sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

MORREU O MAJOR TOMÁS

Morreu o Tomás !
Se, nos idos anos de 1969, alguém me dissesse que, quarenta e tal anos depois, eu iria escrever qualquer coisa sobre o Major Tomás, vulgarmente conhecido como “O Tomás”, eu diria, sem receio de desmentido, que essa pessoa estava com problemas na cabeça.
O Tomás ou o Major Tomás era, em 1969, comandante do GITE (Grupo Instrução de Técnicos Especialistas), na Base Aérea 2, na Ota, Alenquer.
Eu fui um dos muitos mancebos que cumpriram o serviço militar na Força Aérea e conheci muito bem o Tomás.
Acabada a recruta em Dezembro de 1969, passámos à categoria de “alunos”, futuros especialistas e é aqui que entra em acção o terror do “Zé especial”.
“Eu como especialistas ao pequeno almoço”, “o especialista para mim é papel” (enquanto amarrotava uma folha de papel entre as mãos), “ò aluno, eu estou-te a ver”, “tu aí, anda cá – reforço fim de semana”, “anda cá, ò querido aluno, anda cá. Carecada já”, eram algumas frases com que nós éramos mimoseados pelo dito senhor, cuja autoridade era superior à do comandante da Base, ninguém o duvidava.
Quando, em formação de 4 homens por 10 homens, nos dirigíamos, marchando, para as aulas, situadas cerca de 1 km das nossas camaratas, às 7,45 h da manhã e víamos a Renault4, com a matrícula AM-60-24, a malta até tremia.
Havia sempre alguém, uns metros à frente de nós, que nos dizia (como conta a canção):
“Vem aí o Tomás”.
E, como que por encanto, o amontoado de 40 alunos mais ou menos disperso, de imediato se transformava numa formação, com o passo certo e tudo, marchando garbosamente e com os bivaques postos correctamente na cabeça. Era pouco frequente, mas acontecia que ele entrava subitamente numa aula, às vezes nem cumprimentando o “professor” (normalmente um sargento do quadro permanente) e, apontando com o dedo a um dos alunos, dizia: ”Tu, aluno, carecada, já”.
Alunos a caminho do GITE
Morreu o Tomás.
Mais de 40 anos depois, a notícia do seu falecimento deixa-me com sentimentos algo confusos. À época, ele era o terror da malta e era, mesmo, odiado, mas só enquanto alunos, naqueles 11 meses em que estávamos a tirar as especialidades. Porque depois, apesar de não nos convidar para beber um copo, não nos chateava absolutamente nada.
Não precisava de justificações, mas as carecadas e os reforços de fim de semana eram por as botas estarem mal engraxadas, por o cabelo estar comprido, por irmos com o passo trocado, eu sei lá que mais.
Compreendo agora que a disciplina que ele impunha era, se calhar, imprescindível. Era tudo malta muito nova, entre os 17 e os 20 anos, na força da juventude. Talvez fosse, mesmo, necessária esta dureza.
Encontrei-o, uma única vez, em 1980, em Lisboa, na Av. Fontes Pereira de Melo, no então edifício Europeia. Eram 9 horas da manhã. Entrei no elevador e ele entrou logo de seguida. Mantinha o mesmo porte altivo, superior com que nos brindava 10 anos antes.
Olhei para ele e em seguida, tanto tempo quanto demorou o elevador a ir do piso 0 ao piso 2, o meu pensamento voou e as mais variegadas lembranças chegaram em catadupa. E vi o ficar um fim de semana inteiro na Base de castigo, as carecadas, a carrinha Renault 4L AM-60-24 , os roubos dos bivaques à entrada para a caserna, as aulas no GITE, o sargento Teixeira da 
Silva e a sua peculiar frase das
Aula de comunicações
2.ªs 
Feiras: “ o pessoal não pode ir às gaiatas, senão, não apanha a “120” (querendo significar que os sinais morse não eram apanhados correctamente por nós, futuros operadores de comunicações, a 120 caracteres por minuto), o sargento BT das teleimpressoras, Angola, Henrique de Carvalho, Cazombo, Cuito Cuanavale, Luso, e…e…e…
Fantástico: 10 anos depois, já casado e com filhos, depois de ter estado no leste de Angola 26 meses, ainda senti um frémito no corpo. Não, não foi, obviamente, medo. Foi um sentimento que não consigo definir com clareza ainda hoje: talvez um misto de saudade, raiva, admiração, superioridade, inferioridade , não sei. 
O grande Tomás no mesmo elevador que eu, sem me conhecer e sem me dizer “ò aluno, eu estou-te a ver”.
Morreu o Tomás
Paz à sua alma!

Nota dos editores: O Ten. Cor. Raul Tomás faleceu em 09 Março de 2012.




sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O BLOCO DE ARRANQUE AUTOMÁTICO

Grande movimento
1973 foi o ano de todas as operações. 
Em Gago Coutinho, tornou-se quase rotina ter quatro T-6, vários hélis, incluindo “Primos”, Pumas, PV-2, Dakotas e Nordatlas, voava-se todos os dias para efectuar não só os rotineiros transportes de abastecimentos, mas também em RVIS, e RVIS-ATIR, os mecânicos andavam numa roda viva e surgiam regularmente avarias quer por excesso de horas de voo, quer por fadiga de material, quer pela utilização do mesmo para além dos limites de tempo útil de vida, quer pelos locais inapropriados onde se operava. 
Vem tudo isto a propósito de uma história caricata entre o nosso pessoal e os primos. 
O "zé especial" (MMA) tinha que ser não só um óptimo profissional quanto aos parâmetros de segurança, como tinha que ter uma “tarimba de adivinho” para algumas das “manhas” de material com milhares de horas de voo, e para os quais não havia stocks de peças em número suficiente para que cada avião ou héli pudesse ser acompanhado do que de mais elementar seria desejável, para que não se ficasse em terra num sítio por vezes a muitas horas da manutenção mais próxima. 
Nos hélis, isso era ainda mais flagrante, voavam e aterravam em locais inóspitos, com amplitudes térmicas inimagináveis, e com adaptações efectuadas em função da experiência adquirida com sucessivas comissões de pilotos e mecânicos. 
Uma das peças fundamentais nos hélis era o bloco de arranque automático, que "grosso modo" geria a sequência de arranque da turbina, era uma das peças fulcrais do sistema propulsor e quando ficava inoperativa impossibilitava o voo da aeronave, sempre que falhava um arranque era necessário efetuar uma sequência de procedimentos antes de voltar a tentar novo arranque sendo impossível efectuar um número indefinido de arranques sem substituir o bloco. 
Como era previsível, os hélis Primos voavam com um bloco de arranque suplente, para os nossos havia a inevitável capacidade de desenrasque do “zé especial”. Nesse dia quatro hélis nossos e onze Primos incluindo dois com canhão, efectuavam o lançamento de paras na zona de Mussuma na tentativa de cortar a fuga a um grupo do MPLA, que atacara a coluna Luso - Gago Coutinho com pesadas baixas, e no momento da descolagem o nosso primeiro héli armado de canhão falhou o arranque, desligado o sistema, abertas as portas de acesso, juntaram-se todos os MMA'S nossos e primos em volta do mesmo, os mecânicos mergulharam no interior da estrutura, e pouco depois um deles abanava a cabeça negativamente diagnosticando para o piloto: “o bloco de arranque foi-se” ! Resumindo o héli não saía dali sem novo bloco. 
Reunidos os pilotos, resolveram efectuar o movimento de largada com o material
Em reparação
disponível, enquanto se pedia um novo bloco para a manutenção no Luso ou a substituição do aparelho. U
m dos mecânicos mais velhos, conhecido entre nós pela alcunha de "Navalhinhas" e que segundo a "Voz da Caserna" tinha a cabeça a prémio pelo MPLA, afirmou que punha o héli no ar, mas queria toda a gente fora dali para ele poder trabalhar sem que ninguém visse o que ele ia fazer, uma vez que era expressamente proibido mexer na "electrónica" fora da manutenção, e ele negaria tudo se alguém viesse perguntar-lhe se ele andara a mexer no bloco de arranque automático. Olhos de espanto dos pilotos, primos e nossos, e dos restantes mecânicos, o nosso homem enfiou-se no interior da estrutura do aparelho com um pano onde embrulhava algumas das suas preciosas ferramentas, passados segundos, ouviram-se umas pancadas "tac-tac-tac-tac", de seguida fechou as portas e disse ao piloto podes por o motor em marcha, e o héli pegou de imediato, os primos olharam entre si com caras de espanto, os nossos deram meia volta e ninguém perguntou mais nada, descolaram e voltaram para efectuar a totalidade do transporte dos "Paras". 
Já noite cerrada em volta da fogueira que assava nacos de carne para a ceia, toda a gente quis saber o que é que ele tinha feito para reparar o bloco, e o mecânico, homem de poucas palavras, disse no meio de um silêncio expectante: estou careca de dizer aos maçaricos dos pilotos, que os hélis têm rodas para aterrarem como qualquer avião, não é para baterem com os aparelhos no chão, já chegam as vibrações das pás para desapertarem tudo, não é necessário massacrar mais o material, o bloco tem um sistema
Hora do descanso
de fixação frouxo, e 
no mínimo de vez em quando convém dar-lhe um aperto para ele ficar no ponto, isso faz-se na manutenção por quem sabe, e com as ferramentas apropriadas, aqui hà que improvisar, para que o fogareiro não se apague de vez... quando eu berro que não quero que me mexam nas ferramentas, tenho cá as minhas razões, cada macaco no seu galho, os pilotos "pilotam" os mecânicos "reparam" cada um com as suas "ferramentas" se por cada avaria se substituíssem as peças, tínhamos todos os aviões inoperativos, mas também não é motivo para resolver tudo com o "martelo" uma pancada com mais força e a electrónica do bloco "já era", como em tudo na vida quando é preciso bater, tem de ser na hora e com a força certa... e pegando na Nocal, levou-a à boca e bebeu de garganta seca após o para ele longo discurso, enquanto alguém em fundo, ainda traduzia para os "primos" o que ele acabara de dizer...

Gago Coutinho, 1973
OPC (ACO) 71/73


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

BA2 - OTA, 1969 VISITA DO MINISTRO DA DEFESA

Ministro a passar revista á guarda de honra
OTA – Fev. 1969

A fim de matar saudades pelos tempos preenchidos na Ota aquando mancebos e alunos, propus-me recolher e difundir acontecimentos ocasionais da nossa “guerra”. Fotos, imagens, escritos – tudo que possa servir para avivar e recordar em comum, numa paz saudável e com um sabor nostálgico, certas passagens da nossa vida, antes de expirarmos o último e derradeiro sopro.
Para quem esteve na B.A.2 em Fevereiro de 1969, provavelmente lembrar-se-á da visita do Ministro da Defesa Nacional, General Sá Viana Rebelo.
A aguardá-lo, entre outras individualidades, encontravam-se nesta Unidade da Força Aérea, o Comandante interino da 1ª. Região Aérea, Brigadeiro Krus Abecassis, o Comandante e 2º. Comandante da B.A.2, Tenentes-coronéis Brochado de Miranda e Correia do Amaral.
Depois de ter passado revista e assistido ao desfile da guarda de honra constituída por dois pelotões com bandeira e fanfarra, O Ministro da Defesa Nacional e restantes personalidades dirigiram-se para o Grupo de Instrução de Técnicos e Especialistas, onde o Tenente-coronel Brochado de Miranda apresentou os cumprimentos de boas-vindas ao General Sá Viana Rebelo, fazendo em seguida uma breve síntese das actividades da Unidade. 
Através de gráficos elucidativos pôde verificar-se o aumento de soldados alunos especialistas que têm frequentado os vários cursos que ali se ministram: 76 alunos em 1960; 986 em 1961; 1410 em 1962; 1244 em 1963; 1353 em 1964; 1652 em 1966; 1302 em 1967; 1693 em 1968 e 1695 em 1969. Como nota curiosa infere-se o número máximo de alunos que as instalações da Unidade comportavam nessa época (1969) – 1.700 alunos, ou seja, faltavam apenas 5 para completarem o elenco total!...
Os cursos que se ministravam no GITE eram os seguintes: especialistas de material aéreo e terrestre, armamento e equipamento, comunicações, meteorologia, circulação aérea e abastecimento. 
Além das actividades do Grupo de Instrução de Técnicos e Especialistas, administravam-se cursos de formação e promoção de oficiais técnicos e promoção a furriel.
Sessão de treino físico na parada
Finda a visita ao GITE, o Ministro da Defesa Nacional esteve na Esquadra de Instrução Complementar de Pilotagem de Aviões de Caça, assistindo por fim aos exercícios de preparação física dos soldados-recrutas.
Por fim, foi servido um almoço na Messe de Oficiais a que assistiram todas as individualidades presentes, tendo o Comandante da Unidade feito uma saudação ao Ministro da Defesa Nacional, que depois correspondeu.
Aula de motores
Despedida do ministro com partida para Lisboa

Nota: Recolha de informação na Revista “Mais Alto” nº. 119 – Março 1969
               
Compilação e arranjo de texto de:








Da Série:

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

MEMÓRIAS DO INICIO DO AB4

Algumas recordações "trocadas" no Facebook, entre alguns dos pioneiros do AB4.

Manuel Flórido Bem-Haja: Lembro-me bem da primeira intervenção do PV2, assim como do pessoal que fazia parte do destacamento, segue foto.
Manuel Flórido Bem-Haja: Na foto sou o que está desfardado. A mesma foi tirada junto do edifício que a FAP tinha à entrada da cidade de Henrique de Carvalho. Belos tempos!!!


Bernardes Neves: Tens ideia da data do primeiro destacamento ?
Manuel Flórido Bem-Haja: Neste momento não o poderei dizer, pois não tenho junto de mim o álbum com as fotos e elas têm a data em que foram tiradas, quando verificar enviarei. Mas é muito antes da data em que essa foto do PV2 foi tirada, pois nessa data ainda não estavam instaladas as barracas e a torre que se veem na foto. O estacionamento do PV2 era na pista antiga, mais conhecida como pista da DTA. A primeira torre era móvel, mais conhecida por GUIDA (não sei donde veio o nome). Para quem não a conheceu envio foto.
Manuel Flórido Bem-Haja: Depois de consultar alguns elementos o puxar um pouco pela memória direi que o primeiro destacamento do PV 2 foi em Dezembro de 1962.
Samuel Girão: É possível que tenha sido em Dezembro de 62, pois eu fiz em Março de 63 um destacamento.
Joaquim Araújo Gomes: Passei por HC em 63 e 64 como Furriel 2º. piloto do PV2. Dormia-se em tendas o que não era mau !
Mário Arteiro: Uma pequena achega. Tanto quanto o Alemão permite recordo que havia quando cheguei, uma pista de laterite (DTA) com estacionamento para viaturas junto da aerogare de alvenaria com uma parede de tijolo e cobertura inclinada, e uma pista já aberta e em processo de asfaltagem que seria a pista do AB4. Quando "desaguamos" por volta do dia 25/26 de Dezembro de 1962 não havia ninguém no AB4. Só Havia pessoal das infraestruturas sob o comando do Capitão Horta, que tinha uma bela horta! O DO27 em Agosto de 1963 transportou minha filha do Dundo para HC talvez no dia 20! O PV2 e os T6 estavam lá ao tempo dos fogos reais em 1963, já com o Comando Agrupamento 11 pois tirei fotos durante os treinos das guarnições voando como pendura nos-T-6, que também ajudaram a definir rotas de aproximação a evitar. As fotos das posições tiradas do ar foram todas tiradas de bordo de T-6. Na altura dos fogos reais já havia a Torre no AB4 e estavam dois T-6 e um PV2 que participaram numa das sessões de fogos de Artilharia Antiaérea.
Manuel Flórido Bem-Haja: Amigo Arteiro em Dezembro 62, na verdade não havia ninguém no AB4. Eu cheguei a Henrique de Carvalho em Novembro 62 e apresentei-me ao Capitão Horta, instalei a Torre Movél e logo em seguida em Dezembro o primeiro PV2, muito antes do DO27 esses sim só começaram em 63 e também em destacamento. O pessoal ficava alojado no edificio das Infras e tomava as refeições numa casa particular do Sr. Vitor de Sá. Os primeiros voos ainda foram feitos na pista da DTA. Os primeiros T6 e DO 27 pertencentes ao AB4 só começaram a chegar em Abril/Maio, se a memória não me falha, nessa altura já estavam instaladas as barracas e as tendas, a Torre também já existia mas ainda não funcionava, o controlo era feito na Torre Móvel (GUIDA).
Mário Arteiro: Os nossos aviões apareceram depois dos aviões do Katanga, que aterraram no princípio do ano. recordo que falei para o Chefe do EM Major António Hermínio Monteny quando apanhamos as primeiras aeronaves no radar, ele não sabia de nada e juntou-se de imediato vindo em Jeep. As guarnições estavam prevenidas e aguardavam instruções e logo que o primeiro T6 da FAKA apareceu a abanar as asas, resolvemos deixá-lo aterrar por ser esse um sinal que considerávamos de "amigo".
Para além destes episódios recordo vagamente, que um dia apareceu no AB4 um Oficial Superior da FAP com um Auster e fui com ele dar uma volta para fazermos um reconhecimento numa zona onde havia caça... Não me recordo do nome. Fixei o episódio!
Manuel Flórido Bem-Haja: Recordo perfeitamente o episódio dos aviões do Katanga que lá aterraram, nessa altura não conseguimos entrar em contacto com eles (o que de principio nos assustou um pouco). Eram três T6 totalmente camuflados, uma Auster e um de passageiros mas que não sei o modelo, todos eles pilotados por mercenários. Quando os nossos pilotos foram buscar os ditos aviões o da Auster despenhou-se, mesmo ao cimo da pista da DTA tendo falecido.
Em relação ao Capitão Horta e pouco tempo depois Major, não posso deixar passar sem dizer que era uma excelente pessoa.
Joaquim Araújo Gomes: Os T6s vindos do Katanga teriam sido cedidos, ou vendidos, pelo governo Português, foi o que nessa altura entendi. Não me recordo da Auster acidentada. Nós recusamos servir de alvo com uma manga num PV2 para a artilharia treinar... No entanto, os pilotos mercenários, voluntariaram-se para com os T6s fazerem a «brincadeira». O Comando recusou.
Mário Arteiro: Mais uns "toques" do meu lado. Relativamente ao Manuel Flórido Bem-Haja os aviões que aterraram para além dos
T-6 "camuflados" ou mal pintados foram o Moineau Flyer DC-3 do Lider Katanguês pilotado pelo Jimmy Hedges, e um " primo" dos PV2 (PV1-Loadstar), um Dove e um Cessna. O DC3 depois de "conversa" ao ouvido levantou par ir buscar armamento e munições que tinham sido deixados do outro lado e podiam vir a ser usados contra nós. Entre outras armas havia mausers egícias, lança rockets italianos, pistolas-metralhadoras Berettas, Franhchi Brescia e britânicas Sterling de carregador lateral.
Manuel Flórido Bem-Haja: Boa memória Mário Arteiro, eram esses mesmo.
Mário Arteiro: Relativamente às afirmações de Joaquim Araújo Gomes, sobre os T6 abstenho-me de comentar quem os terá cedido aos Katangueses. Apenas sei, que aterraram e depois de ter aparecido um equipe da FAP, vinda de Luanda foram transferidos para a BA9. Os pilotos eram europeus, sendo um deles polaco. A Auster acidentada foi fotografada por mim e eu vi a sua queda, pois vinha a descer no sentido Norte Sul, ao longo da pista de laterite quando o acidente se deu. O piloto levantou voo e tentou flectir para a esquerda mas a aeronave entrou em perda e afocinhou. Não houve incêndio sequer mas quando chegamos perto já o piloto estava morto. Quanto aos exercícios de fogos reais por nós efectiados não houve mangas. Houve erros introduzidos nas alças das peças e os disparos foram feitos para os T6 da FAP. Eu ia bordo de um dos T6. Também houve um PV2 que participou mas não tenho ideia de ter sido considerado como "alvo". tenho apenas uma foto de passagem a baixa altura penso que para largar uns mimos perto da posição. Não recordo se o fez ou se apenas simolou.
Existe um livro escrito por um oficial de carreira sobre Salazar e Tschombé com informaçãos sobre as aeronaves que estiveram no AB4 (início) mas nem sequer se refere à sua passagem por lá.
Mário Arteiro: O 1º. Cabo César Portugal Alves da Cruz tinha brevet Civil há pouco tempo. O Capitão da FAP, que comandava o destacamento para transferir as aeronaves para Luanda, não se encontrava junto ao local do acidente no momento em que ocorreu. Ou estava no edifício das infraestruturas ou na Povoação talvez no Comando da ZIL. Apareceu pouco tempo depois.

Nota: As fotos, cedidas ao Blog pelo Mário Arteiro, referentes a alguns factos relatados podem ser vistas no álbum :
https://photos.google.com/share/AF1QipOcfJkwaNOXFwjVAfQ7jmxeqJ8Cu5ulLxWLM0Zkb-D0CGmgXBNPghudYVtVYlouSQ?key=WjdERFpkanVFOFlESzV0ZmNXRXlnSHRWVXppZTdn

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

MEMÓRIAS DA FAP

EPISÓDIOS DO DIA A DIA
OTA - RECRUTA
O comandante era um major, que tinha a mania das marchas de 40 km (lembranças da 1ª. Grande Guerra?).
Não sei qual era a dele(s), mas o meu pelotão ficava sempre no fim da coluna sofrendo os efeitos iô-iô, que quebravam o ritmo da marcha e estouravam qualquer um. Além disso ainda tínhamos que carregar as armas dos que iam caindo pelo caminho, e amparar muitos deles pelo resto do caminho.
Uma vez ele resolveu fazer uma marcha noturna. Dessa eu gostei. Tínhamos caminhado
apenas alguns kms quando um trator carregado com feno apareceu no fim da coluna. Subimos no reboque e fomos curtindo o passeio. O tratorista tinha um irmão em Angola e resolveu levar-nos até à aldeia dele onde havia uma festa com água-pé à vontade e onde as cachopas nos trouxeram broas de milho, presunto, salpicão, alheiras etc. Lembro-me de termos mostrado o nosso receio de perdermos a coluna. 
Essa eu resolvo, disse ele. Na volta deles eu ponho-os lá. E assim foi.
OTA - INSTRUÇÃO
Algumas vezes na semana tínhamos educação física. Em 100% das vezes acordavam-nos de madrugada para fazer um cross pelos pinheirais.
Logo da 1ª. vez, meio sonolentos passamos pela padaria da base. Um madeirense nos interpelou: não querem um pão quentinho? Mas que gostoso! Pão saindo do forno com manteiga. De lá, saímos para o chuveiro e coisa rara, com água quente.
Depois, cama outra vez. Daí em diante... venha o cross que eu gosto.
.....*.....
Durante a instrução todos os dias antes de seguirmos para as aulas, as turmas formavam na parada em duas ou três filas para uma revista. 
Cabelo, barba, fardamento, botas, etc.
Como naquela época éramos muitos, um oficial começava a revista pela 1ª. turma da direita e outro pela turma da esquerda. A minha turma ficava mais ou menos no centro. O nosso comandante de turma, um "cabeludo" cara de pau, sempre que um dos oficiais, chegava perto, mandava unir fileiras, e lá íamos nós (sem revista).
Acho que sempre pensaram que alguém já tinha passado a revista.
Aí comecei a aprender...!
.....*.....
De serviço num fim de semana e de namorada nova, eu tinha que ir para Lisboa.
Escalado para mecânico do dia (setor de transportes) fui à parada. No final dirigi-me ao oficial de dia e expus o meu problema (da namorada) e de que o pessoal (madeirenses e açorianos) resolveriam qualquer problema. Eu ia-me ausentar para Lisboa e só queria que ele não aparecesse por lá.
Se ocorresse algo de grave, eu nunca tinha tido aquela conversa com ele e estava ciente que cadeia era uma das opções. 
Ele concordou... e correu tudo bem.
OTA - ASSISTÊNCIA MÉDICA
Um dia de muito frio, ao sair da cama, fui de cara no chão. Minhas pernas estavam cheias de calombos que mais pareciam bolas de ténis.
Levaram-me  para a enfermaria. O médico ficou muito impressionado com o meu ataque de reumatismo(?) e receitou-me algo à base de penicilina, acho eu.
Quando fui á enfermaria para apanhar a injeção, o sargento ajudante olhou para a receita, olhou, e disse-me: vamos lá falar com o médico. 
Dr. disse ele, eu não posso aplicar a injeção. "Isso é muito caro para um soldado!" 
O médico argumentou que eu precisava, mas não adiantou. 
Deram-me outra coisa. Só resolvi o problema em Lisboa onde um tio que era médico me aplicou a tal injeção.
Isso me lembrou uma estória que meu pai me contava, e que se passou no quartel onde servia. Um cabo levou a esposa à enfermaria. 
O que ela tem perguntou o sargento? 
É essa ferida nos lábios dela que não sara. 
O sargento foi logo corrigindo-o "lábios não". Lábios só quem tem são as esposas dos oficiais. "As esposas de soldados e cabos têm beiços."
CONTROLADORES DE VOO (1963/1966)
Numa aula, se não estou em erro numa cabine de radar que ficava nas pistas da OTA, foi
recebido um pedido de ajuda (orientação de uma aeronave) que pretendia chegar não sei aonde. O comandante, um capitão (chico), resolveu mostrar como se fazia.
Deixem comigo! Pegou no manual de instrução e ... "começou a ler o manual". 
Terminou quando disse: Você está chegando à cabeceira da pista. Pode aterrar. 
Segundos depois o piloto diz: quem é o FDP que está aí? Estou aterrando na portagem da autoestrada de Lisboa...
.....*.....
Mais uma. Um dos controladores tinha um automóvel igual ao do comandante da OTA (um Vauxall preto). Na volta de Alenquer, todo o mundo já pra lá de Bagdá, ao chegarem ao portão da base, foram surpreendidos pela guarda apresentando armas.
Gostaram tanto que resolveram fazer uma ronda pela base, “quépi” sobre os olhos, passaram por vários postos, onde na maior cara de pau, chegavam a parar para perguntar se estava tudo bem. Até que... um dos sentinelas,  que costumava lavar o carro do comandante reparou na placa. Prego no fundo. O soldado atirou neles ou pró ar, e eles saíram pelas pistas e enfiaram-se por um pinheiral adentro onde abandonaram o carro. 
Eles pegaram o carro depois, mas no dia seguinte se falava de terroristas...
.....*.....
O meu irmão que era controlador de voo trabalhava em escala. Entrava de serviço de 15 em 15 dias. Isso não o liberava da obrigação de permanecer na base.
Ora pois! Saía de serviço e mandava-se para Lisboa. Quando o Capitão perguntava por ele: ainda há pouco o vi... diziam! Um telefonema e ele pegava um taxi. Pouco depois estava na base. 
Capitão o Sr. estava à minha procura? E lá estava ele de volta no mesmo taxi que o tinha trazido.
EM ANGOLA:
Contava-se a história de um controlador que detectou no radar um avião sobrevoando o nosso espaço aéreo e que recusava a identificar-se.
Nosso amigo começou a simular o lançamento de uma esquadrilha de F-84 instruindo-os para abater o avião não identificado. Bem o avião, pelo sim pelo não, resolveu descer...
Na pista tinha 3 PA de FBP na mão esperando por eles. Aviões não havia nenhum. Era só uma pista de apoio. Não sei como terminou.

"Esta história do controlador em Angola que obrigou um avião Belga a aterrar em Cabinda é verdadeira.
O controlador, que era 2º.sargento, quiz que o avião fizesse uma passagem baixa sobre o AM 95 - Cabinda para ser identificado. Como não o fez o controlador simulou contactos com os nosso aviões F84, dando "instruções ao piloto para interceptar o avião Belga, que era um avião de passageiros e de o conduzir e fazer aterrar em Cabinda. Simulou um diálogo com o suposto F84, fazendo aos microfones um ruido parecido dos jactos e assim houve uma aterragem forçada em Cabinda. Isto, creio que foi em 1963 e tenho pena de não me lembrar do sargento que protagonizou este acontecimento. Foi uma bronca das grandes como se deve calcular. O avião belga que foi forçado a aterrar, não tinha capacidade de descolar com os passageiros que levava a bordo. Assim ,estes, foram transportados pelos nossos Nord Atlas para Luanda e ali esperaram pelo avião forçado a aterrar em Cabinda. Isto foi alvo um processo disciplinar ao sargento controlador e quando se temia que fosse punido, acabou por ser louvado. Convivi de perto com este companheiro e, para alem de ser um óptimo camarada, era um espécie de dono do bar do aeroporto de Cabinda, onde corriam cervejolas a rodos. São histórias verdadeiras, que remetem para outras que a breve trecho anunciarei..
Adelino Assunção Santos"

Textos de:
Manuel Nhungue In Esp. FA do FB

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

VIVI DUAS VEZES

Extraordinário como por vezes, algumas palavras nos ficam na memória, como gravadas 
de forma a nunca mais saírem.
No longínquo ano de 1970, no Leste de Angola, mais de quarenta anos passados, atrevo-me a relembrar de forma escrita o que sempre, mas sempre, tenho presente nos meus sonhos, e até mesmo quando estou acordado.
Sim, também quando estou acordado vivo esses momentos com grande intensidade, tal como os meus amigos e ex-companheiros, por este mundo que nos vai atraiçoando dia a dia, esquecendo tudo o que fizemos por este País, que tudo faz para nos esquecer. Bem,mas como este não é o teor destas lembranças, chega de drama, porque não é por aí, que nos vão lembrar. Somos cada um de nós que deve manter viva, através de todo e qualquer meio, a esperança de vermos os nossos filhos e netos, um dia saberem e orgulharem-se de quem fomos e nos tornamos.
Fomos heróis, fomos sobreviventes, fomos paz e fomos guerra, fomos miúdos tornados homens muito cedo. 
Fomos miúdos homens que hoje não nos honram, porque nunca o foram os que no Poder, políticos, civis e militares, generais e ministros e presidentes da República.Zeca Afonso dizia “ eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”, e desde à quarenta anos aos dias de hoje, estes políticos, militares e outros “dizem muito mais mas não fazem nada”. Não sendo o que estava na minha mente, quando comecei este “desapontamento”, volto ao que me levou lembrar coisas boas que nos aconteceram, enquanto estávamos na flor da juventude, e os nossos ideais era vivermos o melhor possível naquela terra distante.Certo dia, não me recordo a data, partiu do Cazombo, em missão de “solidariedade”, uma formação composta pelos mais “altos dignitários” daquele A.M. para um ponto da Z.M.L., Lóvua, assim se chamava o local onde se haveria de dar um dos factos mais interessantes que vivi.

Ao aproximar-mo-nos deste Posto, o espanto marcou-me o rosto, com as imagens que me seguiam através da janela do helicóptero. Olhava para baixo pela janela do lado esquerdo e depois pelo lado direito e o meu espanto aumentava. De todas as direcções apareciam nativos, de cores coloridas vestidos, correndo para o ponto onde iríamos aterrar. Eram mil…não…dois mil e quinhentos…não, talvez fossem até cerca de cinco mil, tal era a multidão, espantoso! Cerca de cinco mil nativos (se calhar estou a exagerar) que se deslocaram de terras longínquas para apenas poderem ver os “Altos Dignatários” que se dignaram visitar aquelas terras do “fim do mundo”.
A história foi preparada pelo chefe de posto, um homem afável e simpático, de que me recordo apenas do seu apelido, Sousa, em homenagem aos sobreviventes de um acidente de avião na zona da sua jurisdição, (isso é outra estória) e, que muito o alegrou. Por isso convidou uma comitiva da F.A. para abençoar com uma bela “almoçarada”, o que (eu) apenas conhecia como um simples almoço.
O heli, pilotado pelo “enorme” Alf.Serra, trazia o também Alf. A.T. eu, e mais três camaradas, que não me recordo de seus nomes, mas éramos seis, os que viajámos no heli. Apenas o Serra ia fardado, todos os outros trajavam á civil e bem vestidos para a ocasião. Quando aterrámos, fomos recebidos apoteóticamente por toda aquela gente que se manifestava como só eles o sabem fazer, dançando, cantando e manifestando uma sensação contagiante de alegria.
Fomos recebidos com pompa e circunstância pelo administrador do posto, professor da escola, e chefes tribais. Após as primeiras apresentações (desde Governador Geral até Príncipes daqui e de acolá”, logo á saída do heli, esperava-nos uma revista às milícias em parada, com o Alf. A.T. (“Governador Geral”) , a passar revista ás tropas em parada.
A boa vontade e querer daquelas pessoas era absolutamente extraordinária, pois nessa revista, havia quem estivesse descalço, enquanto outros de botas ou alpercatas, se perfilavam de forma garbosa e altiva, independentemente do aspecto esfarrapado das suas vestes, pois cada um vestia aquilo que tinha de melhor para a ocasião.
Após estas manifestações solenes, onde até foi cantado o hino nacional, pelo meninos da escola local, (estranhamente comovente), esperava-nos um “beberete”.
Antes do almoço, enquanto bebericávamos e conversávamos, os chefes tribais (sobas) tentavam perceber como funcionava o héli, com perguntas e mais perguntas. A uma altura o A.T. fez uma proposta irrecusável aos “sobas”, ir dar uma “volta” de helicóptero. 
Assim foi.

O Alf.Serra foi o cicerone de serviço levando, penso que, dois dos “sobas” a dar uma volta. Todas as peripécias que possamos imaginar foram praticadas neste voo de baptismo. Os “sobas”, eram homens bem entrados na idade, pois seriam pessoas que teriam pelo menos 80 anos (dizia-se que um homem negro, quando pinta... três trinta, o que quer dizer que um homem com o cabelo todo branco teria pelo menos três vezes trinta anos) e estes teriam.Depois da “voltinha”, quando aterraram, vinham calmos e serenos, contra todas as nossas expectativas e mais espantados ficamos quando um deles, dirigindo-se ao “Gov.Geral”, lhe agradeceu a oportunidade e disse em dialecto local, que, depois de traduzido era o seguinte «Vivi duas vezes. Antes de andar de “zingarelho”e depois de andar de zingarelho». 
Foi uma fantástica lição de alegria e harmonia transmitida por aqueles anciãos, mostrando-nos como é feita a vida, na sua complexa simplicidade. Depois destas manifestações, de boa política, esperava-nos a mais espectacular recepção de boas vindas, num, que seria um fabuloso almoço oferecido pelo Chefe de Posto.
A sala, bem decorada e sóbria dava para um alpendre bastante largo, de vistas amplas como era normal nestas casas de Posto. Havia uma enorme mesa colocada em T com toalha imaculadamente branca, onde sobressaia o serviço dos pratos e copos de qualidade muito boa.
Quando nos sentámos naquela mesa, senti aquela sensação de que é bom viver, ter todo aquele “luxo”, naquele “fim de mundo”, fazendo-nos sentir, se bem por breve tempo, que estávamos em casa.
A refeição, composta por entradas variadas e com uma ementa de carne e peixe de que não me recordo concretamente mas composta por vários “pratos” era excelente. Servido por criados de mesa, negros, vestidos a rigor nos seus trajos brancos, dando aquela visão, como que saído de um filme dos tempos coloniais ingleses. Tudo a rigor.
Pelas 14 horas, deu-se início a este repasto que se prolongou até já ser noite.
Durante o almoço, sempre acompanhados de perto pela população indígena que se amontoava no alpendre (mais as crianças) festejava-se com cânticos e danças no exterior, abrilhantando ainda mais este evento que, viria a ser ainda mais espectacular, quando o A.T. tira da “cartola” o momento mágico da tarde, ao colocar no meio dos miúdos que nos “espiavam” no alpendre, o seu gravador de som, fazendo com que o espanto se espelhasse nas faces, ao ouvirem reproduzidas as suas vozes como que por magia. Foram tantas e repetidas as vezes que se gravaram as suas vozes e de cada vez que o fazia os seus espantos eram sempre ainda maiores. Foram momentos lindos e absolutamente inesquecíveis.


O dia foi-se cumprindo e com isso a noite foi chegando. Aquele povo não arredou pé até às tantas da noite, sempre dançando e cantando com alma de quem vive feliz, em paz consigo mesmo.
No dia seguinte aos primeiros raios de sol, regressámos à base, levando imagens que jamais serão apagadas.

Nota:
O Alf. A.T escusou-se a que o seu nome fosse mencionado.Com grande pena da minha pena, porque ele fez parte da história, e com relutância e apenas pelo respeito à sua vontade, o seu desejo é satisfeito.
Talvez um dia, quem sabe....queira dizer quem é.

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS

Vi-o descer pelo carreiro da restolha do Calaia. Cana de pesca na mão direita, cacifo sobre o ombro, andar compassado ao ritmo das irregularidades do caminho. A pesca era destino. 
Para as poldras de Baçal ou talvez a represa da Camila. O Sabor corria-lhe no sangue. Nunca estava mais que uma semana sem visitar o rio.
-- Não te despedes do rapaz?
-- Já há muito que me ando a despedir dele, ouvi em voz morta de angústia.
--Nem parece teu..
-- Oh mulher, isto é uma vida danada. O outro já na Guiné, agora este para Angola!
-- Foi assim que quiseste! Os da D. Ofélia também são gémeos e foi um de cada vez.
--Sim, sim, mas prefiro passar dois anos em sofrimento do que quatro em permanente agonia. Não ia aguentar tanto tempo, na incerteza de dias sem Sol na alma, nem ter notícias amiúde.
-- Nossa senhora dos Montes Ermos há-de protegê-los, estou cheia de fé.
-- Pois, pois, Nossa Senhora…
Ouvi a porta bater, o som lento das botas a descer as escadas, o ranger do portão que dava para a rua.
-- António Júlio, anda comer! As sopas já estão no sítio.
Entrei na cozinha, a malga fumegante com sopas de café com leite eram fiéis ao local. No parapeito da janela da cozinha que davam para a restolha. Desde os tempos do liceu que era assim. Dali via os lameiros onde depois das aulas jogávamos à bola.
Em cima do aparador, o velho rádio dava som a “aprés toi”na voz de Vicky Leandros, ainda fresca pela vitória alcançada no festival da eurovisão desse ano.
Continuei a vê-lo, baixou ao lameiro do Lima e parou. Voltou o rosto e olhou para a janela durante alguns minutos. Sabia bem que eu estava lá. Não fez qualquer sinal, parou a olhar!
Eu sei pai, que não gostavas que te víssemos chorar. Só uma vez o fizeste diante de nós. Lembro-me do comício ,que a oposição ao regime fez em clandestinidade na serração do Martins Novo. Eu estudante , tu um pai cheio de ideais, cantámos o hino nacional e saíram-te umas lágrimas de liberdade.
Sei porque saíste sem despedida, sei que não ias à pesca, sei, que quando o combóio saísse de Bragança, já estarias em casa.

Continuou a afastar-se, agora em passo mais apressado, atravessou o lameiro da Joana Dias e perdeu-se na lomba da estrada junto à quinta de Ricafé.
Era tempo de ir para a estação. A mãe acompanhou-me até ao portão banhada em lágrimas. O correio, na pessoa do velho Conhés tirava da sacola um aerograma.
--Cá está mais um , vem da Guiné!
A ansiedade apoderou-se de ambos . Abri e comecei a ler.
…O Júlio já foi para Angola?
…Os da aviação têm uma vida melhor que nós, tudo há-de correr bem com ele!
Irmão porque não retardaste um pouco mais as tuas notícias? A emoção quase me fazia perder o combóio.

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