sexta-feira, 23 de maio de 2014

“O PROFESSOR de POSTO” ZÉ MANEL

Gago Coutinho
O Zé Manel, era um miúdo de etnia Mambunda, nado e criado em Gago Coutinho, assalariado da Força Aérea desde pequeno, com bilhete de identificação que incluía fotografia, era o responsável pela limpeza dos utensílios e do espaço, que permitiam que comêssemos no hangar em vez de termos que nos sujeitar ao refeitório do Batalhão, era também ele que nos tratava das camas e da roupa.
Era um miúdo calado, bastante educado tendo em atenção o meio em que diariamente trabalhava, e particularmente calmo e paciente com os faxinas do Exército, que na maior parte dos dias resolviam descarregar nele as frustrações, maltratando-o e nalguns casos levando a que a nossa comida sofresse um tratamento nem sempre condigno.
Depois de ter tratado dos seus afazeres, o bom do Zé Manel, pegava na sacola e na mesa onde comíamos fazia os trabalhos de casa que as freiras da missão lhe indicavam, uns dias eram contas, outros um ditado, numa tarde de calmaria, cheguei-me à mesa e curiosamente espreitei o que ele escrevia, era uma redacção em que ele contava que queria ser “professor de posto” como não sabia o que seria tal profissão com nome tão pomposo resolvi perguntar-lhe o que raio de coisa era aquela de “professor de posto”.
Aparentemente, qualquer pessoa com a quarta classe podia ser professor, bastava que frequentasse um curso específico, com duração de um semestre, fizesse um exame com bom aproveitamento, e era-lhe passado um diploma que lhe permitia dar aulas nos locais mais isolados em que existiam crianças suficientes para se formar uma ou mais turmas para aprenderem os rudimentos da escrita e da leitura, e se fosse o caso tirarem a quarta classe e prosseguir os estudos. Segundo ele, era muito difícil tirar a quarta classe e ainda mais o curso de professor, mas era esse o seu sonho. 
No dia seguinte, sem que ele soubesse, desloquei-me à Missão, falei com a Irmã responsável pela escola e ela confirmou o que eu já sabia, o Zé Manel era um miúdo muito esperto, que com um pequeno apoio, poderia chegar a “professor de posto”, manifestei a nossa disponibilidade para o ajudar nos trabalhos e ela garantiu que o propunha ao próximo curso, falei com o pessoal e toda a gente manifestou disponibilidade para o ajudar nas contas e letras, sempre que ele necessitasse.
A Missão
O curso começou, e entre todos fizemos um óptimo trabalho, pois vários destacamentos depois, o Zé Manel apareceu todo contente com a nota do exame final e a aprovação, fizemos uma vaquinha entre todos, comprámos um fato, com camisa e gravata, meias e cuecas, não havia era sapatos para os pés dele, tivemos que pedir ao Secarleste, que intercedesse junto da secção de fardamento de Henrique de Carvalho para que fornecesse umas sapatilhas de tamanho 46, que foram as únicas que conseguimos arranjar para ele não ir descalço, e no dia da entrega dos diplomas lá fomos todos sem excepção, ver a entrega do diploma ao “ Senhor Professor de Posto José Manuel”, depois de passarmos pela DGS, para assinarmos o termo de responsabilidade pelo salvo-conduto, que lhe permitiria viajar entre Gago Coutinho e o futuro posto onde fosse tomar posse como Professor.
A maior dificuldade foi depois escolher o novo assalariado, pois apareceram todos os candengues da sanzala como candidatos ao lugar.

Gago Coutinho 1973
OPC ACO

1 comentário:

  1. Ora aqui está uma acção que eu gostaria de ter no currículo. O mundo seria mais fraterno se ao longo da nossa vida tivéssemos agido de idêntica forma.

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