quinta-feira, 5 de agosto de 2021

A BIZARRA HISTÓRIA DO SUPER CONSTELLATION CS-TLA


Em Julho de 1955 a TAP recebia na fábrica da Lockheed em Burbank, California, o seu primeiro avião "a sério". Até então a companhia portuguesa só tinha usado aviões em terceira ou quarta "mão" provenientes dos excedentes de guerra. Aviões honrados, os DC3 e Skymaster, mas a pedirem reforma mesmo antes de entrarem ao serviço da companhia portuguesa.
Desta vez tudo seria diferente. Tratava-se de receber um novíssimo Lockheed L1049G Super Constellation, avião de médio e longo curso a que foi dada a matrícula CS-TLA. Seria o primeiro de seis aparelhos deste tipo que voaram para a TAP.
O "Connie", como carinhosamente era conhecido, estava equipado com quatro motores Wright Cyclone 972 TC18 DA3, com 18 cilindros e hélices de três pás, cada um deles capaz de debitar 3250 cavalos em regime de descolagem. Estes motores estavam tão "esticados" que por vezes davam problemas; havia até quem dissesse que o "Super" era o mais belo trimotor do mundo. Seriam as más línguas do costume (com algum fundamento, diga-se) mas a verdade é que era mesmo um belo avião, estética e tecnicamente falando. Não falo por experiência própria (mal tinha nascido) mas pela voz daqueles que o voaram.
Terminado o seu valioso serviço em 1967, o belo TLA foi vendido ao governo do Biafra, um estado da Nigéria que se separou do resto do país e passou por uma breve mas muito conturbada existência. O avião ficou baseado em São Tomé e participou activamente na "ponte aérea" destinada a apoiar as centenas de milhar de biafrenses que se viram cercados e sem recursos alimentares com o decorrer da guerra.

Aos comandos do "Connie" ia um português, Artur Alves Pereira, que mais tarde integraria também a mini Força Aérea do Biafra, um pequeno grupo de aviões de treino Harvard T6 "Texan" que desempenhavam missões de ataque ao solo com algum sucesso.
Terminada a guerra Artur Pereira entrou para a TAP e o velho "Connie" acabou por aparecer no aeroporto de Faro onde ficou estacionado e esquecido durante anos.


Até que um dia alguém se lembrou de lhe retirar o que restava de dignidade e o transformou em restaurante. Vá lá. Se tivesse sido em Bar de alterne, como aconteceu a outros, teria sido bem pior.


Como estas histórias têm sempre um final trágico, um dia surgiram uns quantos rufiões muito zangados - provavelmente clientes a quem foi servido marisco fora do prazo - e pegaram fogo àquilo tudo. Não se aproveitou nada.
Uma pena. Assim se perdeu um dos mais belos aviões que alguma vez ostentaram a bandeira portuguesa.

Artigo de "O Aviador", Comt. José Correia Guedes


quinta-feira, 29 de julho de 2021

EVACUAÇÃO, LUGAR PARA MAIS UM !


Esta é mais do nosso dia a dia em Gago Coutinho.
Seria pelo ano de 1973 mas também não é muito importante, era mais uma das muitas evacuações para um qualquer aquartelamento do Exército naquele fim de mundo.
Sabíamos que era grave visto sair DO e Heli.
Chegados ao destino o Heli segue para a zona do ataque e nós ficamos a aguardar, sabíamos que havia no mínimo 7 feridos graves.
Enquanto esperávamos e como era meio dia fomos á cozinha a ver se nos davam algo para comer, lembro-me, que ia um pandemónio por todo o lado só se via pessoal a chorar era tudo pessoal novo (maçarico) com um mês de Leste e por isso foram ao mato carregar material para compor o aquartelamento. Só que eles, sem experiência, foram lá quase desarmados e já se está a ver no que resultou. Chegados á cozinha eu e o piloto, não digo quem é pois ele não gosta de ser nomeado, há coisas que não se esquecem o "tacho" era jardineira, o cozinheiro até nos disse, não sei como conseguem comer com esta desgraça, nós nem respondemos, para quê era o nosso dia a dia, vamos comer que daqui ao Luso vamos chegar tarde.
Entretanto chega o Heli com os primeiros feridos, só visto, o enfermeiro em choque, nós a ajudar a fazer os curativos com lençóis rasgados, enfim fizemos o que pudemos e toca a meter a primeira maca, segue-se a segunda, pendurada com cordas nas longarinas, há que improvisar, a segunda maca pronta se arreia o de baixo não se safa! Estava a fechar a porta e olho para o terceiro, ele não dizia nada mas os olhos diziam tudo, levem-me, eu olhei para o piloto que adivinhou o que ia dizer, e diz-me: tás maluco onde queres meter o gajo?! Eu só disse: descola com os três!

Ele mediu a pista com os olhos e diz: ou descolamos ou fodemo-nos os cinco! Digo para o 3º. ferido: oh pá tens que ir sentado no bordo da janela até ao Luso. Coitado, ele queria era sair dali, e eu ainda lhe disse não mexas em nada, se destrancas a porta vais parar lá em baixo.
Avião pronto a descolar aproveitamento da pista ao máximo e fomos para o ar, foi uma viagem horrível, pelo estado dos feridos a quem pouco ou nada podíamos ajudar senão procurar chegar ao Luso o mais rápidamente possível.


Mas chegados ao Luso, entregues os feridos aos cuidados do pessoal médico findou o nosso dia, arriscamos contra todas as regras de segurança, mas "sacamos" mais um ou pelo menos fizemos o possível, arriscámos e ganhámos.
Enfim era o nosso trabalho, só espero que esses camaradas se tenham safado.

Por: Fausto Tomaz - MMA DO e T6


quinta-feira, 22 de julho de 2021

MEMÓRIAS DE ANGOLA - 1973 O ANO EM QUE FUI AO ESTRANGEIRO SEM PASSAPORTE

BA9 - Luanda


Como furriel miliciano MAEQ, com uma sub especialidade em Fotografia Aérea, primeiro curso de sempre na FAP, estava baseado no Comando da Região Aérea 2, Luanda.
O meu trabalho incluía operar a máquina fotográfica WILDE que se montava na barriga do PV2, adaptado para isto. A máquina usava um filme de grandes dimensões, fazendo fotogramas de 23 cm x 23cm. De série, os PV2 transportavam bombas neste compartimento, chamado de “bomb bay”. Eram bombas de 50 kg em série que, como cabo especialista no Luso tantas vezes tinha carregado.
Certo dia, o capitão pilav. que comandava a secção de fotografia aérea, de cujo nome infelizmente já não recordo, informou-nos que iríamos fazer uma missão especial de fotografia, mas que incluía um certo secretismo, vital para o sucesso da operação.
PV2 com pintura anti-radiação

Foi preparado o PV2 com uma tinta antimíssil pois haveria o risco de sermos alvejados. Na véspera da missão fui informado que iríamos fazer duas passagens sobre uma cidade no Congo, Ponta Negra. A primeira passagem seria para alinhar a câmara sobre a área alvo e a segunda para tirar as fotos. Uma vez atravessada a fronteira, qualquer intercomunicação entre mim, o cabo especialista Goulão o Comandante, e o Navegador deveria ser feita em francês! Isto prometia...
Pela madrugada, fomos recolhidos das nossas residências pelo motorista da carrinha de transporte e, como tantas das outras vezes, levados à BA9, ao lado do aeroporto de Luanda.
Em vez de branco e prateado, a nossa aeronave tinha agora uma cor cinzento esverdeada, baça. Então esta era a tal tinta especial que nos iria proteger dos possíveis mísseis do Congo Brazzaville! Boa sorte, pensamos nós.
Os pilotos, o nosso capitão e um navegador, dirigiram-se para a sala de operações para prepararem o plano de voo e alguns minutos depois lá entramos para o aparelho. Não levávamos connosco qualquer identificação. Tão cedo e já se apercebia mais um dia quente.
AM95 - Cabinda


A nossa viagem prosseguiu em direcção a Cabinda, AM 95, que seria o nosso destino para esse dia. Como sempre, nunca me cansava de olhar para a paisagem lá em baixo, ora savana, ora arvoredo denso, recortada pelo serpenteado dos rios, brilhando como espelhos sob o sol escaldante. A contrastar com o calor lá em baixo, fazia fresco dentro, e como era hábito, trouxera agasalho suficiente. Enquanto piloto e navegador se ocupavam com o seu trabalho, tanto eu como o Goulão passávamos pelas brasas ou olhávamos lá para baixo, vendo o terreno lentamente a passar. Como se sabe, o ruído no interior não permitia qualquer conversa extensa, limitando-nos a berrar se precisássemos de o fazer. O intercomunicador estava ligado ao comandante e co-piloto.
Ao fim de umas horas, vislumbramos sinais de uma povoação e um rio, e soubemos que tínhamos chegado a Cabinda.
Tinha chovido e havia no ar um cheiro refrescante e húmido.
Depois de tudo arranjado, incluído refeição e alojamento, um passeio pela cidadeumas cervejas no bar e cama. Amanhã seria o dia...
Partimos cedo, depois de um pequeno-almoço reconfortante e, alguns minutos depois da descolagem, vejo pela escotilha um avião da FAP, um B26 a voar em paralelo, não muito distante. O comandante informou-nos que era o capitão Canto e Castro que ira escoltar-nos até à fronteira. A partir dali, estávamos por nossa conta!
B26


Quando chegámos ao ponto combinado, o B26 abanou as asas umas quantas vezes como que em despedida e a desejar-nos boa sorte, e lá atravessámos o rio para terras desconhecidas e proibidas. No momento da travessia, todas as comunicações foram cortadas e a nossa missão seria de comunicar prontamente se víssemos algum ponto luminoso a deslocar-se para nós. O comandante teria poucos segundos para fazer uma manobra de diversão e sair da trajectória de algum míssil. Isto se o míssil não fosse daqueles tão sofisticados que seguem o seu alvo, mesmo com desvios. Sendo realista, que hipóteses poderíamos ter de fugir a um projéctil num avião tão pesado e quase obsoleto, dos tempos da segunda guerra mundial? Nossa Senhora...
Na realidade, chegamos à cidade, o nosso alvo, pouco tempo depois. Como planeado, o piloto apontou à trajectória, seguindo uma artéria principal da cidade e, depois de passarmos os limites da cidade, fizemos uma manobra de 180 graus, ligamos a câmara e toca a disparar. Agora era a nossa única “chance”.
Tirando fotos com a Wilde,
a bordo do PV2

Enquanto um olhava para o visor da câmara e informava o comandante para fazer as devidas correcções de deriva com, “gauche”, “droite” o outro mantinha os olhos bem abertos para os potenciais mísseis. Mísseis esses que nunca chegaram, felizmente. Ainda não muito descansados, e com a adrenalina no máximo, atravessámos novamente o rio, que marcava a fronteira, e fizemo-nos directamente a Luanda. Os espíritos estavam altos e todos nos congratulámos com o bom sucesso da missão. Missão cumprida!


Por: Álvaro Santos Sá 



quinta-feira, 15 de julho de 2021

ENFERMEIRAS PARAQUEDISTAS, UM QUADRO QUE SE EXTINGUIU

BA3 Tancos - 1961 - Do 1º. curso de enfermeiras, Céu Vidigal, Ivone Reis, Lurdes Rodrigues, Zulmira André, Arminda Pereira e o director do curso capitão Fausto Marques.


Foram 47 as enfermeiras para-quedistas que passaram e prestaram serviço no quadro que foi da Força Aérea.
A todas, para que não sejam esquecidas a minha simples e singela homenagem.
De referir apenas que algumas enfermeiras se inspiraram naquela que foi a piloto e para-quedista Isabel Rhilvas.
Refiro ainda que o primeiro curso foi apelidado de "seis Marias". (Vitor Sotero Cavaleiro)
.............
Quando a enfermeira Rosa Serra escreveu um livro sobre as enfermeiras paraquedistas, e a seu pedido, enviei-lhe um testemunho, passado com a Enfermeira Gisela, que não chegou a ser publicado, por opção da editora, e que passo a reproduzir:
Queridas companheiras de tempos de dor mas também de alegrias, relato dois episódios que me marcaram muito e que foram vividos com a presença de uma de vós.
A primeira foi quando da minha primeira saída para uma evacuação.
Aterrámos, saltei com a maca na mão e de imediato me colocaram nela um homem com o ventre todo aberto e a esvair-se em sangue. Colocado no heli a enfermeira começa de imediato a procurar-lhe veias e a injectá-lo, tentando aliviar-lhe as dores e mantê-lo vivo até ao Hospital. Eu via tudo aquilo desenrolar-se perante os meus olhos incrédulos para tanto horror e estupefacção perante a calma, aparentemente serena, com que ela acertava nas veias, apesar da vibração do heli e das convulsões que o ferido exibia.
A determinado momento, o ferido com um rosto que nunca esquecerei, pálido, olhos semicerrados e revirados para cima, aperta na mão uma medalha, que trazia pendurada num fio ao pescoço, com uma foto esmaltada de uma mulher e uma criança, e beija-a dizendo: “ adeus minhas queridas que nunca mais vos vejo”.
Impotente perante a situação curvo-me e toco-lhe no peito dizendo-lhe: “não digas isso que estamos mesmo a chegar ao hospital”. Ele põe a medalha na boca, morde-a e, com as duas mãos agarra-me no pulso, revira os olhos e tomba a cabeça para o lado.
Os últimos minutos, até aterrar no hospital, foram feitos com aquelas mãos fortemente cerradas no meu pulso, eu chorando compulsivamente, e a enfermeira dando conta que todo o seu esforço e luta para roubar aquele homem das garras da morte tinham sido em vão.
Apesar do desfecho infeliz, que certamente a não deixou dormir tranquila naquela noite, tal como a mim, nos dias seguintes lá estava ela a lutar novamente, com toda a sua determinação, para que uma vida fosse salva e fizesse valer a pena todo o esforço e determinação empreendidos.


A segunda foi numa operação com comandos africanos em Teixeira Pinto.
Transportámos as tropas até uma área determinada no mato e regressámos ao aquartelamento aguardando ordens para mais tarde, após o seu confronto com o inimigo, recolher os elementos transportados.
Estávamos a meio da operação quando recebemos ordens para levantar voo e evacuar um nosso elemento que estaria ferido.
Dirigimo-nos ao local e ao aterrar, quando me preparo para saltar com a maca, vejo um comando africano, alto e esguio no seu camuflado, dirigir-se, pelo seu próprio pé, ao heli, com a sua arma numa mão e um saco de pano na outra, e com aspecto de estar em transe hipnótico.
Abro a porta do heli e desço para o terreno para lhe abrir a porta lateral traseira, mas ele entra e senta-se no meu lugar, com um ar muito hipnótico e a transpirar desalmadamente, e coloca o saco de pano, tipo daqueles de ir ao pão, com atilho na boca do saco, entre a cadeira onde se sentou e a da enfermeira.
Eu, privado do meu assento, entro para a parte de trás e sento-me nos bancos traseiros, frente à enfermeira.
Durante o voo, ela começa a fazer-me sinal que sente um cheiro forte vindo saco e interroga-me, por gestos, se sei o que será. Faço-lhe sinal que não, e ela olha para o comando que continua em estado de transe com o olhar muito distante, mas sem qualquer ferimento aparente.
Passam-se uns minutos e novamente a enfermeira me faz sinal do mau cheiro que vem do saco, e tenta com dois dedos alargar o atilho do saco, sem que o comando se aperceba. Após insistir mais um pouco logra alargar suficientemente a boca do saco e dissimuladamente curva a cabeça para espreitar o seu interior.
Subitamente ouço um grito abafado da parte dela e vejo o seu ar aterrorizado, o que me faz olhar rapidamente para o saco.
A cena é macabra, dentro do saco está a cabeça do inimigo que o comando tinha morto e que, devido à sua religião, a tinha degolado para que o espírito desse homem não o perseguisse no futuro (ouvi essa explicação já após o entregarmos na enfermaria com febres altíssimas).
Foi um susto que nos apanhou de surpresa e que não esqueci tão cedo. Para a enfermeira não deve ter sido fácil deparar-se com aquela cena, ainda mais que tinha os dedos a milímetros da cabeça decepada.


Espero que estes dois episódios sirvam para que melhor se compreenda o valor e a coragem das mulheres que tanto fizeram para minimizar o sofrimento de quem na guerra lutou.
Com a minha sincera e estimada consideração


Por: Nuno Almeida “poeta”
1º cabo MMA – Guiné Jan/Nov 1972


quinta-feira, 8 de julho de 2021

DOIS SUSTOS SEGUIDOS !



Cangamba, fez-me lembrar um dia que saímos de Gago Coutinho com dois T 6 para dar apoio à tropa em Cangamba, a tripulação era composta pelos pilotos Lima e Pinheiro, infelizmente já falecidos, e eu MMA.
Era manhã, tudo a correr bem, chegados á vertical de Cangamba depois da volta da praxe o Lima e eu entramos na final para aterrar enquanto o Pinheiro se mantém afastado.
De repente ouvimos o Pinheiro aos berros pelo rádio, ó Lima olha o trem! Mas ele concentrado na aterragem não ouvia ninguém. A minha aflição quando me apercebi que íamos aterrar de papo, tarde de mais e foi a papada.
Não sei se algum de vós passou por isto, saímos da pista e paramos numa lavra de milho que havia perto da pista, a urgência era fugir, assim, dar ás pernas, tendo em conta que o avião ia abastecido, e o maior terror erram os dois ninhos de roquetes que iam debaixo das asas.
Depois, só me lembro de me irem buscar ao fim da pista, corri tanto com o paraquedas às costas, nem me lembrei de  o tirar, o que resultou ficar com a barriga das pernas pisadas. Contaram-me depois, que o Lima sabendo que levava o mecânico tinha andado à minha procura, foi quando me encontraram no fim da pista.
A estória podia ter acabado aqui, mas ao outro dia chega nova parelha de T6 com o Capitão Acabado, eu já escaldado, meti-me logo no T6 do Cap. Acabado, e não é que a dez minutos de Sessa o desgraçado do T6 começa a "tossir"?! Porra, safo-me duma e já estou noutra!
Diz o Capitão Acabado, temos Sessa á vista, e eu digo-lhe: a pista é curta.
Bom, Gago Coutinho era já ali, vamos tentar chegar lá.


Pouco a pouco com o saber, experiência e habilidade, ou com a ajuda de mais qualquer coisa, graças a este grande homem chegamos a Gago Coutinho com o motor a dar as últimas.
Na pista estava todo o pessoal á nossa espera. O Sousa com uma garrafa de vinho do Porto que foi escoada de imediato, a aventura correu bem, mas no outro dia já estávamos a voar para outro sítio qualquer, a aventura de ontem estava esquecida.

Por:



quinta-feira, 1 de julho de 2021

O MORTEIRO


Mais um início de tarde escaldante de Verão, na praça principal da Vila nada bolia, era a hora habitual em que a população se resguardava do sol ou dormia uma sesta retemperadora. Na esplanada do Café Central, para além das mesas e cadeiras, o mestre Henriques como era seu hábito, dormitava num equilíbrio instável, abandonado dentro de um gibão preto de grosso surrobeco, só perturbado por algumas escassas moscas que teimavam em disputar o único ser vivo que resistia ao calor da tarde, toda a gente fugira para as sombras acolhedoras do Café Central e da Barbearia do "Xixóia", já me tentara infiltrar em ambos os locais mas tinha sido rapidamente enxotado para não incomodar os raros e destemidos fregueses que naquela hora tinham ousado fazer-se à canícula para sair de casa.
Como nunca fora capaz de dormir a sesta, arrastava-me preguiçosamente pelos bancos junto à praça dos táxis, tentando matar o tempo com alguma coisa de interesse que me ajudasse a aguentar, até que o resto da canalha, viesse novamente para a rua e pudéssemos gozar mais uma tarde de magníficas férias grandes.
Dirigi-me mais uma vez até ao chafariz com o intuito de molhar a cara e matar a sede, quando terminei, reparei curioso que um pardal com uma enorme palha de trigo atravessada no bico teimava em atirar-se contra a sirene do quartel dos bombeiros do outro lado do largo, aquilo era no mínimo muito estranho, desloquei-me rapidamente para fugir ao sol inclemente e aproximei-me da entrada do quartel situado entre o Café Central e a Papelaria Havanesa, passei o largo portão e procurei o melhor ângulo que me permitisse ver tão insólito acontecimento sem que o Sol me encandeasse, aquilo que mais me chamou a atenção foi verificar que a sirene tinha as lâminas semicerradas, mas de alguns dos espaços saíam pedaços de palha de trigo semelhantes à que o pardal transportava, após ter dado voltas ao corpo da sirene com a palha no bico esvoaçando para cima e para baixo, percebeu que não conseguia entrar, abandonou a palha e desapareceu, levando com ele o único motivo de interesse que me trouxera até ali, olhei em volta desanimado reparando no único ser vivo em movimento, o mestre Henriques desistira de brigar com as moscas e dirigia-se amparado na grossa bengala de vime, vagarosamente, para a barbearia do Xixóia, o que me levou de novo ao chafariz para beber mais uns golos de água.
Tudo parecia voltar ao normal, quando subitamente um homem irrompeu pela praça vindo dos lados do campo montado numa bicicleta e gritando a plenos pulmões:  há fogo! há fogo! Acudam que há fogo! saltando da bicicleta em andamento e entrando no quartel a correr, enquanto a bicicleta se estatelava no chão... nem acabei de beber, já tinha a tarde garantida, corri para ver tudo desde o tocar da sirene, a chegada dos bombeiros e a saída dos carros, o 2º Comandante Bogalho não estava presente, mas a esposa Dona Conceição, que vivia com ele no quartel, dirigiu-se rapidamente para o quadro de Comando, enquanto ouvia a descrição atabalhoada do local e do tipo de fogo para poder dar com o toque da sirene a informação aos bombeiros, todos eles voluntários, que viriam já com a certeza do que tinham de enfrentar (fogo na vila ou fora, acidente na vila ou fora, afogamento na Alverca, no Tejo ou fora).
Quando ela accionou a alavanca da sirene corri para fora para ver o arranque e o início do silvo, mas nada aconteceu, voltei para dentro expectante enquanto ela com ar de espanto accionava desesperadamente o manípulo para cima e para baixo e nada acontecia, pelas luzes do quadro era possível verificar que havia electricidade, mas a sirene não arrancava, virando-se para mim gritou, tu que corres mais depressa, vai chamar o Comandante que deve de estar no café Central, para que ele venha cá para resolver a situação... Corri com quantas forças tinha e entrei no café atirando com as cortinas metálicas que impediam as moscas e os pobres de entrar, provocando o olhar reprovador dos clientes presentes e gritei: a sirene não trabalha, dirigindo-me ao Comandante, a dona Conceição mandou-me chamá-lo... 
Ele levantou-se com ar de enfado e virando-se para o empregado de balcão ainda confirmou, ó António! há corrente? Depois da resposta afirmativa deste, dirigiu-se comigo e mais uns quantos atrás para o quartel, a dona Conceição já tinha telefonado ao marido, que estava de serviço no matadouro municipal e este já lhe dissera para ela arranjar alguém que fosse tocar o sino a rebate enquanto a sirene não arrancasse, foi isto mesmo que ela transmitiu ao Comandante mal este chegou ao quartel, depois de também ele tentar dar o arranque da sirene sem que nada acontecesse, mandou alguns dos presentes tocar o sino a rebate, pois era uma das formas de convocar os bombeiros; entretanto o Comandante e os presentes começaram a abrir os portões para a saída das viaturas e a pôr em marcha os motores para que estas arrancassem assim que conseguissem chamar os bombeiros, o primeiro carro a sair seria o enorme camião Ford aberto, de transporte de pessoal e quando este já estava cá fora, chegaram os que tinham ido tocar o sino, dizendo que a igreja estava fechada e que não conseguiam tocar o sino... O comandante virou-se para a dona Conceição e perguntou-lhe se já tinham entregue os morteiros especiais que mandara fazer para a festa de angariação de fundos para comprar material?
Ela benzeu-se e disse-lhe; estão lá dentro! Ele virando-se para um dos presentes disse-lhe: ó Joaquim pega aí nessa escada e encosta-a ali ao muro da parte de dentro que eu já lá vou ter, dirigindo-se para o interior do edifício de onde voltou com um morteiro enorme, com uma cana com mais de dois metros e perto de um quilo de pólvora preta, dirigindo-se aos presentes sentenciou; agora é que vocês vão ver como acordo a vila toda e ponho aqui a corporação num instante; quero toda a gente fora daqui que isto não é nenhuma brincadeira, um bicho destes até arranca um braço a um homem... Eu fugira esbaforido como toda a gente para o outro lado da rua e refugiara-me atrás do tronco mais grosso de um dos plátanos que davam sombra à praça e á esplanada do café.
O Comandante, trepara pela escada, subira ao muro e num gesto teatral, olhou a meia dúzia de basbaques enquanto encostava a cigarrilha, que entretanto acendera, no cu do rastilho do morteiro, gozando com as caras de espanto dos presentes, mais ridículas ainda quando vistas do cimo do muro de onde as contemplava sobranceiramente, as faúlhas começaram a sair do cano do rastilho e o barulho começou a ser cada vez mais assustador, o Comandante já não tinha a cara sobranceira que apresentava quando iniciara o lançamento e parecia que os segundos decorridos se iriam eternizar, mas por mais que ele levantasse e baixasse o foguete como para o incentivar a subir, ele continuava perigosamente sem lhe sair da mão, os presentes começaram a gritar-lhe que o largasse, enquanto o seu rosto se transformara numa máscara de medo, toda a gente já se barricara em tudo o que podia dar alguma protecção e não restou ao assustado Comandante outra solução que a de largar a cana do monstro e olhar horrorizado enquanto ela batia no chão na vertical e o peso descentrado da pólvora obrigava a cana a cair na direcção da rua D. Afonso Henriques, o Comandante na precipitação da fuga desequilibrara-se e caíra de costas para o interior do Quartel, eis senão quando, o morteiro finalmente arrancou, fulminante, qual míssil rasando o chão em direcção á porta poente da barbearia... na cadeira mais distante desta o mestre Henriques, ressonava após lhe terem feito a barba, na outra junto à porta por onde entrara o morteiro, o mestre barbeiro fazia a barba a um outro cliente quando o foguete lhe passou junto ás pernas atravessando a barbearia indo enfiar-se na dispensa onde se guardavam os utensílios usados no ofício, o pó da espuma de barba, os rolos de papel para limpar as navalhas, as toalhas, os perfumes, e os artigos de limpeza...
Aos gritos de fujam, fujam, dos presentes fora da barbearia, todos, mestre barbeiro e clientes fugiram pelas três portas abertas do estabelecimento, todos menos o mestre Henriques, que dormia e lá ficou, com o foguete a incendiar tudo com as faúlhas e na iminência de explodir, do meu local de observação, via parte das pernas, o gibão e uma manga caída de onde saía uma mão e pouco mais, e o pior aconteceu, um estrondo descomunal que estremeceu tudo e todos, estilhaçando os espelhos e vidros das portas, arrancando-as, enquanto uma nuvem de pó branco encobria todo o edifício e parte do largo. Passados segundos de pânico, toda a gente correu para a barbearia esperando o pior, quando do meio da nuvem surgiu um fantasma todo branco cambaleando, aos gritos de: ai que me mataram... ai que me mataram... toda a gente recuou de pavor e estupefacção, no êxtase da situação, gritei em pânico: fujam que é o fantasma do mestre Henriques, arrancando uma gargalhada geral aos presentes... O fogo entretanto já assumira contornos de tomar conta do estabelecimento, quando o Comandante, que entretanto se recompusera gritou para os presentes, vão buscar uma mangueira para apagarmos o fogo!
O bom do mestre Henriques fora arrastado para a esplanada, enquanto um dos empregados do café trazia numa bacia com água um toalha molhada para ele tirar os quilos de pó de barba da cara e mãos, mas era necessário ir com ele ao hospital, pois estava cheio de escoriações provocadas pelos estilhaços da explosão, para além de estar aflito dos tímpanos, e isso só era possível de verificar por algum médico ou enfermeiro. Entretanto começavam a chegar os primeiros bombeiros enquanto se apagava o fogo da barbearia, mas era preciso ir apagar o fogo no campo que originara toda aquela confusão, e por cada um que chegava tínhamos que lhe gritar que o fogo não era aquele, mas sim outro e eles lá iam equipar-se sem perceberem nada do que se passava ali...
Com o lançamento da água, todo o pó de barba derramado ia-se tornando numa onda de espuma que transbordava do interior pelas três portas, formando uma camada escorregadia que já dava pelos joelhos dos que mais perto combatiam o fogo do interior, e a cada novo voluntário que de bicicleta ou a pé correndo se aproximavam do quartel, era necessário gritar-lhes que travassem as bicicletas e o passo, pois ao menor descuido a queda era certa...
Depois de haver o número mínimo de voluntários necessário ao combate dos dois fogos as viaturas lá foram saindo, mas nunca como naquela tarde eu tivera tanto para contar aos meus preguiçosos companheiros de brincadeira...
E afinal porque é que a sirene não tocara? O pardal que eu vira com a palha no bico e a companheira, resolveram fazer o ninho dentro da sirene, mas um golpe de vento, ou o acumular das palhas no interior fizeram cerrar as lamelas bloqueando a entrada e a saída, o desespero do macho era por a fêmea do casal, estar lá dentro provocando a sua morte e a avaria da sirene.
Dias mais tarde, quando fizeram finalmente a festa para angariação de fundos, para compra de material e reconstrução da barbearia, ouve concerto pela banda, música e bailarico, mas foguetes é que não, que para o susto já bastara o que acontecera, mas festa que não metesse “morteiros” não era festa...        

JFMA (ACO)     
Golegã, 15 de Agosto de 1957

sexta-feira, 25 de junho de 2021

A GUERRA - ÓDIO E VINGANÇA


A guerra deixa marcas e traumas para toda a vida.
Hoje ela continua a entrar-nos casa a dentro via TV, mostrando imagens de violência, destruição e morte, recordando-nos tempos passados na juventude tão longe do Mundo em que vivíamos e de onde tantos não mais regressaram.
Ao longo de cinquenta anos pouco ou nada falei e muito menos escrevi sobre testemunhos de alguma intolerância e crueldade, há sempre o receio de melindrar irmãos e camaradas de armas que lado a lado cumprimos o nosso dever perante a Pátria, num conflito que hoje a esta distância nem todos encaramos do mesmo ponto de vista, e fazemos igual balanço, isto com o direito e liberdade de opinião que legalmente nos assiste.
Como soldado ao serviço da Pátria assumo a minha cota parte nessa guerra tanto pessoal como coletivamente, mas há actos desumanos que não cometi nem me sinto responsável e que continuam a pesar-me na consciência.
Não pretendo aqui fazer alguma condenação em particular, pois sabemos que atrocidades foram cometidas pelos dois lados, mas sim repudiar a guerra em si que leva a actos desumanos e tresloucados que posteriormente em tempo de paz faz sentir remorsos a quem os cometeu já sem a possibilidade de ementa e reverter o mal.


No resgate e evacuação dos nossos irmãos do inferno das zonas de combate, feridos, estropiados, tudo fazíamos para os ajudar, muitas vezes sob a angústia e o sentimento de impotência para lhes aliviar o sofrimento, mas jamais senti desejo de vingança ao evacuarmos também prisioneiros feridos precisando de socorro, era uma missão fundamentalmente humanitária desprovida de rancor e ressentimento.
Há momentos e imagens de crueldade que teimam em permanecer na minha memória e não consigo apagar, um pesadelo se repete entre tantos com toda a sua carga arrepiante e de repulsa.
--‐-‐‐-‐------------
Algures em Muéda na placa do AM 51, concentração de grupo de tropas de combate após Heli assalto com limpeza do local e imediata recolha no final da operação.
Não fizeram prisioneiros !
Na sua posse os troféus de guerra, armas e alguns artefactos, instrumentos de caça, uma velha lata de petróleo transformada em viola, galinhas degoladas.
Mas eis que o impensável acontece;
uma mão tira algo do bolso do camuflado, na palma dessa mão duas pequenas orelhitas cor de chocolate tingidas de sangue devido ao corte da cabeça a que pertenciam e por certo de uma criança.
Isto sob o sorriso triunfante de quem exibia como seu troféu esta crueldade e barbárie perante o espanto e horror dos presentes.
Uma câmara de repórter regista a imagem, de imediato chega um superior dando uma reprimenda ao responsável deste acto bárbaro mandando-o apresentar-se de imediato no seu gabinete operacional.
Que sentimento de revolta e agonia perante este quadro atroz, não pode valer tudo na guerra, tem que haver uma réstia de humanismo e compaixão.
Na guerra é facilmente ultrapassada a fronteira entre a tolerância e a crueldade, o ódio povoa sempre os campos de batalha, um sentimento que por vezes leva a atrocidades de ambos os contendedores.
Que me perdoem os camaradas que possam pensar, que ao reavivar feridas pretendo condenar ou cruxificar alguém que arriscou a sua vida no cumprimento do dever como soldado ao serviço da Pátria.
Não! Mas há actos irrefletidos e inqualificáveis que não podem ser branqueados, sob pena de nos tornarmos uns monstros.
Nenhum ser humano tem o direito de tirar a vida a um seu semelhante, mas na guerra e nas zonas de combate havia que matar para não morrer.
No entanto, com um pouco de humanismo no meio de tanta adversidade e rancor também podem acontecer actos de amor e compaixão, e eles existiram no campo de batalha e foram muitos.
A guerra é feia dura e cruel, apenas nos filmes se reveste com alguns contornos de romantismo.
Não há bons e maus combatentes, há apenas aqueles capazes de perante os limites intoleráveis procurarem ser humanos para cumprirem a sua missão.
---------------‐-------
Alguém que muito prezo escreveu :
"HÁ DÉCADAS QUE DEIXEI DE CULTIVAR O ÓDIO, PORQUE APRENDI COM UMA DURA LIÇÃO QUE A VIDA ME IMPÔS; O ÓDIO ACABA ESTUPIDIFICANDO"
Eu também aprendi !
Não sinto ódio por ninguém, e tenho relutância em pronunciar a palavra inimigo.
O QUE TODOS PRECISAMOS É AMOR !
Francisco Serrano -Mecânico de Helicópteros
Moçambique 71/72



quinta-feira, 17 de junho de 2021

VOO NOCTURNO

Cazombo - foto de Gonçalo Carvalho


Pois é o voo noturno era proibido, mas às vezes acontecia.
Um dia, no Cazombo, estava eu de alerta no nosso gabinete da linha, todos na cavaqueira, quando ao final da tarde toca aquela campainha que dava o sinal de aviso para DO ou Héli.
Era estranho àquela hora, mas ordens são ordens, rápidamente o DO fica pronto, chega o piloto neste caso o Patrício, diz ele: vamos embora que se faz tarde!
Olhei para ele e digo: a esta hora já nos f.....!
Descolagem em direção a um qualquer aquartelamento do exército, era relativamente perto.
Chegados ao destino, o evacuado era um soldado ferido grave rapidamente embarcado. Como sabem o dia é curto, o dia a findar as preocupações no regresso a aumentar, ainda disse ao Patrício: é pá não vamos ter tempo!
Mas devido á gravidade do ferido lá descolamos.
Como era de prever a meio do regresso fez-se noite, uma noite escura como breu, íamos calados, lá em baixo na mata viam-se de onde em onde fogueiras, porque "eles" estavam lá.
Continuámos a voar práticamente calados, até que ao longe se começa a ver o clarão das luzes do Luso, respiramos de alívio, alinhamos com o rádio farol, contactamos com a torre do Luso e a aterragem é efectuada sem problemas. 
Na placa esperava-nos todo o pessoal da linha, o chefe Isidro "Meirim" e mais atrás o comandante Sachetti, ele e o  Patrício seguiram para as Operações, eu fiquei a a ajudar os maqueiros e a amarrar o DO.
Moral da estória arriscamos, para salvar um camarada ferido com gravidade, mas voar de noite naquela zona era de cortá-las.
Foi mais uma missão arriscada de entre muitas, felizmente correu bem, talvez o camarada se tenha safado, nós fizemos o que pudemos ainda que infringindo as regras.


Ano 1973, MMA Tomaz

sexta-feira, 11 de junho de 2021

ENFERMEIRO EM S. TOMÉ.



Quando me apresentei ao Comandante Silveira, logo depois de ter aterrado em São Tomé, no Aeródromo de Trânsito nº2 em Agosto de 1972, tentei fazer as apresentações tal como tinha aprendido na escola da Ota, na disciplina de Instrução Militar Teórica (a que nós chamávamos “arre macho sentado” – a instrução militar prática ou ordem unida era “arre macho em pé”- alguém se lembra?).
- Apresenta-se o primeiro cabo MM….
- Ó Carlos Gato, deixe lá as formalidades e diga-me o que é que fez na base do Montijo.
- Trabalhei na electricidade e instrumentos do P2V5 durante um ano e depois cerca de sete meses nos motores e hélices do mesmo avião.
- E antes da tropa o que é que fez?
- Era estudante e andei nos escuteiros.
- E o que aprendeu nos escuteiros que possa ser útil?
- Fiz um curso de primeiros socorros, aprendi orientação…
Muito bem. Seja bem-vindo ao aeródromo. Como não temos aviões vai ficar na secretaria como os outros MMA. O seu chefe vai ser o Sargento Oliveira, etc, etc.
Algum tempo depois chamou-me ao gabinete e fiquei alarmado. O que é que eu fiz?
- Carlos Gato, O nosso enfermeiro vai deixar-nos. Precisam dele em Luanda. Fale com ele pois ele vai passar-lhe a chave do armário dos medicamentos. Você é o novo enfermeiro.
- Quê? Mas eu não percebo nada disso.
- Percebe sim, você tem um curso de primeiros socorros dos escuteiros.
Não sei se ele acreditava muito nos escuteiros ou se foi uma forma de me incentivar ou mesmo dar o armário a guardar a alguém.
Levei a coisa a sério e tentei fazer o que pudesse. Dava comprimidos (aspirinas) aos cozinheiros (um caboverdiano e um santomense) frequentemente, pois queixavam-se de dores de cabeça. Pequenos curativos aos cortes que faziam com as facas.
Só me lembro de uma ajuda a sério que dei a um camarada. O 1º. cabo Silva, especialista mecânico de rádio.
Um dia chegou ao pé de mim e perguntou-me:
- Será que podes ajudar-me? Tive um acidente e tenho as costas feridas. Fui ao médico do exército e este mandou por tintura e andar com as costas ao ar.
Não era um camarada com quem tivesse grandes relações. Infelizmente na juventude, temos pouca maturidade e criamos grupos de amigos relegando outros grupos. Em adultos é que percebemos os erros cometidos.
Mas voltemos à estória que vinha a contar.
Efectivamente os enfermeiros do exército “pintavam” as costas do camarada com tintura de mertiolato, um desinfectante bactericida muito usado nas zonas tropicais. Veio a seguir ao mercuro-cromo e era muito parecido com tintura de iodo.
Ele tinha escoriações enormes no tronco (escoriação é um misto de ferida e queimadura causada pela fricção), resultantes de uma queda de motociclo na estrada. Acho que ele tinha uma Kavasaki ou uma coisa parecida.
A camisa andava sempre tingida daquela mistela que lhe aplicavam e ele sofria dores horríveis quando da aplicação. Resolvi ajudá-lo e falei com o capitão Silveira.
- Sr. Comandante, posso ajudar o nosso camarada que está a sofrer muito mas, não tenho material para isso.
- O que é que pretende fazer e quanto custa?
Lá expliquei – era um balúrdio, caríssimo. O melhor que havia no mercado daquele tempo e já tinha aplicado na metrópole a conselho da minha namorada que sabia destas coisa.
- Está bem, se tem a certeza que é bom, mande comprar e ponha o camarada em condições.
Vieram caixas e caixas de Topi-furazona. Eram uns pensos vaselinados com produto antibacteriano que se aplicavam directamente sobre queimaduras de 2º. e terceiro grau, dando uma sensação de frescura (ao contrario da tintura que dava ardor) e um poder curativo muito mais rápido.
Penso que o tratamento durou duas semanas, mudávamos os pensos de dois em dois dias. Era toda a região dorsal. Imaginem a quantidade de pensos com cerca de 15x15cm.
Ficou impecável. Eu próprio me admirei. Sem cicatrizes. Trabalho de enfermeiro feito à pressa.
Ficámos amigos.
O bichinho ficou e, em 1981, tirei um curso de instrutor de primeiros socorros na Cruz Vermelha Portuguesa e andei pela região de Setúbal, a ensinar a arte aos bombeiros e população. O INEM só existia em Lisboa.
Fiz formação em todas as empresas por onde passei. Socorri vários camaradas acidentados, uns mais graves que os outros. Sempre que havia desgraça no trabalho, lá me vinham chamar.
Graças ao incentivo do Grande Capitão Silveira, um senhor que respeitava os seus colaboradores ajudando-os quando precisavam e repreendendo-os quando mereciam.
Esta estória é uma pequena homenagem e agradecimento a ele, esteja ele onde estiver.
Obrigado Sr. Comandante!

Por: Carlos Gato






sexta-feira, 4 de junho de 2021

A PRISÃO DO AB4

Porta de Armas e Casa da Guarda em fundo


Zé Mário e Antunes


Dos equipamentos do AB4, a Casa da Guarda era talvez uma das menos conhecidas pela maioria do pessoal, apesar de ficar logo à entrada da Base.
Uma das suas dependências era a prisão.
Porque felizmente, poucos a conheceram, trago algumas opiniões expressas ultimamente por alguns camaradas PAs, numa recente publicação no nosso grupo do Facebook.

José Neto - PA 1965/67:
Já que trouxeram à baila a prisão do AB4, que se situava no edifício da Casa da Guarda, aqui vai uma foto que tirei na antecâmara da prisão, a guardar "três presos" que, na verdade, não o eram. Era uma prisão com dois compartimentos que nem grades tinha. Os detidos estavam ali a cumprir as penas de prisão e dali não podiam sair até que terminassem as penas. 

Joaquim Caratao - PA 1968/70:
Em 1970 se não me falha a memória, um soldado de que não me recordo o nome, apenas sei que era natural de Fátima, conseguiu destruir uma daquelas camas de ferro Mod. FAP que equipavam as celas e com os destroços destruiu a porta da dita cela onde se encontrava detido. Não terá sido trabalho fácil pois quer a cama quer a porta tinha uma robustez considerável. Só foi possível levar a cabo esta loucura com o completo desequilíbrio psíquico em que se encontrava. 

José Rosa - PA 1968/70:
Boa memória Caratao ! Foi esse mesmo conhecido como o Fátima quem destruiu a porta da cela, também te lembras bem que o dito Fátima punha tudo em estado de sítio era desordeiro .

Joaquim Caratao
Joaquim Caratao:
Zé. E já agora impõe-se levar a história de alguns presos até ao fim! O Pára que te referes que eu não vou naturalmente citar o nome, "Chamar-lhe-ei apenas M" depois de bem bebido levou a cabo com outro companheiro uma investida nocturna ao bar. Como consequência dessa traquinice levou seis anos de prisão maior com expulsão das Forças Armadas ... Desta vez calhou-me a escoltá-lo para Luanda com destino a uma prisão que ninguém sabia qual seria. Apresentado no CMD da 2ª Reg. Aérea comecei a percorrer tudo o que era presidio civil e militar de Luanda sem que conseguisse que alguém o recebesse, assim andei três dias até pedir na Secção de justiça da Região Aérea para devolver o preso ao AB4. Foi então decidido que levaria no dia seguinte o detido para um Campo de Trabalho no deserto de Moçâmedes, próximo de Roçadas e se designava por Campo de trabalho do Péu Péu.
E Lá fui num PV2, como CMD do avião o Cap. Coias que era um inimigo figadal do dito Soldado por problemas que tiveram entre eles no Cazombo. O Capitão não sabia quem era o preso e quando o viu não conteve um comentário menos oportuno ao que o Soldado respondeu com vernáculo. Confesso que ainda hoje fico incomodado ao recordar o local onde foi deixado o M...
Entreguei-o ao Director do Campo que distava 15 Kms de Roçadas. Anos depois encontrei o M..., fiquei satisfeito quando ele me segredou que aquela prisão havia sido o melhor que lhe aconteceu na vida pelos ensinamentos e pelas prespectivas que lhe criou no futuro. Não cumpriu a pena completa com a emergência do 25 de Abril. Coisas da vida. 

José Rosa
José Rosa:
A prisão do AB4 era na casa da guarda em frente à porta de armas , haviam duas celas mesmo em frente aonde o pessoal de guarda dormia. Lembro-me ainda de alguns presos que por lá passaram em particular desse PA que era conhecido por Fátima, e de um que tinha sido Paraquedista, e foi parar à prisão por ter assaltado o bar de Sargentos ele e um alentejano que não recordo o nome nem numero, tenho uma recordação desse paraquedista que nunca vou esquecer. Fui eu cabo PA e um soldado de nome Cordeiro que era transmontano nomeados para o escoltar ao tribunal a Luanda para ser ouvido pelo Juiz. Quando estava dentro do tribunal fez-me andar atrás dele, pois eu tinha medo que ele fugisse e depois quem ia para a prisão era eu.
Recordo-me muito bem dele, ele era PA e não se dava nada bem com os bicos de pato, às vezes ia à camarata deles para fazer bagunça.

Joaquim Caratao:
Zé! O dito companheiro era de difícil trato. Sofreu um tal ataque de fúria que redundou naquela destruição toda. Como o Mundo é pequeno uns anos depois encontrei-o em Fátima, conheceu-me, conversamos um pouco, disse-me que tinha sido transferido para o Negage depois de cumprir o castigo após aquele destempero que teve. Mas... ainda continuava muito nervoso. 
Também passei muitas noites naquele local. Será bom recordar que os Cabos da PA, pelo menos entre Outubro de 1968 e Outubro de 1970 alinhavam dia sim dia não, chegou-me a acontecer sair de um serviço e entrar noutro no mesmo dia, entretanto aconteciam os imprevistos e lá estava o pessoal a alinhar quer em escoltas quer noutras actividades muito vulgares naquele tempo. Também os Soldados não tinham muito melhor sorte para além de guarnecer as torres durante a noite onde no tempo do cacimbo a temperatura era glacial, ainda lhes sobejava quase sempre mais um ou outro biscate que estava sempre á espera. Não era fácil ser PA naquele campo de férias. Ainda assim julgo que a maioria destes camaradas guarda suaves recordações daquele tempo, daquelas idades, e de muitos dos camaradas que conseguiam minimizar os sacrifícios que eram pedidos ao pessoal. 
Artur Santana

Artur Santana - PA 1968/71:
Pois é Caratao eram os soldados dia sim dia não nas Torres, Paióis, Rondas á Noite na cidade, e Porta de armas era uma vida infernal e para vocês Cabos também o pior era as torres que se passava lá um frio de rachar. Foi duro já passou e agora resta a saudade da rapaziada que andam por aí a quem desejo uma grande felicidade e um grande abraço