?
- Já não é nova mas está impecável.
Na tarde do dia seguinte, Sábado, Alfredo e Bento lá foram na camioneta da base para Vila Franca.
Oh surpresa das surpresas! Quando Alfredo viu a motorizada exclamou:
- Isto nem amanhã está na Ota, Bento!
Veio à memória de Alfredo o velho “Cucciolo” do amigo Du Fernandes, da Praia do Bispo. Só que a “Pachancho” estava bem pior.
- Não de preocupes Alfredo, o motor está impecável. Tenho é de ir arranjar uma garrafa de mistura porque o depósito deve estar seco. – Disse Bento.
- Já agora vê se arranjas também uma bomba para encher o pneu da frente.
- Pois é! Está vazio, porra! – Exclamou o amigo já menos entusiasmado.
- Sendo assim o melhor é ir com ela à mão até à primeira estação de serviço. Há uma da Sacor à saída da vila. – Acrescentou Manel Bento.
Atestado o depósito de combustível e depois de cheio o pneu que estava vazio, lá conseguiram pôr o motor a funcionar após várias tentativas.
- Monta, Alfredo. – Convidou Bento enquanto mantinha o motor acelerado para que não se fosse abaixo.
Alfredo sentou-se na grade metálica que servia de assento do pendura e lá partiram deixando um rasto de fumarada e um intenso cheiro a óleo queimado.
- Pára, Bento! Pára! – Gritou Alfredo ainda mal haviam percorrido cem metros.
Alfredo desmontou da motorizada, tirou o blusão e dobrou-o em quatro para servir de almofada.
Motorizada Pachancho
- O assento estava a magoar-me o cagueiro. – Justificou-se Alfredo enquanto se faziam novamente à estrada.
Foi curta a etapa pois ainda antes de chegarem ao Carregado, o pneu de trás furou.
- A câmara de ar deve estar ressequida. – Disse Bento a tentar justificar o contratempo.
- É isso Manel... e o pneu da frente já está outra vez quase vazio.
Bento abriu a pequena caixa cilíndrica pendurada entre o selim e a grade metálica, na esperança de encontrar algum remendo. Apenas continha uma ferrugenta chave de fendas e tiveram outra solução que não fosse procurar ajuda na povoação do Carregado, para onde se dirigiram empurrando a motorizada.
Depois do Carregado ainda se verificaram mais três paragens forçadas o que, feitas bem as contas, dava quase tantos quilómetros a levar a motorizada, como a motorizada a levá-los a eles.
Chegaram à base a altas horas da noite, cansados, esfomeados e sem um tostão pois o pouco dinheiro que levavam foi inteirinho para pagar os remendos.Era esta desgraçada “traquitana” que jazia agora no leito do rio Ota.”
Ota - a ponte

Por: