quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

PILOTOS E FTs (FORÇAS TERRESTRES) - 1ª. PARTE

Para que se entendam algumas “histórias” que aqui vou contar, devo, primeiro que tudo, lembrar que o que vai escrito e descrito é baseado na perspectiva e “aos olhos” de jovens entre 18 e 25 anos e nem sempre é baseado no que seria a realidade ou, ainda menos, no que a realidade devia ter sido. Não é minha intenção menosprezar, ofender ou desrespeitar nenhuma Classe ou Arma.

Durante a Guerra do Ultramar, para os Pilotos Milicianos, a diferenciação, consideração e respeito entre estes e outros militares nada tinha a ver com os diferentes postos hierárquicos aprendidos na recruta.
A sequência era mais ou menos a seguinte:
1º) Pilotos – De Furriel a Tenente eram todos tidos como “topo da lista”.
Geralmente, tratavam-se todos por “tu”, concorriam à mesma escala de voo e estavam prontos a sacrificar-se uns pelos outros.
Capitães já eram olhados com um certo cuidado pois sabíamos que, na maioria dos casos, preocupavam-se mais com as suas futuras carreiras do que com o nosso “conforto”.
De Major a Tenente Coronel eram olhados com extrema desconfiança e analisados caso a caso – e havia de tudo! A partir de Coronel sempre desconfiávamos deles, pois deles só poderiam vir as “porradas” e “más colocações”. Ainda por cima, heresia das heresias, raramente voavam!
2º) Cabos Especialistas – Eram os nosso “Irmãos de Armas”, frequentemente da mesma idade e “gostos”, cuidavam das nossas “montadas”, voavam muito frequentemente e viviam e morriam connosco (o número de Pilotos e Especialistas mortos em voo durante a Guerra do Ultramar deve ter sido muito igual). Muitos deles eram capazes de pilotar um Auster, uma DO-27 ou um Alouette III em todas as fases de voo e, frequentemente, com grande perícia (conheci pessoalmente vários casos).

3º) Controladores de Voo – Era com estes que contávamos para sair das “frias” quando estávamos perdidos, em condições meteorológicas adversas (com DF ou GCA) ou quando tínhamos sido “abonados” (atingidos) e precisávamos de apoio ou busca e salvamento imediatos. Impossível de saber quantas centenas de vidas foram salvas por estes verdadeiros heróis anónimos.
4º) Pára-quedistas - Eram nossos “camaradas aeronautas”, não tinham medo de voar (aliás pareciam não ter medo de nada mesmo!) e eram quem iria à nossa procura se, de repente, fossemos parar ao meio do mato. Eram os únicos que conseguiam ser ainda mais “cowboys” que nós! Outros nos igualavam mas só estes podiam nos superar! Só isso já era, por si só, razão para lhes dedicarmos grande respeito.
5º) Tropas Especiais (Comandos e Fuzileiros Especiais) – Eram todos voluntários como nós e, normalmente, “tesos”. As Operações Conjuntas com estas tropas eram geralmente muito facilitadas pela sua costumeira competência e eficiência.
6º) Outro pessoal FAP pois bastava que se “vestissem de azul” para que os tratássemos com especial deferência (no entanto, para tal, era recomendável que não tivessem postos acima de capitão!)
7º) Outros FTs (Forças Terrestres = Exército e Marinha) com especial “carinho e cuidado” para com os militares em Serviço Obrigatório. Todos os outros eram sempre julgados “caso a caso”.



por:
João M.Vidal PIL

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

CABEÇA RAPADA, TIVE VERGONHA… FIZ FÉRIAS NA BASE

Foi em finais de Julho do longínquo ano de 1967, estavam quase cumpridos os requisitos físicos e técnicos da segunda recruta de especialistas da Força Aérea Portuguesa. 
Recruta 2ª. de 1967 - foto de Carlos Joaquim


Fim de tarde na Base Aérea nº.2 na OTA, centenas de jovens aspirantes a especialistas da Força Aérea tinham acabado de cumprir mais um dia de educação física e militar e naturalmente procuravam caprichar nos cuidados higiénicos, porque a seguir ao jantar, podia proporcionar-se um bailarico ou bate-boca com as belas ribatejanas de Alenquer ou Vila Franca de Xira.
O Sérgio Teixeira, identificado com o nº 511/67, estava nessa onda e naturalmente saiu da sua camarata para “duchar e aplicar os cheirosos produtos”. Pasta na mão e toalha à cinta, porque os balneários ficavam noutro edifício, por certo assobiava o “ If you`re going to S. Francisco, do Scott Mckenzie” a canção em voga nessa altura. 
No mesmo instante, um carocha preto passou em frente com um Sr. major de nome Tomás. Ps… Ps … disse o oficial. O nosso recruta não sabe que é proibido fazer nudismo? Não me lembro do que atabalhoadamente lhe respondi, só sei que a minha identificação saiu correcta.
O resto de tarde e jantar ficaram estragados. No bar acho que contei a todos o sucedido e a opinião da maioria com o Pinhal, o “Teacher” e o “Canhão” apontarem para uma “carecada”.
Foram “bruxos “ os meus camaradas, porque no dia seguinte a meio da manhã tive a honra de ouvir na instalação sonora o meu número ”511,” porque na tropa todos somos números. - Deve comparecer no comando. No seu gabinete, o Sr. Major Tomás foi preciso e conciso, sem direito a resposta, … vá ao barbeiro rape o cabelo e apresente-se. 
Pois é assim fiz, só que o Juramento de Bandeira estava à porta e como champô para fazer crescer rapidamente o cabelo não havia nem há, ponto final. 
Com vergonha de aparecer em casa com a cabeça apalpada pela “ máquina zero,” resolvi fazer as férias da recruta na Base Aérea nº.2, Ota. 
Juramento de Bandeira da 2ª. de 1967 - foto de Álvaro de Jesus

Esta “estória” é verdadeira, muito embora nos dias que correm pareça ridícula. Eram estilos e modas diferentes, em que dominavam os Beatles, os cabelos compridos e as calças ”à boca-de-sino”. 
Quero por último dizer que passei uma semana de férias da recruta maravilhosas, longe da minha família e de Vila Real de Trás-os-Montes, mas com amizade e boa disposição dos camaradas africanos, que por razões óbvias não puderam fazer férias da recruta em casa.

Por:


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

AS SETE ESTRADINHAS DE CATETE


A primeira sensação, ao nos aproximarmos deste livro, é de uma certa leveza: as personagens em pose pacífica para uma objectiva, em frente de um autocarro, sorriem a calma da infância, cheia de todos os sonhos possíveis. O próprio título parece querer transportar-nos para um qualquer lugar idílico, há muito abandonado, mas que nós acreditamos ainda poder recuperar, as sete estradinhas de Catete. No entanto, chegamos à página 207 e encontramos isto: "Contudo, também neste grupo os do terceiro ano não perdem muito tempo: acabam de descobrir a cereja do divertimento: um caloiro, sim, mas preto! - A este vamos fazer-lhe as sete estradinhas de Catete!- gritam uns. - Não nos escapas, nharro! - atiram outros. [...] Atiram-no ao chão e, para que se acalme, dão-lhe biqueiradas. Quando o lábio aparece cortado, sentam-no, mantendo sempre bem seguros os braços, pois já se serviu deles para distribuir uns bons murros. Então, a tesoura entra em acção e, partindo de uma clareira no alto da cabeça, vão fazendo sete carreirinhos [...]" Para bem da verdade, não era preciso esperar tanto. Desde a primeira frase que este romance não engana ao que vai: violência. Não é uma violência qualquer, é toda a violência da vida, pelos olhos de uma criança que vai deixar de o ser para no-la contar. Enquanto avançamos no livro, sentimos cada vez mais o objectivo do autor - toda a verdade deve ser revelada, toda a verdade deve ser colocada perante os olhos de quem lê. E então nada aqui é contado, como se fosse uma história, como se fosse uma ficção - é-nos colocado perante os olhos, de uma forma crua e inocente, dura e complacente, como só o sabe fazer esta criança, Guilherme, filho de um capitão da Força Aérea, um militar consciente da fragilidade da situação em que se encontra Angola no período em que decorre a acção - entre os anos de 1971 e 1974. Digo que desde o início está latente a violência dos acontecimentos desta narrativa, mas mais uma vez, há qualquer coisa de idílico no cenário: os pais de Guilherme são um jovem casal que vagueia pelas colónias ao sabor das missões do pai, um militar que, pela sua posição, mantém (pelo menos na aparência) as mãos limpas. Guilherme é um aluno razoável, à procura da sua afirmação entre os amigos (que desde cedo se vai fazendo ao soco e com asneiras, ao contrário do que poderia esperar a sua mãe, professora na Missão). A situação está aparentemente controlada, aparentemente, apenas. Tudo se vai desmoronar a partir do exacto momento em que a narrativa começa. Guilherme começa a revelar demasiada rebeldia, o casamento dos pais entra em deriva e todo o país pega fogo. Se ainda não sabe o que era ser preto em Angola antes da Revolução, se ainda não sabe o que é ser português, se ainda não sabe dos limites do ser humano, em As Sete Estradinhas de Catete vai presenciá-lo da forma mais violenta: tendo tudo isso escancarado perante os seus olhos. Esta narrativa é uma experiência emocional fortíssima e Paulo Bandeira Faria surpreende-nos com a sua qualidade técnica ao manter ao longo das 365 páginas do seu livro um elevado ritmo nas frases e na forma como emprega sabiamente o discurso, de maneira a nos revelar sempre bem perto dos olhos (sempre demasiado perto) o que é preciso sentir e viver durante a experiência de leitura desta obra. Se o tempo nos permite começar a olhar este período histórico como pertencente a uma experiência colectiva que merece ser pensada e explorada, nada nos poderia preparar para uma estreia desta qualidade. As Sete Estradinhas de Catete é um romance que não pode passar ao lado de quem se queixa que não existem bons romancistas portugueses. E também prova como a História de Portugal nos pode servir de argumento suficiente para um romance de primeiríssima qualidade. Autor : Paulo Bandeira Faria Editora: Quidnovi Ano: 2007

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

OUTRAS "OPERAÇÕES" NO CUITO, DO JOSÉ CARVALHO.

Porque nem só de operações militares era feita a nossa estadia, temos o relato de outra mais ou menos usual, a caça...
Carlos Sequeira com o Pescador

Quanto à noite da caçada...
À ida para lá, ainda de dia, o Pescador, qual guia turístico, ia dizendo: "Aqui há pacaça."; "Aqui há leão."; "Aqui há leopardo."
Bem olhámos mas não vimos um único animal.
À medida que avançavamos, o tempo ía ficando negro e não era só porque a noite se aproximava. Quando ficámos enterrados na "chana", com o carro todo inclinado para o charco e em zona de guerra, já era noite cerrada e chovia a cântaros. Depois das tentativas, infrutíferas, de safar o carro, foi decidido que era preciso ir ao Cuito pedir ajuda.Lá fui eu atrás do Pescador, pela mata fora, enquanto os outros ficaram no carro atolado. 
Para demorar menos fomos em "linha recta" em vez de fazer a longa volta pela orla da mata, por onde tinhamos ido. 
Como nessa altura a noite já ia adiantada e chovia muito, não se via absolutamente nada. Eu seguia o ruído dos botins de borracha do Pescador - chomp, chomp, chomp - que seguia um pouco á minha frente. 
De vez em quando um relâmpago dava para reconhecer a figura do Pescador a abrir caminho entre as folhagens. 
Escusado será dizer, que foi nessa altura que me lembrei das palavras do Pescador - "Aqui há leão." ; "Aqui há..." 
Porra, mais valia que não tivesse dito nada. Só ouvia leões e leopardos atrás de cada moita. E eu que nem as moitas conseguia ver!!! 
Se me aproximava do Pescador levava com os ramos que ele ia deixando para trás à medida que avançava, se ficava para trás só ouvia leões. Bolas, mais valia levar com os ramos encharcados na cara!... 
Não sei a que distância nos enterrámos, mas lembro-me perfeitamente de avistar pela primeira vez as (poucas) luzes do Cuito, ao longe. Estaríamos então a uns 2 Km da povoação, num ponto alto que ficava mais ou menos no rumo 060 quando se olhava da pista. 
Foi aí que passei para a frente do Pescador. Agora que eu já sabia o caminho, ele que ficasse com os leões! 
Na subida da ponte para a povoação eu já levava uns 200 metros de avanço em relação ao Pescador.
A ponte do Cuito
Até me esqueci de que estava cansado e encharcado. 
O resto já foi bem descrito pelo nosso amigo Ribeiro da Selva. 
Acabou tudo em bem.

Um abraço,



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

OS PILOTOS MILITARES PORTUGUESES



"Entre 1961 e 1974, Portugal travou a guerra de guerrilha nas Províncias Ultramarinas de Angola, Guiné e Moçambique. 
Para um país pobre e pouco desenvolvido, ter conseguido mobilizar a Força Aérea, treiná-la para um cenário de guerra nunca previsto até então, equipá-la tão adequadamente quanto possível, transportá-la para teatros localizados a milhares de quilómetros de distância e criar bases logísticas de apoio em lugares chave, foi, por si, um feito extraordinário. 
É de salientar que as Forças Armadas Portuguesas não tinham disparado um único tiro de combate desde a primeira guerra mundial. 
O maior e mais imediato obstáculo das campanhas foi a distância geográfica entre a Metrópole e as frentes de combate. 
Angola, cenário da acção inicial em 1961, localizava-se a 7.300 Km de Lisboa. 
A segunda frente iniciou-se em 1963 na Guiné, 3.400 Km a sul de Portugal. 
A terceira frente iniciou-se durante 1964 em Moçambique onde o porto da Beira ficava a 10.300 Km de Lisboa. Cada uma destas frentes de combate tinha características geográficas e demográficas completamente diferentes. 
Os diferentes Teatros de Operações estendiam-se por uma área mais vasta que toda a Europa Central. 
Cabia à Força Aérea: 
- Assegurar o transporte de pessoal e material entre a Metrópole e o Ultramar 
- Assegurar ligação, transporte e evacuação nos teatros de operações 
- Efectuar reconhecimentos 
- Intervir em terra com tropa pára-quedista 
- Apoiar pelo fogo as unidades de superfície. 
Aos Pilotos Militares da nossa geração coube a difícil tarefa de organizar, treinar e comandar os pilotos que viriam a operar os meios aéreos fundamentais para todas as campanhas. 
Estes pilotos não se repetiram, não se copiaram. Romperam os quadros existentes, definiram as suas próprias coordenadas, estabeleceram o seu próprio ritmo e, à parte os traços afins que os caracterizavam, foram todos diferentes. 
A vasta maioria soube cumprir as suas obrigações de militares, de patriotas e de cavalheiros, mantendo em todas as diversas circunstâncias em que se encontraram, por mais difíceis que tenham sido, uma conduta exemplar. 
Mas a glória teve um preço altíssimo: dezenas destes jovens pilotos encontraram a morte em acidentes evitáveis e quase outros tantos viriam a perecer na guerra do Ultramar. 
Nestes tempos em que a palavra “Patriotismo” parece estar fora de moda (somente em Portugal!) esta poucas imagens pretendem relembrar os feitos e homenagear uma geração de Pilotos Operacionais a quem a Pátria muito deve. 
Mal vai a vida de uma Nação cujo povo e governantes não sabem honrar os seus Heróis. 
Grande desnorteamento existe quando não se sabe distinguir os conceitos políticos, da honra, do valor e do dever. Que será preciso fazer para que se percam os complexos e nos orgulhemos dos nossos Intrépidos? Dizem que a memória dos homens é curta. 
Quando o esquecimento ajuda os desígnios pouco claros ou o aliviar de más consciências, então é cultivado como uma arte. A continuarmos assim não encontraremos o “Norte”... ...e os vivos não merecerão os mortos. Será caso então, para os chorarmos!
João Vidal PIL

Aconselho vivamente um visionamento do seu óptimo trabalho; entretanto numa época em que a escala de valores foi totalmente adulterada, peço uma leitura atenta das suas palavras pois como diz no final, os vivos não merecem o Extremo Sacrifício feito por tantos dos nossos Camaradas de Armas.
João Vidal que fez a sua comissão no Negage, não fala de cor, já que perdeu um irmão tambem piloto na Guiné.
Ribeiro da Silva PIL

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

1º ANIVERSÁRIO DO BLOG



CAROS AMIGOS:
Faz hoje precisamente 1 ano que após o Convívio do dia 8 de Novembro de 2008 em Castro Laboreiro editei o BLOG " Clube de Especialistas do AB4.
Num ano e em conjunto, estes dois eventos foram consultados na totalidade 13.870 vezes.
Espero que vos tenha agradado e é tempo de vos agradeçer pela camaradagem e colaboração que me dispensaram.
A todos os colaboradores, editores e amigos, um Muito Obrigado.
Rui Neves Editor do Blog

quinta-feira, 21 de maio de 2009

CARTA DO EDITOR

Caros Companheiros:
 É com muito gosto que vos vou escrever estas linhas para vos dar conhecimento da evolução do Blog e o que pensamos fazer daqui por diante.
 É verdade que com o vosso apoio fantástico que dos finais de Novembro até esta data recebemos quase 5.000 visitas, número que esperamos atingir até ao final do mês.
 Porque o Blog é uma ferramenta interessante para uma pessoa escrever e dar asas á sua imaginação, torna-se um local difícil de consultar quando um grupo como este manifesta-se massivamente com um apoio em artigos espectaculares.
 Assim, a equipe Editorial resolveu após a opinião geral em avançar para a construção e publicação dum SITE.
 É verdade que sendo de melhor consulta trás um acréscimo de responsabilidades que para que possamos ultrapassar temos de ter a vossa colaboração com o empenho igual ao que a equipe actual tem dedicado. Pensamos assim além das rubricas já criadas;” Companheiro da Quinzena, Literatura e Arte, Repórter da Actualidade, Álbum de Recordações e Tesourinhos”, gostaríamos de criar mais alguns que nos dessem a consistência necessária para um Site do tipo de “Jornal Semanário” com a rotatividade e criatividade para ser um local atractivo, de lazer e diversão.
 Por tal, vamos criar as rubricas; “Saúde, Informática, Trânsito, Roteiros da Minha Terra, e outros que vocês apresentem como sugestão.
 Pensamos publicar o primeiro número no início de Junho e esperamos o vosso apoio desde já para que essa publicação seja mais uma vez a mostra da especial união e camaradagem de todos os companheiros que passaram prlo AB4.
 Em nome de toda a equipe aqui vos deixo com um grande Abraço
 Portugal, 20 de Maio de 2009

Rui Neves
Editor

terça-feira, 19 de maio de 2009

HOMENAGEM AO JOSÉ MANUEL VAZ DE ALMEIDA



Infelizmente mais uma notícia triste nos acaba de ser transmitida.
Paz à sua alma, as nossas condolências à família e a todos os que mais de perto conviveram com o Vaz Almeida.
O COMPANHEIRO JOSÉ MANUEL VAZ DE ALMEIDA, QUE RESIDIA NA ILHA DA MADEIRA – FUNCHAL, ESTAVA PARA VIR AO ENCONTRO DOS "CHAMUANZAS" EM QUE JÁ TINHA ALOJAMENTO MARCADO E TUDO.
NA VÉPERA DE VIR SENTIU-SE MAL, FOI PARA O HOSPITAL E A FILHA, BRANCA DE ALMEIDA LOGO SE APRESSOU A TRANSMITIR O SUCEDIDO.
HOJE E PARA GRANDE TRISTEZA MINHA E DOS “CHAMUANZAS”, RECEBO O E-MAIL QUE REENVIO.
ÁLVARO BARROSO

17/05/2009 Amigo,
Venho dar uma má notícia, o meu pai José Manuel Vaz de Almeida não resistiu e faleceu hoje às 10h. 
O funeral será amanhã 14h com missa às 13h. Cumprimentos a todos os Chamuanzas
Branca

terça-feira, 12 de maio de 2009

EPISÓDIOS VIVIDOS NA "MAJESTOSA"

MEMÓRIAS DE UM PASSADO SAUDOSO

*Quase três anos de Leste de Angola --- muitas pequenas peripécias aconteceram na Torre de Controlo, onde operei por centenas de horas, noite e dia.
Nos primeiros dias que estive de serviço e, durante o turno da noite, fiquei com receio de permanecer exposto a uma cena de invasão da Base, pelos inimigos. 
Situava-me num ponto estratégico e que poderia ser um bom e primeiro alvo de ataque. Vinte e cinco metros de altura, edifício de fraca estrutura, gingando por todos os lados e, nos dias de grandes trovoadas, metia respeito !... 

1 - Num dos turnos nocturnos, naquelas noites silenciosas em que quase todos os militares dormiam, eu vigiava através dos vidros da cabine hexagonal. Nisto, ouvi um roncar longínquo de um avião que me parecia ser de grande envergadura. 
Mirei com os binóculos todo o espaço aéreo ao meu alcance e, nem uma luzinha eu avistei -- mas, o barulho continuava a ouvir-se e com maior ruído. 
Algum avião inimigo??? 
Chamo Luanda, peço informações sobre a possibilidade da rota daquele avião e, eis que me informam tratar-se dum quadrimotor Rodesiano que transportava gado bovino. 
Curioso!... o piloto não deu sinais de vida aos meus apelos pela rádio e, nem o avião tinha alguma luz visível para assinalar a sua direcção… 

2 - Noutra ocasião, encontrava-se um companheiro meu, o Rui Silva, de serviço à Torre. 
A torre nocturna
Ao escurecer, notou que havia uma luz que pairava no céu, mas que teimosamente não queria fazer-se à pista!... Tentou contactar com a suposta aeronave, mas esta não dava sinais de vida. 
Disparou um “very light” verde, para permissão de aterragem e, a luz da aeronave continuava a circular em volta da pista sem se aperceber de qualquer intenção. Intrigado, pensando que pudesse ser algum disco voador, telefonou para o Bar de sargentos a fim de solicitar a ajuda dum outro controlador mais experiente. 
Lá vou eu ter com o Rui Silva para indagar da situação. Conclusão, houve “ilusão de óptica”, “miragem pura”. A aeronave não existia!... Porém, já tinha sido avisado o oficial de dia, iluminado as pistas com os candeeiros a petróleo e, chamado um bombardeiro que se encontrava ocasionalmente no Luso (Douglas B-26), para ajudar no combate…! 

3 - Noites mortas, difíceis de passar naquela Torre e, para me entreter, sintonizava um dos rádios transmissores para ouvir música. 
A colecção de borboletas
Outros dias, acendia o holofote para atrair as borboletas e, de madrugada, descia ao edifício anexo à Torre e, pelos corredores, pisando as mal cheirosas formigas cadáveres, injectava com formol, (cedido pelo enfermeiro Correia) certas borboletas lindíssimas, grandes e, de todas as espécies. 
Coleccionei cerca de 200 e, ainda hoje tenho presente dois quadros na minha sala. Soube que uns dos fãs destes “hobbies” , era um Sargento Açoreano chamado Flores. Este, dedicava-se com paixão na apanha das borboletas e, por sinal, na altura em que se encontrava em H. de Carvalho, (antes de 1971), e quando os edifícios da Base eram pintados de branco, (e, não de verde claro), ele conseguiu caçar a célebre e única borboleta no Mundo -- Borboleta Caveira. Por cada quadro que ele elaborava, colocava uma dessas borboletas e, remetia-o para os Açores a fim de ser vendido aos Americanos. Fez bom negócio… 

4 - Outras vezes, sem ocupação, dormitava na maca que a Torre possuía, porém, era preciso ter um cuidado extremo pois, o célebre Capitão Laurentino andava em nossa perseguição. 
Militarista de primeira, não queria que dormíssemos e, as luzes do tecto da Torre deveriam estar sempre acesas. A nossa sorte era que quem iniciasse a subida à Torre, a fragilidade da estrutura fazia com que estremecesse e, nós, lá em cima, apercebíamos a situação. 
Noutra altura, não deu para dormir…

Controlador ZePaes
5 - Luanda chamava, chamava… e, alertou para o facto de haver possibilidade da Base de Henrique de Carvalho se tornar alternativa para voos que se destinavam à capital. Luanda estava cercada de nevoeiro e, a pista de Henrique de Carvalho era superior à de Nova Lisboa. 
Colocava-se a situação de como albergar os passageiros de alguns aviões pois, Hotel, só havia um!... A pista não tinha iluminação eléctrica e a nossa cidade ficava no Cu do Mundo… 
Passaram-se momentos de indecisões e, eis que o nevoeiro deu indícios de se dissipar. Assim, continuou Luanda a servir o tráfego aéreo. Livra… 

6 - No dia em que um Friendship Fokker-27, da DTA, caiu no mar, junto de Lobito, a ansiedade de saber sobre a possível existência de sobreviventes era enorme. 
O co-piloto Mesquita foi um dos três sobreviventes e, tinha família na cidade de Henrique de Carvalho. Nessa altura, morreram vinte e dois passageiros e, um dos meus amigos de infância, militar no exército e jogador da equipa do Moxico, campeã de Angola em 1972, escapou-se por sorte. Quis o destino determinar-lhe fazer viagem por terra quando, lhe tinham já pago a viagem para seguir nesse avião. 
Estava de serviço, no controlo, e recebi uma notícia particular de Luanda em que me solicitaram para dar a informação à família do co-piloto em como ele estava vivo. Foi um alívio para os familiares e, uma grande alegria que lhes dei porquanto, servi de primeira fonte informativa. Para mal do destino, esse piloto viria a falecer, anos mais tarde, num acidente aéreo, comandando um avião ao serviço da Sata, numa das ilhas centrais dos Açores.

7 - Encontro-me na Torre, dou autorização a um T-6 para aterrar mas, nem o vigio a cem por cento.
Placa e pista vistas da Torre
Condições normalíssimas de tempo, pista toda por conta do avião em causa --- que ficasse à vontade… Mas, eis que ao olhar para a pista, vejo uma imensa nuvem de poeira!? 
Nem disse nada, no momento…
Quando fui almoçar, perguntei ao piloto. Eh.. pá… Andavas ás curvas na pista? Diz-me ele --- não digas nada, o mecânico, distraidamente, carregou num dos pedais quando o avião estava mesmo a tocar o asfalto…


8 - Pilotos brincalhões e experientes, conheci muitos porém, num dia de vento moderado, assisti a uma aterragem de um Dornier-27, que mais parecia um helicóptero. 
Vejo o DO com boa altitude a fazer-se à pista, dou-lhe autorização para aterrar e começo a avistar-lhe todos os movimentos. 
Devagarinho, contra o vento, desce-me como se fosse uma pessoa a descer os degraus de uma escada. Devagarinho, de solavanco em solavanco, cai quase na perpendicular, dá um pulo no chão e, pára. 
Gozei com o espectáculo --- nunca tinha visto coisa semelhante! 
Piloto particular do Governador; Caboverdeano de origem; o saudoso ALEX… 


9 - Fim de ano de 1973, tinha na cidade, família e, uma correspondente, a qual viria a ser minha mulher. Esta, tinha vindo passar o ano a Saurimo e, precisamente, no cinema do Chikapa, com festa e bailarico!... 
À partida, rumo a Malanje, eis que se encontra por debaixo da Torre para subir para o avião da TAAG. 
Disse para comigo!... --- gostava de lá ir abaixo e, despedir-me dela!... 
Por do sol visto da Torre
Chamei o especialista de comunicações, que se encontrava no seu posto e, solicitei-lhe que desse as instruções ao piloto para a descolagem. Não se previa mais movimentação de tráfego e, estes nossos companheiros tinham alguma instrução porque, ajudavam o controlo nos destacamentos. 
Desci, esperei uns minutos, despedi-me dela e, voltei à Torre com ansiedade e expectativa. 
Entretanto, tinha avistado outro avião a fazer-se à pista e, precisamente no momento da descolagem do F-27 da TAAG. 
Na Torre, vi o companheiro com aspecto amarelado, que me disse: Ehhh pá… apanhei um cagaço do car… Então?! … Ohhh … dar as instruções ao piloto da TAAG, lá dei, mas apareceu-me outro a pedir instruções para aterragem e, eu fiquei a ver navios, em vez de aviões… Vim a saber que os pilotos se entenderam pelas comunicações que travaram e, para nossos agradecimentos, nem o militar, nem o civil, fizeram participação do acontecimento ao nosso comando militar. 
Ainda hoje vivo esta situação como uma falha de responsabilidade que poderia ter dado para o torto… 

10 - Parte do Luso um PV-2 com destino a H. de Carvalho. 
Comandava-o um Tenente que dava para o gordinho, meia-idade, e um pouco falador. 
No sub-comando, acompanhava-o o Gomes da Silva. Registei a hora da sua partida por comunicação com os colegas do Luso e, aguardei pelo contacto da aeronave. Sabíamos qual o tempo de rota para este tipo de aeronave e, não é que já passava do tempo e, a comunicação não saía!… 
Chamei, chamei e, eis que me contactam. Informam-me da sua posição e, comunicam-me a hora prevista de aterragem. Passa o tempo e, só muito mais tarde me pedem autorização para aterrar. 
Conclusão, vim a saber por especialistas que, os dois pilotos vinham numa discussão sobre qualquer assunto e, distraidamente, prosseguiram rota sem terem dado conta da emissão do rádio farol de H. Carvalho. 
E, …não é que já se encontravam na fronteira do Congo !?... 

11 - Trovoada, trovoada que nunca tinha visto com tamanha dimensão!... 
Na Torre, equipamentos quase todos desligados, centrava-me deitado na maca a pedir aos Deuses para não levar com um raio na tola. Tirei imensas fotos com o céu varado de raios… Parecia um festival de foguetes… Um colega, da sala de despacho, receando pela minha vida, chamava-me pela fonia. Eu, ouvia, mas evitava responder-lhe. Mas, tanto chamava que eu carreguei na tecla para emitir-lhe a mensagem. Nesse momento, levei com um coice, que me deitou ao chão. 
Caraças, coincidência dos raios… 
Pior, pior, poderia ter acontecido a um companheiro Opcart chamado Carrão. Era mais velhinho do que eu e, o tempo do Leste estava a estragá-lo no vício das bebedeiras. De serviço, passava as noites, na Nocal. Noite de trovoada, já com os copos, resolveu descer a Torre pela parte que ligava o fio condutor do pára-raios!...
Foi um doido de varrer… 

12 - Trovoada, trovoada, também surgiam para os lados de Gago Coutinho…. Voz fraquinha, lá longe, com atrapalhação, ouvia eu, um piloto chamar…. H. Carvalho… H. Carvalho… daqui, DO…. A tantos graus de latitude/longitude, com proveniência de G. Coutinho e com destino ao Luso. Tenho dificuldades em prosseguir rota. Grande turbulência, trovoada, escuto… 
O.K. mensagem recebida. Vou contactar o Luso e informar Luanda da sua posição. Sempre que possa vá transmitindo a sua posição e estado. 
As mensagens surgiam cortadas, pausadas, sumidas e interrompidas. Interromperam de vez e, fiquei sem saber se o DO tinha caído ou, não… Chamei o Luso para indagar sobre o acontecido. Tinha o nosso grande amigo Pinheiro conseguido sobreviver a uma tempestade medonha. 
Para minha alegria, contactei com ele anos atrás, era piloto militar de carreira e oficial superior. 
Grandes aventuras tive com ele de avião, (T-6 e DO-27). Enfim, era nesta Torre que escrevia as minhas cartas aos meus pais (já falecidos), irmã, amigos e namorada. Nesses momentos saudosos, aplicam-se com justeza os versos da Balada de H. de Carvalho, da autoria do nosso companheiro Rocha Marques (piloto), quando narram o seguinte: 
“Quando a noite veste de sombras o mundo, 
E o silêncio me desperta a solidão, 
Verto lágrimas e o meu sofrer é profundo, 
Põe-me louco de saudade o coração…

Até breve. 






domingo, 10 de maio de 2009

SÉRIA VIVÊNCIA, O BOTÃOZINHO LIGADO PRA BAIXO !

Entre Outubro e Dezembro de 1969, fiz o meu primeiro destacamento no AM43–Cazombo.
Relembro, com saudade, o Alferes Grade, bem como o Tenente Pinto… que o rendeu, no Comando! 
Pela manhã, quem chegasse primeiro ao Posto de Rádio, ligava os instrumentos… pois éramos uma família…! 

Claro que, aqui, esta família reduzia-se ao 'Especial' da Meteorologia, nesse tempo o Leãozama da Meteo, o tal que nos dizia que o tempo estava a 2 de CU, a 2.500’, o da Electricidade, o de Rádio (Mecânicos) e, nós próprios, os OPC’s (nesse tempo, meu querido amigo, José Manuel Pereira Franco). 
Um dia, porém, de muita chuva e trovoada à vertical… alguém ligou os ditos aparelhos… mas, um certo botãozinho ficou pra cima… quando devia ter ficado pra baixo… Resultado: estávamos sempre a EMITIR e… tudo o que se dizia no Posto de Rádio ía para o AR… 
Tendo questionado Carvalho (AB-4), responsavelmente, se havia algum tráfego prá Minha… foi-me dito pelo nosso querido amigo Félix : - NEGATIVO!… 
Tudo bem… pois que, com aquele tempo… totalmente 8/8 de CU e NB, com chuva forte e trovoada… a coisa estava feia pra se 'aterrar'... 
Mas eis que, de repente… sem saber como, de onde vinha, nem de quem se tratava… ouviram-se uns motores de um avião a baixíssima altitude sobre as nossas cabeças… Kunkaneko… quem vem aí, com este tempo e sem avisar! 
Pensámos todos…? 
Pelo VHF chamei: - aeronave que sobrevoa Cazombo, queira identificar-se… mas… nicles… ninguém me respondeu… Pra nosso espanto… era um PV-2… municiado… 
Mas então… de onde vinha este PV-2 se Carvalho me tinha dito que não tinha nada prá Minha? 
Pois é… nem tudo se sabe… 

Este PV-2 vinha do Luso… não tendo, porém, dado cavaco a Carvalho sobre seu plano de voo… 
Sei é que chegou ao Cazombinho no silêncio… mas FULO… 
Seu Comandante de bordo, um nosso querido Capitão Pilav… do qual não recordo o nome… mal parou na placa, cheia de água, pois chovia a cântaros, entrou pelo Posto de Rádio e gritou: - quem é que manda aqui? 
Respondi-lhe: - sou eu, senhor Capitão! 
Bem, disse-me cobras e lagartos. Que se tinha fartado de me chamar, que ninguém lhe tinha respondido, que vinha a ouvir-nos desde o Luso, que se tinha visto grego e troiano com aquele tempo, que lá em cima não havia passeios pra se encostar, que ia participar de mim… blá, blá, blá, blá. 
Fiquei a olhar pra ele sem saber o que responder... Olhei, então, pró equipamento… como que a perguntar a mim mesmo: como é que ele nos tem vindo a ouvir desde o Luso!? E então vi, o dito botãozinho ligado pra cima… quando devia estar ligado pra baixo… 
Dei disso conhecimento ao senhor Tenente Pinto, explicando-lhe o sucedido, pedindo que intercedesse por nós… 
Coisas que acontecem a quem lida com elas... como sempre, ou, como em tudo... Facilidades que podiam dar maus resultados... 
A coisa ficou assim mesmo, mas… pra susto… valeu.

Abraços do JESUS/OPC – 69/73