quinta-feira, 3 de março de 2022

A GUERRA E OS RAPAZES!



Decorria o ano de 1971!
Portugal travava em África a sua última guerra!
Em Angola, Moçambique e Guiné os mais novos filhos da pátria, batiam-se para garantir a soberania portuguesa nos territórios atrás referidos.
Foram os melhores de nós que de barco ou avião partiram e chegaram à guerra!
A maior parte não sabia bem o que lhes estava reservado, desconhecendo também a razão ou razões de tão longa viagem.
Ao signatário aconteceu exatamente o atrás referido!
Carregado num avião DC6 versão cargueiro, lá foi no meio da carga com destino a Moçambique, aterrando depois de várias peripécias em Lourenço Marques.
Oito dias passados eis o novo destino!

Tete, norte de Moçambique, onde a guerra estava ao rubro!
Colocado numa esquadra de helicópteros (703, Vampiros), pronto para ali servir em todas as circunstâncias, em nome de Portugal.
Decorria ao tempo no rio Zambeze, o maior empreendimento hidroelétrico da África Austral, a barragem de Cabora Bassa, considerada a mais emblemática obra do “estado novo”, e a maior obra do género da África Austral.
Gorada que foi a operação “Nó Górdio”, planeada e executada por Kaúlza de Arriaga, os guerrilheiros da Frelimo, atravessaram o rio Rovuma, e instalaram-se no distrito de Tete, tentando a partir dali evitar com ações múltiplas a construção da já citada barragem de Cabora Bassa.
Tudo foram fazendo para evitar a construção, sabotando para além de outras coisas a chegada dos vários materiais necessários, mormente os transportados via-férrea caminho de ferro de Benguela.
Os comboios passaram a ser atacados através da colocação de minas, acionadas manualmente através de um simples cordel, que deixava na via, comboios e mercadorias em perfeito estado de imobilização.
Os guerrilheiros colocavam as minas na via, muito próximo da fronteira do Malawi, puxando o cordel na máquina do comboio, ou noutra parte do mesmo comboio.
Feito o acionamento, fugiam para o Malawi, onde ficavam protegidos, pese embora o bom relacionamento entre o presidente Banda e o primeiro-ministro português, Marcelo Caetano.


Interrompiam deste modo a chegada dos materiais à pequena vila de Songo, contribuindo deste modo para o atraso da construção da barragem.
Face ao que atrás referi, foi decidido colocar a bordo do comboio uma equipa de pisteiros de combate, formados na bonita cidade Moçambicana de Vila Pery, que após rebentamento da mina, tinham como objetivo seguir os guerrilheiros, que invariavelmente se refugiavam no Malawi, bem próximo da linha de fronteira.
Complementando este sistema de perseguição dos guerrilheiros, foi colocado em Caldas Xavier, uma pequena vila ferroviária (Entroncamento local), um helicóptero ALIII, armado com um canhão de 20mm de tiro rápido no compartimento de carga, sendo a sua munição de uma eficácia extraordinária, que tinha como função o abate e captura dos colocadores das minas.
Como quase sempre os guerrilheiros fugiam para o Malawi, a paciência começou a esgotar-se e até o próprio helicóptero queria entrar, e entrou várias vezes com os efeitos que se imaginam.
Com 20 anos tive esta poderosa arma nas mãos, e ainda hoje não consigo esquecer a ligação perigosa que tive com ela.
COISAS DE RAPAZES!
Por: Luís Faria Costa

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

FUMO PRETO



AR Luso sem precisar data mas terá sido em finais de 73 ou início de 74. Um qualquer dia a meio da tarde estávamos uns quantos a assistir a uma saída de dois T6 completamente municiados a fim de mais uma missão. Eram pilotados por um furriel cujo nome não lembro o outro pelo alferes Vinhas, rolaram para a pista, o primeiro a levantar foi o furriel com uma descolagem normal, a segunda descolagem também começou bem mas, após alguns metros de altitude o avião começou a expelir fumo preto a perder altitude até ao contacto com o chão ficando imóvel muito para lá da pista em zona de terra e vegetação. Os nossos bombeiros acorreram de imediato verificando que o alferes Vinhas já corria em passo acelerado afastando-se do avião. Devido ao estado emocional, o Vinhas esteve algum tempo sem conseguir falar. No dia seguinte já estava de novo rodas no ar, eram assim os nossos pilotos.
Por: António Pereira

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

FIM DE IMPÉRIO - Descolonizar Angola (PARTE II)



Aproveito a oportunidade para transcrever um emotivo relato de um dos nossos cabos especialistas que, encontrando-se na cidade, foi apanhado naquela turbulência (693)

O 12 de junho de 1975 foi de facto o despertar para um "fim" que se sabia calendarizado, mas não tão rápido e violento. A cidade foi varrida, por quase 30 horas de "guerra civil" e nos dias-semanas seguintes as noites eram escuras, fora da Base, e tracejadas por morteiros e projéteis que, vistos de longe, assustavam. Descolar e aterrar eram, contudo, rotinas sem grandes condicionantes. 
Pessoalmente, a minha noite de 12-13 de junho e todo o resto do dia foram passados deitado numa banheira da casa de banho, pois "fui apanhado" em plena cidade e pude refugiar-me numa das casas que a FA ali tinha (Bairro). Horríveis 30 horas, pois não se adivinhava o que estaria a acontecer em redor. Só uma operação feita por Comandos do ME nos evacuou para o AB 4. 
A destruição, com mortos à mistura (a maioria dos 3 "Movimentos" envolvidos), era imensa e foi aí a debandada dos civis para perto dos "aviões" na ânsia de sair e de ter mais (aparente) proteção. 
A enfermaria da Base parecia um bloco operatório, porque não uma morgue, aonde chegavam também feridos de outras localidades. Era um caos absoluto. Talvez dos locais mais assustadores, quando se olha para trás. Um comandante da FNLA, recordo, apareceu em maca, consciente, com um grande "buraco" num dos ombros, tapado com uma rolha de papel.… imagens que não saem. ...

Transcreve-se ainda parte do depoimento, de outro militar do AB 4 (694)

Os Movimentos de Libertação decidiram "digladiar-se" pela conquista da cidade de Henrique de Carvalho, aliás como o vinham fazendo por outras cidades, nomeadamente em escaramuças em Luanda desde março e em especial em Malange, onde também houve tiroteios.
Além da noite de 12 para 13 de junho referida, em 16 de julho, volta a haver nova disputa pelo território, com violentos tiroteios entre o MPLA e a FNLA durante cerca de 18 a 20 horas e foi de novo redobrada a vigilância em todos os postos da Unidade e Rondas.

A 13 de junho, após a tormenta, as famílias dos militares começaram a ser evacuadas e concentradas nas instalações do AB 4. Mas, perante essa retirada, a população civil (brancos e negros) dirigiu-se para a nossa unidade em busca de abrigo. Tarefa hercúlea, na qual colaborei, a de alojar centenas de pessoas em hangares, armazéns e outros edifícios, distribuir colchões e cobertores, gente dispersa por todo o lado. A enorme cozinha e os refeitórios funcionavam da madrugada ao anoitecer, recorrendo aos géneros que tínhamos em depósitos e câmaras frigoríficas, mesmo assim insuficientes para acudir a todos. 
Edificio do Comando e alojamentos
Mas já não era possível albergar mais gente. Os retardatários, vindos de mais longe, chegando em automóveis, carrinhas de caixa aberta e camionetas, foram-se instalando fora do arame farpado, em redor da porta de armas, em busca de proteção. Nos dois dias seguintes, ainda se ouvia o fragor de combates dispersos. Depois, os civis começaram a abandonar a segurança da manu militari, em busca dos seus espaços e haveres.
E pensávamos que, com a tormenta terminada, o vencedor MPLA seria além de invencível na guerra, magnânimo na vitória e respeitaria o vencido.
Contudo, exigiram ao comandante do AB 4 a entrega dos adversários feridos, que haviam sido recolhidos na cidade e se encontravam a ser tratados na nossa enfermaria, exigência que foi rejeitada. Humanidade e tolerância não existiam no léxico daqueles valentões. Tornava-se imperioso impedir que os pressupostos do anticolonialismo e as razões subjacentes à luta de libertação justificassem todo o tipo de condutas, incluindo as execuções sumárias. Infelizmente, os Movimentos, ávidos de poder, eram pródigos em discursos e promessas, mas, como diz o povo, de promessas está o mundo cheio. Porém, as confrontações e os ajustes de contas entre eles, causaram milhares de vítimas em Angola e indizível sofrimento às populações.
Nos meses seguintes, os militares da Força Aérea em serviço no AB 4 continuaram a ser evacuados para Luanda. Em fins de agosto de 1975, já eram menos de cinquenta. A unidade, entretanto, tinha sido ocupada pelos homens do Batalhão de Cavalaria 8322, que aí se mantiveram até efetuarem a transferência das instalações para o MPLA.
Minha mulher, quando lhe foi pedido, em 2008, ou seja, trinta e três anos depois, para descrever o acontecido em Henrique de Carvalho na noite de Santo António de 1975, escreveu um trecho que foi publicado numa obra coletiva, do qual respigo algumas passagens (696)

Angola, Henrique de Carvalho, 12 de junho de 7975, 18 horas. 
E subitamente a guerra rebentou! Terrível, ensurdecedora, inequívoca, imediata. Por detrás do nosso jardim, fora uma ala do hospital atingida por morteiros. Baixando-me e baixando-as, corremos para a única parte da casa que não tinha vidros, um corredor para onde o meu marido, chegado há pouco tempo, nos puxava e tentava acalmar o choro das duas garotas, estonteadas pelo barulho e pela urgência. 
Depois... foi o escuro, a loucura absoluta, as histórias que eu tentava murmurar para acalmar as miúdas, os clarões repentinos que nos iluminavam, os estrondos do mundo a desfazer-se, as granadas que eu temia caírem-nos em cima, o uivo luminoso das balas tracejantes, os gritos de ordens e desordens da turba em guerra fratricida: MPLA contra UNITA, MPLA contra FNLA, UNITA contra FNLA. E tudo vomitava fogo imprevisível, e o tempo era comprido, as metralhadoras furavam paredes, estilhaçavam vidros e as garotas não adormeciam... 
Tinham fome e medo e uma delas queria a mãe; em determinado momento, o meu marido, a arrastar-se foi buscar alimentos e apagar o fogão que enchera a casa de cheiros e teve também de ir até à parede comum às duas vivendas e bater com força. Esperámos e ouvimos batidas do lado oposto, a miúda acalmou um pouco. 
Depois adormeceram, cansadas de chorar e agarradas a nós que nos agarrávamos à fé. A esperança de que se matassem todos, que o pesadelo terminasse e novamente se ouvissem grilos, se pudesse olhar as estrelas, cheirar a terra nessa África fantástica de noites intensas e misteriosas. 
Eu também queria chorar e não podia e fugir se houvesse um escape. Mas não, eles, todos, não sei quantos, estavam ali à volta, a brincar com a morte, desprezando a vida, carregando ódios, executando vinganças ancestrais de tribos contra tribos, de etnias, concretizando sonhos de autoridade, ilusão resultante do poder das armas. 
Após algumas horas do início (temporário) das tréguas e depois dos militares portugueses haverem recolhido feridos e moribundos, transportando-os para a enfermaria da Base Aérea, a oito quilómetros da cidade, onde no dia seguinte se apresentaram intrépidos e conscientes guerrilheiros, armados até aos dentes, em missão de acerto de contas, exigindo a entrega dos inimigos agonizantes... 
Não pude colher, no jardim, as rosas de porcelana que floriam num canteiro, com violetas africanas, rodeado de ananaseiros e tive pena. E ainda mais me lembrei delas quando, poucos dias decorridos, novamente se viu ao longe, o céu da noite de Henrique de Carvalho fervilhar de explosões, riscado do horror da loucura assassina... por certo espezinharam as minhas rosas!...

Presto aqui as devidas homenagens aos militares com os quais convivi e enfrentaram estes tempos conturbados, sabendo respeitar valores e tomar decisões equilibradas, apesar da emergência das situações (697)
Uma referência muito especial para o alferes Victor Nunes que serviu como meu adjunto e em todas as circunstâncias manifestou lealdade e cooperação exemplares
(698)
À minha geração haviam sido pedidos dois esforços hercúleos, o de aguentar com a defesa do império, nos anos sessenta e setenta, e o de superintender às sequelas do seu abandono. 

4. Paraíso Perdido

Em junho de 1975, fui colocado em Luanda, na Base Aérea n°. 9, tendo os meus familiares regressado a Lisboa. Aí tive a prerrogativa de continuar a trabalhar e a conviver com outros camaradas, num período de confrontações e instabilidade permanente (700)

Nota dos Editores: o nosso reconhecido agradecimento ao Sr. Major-General ADMAER da FAP Manuel de Campos Almeida, por nos ter permitido publicar este excerto da sua obra.








Adendas:
693 e 694 - Relato recolhido no Blog
696 - Maria Teresa de Campos Almeida. In A mulher Portuguesa na Guerra e nas Forças Armadas. Ed. Liga dos Combatentes, 2008, pp 81 e seguintes.
697 - Entre eles, os majores João Carlos Oliveira e Fausto Cruz, os capitães José Bernardo Fermeiro e António Várzea, o tenente Pereira e o sargento Fartura.
698 - Natural de Alviobeira, concelho de Tomar. Recordo também a sua mulher, Maria Teresa Nunes, com quem mantivemos fortes relações de amizade.
700 - Destes destaco os tenentes-coronéis Velho da Costa e Feliciano Gomes, os capitães Mendonça Carvalho, Manuel António Melo, Mendes Barbas, Vitor Costa, Tavares de Lima e Vale de Gato, os alferes Antunes Moreira e Joaquim Rodrigues e o sargento Rafael Meireles.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

FIM DE IMPÉRIO - Descolonizar Angola (PARTE I de II)


No primeiro trimestre de 1975 entrou em execução o Plano Secreto de Operações da 2ª. Região Aérea, designado Luz Verde, conforme o que havia sido estipulado nos conciliatórios Acordos de Alvor de 15 de janeiro de 1975.
O AB4 em 1970. O aeródromo, rodeado de savana, 
ocupava um rectângulo com mais de 2Km de 
comprimento
Para o AB 4, estabelecia a extinção de todos os seus Aeródromos de Manobra e de Recurso, a redução progressiva dos seus efetivos e a manutenção de uma Esquadra de Voo com 6 DO-27, 1 C-47 e 3 AL III. A desativação da Base de Henrique de Carvalho estava prevista para 30 de agosto, sendo instalações, materiais e equipamentos entregues às Forças Militares Angolanas.
AB4 2/2/1975. Vindo da Zâmbia e recebido pelo
Gov. da Lunda Cor. Leandro, Maj. João Oliveira
do AB4 e elementos do MPPLA
Agostinho Neto regressou a Angola, através do AB 4, num domingo, 2 de fevereiro de 1975. Foi recebido com as deferências devidas, prestadas pelo MPLA e seus apoiantes. Todavia, o comandante não autorizou cerimónias no interior da unidade. De facto, num dos topos da pista, estava instalada a aerogare destinada ao trânsito de aviões civis, respetivos serviços de apoio e placa de estacionamento. E foi aí que foi recebido Agostinho Neto, pelos seus homens. 
Posteriormente, foi convidado a visitar o Clube de Oficiais, tendo sido acompanhado pelos seus seguranças e por militares portugueses, transparecendo, contudo, algum nervosismo na sua comitiva. A sua entrada oficial em Luanda deu-se na manhã de 4 de fevereiro (678). O simbolismo da data escolhida é por demais evidente. De facto, foi na madrugada desse dia, em 1961, que nacionalistas angolanos desencadearam uma série de emboscadas e assaltos na cidade (679)
O processo de desativação de todo o leste desenvolveu-se conforme o planeado, com a retirada do material e pessoal da F Aérea e sua concentração no AB 4, seguindo, depois, para Luanda. Nos fins de março de 1975, no dispositivo da F Aérea do leste de Angola, estavam totalmente desativados os Aeródromos de Camaxilo, Cazombo, Gago Coutinho, N’Riquinha, Cuito Cuanavale e a entrega das instalações do Luso já se encontrava em fase bastante adiantada (681)
Na Lunda, começaram a aparecer membros dos três Movimentos de Libertação, conforme o estipulado nos Acordos de Alvor. Nesses documentos, ficaram expressos os parâmetros para a partilha progressiva do poder, durante o processo de descolonização, até à data da independência.


Permito-me transcrever alguns articulados dos Acordos de Alvor, com mais incidência na área militar (682).

Artigo 6° - O Estado Português e os três Movimentos de Libertação formalizam, pelo presente acordo, um cessar-fogo geral, já observado, de facto, pelas respetivas Forças Armadas em todo o território de Angola. A partir desta data, será considerado ilícito qualquer ato de recurso à força, que não seja determinado pelas autoridades competentes com vista a impedir a violência interna ou a agressão externa. 
Artigo 8° -O Estado Português obriga-se a transferir, progressivamente, até ao termo do período transitório, para os órgãos de soberania angolana todos os poderes que detém e exerce em Angola. 
Artigo 32°.- Forças Armadas dos três Movimentos de Libertação serão integradas em paridade com Forças Armadas Portuguesas nas Forças Militares Mistas, em contingentes assim distribuídos:

- 8.000 combatentes da FNLA, 
- 8.000 combatentes do MPLA, 
- 8.000 combatentes da UNITA, 
- 24.000 militares das Forças Armadas Portuguesas.

Artigo 33° - Cabe à Comissão Nacional de Defesa proceder à integração progressiva das Forças Armadas nas Forças Militares Mistas, referidas no artigo anterior, devendo em princípio respeitar o calendário seguinte: 
- De fevereiro a maio inclusive, serão integrados por mês 500
combatentes de cada um dos Movimentos de Libertação e 1.500 militares portugueses; 
- De junho a setembro inclusive, serão integrados por mês 1.500 combatentes de cada um dos Movimentos de Libertação e 4.500 militares portugueses.

No ano anterior, havia sido necessário nomear um oficial para representar O AB 4 nas reuniões gerais do MFA. Embora sem ter manifestado interesse ou apresentado qualquer candidatura, fui escolhido no primeiro escrutínio e, a partir daí, viajava frequentemente para Luanda, no Noratlas, a fim de participar nos conturbados e pouco produtivos encontros, próprios de uma democracia nascente e ainda não sedimentada. 
Foi nesta conformidade que me coube receber, acompanhar e integrar três jovens, representando o MPLA, a FNLA e a UNITA, que se apresentaram no AB 4, no mês de março de 1975. Foram fardados com os nossos uniformes e graduados no posto de tenente. Sem experiência militar, com a arrogância e o atrevimento próprio do desconhecimento das coisas, tudo sabiam, queriam começar a controlar e sobretudo alvitrar. A minha tarefa requeria paciência infinita, em face da sua pouca cultura, da sobranceria de algumas das suas posições, exigências e afirmações, sobretudo, quando avançavam com sentenças obsoletas e primárias do marxismo-leninismo, recentemente aprendidas, mas não compreendidas. 
Mas a maçada não foi muito duradoura, porque as tensões e a confrontação entre os Movimentos levou à desagregação do plano geral de integração e à retirada dos angolanos do AB 4, para se juntarem às suas gentes. 
De facto, pouco tempo após os Acordos de Alvor, os independentistas começaram a digladiar-se por toda a parte, para controlar espaços, pessoas e instituições, em especial em Luanda e arredores (683). O que deu origem a uma competição, para incorporarem nas suas fileiras os desmobilizados das Forças Armadas Portuguesas-FAP (684), que eram recebidos de forma amigável e sem lugar a retaliações (685)
Cangumbe Jul1974. Fernando Castelo
Branco, Diamantino Mafaldo,
Dr. Jonas Savimbi e Luis Faria Costa
Os antagonismos geraram uma guerra civil duradoura, sangrenta e fratricida. Mas, é bem verdade, que quase todos os Estados nasceram de atos da violência e os pais fundadores tiveram de saber lidar com ela.
Infelizmente, os três Movimentos trucidaram-se, os mortos foram inúmeros, muitas infraestruturas físicas, escolas, hospitais e pontes acabaram danificadas ou destruídas, sem grande inquietação, pois tinham aprendido que era preciso destruir para construir, sem entenderem que, necessário era tomar conta do aparelho ideológico, político e administrativo, dominado pelo colonizador. Não haviam assimilado o essencial do dinâmico princípio da creative destruction (687). E, é sabido, que o grande adversário do conhecimento não é a ignorância, mas sim a ilusão do conhecimento (688).
No distrito da Lunda, em particular na cidade de Henrique de Carvalho, os antagonismos começaram a agudizar-se, em maio e junho. Os comandantes do AB 4 (689) e do Batalhão do Exército desdobravam-se em reuniões conjuntas, no sentido de impedirem confrontações e de superarem os incidentes, que iam acontecendo. 
Mas estas manifestações de boa vontade não foram suficientes para travar ódios e rivalidades (690)
Henrique Carvalho 12/6/1975
A confrontação mais violenta e duradoura aconteceu, na tarde de 12 de junho de 1975, véspera de Sto. António. Os combates ocorreram no centro de Henrique de Carvalho, incidindo em especial na zona dos bairros residenciais de oficiais e sargentos da F. Aérea, situados junto ao hospital da cidade. Com o início dos disparos de armas ligeiras e pesadas, as ruas ficaram desertas em segundos. Famílias desencontradas, combatentes a movimentarem-se junto às casas e quintais, inferno sem fim, apocalipse now, situação que perdurou até ao dia seguinte, quando foi possível o cessar-fogo. 
A nossa moradia, só com rés do chão, era geminada e tinha um pequeno jardim e quintal. Ao lado, habitava o tenente Pereira. Umadas suas meninas estava connosco e já não foi possível fazê-la transpor o muro rasteiro, que nos separava. Minha mulher, apanhada pelo violento tiroteio, nem conseguiu apagar o gás do fogão da cozinha, onde preparava o jantar. 
Meti-as num corredor interior, junto à casa de banho, porque era o local mais protegido. Depois de escurecer, sempre sem luz, rastejei para desligar o fogão, pois o cheiro a esturro já se espalhava em redor e recolhi pão, água, fruta e agasalhos. Consegui também alcançar a pistola Walther e as munições que me estavam distribuídas. 
Ao longo das horas continuámos a ouvir os passos, brados, gritos e movimentações dos combatentes, envolvendo as nossas residências, rua e quarteirão. Noite escura e medonha, luta ininterrupta, clarões e estrondos contínuos, tempo de incerteza e apropriado para se fazer um rápido balanço de vida. Como é lógico, as nossas forças militares não poderiam envolver-se em conflito alheio e aguardaram o silêncio das armas para, mais uma vez, tentarem a conciliação. Tarefa impossível, porque, em 13 de junho, após os combates, Henrique Carvalho ficava nas mãos do vencedor MPLA. 
As vítimas eram recolhidas na via pública. Os vitoriosos capturavam os adversários feridos e abatiam-nos. Do AB 4, chegaram o capitão médico Pedro Barreiros, os enfermeiros e os maqueiros, que começaram a recolher os que jaziam junto ao muro da nossa casa, paredes meias com o hospital. 
Foi-me pedida ajuda e colaborei na remoção de corpos ensanguentados, colocados em macas, que depois seguiram para a nossa enfermaria. 
Efeitos dos confrontos entre os Movimentos
Alguns dos edifícios envolventes da minha habitação estavam danificados e crivados de projéteis, mas o mais atingido tinha sido o hospital, com vidros, janelas e algumas paredes danificadas. O burlesco aconteceu com um camarada que vivia perto de nós. Quando acabou o tiroteio e foi avaliar os danos, verificou que o armário roupeiro havia sido atingido por rajadas de metralha e o vestuário ficara esburacado. 
Mas, apesar de tudo, os eventos descritos não eram comparáveis aos intensos ataques aos aquartelamentos portugueses da Guiné, atrás referidos.

CONTINUA

Nota dos Editores: o nosso reconhecido agradecimento ao Sr. Major-General ADMAER da FAP Manuel de Campos Almeida, por nos ter permitido publicar este excerto da sua obra.






Adendas:

678 - Ver Acácio Barradas, Agostinho Neto, Uma vida sem tréguas, 1922-1979, Lisboa-Luanda 2005. No 30° aniversário da independência de Angola. Biografia do Presidente António Agostinho Neto (1922-1979), completado por testemunhos inéditos de familiares e amigos. 
679 - Angola considera esta data como o início da luta armada, passando a ser feriado nacional. Foi ainda designado com este nome o aeroporto internacional da capital e a bela avenida marginal. 
681 - AHFA. Comando da 2." Região Aérea. Relatórios do Comando de 1975 
682 - In Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra. 
683 - A FNLA e a UNITA lançaram suspeitas sobre a governação portuguesa, pois não estaria a ser imparcial, apoiando o MPLA na sua corrida pelo poder em Angola, nomeadamente através da entrega de armas. Embora, desde os primeiros incidentes em Luanda, tenha declarado a sua neutralidade, a nossa administração não terá deixado de privilegiar o apoio a Agostinho Neto, que apresentava um programa político mais próximo daquele que se vivia em Lisboa, em pleno PREC, no chamado verão quente. Entretanto, os Acordos de Alvor foram suspensos em ago1975 (Decreto-Lei n.° 458-A/75 de 22ago). 
684 - Aos combatentes naturais de Angola, que pertenciam aos quadros permanentes das FAP, foi dada a possibilidade de continuarem nas fileiras, de acordo com o estatuído na legislação portuguesa, inclusive o direito de passagem à reserva ou à reforma. Já os do SMO e das Tropas Especiais e Flechas (criados em 1966), foram desmobilizados e receberam indemnizações do Estado Português, tendo muitos deles passado, posteriormente, a integrar as forças dos 3 Movimentos, em especial do MPLA. 
685 - Porque, ao contrário do PAIGC e FRELIMO, os 3 movimentos de Angola tinham estruturas militares menos robustas e organizadas. Por isso, entraram em competição para incorporar os desmobilizados. 
687 - Reduzir ou alterar a orgânica de instituições ou empresas, por forma a aumentar a sua eficiência e dinamismo. Na sua ingenuidade, apenas anteviam um futuro glorioso e de facilidades. 
688 - The greatest enemy of knowledge is not ignorance: it is the illusion of knowledge. Stephen Hawking, físico britânico (1942-2018). 
689 - Major piloto aviador João Carlos Oliveira, que enfrentou as dificuldades com coragem e determinação. 
690 - O processo de descolonização de Angola tornou-se o mais difícil de todos. Os 3 Movimentos entraram em confrontação e, em março de 1975, já estilhaçados os Acordos de Alvor, passou-se a uma fase de internacionalização do conflito, com interferências da África do Sul, EUA, URSS, Cuba e Zaire.




quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

O PRIMEIRO C47 EM PORTUGAL


Em Julho de 1944 um Douglas C47 Skytrain (versão militar do Douglas DC3 Dakota) da United States Army Air Force, USAAF, aterrou de emergência perto de Sagres. Tripulantes foram encaminhados para as Caldas da Rainha para serem mais tarde repatriados. O avião foi internado e entregue à Aeronáutica Militar. Depois da II Guerra foi convertido na versão civil e entregue ao SAC, Secretariado da Aeronáutica Civil, dirigido por Humberto Delgado.
Em 1945 foi entregue à TAP com a matrícula CS-TDA, tornando-se no primeiro avião da companhia.
Após 13 anos de bons serviços passou a voar para a DETA de Moçambique. Aí recebeu a matrícula CR-AGB e o nome "Gorongosa"
Em 1971 foi integrado na Força Aérea Portuguesa com o nº 6175 e passou a efectuar operações de transporte naquela Província Ultramarina.

Tudo acabou a 6 de Maio de 1974 quando transportava um grupo de Adidos Militares na região de Mueda. Um míssil terra-ar Strella acertou num dos motores e perfurou uma asa. Pilotos conseguiram aterrar de emergência num aeródromo de recurso e todos os ocupantes escaparam sem problemas de maior.
O Coronel Engenheiro Aeronáutico José Paulo Marques Pereira, autor das fotos, esteve no local e deu o aparelho como abatido ao efectivo. Não havia recuperação possível.
Acabou transformado em parque infantil.
Por: Comt. José Correia Guedes

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

MEMÓRIA NA BA 4 - MILITAR SALVOU 306 PESSOAS NUM AVIÃO MAS FAP "ESCONDEU" FEITO.


José Ramos fez planar uma aeronave canadiana sem combustível durante meia hora sobre o Atlântico, há 20 anos. As autoridades não assumiram o ato por se tratar de um avião comercial. A companhia deixou louvor, mas o controlador podia ter sido preso.
Há 20 anos, um controlador aéreo militar da BA 4, nas Lajes, na ilha Terceira, salvou 306 pessoas que vinham a bordo de um Airbus A330, da Air Transat do Canadá, ao “fazer” planar a aeronave que ficou sem combustível sobre o Atlântico e, consequentemente, sem motores.
Foi o voo planado mais longo da história da aviação comercial, que durou cerca de meia hora, percorrendo 120 quilómetros.
José Ramos, então 1º. Sargento da FAP, agora com 60 anos e reformado, recordou ao JN aquele 21 de Agosto de 2001.
O voo Air Transat 236 procedia de Toronto e tinha como destino Lisboa, mas a dada altura ficou sem combustível para chegar ao aeroporto da Portela. Ao piloto, Robert Piché, a primeira ideia que ocorreu foi amarar no meio do Atlântico, com consequências imprevisíveis para os 306 ocupantes do avião da companhia canadiana.
O A330 estava a ser controlado pela Base de Santa Maria, nos Açores, mas como não têm radar, passaram a informação às Lajes e é aí que entra o controlador José Ramos.

“Ao receber a mensagem, percebi que era uma situação complicadíssima, começando por uma série de coisas ilegais que viria a fazer”, recorda o militar natural da Lourinhã. “Assumi o controlo de uma aeronave civil num espaço aéreo que não era da minha responsabilidade. Depois perdi o contacto com a aeronave e não informei o piloto”, recorda. “Pensei e decidi: vou arriscar, se correr mal, o que me acontece é ir preso”, lembra.

José Ramos salienta que a aeronave ainda tinha algum combustível, “mas não dava para chegar a lado nenhum”.
Depois de fazer contas percebeu que o A330 podia chegar às Lajes, mas “um erro de um milha podia fazer com que o avião caísse em cima da Praia da Vitória”.
Por fim, o Airbus A330 aterrou sem causar vítimas, mas com vários danos materiais.


Nota: Compilação, arranjo e resumo de texto feito por Vítor Oliveira
Jornal de Notícias, 06/01/2022, tema de Teixeira Correia

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

LEMBRAR MOÇAMBIQUE - AQUELE PLANALTO DOS MACONDES !



21/08/71
ZONA DOS PAUS-MUÉDA
Faz 50 anos
"Quando voando em missão de logística, ao sermos alvejados sentindo o violento impacto da metralha perfurando o Helicóptero, sem hipótese de resposta.
Só nos restava tentar escapar, a sensação era terrível, muitos a experimentaram"
Emoções vividas com a intensidade e irreverência dos nossos vinte anos nessa guerra que continua presente e nos vai acompanhar para sempre. Escrever sobre esse tempo é também exorcizar maus momentos que nos ficaram gravados na pele e na memória, e hoje fazem parte dos nossos sonhos e pesadelos, que nos deixam saudade de uma camaradagem e amizade sã e fraterna, e nos atormentam pela perda de tantos de uma forma tão brutal.
Fui Especialista da Força Aérea Portuguesa, Mecânico de Helicópteros ALOUETTE III, essa máquina voadora tão operacional a quem tantos devem a vida.
Procurei cumprir com eficiência e espírito solidário a minha missão.
Pretendo sómente com a minha modesta escrita, dar um contributo para que não caia no esquecimento o sacrifício de uma geração nos melhores anos da juventude.
As agruras passadas não foram iguais para todos, mais para uns do que outros, mas aos nossos irmãos que viviam a angústia constante entre a vida e a morte nas picadas e nas matas, era com a máxima entrega e por vezes no limite que cumpríamos a nossa missão para os ajudar.
Ao relatar-vos momentos e factos ocorridos naquela terra e vividos coletivamente, faço-o sem a pretensão de protagonismo ou vestir-me de falsos heroísmos, pois sempre confessei que tive medo, por vezes muito medo.
No entanto, nobres valores como a solidariedade nos transmitiam coragem para vencer temores e adversidades respeitando sempre um dever de soldado: NINGUÉM É DEIXADO PARA TRÁS.
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Ao pronunciar-mos o nome de Muéda no contexto operacional e territorial em Moçambique, sentimos logo o impacto emocional que essa terra da guerra nos transmite, e o mesmo é falar da zona dos paus, o local no Planalto dos Macondes onde qualquer missão era sempre de enorme risco .
Este território situa-se no Distrito de Cabo Delgado, onde havia uma maior concentração de bases e número de guerrilheiros da Frelimo, povoado pela Etnia Maconde, gente referenciada como inteligente e aguerrida, com uma particularidade; as tatuagens em relevo por todo o corpo dando-lhes um ar de respeito e de alguma agressividade.
ZONA DOS PAUS, era assim conhecida porque toda a área abrangida se distinguia principalmente de uma visão aérea com muitos milhares de árvores secas sem ramagem, sobressaindo no topo da floresta densa e verdejante, que quando ao sobrevoá-la se descortinavam imensos trilhos e palhotas denunciando uma atividade fremente de guerrilheiros na zona, tornando-a num local sinistro e temeroso, sendo os voos e missões aí efetuados extremamente enervantes.
Através deste território e por esta zona, em 1971 foi aberta uma picada ligando Nangade a Muéda.
A meio do trajeto estabeleceu -se um destacamento permanente com um grupo de homens pertencentes a Nangade, comandados por um Tenente que se bem me lembro de seu nome Camêlo.
A designação dada a este local era Nova Beira ou (Litinguinhas).
Em minha consciência tenho que dizer; de tudo o que vi, este destacamento ultrapassou todos os limites no respeitante a condições minimamente dignas para um ser humano e de risco elevado para suas vidas.
Em campo aberto numa clareira na mata sem instalações a nível do solo, vivendo em abrigos no chão como toupeiras sob o flagelo constante por parte da Frelimo, era de arrepiar !
Bravos soldados ! para estes homens a morte não era uma via para chegarem ao inferno, pois eles já o experimentavam em vida ali naquele buraco aberto no coração da selva Africana.
Fazíamos regularmente o reabastecimento àquele local, sendo a primeira leva na ida, Muéda-Nova Beira-Nangade, e no regresso a segunda leva.
Ali demorávamos o menor tempo possível, era aterrar, e sem parar o rotor em poucos minutos estávamos de novo no ar (o local tinha bicho), até doía ver como aqueles camaradas ali sobreviviam.
Para eles a fugaz visita do Helicóptero era um momento de alento que depressa se esfumava com a nossa partida.
O inimigo habituou-se á rotina destes reabastecimentos e sabendo que depois da ida havia o regresso, preparou a estratégia para quando as condições fossem propícias levar a cabo o que veio a acontecer.
-faz 50 anos -
21/Agosto/1971
ALOUETTE III 9369
Piloto -Furriel Cardoso (NIPON)
Mecânico -1° Cabo Serrano.

Pela manhã, e com o Planalto coberto por um manto de cacimbo, o que tornava as operações de voo um tanto perigosas, descolámos de Muéda e prosseguimos em voo rasante seguindo a picada sempre por sobre um dos lados, cruzando-a por vezes para evitar alguns desvios que prejudicassem a linha de voo.
Voo vertiginoso e estonteante, dando-nos a noção da velocidade ao quase tocarmos a ramagem das árvores, obrigando-nos ao máximo de atenção sabendo que a qualquer momento podíamos sobrevoar o inimigo que teria pouca margem de reacção, mas fazendo-nos sentir toda a adrenalina do perigo iminente.
Devido ao dia que se apresentava com pouca visibilidade e teto muito baixo, esta era a forma mais segura de voarmos sem sermos alvejados, sendo a picada a melhor referência para assim chegarmos ao objetivo sem apoio de instrumentos.
Na ida correu tudo bem, no regresso e trazendo connosco cinco camaradas vindos de Nangade, depois de descolarmos da Nova Beira para o trajeto final com destino a Muéda, e com menos de um minuto de voo, o que sempre esperávamos e temíamos aconteceu, fomos emboscados !
Ainda voando por sobre o centro da picada pois deixáramos a alguns segundos e a pouquíssima distância a Nova Beira, como um relâmpago sai dos dois lados na mata uma arrepiante saraivada de disparos de rockets e rajadas de kalashnikov formando uma barragem de fogo impossível de evitar.
Os impactos das balas perfurando o Heli foi aterrador, mas passámos sem que nenhum rocket nos atingisse ou seriamos abatidos.
Imediatamente após o efeito surpresa o Nipon guina o Helicóptero para a esquerda saindo de cima da picada, e invertendo o rumo de volta á Nova Beira, e grita-me: Serrano vê as minhas pernas, algo me bateu, devo ter sido atingido.
De pronto certifico-me e respondo: continua não foste ferido tudo ok.
Sob uma enorme tensão entramos num vertiginoso voo de loucos de uma destreza e perícia de pilotagem irrepreensíveis, rapando a copa das árvores e voando mesmo por baixo delas numa autêntica gincana aérea, fugindo ao fogo inimigo tentando encontrar abrigo onde tínhamos descolado.
Entre os sete que vínhamos a bordo o ambiente era de grande nervosismo e agitação, olhando-nos, vendo se todos estávamos bem e ansiosos por chegarmos a lugar seguro perante uma possível queda do Helicóptero, foram segundos que nos pareceram uma eternidade.
Lá conseguimos! E em emergência aterrámos de novo na Nova Beira, o pessoal estava já formando um grupo para nos procurar pois ouviram a emboscada e perderam o som da turbina do Heli o que os levou a pensar o pior.
De imediato e sem nos apercebermos começaram a bater a zona com fogo de morteiros fazendo tremer tudo num barulho ensurdecedor confundindo-nos como se continuássemos a ser atacados.
Estabelecemos contacto com Muéda a pedir proteção, veio um T-6 e o Heli-canhão, vimos as possibilidades que tínhamos de trazer o Heli a voar fazendo uma inspeção dentro dos condicionamentos do momento e local.
E após uma varridela da zona circundante ao destacamento, com algumas rajadas e lançamento de rockets do T-6 e disparos do Heli canhão, descolámos sem trazer os cinco camaradas que seriam mais tarde recolhidos.
Sempre com a proteção das duas aeronaves uma a cada asa lá chegámos ao A.M.-51.
Já na rolagem para estacionar na placa apercebemo-nos que não tínhamos travão de estacionamento, o que originou um pequeno incidente; devido á inclinação do solo não parámos, continuámos a rolar batendo noutro Helicóptero partindo apenas um vidro da porta.
Depois de uma inspeção mais rigorosa deu-se o Heli como inoperativo pois tinha a estrutura furada, catorze tiros atingiram o ZINGARELHO, um milagre como todos saímos ilesos.
Que resistência impressionante desta inesquecível máquina voadora! Se acaso temos trazido os outros cinco camaradas, devido ao peso, a estrutura enfraquecida cederia e caímos de certeza, provavelmente não sobreviveríamos.
Eram os riscos constantes do pessoal dos Helicópteros os ÍNDIOS, e também dos de outras aeronaves a operarem naquelas zonas .
O final de cada missão era como uma etapa ganha no longo e arriscado percurso no cumprimento de grande parte dos dois anos de comissão naquele teatro de guerra.
Claro que nessa noite foi bar aberto, a despesa coube aos contemplados por terem saído ilesos de mais uma aventura, um ritual sempre vivido nestas circunstâncias quando alguma aeronave era atingida por fogo inimigo.
Nem todos foram bafejados pela sorte, para tantos outros milhares de camaradas (Exército, Força Aérea, Marinha) ela foi madrasta, e ali em plena juventude no cumprimento do dever ao serviço da Pátria, chegaram ao fim da estrada perdendo a vida, e ficando muitos estropiados para o resto dos seus dias.
A guerra com todo o seu rol de atrocidades destruição e morte, marcou-nos profundamente.
A dor pela perda de tantos camaradas e irmãos é incurável.
É impossível esquecer !
Para todos eles o meu RESPEITO e pesar.
Francisco Serrano Mecânico de Helicópteros
Moçambique 71/72




quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

O PRIMEIRO AVIÃO DA TAP



Em 17 de Junho de 1944 um C47-A s/n 42-100930 da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos, USAAF, ficou sem combustível quando voava perto da costa algarvia. O piloto conseguiu aterrar num terreno perto de Sagres sem causar danos de maior ao aparelho.
De acordo com o estatuto de neutralidade do Estado Português durante a II Guerra Mundial o avião foi imediatamente "internado" e a tripulação repatriada.
Recebeu a designação D2 da Aeronáutica Militar e por lá se manteve até que em 1945 foi convertido em versão comercial e entregue à TAP com a matrícula CS-TDA.
Em 1958 passou a integrar a frota da DETA de Moçambique com a designação CR-AGD.
Reconvertido para transporte militar em 1971, regressou à Força Aérea Portuguesa com o número 6175 e prestou serviço em Moçambique até que em 6/5/1974 foi abatido por um míssil Strella em Nacatari - Vila Cabral. Com um motor a arder e danos numa das asas os pilotos conseguiram aterrar o avião sem causar vítimas entre a tripulação.
Depois da independência foi usado como parque de diversões para crianças moçambicanas.
Uma pena não ter regressado a Portugal mesmo parcialmente destruído. Bem merecia ser recuperado de forma a que lhe fosse devolvida a dignidade de ter sido o primeiro de uma longa história. Artigo de "O Aviador", Comt. José Correia Guedes

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

ATERRAGEM DE EMERGÊNCIA EM SACASSANGE




Instantes da vida real, no Luso.
No regresso de um destacamento com destino ao Ar Luso, um avião T6 pilotado pelo então capitão Salema, detectou uma avaria e constatou que não tinha autonomia nem possibilidade de chegar à Base.
Por tal motivo foi obrigado a efectuar uma aterragem de emergência na estrada de Sacassange/Luso.
Da manobra resultou um ferido, um habitante local que circulava na berma da via com uma pequena carroça. Acidentalmente foi atingido na cabeça pela ponta da asa do avião. Foi transportado para o hospital do Luso onde ficou internado durante vários dias.
Foi aberto um inquérito ao acidente, sendo nomeado o capitão Reis como oficial de diligências. No âmbito das mesmas eu transportei e acompanhei o capitão Reis ao aldeamento do acidentado a fim de contactar com a família do mesmo. O acolhimento foi bastante hostil, valeu-nos o acompanhamento do Soba da sanzala que com a sua presença e a compreensão do sucedido acalmou os ânimos mais exaltados.

Voltamos lá uns dias depois já com o sinistrado junto dos familiares, fomos desta vez recebidos de forma mais efusiva. A minha participação no processo terminaria aí.
Constou-se, que teria sido dada uma indemnização ao acidentado e família, e tudo teria acabado em bem.

Por: Antonio Pereira