quinta-feira, 14 de março de 2013

HISTÓRIAS VIVIDAS - A MISSÃO QUE NÃO CUMPRI...!


A Missão que não cumpri...!
A todos os mecânicos especialistas que em África serviram voando ALIII !

Poucos mecânicos de voo foram reconhecidos publicamente pelo seu espírito de missão, sacrifício e coragem demonstrados em combate!
Esta singela homenagem que lhes presto, na pessoa do meu mecânico de vôo, pretende colmatar essa lacuna na parte que a mim diz respeito.
De facto o protagonista deste episódio representa bem tudo o que essa classe de especialistas tinha e mostrou de bom!
Formiga

Por  terras  do  Fim  do  Mundo
1968! Gago Coutinho (actual Lumbala N`guimbo) era a sede do Batalhão de Caçadores 19..!
A “Batalhoa” como as tripulações da Força Aérea ali destacadas o apelidávamos pelo seu fraco desempenho em operações!
Era também sede um dos dois destacamentos aéreos (DC ”G”) no Leste de Angola. Os meios aéreos atribuídos permanentemente, eram, um helicóptero ALIII da Base Aérea 9 (Luanda), dois T-6 Harvard e um Dornier DO-27 do Aeródromo Base nº4 (Henrique de Carvalho/Saurimo). As respectivas tripulações eram substituídas quinzenalmente... se não houvessem surpresas!
O Renato e o Estima eram dois dos pilotos do AB4 que habitualmente ali estavam destacados e com quem me encontrava regularmente nesse destacamento compartilhando o prazer de passarmos juntos 15 dias naquele cu de Judas.
A repetição das mesmas caras na rotação dos destacamentos queria apenas dizer que éramos muito poucos e na prática eram sempre os mesmos destacados! Este facto contribuiu muito para uma sólida camaradagem que perdurou ao longo dos anos e que o tempo não consegue destruir.
Recordo com saudade a designação carinhosa de “helioto”, com que o Renato me brindava pretendendo significar piloto de helicóptero e da sua recusa brincalhona de entrar dentro do meu helicóptero ainda que estivesse no estacionamento! Esta camaradagem estendia-se igualmente aos mecânicos já que,como foi tradicional da Força Aérea, sabia-se fazer a distinção entre serviço e “conhaque”.
Gago Coutinho em 1969 - foto de Gonçalo de Carvalho

Análise  da  situação 
No período a que este episódio se reporta (1968), a actividade aérea no destacamento de Gago Coutinho não era muito intensa. Não só porque a carência de meios assim o determinava mas também porque não existiam objectivos que a justificassem. Tal situação dava para que o pessoal ali destacado pudesse acalmar dos momentos de maior tensão que se viviam no Norte de Angola!
A guerrilha não estava definitivamente instalada no Leste! Servia sim de porta de entrada aos movimentos de libertação provenientes da Zâmbia que tinham total apoio do governo de Lusaka. Era excepção à pouca actividade, o trabalho de acção psicológica da UNITA levada a cabo junto das populações pelo seu líder carismático Jonas Savimbi. Deambulava, ao longo das margens do rio Lungué-Bungo, afluente do Zambeze entre os seus apoiantes com os quais se identificava, vivendo entre eles.
As operações militares não eram muitas mas esporadicamente o Comando do Sector Leste pedia à Força Aérea missões para transporte de carga, evacuações sanitárias e eventualmente, de reconhecimento quando as informações recebidas careciam de confirmação no terreno e a sua importância o justificava.
A essa data a actividade do batalhão sediado em Gago Coutinho, resumia-se a operações de patrulhamento, de protecção a colunas militares para reabastecimento dos seus destacamentos como eram os casos de Sete, Mussuma e Muié.
Em Ninda, uns quilómetros a Sul estava destacada permanentemente uma companhia de páraquedistas.
Estes conhecimentos da ordem de batalha do Batalhão que os “aviadores” adquiriam, eram resultado da convivência forçada pela partilha da camarata (a vala comum!) para oficiais subalternos e sargentos do Batalhão.
A esse tempo a Força Aérea não tinha instalações próprias como seria de toda a conveniência para um adequado descanso das tripulações.
Na verdade o pessoal do exército não tinha necessidade de dormir cedo por não terem missões inopinadas, ao contrário das tripulações da Força Aérea, que tinham que manter um estado de prontidão mais elevado, pois a todo o momento poderiam ter que descolar para uma missão.
Acabávamos por adormecer embalados pelas conversas, pelo “cantar” do pessoal do posto de rádio, que passavam uma noite inteira a soletrar o alfabeto fonético na transmissão das mensagens e também pelo ruído do motor-gerador de electricidade. Funcionavam como soporíferos. A paragem do gerador inesperada a meio da noite provocava uma verdadeira emergência. Toda a gente acordava sobressaltada pelo “silêncio incómodo” que essa paragem provocava.
As tripulações de helicópteros e aviões ligeiros eram constituídas por gente muito jovem, marcados pela dureza da vida em constantes operações por todo o território de Angola.
A título de curiosidade recorde-se que Angola tem uma superfície de 1 milhão e 300 mil km2, ou seja 14,5 vezes maior que Portugal Continental e que no ano de 1968 a única esquadra de helicópteros em Angola chegou a um mínimo de nove pilotos (e poucos mais mecânicos de voo) sendo que três estavam nos destacamentos permanentes de Cabinda, Cazombo e Gago Coutinho.
Admitindo que poderia haver alguém de licença de férias, podemos imaginar o esforço que era pedido aos restantes.
Sujeitos a perigos e incomodidades constantes, estavam endurecidos pela vida, mas como qualquer mortal, também tinham um coração que palpitava e que em determinadas situações se deixava tocar pela emoção!
Capazes da maior violência quando se tratava de garantir a sua sobrevivência, tinham também momentos de desespero e raiva por não conseguirem minorar a dor de quem sofria.
Foi o que nessa missão aconteceu. Mas deixemo-nos de amolecimentos e vamos aos factos da nossa pequena história!

A  Missão
O Comando Militar do Sector Leste solicitou através do Batalhão de Gago Coutinho um reconhecimento armado para  “localizar e/ou destruir se possível, um grupo de guerrilheiros armados infiltrados em território nacional, vindos da Zâmbia, ao longo do rio Mussuma….”
E como missão secundária o pedido prosseguia:
Caso não seja localizado grupo In, capturar na área, elemento da população que eventualmente possa fornecer informações sobre o referido grupo.
O episódio simples e operacionalmente insignificante que a seguir se descreve passou-se no leste de Angola, a meio da tarde, junto da fronteira com a Zâmbia, entre as localidades de Gago Coutinho e Mussuma, na execução do pedido de reconhecimento atrás referido pelo Comando Militar do Sector Leste (Luso).
O pedido era resultado do trabalho da rede de informadores indígenas ao serviço da DGS. Era garantidamente seguro!
A acção teria que ser efectuado em helicóptero armado, por força dos requisitos expressos no pedido. Mas neste caso era uma figura de retórica, já que as únicas armas a bordo eram a espingarda G3 do mecânico e a pistola Walter do piloto.
A típica savana do Leste de Angola abaixo do caminho-de-ferro, que cruza Angola desde o mar até à Zâmbia, é um extenso planalto de mata pouco densa, ou coberta de capim alto. É atravessada por uma rede extensa de rios muitos dos quais afluentes e subafluentes do Zambeze, Lungué Bungo, Cuito-Cuanaval e Cuando-Cubango.
Tinham como característica comum, leitos relativamente estreitos e sinuosos descrevendo “ésses” preguiçosos e sucessivos como que pretendessem retardar a chegada ao seu destino. Nas margens larguíssimas podia-se encontrar toda a espécie de fauna.
Iniciado o voo de reconhecimento, aquela vasta zona plana junto à fronteira tinha muito pouco arvoredo. De onde em onde tufos densos de arvores de grande porte, quais pequenas ilhotas no meio de um mar de capim! Nessas “ilhotas”, muito separadas umas das outras o arvoredo denso não deixava ver nada abaixo das suas copas, obrigando a que a missão de reconhecimento de que estávamos incumbidos, estivesse a ser efectuada com extremo cuidado, “saltando” de uma para a outra, contornando-a à procura de inevitáveis vestígios da presença humana (trilhos deixados pela sua passagem no capim).

O  Meu  Mecânico  de  Vôo
Quando em operações, o MMA era também electricista, mecânico de rádio ou atirador, e o desta missão era bem conhecido pela frieza com que encarava as missões de fogo.
Disparava à ordem ou pedia autorização para o fazer para que tudo fosse muito coordenado; e a sua precisão de atirador era impressionante. Era o resultado da já longa comissão de serviço e do muito tempo em acção.
Imperturbável, dava a confiança necessária a quem, pilotando um AL-III numa missão de fogo, apenas podia operar a “máquina”. A equipa que tinha que estar muito bem “oleada”!
O voo decorria algo monótono, já que o terreno era muito aberto, com excepção dos já referidos tufos de arvoredo que poderiam constituir um excelente local de refúgio, para um pequeno grupo armado que por ali se encontrasse e não quisesse manifestar-se.
De repente quebrou-se o silêncio e em simultâneo “saiu” pela interfonia: 
-  Fumo “às 11 horas”!
-  Fumo à frente, diz o mecânico!
Usa-se, para mostrar a outrem sem perda de tempo a direcção de algo que se queira indicar, o sistema do mostrador do relógio. Para isso, imaginando-nos no seu centro e convencionamos que a direcção do voo é direcção das 12 horas. Informamos então quem necessita saber, que esse algo que se avistou, está às 9 horas (de lado, à nossa esquerda), às 11 h (ainda à esquerda mas num sector frontal) às 2 h (à frente e direita) ou às 4 h, (à direita mas já ligeiramente para trás).
A cerca de duas milhas vimos começar a sair da copa das árvores de um desses tufos uma pequena coluna de fumo, não muito denso, resultante sem dúvida do apagar repentino de uma fogueira. Era indubitável que havia ali alguém que ouviu o helicóptero mas que não estava interessado em se deixar localizar. Mas cometeu um erro. Ao apagar a fogueira provocou mais fumo do que se a tivesse mantido acesa. Poderia acontecer até que nos tivesse passado despercebida.
Recentemente (2002) em conversa com um ex-combatente moçambicano foi-me dito que das muitas dificuldades que um guerrilheiro tinha que enfrentar no terreno, uma das maiores era o problema da confecção da alimentação. O fumo de dia e o brilho das chamas à noite eram a grande preocupação, para não serem localizados pela Força Aérea.
Confesso que nunca tinha pensado no assunto sob este ponto de vista.
Voámos em direcção ao fumo e no capim ligeiramente amassado, (muda de tonalidade) distinguia-se um trilho pouco marcado que levava em direcção ao arvoredo, o que significava que se tratava de não mais que uma ou duas pessoas, que não habitava ali em permanência e tinha sido o resultado de recente acesso ao local.
Era assim pouco provável que se tratasse do grupo, mas tendo em consideração a credibilidade da informação, a aproximação aquele local passava a ser perigosa pelo que tinha que se revestir de toda a a precaução. Isto porque no reconhecimento visual em zonas arborizadas, a vantagem pertence a quem está no solo, já que pode ver sem ser visto e um simples tiro de arma ligeira pode abater o helicóptero.
Quem quer que ali estivesse, já nos tinha ouvido e estava de sobreaviso. Havia que não ser apanhado de surpresa pelo fogo adversário. Decidi por isso passar em velocidade, fazendo fogo para o local. Numa segunda passagem, se não tivesse havido reacção, passaria em vôo lento para tentar ver por baixo da copa das árvores.
E foi assim que, depois de algumas rajadas de G-3, regressando à vertical avistámos alguém saindo a rastejar da mata e evidentemente ferido. Pela vestimenta era uma mulher. 
Sem qualquer palavra entre nós, e sem pensar em consequências, decidi aterrar. Fiz estacionário o mais perto possível dela e aterrei “apalpando” o terreno por baixo do capim. De pronto o mecânico saltou, desarmado, e correu ao seu encontro. Senti uma vibração no rotor de cauda e depreendi que estava a cortar capim. Sorte! Nem sequer pensei no acidente que poderia ter ocorrido na precipitação da aproximação, mas felizmente não havia qualquer obstáculo escondido.
Regressou com uma jovem mulher ao colo, ferida, pernas bamboleantes agarrando um filho de meses contra o peito.
A imagem ainda hoje me choca. Com tristeza e desânimo a invadir-me um nó na garganta decidi “abortar”aquela missão.
Merda de missão! Não estava preparado para esta situação !
Olhei para trás antes de descolar para me certificar do que se passava. Porta traseira aberta, uma perna de fora, o mecânico sentava-se no estrado do heli cobrindo-lhe as pernas com a própria “capulana”, ( pano com que as mulheres africanas se cobrem e lhes serve simultaneamente de blusa e saia ).
Usam normalmente uma segunda, com que amarram o filho às costas enquanto trabalham ou caminham. 
A sua posição não era segura mas compreendi que estava a tentar proporcionar-lhe o conforto possível na ocasião: o seu abraço seguro e sentando-a entre as suas pernas!
Os ferimentos da mulher eram graves, a avaliar pela mancha de sangue na sua “capulana” que lhe envolvia as pernas, deixando-a com um tronco desnudado.
Quando a encarei, muito jovem, o seu rosto não deixava transparecer o mais leve esgar de dor como seria espectável.
Estava calma a contrastar com a impaciência manifestada por nós ambos.
Segurava contra o peito desnudado o filho com uns olhos negros, redondos, voltados para mim e que me transportaram dali para Luanda e para a minha filha da mesma idade.
Se alguma dúvida pudesse subsistir em mim quanto à continuidade da missão, aquele olhar dissipou-a de imediato. 
Decidi regressar. Aquela cena perturbava-me.
Sentia dificuldade em controlar as emoções! Inspirava rápida e repetidamente tentando evitar exteriorizar perante o meu mecânico algo que não gostaria de transmitir.
Puta de vida !
Fiz-lhe sinal de polegar erguido. Respondeu de igual modo. Estava pronto! Descolei rumo directo a Gago Coutinho!
E vociferando palavrões que só eu ouvia ia dando palmadas na coxa esquerda, sintoma de que algo não me corria bem! Pensava em muita coisa e também na elaboração do relatório da missão, onde não podia constar esta cena. Era necessário fazer algo por estes dois seres. Alguma coisa havia de me ocorrer.
Por gestos, pois continuava com a ficha do capacete de vôo desligada, o mecânico pedia para que apressasse o regresso apontando-me para as pernas feridas da mulher e fazendo-me entender que era preciso, após chegada a Gago Coutinho, proceder a uma evacuação para o Luso. 
Aí estava a solução para a minha preocupação !
Evacuar aquela mulher era poupá-la a um interrogatório logo na aterragem.
Porém era o entardecer e em breve seria noite. Iria ser difícil convencer o piloto do DO-27 a fazer a evacuação! As evacuações nocturnas não eram permitidas no tipo de aeronaves disponíveis no destacamento, se bem que no Leste fosse tecnicamente fazível. Não havia obstáculos significativos e a identificação das poucas localidades com iluminação era fácil. Em último caso seria uma decisão que só o piloto poderia tomar mas sempre sujeito a eventual sanção disciplinar, se bem que pouco provável.
Para dificultar as coisas, não tinha comunicações com o destacamento – Gago Coutinho não dispunha de facilidades aeronáuticas para além da pista – que me permitissem pedir alguma antecipação na preparação da missão. Em vão chamei pelo Renato e o Estima, para a eventualidade de se encontrarem a voar! Mas não estavam!
Tinha que esperar pela minha aterragem! Por outro lado talvez fosse melhor assim pois não provocaria a curiosidade do pessoal da unidade!
Iríamos ver que rumo as coisas tomariam após a aterragem. Era mais uma missão que chegava, facto que não constituiria novidade no Batalhão.
Esperariam que eu chegasse à sala de operações para elaborar o meu relatório e o mecânico trataria do resto. Não tinha qualquer dúvida de que se iria passar assim.
Pelo caminho constatei o cuidado com que mecânico tratava aquela jovem que minutos antes tinha ferido tão gravemente.
Da parte dela apenas um olhar sereno de quem não compreendia o que lhe estava a acontecer.
Imaginei para ela, o diálogo que ela estaria a travar consigo própria. 
"Afinal ela não estava ali porque o “mais velho” lhe tinha determinado cozinhar para uns quantos camaradas que haviam de passar por ali naquela hora das vinte ?
E que culpa tinha o seu filho das “macas” dos homens. Foi pena ter deixado as “inbambas” (objectos pessoais) lá no mato. Talvez as recuperasse quando voltasse, mas não imaginava bem quando seria! “
Ai estava eu de novo a fazer romance!
A aproximação à pista fez-me deixar para trás estes pensamentos que me incomodavam! Era sinal de consciência pouco tranquila. Iria tomar banho. Talvez lavasse!
Aterrados e parqueados,... ninguém por ali como tinha previsto! Tanto melhor!
O mecânico ao contrário do que era norma desapareceu deixando-nos aos três dentro do heli.
Por sua vez pus-me a preencher o livro do helicóptero (coisa que raramente fazia deixando essa tarefa para o mecânico de vôo), enquanto aguardava o desenrolar dos acontecimentos. Podia acontecer que o mecânico precisasse de mim ali por perto!
Tomou a iniciativa de ir convencer o piloto do DO 27 a efectuar a evacuação, o que a acontecer, iria ser feita de noite.
Não assisti, mas soube mais tarde que houve alguma tensão entre os dois, para que a missão se fizesse. Não sei que argumentos usou, mas foram eficazes.
A evacuação foi feita!
Regressaram aos primeiros alvores do dia seguinte e aterraram numa aproximação directa à pista para não dar azo a perguntas.
E quando o encontrei, já barbeado e em fato de voo camuflado, exibia um ar sério e grave, transmitindo a satisfação de dever cumprido! Tenho a certeza que não tinha dormido!
Cumprimentei-o com o tradicional bom dia ”Luena”.
- “Môio”!
-  Môio óbi! Foi a resposta. E prossegui:
-  Com que então o Sr. C-----. esta noite foi “p`rás gajas”!
Nenhum de nós queria falar do acontecido e esta abordagem servia às mil maravilhas para o efeito!
Falava-se sem dizer muito! Dava para nos entendermos.
- Lá teve que ser Sr. Alferes!....
E perfilando-se num rigoroso “sentido” acrescentou: - Mas “pronto para operações”!
Ele sabia que com esta minha observação, não referindo directamente o assunto, lhe estava a transmitir a minha concordância para a sua atitude de querer acompanhar a evacuação.
Mas sabia mais ! Sabia que lhe estava a dar um louvor pessoal, pois esse é que era importante para ambos.
Também não precisava de lhe perguntar como estava a mulher! 
Isso seria trazer à memória algo que não queríamos lembrar. Sabíamos porém, que ficara o melhor possível, a partir do momento que ficou entregue aos cuidados do incansável pessoal médico e paramédico dos nossos hospitais de campanha!
O mesmo já não poderia garantir se ela tivesse ficado em Gago Coutinho onde iria ser submetida a um interrogatório e onde não teria os mesmos cuidados médicos que no Luso. 
Daí a pressa em fazê-la sair dali. Nunca soubemos o que foi o futuro daquela mãe e filho. Tínhamos tentado compensar um mal que não quiséramos fazer e com o qual não contáramos.
Fui à procura de guerrilheiros armados e saiu-me do nada, o que a natureza humana tem de mais sensível e belo: uma jovem mãe e o seu filho!
Estas eram as contradições que se viviam num conflito no qual, onde a par da violência desencadeada a cada momento, surgia também uma faceta na qual tudo se tentava para minimizar a dor de quem sofria.
E que bem se comportou este guerreiro, habitualmente frio, que era o meu mecânico.
Na FA a prontidão das tripulações foi sempre grande, mas nas evacuações sanitárias era ponto de honra! A disponibilidade era total! Tudo se interrompia para dar lugar à execução da missão!
Face a um pedido de evacuação de feridos em combate a refeição era de imediato posta de lado!
O raciocínio de cada um dos envolvidos na missão era o lógico: Aprontar o que lhe competia porque os outros já estavam a fazer a sua parte!
Pilotos, mecânicos, médicos, enfermeiros, controladores e demais pessoal envolvido no apoio à missão tinham este procedimento!
Todos sentimos um enorme orgulho de ter feito parte dessa geração!
Deste episódio e em jeito de conclusão;
Para os arquivos da guerra, esta missão de reconhecimento foi de facto efectuada…
No relatório de missão ficou registado:
Efectuado reconhecimento na área determinada.
Não foi detectado qualquer grupo, ou vestígios da sua passagem!
E era verdade!
O oficial de operações do Batalhão não perguntou nada! 
E eu, apenas tinha “esquecido” aquela parte da missão atribuída, que rezava:
“… captura na área, de elemento que possa fornecer informações sobre o referido grupo”. 
Porque estava convicto que aquela mulher e o seu filho nada sabiam de relevante que pudesse interessar para a conduta da guerra! 

24 de Abril de 2010

"Formiga" - Major-general Queiroga, Piloto de helicópteros, Angola (1967-1970)

PS.
Este mecânico MMA, tinha um apelido pouco vulgar e glosava sempre que o seu nome vinha a terreiro. E se lhe perguntavam o nome dizia de forma pomposa que era......sim, mas o único autorizado na Força Aérea .




quinta-feira, 7 de março de 2013

OS VOOS DE EXPERIÊNCIA

Cordeiro, dando saída a mais um voo de experiência
Esta era também a ocasião de dar a oportunidade à rapaziada de dar uma volta nas nossas maquinetas. Não consigo recordar-me quem estava comigo neste voo.
Entretanto, lembro-me, que um dia precisamente num voo de experiência à vertical de Gago Coutinho, começo a notar uma névoa e um cheiro estranho dentro do habitáculo. Tudo apontava para um qualquer foco de incêndio. 
Alertei o controle e fiz-me à pista. Pela interfonia, dei instruções ao jovem que estava comigo, recomendando-lhe, que seguisse rigorosamente as minhas instruções, que não havia qualquer problema. Quando estava com todas as certezas de chegar à pista fiz os procedimentos normais, desliguei o motor, mantendo-o sempre informado de tudo para não entrar em pânico. Na altura do toque desliguei os últimos contactos, e mal o avião se imobilizou dei indicações para ele sair. 
Como não obtive resposta e vejo ao lado o Tomaz, que entretanto tinha chegado de motorizada com um extintor (grandes meios de socorro!!!), a rir-se como um perdido é que percebi. O meu passageiro, tinha-se atirado para o chão ainda antes do avião parar. Não levou com o estabilizador de profundidade, porque felizmente mandou um grande tombo!
Quanto ao incêndio não passou de um falso alarme.
Talvez nunca tenha sucedido a ninguém, mas tratou-se de uma fuga hidráulica! É verdade, andamos às voltas e descobrimos que um furo do tamanho de um bico de um alfinete, era suficiente para pulverizar o óleo como fumo, dando-lhe o aspecto de uma neblina. Confundi o cheiro do óleo pulverizado com o de qualquer hipotética combustão.
Nabice ou inexperiência? Não sei !
Se estivesse longe de qualquer pista, seguramente que o meu comportamento teria sido diferente. Ali, com todos os recursos ao meu alcance, não valia a pena estar a tomar outras atitudes.



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O REBENTAMENTO DO PNEU…


Aconteceu em Gago Coutinho.

O manómetro da pressão de combustível do T6 exibia o ponteiro com vibrações/oscilações fora do comum. A recomendação técnica ou sugestão passava pela comparação com a prestação do instrumento do lugar traseiro. Sem oscilações e com trabalhar insuspeito do motor, seria deficiência do instrumento do painel dianteiro. Não era essa a realidade! O MMA no lugar de trás dava notícia dos mesmos sintomas. 
Por teimosia minha ou sugestão do mecânico fizemos duas corridas de descolagem na expectativa de confirmar, ou não, o bom trabalhar do motor, independentemente da limitação dos dois manómetros.  
Com o imobilizar do avião no final de cada corrida de descolagem, compreensivelmente as jantes terão aquecido acima do razoável. Entretanto a relação comportamental era a mesma. Manómetros duvidosos, mas combustão tranquila, os instrumentos exibiriam informação não fidedigna. 
Porque o MMA não estava usando o paraquedas, sugeri-lhe que saísse e fosse para a placa. Vou descolar, vou para o ar , disse-lhe.
Motor nos travões, e quando já em movimento uniformemente acelerado a roda de cauda se liberta do chão e o peso é reflectido nas rodas da frente, o pneu direito colapsou sem que tivesse identificado essa como sendo a causa  para a instabilidade que se seguiu. Havíamos saído da pista. O pneu direito rebentado e a jante rolando na terra batida, portou-se como é fácil de imaginar. O travar nas duas corridas de descolagem terão provocado o aquecimento excessivo das jantes e o pneu em mau estado e aquecido, não resistiu. 
Dirão os mais entendidos que o procedimento, conforme  rol de procedimentos de emergência que aprendemos, seria travão do lado oposto para contrariar o movimento tendencial e compreensivelmente para o lado da roda sinistrada e manche para a esquerda e à barriga para manter a roda de cauda em contacto com a pista, explorar a sua utilização na condução da máquina e bem assim o leme de profundidade com o pouco fluxo de ar, motor já ao ralenti, sempre acautelava a possibilidade, embora  remota, de capotar. 
Porque a atenção se concentrava no evoluir do trabalhar do motor, foi primeiro pensamento que a perturbação era resultado de alguma deficiência mecânica e nunca o pneu rebentado, ainda que os sintomas, sem experiência, pudessem apontar nesse sentido. 
Tudo aconteceu em pouco tempo. Quando já na pista, retrocedi e me aproximei cautelosamente, dei conta do gyro a rodar. Na expectativa do pior, com a pressa, o disjuntor da bateria tinha ficado "on". (pormenores!!)
O socorro foi assegurado de pronto pelo, ao tempo, Cap. Baptista que trouxe do Luso "calçado" novo, macacos hidráulicos e manómetros. Máquina e tripulação regressaram ao trabalho depois da substituição da roda e vencida a deficiência dos manómetros, deficiência esta que a subsistir, não inviabilizaria a necessidade da sua correcção. Ficaria isso sim, o material  com a   garantia operacional mínima para uma operação urgente ou recurso.
   Parece que foi ontem.
   Bem hajam 



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A TEMPESTADE

Destacamento de Silva Porto - Março de 1973, Voo de evacuação Silva Porto - Mutumbu no DO 27 335
Pelos meus apontamentos o voo foi feito no DO 27 número 3358 dia 10 de Março de 1973 (sexta-feira) á tarde. Quando chegámos ao aeroporto de Silva Porto para dar início à missão de evacuação, já se notava a vinda de mau tempo. Durante o voo a turbulência já era grande, os voos em média para o Mutumbu demoravam cerca de 35 minutos e o nosso foi de 55 minutos.
Fomos fazer uma evacuação de um cabo negro do exército. Descolámos do Mutumbu e o tempo cada vez estava pior, com grande turbulência, chuva e vento muito fortes, grandes trovoadas, pareciam agulhas a cair de todos os lados à nossa volta, enquanto continuávamos a subir. Os contactos rádio civis e militares que foram feitos, nunca tiveram retorno, o único sinal que captámos foi um avião da FAP em emergência no Norte de Angola.
A tempestade ficava entre nós e a terra, o que tornava impossível ver Silva Porto ou qualquer outra localidade com pista. 
O fim do dia aproximava-se com quase uma hora de voo, lá vislumbrámos uma abertura na tempestade e nela uma estrada. Patrício deu-me a indicação que íamos aterrar, e eu de imediato, avisei o militar para se segurar na estrutura das nossas cadeiras, o que fez de imediato com tal força que as suas veias pareciam querer arrebentar.
Os ventos e a chuva continuavam violentos, foi uma grande aterragem rodeado de árvores de ambos os lados e grandes valas que eram as bermas da estrada em que o DO 27 cabia lá dentro. Já na rolagem da estrada detectei um grande camião atrás de nós. Esta estrada era a que ligava Serpa Pinto ao cruzamento da estrada Nova Lisboa - Silva Porto. Parámos no cruzamento e passados uns minutos, parou um carro que era conduzido por uma médica do hospital de Silva Porto que de imediato levou o doente. Mais tarde veio um pelotão do exército guardar a aeronave.


Jorge Patrício e Fermelindo Rosado, dia 11 (sábado) descolámos da estrada de Silva Porto, este demorou 15 minutos.
Quando chegámos junto ao avião, havia uma multidão de pessoas perto do mesmo, os quais assistiram à descolagem de regresso a Silva Porto. Foi-me dito pelos habitantes de Silva Porto que tinha sido uma das maiores tempestades dos últimos 20 anos.
Tempo de voo: Silva Porto - Mutumbu: 55 min, Mutumbu - Cruzamento de Silva Porto: 60 min (é claro que na caderneta de voo o mesmo tem como destino Silva Porto) Cruzamento - Aeroporto de Silva Porto: 15 min.
Patrício, penso que são os dados correctos, embora tenhamos feito outro voo dia 24 do mesmo mês, em que devido ao mau tempo demorámos de Silva Porto a Mutumbu uma hora e cinquenta e cinco e trinta e cinco minutos de Mutumbu a Silva Porto.




"O menino do avião"

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

NOMES QUE FIZERAM A HISTÓRIA DA AERONÁUTICA PORTUGUESA

3

Óscar Monteiro Torres

Óscar Monteiro Torres nasceu em Luanda, a 26 de Março de 1889. Frequentou o Colégio Militar com o nº 228 e frequentou o curso de Cavalaria na Escola do Exército. Em 1916, com apenas 26 anos, já capitão, foi para Inglaterra tirar o brevet, revelando grande talento e recebendo vários louvores. A partir daqui começam as dúvidas sobre o seu percurso. Enviado para França, fazendo parte do CEP (Corpo Expedicionário Português), começou por ser integrado na esquadrilha inglesa de observação nº 10. Depois, aparentemente devido a laços de amizade com o aviador Guynemer, conseguiu uma colocação na Esquadrilha de Caça Spad nº 55, a célebre Esquadrilha das Cegonhas. Apresentando-se na nova base no dia 16 de Novembro de 1917, fez, três dias depois o seu primeiro voo operacional, na companhia do piloto francês de nome Lamy (embora haja fontes que também refiram a presença de mais dois aparelhos franceses nesta patrulha).Sobre a frente de combate a três mil metros de altitude sobre território francês, entre Chemain dês Dames e Laon, os Aliados depararam-se com dois aviões de observação alemães, que estavam a fazer a orientação de tiro de artilharia. Na ânsia de atacar, não repararam numa escolta de caças Fokker( dois, segundo uma fonte, três garante outra, e mesmo cinco diz uma terceira), que se lançaram em defesa dos seus compatriotas. Lamy retirou, mas o português não conseguiu e foi atacado por esta força das escoltas. O Spad XIII (provavelmente, embora também não haja certezas quanto ao tipo de aparelho que pilotava) incendiou-se e o motor parou, não sem que antes, Monteiro Torres abatesse dois inimigos, diz uma fonte romanceada, (não há registos oficiais destas vitorias do piloto português). A aterragem forçada foi violenta. Monteiro Torres não sobreviveu aos ferimentos, morrendo no dia seguinte. Para a História fica o facto de ter sido o primeiro piloto português a combater e a ser morto nas suas funções. No entanto muitos outros portugueses voaram nas forças aliadas, como acontaceu com Lelo Portella,  Pereira Gomes e Ulisses Alves.


Crédito: Euro Impala/Força Aérea Portuguesa

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

CONVERSAS NA CIDADE Nº.4


Nota Introdutória
Situamos os “especiais” a caminharem pela Avenida Central, (Soares Carneiro), aquela que deixava para trás os Correios. Subia, subia e dirigia-se para os lados da Grande Rotunda e do Depósito Branco da Água. Observem as fotos e localizem-nos.
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Marrador – Na cidade havia uma Cerâmica de tijolo que foi edificada com o principal propósito de servir à construção da Base. Isto, já desde os primórdios de 1964. Depois, outros interesses lhe foram atribuídos… Nela, e por conveniência própria, trabalhava um militar da nossa PA, pertencente ao A.B.4. Este nosso companheiro tinha sido destacado para a cidade para fiscalizar o Depósito de Água que se situava junto à Grande Rotunda que dava acesso à Base. Passava todo o tempo na urbe e tinha como residência fixa – uma cubata nos arredores. Era o nosso JULI. 
Escutem a conversa do VITO e do JOCA…
VITO – Ohhh…Joca.
JOCA – Anh!
VITO – Antes de irmos matar a sede ao Bar dos Passarinhos…vamos visitar o Juli à Cerâmica.
JOCA – Aquele teu conterrâneo? O alcunhado de Soba?
VITO - Soba, “sanzaleiro”, “muatan”, “xacala”, “muata”. Eu sei lá!...
JOCA – Pareces que és formado em zoologia! Tantos nomes animalescos? Porquê a visita?
VITO – Tem sempre histórias para contar. E, depois, talvez nos apresente algum pitéu fora do vulgar. Conhece os “musseques” todos…
JOCA – Não foi o Juli que conseguiu viagem para o “puto” gratuitamente?
VITO – Estás a dar em “tahí”. Adivinhas tudo. Foi!…Falou com o Capelão…disse-lhe que gostava de estar presente para o batismo da filha…e lá conseguiu a cunha.
JOCA – Mas ele até não é muito religioso?!...
VITO – Mas é esperto que nem um “nganga”. Olha a tropa dele!... Nem conhece a Base. Os serviços de prevenção, paga-os aos colegas para o fazerem. Assim, não sai dos “quimbos” e junta-se às “tusulas”. À linda Rosa que vive perto do Rádio Farol. Conheces?
JOCA – Conheço, conheço. Linda menina!... E já tem um “cabutinho” mestiçado…
VITO – Chiuuu… Vem aí o nosso “muquixe”.
JULI – “Moyo”
VITO / JOCA – “Moyo Weno”. “Gungungo”?
JULI – “Kanawa”. Perderam-se por estas bandas?
VITO – Quisemos fazer-te uma visita. Ausentaste-te da Base e não dás confiança aos conterrâneos!...
JULI – Vou fazendo a vida por aqui até ao final da comissão. Estou habituado a esta gente. Faço uns trabalhos na Cerâmica e os serviços da FAP…na vigília do Tanque da Água. Consegui uma “cubata” nos arredores…e estou com a minha “pwo”…pretinha!...
Vamos ao petisco? Tenho ali umas coisas guardadas para os amigos…
VITO / JOCA – “IACAMOKA”!...Já não era sem tempo!
Marrador – Muita conversa se soltou. Abancados na tabanca, conversavam, conversavam. O “muatchianvua”…era o bravo Juli, com as suas histórias de negros!...

JULI – Oiçam mais esta!...Há dias, combinei com alguns companheiros de armas, em fazermos um pitéu à maneira. Precisávamos de roubar um cabrito na sanzala vizinha porém, este tipo de “sacar” é muito perigoso perante as leis dos Sobas.
     Já noitinha, pela cacimbada, soltámos um cabrito e trouxemo-lo através do matagal. Perdidos, caminhámos entre arbustos e não avistávamos qualquer saída. O bichinho, balia, balia com frequência…e nós começámos por sentir um aperto no coração…e um formigueiro nos pés!
Nisto, ouvimos vozes irritadas a proclamarem…ladrões, ladrões…Enfim, uma multidão empunhando os seus “jimbos” percorria a savana à procura do cabrito e dos “cabrões”!... O que fizemos? Procurámos uma toca, escondemo-nos muito agachados uns aos outros, e segurámos no cabrito – desejosos que ele não balisse… Mas ele balia, balia, comprometendo a nossa vida. Um de nós, pegou-lhe no focinho e manteve-lhe a “fussa “ fechada…até que as vozes deixaram de se ouvirem. Resultado, cabrito morto por asfixia…livrámo-nos dumas catanadas, mas não dum “cagaço” terrível!  
Marrador – Muitas histórias se seguiram contadas sob um timbre especial. O Vito e o Joca pareciam adolescentes a escutarem coisas de África. Mas tudo tinha um fim… e assim, se despediram do Juli para caminharem até ao “Bar Quiouco”. Outra das grandes etapas da cidade gigante. Gigante…como a “formiga cadáver”!...
VITO – Este Juli parece um papagaio a palrar. Será tudo verdade?!... Uma coisa é certa, partiu de férias, foi ao batizado da filha, e quando voltou do “puto”…voltou arreliado!
JOCA – Estragou-se lá? Como, se foi para se divertir?
VITO – A mulher viu uma fotografia dele junto a uma mulata com um bebé mestiço.
JOCA – Desconfiou da “marosca”? Seria dele?
VITO – Mistérios de África!…
JOCA – Vamos até ao Quiouco pois, está lá o Pinheiro, o Torres, e outros tantos…
VITO – OK, meu!... Ainda estou a pensar em quantas “falangas” deu o Juli ao Soba para poder estar na cubata a viver com a…
JOCA – Esquece. Águas passadas não moem farinha!...
VITO – Tens razão. Olha, estás a ver aquele edifício todo decorado, tipo Discoteca?
JOCA – Sim, quase colado ao Hospital. Porquê?
VITO – O Borges, meteorologista, aquele que estudou Belas Artes, foi convidado pelo dono para decorar o interior e exterior com o propósito de criar um local recreativo à imitação da Metrópole.
JOCA – O Borges…da cabrita? Aquele que namorisca o docinho lindo e gostoso como o milho?
VITO – Esse, e essa mesma. Os olhos dela, verdes de matar, assemelham-se à bela decoração da Discoteca. Colocou nas paredes umas peças feitas de sarapilheira, douradas, folheadas. Nas paredes, pinturas surrealistas. Balcão moderníssimo e mobília feita com arte indígena. Tudo…a matar!
JOCA – O rapaz também fez algumas coisas no nosso bar dos Especialistas!...
VITO – A FAP tem artistas que ainda virão a ser revelados. Este, será um deles. Tem gosto para a beleza.
JOCA – Não fosse ele…de Belas Artes, e belas moças!...Mulatinhas, cabritinhas, matumbinhas…nhas…nhas…!...
Marrador - Chegados ao Bar Quiouco, depararam-se com o Pinheiro e o Torres- em conversa animada. O Torres tinha acabado de chegar do “puto”. Iniciava a sua comissão.

PINHEIRO – O que é que estas duas P…andam a fazer por aqui?
VITO – “Nos passear”, meu!...
 JOCA – “As ver minina”,” y usted”?
PINHEIRO – A mamar uns acepipes. O Torres, maçarico nestas paragens…está nos ajustes.
VITO – Uihhh…a praxe dos graduados é mais requintada!
JOCA – Pudera, ganham mais!...
PINHEIRO – Eu só mandei vir um passarinho, mas o Torres diz que um só…não lhe chega para a cova dum dente.
TORRES – No “puto” comia uma dúzia de passarinhos…e ficava com fome!...
PINHEIRO – Deixa vir só um. Depois, mandas vir os que quiseres.
TORRES – Ehhh…pá!... O passarinho é grande?!...
PINHEIRO – Pois, estamos na savana africana. Aqui não há pardais…ou, melhor, há…mas são mais gordos.
TORRES – Isto é um frango inteiro?!...
PINHEIRO – É o passarinho da casa. Comias uma dúzia? O passarinho do Quiouco Bar…é assim! Tens muito que aprender em Terras Africanas. Paga, paga e não bufes…
VITO – A praxe do “especial” é diferente!... Tomem nota do que aconteceu há tempos atrás. O Rui Neves contou-me que quando chegou a H.C. foi recebido por um grupo de especialistas. O mais destacado do grupo estava fardado com a “turbe” amarela. Velhinho, maduro, sabichão, com as lides dos trópicos…Seu nome? Agante.
Guloso, pensava que o seu “acabadinho” de chegar, seria o substituto. Enganou-se pois, era o substituto, não dele, mas do Rego. …,… Tudo gente fina!...
JOCA – Tudo isso deu aso a quê?
VITO – Ameaças, ameaças. Num tom ríspido, severo como as cobras, ripostou: “Eh pá!... se cá estivesse o meu amigo Rego, esfolava-te vivo”. “Está a lerpar há quatro meses e anda cacimbado de todo”. “Enfim, eu vou representá-lo nas praxes devidas!...”.
JOCA – Continua com a narração. Sempre quero comparar com a praxe dos Sargentos.
VITO – Olha, o Agante deu-lhe um “pequenino livro” que pesava cerca de dois quilos. Chamavam-lhe o “RAMFA” e tratava-se dum Manual de Instrução de Abastecimentos. Só lhe disse: “Levas o livro para estudares e não podes larga-lo durante o dia inteiro”. E perentório, ainda afirmou:  “E a tua mala fica comigo”.
PINHEIRO – Só isso? Praxe feita?
VITO – Espera. Depois do RN ter ido à camarata colocar as coisitas saudosas do “puto”, dirigiu-se para a Messe na intenção de almoçar. Ao entrar no Clube, o Agante, já avisado da sua chegada, pediu total silêncio à multidão ali prostrada. O Rui Neves foi apresentado como sendo um intruso, invasor, causador das tonturas do Rego…que andava passado dos “carretos”. O Juiz suplente…tinha que o julgar. E, as vozes dos carrascos fizeram-se ouvir… Castigo, castigo atroz!...
JOCA – A mesma praxe que me calhou?
VITO – Pior. Ou, talvez igual…eu, é que estou a “jingundar” a história!...Mas, as vozes aclamaram…”Um das Caldas cheio” ou, “Um banho turco na piscina dos alfaiates”…
JOCA – O que é que o Rui Neves escolheu?
VITO – A “litraça” da Nocal, bebida pelo “pipinho” vermelho…e ao som do “TERI-TERI”. Tudo num só gole. Ffff…
JOCA – Fala em Quiouco e não digas obscenidades!...
VITO – Mas a praxe tinha mais “piri-piri”.
PINHEIRO / TORRES – É melhor ficarmos por aqui. Ainda teremos mortes!...
VITO – Não. Depois, houve a apresentação aos superiores hierárquicos… O RN, agarrado ao seu “RAMFA” foi ao Comando – Esquadra de Abastecimentos – Cap. Maia – Armazém Principal e apresentou-se com todos os “S” e “R” a um suposto Capitão. Sentidoooo, bater palaaaa, pronto…
JOCA – O pessoal caiu por terra a rir?
VITO – Ahhh…também caíste? Pois, o suposto Capitão era simplesmente o Fiel de Armazém, Civil, e amigo o estimado Mário Capitão!...
TORRES – Livrei-me de boa!...
VITO – E a praxe continuou, continuou… Passou-se para a cidade. Cubata Bar, “bjecas”. E a troupe danada composta pelos “magníficos” Ezequiel, Antonino, Agante e tantos mais, prolongaram a noitada!...Fardados a amarelo, tal foi a poeirada que apanharam pelo caminho na Mercedes destapada!...
JOCA – E as coisinhas trazidas do “puto”, comeram-se?
VITO – Acompanhadas com duas grades de cerveja…
PINHEIRO – Com essa praxe…já o Torres diria: “okutué”…
VITO – “Okutué” e “sujanouko”.
JOCA – Posso fazer de tradutor…mas, o Torres terá que pagar-nos uma rodada!...
VITO / PINHEIRO / TORRES – Olha… o “Passarinho”!…
Marrador - De frente para a Avenida secundária que se dirigia para o Hospital, Cubata Bar, Hotel Pereira Rodrigues, estavam os quatro numa conversa sem tempo contado. Falavam das meninas, das sanzalas e “sanzaleiros”. África, cacimbo – savana e leões. Tempo perdido numa infância agitada!... De repente, já bebidos, entranha-se-lhes uma nostalgia medonha, que o VITO arremessa com estes versos…de alguém!...Pronunciava-se o silêncio…para escutarem, a SAUDADE!...












“Em Angola,
As noites são tão quentesComo a febre dos doentes.
São tão quentes as noites!
Tão vermelhas, das queimadas,
Tão negras…tão revoltadas…
Tão sequiosas…tão belas…
Como as mulatas deitadas
Nas Cubatas sem janelas.”

Língua Quioca

Muatan – Senhor
Xacala – Grande chefe
Muata – Patrão
Tahí – Bruxo
Nganga – Feiticeiro
Quimbo – Aldeia
Muquixe – Mascarado
Kanawa – Como convém
Pwo – Mulher
Muatchianvua – Senhor universal
Jimbo – Machado
Falanga – Dinheiro
Okutué / Sujanouko – Obscenidades

Anotações:
Juli – Nome fictício – mas com factos reais
Borges – Facto real
Pinheiro / Torres – Facto real
Rui Neves – Facto real

Fotografias:
Recolha no “nosso” Blogue

Versos:
Filipe Raimundo (alteração na conjugação de um verbo)


Até Breve
O Amigo Vítor Oliveira – OCART