sexta-feira, 20 de setembro de 2013

COSMONAUTICA 3


JOHN GLENN ESTÁ ERRADO


Antes de tratar o assunto que constitui o tema central destas páginas de divulgação científica devemos fazer, a propósito algumas críticas às palavras que acabam de ser transcritas, do cosmonauta John Glenn.
Quando as lemos ficamos muito surpreendidos. John Glenn, ao contrário de tudo quanto a seu respeito pudéssemos pensar, revelava, neste seu pensamento, uma mentalidade já há muito ultrapassada -apesar de ser ainda muito comum à “mass média”- isto sem desprimor para este pioneiro do espaço, na qualidade de cosmonauta.

Fossem quais fossem as origens da matéria no espaço, logo que ela surgisse por mais desarrumada que se encontrasse e por muito caótica (ou anárquica) que fosse a sua movimentação, devido às condições intrínsecas do próprio espaço e das determinadas mecânicas a que se encontrava sujeita essa matéria em estado caótico, o acaso explica perfeitamente que acabasse o seu conjunto por aparentar-isto é, tomar a aparência- a harmonia que actualmente apresenta. Tudo foi uma questão de tempo.
A organização do cosmos, ou seja a transformação do Caos (Universo desorganizado) em Cosmos (Universo organizado) foi uma consequência fatal do acaso -não era de, de forma alguma necessário um plano. Como?.
Consideremos por hipótese, o Universo em estado caótico. Um Universo onde a matéria se encontra num estado perfeitamente errático relativamente ao espaço.
Porções de matéria colidem entre si num Universo nesse estado. Dessas colisões constantes resultarão novos fragmentos de matéria ou aglomeração de fragmentos de matéria, tudo depende das condições em que se davam essas colisões.

Não nos esqueçamos que neste Caos, em que existia um número imenso de fragmentos de matéria em transformação, haveria, casualmente, aqui e ali, fragmentos de matéria que se aproximavam entre si com velocidade e sentido de movimento, que os obrigava , por imperativo dos princípios de mecânica e gravitação, inerentes desde sempre à matéria, a ficarem circulando, em relação ao outro, segundo orbitas permanentes.

Assim, pouco a pouco por força da selecção casual, foram-se arrumando segundo sistemas planetários aqueles diversos- e inúmeros -fragmentos de matéria que iam "sobrevivendo “ao número imenso de colisões durante a fase caótica em que se encontrou o Universo na generalidade.
Este processo de evolução do Caos para o Cosmos era fatal e se quisermos ponderar cuidadosamente no assunto, creio que o poderemos compreender.
Teremos no entanto de ter presente, ao ponderar neste fenómeno de evolução cósmica, que o Homem como a Vida, só surgiu na Terra muito recentemente-praticamente nos nossos dias.

O fenómeno da transformação fatal do Caos em Cosmos processou-se, evidentemente, durante um período de tempo imensamente longo - "quase infinito."

Continua...

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

UM RÁDIO, UM GUERRILHEIRO E UM SOLDADO...

A história começou em Moçambique, na província de Tete, há mais de quatro décadas, no tempo da guerra colonial e da luta armada de libertação.
Num assalto a uma base da Frelimo é feito um prisioneiro e o oficial do exército português que comandou o golpe de mão confiscou-lhe um aparelho portátil de rádio.
Guerrilheiro da Frelimo transportado, sob a guarda de soldado português, em helicóptero rodesiano
Agora, passados quase 42 anos, esse oficial, na altura o alferes Jaime Foufre Andrade das Operações Especiais, quer devolver o rádio com um abraço ao seu legítimo proprietário ou a seus familiares.
O rádio a devolver

 'Quero encontrar outra vez esse guerrilheiro, que agora já não é guerrilheiro -- é um cidadão moçambicano normal -- e dar-lhe um abraço e devolver-lhe aquilo que lhe pertence' 
ex-Alferes Jaime Andrade

A operação
Foi mais um episódio de uma guerra prolongada entre as forças coloniais portuguesas e a guerrilha da
Frelimo, em que se registou a participação da Força Aérea da Rodésia.
Em Setembro de 1968, as forças portuguesas no acampamento de Tembué são envolvidas numa grande operação, denominada Equador, contra a guerrilha.
Durante um voo de observação efectuado pelos rodesianos tinha sido referenciada uma importante base da guerrilha, a Base Beira, que fora montada por Samora Machel.
Imediatamente se organizou uma acção bélica tendo sido destacado o alferes Andrade, das Operações Especiais, para comandar o grupo que iria efectuar o assalto à base do 'inimigo'. 
O alf. Andrade 
Partindo de Tembué em helicópteros Alouette III rodesianos, os militares portugueses são largados em terreno difícil próximo da base para tentar um assalto de surpresa.
Segundo a narrativa do alferes Andrade, sob um sol escaldante do meio-dia o grupo orienta-se pela bússola seguindo silenciosamente em direcção ao objectivo.
Na frente seguia um soldado moçambicano, o cipaio Guiguira, que iria servir de intérprete para o caso de haver contacto com o 'IN' ou com algum elemento da população.
E é Guiguira o primeiro a detectar um guerrilheiro que, envergando farda caqui, caminhava descontraído, com a arma a tiracolo e um rádio portátil na mão direita. 
A captura
A tropa portuguesa imobiliza-se enquanto que o guerrilheiro continua descontraído a avançar na sua direcção, com o rádio a transmitir 'uma bem ritmada marrabenta'. 

 De repente Guiguira pára. Fica imóvel. Deve ter avistado a base. Faço o clássico sinal de inimigo à vista e o pessoal recolhe-se. Guiguira continua imóvel. Parece hipnotizado. Sigo o seu olhar e... congelo: vem lá um guerrilheiro!

Alferes Jaime Andrade

Com a distância a encurtar-se, o guerrilheiro de repente imobiliza-se e descobre a presença da tropa portuguesa.
Segundo o relato do alferes Andrade à BBC, o guerrilheiro 'deixa cair o rádio, tenta a arma e lança-se numa corrida em ziguezague' para escapar às balas e desaparece entre a vegetação.
Com todo o ruído que envolveu este recontro estava definitivamente estragado o efeito surpresa para o assalto à base.
Os portugueses procuram o guerrilheiro e encontram-no ferido numa perna e só depois de lhe prometerem que não o matariam é que ele se entrega. 
O rádio
O guerrilheiro é aprisionado e são-lhe administrados os primeiros cuidados médicos necessários para os ferimento numa perna e no calcanhar, que não são graves.
Foi então nessa altura que o comandante da força de assalto portuguesa se apodera do aparelho de rádio, que considera um troféu de guerra.
A operação prossegue depois mas já sem o efeito surpresa e, quando a tropa portuguesa entra na base, só encontra população-- alguns elementos idosos mulheres e crianças -- e pouco material importante.
Os ruídos provocados pelo encontro com o 'homem do rádio' tinham alertado os guerrilheiros da Base Beira que, em vez de fazer frente ao inimigo, preferiram pôr a salvo 
 Al III rodesiano 
todo  equipamento e documentação importante.
E depois de uma noite 'na mata' e de uma longa caminhada, a tropa portuguesa com o pouco material que conseguiu encontrar, com o prisioneiro e elementos da população, é transportada de novo nos hélis rodesianos para o Tembué.
Quem é o dono do rádio?
Muitos anos passaram desde a guerra colonial e o Jaime, o antigo alferes Andrade, foi tomando consciência de que não era o legítimo proprietário do rádio.
O aparelho foi sempre muito estimado, encontra-se em perfeitas condições e o Jaime quer devolvê-lo, precisando para isso de identificar o antigo guerrilheiro ou algum familiar para o contactar. 
O dono do rádio... 
Para isso são importantes os dados referentes à operação, nomeadamente o local e a data em que ocorreu.
O golpe de mão contra a Base Beira, junto ao rio Kapoche, decorreu dentro de uma operação muito mais ampla denominada Equador.
O grupo do alferes Andrade partiu do acampamento de Tembué e para lá regressou no final do ataque à base da Frelimo.
Pontos importantes:
Data: 17 de Setembro de 1968
Local: Base Beira, junto ao rio Kapoche, na província de Tete.
Factos: o guerrilheiro estava armado com uma arma automática, uma pistola-metralhadora PPSH de fabrico chinês, e no final foi evacuado num helicóptero rodesiano (como se vê na imagem inicial).
Quem tiver alguma informação sobre o guerrilheiro em causa ou algum familiar seu poderá contactar-nos através do nosso website (no lado esquerdo da nossa página clique em Contacte-nos). 
Um rádio, um guerrilheiro da Frelimo e um soldado português...


28 Janeiro, 2011




quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O ALOUETTE III 9380

Provavelmente alguns dos frequentadores do Blog pilotaram, voaram ou trabalharam no helicóptero Alouette III, que teve na Força Aérea Portuguesa a matricula 9380.
A sua historia sucinta:
Acabado de fabricar pela Sud Aviation em Marignane, Marselha no dia 19 de Janeiro de 1971, chegou às instalações das OGMA em Alverca no dia 20 de Fevereiro. Após preparação para envio para a 2ª Região Aérea, Angola, por via marítima, embarcou no navio “Bailundo” em 15 de Abril, tendo como destino a Esq.94 a operar a partir da BA-9, Luanda.
Após montagem deste helicóptero nesta unidade, encontrava-se pronto para operações no dia 3 de Maio do mesmo ano. É possível verificar que no dia 18 de Junho se apresentava na configuração de heli-canhão, armado com o MG-151.
Transferido para o Leste de Angola (ZIL), ingressou na Esq.402 “Saltimbancos” a voar a partir do Aeródromo de recurso do Luso. 
Em 22 de Julho de 1972, tem um primeiro acidente na pista do Aérodromo de Cangamba, resultante de colisão na rolagem, com objecto no solo. 
Posteriormente recuperado, retoma operações a partir da BA-9, até que em 14 de Setembro de 1973 é vitima de novo acidente em Caluaco, onde teve colisão em voo com o AL-III “9294”, em voo de Quicabo para Luanda.
Novamente recuperado é uma vez mais integrado na Esq.94 onde mantém a operacionalidade em Angola até meados de Abril de 1975. 
De volta à Metrópole é sujeito nas OGMA à sua montagem após transporte e Inspecção das 400 horas em 24 de Maio. 
Atribuído ao G.A.H (Grupo Aéreo de Helicópteros) na BA-6, Montijo em Maio de 1977 voa nesta unidade até ser atribuído à Esq.552 na BA-3, Tancos em Novembro de 1979. Em 22 de Abril de 1981, tem novo acidente ligeiro na zona das Panasqueiras, Covilhã. 
Considerado como excedente para uso na FAP, é vendido à Heliserviço em Abril de 1987.
Foi posteriormente vendido para França onde obteve o registo F-ODTE e mais tarde F-GEPF; mudou novamente de dono, emigrando para o Equador onde obteve a matrícula HC-BOB.
Mais tarde voltou para França com o registo F-GEPF, apenas para ser vendido pouco tempo depois a Espanha com a inscrição EC-FEM.
Em 1991 voltou para França como F-GIQL, onde passou nove anos até ter sido finalmente vendido à firma Sueca, Helinord AB em 25 de Maio de 2000, onde com a matrícula SE-HTH, ainda voa nos nossos dias, sendo utilizado para transporte turístico e trabalhos aéreos.
Historial da aeronave apresentado pela Helinord:

Ao fim de 42 anos de actividade aérea, muitos de vós poderão relembrar como era voar no 9380 através da visualização destes magníficos vídeos.





Abraços







Mário Dinis

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O SUSTO NA VIAGEM PARA O NEGAGE



Naquele dia que ia sendo fatídico, 11 de Agosto (irra, logo o 11!!!) do ano de 1969 ( eu não digo? só me saem duques!!!) descolou, da BA9, em Luanda, uma máquina fabulosa, um NordAtlas 2501, carregado de passageiros militares e suas famílias com destino ao AB3-Negage, com o intuito de efectuar o trajecto Luanda,Tôto, Negage/Maquela e S. Salvador. Esta é a vida bela que leva o aviador...
O avião, levava ainda alguns kilitos de carga, a meio da fuselagem, sendo que os passageiros iam sentados naqueles bancos de lona "suma-uma", dispostos de ambos os lados da fuselagem e da frente até à cauda, super confortáveis, em tudo semelhantes às cadeiras da 1ª. classe de um Jumbo (a dita classe executiva, onde se comia lagosta, caviar e outras iguarias, bem regadas com brancos e tintos portugas, de
altíssimaqualidade - falo com experiência própria - Champanhe, Porto, Cognac, etc!!!); só que, na FAP, não havia estes requintes atendendo ao facto de a viagem ser demasiado curta...hihihihihihihihihi
A tripulação do cockpit era composta pelo Cap. Martins Rodrigues, comandante da aeronave, tendo como coadjuvante o Copiloto Pinho ( o mailindo, o "Je" e o Flight Engeneer mecânico de vôo Fernandes ( O Bordelais, por ter nascido em Bordéus-França, a quem eu carinhosamente tratava por "sim-sim", visto que ele tinha um "tic" que fazia que ele abanasse a cabeça de cima para baixo, como se estivesse a responder a alguém, sem emitir som!!! Que será feito desse amigão?)
Como eu dizia, a bordo do Nord não havia essas mordomias....
O Nord estava equipado com UM SÓ Horizonte Artificial do lado do Comandante, do lado do Copiloto estava um buraco (o horizonte tinha ficado na praia em Luanda e não lhe apeteceu ir ao mato...hihihihih), os restantes instrumentos estavam lá, só que a MAGNAFLUX - a bússula do lado do "Skeeper" respondia com cerca de 30º de atraso em relação à do Copiloto!? Todo o resto estava nos conformes !!!
Só que, sabendo-se que o tempo no Negage estava para piloto de Cat III e não de Cat I (Cat III tem visibilidade em frente de 150m e tecto de 50' e Cat I tem visibilidade = ou > a 10Km e tecto de 200', por aqui já se pode ver a diferença)...
A MAGNAFLUX do Copiloto estava a trabalhar como manda a sapatilha.
Chegados ao Negage, quem é que dizia onde estava? Tinha ido a banhos...e vai de fazer uma aproximação GCA à Pista 14 (parece, que essa este o QFU da dita, naquela época) se eu fosse papagaio das TV's diria "naquela ALTURA"...cambada de "burróides"...


Tudo pronto, QNH introduzido e checado entre os dois altímetros, e aí vamos nós, "cantando muito bem calados", pela ladeira abaixo dada pelo GCA. A Altitude Mínima do Negage, para uma aproximação GCA era de 4105'. a 4730', olhando para fora, comecei a ver, por uns buraquitos entre as nuvens, que a terra estava muito próxima de nós e a coisa começou a cheirar-me a esturro...tendo disso dado conhecimento ao "skeeper", que continuou, logicamente, a descer segundo as indicações do Radar GCA e em cujo operador confiámos.
Mas, como filho único (pelo menos oficialmente, visto que a minha "velhota" já tinha "partido" quando eu tinha 22 meses de idade...parece, que o meu "velhote" "fabricou" qualquer coisa na Venezuela, mas isso foi problema dele !!! Actualmente sou órfão de pai e mãe e já não há remédio para o caso...hihihi
Comecei, portanto, a desconfiar que havia por ali algo de muito errado?!       
Comecei a mexer-me na cadeira e a não sentir-me bem, a olhar cada vez mais para fora e, a cerca de 4350', saindo da base inferior da nuvem, encontro-me dentro de um funil, num buraco rodeado por terra a toda a volta!!! A minha reacção imediata foi de "puxar o manche", tentando sair dali e visto que tinha velocidade para isso! O Fernandes que, sem dizer nada, estava tão atento ou mais do que eu à manobra, enfia com as manettes todas à frente (deve ter metido os 1200 cavalos em cada um dos motores!!!); o "pássaro" meteu o nariz em cima e, naquele momento, disse para comigo: porra, desta já me safei...e os outros lá atrás? De imediato, batemos com as rodas do trem principal MESMO na lomba do morro, sofrendo um empurrão para cima, como se fosse o sopro de uma explosão !!! O avião continuou a voar e a subir.
Nesse momento, o Cmt, que estava "agarrado" aos instrumentos e que de nada se tinha apercebido por tudo se ter passado tão rapidamente, começou a puxar ainda mais o manche, ao que eu lhe disse "LARGUE ESSA MERDA!!!" ao que ele obedeceu imediatamente! Para quem não sabe, a bordo de uma aeronave, as vozes devem ser dadas com firmeza e clareza e, em casos como este, com um berro, foi assim que nos safámos!
Logo que o Fernandes "meteu motor aos copos" e eu puxei, recolheu o trem e os "flaps", passei os comandos ao Comandante e vi, através de um buraco nas nuvens, que estávamos a passar por cima da estrada Negage-Púri, muito antes da Pista!? Ora, isto levou-nos a concluir que o operador do Radar-GCA se enganou na selecção do Range (alcance) do Radar e nos mandou descer muito antes, isto é, em vez de pôr o range nas 25 milhas, pôs o mesmo nas 50, mandando-nos descer muito mais longe, onde as montanhas eram mais altas!?
No momento em que cruzávamos a estrada Negage-Puri ouvi o operador do Radar dizer..."se calhar já bateram"...ao que lhe respondi que ainda estávamos a voar, que batemos no chão, mas que ainda estávamos TODOS vivos, queríamos regressar a Luanda por desconhecer o estado em que o trem se encontrava e reserva de nível de voo 60(seis zero = 6000' - com 29.92''HG = 1013.25 HectoPascals = antigos Milibares). 
O "skeeper", que era todo religioso e tinha tirado o curso "DECOLORES" da OPUS DEI, desatou a beijar a cruz de Cristo, quando se apercebeu da situação, estava eu ainda com os comandos na mão! E tinha motivo para isso: voar naquelas condições, com mau tempo, um avião INOPERATIVO, debaixo de "stress" que era apanágio de todos nós, não era caso para menos! No meu caso, possivelmente eu teria feito o mesmo... respondi-lhe, com um sorriso de gozo espiritual que, embora não tivesse comigo nenhum crucifixo, DEUS estava sempre presente na minha cabeça e que nos safámos devido a Essa Magistral Divindade!!! 
Pouco depois, pedi-lhe desculpa por lhe ter dado aquele berro e ter-lhe tirado os comandos das mãos, o comandante é sempre o "Dono e Sr. da aeronave, respondendo por isso em caso de acidente.
Seguimos viagem para Luanda, o Comandante da Base 9 estava à nossa espera, ao lado do Mercedes preto (Cor.Pil.Av. Rosa Rodrigues), com aquele ar risonho de satisfação de homem muito experiente e calejado da Busca e Salvamento nas B17, nos Açores, olhou-nos e cumprimentou-nos com um apertado abraço.
Estava completa uma das "pernas" desse voo, que seria completado na totalidade, com outro avião nessa mesma tarde, comandado pelo Cap.Pil.Nav. Pina Teixeira.








Piloto 60/70, na FAP; de 71 a 2000 na TAP(em 97 reintegrado na FAP)

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

CONVERSAS NA CIDADE Nº.6


Nota Introdutória

     Altas horas já passadas, e a tasca do comerciante continuava a servir de hospedagem aos bem-falantes aeronáuticos. Estavam pousados nas cercanias do Cine Chikapa, naquela avenida onde se situava a pastelaria Bonina, a D.G.S., a J.A.E.A….Lá bem nos limites ocidentais da cidade Saurimense.   
 Mas… o “Marrador” vai colocar os personagens em plena sessão… Tomem gosto pela conversa fiada dos “gabirus”!...
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Marrador – Depois do “marufo” entornado, da “tapioca” comida, e fumada a “liambada” na tasca do “fardex”, eis que os nossos leõezinhos ressonavam sem rosnar. Tão aéreos, tão apáticos, caíram de cú nas palhinhas…mesmo à beirinha da sanzala!... E, agradecendo ao dono amigo, a bela estadia…partiram para outras explorações, aproveitando a “pikada” sanzaleira já muito conhecida pela velha tropa dos “zingarelhos”. Escutem-lhes a canção, o lenga-lenga acostumado deste duo atribulado.

VITO – A “tapioca” estava picante!...
JOCA – E a “catchipembe” matava ratazanas!...
VITO – Hummm!...Este paladar na língua!... Seria da “liamba” mal curada?! Ou, da “mutopa” entupida?!...
JOCA – Entupido ando eu. Preciso “genisticar” o órgão. Senão, ainda rebento.
VITO – Com o teu “béu-béu” estás a dar-me ideias!...E se fôssemos até à Barragem do nosso amigalhaço Capelão?
JOCA - Pelo circuito da Sanzala de S. José?
VITO – Pela rota acostumada – cubata do Soba, para sabermos novidades da aldeia, pelo bananal, para a fotografia habitual, pelo rio, para apreciar as “mwanas phwos” e para mirar as provas olímpicas de mergulho, pelo centro das palhotas, para escolher os “cafécos” e ver a malhação no “pirão”.
JOCA – Já a tinhas estudado!... Estou a ver-te nos precipícios…Primeiro, na “cubata” do “muatan” para dissipar as calorias. Segundo, foto no bananal, para dizeres onde estiveste, armado em garanhão. Lavadeiras, com os “nés-nés” ao léu…, malhação do “pilão”?! Esta, não estou a situar?!
VITO – No pirão. És gago? Trocas os “L” pelos “R”? Será ainda o efeito do “malufo”? E as provas olímpicas, esqueceste de referi-las?!...
JOCA – Pois, enganei-me, queria exprimir a passagem de modelos com os “cafécos” de tanguinha!... Ou, sem ela!...
VITO – Com estas maldades todas, mentes turvas, acabamos por nos termos que confessar na Barragem!...
JOCA – Não. Lá não há confessionário. Só carrossel, baloiço eléctrico, jangada a vapor e formiguinhas de asa nos morros de sete andares. Estância balnear!...
VITO – Sabes trepar aos morros? Nalguns será preciso um escadote. Os bichinhos são pequenos, mas fazem prédios com vários andares. Formiga de asa, morros históricos…

Marrador – Os “ papa – léguas” caminhavam para o Norte. Passaram junto ao cemitério da cidade, tiraram a foto da praxe junto à grande bananeira – limite fronteiriço da sanzala e que dava para o desfiladeiro da Barragem. Antes, beijaram a mão ao grande “soba”, na cubata mor, fotografaram os “cafécos” e “cafécas”, e refrescaram os pés junto às lavadeiras do ngiji. Deitaram as suas graças às “tusulas”, e prosseguiram atalho até à dita Barragem construída pelas mãos do grande engenhocas religioso.

JOCA – Oihhh…Já avisto os “corvos” no balancé!...
VITO – É o Capelão, e gente da nossa “guerra” juntamente com os “cambutas”. Está tudo numa animação desgarrada. A Barragem sempre produz energia! Até oiço música de grafonola!...
JOCA – São as “kai” a balirem.
VITO – Cabras?! Aqui?
JOCA – E, são brancas.
VITO – Bem, estão com o Capelão…Estão isentas de pecados!...Vamos lá a ver se existem umas “bjecas” frescas!...
JOCA – Se há “corrente”…há energia. Se há energia, há geladeira. Se há geladeira, há bebida…
VITO – Se há, há…Se há, há!... Conversa de “chacha”!...
JOCA – Gaita!... Se não houver, tens a frescura dos morros das formigas. Cura-te. Vês o carrossel a girar? Afinal, temos o inventor “pardal” em África. Canal de água, Barragem, turbinas a funcionarem, produção de energia, luzes acesas, e divertimento para a pequenada. Sim senhor!...
VITO – Tira aqui umas fotos para enviarmos à “famelga”.
JOCA – Aqui, junto ao canal. Aqui, junto aos morros ou, com o Capelão como companhia, e também no “citulu” “apalhadado”.
VITO – Vê lá se “atacas” os sapatos depressa. Parece-me que estás a catar a “bitacaia”!...

Marrador – Depois de uma alongada com o “genérico” Capelão, soldadesca espacial e,canhikas” da cor de breu, eis que os veraneantes de fim-de-semana se colocam por discernir sobre a nova etapa a palmilhar. E, porque parar é morrer, havia que dar novo rumo ao dia…“
JOCA – Tal e qual o combinado, seguiremos até à piscina. N´est-ce pas?
VITO – Ohhh…Ouiiii!... Les petites filles sont belles !...
JOCA – Hummmm….Estás a imaginar já as meninas do Liceu a nadarem na piscina?
VITO – Circundamos o Liceu, torneamos a Capela, encetamos pela Avenida das Mangueiras, Campo da Bola, e penetramos, penetramos, pelos bambus.
JOCA – Penetraremos. Penetraremos na caminhada triunfal!... Mas, no túnel, no túnel dos bambus…consta que há lobos maus?!... UUUhhh…
VITO – Só papam meninas solitárias!...
JOCA – Esses lobos, conheço-os eu!... Alguns até andam fardados!...
VITO – Juízo na tola..Vê lá!…Acabaste de receber um alqueire de catequese com o Tenente Capelão e não te emendaste?
JOCA – OK. OK… Só natação!... Nadar, nadar. “Kha”!... Já não falo mais!...
VITO – Só natação e…só te faz bem. Não andas perro da tripa? Movimenta-te. E, o lobo mau, sou eu!

MarradorBambus, só bambus!... Terminada a avenida das Mangueiras, entrava-se na arcada das canas grossas. Todos os “franganitos voadores” tiravam a sua foto nestas paragens. Aqui, e junto à estátua do grande sertanejo, defronte à Capela. Deixemo-los caminhar para a fonte refrescante…

JOCA – Há dias passei por estas bandas com duas “canhicas” minhas conhecidas do teatro.
VITO – E…e….?
JOCA – E tínhamos ido tomar banho ao rio. Fazer um picnic à nossa maneira.
VITO – E… e….?
JOCA – E, ensaiámos a peça teatral!...
VITO – Até os crocodilos do rio cantaram em coro, certamente!...
JOCA – Mudando de tema, eis aqui à nossa frente a “turbe” dos asas caídas. Uma vintena a fazer das suas palhaçadas!.... A nossa tropa anima toda a cidade.
VITO – Olha, olha-me para aquele mergulhador! Melhor do que os “matumbitos” do riacho.   Olímpico em Munique.
Tal e qual o Mark Spitz,
JOCA – O das medalhas? Não tanto, mas também dá nas vistas!...
VITO – E, os dois do escorrega? Quem são?
JOCA - Sei lá!... Estão a alisar o zinco, tirar as farpas ao estrado. Não sabem nadar, e estão no disfarce!...
VITO – Outro mergulhador, classe!... Só competências para as meninas verem!...
JOCA – Peneirice azulada!... Não, aquele não é azul . Aquele é verde.
VITO – Arre…macho!...
JOCA – Arre!...
VITO – Vamos molhar o “trancoso”? Estão ali as nossas colegas à nossa espera!...
JOCA – Já topei. Estão a fazer que estudam, mas sempre a olharem para o “despe-despe”.
VITO – Calma. Respeita a Terezinha e a Suzete. São filhas da nossa “sargenteada”!... E, não só!
JOCA – Sim, a paisagem neste filme é superior à das quedas do Chikapa. Lá, só há barbudos!...
VITO – Muitos namoros se iniciam aqui!... Água morninha, tardes alongadas, caminhada pelo arvoredo,…tudo no compasso certo!...
JOCA – Joga a experiência já vivida, no fim de comissão!... Sempre os mesmos lugares já pisados tantas vezes!...
VITO – Como será num futuro longínquo?!... Teremos recordações destas paragens?!...

Marrador – Mais uma tarde que os nossos convivas passaram na piscina, juntamente com tantos outros companheiros de guerra, e pelas cidadãs da nobre cidade de Saurimo. Sempre os mesmos circuitos, sempre a mesma conversa, sempre os mesmos acepipes!.... Ao longo de vinte e tantos meses ou, mais!.... Envelhecia-se lentamente, amadurecia-se e,….Desfrutava-se ….Quando alguém o permitia!...
E, AGORA?!...
- Onde está o nosso Cabo
- Esse bravo do passado
- Da heróica aviação?!
- Que até com fato emprestado
- Parecia Homem honrado
- Mas no bolso, sem tostão!
Língua Quioca
Canhika  – jovem
Marufo – vinho feito da fermentação da seiva da palmeira
Malufo – vinho
Tapioca – papa de farinha de mandioca granulada e doce
Catchipembe – aguardente
Liamba – tabaco
Mutopa – cachimbo de água
Muatan – senhor
Pikada – caminho africano de 3ª. categoria
Tusula – rapariga
Kai – cabra do mato
Ngiji – rio
Citulu – chapéu
Mwana phwo – lavadeira
Kha – não
Bitacaia – parasita dos pés
Cubata – palhota
Cafécos – jovens
Kambuta – pequeno
Bjeca – cerveja
Matumbo – inculto

Anotações:
Teresinha – Jovem cidadã da cidade
Suzete – Filha de Sargento da FAP

Fotografias:
Recolha no “nosso” Blogue

Versos:
Fado do Especialista – Versos enviados por Álvaro de Jesus

 Até breve o amigo