sexta-feira, 26 de maio de 2017

DESTACAMENTO ATRIBULADO

Estávamos em Agosto de 1966.
O MPLA mais bem organizado que a FNLA, começava cada vez mais a dar sinais de crescente actividade e as suas acções já alastravam ao leste, até então sossegado e com uma actividade militar reduzida.
Um aquartelamento perto de Gago Coutinho foi insólitamente atacado. A NT, apanhada de surpresa, não reagiu a tempo de evitar alguns feridos com certa gravidade.
O AB4-Aeródromo Base nº.4, de Henrique de Carvalho, era a unidade que cobria aquela enorme área, com uma dimensão de cerca de 7 e meia de Portugal continental e que apoiava as forças atribuídas á Zona de Intervenção Leste (ZIL). Dispunha de dois Aeródromos de Manobra (AM), um no Camaxilo (AM 42), no nordeste, e outro no saliente do Cazombo (AM 43).
O Luso, com o seu aeroporto, era também um óptimo ponto de apoio, quer pela sua localização, quer por estar instalado naquela cidade o comando da ZIL.
Foi neste contexto, e em consequência do ataque já referido, que foi decidido enviar dois AL III da Esquadra 94 da BA9 (lema: do Miconge á Luiana) para o Leste de Angola, mais exactamente para o Luvuei, na zona de Gago Coutinho, a fim de apoiar, em vários tipos de acções, o Batalhão ali aquartelado, entretanto reforçado com uma companhia de Comandos.
Foram para esta missão escolhidos e nomeados os pilotos, Tenente Vilalobos e o Sargento Pinho, que durante cerca de dois meses desenvolveram de forma brilhante, intensa actividade operacional, intervindo directamente nas operações então realizadas, quer através de acções de transporte de manobra e assalto, quer apoiando logisticamente a tropa no terreno, ou procedendo à evacuação de feridos. Foi ainda integrado no Destacamento um DO 27 do AB4, pilotado pelo sargento Pinto de Sousa.
Entre os vários momentos de grande tensão porque passaram estes pilotos, durante a sua permanência por aquelas paragens, um episódio de certa forma insólito, ocorreu na sequência de uma acção de investigar um ajuntamento de pessoal deveras suspeito, referenciado junto de um quimbo, e que, segundo os especialistas em informações, estaria presumidamente a receber propaganda e instruções do MPLA.
A pressa com que foi decidida esta missão, não deu sequer tempo para nela poder participar o tenente Vilalobos, entretanto voando no DO 27. Assim, foi o sargento Pinho que tentando aproveitar o factor surpresa, preparou a missão com cuidado especial, de maneira a não serem dados indícios do movimento aéreo a eventuais informadores do MPLA. Logo que o seu héli ficou pronto, mandou embarcar para-quedistas e descolou o mais rápido possível em direcção ao objectivo, mantendo um voo rasante durante toda a rota. Já com o quimbo identificado, manteve-se na aproximação final encoberto pelas copas das árvores até aparecer repentinamente, no meio de grande alvoroço daquelas gentes e de uma enorme de poeira, já imobilizado em voo estacionário, a dois metros de altura, mesmo no centro do tal ajuntamento.
Num instante os "paras" saltaram do AL III, apontando as armas aquele pessoal completamente surpreso e amedrontado, enquanto o héli descolava para se manter a circular sobre a zona, vigiando o desenrolar dos acontecimentos.
Entretanto, cá em baixo os "páras" averiguavam a razão daquele ajuntamento, enquanto o sargento Pinho aguardava ansiosamente o resultado da acção e as instruções para a segunda fase. Não foi preciso esperar muito, rapidamente os "páras" informaram que a razão daquela "reunião": era simplesmente um casamento !!
Claro que posta de lado uma infiltração do MPLA, o sargento Pinho aterrou calmamente para recolher o pessoal.
Porém não foi fácil o reembarque, pois os chefes indígenas (não sei se os pais da noiva ou do noivo) à viva força queriam que o nosso pessoal participasse na boda .
Nem todas as participações dos nossos aviadores foram tão felizes como esta. A guerrilha ia melhorando a sua técnica, o IN obtinha resultados significativos devido a uma perfeita aplicação do factor surpresa, a um forte armamento e a uma inteligente utilização dos caminhos de fuga durante a noite.
O apoio aéreo tornava-se cada vez mais indispensável, quer através de meios de ataque, reconhecimento e perseguição, quer para evacuação de feridos, transporte de pessoal ou mantimentos.
Assim, considerando-se a necessidade de manter meios aéreos naquela região, foi decidido manter um destacamento aéreo permanente no AM 43, situado na vila do Cazombo.
E para dar inicio a essa missão, fui eu próprio nomeado juntamente com o nosso saudoso Jofre que nessa altura, embora ainda sargento e muito jovem, era já evidente a sua coragem e espírito de missão, para além das suas extraordinárias qualidades humanas e proficiência técnica como piloto.

O Cazombo era uma povoação de dimensão já significativa naquele extremo de Angola. Teria aproximadamente dois milhares de habitantes, dos quais três ou quatro dezenas de brancos, quase todos comerciantes ou funcionários administrativos, que davam um certo movimento àquela terra, onde recentes construções em ruas geometricamente desenhadas lhe conferiam um ar moderno.
Tínhamos descolado de Luanda há já umas horas, e percorrida uma rota bem referenciada até Silva Porto (actual Kuito), prosseguindo depois ao longo do Caminho de Ferro de Benguela (CFB). Para trás tinha ficado o Luso onde nos encontrámos  com o tenente Vilalobos e o sargento Pinho, que estavam de regresso a Luanda, depois de cumprirem a missão anteriormente referida.
Voando em parelha numa formação alargada, prosseguimos, directos ao Cazombo. A visibilidade era excelente e as referências no terreno, facilmente identificáveis, proporcionavam uma navegação fácil, o que era bastante apreciado na época, pois os únicos instrumentos de navegação que o Alouette III possuía eram uma bússola magnética e um "gyro", e quanto a cartas de navegação, para além das cartas aeronáuticas com escala de 1/1.000.000, havia alguns desenhos feitos não se sabe à quanto tempo, mas provavelmente já usados pelo almirante Gago Coutinho quando andou por aquelas paragens.
A paisagem era completamente diferente da que estávamos habituados a ver no norte. As grandes e cerradas matas, cobrindo terreno acidentado e por vezes montanhoso, em que rios caudalosos corriam rápido emaranhados na densa vegetação, davam lugar, aqui no leste, a uma paisagem dominada pela savana, a que os habitantes designavam por "chana", enorme planície coberta de vegetação herbácea onde os rios largos e não muito profundos, de margens pouco definidas, contorcendo-se em meandros, corriam lentamente para o mar a milhares de quilómetros de distância.
No horizonte já se desenhava o recorte insólito naquele plano, de duas elevações arredondadas cuja silhueta fazia lembrar os seios bonitos de uma mulher. O aeródromo tornava-se cada vez mais visível. E após uma aproximação circular que deu para observar toda a povoação, aterramos finalmente. Aquela iria ser a nossa base nos próximos tempos.
A unidade do Exército ali aquartelado era um Batalhão de Cavalaria com o qual manteríamos uma estreita ligação, dando-lhe apoio operacional e logístico.
Poucos dias tinham passado após a nossa chegada quando somos alertados para um pedido de uma evacuação sanitária de um Grupo de Combate que fazia que fazia um patrulhamento perto da fronteira. Evacuámos quatro feridos e um morto, provocados pelo rebentamento de várias granadas de mão lançadas por um guerrilheiro, que em passo de corrida atravessou de surpresa o local onde a tropa se preparava para pernoitar, sem dar tempo a qualquer reacção.
Embora a vida quotidiana nos quimbos existentes naquela região decorresse normalmente, dentro de um bom convívio com os brancos, cada vez eram mais evidentes os sinais da presença de grupos armados nas vizinhanças e o aspecto comprometido das populações, davam-nos a certeza dos contactos e apoios que estas lhes prestavam.
Com grande frequência eram assinalados, nos voos de reconhecimento, trilhos recentes e abundantes que indicavam deslocações de grandes grupos, a coberto das matas, fora dos caminhos traçados e normalmente utilizados.
Entretanto o nosso trabalho decorria normalmente, sem acontecimentos dignos de realce lá iam correndo os dias, praticamente dedicados a uma actividade aérea de apoio ao Exército e ao Destacamento de Fuzileiros, aquartelado em Lumbala, situada a uns 40 a 50 quilómetros a sul do Cazombo, na margem esquerda do rio Zambeze.
Um dia pela manhã, finalmente, pensámos nós, chega um PV2. A chegada deste avião, era um acontecimento sempre desejado, o aeródromo conhecia uma certa vivacidade, certamente vinha correio, novidades e neste caso, provavelmente, os nossos substitutos. Mas não foi a tão esperada rendição que ocorreu! Além de alguma carga de frescos e uns tantos elementos da Polícia Aérea - para reforçar a segurança do aeródromo e diga-se de passagem que, dado virem desarmados, pensámos na altura que provavelmente viriam preparados só para a "luta corpo a corpo"...- o comandante de bordo entregou-me uma enorme caixa proveniente da Região Aérea que me era dirigida pessoalmente.
Era certamente algo importante! Cheio de curiosidade rapidamente comecei a desembrulhar tão volumosa e pesada encomenda. Mas, já com a surpresa inicialmente mal contida, a esbater-se no meu rosto, constatei um pouco incrédulo que mesmo quando afastados naquele longínquo lugar, a Força Aérea mantinha, mesmo assim, uma permanente preocupação pela formação dos seus oficiais..., pois estava-me enviando toda a literatura do curso de capitão, com a recomendação, de eu bem aproveitar o tempo para estudar, pois quando chegasse a Luanda logo teria um exame à minha espera.
Contudo, não foi muito alargada a oportunidade de me instruir com tão erudita matéria, pois poucos dias depois deu-se início a uma operação de grande envergadura, da responsabilidade do comando da ZIL, designada "Luena Grande".
O Agrupamento Aéreo então formado e do qual me foi atribuído o respectivo comando, seria reforçado com meios aéreos do AB4, tomando a seguinte constituição: os nossos dois AL III, uma parelha de T6 armados com foguetes de 37mm, um DO 27 preparado para transporte geral e evacuações, e ainda um PV2 que ficava baseado no AB4 ou no Cazombo, para ser utilizado em reforço se necessário.
Nós com os AL III e o DO 27 transferimo-nos para a Lumbala para junto do comando das operações, os dois T6 ficaram no Cazombo em alerta.
Na Lumbala estava aquartelada além do Destacamento de Fuzileiros já referido, uma Companhia de Cavalaria do Batalhão do Cazombo. O seu comandante disponibilizou instalações para a sala de operações e alojamentos do pessoal e ainda um espaço no interior do aquartelamento para estcionar os helis durante a noite (o DO 27 iria pernoitar ao Cazombo).
Eu e outros oficiais do Estado-Maior da ZIL, tínhamos para dormir um bom bocado do chão cimentado da sala de operações. Prestimosamente o então capitão para-quedista Mansilha emprestou-me um bonito colchão insuflável, que por ter a particularidade de ir deixando escapar o ar, por algum misterioso orifício, oferecia-me a oportunidade de durante a noite fazer alguma ginástica respiratória a assoprar no pipo do colchão.
A zona onde a operação deveria desenrolar-se era uma enorme região caracterizada por matas pouco densas, de árvores baixas, na continuação de uma imensa "chana" na margem direita do rio Zambeze, onde foram colocados por meios auto os Grupos de Combate intervenientes.
A táctica utilizada consistia em tentar, através de uma manobra envolvente, empurrar os grupos da guerrilha para o Zambeze, de forma a ficarem com a retirada cortada por este obstáculo e podendo assim conseguir-se a sua captura.
Claro que os resultados foram muito diferentes do esperado e para além de vários incidentes, alguns um tanto bizarros, esta primeira grande operação no Leste de Angola, que decorreu no meio de um cenário de dimensões desproporcionadas em relação ás Forças empenhadas, fracos resultados alcançou, a não ser a experiência conseguida para para a luta que naquele teatro se viria a travar durante vários anos.
Tinha a operação começado há um ou dois dias quando um tremendo temporal caiu em cima do quartel de Lumbala onde estava instalada a nossa Base Táctica (BT).
A Sala de operações, que tinha sido muito bem organizada pelo capitão Mansilha, foi sacudida por fortíssimas rajadas de vento e num ápice ficou sem cobertura... E claro os papéis da guerra voaram no meio do vendaval. Recordo o comandante da ZIL e da Operação nessa altura, dentro da sala, a agarrar-se a um armário de ferro, talvez com receio de também ser levado pela ventania. Uma dessa coberturas de zinco, rodopiando no meio da ventania, passou a rasar as pás de um héli estacionado no interior do quartel, não lhe tocando por uma "unha negra".
A operação não estava a começar nada bem. Mas, ainda assim, todas as unidades envolvidas estavam bem posicionadas e a evoluir correctamente conforme era estabelecido na Ordem de Operações.
Contudo, dois dias já tinham decorrido e nenhuma das unidades tinha sequer tido qualquer contacto com o IN.
Pensávamos que as nossas perdas tinham apenas sido devido ao temporal, quando ao fim da tarde do terceiro dia recebemos o pedido de apoio de uma coluna logística vinda de Caripande - que ficava na margem esquerda do Zambeze junto à fronteira com a Zâmbia, e fora da zona da operação - pois tinha caído numa emboscada e estava a ser fortemente atacada por um grupo com aramas automáticas e RPG (lançador de granadas foguete), e que nessa altura era ainda praticamente novidade, a utilização desse tipo de armamento.
Embora os dois T6 do Cazombo, tivessem descolada imediatamente, logo que receberam a ordem de descolagem, a noite, que entretanto caíra rapidamente impossibilitou qualquer apoio de fogo. E após algum tempo de espera inquieta, finalmente a coluna lá chegou com alguns feridos e algumas viaturas completamente inutilizadas. Afinal, o IN estava aparecendo, mas fora do sítio "combinado". Estava obviamente a não querer colaborar...
O dia seguinte amanheceu com mais nuvens negras a ameaçar grande "trapezana". E o DO 27 tinha uma evacuação de um ferido mais grave, da emboscada da véspera, a fazer para o Luso.
O piloto era o sargento Alvim cujas qualidades muito apreciadas, já eu bem conhecia desde os seus tempos de aluno na Base de Sintra.
Instruído sobre a meteorologia, lá descolou rumo ao Luso.
O estado do tempo deixou-me um tanto preocupado, e atento ao ETA, fiquei a aguardar o seu reporte antes da aterragem. Mas, a hora prevista para a chegada ao destino foi ultrapassada e o rádio em escuta na frequência estabelecida mantinha-se silencioso. Nada mais se recebia que os ruídos de uma forte estática, indicadora de forte turbulência atmosférica.
A minha preocupação aumentou quando soube que o Luso estava fechado devido a forte temporal e que em nenhuma outra pista havia aterrado ou sido recebido qualquer contacto do DO 27...Seria que tinha aterrado na "chana" ?...Porque não teria enviado qualquer mensagem ?...Eram perguntas que nos faziam considerar vários tipos de hipóteses e todas inquietantes.
Com o AB4 informado, e as buscas quase a começarem, ouve-se finalmente o Alvim com uma voz calma e firme a chamar o nosso controlo, pedindo instruções para fazer a sua aproximação à pista. E foi, de facto, um grande alívio quando alguns minutos depois o vimos fazer uma aterragem impecável, com o avião aparentemente em estado normal.
A razão daquele atraso e seu desaparecimento momentâneo foi-nos explicado por ele próprio. Assim, contou-nos que depois de descolar da Lumbala ao aproximar-se do Luso verificou que era impossível ali aterrar devido a uma grande trovoada. Decidiu voar para Henrique de Carvalho, sobrevoando a estrada asfaltada que seguia naquela direcção. Mas o tempo continuava a piorar rapidamente na sua frente o que também tornava problemática a aproximação àquele aeródromo, e embora tentasse várias vezes reportar a
sua posição, não conseguia contacto rádio com qualquer estação. Entretanto, o ferido dava sinais de grande agitação e dava para perceber que carecia de chegar urgentemente ao hospital. Foi então que viu na estrada uma camioneta, dirigindo-se para Sul. Era aquela a solução, o vento estava alinhado com a estrada e esta seguia com uma enorme recta num vasto terreno plano. Sem hesitar volta 180º para Sul, reduz o motor, flaps em baixo e estabelece uma final bem alinhado com a estrada, no momento seguinte aterrava suavemente. Com o avião imobilizado e "estacionado" o mais na berma possível, saiu cá para fora, esperando pela camioneta que se ia aproximando e cujo condutor estaria provavelmente muito admirado com o aparecimento à sua frente daquele "veículo" vindo do céu.
O sargento Alvim, fácilmente convenceu a anuência do condutor em transportar o ferido para o Luso e feita a sua transferência do avião para o meio auto, logo que ficou de novo com a "pista" livre, meteu motor, descolou e regressou à Lumbala com a missão cumprida.
Fácil...
Mas voltando à nossa operação, esta lá ia prosseguindo sem até então ter sido obtido qualquer contacto com o IN. A actividade aérea limitava-se a missões de Comando Aéreo com o DO 27 e transportes gerais com os AL III. Porém, um problema logístico estava entretanto a ter fortes para a operação dos helis. O combustível, JP4 estava práticamente no fim, e embora tivesse sido pedido insistentemente o seu reabastecimento, o que era certo é que até à data não tinha chegado. Apenas havia o que os helis tinham nos depósitos.
Surgiu então uma necessidade urgente de levar um rádio AN GRC9 a um dos agrupamentos que estava no terreno. Embora importante, este transporte feito em heli, poderia comprometer a necessidade de se executar uma eventual evacuação, caso o combustível continuasse a não chegar.
Como solução para este problema, o capitão Mansilha propôs lançar do DO 27 em pára-quedas o dito rádio. Para tal o carpinteiro fez uma resistente caixa em madeira onde o rádio foi encaixado, o capitão Mansilha prendeu-lhe um pára-quedas de carga, embarcou no DO 27 e lá foi na direcção do tal agrupamento.
Ao chegarem á vertical da tropa já tinham atingido a altitude de lançamento. Depois de calcular o vento e introduzir as necessárias correcções, o capitão Mansilha lançou o equipamento sobre o ponto exacto. Com a cabeça ligeiramente fora da janela do avião, foi seguindo visualmente a trajectória do equipamento. O pára-quedas estava há muito completamente distendido, mas teimava em não abrir, e com o rádio a cair em plena queda livre, já com o solo muito perto, apenas um único pensamento saltava como um "flash" à cabeça do capitão Mansilha: Onde vou buscar dinheiro para pagar o rádio ? Mas, como num bom filme de "suspense", eis que no último instante, finalmente, o pára-quedas se abriu e o rádio chegou inteirinho ao chão. Um pequeno erro de cálculo na altitude que rondaria os 2.000 metros obrigava a fazer-se o lançamento um pouco mais alto.
Este acontecimento levou a alguns agrupamentos, com posições mais estáticas, a preparem pistas, aproveitando a planura natural da "chana" e os pontos com terreno mais consistente, o que veio poupar algumas horas de voo aos hélis, visto assim poder-se utilizar mais frequentemente o avião.
Todavia, era sobre a Este do Zambeze que se continuava a sentir grande actividade do IN, com ataques ou flagelações a colunas e até mesmo ao aquartelamento de Caripande, onde a Companhia lá instalada foi reforçada com alguns obuses de 8.8 de uma bateria de Artilharia. Havia informações seguras que estaria eminente um grande ataque a Caripande.
Naturalmente que era mais uma preocupação para o comandante da Operação, a braços já com exigências de carácter logístico provenientes da dimensão da zona atribuída à Operação, ao número dos efectivos envolvidos e à insuficiência dos meios para reabastecimento dos agrupamentos.
Todavia, a situação em víveres em Caripande poderia ser melhorada se para lá fosse encaminhado algum gado encontrado por um dos agrupamentos, aparentemente abandonado, pachorrentamente a pastar na "chana" junto à fronteira.
Não  estando já muito longe, foi então que o pessoal desse agrupamento, embora apeado e sem os os cavalos utilizados pelos "cowboys" naquele tipo de trabalho, lá foi encaminhando o gado em direcção a Caripande, até terem de parar junto a um obstáculo de difícil transposição - o Zambeze - sem a ajuda da tropa do aquartelamento.
Era pois preciso avisar Caripande que ali estavam à sua beira uns belos bifes que não convinha desperdiçar. Para essa comunicação tentaram primeiro usar a electrónica, mas nem os assopros ou assobios, ou as contagens para sintonia, conseguiram que os rádios funcionassem. Depois, experimentaram o grito tipo Tarzan, mas se alguém ouviu, foi provavelmente a "cheeta" e como não estava muito interessada não transmitiu o recado.
Então, houve alguém que teve uma ideia luminosa. Porque não uns tiros de aviso com a G3 ?! Certamente que se ainda houvesse alguém do outro lado, iriam ouvir os tiros, e talvez admirados com tal, procurariam saber quem estaria a dar tiros naquela zona. Algum safari provavelmente...
Pois é, ainda hoje muita gente considera que aquela tropa do Caripande, sem qualquer razão, logo foi pensar no pior...Que era o IN que os estava a flagelar. E então despropositadamente, continuam a pensar alguns, - não é que sem consideração por quem lhes estava oferecendo tão apetitoso manjar - respondem sem qualquer cerimónia com várias salvas de artilharia...
Calculam com certeza o pandemónio que se gerou. O gado todo tresmalhado, o pessoal correndo cada um para seu lado no meio da "chana", sempre à espera que o próximo lhe caísse em cima da cabeça e sem que ninguém de Caripande viesse saber para quem estavam a dar tiros.
Felizmente as comunicações do grupo com o gado e o BT, funcionaram, o que tornou possível o conhecimento de tão insólita situação e que rapidamente o oficial de operações desse um "salto" no DO 27 à vertical de Caripande, mandar silenciar a artilharia.
Este episódio foi praticamente o último daquela mega operação, cujos resultados ocuparam certamente poucas linhas de um volumoso relatório caído no esquecimento de algum arquivo poeirento.
Mais um ou dois dias e fomos finalmente rendidos. Regressámos a Luanda cansados e com a sensação de que cada vez mais se iria naquelas paragens, o que eu próprio viria a confirmar quando alguns anos mais tarde lá voltei.

Mas entretanto, encostei-me no assento de lona do Noratlas que nos levou de regresso a Luanda e pus-me a pensar que afinal ia ter de fazer exame e não aberto os livros.

Artigo do Maj.Gen.Pil Ricardo Cubas
Pub. na Mais Alto
  



Sem comentários:

Enviar um comentário